Be mine
23 Capítulo 23
Quarta-feira
03:30 pm
— Treinadora, isso é horrível! — Maya reclamou — Como é que eles querem que nós treinemos todos juntos aqui?
Todas as meninas começaram a reclamar ao mesmo tempo e aquilo me atordoou.
— Calem a boca! — Lily gritou e todas se calaram — Gente, se ficarmos aqui reclamando de tudo, perderemos o único tempo que temos pra ensaiar agora. Tá uma merda? Tá. Mas não tem nada que possamos fazer, então vamos aproveitar essa única oportunidade que teremos a partir de hoje.
A maioria concordou e a treinadora chamou Lily para conversar em um canto.
— Espero que o Scott pague pelo que fez. — Sophia comentou ao meu lado.
— Scott? — olhei para ela.
— Sim. Não tenho dúvidas de que foi ele. — ela disse e se afastou.
Olhei ao redor e vi aquele aglomerado de alunos de várias turmas, a maioria reclamando da situação. Já que a polícia nos proibiu de usar o campo, o diretor teve a brilhante ideia de fazer todos os treinos no mesmo dia e na mesma hora. Estamos todos dividindo a quadra esportiva, que não é tão grande quanto o campo. De acordo com ele, será mais fácil controlar os alunos que ficam na escola depois da aula se estivermos todos juntos. Agora temos até chamada.
— Oi. — Jayden disse, me despertando do meu estado reflexivo.
— Oi! — respondi surpresa — O que você tá fazendo aqui?
— Sou do basquete, lembra? — ele apontou pro time reunido do outro lado da quadra — Não sei por que cancelaram nossos treinos. Nós não usamos o campo. Isso é inutil.
— Eles disseram que será mais fácil nos vigiar se estivermos todos juntos. — revirei os olhos — Só que nós fomos as mais prejudicadas nessa história toda, sabia?
— Por quê?
— A quadra foi dividida no meio. O futebol ficou desse lado e vocês no outro. A treinadora disse que teremos que usar as laterais. Nós ficamos super apertadas!
— Mas vocês já não ficam nas laterais nos jogos? — ele perguntou.
— Os jogos acontecem no campo, onde tem muito mais espaço e as laterais são bem maiores. — respondi. Não pensei que me importaria tanto, mas o fato de não podermos treinar como deveríamos estava me tirando do sério.
— Isso é muito estranho. — ele disse sério — Uma bomba colocada no armário do melhor treinador de futebol americano dessa cidade, faltando um mês pros primeiros jogos.
— O que você tá dizendo? — olhei confusa para ele — Você acha que a pessoa que fez isso queria prejudicar a escola?
— Eu não acho nada, Ana. Só disse que é estranho. — ele disse ainda sério e então voltou para junto do seu time.
Aquela conversa me deixou realmente pensativa.
O treino daquela quarta-feira foi uma verdadeira droga. Não conseguimos ensaiar a performance por conta do espaço reduzido em que estávamos. O pior é que seria daquele jeito toda quarta-feira até o jogo.
Assim que "terminamos", a treinadora nos chamou para pegarmos nossos uniformes que finalmente haviam ficado prontos. As cores da nossa escola são marrom e amarelo. Nunca pensei que essas cores funcionariam tão bem juntas. Mas eu gostei, ainda mais porque lembram a minha casa em Hogwarts, a Lufa-Lufa. O uniforme das líderes de torcida era bem bonito. A saia era toda marrom, enquanto a blusa brincava com as duas cores e tinha, com letras em amarelo, a palavra "Stars" bem no meio. Achei lindo, mas não foi o suficiente para diminuir meu estresse.
Assim que saí da quadra, vi o carro do meu irmão estacionado perto do portão. Fui logo até ele porque eu sabia que ele estava muito atrasado para as aulas da tarde, mas os alunos que não fossem do futebol ou do basquete ou da torcida foram proibidos de ficar na escola depois do horário da aula, ou seja, perdi minha carona.
— Josh, me desculpa por te fazer passar por isso. — falei assim que entrei no carro.
