Baunilha
1 O Primeiro dia de trabalho
Notas iniciais
O brilho dos cristais que enfeitam cada mesa, as cortinas que tocam o teto, a vista do campus do colégio... Será que algum dia vou me acostumar com todo esse exagero? Acho difícil. Pra falar a verdade, ainda não me convenci se essa é, de fato, a melhor escola pra se estar na minha atual condição. Enfim, isso será bom pra minha carreira, esse é o importante!
Apesar de luxuoso, exagerado e estupidamente bem desenhado, esse colégio é muito barulhento. Me pergunto se vou achar algum lugar decentemente calmo pra estudar. Todos esses corredores largos me lembram um pouco de quando ainda estudava com o Arai-kun. Vez ou outra ele me chamava pra caminhar perto do colégio. Obviamente não era bonito assim, mas era agradável. Espero encontrar alguém como ele aqui.
As moças aqui andam como se fossem pra algum tipo de baile, o quão estranho isso pode ser? Elas são muito bonitas também. Não é como se eu quisesse usar um uniforme como esse, só não queria parecer tanto um garoto. Vai que algum idiota acha que eu sou mesmo um menino... Nossa isso seria engraçado e péssimo ao mesmo tempo.
Provavelmente esse é o meu momento de sorte do dia, achei uma sala aparentemente vazia e silenciosa, que paraíso! Estranho ser uma sala de música... Essa escola não faz sentido!
Pelos Céus, eu realmente poderia ter evitado isso. Abrindo a porta me estabaco no chão. Sim, cai de verdade. Não sei o que mais me surpreende o fato de eu estar de quatro e machucada no chão de uma sala de aula, ou por terem seis garotos me encarando com um bom humor muito suspeito.
— Seja bem vinda, senhorita! – Dizem todos juntos. Sério, isso parece um jogo teatral muito mal bolado. – Ah, olá... – respondo meio que cabisbaixa, querendo ou não eles são meio intimidadores. – Droga, é só mais um pivete perdido pela escola. – Ouço de longe. Quem disse foi um garoto ruivo, mal humorado e desagradável. Esse tipo de pessoa me irrita. Ainda tentando me recuperar do fato de ter sido chamada de garoto, e de ter metido a cara no chão no primeiro dia de aula, um garoto vem me ajudar a levantar. Ele é um pouco mais alto que o ruivo, deve ser mais velho. Tem o cabelo loiro e os olhos azuis. Aceito a gentileza, mas mesmo ele tendo esse respeito todo ainda mantêm uma distância grande de mim. É, pelo visto não é só o ruivinho metido a besta que me confundiu com um garoto.
- Desculpa entrar dessa maneira, eu pensei que a sala fosse ta... sabe, vazia.
- Pelo visto você é novato. – comenta o homem loiro.
- Sim, ele é da nossa classe! – Ouço duas vozes falarem juntas. Ah se não é o metidinho! Okay... agora são dois ruivos? Gêmeos, entendi, gêmeos. Eles parecem sentir orgulho de se imitarem.
- Sou da 1 série B e sim, sou novata. Vou procurar um lugar pra estudar, licença. – digo o mais calmamente que consigo. Eu sendo um menino ou uma menina, preciso ter autocontrole.
Aproveito o silêncio de todos e vou saindo de fininho por onde entrei. É realmente difícil evitar olhar para cada um deles. Na verdade é realmente estranho estar aqui. Em que buraco eu fui me meter? Isso parece uma espécie de maid-coffe. Eles estão fantasiados de reis egípcios. Chega a ser mais cômico do que sexy.
- Espere! Você é Fujioka Haruhi, certo? – outro garoto me pergunta. Ele tem cabelo castanho e usa óculos. Parece ser simpático.
- Sim, sou eu.
- Claro que estou certo. – Okay, esquece a parte do “simpático” – Você é o bolsista desse ano, meus parabéns. – Mesmo me dando parabéns, ele parece distante, fechado e irônico. Enquanto estiver aqui vou levar patada, sei disso. Será que essa porta não chega nunca?
