Beast

10 Aquela noite - Eren


Todo o seu corpo tremia fortemente, seus músculos ainda se retraiam devido a dor excruciante de instantes atrás. Não esperava ser bem tratado na Polícia Militar, mas ser dopado, acorrentado em uma maca e ter o abdômen aberto para que verificassem se havia algo de errado em seu interior que o fazia de transformar num monstro havia superado suas expectativas.

Assistia imóvel a coluna de vapor que subia da sua barriga, fechando as várias incisões que haviam ali. Seu corpo estava lívido, sem força alguma, tanto pela medicação cavalar quanto pela dor de arrancar a sanidade que ia embora muito lentamente. Sua pele podia até ter fechado e possuir apenas cicatrizes que logo sumiriam, mas seu interior com certeza ainda estava bagunçado, quase podia sentir os cortes de bisturi se fechando nos seus órgãos internos.

Engoliu em seco, sentindo a saliva queimar seu esôfago enquanto descia. Se perguntava o que fazia naquele lugar, afinal não esperava sair do laboratório direto para os aposentos do Comandante. Seria algum engano?

Suas dúvidas se foram quando Nile Dark, comandante da Polícia Miliar entrou no cômodo, não parecendo estranhar sua presença ali. Na verdade, seu olhar... Parecia apreciar a visão que tinha em cima da sua cama, o que era totalmente estranho e de certa forma assustador para o jovem Jaeger que tentou se levantar, mas a dor insana e a tontura não permitiram.

Tinham lhe dado uma injeção maldita que fazia cada membro do seu corpo pesar toneladas, tornando quase impossível a tarefa de se mexer.

– Boa noite Jaeger. — Nile cumprimentou sério, mas com uma expressão satisfeita que o garoto não compreendeu.

Não respondeu ao cumprimento, ficou apenas encarando o homem que se livrava do casaco da farda e afrouxava os primeiros botões da camisa. Estranhou ainda mais. Por aquele homem parecia tão a vontade na sua presença? Eram inimigos até onde sabia...

Havia passado pouco tempo na Tropa de Exploração, mas foi mais do que suficiente para perceber algumas coisas, como a clara rivalidade entre os comandantes da PM e da Tropa, e a forma como a Polícia parecia fazer de tudo para boicotar cada missão fora da muralhas.

Havia algo para ser descoberto, com certeza. E coisa boa não era.

– O q...Que eu faço... Aqui? — Indagou com certo esforço, não sabia o que tinham lhe dado, mas até mesmo respirar era cansativo.

Nile sorriu de canto.

– Ora... O que mais você faria dopado e amarrado na minha cama? — Ironizou o mais velho, e teve que disfarçar a surpresa ao perceber que o outro não entendeu.

– É exatamente o que eu estou perguntando. — Eren respondeu falando num fôlego só. Sentia que deveria fugir dali, correr o mais rápido que pudesse, mas... Não conseguia. Seu corpo não obedecia suas ordens, e mesmo que obedecesse, ao invés de fugir, daria uma bela surra na cara daquele infeliz que já estava lhe tirando a paciência.

Nile se aproximava lentamente da cama, saboreando as reações do garoto a cada passo, adorando ver aqueles olhos verdes, tão brilhantes, raivosos... Ah, trataria de tirar aquele brilho dali. Queria ver aqueles olhos opacos, humilhados, submissos... Só de mentalizar a cena, sentia-se excitado.

– Ora... Eu vou aproveitar a sua estadia aqui. Ou achou que eu somente lhe colocaria numa cela e pronto? — O Comandante subiu na cama, posicionando-se em cima do garoto que tentou sair dali, mas além de dopado, tinha as mãos presas acima da cabeça, na cabeceira da cama.

– E o que diabos pensa que vai fa... Ei, tira a mão de mim maldito! — Rosnou quando uma das mãos do homem começou a descer pelo seu torso nu, contornando sua musculatura rígida e definida.

" O que diabos esse infeliz tá fazendo?! Enlouqueceu?"