— Não é sua culpa. — ele disse tranquilo — Como foi o treino?
— Uma droga, mas não quero falar a respeito. — encostei a cabeça no vidro e fechei os olhos. Eu pretendia ficar submersa em pensamentos, mas fui interrompida pelo toque do meu celular. Peguei e li o nome da tela. Bwn. Eu preciso ajeitar isso.
— Alô?
— Ana! Onde você tá? — Ben perguntou rápido.
— No carro, indo pra casa. Por quê?
— Você pode vir aqui? Preciso muito conversar com alguém. — ele pediu com bastante nervosismo na voz.
— Ben, o que aconteceu?
— Não quero falar por telefone. Você vem ou não?
— Espera. — tapei o microfone do celular com a mão e perguntei a Josh se ele poderia me deixar no Ben. Felizmente ele disse que sim — Tô indo pra aí.
— Ótimo. Obrigado, Ana. — ele respondeu e desligou.
Uns dez minutos depois da conversa, chegamos na casa do Ben. Dei logo tchau para o meu irmão e saí do carro porque aquela ligação havia me deixado muito preocupada. Toquei a campainha e não esperei muito até Ben abrir a porta.
— Ana, oi. — ele disse sem emoção e fez sinal para eu entrar. Ele não parecia o Ben divertido de sempre. Ele estava com uma expressão de pura preocupação. A minha não devia ser diferente.
— Oi. — entrei direto para a sala de estar — O que aconteceu?
— Primeiro: você tá bem?
— Tô sim. E você?
— Não. — ele me puxou para o sofá e se virou para mim — A polícia veio atrás de mim.
Continuei olhando para ele esperando o complemento daquela declaração.
— Eles me colocaram na lista de suspeitos.
— Por quê? — perguntei mais confusa.
— O professor Edwards contou a eles o que aconteceu ano passado. Eles disseram que eu tenho o "caráter do crime".
— Eu não tô entendendo. O que aconteceu ano passado afinal?
— Nada demais. — ele se levantou — Eu... Foi o Edwards que anunciou o resultado da terceira fase da OCCG ano passado. Daí eu pensei que seria engraçado colocar uma mini Cabum no orador.
— Mini Cabum?
— Aquelas bombinhas que fazem um barulho quando são acesas. — ele explicou — A questão não é essa. A questão é que eu comprei a errada. Eu não comprei a Cabum. Eu comprei a Faísca.
— Inglês, por favor.
— Eu não comprei a que faz barulho! Eu comprei a que sai fogo!
— Ai não. O que você fez, Ben?
— Quando eu acendi, o Edwards se assustou com o fogo e tentou apagar pisando, mas a calça dele acabou pegando fogo também.
— Meu Deus!
— Calma. Não foi a calça inteira. Foi só a barra. E foi rápido porque eu... eu joguei água nela. — ele sentou novamente — Todo mundo riu. Na hora eu ri também, mas depois...
— Pera aí. Isso foi na hora do discurso?
— Sim. — ele me olhou envergonhado — A Daisy tinha razão. Foi burrada. Acontece que por causa da "brincadeira", eles acham que eu sou capaz de ter colocado a bomba no armário do Carlson.
— Ben, eu...
— Ana, eu não fiz aquilo! Eu juro que não fiz.
— Eu sei disso. Não tinha como. Você tava na arquibancada o tempo todo. — tentei tranquilizá-lo — Ei! Eu posso falar isso pra polícia, não posso? Eu sou testemunha que você tava no campo o tempo inteiro.
— Não, Ana. Não quero que você se envolva nisso. — ele disse — E eu já disse isso pra polícia. Eu e Ryan dissemos. Acontece que eles falaram que a bomba não precisa necessariamente ter sido plantada na sexta-feira. Ela pode ter sido colocada antes.
— Antes? Pera aí. — eu olhei para ele — Segunda e terça não pode ter sido porque é o treino do futebol. Tinha gente no vestiário e o treinador com certeza abriu o armário dele.
— Tô ouvindo. — ele disse.