- Olá! Eu sou o Mitsukuni, mas pode me chamar de Honey! Sou seu senpai! – diz carinhosamente uma criancinha loira. Porque uma coisinha inocente dessa está aqui? E, mesmo estando à um passo da saída, resolvo dar um pouco de conversa para ele.
- Oi.
- O que está achando da escola?
- Quer mesmo que eu seja sincero? – respondo com um sorriso estilo “eu não quero mentir, mas também não quero ser descortês com você” – isso o faz rir, o que me diz que ele não deve ser tão novo e ingênuo quanto parece. Esse não é o tipo de sorriso que uma criança de 8 anos conheça.
- Entendi o que quis dizer! Mas não desanime, Haru-chan. É só seu primeiro dia de aula. Sei que é difícil se acostumar no começo, mas depois você vai ver como tudo se encaixa. – Ele me confortou sem nem mesmo me conhecer. Quantos anos esse guri tem? Bem, isso não importa, só sei que gostei dele.
- Obrigado. – O meu sorriso de resposta o fez corar um pouco. Imagino que tenha reparado que sou uma garota.
- Quero te apresentar o meu primo! Este é o Takashi! Mas ele não se importa se chamá-lo de Mori-senpai, não é, Mori? – Diz ele ao lado de um gigante, isso mesmo, um gigante! Ele não é lá muito expressivo, mas parece ser o jeito dele.
- Hm. – É, pela resposta ele realmente não faz o tipo “eu adoro conversar” e, pensar isso, me faz rir sozinha. Não sei por que, mas tive a impressão de estar sendo observada por ele o tempo todo. Eu olho, um pouco espantada e perdida, para cima e, sem querer, tropeço no meu próprio pé. Só me faltava essa! Meu coração quase para quando ouço o barulho de porcelana quebrando. É um vaso, um vaso que parecia ser caríssimo! Agora é oficial, vou passar a minha vida trabalhando para conseguir pagar por isso.
- Acho que temos um plebeu endividado. – dizem novamente juntos, os gêmeos.
- Eu sinto muito... Quanto custava isso? Posso reembolsá-los.
- 8 milhões de reais. Pode mesmo pagar por isso? – pergunta ironicamente o moreno antipático. Mas dessa vez não tenho nenhum argumento para contrapor, entro na sala uma vez e já quebro uma relíquia do grupo. Não sei onde enfio meu rosto. E, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, olho para o lado e vejo um dos ruivos se aproximando. Ele põe a mão no meu rosto e eu hesito com o toque. Estava pensando seriamente que esse era o ruivo metido a besta, acho que me enganei. Mesmo pensando que eu sou um homem, seu toque é suave. Ele me estuda com um olhar fixo e nem um pouco agressivo. Chego até a me sentir tranqüila com o fato de ele estar a menos de 20 centímetros do meu rosto. Quem se importa? Aqui nessa sala eu sou um garoto, não há nenhuma segunda intenção nisso.
- Eu tive uma idéia – diz ele após uns 5 minutos me examinando – a pele dele é macia e clara, seus olhos são grandes e seu cabelo é fino, preto, ele me lembra muito uma garota. Podemos usar isso no nosso clube. Há várias garotas com esse tipo de fetiche, afinal de contas, quem não gosta de crianças? – crianças? Que inferno! Quando não sou menino, sou criança? Isso vai me tirar do sério uma hora. Mas eu percebo que ele está querendo me ajudar, mesmo que de um jeito sarcástico.
- Deixe a gente te olhar direito. Abra os braços e fique parado. – Esse deve ser o momento mais estranho do dia, sério! Todos eles fizeram um círculo ao meu redor e estão me observando com cara de “isso é muito sério”. Céus, o que eu fiz para merecer isso?
- Perfeito! Está decidido! – Diz o loiro – Você está no Host Club! Minhas boas vindas a você. Seu trabalho é... Ser o cachorro do clube! – Eu não sei se fico mais incrédula por ter sido chamada de cachorro, ou por todos terem batido palmas como se essa fosse à solução para todos os problemas do universo!
