Be mine
22 Capítulo 22
6:10 pm
— E então, como foi? — Daisy perguntou assim que entrei na casa.
— Foi legal. — dei de ombros. Eu não iria entrar em detalhes com os meninos ali.
— Então tá. — ela me olhou estranho.
— Cadê o Ben? — perguntei ao notar que só tinha quatro pessoas na sala de estar.
— Ele foi no banheiro, eu acho. — Kasper me respondeu.
— O que aconteceu com a pizza? — Ryan olhou indignado para a caixa de papelão vazia.
— Como assim? Nós comemos, é claro. — Daisy respondeu.
— Ana! Você chegou! — ouvi Ben atrás de mim — Como foi o encontro?
— Foi legal. — repeti — O que vocês fizeram aqui esse tempo todo?
— Vários nada. — Kasper disse entediado, mexendo no celular — Caramba! Olha essa gata.
Kasper mostrou o celular para Ryan, que ficou boquiaberto.
— Quem é ela? — Ryan perguntou.
— Sei lá. Ela comentou um post de um cara da sala. — Kasper respondeu dando de ombros.
— Deixa eu ver. — Ben disse curioso. Kasper deu o celular para ele. Olhei a tela também e vi o Facebook da menina — Comentou o post de quem?
— Tyler. Você não conhece. — Kasper respondeu e então suspirou — Ela deve ser da Flórida. Que droga.
— Ela postou uma foto e marcou um Tyler. — Ben disse abrindo a foto. "Boa sorte na nova escola. Sentirei saudades". Prestei mais atenção na foto e percebi que eles estavam sentados em uma arquibancada, com várias outras pessoas por perto. Estavam todos muito animados, provavelmente era um jogo de algum esporte. Vi que uma garota sentada perto deles estava segurando uma bandeirinha "Go Wild". Já vi isso em algum lugar.
Sexta-feira
4:00 pm
— Atenção! — a treinadora White gritou — Chegou a hora de me mostrarem como tá a performance até agora. Podemos, Lily?
— Sim, treinadora. Meninas, vamos! — Lily também gritou — Vocês sabem o que fazer.
Apresentamos a parte pronta da coreografia e a treinadora ficou satisfeita. Fomos dispensadas um pouquinho mais cedo que o normal.
— Pra quem começou agora, até que você não é tão ruim. — Ben disse assim que cheguei na arquibancada depois de ter me trocado no vestiário.
— Pois é, né. — sorri.
De repente ouvimos um barulho muito alto, parecendo com o de explosão, porém um pouco mais surdo.
— O que foi isso? — Ryan se levantou rapidamente.
— Veio de trás. — Ben também se levantou.
Olhamos pro campo e vimos a treinadora correndo rapidamente para dentro do vestiário. Assim que ela entrou, várias alunas saíram de lá correndo também. Estavam todas muito assustadas. Lily estava entre elas, então nós três descemos até lá.
— Lily, o que aconteceu? — perguntei nervosa.
— Eu não sei, eu não sei. — ela disse um pouco sem fôlego — Nós estávamos na parte dos chuveiros quando ouvimos o barulho. Ele veio do vestiário masculino, do outro lado do prédio. A treinadora foi pra lá.
— Já sei o que pode ter sido. — Ryan disse — O aquecedor dos chuveiros. Já tem um tempo que ele tá fazendo um barulho estranho. Eu sempre passo longe dele.
— Meu Deus. — coloquei a mão na boca.
— Você não acha que ele pode ter explodido, acha? — Ben olhou para Ryan.
— Não sei. De qualquer forma, que bom que hoje não é dia de treino. Alguém poderia ter se machucado.
— Verdade. — Lily disse — Eu me assustei. Lá dentro o barulho foi muito alto.
— Imagino. — segurei a mão dela — Gente, será que não é melhor vocês dois irem atrás da treinadora White? Provavelmente são os únicos alunos ainda aqui e não sabemos o que ela vai encontrar lá.
— É melhor sim. — Ben disse — Bora, Ryan.
Os dois entraram no vestiário e sumiram de nossa vista.
— Ana, eu preciso ir. — Lily disse.
— Tudo bem.
— Te vejo amanhã. Cuidado. — ela apertou minha mão — Não sabemos o que aconteceu mesmo.
— Ok. — assenti.
— Tchau. — ela jogou um beijo e foi embora. Sentei na primeira fileira da arquibancada e percebi que a quantidade de alunas ali estava diminuindo. Não demorou muito até eu estar completamente sozinha no grande campo da Starplace.