— Quarta-feira é o meu treino e vocês dois sempre ficam lá na arquibancada. — eu disse — E quinta-feira você não foi pra aula! Você ficou em casa, lembra?! Ben, é impossível você ter plantado a bomba. Você tem que dizer isso pra polícia!
— Eu já sabia que era impossível antes de você pensar nisso. — ele disse um pouco mais animado — Então quer dizer que eu posso sair da lista?
— Sim. Você pode. — sorri.
— Pena que isso não facilita as coisas pro Ryan. Ele foi pra aula quinta-feira. — ele suspirou.
— Pera aí. Quinta-feira não é o dia que os grupos de estudo se reúnem depois da aula?
— Terça e quinta. Só que ele perde a reunião de terça por causa do... É isso! — Ben se levantou num salto — Ele não pode ter colocado a bomba porque ele tava dentro da escola com o grupo de história! Os pais dele podem confirmar a hora que ele chegou em casa depois. Ana, você é um gênio!
Comecei a rir.
— Eu sabia que você era a pessoa certa pra conversar!
— Pera. Você só falou isso pra mim?
— Sim. O Ryan já tá muito preocupado com o fato de ele mesmo estar na lista.
— E o Kasper e a Daisy?
— Não, não. A Daisy não pode saber disso senão ela me come vivo. Ela já joga a burrada na minha cara toda hora, imagina se souber que isso me levou a algo pior. — ele respirou fundo — E o Kasper falaria pra ela, com certeza.
— Bom, acho que você devia conversar com o Ryan agora e depois vocês dois irem falar com a polícia.
— Sim, sim. — ele concordou e nós dois começamos a falar sobre outros assuntos mais leves que aquele.
Quinta-feira
8:30 am
— Agora essa sala de aula virou ponto de encontro? — perguntei assim que entrei na sala e vi que estava todo mundo ali, menos Lily, é claro.
— Ana! — Ryan se levantou animado. Ele veio correndo na minha direção e me deu um abraço — Você é demais!
— O que eu fiz? — perguntei sem entender a demonstração de carinho, mas retribuí o abraço.
— Ontem eu, Ben e as nossas mães fomos à delegacia falar com o delegado que tá cuidando do "caso da Starplace" e contamos a eles aquilo que você disse. Eu e Ben não estamos mais na lista de suspeitos! — ele disse mais animado ainda e me deu outro abraço. Dessa vez ele me levantou do chão.
— De nada! — retribuí de novo, mas dessa vez rindo.
— Nós fomos lá assim que você foi embora. — Ben completou — O delegado disse que com aquelas informações dava pra tirar um monte de gente da lista, então nós facilitamos o trabalho deles.
— Que ótimo. — eu disse me aproximando de onde todos estavam sentados.
— Ana, triste notícia pra você. — Daisy disse — Lembra que você disse que queria entrar no grupo de estudo de química?
— Sim.
— O diretor disse que todas as reuniões serão na quinta-feira com professores junto dos grupos, ou seja, nada de reunião na terça e mais supervisão.
— E por que isso é uma notícia triste pra mim? — perguntei.
— Porque o grupo de estudo de química fica com o professor Phillips e todo mundo sabe que ele é um pé no saco quando se trata de "supervisão". — ela explicou — Isso é uma notícia triste pra mim também. Eu tô no grupo de estudo de química.
— Ah, isso é verdade. — Kasper disse — Ainda bem que eu não tô em nada.
— Você não vai entrar no de literatura? A professora Wright disse que você é bom. — Daisy perguntou.
— Ah... Não sei. Talvez.
— Você participa de algum, Ben? — perguntei.
— Eu sempre participei do grupo de Artes, mas esse ano eu não renovei a minha inscrição. Não sei se quero continuar. Ainda mais agora que tem "supervisão".
— Ô, Daisy. — me virei para olhá-la — Como é que você vai participar de todos os grupos agora?
— Vou dar um jeito. — ela piscou pra mim.
— Ela é louca, Ana. — Ryan disse — Fica correndo de uma reunião pra outra. Parece que não tem vida social.