- Cachorro? – Pergunto sem muita expressão.
- Não leve a mal. Você tem uma dívida e, como não pode pagar com dinheiro, vai pagar com trabalho. Se pagar os 8 milhões estará salva da dívida, caso não consiga, terá que trabalha os três anos aqui. – responde o antipático. Eu devo estar muito corada... Eu odeio ser branca por isso.
- Okay. Posso ir agora?
- Claro, mas tem que estar aqui amanhã às 3 horas. Em casos de atraso, dobraremos sua dívida. – meu queixo ta batendo no chão. Como ele pode dizer algo tão absurdo? Dobrar minha divida por causa de 5 minutos de atraso? Esses caras são doidos!
- Acho que você teve preocupações demais por hoje, Haru-chan! – fala docemente o Honey – Até amanha! – E, por algum motivo, aquela voz aqueceu meu coração um pouco mais. Fez parecer que o dia não foi tão ruim quanto poderia ter sido.
- Até amanhã... – respondi com um sorriso verdadeiro! Isso fez todos retribuírem com outro “até amanhã”! Estou me sentindo um pouco mais viva. É difícil admitir, mas eu sentia falta desse “até amanha”. Mesmo que tenha sido por educação, foi bom de ouvir.
Já são seis e meia da manhã, se eu não me apressar, não vou chegar ao colégio antes do sinal bater! Me arrumo quase que correndo, a primeira aula é de física. Ponho a camisa do meu pai, os óculos e o suéter do meu avô, minhas calças de três anos atrás e um sapato social confortável que encontrei no guarda-roupa. Posso não estar uma beldade, mas pelo menos estou vestida. Meu pai ainda está dormindo, deve ter trabalhado até tarde da noite ontem, não o vi chegar. Ele se esforça demais. Bem, o café dele já está preparado, agora é só pegar a mochila e ir. Pensando bem, eu preciso comprar uma mochila nova, essa é grande, mas sempre tenho que carregar alguns livros na mão. Hora de ir!
O ônibus não está muito cheio, dá até pra ler um livro. Eu fico um pouco chocada ao comparar o silêncio do ônibus ao daquela escola! Sério, que maldito lugar barulhento. Como eles estudam? Tanto faz, agora tenho que terminar o ensino médio lá. E, no final das contas, o Honey-senpai me animou bastante.
Droga, já ta quase batendo o sinal e eu me perdi. Pra onde diabos eu vou? Começo a correr desesperadamente pra qualquer lugar. Não tem ninguém disposto a me ajudar nos corredores. O jeito é continuar até encontrar algum funcionário. A mochila ta muito pesada, estou começando a me cansar... É melhor eu tomar cuidado pra não acabar caindo de novo. Resolvo diminuir o passo. Até que, para a minha desgraça, o sinal bate. Inferno! Saio em disparado olhando fixamente para o chão, para me certificar de que não vou cair quando, do nada, eu caio.
- Desculpe! Eu não o vi, estava correndo muito. Desculpe! – tudo o que eu conseguia fazer era me desculpar para sair dali o mais rápido possível. Mas, droga, todos os meus malditos livros se esparramaram.
- Tudo bem, fui eu quem esbarrou em você no final das contas. – Eu senti um som familiar, mas não olhei, continuei catando meus livros.
- Hein, Ha-ru-hi – a voz foi ganhando um tom mais grave, quase sensual, mas gentil. Até que um arrepio percorreu minha espinha. É o ruivo! – Tem que tomar mais cuidado. Não quero você machucado, seu corpo é muito frágil. – Ele parece como um irmão mais velho.
- É... Desculpe por isso. – olho pra cima, querendo me desculpar e, mais uma vez ele está lá, me encarando de perto, com aqueles olhos fixos, exigentes, mas gentis e convidativos ao mesmo tempo. Esse deve ser o tipo de cara conquistador. Eu meio que me hipnotizo por ele, minha boca seca, e eu olhamos inconscientemente, para baixo, mordendo o lábio. Surgiu uma espécie de clima estranho. Nunca senti algo assim, quero que pare. Todo o meu constrangimento é quebrado quando ouço uma risada curta, sincera e na altura certa.