– Urgh, bem que me avisaram que você é barulhento... — Reclamou o maior. — Mas não ligo, gosto bastante do que eu tenho embaixo de mim agora... — Sorriu de canto, um sorriso nojento na visão do garoto. — E seus gritos são bem interessantes, sabia? Fiquei ouvindo do laboratório...

Eren não estava menos que completamente chocado. Não acreditava e nem mesmo entendia o que diabos era aquilo que ouvia.

– Que tipo de doente você é...? — Indagou totalmente enojado, sentindo-se incomodado com as mãos do homem sobre seu corpo.

Nunca havia sido tocado daquela forma, por isso não entendia bem o que aquilo significava, mas fazia seu estômago revirar e sua pele se arrepiar de nojo. Via nos olhos do Comandante cobiça, desejo... Mas pelo quê? Por ele? E o que ele poderia fazer? Não já o tinha preso?

Nile se divertia terrivelmente com a clara confusão do garoto. Não conseguia acreditar que o menor era mesmo tão inocente assim... Mas pelo que tinha ouvido do garoto, de como ele era completamente (e até mesmo doentiamente) dedicado a causa de matar titãs, poderia até ser verdade. E outra... Quem mais iria querer um monstro?

" Um monstro bem tentador por sinal... Ah, talvez tenha algo de errado comigo mesmo, esse moleque tá me deixando maluco. Imagina só ele gemendo..."

O Comandante avançou em direção ao pescoço do garoto, mordendo com força a pele morena, sem se importar em machucá-lo ou não, afinal, ele iria se curar de qualquer jeito, não é? Não tinha motivos pra se preocupar com o monstrinho.

– Seu miserável! Argh, isso é nojento! Sai de cima de mim ou... — Eren tentava se debater, sentindo-se desesperado para sair de perto daquele homem asqueroso.

– Ou o quê? Vai me atacar como a besta que você é? — O mais velho ditou, vendo a expressão determinada do menor. — Oh, vai mesmo? Que gracinha... Uma pena que você não esteja em condições para tal. — Percorria o indicador pelo peito do menor, sentindo sua respiração debilitada.

– Você que pensa. — O menino rosnou com certa dificuldade. Estava blefando.

– Ah, então vou lhe dizer uma coisa caro Jaeger... — Aproximou os lábios dos do garoto que virou o rosto de imediato. — O seu Comandante está preso, e posso te assegurar que se eu mexer alguns pauzinhos com o alto escalão ele vai ser condenado e aquela piada que vocês chamam de Tropa de Exploração definitivamente vai ser extinta. — Chupou o lóbulo da orelha do menino que se remexeu incomodado, aqueles toques estranhos lha davam ânsia de vômito. — E outra mais interessante... Sabe aquele bandido imundo que vocês chamam de o "soldado da humanidade"?

– Olha como fala desgraçado!

– Ah, sem a Tropa, aquele lá finalmente iria pagar pelos crimes que cometeu, e dessa vez, pelos seus também, afinal, você é responsabilidade dele, não é? — Falou adorando ver o olhar chocado do menor. É, ele não tinha pensado nisso...

– M-Mas eu...

– Se ele for inocentado, eu tenho como fazê-lo pagar ainda assim, acredite. — Sussurrou para o garoto que tremia agora. — Então, você vai querer me agradar, não é?

Eren tremia, estava verdadeiramente assustado agora. Não sabia o que aconteceria consigo, só que não teria como se defender, e nem mesmo poderia tentar. Seu corpo estava em um estado deplorável, mal conseguia reagir, e mesmo que conseguisse, só de pensar que a Tropa de Exploração, que tanto admirou esse tempo todo e que só agora entendia o quão complexo e árduo era seu trabalho, poderia ser extinta por sua causa... Parecia a pior dastorturas.

– O q-que você vai fazer? — Indagou odiando como sua voz saia quebrada.

Nile sorriu, se desfazendo da própria camisa e tirando os sapatos.