— Essa garota só sabe estudar. — Kasper riu.
— Calem a boca. Pelo menos eu vou ser alguém na vida. — ela disse.
— Pera aí. Falta não prejudica? — perguntei.
— Ana, esses grupos não são coisa da escola. São coisa dos alunos. Quem faz os grupos são os alunos. — ela disse — Então se eu faltar, ninguém se importa. Só eu.
— Ah sim. Que ótimo.
— Era ótimo. — Ryan me corrigiu — Agora que tem supervisão, acho que vão frescar com as faltas.
— Acho que vou entrar pro grupo de literatura. — Kasper disse — A supervisão vai ser feita pela professora Wright! Vai ser legal.
— Professor Philips, é? — olhei para Daisy.
— Olha, se você não quiser mais, não tem problema. — ela disse.
— Entra pra literatura comigo. — Kasper disse — Não quero fazer sozinho.
— Eu faço literatura. — Daisy olhou para ele indignada.
— Não quero fazer sozinho, Ana. — ele repetiu e os meninos riram. Daisy bufou.
— Literatura é legal... — falei — Vou pensar no teu caso, Kasper.
2 semanas depois...
Quarta-feira
Joey's
4:30 pm
— Você reparou no novo treinador? — Jayden me perguntou.
— Não. Por quê? — perguntei entre goles do meu café.
— Ele não tá treinando o time. O Ryan já reclamou pro diretor, mas ele disse que não há nada que eles possam fazer. — Como assim?
— Ele sempre fala pros caras fazerem o que sabem e pronto. Eles ficam perdidos, Ana. O Carlson tava tentando ensinar uma tática de jogo pra eles e esse novo cara tá com o plano, mas ele simplesmente não executa! O jogo é em três semanas. Era pra tática estar pronta. — ele disse preocupado.
— Nossa. Que estranho. — concordei — E o basquete? Como tá?
— Tá tudo pronto. Nós só estamos aquecendo e simulando jogos. E vocês?
— A performance tá pronta. Eu e as outras meninas novas não somos tão ruins, até. — brinquei.
— Que bom. — ele sorriu — Mas eu tô preocupado com o futebol. Meu time é bom, ok? Não me leve a mal, mas nós só chegamos à final, em grande parte, graças a eles. O basquete da Dawson era muito bom e nós ganhamos deles por pouco. O futebol não. O futebol ganhou com uma vantagem enorme e isso nos deu muitos pontos.
— Ei, e os outros esportes? Vôlei, natação e corrida. — perguntei — Nunca soube dos treinos deles.
— O pessoal da corrida treina no campo nos dias que vocês não têm treino. — ele disse — Eles treinam na quinta e no sábado. O vôlei usa a quadra e o treino deles é junto com o de vocês, na quarta e sexta.
— E a natação?
— Usa a piscina na segunda e terça.
— Ah sim. E como é que eles estão fazendo agora?
— Não sei, mas o vôlei e a corrida estão divindo a quadra na sexta-feira. — ele deu de ombros — Acho que os alunos da natação devem ter piscina em casa, sabe?
Ele brincou e eu ri.
— É provável.
— O legal mesmo é treinar no sábado. Não fica quase ninguém na escola. — ele disse — Mas tudo que é bom dura pouco.
— Que pena.
Desde que mudaram o dia dos treinos, eu e Jayden passamos a ir no Joey's toda quarta-feira. Ele é uma ótima companhia.
— Já tá dando cinco horas. — ele disse olhando o relógio — É melhor eu te deixar em casa.
— É verdade. Prefiro chegar em casa antes do meu irmão. — comentei e ele me olhou sugestivo — Evita perguntas desnecessárias. — expliquei e ele sorriu.
— Ana, eu...
— Aqui está a conta, senhor. — a garçonete disse ao colocar a pastinha em cima da mesa, interrompendo Jayden, e se retirou.
— Você...? — incentivei-o a continuar.
— Eu preciso te falar uma coisa. — ele disse um pouco nervoso.