- Não precisa ficar vermelho por qualquer comentário, bobinho. Venha, eu te levo para a sala. Me dê seus materiais. – Ele estende as mãos e cata tudo muito rapidamente.
- Hey, não precisa! Sério, eu consigo levar tudo.
- Não tente me impedir. – Falou ele segurando meu material no topo de sua cabeça para que eu não conseguisse pegar. Ah, como isso me irrita! Odeio quando brincam com a minha altura.
- Pare com isso! – Briguei com ele e, quando me dei conta, ele estava me olhando novamente com aqueles olhos de fogo. Me tomando aos poucos. Ele pôs a mão sobre o meu queixo e passou o polegar na minha bochecha.
- Haru-chan, eu não vou correr o risco de você esbarrar em outra pessoa da forma como nós nos esbarramos. Entende o que eu quero dizer? – afasto-me do seu toque, mas sem desviar o meu olhar do dele. Tenho que manter firmeza.
- Entendi que não quer que eu me machuque certo? – pergunto com o sorriso mais caloroso que consigo dar. Quando abro os olhos ele está boquiaberto. Como meu pai sempre diz, sorrir é a melhor maneira de sair de uma situação difícil.
- Você me surpreendeu. Okay, vamos logo com isso! – Ele me devolve os materiais e me guia até a sala sem perder o seu bom humor ou, devo dizer, seu charme.
Estou feliz por conseguir um lugar na primeira fileira! Dessa forma fica mais fácil fazer perguntas. Apesar de o ruivo ficar ao meu lado. Onde será que está o seu irmão? O garoto chato.
- Hey, Haruhi, pode me emprestar uma caneta? A minha estourou.
- Ah, claro. Aliás, obrigada por hoje mais cedo. Sabe, por ter me ajudado a levantar... – estranhamente eu vi um brilho no seu olhar.
- Sem problemas! Qualquer um faria isso no meu lugar.
- Licença, você não me disse o seu nome. – fico meio sem jeito ao perguntar isso, sabe, eu tive mil chances para fazer isso e não fiz.
- Perdão por isso! Meu nome é Kaoru e o meu irmão se chama Hikaru.
- Okay, obrigada!
A Aula já acabou e o Hikaru não apareceu. Quanta irresponsabilidade! Estamos só no segundo dia de aula e ele já ta com essa postura. Saio da sala rapidamente porque sei que o Kaoru vai querer falar comigo. Ele é legal, mas me faz sentir estranha.
Mesmo reclamando tanto dessa escola, tenho facínio pela paisagem. É tudo tão verde, tão bem desenhado, colorido. Os pássaros voam alto quando o relógio toca. Está na hora do almoço e eu estou sem a mínima fome. Dar uma volta por ai pode aumentar meu apetite. Estou novamente naqueles corredores largos sem ninguém ao meu lado. Da última vez que passei aqui me lembrei do Arai-kun... Mas sinto que finalmente tendi o porquê desse lugar me dar tanta dor e conforto ao mesmo tempo... Enfim, não é tempo para esses pensamentos.
Resolvo me sentar no gramado, junto às flores e ao ar livre. Olho cuidadosamente para cada espaço do jardim procurando algo para matar o tempo e avisto ao longe um pontinho ruivo. Será ele Hikaru? Bem, não faz diferença alguma na minha vida.
Pouco tempo depois eu ouço um barulho de choro, pesado como o de uma criança. Meu peito apertou um pouco pensando que poderia ser o Hikaru e minhas estúpidas expectativas se comprovaram. Ele andou sozinho, meio que enxugando as lágrimas, querendo escondê-las, como uma criança malcriada. Eu vou chegando perto dele, mas ele me lança um olhar de “saia daqui, infeliz”. Talvez não seja a hora certa para falar com ele. Por sorte o Kaoru veio correndo encontrar o irmão. Consolo ele vai ter. Kaoru me lança outro olhar em troca, algo como “obrigada por se importar”. Ele é gentil, devo tê-lo julgado mal.