– Por que diabos você está tirando a roupa? — Indagou ainda mais confuso, e essa confusão o fazia ter ainda mais medo do que aconteceria. Mas agora estava decidido a aguentar o que quer que viesse arduamente, protegeria a Tropa e a seus companheiros custe o que custar.

Nile apenas sorriu voltando a aproximar seus lábios dos do garoto, segurando seu rosto e impedindo-o de escapar dessa vez.

– Vou te marcar como meu. — Murmurou tomando os lábios do menor, forçando-o com a mão a abrir a mandíbula e continuar permitindo o ato indesejado.

Eren mal podia acreditar que seu primeiro beijo havia sido dessa forma.

Nile havia adorado aquela expressão chocada.

Forçou outro beijo, mas dessa vez foi surpreendido por uma mordida realmente forte. O homem se afastou com um grito, tocando o próprio lábio e vendo os dedos tingidos de vermelho.

– Pode fazer o que quiser comigo, mas eu nunca serei seu. — Os olhos verdes brilhavam, mal conseguindo conter todo o ódio que queria transbordar. Se estivesse solto e sóbrio, Eren teria arrancado sua pele.

– Veremos. — Nile respondeu sentindo-se ainda mais duro. Gostava de desafios, e iria apagar a chama daqueles olhos custe o que custar. Iria amansar o monstrinho de uma vez por todas.

Virou o mais novo de bruços na cama brutalmente, fazendo as correntes que o prendiam a cabeceira se torcerem e apertarem seus pulsos a ponto de deslocar um deles. A dor foi absurda, mas Eren não gritou, não daria essa satisfação ao maldito acima de si.

– Eu até ia ser bonzinho na sua primeira vez... Mas pelo visto você gosta das coisas mais violentas, não é? — Sussurrou no ouvido do menor enquanto já tirava suas calças, percorrendo toda a nova região a mostra com as mãos, vendo o menino se remexer, tentando se afastar.

Eren não sabia mais se estava assustado ou com ódio, queria sair dali, tentar se transformar e dar o fora daquela situação... Mas cada vez que pensava em fugir, se lembrava de cada momento com a Tropa, e de todo o dano que já causou a ela...

Não podia fugir. Não podia pedir ajuda. Estava realmente sozinho dessa vez.

Sentia o corpo do maior, já totalmente despido, se encostando no seu. Era estranho por que nunca imaginou que homens fizessem coisas assim, e também nojento por que até a voz daquele maldito lhe dava nojo. Não queria, pelos céus! Não queria aquele homem perto de si, não queria aquelas mãos... Aquelas mãos nojentas...

– Para com isso... — Deixou escapar um sussurro baixo.

Aquelas mãos asquerosas tocavam-lhe em locais tão constrangedores, lhe expunham àqueles olhos odiosos, repugnantes, sentia a barba roçando na sua pele, descendo pela sua coluna... Queria um banho, um banho de água fervente que queimasse toda a sua pele e apagasse a sensação horrível daqueles toques.

Fixou o olhar no seu pulso que parecia ter quebrado e só ficava cada vez mais inchado, talvez se pensasse naquela dor, pudesse esquecer todo o resto...

Ledo engano.

Sentiu aquelas mãos abrirem suas nádegas, expondo vergonhosamente a sua entrada ao desgraçado que parecia apreciar cada reação de nojo, dor ou rejeição que o menor demonstrava. Tentou se afastar, mas suas pernas estavam presas pelas do Comandante, de forma que permanecessem abertas.

Não conseguiu reprimir um grunhido alto de dor quando sentiu algo forçando sua entrada, invadindo-o com força e brutalidade. Não acreditava naquilo, não acreditava que estava passando por algo como aquilo...

– Vamos lá Eren, foi só um dedo... — Aquela voz maldita iria lhe perseguir em todos os seus pesadelos. — Você precisa relaxar pra caber algo maior...