— Com licença, é cartão ou dinheiro? -a garçonete disse ao voltar na nossa mesa.
— Cartão. — ele respondeu simpático, embora ela o tenha aborrecido. A garçonete se retirou novamente e eu tentei retomar o assunto.
— Você ia dizendo?
— Sim, ér... Eu-
— Crédito ou débito? — ela brotou do chão mais uma vez e eu por pouco não gritei um palavrão com ela.
— Débito. — ele respondeu simpático de novo e entregou o cartão a ela. Ela digitou algumas coisas na máquina e então passou pra ele, que digitou a senha.
— Aqui está, senhor. Tenham um bom dia. — ela sorriu e entregou a nota fiscal a Jayden.
— Igualmente. — ele respondeu e nós fomos embora.
Ficamos em silêncio no carro por boa parte do caminho, mas minha curiosidade estava me matando por dentro e eu não aguentei.
— O que você ia dizer no Joey's?
— O quê? — ele me olhou por uns segundos e depois voltou a olhar a rua.
— Você ia dizer alguma coisa quando a garçonete chegou.
— Ah, hm... — percebi que seu rosto havia ficado um pouco mais rosado que o normal — Não era nada importante. Tinha até esquecido.
— Certeza?
— Aham. — ele disse sem olhar para mim — Nada demais.
— Então tá bom.
Eu sei que era alguma coisa importante e a minha curiosidade não me deixará em paz por um bom tempo.
7:00 pm
— Finalmente! — falei assim que Analu atendeu a minha chamada no Skype — O que aconteceu contigo, garota? Eu já tava preocupada.
— Estamos em semana de provas. Eu tava estudando. — ela explicou.
— Mas já? Estamos em março ainda. — estranhei — Lu, o que houve?
— Nada. — ela disse e só então percebi que seus olhos estavam vermelhos.
— Lu, — repeti — o que houve?
Ela me encarou por uns segundos e começou a chorar.
— Analu, meu bem, o que aconteceu? — perguntei preocupada, mas ela continuou chorando — Não chora na minha frente quando eu não posso te abraçar, por favor.
— Meus pais, Ana. — ela fungou e enxugou as lágrimas — Meus pais vão se separar.
— O quê? Nossa. Caramba. Mas por que?
— Não interessa o porquê. O que interessa é que meu pai vai voltar pra São Paulo. — ela disse um pouco mais estável — Eles querem que eu escolha, Ana! Isso é tão injusto.
— São Paulo? — olhei pra ela surpresa — São Paulo não. Você não pode ir pra São Paulo, Lu. Eu preciso de você no Rio. Eu vou voltar e eu vou precisar de você. Você não pode ir pra São Paulo, Lu.
— Eu não vou pra São Paulo, Ana! — ela disse como se fosse óbvio e as lágrimas voltaram a rolar — É difícil demais escolher entre o pai e a mãe. Eu escolhi a cidade em vez disso. Eu quero ficar no Rio. Acontece que isso é tão difícil, Ana. Eu precisava de você aqui, por que você foi embora?
— Não faz isso, Lu. — falei mais séria — Você sabe como seria horrível ficar aí com a minha mãe sem os meus irmãos.
— Sei disso, sei disso. É que... — ela olhou pra mim e respirou fundo — Eu não quero isso, Ana. Eu prefiro meus pais brigando juntos do que cada um em uma cidade.
— Eles serão mais felizes assim, você não acha? — tentei animá-la — E não é como se você fosse perder seu pai. São Paulo não é tão longe. Você ainda vai ver muito ele.
— Mas não todo dia. Ele não vai me deixar na escola. Ele não vai me encher o saco pra comer coisa saudável. Ele não vai ficar tentando me convencer a fazer jornalismo todo dia. Não vai ser a mesma coisa, Ana.
— Calma, Lu. Vai dar tudo certo.
— Vai dar tudo certo?! O que você faria no meu lugar?
— Eu iria com o meu pai aonde quer que ele fosse. Se ele quisesse se mudar pra Coréia do Norte, eu iria junto.