Enfim estou eu no Host Clube de novo. É um peso voltar aqui. E, para a minha surpresa, os rostos dos garotos estão muito alegres! Já gravei seus nomes: Honey-senpai, Mori-senpai, Hikaru e Kaoru. Bem, os gêmeos ainda não voltaram. Tamaki-senpai vem correndo na minha direção com um uniforme masculino do colégio. Eles parecem estar bem animados com o dever de “me adestrar”. Resolvo entrar no jogo sem questionar.
- Haruhi! Venha aqui provar esse uniforme. Você deve ficar deslumbrante para começar seu dia de trabalho. – diz o loiro alto.
- Okay, já volto. – a roupa é complicada de por, além de ser muito mais quente e apertada que o suéter do vovô. Ricos têm a necessidade de inventar moda onde não precisa.
- Você está maravilhoso! – parece que recebi a aprovação de todos os garotos ali.
- Agora só falta um corte de cabelo decente e umas lentes de contato. Honey-senpai consiga as lentes, por favor!
- Sim senhor!
- Cadê aqueles gêmeos malditos quando precisamos dele? Kyoya, sabe onde estão? – Ah, então o nome do antipático é Kyoya... O nome combina bastante com ele.
- Não, só sei que estão atrasados. – Responde mal humorado.
- Senpai... Qual é o seu nome? – pergunto me referindo ao loiro que quase cai duro no chão de tanta culpa.
- PERDÃO! Oh, meu pequeno cãozinho, tenho sido um pai tão mal para você... Meu nome é Tamaki, mas pode me chamar de papai, sou o rei desse clube! – Nunca imaginei que pudesse me arrepender tanto por ter feito uma pergunta simples assim. Esse é desesperado, exagerado. Mas é engraçado, singular. Agora, porque diabos ele me chama de filha e cachorro? Talvez demore um pouco até eu entender esse novo mundo.
Eu estou começando a me acostumar com o novo uniforme. É legal usar gravata. Tamaki-senpai me ensinou algumas dicas de etiqueta masculina e sobre como conseguir o amor das mulheres. Isso soa tão comercial, mas é a verdade, é isso o que eles fazem o dia todo. Logo as moças vão começar a chegar. Vai ser bom interagir com elas, ao menos até eu ter que dar em cima delas. Eles não têm nada melhor pra fazer? Enquanto me concentro nas aulas com o “senhor rei do host clube e conquistador de corações”, percebo quando os gêmeos chegam de mancinho pela porta e se dirigem ao banheiro. Hikaru ainda está cabisbaixo e o Kaoru está com o braço em volta do seu pescoço.
-Kyoya-senpai, que horas começa a funcionar o Host Club? – pergunto hesitando um pouco, afinal de contas, ouvi dizer que seu apelido é príncipe das trevas.
- Normalmente é a partir das 3:30 hrs da tarde, mas como hoje temos uma estréia, começará às 8. – Ele é sempre tão curto e frio quando responde. Pelo que será que ele já passou para se tornar assim?
- Obrigado.
Vejo de longe o Honey-senpai saborear um bolo. Acho que é de morango ou cereja. Ele é tão fofo! Mori-senpai está sempre ao seu lado, é como um porto seguro creio eu. Os dois são o tipo de pessoa que me inspira, uma família unida. Ele percebe que estou o observando e me chama para provar um pedaço e, só agora, percebo que não almocei! Meu estômago ronca alto e o meu pequeno senpai abre um sorriso enorme.
-Venha cá, Haru-chan! Eu tenho mais um pedaço, venha comer conosco!
-Obrigada. – O bolo está realmente maravilhoso! É molhadinho e com pedaços de morango por dentro. Aquele tipo de bolo que só se come em festas de aniversário e formaturas. Já o Mori-senpai não parece gostar muito de doces.