Uma risada foi ouvida, e logo o menino sentiu os dentes do maior se cravando no seu pescoço, lhe arrancando outro gemido de pura dor. Outra risada e os lábios daquele homem doente tocavam com uma falsa e asquerosa gentileza a ferida que sangrava. Nile se divertia com a sua dor e humilhação.

" Por favor... Por favor que seja só um pesadelo..."

Ouviu o som de uma gaveta abrindo. Se recusava a olhar, se sentia tão sujo e exposto daquela maneira. Tentou sair daquela posição, mas seu corpo ainda estava pesado da medicação, suas pernas e suas mãos presas. Não tinha realmente como fugir. E mesmo se pudesse, lembrava novamente que não podia fazê-lo sem trazer consequências... Sentia que iria enlouquecer com aquela situação.

– Ah, isso vai servir. — Ouviu a voz do outro atrás de si e sentiu um frio do fundo do seu coração. — Imagina Eren, se eu fosse te abrir com isso? — Levou o cassetete até a frente dos olhos quase aterrorizados do menor. O menino engoliu em seco. — Mas não vou, não desperdiçaria a virgindade da minha nova vadia desse jeito... — Murmurou com uma pontada completamente sádica de divertimento.

– Eu vou te matar seu miserá... — Um grito escapou pela sua garganta com a forte pancada que levou na costela. Havia acertado uma costela aérea, deveria ter quebrado.

Bem, pela dor que sentia agora, Eren sabia que tinha quebrado.

– Calado. Só quero ouvir seus gemidos hoje. — Podia sentir o sorriso na voz do desgraçado, e logo outra porrada foi desferida, dessa vez contra a costela esquerda.

A cada golpe, o corpo do garoto balançava, machucando ainda mais o pulso que já estava machucado e comprometendo o outro. Seu quadril também era atingido, e depois de um tempo, Eren não sabia mais dizer o quê no seu corpo não estava doendo.

Outro engano.

Nada, absolutamente nada do que já tinha passado podia ter lhe preparado para a dor que se seguiu.

Quando Nile percebeu que o garoto já estava bem mole e atordoado da surra, invadiu-o lentamente, sabia que doeria mais dessa forma, colocando primeiro a cabeça de uma só vez, ouvindo-o gritar contra os lençóis brancos e já manchados de sangue, e depois indo em um ritmo que não era rápido nem lento, mas o suficiente para sentir o mais novo tremendo da dor.

Eren sentia como se estivessem lhe introduzindo um ferro em brasa, centímetro por centímetro, prolongando aquela dor que parecia lhe arrancar fora a capacidade de pensar. Mas por mais que a dor física fosse muita... Nada se comparava ao que sentia por dentro.

Sentia-se humilhado, pisado, reduzido a nada além de algo utilizável. Era pior do que ser um monstro, pior do que ser odiado pelos outros... Era ter nojo de si mesmo. Sentia-se como se seu corpo não fosse mais seu, já não tinha vontade sobre ele, era como se fosse um brinquedo. Um brinquedo quebrado e defeituoso.

Quando o outro começou a se mover, Eren já nem reagia mais. Só grunhia baixinho de dor enquanto algumas lágrimas silenciosas, que ele logo fazia questão de esconder, escapavam pelas orbes verdes que ainda não tinham perdido seu brilho, mas se mostravam gravemente quebradas.

Grunhia baixinho enquanto seu corpo era movido cada vez mais velozmente para frente e para trás, ouvia calado os gemidos deliciados e asquerosos do homem em cima da si, aquela respiração quente e podre na sua nuca, as mãos sujas, nojentas e indesejadas percorriam sua pele com uma cobiça que só agora o menino entendia.

Era isso então? Isso que as pessoas se referiam como sexo? Sentir prazer com a dor do outro? Mostrar para quem está por baixo o quanto gostam e apreciam seu sofrimento, o quanto é prazeroso te ver quebrado?

Que nojo. Nojo de tudo.