Ouvi barulho de passos sobre a grama e comecei a olhar ao redor. Apesar de estar de dia, eu estava apavorada por estar ali sozinha. O barulho foi ficando mais longe até que vi alguém no estacionamento a muitos metros de distância de mim. Observei a pessoa com dificuldade para reconhecer. Dei de ombros e peguei meu celular para tentar me distrair. Mandei uma mensagem para Analu, mas ela nem sequer recebeu.
Os meninos estavam demorando e eu estava começando a cogitar a possibilidade de ir até lá ver o que estava acontecendo. Não demorou muito até eu ouvir uma sirene se aproximar cada vez mais. Meu coração gelou na hora. Levantei da arquibancada e entrei correndo no vestiário. Passei por todos aqueles armários, depois pelas cabines, e fui direto até o corredor. Passei por algumas salas onde ficavam os materiais usados nas aulas práticas até finalmente chegar na porta do vestiário masculino, que estava aberta. Entrei e me arrependi na hora. A treinadora White e o professor Edwards estavam abaixados no chão, ao lado de um homem que estava sangrando muito. Ryan estava ali também, mas ele estava tão branco que quase não o reconheci. Ninguém pareceu perceber minha presença. Fui até Ryan, tremendo, e quando ia falar com ele, Ben apareceu com paramédicos, que correram na direção do homem e começaram a examiná-lo. Recebemos instruções da treinadora White para sair de lá e não falar para ninguém o que tínhamos visto. Ben nos puxou para fora do vestiário.
— O-o que aconteceu? Quem é aquele homem? — perguntei a ele.
— É o treinador do time de futebol. Ele é treinador do Ryan. — Ben respondeu e olhou pro amigo. Ryan estava muito pálido.
— Ryan, vai ficar tudo bem. — segurei a mão dele, mas ele apenas me olhou e não disse nada.
— Precisamos ir pra casa. — Ben disse.
— Mas o que aconteceu? — perguntei ainda nervosa com o que tinha visto.
— Não sei, Ana. Eu não sei. — ele me respondeu irritado — Pelo barulho, algo explodiu, mas o tal aquecedor tá inteiro e fazendo o mesmo barulho de sempre. Agora, vamos.
Sábado
11:00 am
— Vamos, Facebook. Me mostre algo interessante. — falei com o computador, quase implorando por algo que tirasse minha mente da escola.
— Ana? — ouvi Jade entrando no quarto.
— Sim? — me virei para olhá-la.
— Nós vamos almoçar na UCLA. Quer ir?
— Claro.
— Tá bom. Nós vamos sair em meia hora.
— Ok, vou me arrumar. — respondi e ela saiu do quarto.
12:30 pm
— Eu disse isso pra ele. — Mike falou rindo e os outros riram também — Só que ele não ouve ninguém. Agora a garota não quer saber dele.
— Não me surpreende, sabia? — Diana disse — Todo mundo sabe que o Diego é assim. Ele não tá nem aí pra nada.
— Bem feito então. — Josh disse — Aquele trabalho da semana passada ficou uma droga por causa dele.
— Poderíamos conversar sobre alguma coisa que eu entenda? — Jade perguntou meio entediada.
— Ah, foi mal. — Mike disse — Então, é...
— Não temos nenhum assunto em comum, maninha. — Josh falou colocando a mão no ombro dela.
— Mike, posso ir no seu dormitório brincar com o Harley? — ela praticamente suplicou.
— Pode sim. Toma. — ele entregou uma chave para ela, que levantou e foi embora.
— Ana, você tá tão aérea. — Diana disse. Realmente eu não estava interagindo muito com o grupo, mas era porque não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido.
— Ah, hm... Como a Jade disse, eu não sei muito bem do que vocês estão falando. — dei um sorriso torto.
— Pra falar a verdade, Ana, nem eu. — Oliver disse e os outros riram.
— Cadê a Kath? — perguntei a Josh.
— Na biblioteca, provavelmente. — ele respondeu.
— Mas hoje é sábado. — estranhei.
— Pois é. — Diana suspirou.
— Bem, vou lá com ela. — me levantei e deixei o grupinho conversando no restaurante.
Demorei um pouco para encontrar a biblioteca e mais ainda para encontrar Kath.
— Ana! — ela disse assim que me aproximei — Oi!
— Oi. — sorri — Tudo bem se eu ficar aqui? Não vou conversar e te atrapalhar nem nada. É que o pessoal só sabe falar de coisas que eu não faço a mínima ideia do que seja.
— Claro. — ela riu um pouco — Deixa eu adivinhar. Eles estavam falando sobre o Diego.