— Sério? — ela me olhou desconfiada.
— Você conhece minha mãe, Analu. — olhei séria pra ela.
— Conheço. — ela disse — Escuta, eu preciso ir. Tá bem tarde aqui.
— Tudo bem.
— Quando tudo estiver melhor, eu te ligo e você me conta as novidades. Tá bom?
— Ok. — tentei soar positiva embora estivesse triste por ela.
— Até mais, Ana.
— Até.
Quinta-feira
12:00 pm
— Tão dizendo que o Scott assumiu a culpa. — Lily disse à Daisy.
— Acho que são só boatos. — Daisy comentou — O Scott não faria isso.
— Não faria o quê? — me meti na conversa — Não explodiria o armário do Carlson ou não assumiria a culpa?
— Não assumiria a culpa, é claro. — ela disse — Tenho sérias suspeitas de que foi ele. Não consigo pensar em mais ninguém capaz de algo assim.
— Jackson? — arrisquei.
— Não, não. — Lily disse — O León é só pau mandado. Ele não faz nada por conta própria.
— A Ana tem razão. O Scott pode muito bem ter mandado o Jackson fazer isso. — Daisy concordou.
Nós três estávamos sentadas em nossa mesa habitual, embora Lily raramente sentasse conosco. Os meninos ainda estavam pegando o almoço na cantina.
— Hm, preciso ir. Vejo vocês mais tarde. — Lily disse já se levantando e nós nos despedimos dela. Meio minuto depois, Kasper sentou ao meu lado esquerdo.
— E aí? — ele sorriu pra mim — Ansiosa por hoje?
— O que tem hoje? — Daisy perguntou.
— Primeiro dia no grupo de literatura. — ele disse como se fosse algo de conhecimento universal — Onde você estuda?
Daisy revirou os olhos.
— Sim, estou. — respondi a pergunta um pouco empolgada demais — Acho que vai ser legal.
— O que vai ser legal? — Ben perguntou ao sentar ao lado direito de Daisy, ficando de frente para Kasper.
— Grupo de estudo. — ela respondeu.
— Grupos de estudo nunca são legais, Ana. Entenda. — ele declarou — O nome já diz que é chato. "Estudo".
— O de literatura e o de artes são legais. — Kasper comentou — Não sei por que você não continua.
— Porque eu não quero. É simples. — ele disse.
— O que é simples? — Ryan perguntou ao chegar na mesa com Jayden. Ryan sentou ao lado esquerdo de Daisy e Jayden ao meu lado direito, ficando um de frente pro outro.
— Sua alteza real decidiu se juntar à plebe? — Ben questionou a presença de Jayden e aquilo me incomodou de certa forma.
— Um bom monarca anda sempre junto do povo. — ele respondeu e Ben fechou a cara.
— Pensei que um bom monarca gostasse de ficar nadando nas suas riquezas dentro do castelo impenetrável enquanto o seu povo sofre com a miséria. — Kasper disse com um sotaque britânico e uma expressão poética, o que arrancou risadas de todos, menos de Ben.
— E não é isso que vocês fazem na mesa dos atletas? — Ben perguntou a Ryan e Jayden — Digo, mesa do poder absoluto.
— A sociedade moderna critica a monarquia absolutista, mas todos querem uma vida de rei. — Jayden respondeu e voltou a atenção ao prato. Involuntariamente sorri, mas Ben não ficou nenhum pouco satisfeito com aquilo.
— O que a gente faz na "mesa dos atletas" é comer. Olha que coincidência! É exatamente o que vocês estão fazendo aqui. — Ryan disse e também voltou a atenção à bandeja.
3:30 pm
— Vocês estão com alguma dúvida? — a professora Wright perguntou ao se aproximar da nossa mesa.
— Não, professora. Obrigada. — respondi e ela se afastou — Não sabia que você tava nesse grupo, Maya.
— É. — ela respondeu seca sem tirar os olhos do livro. Eu e Kasper trocamos olhares desconfiados e também voltamos nossa atenção aos livros.