Sentia "aquilo" ficando cada vez mais inchado dentro de si, o que mesmo com o sangue facilitando os movimentos, só deixava tudo ainda mais dolorido. Algum tempo depois, não saberia dizer quanto exatamente, talvez minutos que se tornaram horas de tortura, sentiu alguma coisa se derramando dentro de si, acompanhado de um gemido do mais velho que o fez vomitar ao lado da cama o que tinha e o que não tinha no estômago.

– Como foi pra você? Um pouco forte demais? — Aquela voz irônica e ofegante no seu ouvido, o corpo suado e indesejado colado no seu. Iria vomitar de novo.

Sentia-se humilhado e excessivamente exposto. Queria se esconder, se esconder do mundo, de si mesmo... Queria apagar aquela sensação agonizante que o fazia querer arrancar a própria pele. Estava sujo, imundo, corrompido, quebrado, marcado.

– Me deixa. — Se encolheu para longe do homem, juntando as pernas junto ao corpo e sentindo algo pegajoso escorrer por entre suas pernas junto com o sangue.

Pela primeira vez sentiu na pele o que era ter vontade de morrer.

O maldito ia insistir sobre algum assunto, mas algumas batidas na porta foram ouvidas e ele foi ver o que era.

Eren nem se mexeu. Se sentia machucado. O cheiro de vômito, sangue e algo mais o fazia ter vontade de vomitar ainda mais, porém, não tinha forças para se mexer. As drogas que tinham sido introduzidas a força nas suas veias pareciam fazer ainda mais efeito.

" Por que isso tinha que acontecer...? "

Estava tremendo, mas o frio que sentia não era externo. Algo dentro de si parecia ter congelado.

Pouco tempo depois Nile voltou e soltou seus pulsos. Tinha um papel na mão, mas não disse de imediato o que era.

– Você fica tão lindo assim que eu até poderia escrever sobre. — Seu tom de voz era irônico com uma dolorosa pontada de desdém.

"Eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio, eu te odeio..."

– Seu adorado "Heichou" recebeu uma ordem de execução. — Mostrava a folha a Eren que de repente acordou do torpor, começando a absorver o significado daquelas palavras.

" Não... Não pode ser! N-não tem como eles..."

– O que eu recebi foi um convite para assistir, mas... Como ainda teremos outra audiência, eu posso tentar convencê-los a adiar essa ordem. — Falou jogando um pano qualquer em cima do vômito. Chamaria alguém para limpar aquilo logo.

– E o que você quer em troca? — O tom de voz do menino era frio. Gélido. Morto.

– Já disse Eren. Quero que você me agrade. — Depositou um beijo suave, mas nem por isso menos repugnante, no ombro do garoto. — Tenho um compromisso agora. Quando eu voltar, eu ainda quero te ensinar a cavalgar. — Passava a mão pelo torso totalmente machucado do menor, admirando o estrago que havia feito. — Agora recomponha-se, vou levar você pra cela, meu garoto. — Sussurrou a ultima parte no ouvido do mais novo, indo para o banheiro logo em seguida.

Mais uma vez Eren não se mexeu.

" 'Seu' uma porra, miserável. A única coisa que eu vou ser 'seu' é assassino".

Queria sentir raiva, mas estava anestesiado pela dor. Ficar irritado doia. Tudo doía, tudo estava terrivelmente bagunçado dentro de si.

Se forçou a ficar sentado, sentindo mais daquele líquido pegajoso saindo de si. Queria morrer naquele momento.

" Por que comigo? O que eu fiz...? Quer dizer, eu fiz alguma coisa para isso acontecer? Eu... Dói, tá doendo tanto..."

Engoliu o choro e limpou as lágrimas que escaparam, tentando se levantar e acabou caindo de joelhos no chão. Doía-lhe como o inferno!

Era doloroso, mas precisava levantar.

Mal sabia que o inferno só estava começando.

– — — — — — — — — —

Acordou do pesadelo, que na verdade era uma lembrança, mais uma das várias que lhe perseguiam mesmo quando tentava fugir da dor no mundo dos sonhos.

Acordou, mas ainda estava preso.