— Estavam. Como você sabe? — sentei com ela.
— Eles falaram sobre isso a semana inteira. É uma longa história, mas você não vai querer ouvir. — ela deu de ombros.
— E eu não quero te atrapalhar. Não se preocupa que depois eu pergunto do Josh.
Ela voltou a atenção dela pros livros e eu decidi que procuraria um para ler.
— Kath, hm, aqui tem livros de histórias e tal? — perguntei.
— Aham. Literatura fica lá atrás. — ela apontou.
— Eles não vão pedir pra eu assinar um documento ou algo assim? — perguntei receosa.
— Não, não. Só se você quiser levar o livro pra casa. Fora isso, pode ir lá. — ela disse e assim eu fiz.
Achei um livro interessante e voltei para a mesa.
Eu já estava bastante entretida com o livro, quando Kath levantou e foi falar com uma bibliotecária. Fiquei observando as duas de longe. Quando Kath voltou, continuei olhando para ela. Pelo visto, ela leva os estudos muito a sério mesmo. Ela tinha vários livros ali na mesa e alguns cadernos. Fazia anotações a cada parágrafo lido. Fiquei observando ela escrever algo em seu caderno. Vi que ela estava usando sua pulseira azul de sempre. Por algum motivo, aquela pulseira prendeu minha atenção, até que li o que estava escrito nela. Go Wild.
— Kath? — ao me ouvir, ela parou de ler o livro e me olhou — Sei que eu disse que não ia conversar, mas... Onde você conseguiu essa pulseira?
— Na escola. — ela me olhou confusa — Falei que fiz o ensino médio na McGregor. "Go Wild" é o lema do time de futebol.
— Ah... tá bom. — tentei sorrir e ela voltou a ler o que estava lendo.
Segunda-feira
8:00 am
Cheguei na escola com a intenção de ir direto pra sala, mas não pude deixar de notar que estava tudo muito estranhamente quieto. Os alunos estavam conversando baixo e com uma expressão de preocupação. Acho que o incidente com o treinador já deve ser de conhecimento geral.
Subi as escadas rápido e logo cheguei na minha sala. Não tem ninguém, que ótimo, pensei.
Sentei no meu lugar e coloquei meus fones de ouvido. Eu não estava conseguindo falar com a Analu desde segunda-feira passada e aquilo estava me deixando louca. Mandei outra mensagem pra ela, mas de novo ela não recebeu.
Tomei um susto ao sentir uma mão no meu ombro até ver que era Jayden. Eu não havia falado com ele desde o nosso encontro.
— Jayden... Oi! — falei tirando os fones, enquanto ele se sentava na cadeira ao lado da minha.
— Como você tá? — ele perguntou — Eu estive tão ocupado com os treinos que nem pude falar direito com você.
— Os treinos foram intensos pra mim também, mas eu tô bem. — respondi.
— O Ryan me disse que você viu o estado do treinador. Tá tudo bem mesmo?
— Pensei que nós não pudéssemos falar disso. — olhei hesitante para ele — Eu tô bem sim. Nem conheço o treinador.
— A coisa foi mais séria do que parece. — ele disse — Quando o treinador melhorou um pouco, ele pediu pra falar com a polícia. Ele quis que ela fosse lá olhar o armário dele. Eles encontraram o que restou de uma bomba caseira.
— O quê? — olhei assustada para ele.
— Alguém colocou uma bomba caseira no armário dele. Tinha todo um mecanismo montado pra ela explodir quando o armário fosse aberto. A pessoa queria que o treinador se machucasse.
— Jayden... Meu Deus.
— Pois é. Ele machucou feio a perna e não vai poder treinar o time.
— E como você sabe disso tudo? — perguntei. Ouvimos a porta abrir e olhamos na direção dela. Era o Ben.
— Ah, desculpa. Não quis interromper. — ele disse rápido.
— Não tá interrompendo. — Jayden disse se levantando — Eu tenho que ir mesmo.
— Mas... — eu ia falar, mas ele apenas beijou meu rosto e saiu.
— Hm, foi mal. — Ben entrou na sala quando Jayden saiu.
— Tudo bem. — sorri enquanto ele sentava na cadeira à minha frente.
— Você já tá sabendo? — ele perguntou.
— Tô sabendo de muitas coisas. Seja mais específico.
— A polícia foi atrás do Ryan. — ele disse e eu arregalei os olhos de novo — Quer dizer, do time inteiro. Ela os considera como principais suspeitos. Dá pra acreditar? Todo mundo daquele time gosta do treinador Carlson. É impossível que tenha sido um deles!