— Olha esse capítulo, Ana. — Kasper disse virando as páginas do meu livro rapidamente — Aqui. Literatura Universal. Agora olha o tópico cinco.
— Literatura Brasileira. — li o que estava escrito e aquilo me deixou muito feliz — Que legal. Eu não sabia que vocês estudavam alguma coisa do Brasil aqui.
— É a primeira vez que vejo algo do Brasil em algum livro nosso, na verdade. — ele disse — Quer dizer, além da aparição de vocês nos livros de história a respeito de quando nos ajudaram na segunda guerra. Obrigado por isso.
— De nada. — ri um pouco.
4:30 pm
— Eu não sabia que era só uma hora e meia. — disse a ele assim que saímos da sala — Pensei que fosse mais.
— Ana, acredite, se fosse mais, eu não estaria aqui. — ele disse sério, mas eu ri abertamente.
— Com licença. — Maya disse seca e esbarrou em mim propositalmente.
— O que deu nela? — falei baixo para que só Kasper ouvisse.
— Não sei. — ele disse baixo, mas depois gritou — Ei, Maya, qual o seu problema?!
— Kasper! — o repreendi. Maya, que já estava um pouco distante, parou de andar por uns segundos, mas depois seguiu sem olhar pra trás.
— Ana? — ouvi alguém atrás de nós e me virei — Posso falar com você?
— Claro, Lily. — sorri para ela e nós nos distanciamos um pouco de Kasper.
— Sei que já está tudo pronto, mas vi a necessidade de termos mais ensaios. Um por semana não é o suficiente. — ela disse — Então nós nos encontraremos na casa da Maya toda terça-feira. Você já foi lá? Tem um espaço enorme e ela disse que nós poderemos usar.
Ótimo, pensei.
— Já fui lá sim. — sorri — É uma ótima ideia, Lily.
Não é não.
— Que bom que concorda. — ela disse aliviada — Algumas meninas acharam ruim. Justamente aquelas que não estão tendo um desempenho tão bom quanto as outras.
— E o meu? — perguntei com receio — Se tiver algo ruim, eu posso melhorar.
— Não, não. Você é ótima. Se melhorar, estraga. — ela sorriu e apertou meu ombro — Bom, preciso ir. O grupo de inglês costuma fazer umas revisões e... ah, isso não te interessa. Tchau, Ana.
— Tchau, Lily. — respondi e ela se afastou um pouco, mas logo a chamei de novo — Espera!
— Sim?
— Hm... a Maya comentou algo com você a respeito de mim? — perguntei hesitante.
— Não. — ela disse muito automaticamente e eu levantei uma sobrancelha — Ai Ana... sim.
— O que ela disse? — me aproximei mais dela, curiosa demais para deixar algum detalhe escapar.
— Ela só disse que achou estranho que mesmo você sendo nova aqui, você já se aproximou bastante do Jayden McKee. Ela gosta dele, sabe. Acho que ela tá um pouco incomodada. — Lily explicou.
Um pouco? Ela quase me mata com o olhar.
— Ah sim. Bom, não é nada demais. Espero que ela não fique chateada. — falei sincera.
— Claro. — ela sorriu.
— Desculpa, Lily. Tenho que roubar a Ana de volta. — Kasper disse surgindo do além ao nosso lado e já foi me puxando para longe.
— Hm, tudo bem. — ela disse sem graça.
— Tchau, Lily. — acenei um pouco longe.
— Tchau. — ela acenou de volta e foi embora.
— Pode me soltar agora? — perguntei me virando para Kasper, que ainda segurava meu braço.
— Foi mal. — ele se deu conta e me soltou — É que temos que ir atrás da Daisy antes que ela vá embora.
— Por que?
— Você quer ir de ônibus pra casa?
— Não vejo problema. — dei de ombros.
— Eu também não, mas acontece que a Daisy tem carro e pode nos dar uma carona. — ele piscou pra mim.
— Precisamos de um carro, né Kasper? — brinquei.
— Precisamos. — ele concordou rindo.
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