Sentia tudo ao mesmo tempo, e na mesma intensidade. A dor, a raiva, a vergonha a humilhação, aquela vontade opressora de sumir... Todos esses sentimentos se atropelavam dentro de si.

Já fazia um mês, ou talvez um pouco mais, e nada, absolutamente nada, tinha sido apagado.

Suas feridas continuavam abertas, tinham melhorado por um momento, mas agora sangravam com se tivessem acabado de serem feitas.

Gritou.

Gritou a plenos pulmões, gritou por todos os momentos que ficou calado, gritou pela raiva, pela vontade que tinha de voltar atrás, de ter desconfiado da veracidade daquela ordem de execução e ter matado aquele infeliz.

Não percebeu como, mas sentiu o chão sob seus joelhos. Lembrou-se que quando caiu ao sair da cama daquela vez...

Sentia-se tão sujo só de pensar naquilo, e quando lembrava, ainda sentia cada toque...

Nada parecia apagar aquela dor, e isso só o fazia se sentir pior.

Não queria sofrer. Não, pelos céus, não! E sabia que seus amigos não o queriam ver naquele estado, mas nada disso parecia importar. Importava, mas não mudava nada.

Droga, estava indo tão bem... Sentia que poderia passar por cima de tudo, que mesmo não esquecendo, poderia se sentir um pouco menos miserável.

Doce ilusão.

Respirou fundo, enfiando as unhas na própria pele, tentando se distrair da dor que corroia o seu ser de forma assustadora. Quando pensava que não tinha mais nada para corroer, nada mais para machucar, percebia que ainda era possível sentir-se pior.

Percebeu alguém se aproximando e tremeu.

" Você está na Tropa agora... No castelo... No quarto... Ninguém vai te machucar aqui... Lembre-se do que o Erwin-san falou... Não enlouqueça"

– E-Eu... Não... Não...

"Não posso ficar aqui fraquejando!"

– Eren?

Seu corpo se encolheu antes que sua mente ordenasse algo. Não queria ninguém por perto naquele instante.

Abriu os olhos vendo tudo embaçado, como se estivesse coberto por um véu escuro, que ficava cada vez mais denso...

Você não precisa sentir essa dor...

Um tremor gélido passou pela sua coluna. Fechou os olhos, focando sua atenção naquela mancha escura que parecia habitar o fundo da sua mente.

Seu corpo estava ficando sem controle. Ou melhor, fora do seu controle.

– FIQUE LONGE DE MIM! — Sua voz praticamente escapou pela sua garganta enquanto se arrastava para um canto de parede.

Sua mente ficava cada vez mais escura, enxergava cada vez menos, por isso demorou para identificar o vulto na sua frente como o Levi Heichou.

Você sabe como escapar desse sofrimento... Só precisa...

"NÃO!"

Não podia perder o controle de si mesmo outra vez. Não perto do Heichou.

Quando apanhava de Levi, no dia seguinte seus machucados estava sarados, mas sabia que não seria a mesma coisa se fizesse alguma coisa ao Heichou.

– N-não me toque... Eu... Estou sujo e...

Estava na beira da inconsciência, ás vezes conseguia enxergar onde estava, outras sua mente viajava até a lembrança de antes, ou ouvia uma voz, uma voz que se parecia exatamente como a sua e que vinha daquele lugar escuro da sua cabeça, aquele lugar onde mantinha as suas lembranças escondidas na maior parte do tempo.

" Estou enlouquecendo..."

Sentia aquela escuridão lhe tomar pouco a pouco. Se encolheu contra a parede, abraçando os joelhos. Não conseguia mais ver, não conseguia ouvir, não sabia mais se estava falando alguma coisa ou não. Só tentava se manter imóvel, não queria machucá-lo. Não podia machucá-lo.

Aquele ódio se esgueirava pelos seus pensamentos, destruindo pouco a pouco o seu falho autocontrole que já estava a ser mantido por um triz. Não iria suportar, não conseguia se manter são por mais tempo...

Sentiu um toque firme e quente em seu ombro e apagou de vez.