— Pera. Eu preciso entender direito o que aconteceu. — falei fazendo sinal com as mãos — Aquilo que explodiu foi uma bomba caseira deixada propositalmente no armário do treinador para que ele se machucasse. O que a polícia tá fazendo agora é investigando os suspeitos. É isso?
— Sim. Sexta-feira mesmo o treinador quis falar com a polícia. Eles foram ao hospital conversar com ele. No final de semana foram atrás de todos. Do time, da treinadora White, do professor Edwards... — ele disse.
— Por que não foram atrás de nós? Quero dizer... Nós estávamos lá.
— É, mas eles foram atrás dos nomes que o treinador deu. No caso, o nome da treinadora e do professor, porque ele achou que os dois poderiam conversar melhor com a polícia e dar mais detalhes. O treinador não suspeita do time. Ele sabe o carinho que os caras têm por ele e até achou ruim quando soube que a polícia foi conversar com eles.
— Caramba. E como é que vocês sabem disso tudo? — perguntei indignada com o fato de Ben e Jayden terem tantas informações a respeito do incidente e eu não.
— A polícia conversou com o time todo. — ele disse — Ela pediu sigilo, mas sabe como é. Um cara fala pra um amigo e então a escola toda fica sabendo.
— Nossa. A fofoca corre por aqui né.
— O nome mais mencionado nisso tudo é o do Scott. Todo mundo acha que foi ele.
— E você?
— Não sei. O Scott é capaz de algo assim? É. Mas ele tem motivos pra fazer isso com o Carlson? Não. Ele não faz as coisas só por fazer, Ana. Mas até que seria bom a polícia ir atrás dele.
— Caramba. E eu achando que meu ano seria tranquilo. Agora tô com medo de ir aos treinos.
— Os treinos foram cancelados pelo resto do mês. — ele disse.
— Quê?! Não podem fazer isso! Estamos em março. Março! O primeiro jogo já é em abril. Não podemos ficar sem os treinos. De quem foi essa decisão merda?! — falei com raiva.
— Nossa, você já tá agindo como uma delas. — ele disse me olhando — Da polícia. Eles disseram que não é pra ninguém ir no prédio dos vestiários.
— Mas e a OCCG? Como os times vão treinar pras competições? Segunda e terça tem treino do futebol, quinta e sábado tem do basquete e quarta e sexta tem das cheerios. Não dá pra ficarmos sem treinos! Pelo menos a natação vai poder usar a piscina, né?
— Sei lá, Ana. Não pira por isso. Calma. — ele disse — Não é o fim do mundo.
— Tem razão, mas... que droga.
— Só que agora a McGregor vai ter vantagem, né. O nosso melhor treinador tá machucado e os times estão sem treino.
— Ah, nem me fale. — enterrei a cabeça nos braços.
— Não fica assim. — ele disse passando a mão no meu cabelo — Estamos acostumados a perder. Já é incrível termos chegado na final.
— Olha, isso não importa. Vocês têm que levar as competições a sério. Não podem simplesmente aceitar a derrota. — assim que falei, Kasper e Daisy entraram na sala.
— Bom dia, queridas. — Kasper disse se aproximando.
— Eu soube o que aconteceu, Ana. Você tá bem? — Daisy se aproximou também.
— Tô sim. Como você soube? — perguntei.
— Ben me contou.
— Pensei que a treinadora tivesse pedido para não falarmos nada, Benjamin. — olhei séria para ele.
— Ana, é a Daisy! — ele apontou pra ela — Não vi problema algum.
— Ai, certo. Isso não importa mais. — desisti.
— O que importa é que vocês estão bem. — Kasper disse — Ainda bem que estavam do lado de fora ou teriam, no mínimo, ficado surdos.
— Não exagera. — Ben disse.
— Kasper também, Benjamin?
— Não exagera você também, Santini.
— Ah, Kasper. — me virei para ele — A "gata" que você viu no Facebook esteve em um jogo na McGregor. Não acho que ela seja da Flórida. Provavelmente você vai vê-la nas competições.
— Hã? Do que você tá falando? — ele me olhou confuso.
— Da garota do Facebook do Tyler.
— Ah. Eu já tinha esquecido. De qualquer forma, não dá pra rolar nada mesmo.
— Pode rolar sim. Por que não?
— Meu coração é de outra. — ele olhou para baixo e ouvimos o sino tocar.
— Tenho que ir pra minha sala. Vejo vocês no almoço. — Ben disse já indo para a porta.
— Tchau. — respondemos.
— Vai ser uma longa semana. — Daisy suspirou.
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