- Senpai, quantos anos você tem? – perguntei meio que por impulso, sem me preocupar em repensar nisso. Talvez eu tenha o machucado com isso, não sei. Meu mundo se tranqüilizou quando ele me olhou sorrindo.
- Tenho 18! E você, Haru-chan? – Estou contendo meu choque, pois já havia percebido que 8 anos ele não tinha nem aqui, nem na China. Mas mesmo assim... 18 anos é muita coisa!
- 15, faço 16 no meio do ano. – respondo com um sorriso nervoso.
Aparecem novamente os gêmeos, já estão recompostos. Hikaru ainda mantêm sua cara de quem comeu e não gostou, mas aparenta estar bem e satisfeito consigo mesmo. Os dois vão andando na direção de Tamaki-senpai, devem estar falando de algo sério. Ao terminar o bolo agradeço ao Honey e vou em direção às mesas, tenho que deixar tudo pronto para mais tarde.
-Haruhi, Hikaru e Karou, venham aqui! – Tamaki-senpai grita suavemente, se é que isso é possível, para nós. – Gêmeos, quero o Haruhi com um cabelo estilo indie, algo mais ousado, mas com um tom de “sou mocinho e não sei o que estou fazendo”. – Eles pareceram entender a mensagem, apesar de eu continuar chocada. Que tipo de descrição é essa?
-Fique quietinho, não queremos machucar você – Diz Kaoru no meu ouvido. Porque ele me provoca tanto? Eu sou um cara para ele. Isso é estranho, mas deve estar só brincando. Hikaru lança um olhar mortal para ele quando diz isso.
- Não vou me mexer. – E, por alguma razão, essa fala parece afetar o Hikaru e deixá-lo vermelho. Não sei se de raiva ou de nervosismo. Deve ser por estar cortando o cabelo de outra pessoa.
- Lá vamos nós – Dizem juntos. Eles tocam meu rosto com os dedos, direcionando minha cabeça com cuidado. Sempre percebo um olhar diferente vindo de Kaoru, o que me faz corar um pouco. Ele me constrange. O toque de Hikaru é diferente, é mais inseguro, forte, mas inseguro. É como se não tivesse o costume de fazer isso. Ele está com os olhos muito distantes. Acho melhor olhar só para frente. Isso, para frente é melhor. O cabelo está ficando bom!
- Ai! – Digo sem conseguir controlar – Meu rosto está sangrando.
- DESCULPA! – vejo o desespero na voz de Hikaru. Ele sai correndo atrás de uma toalha. Limpa meu machucado na pia e depois cuida do ferimento.
- Não quero que deixe nenhuma cicatriz.
- Tudo bem, eu estou bem! – Tento acalmá-lo. Porque ele está tão nervoso? Sua cabeça parece girar à mil por hora. O que se passa nessa cabecinha? Ele tem um toque gentil, apesar de tudo.
- Claro que está! Estou cuidando de você para você ficar bem. Se você ficar com alguma cicatriz o Kyoya me mata e terei que pagar a sua dívida. – Então essas são as reais intenções dele! Porque acho que não? Deve ser coisa da minha cabeça. Ele está pressionando muito o remédio, está machucando um pouco.
- Está tudo bem, Hikaru! – seguro sua mão para evitar que ele derrame mais remédio e sinto meu rosto esquentar. Nós dois coramos como duas crianças constrangidas. – Sinto muito por isso... – Ele tira a mão e olha para baixo, assim como eu. Estamos no banheiro e ele me encara novamente.
- Eu não sou o Hikaru.
- Sim, você é. – Essa afirmação pareceu chocá-lo um pouco, talvez pela minha ousadia. Mas ele não deu muita bola, acho que resolveu ignorar. E, enfim, termina de cortar meu cabelo.
Hora de trabalhar! Estou pronta para atender mil garotas. Apesar de o meu coração estar um pouco acelerado. Elas vêm chegando aos poucos e se sentando. São bem exageradas, combinam bem com os membros do clube. Eu sou escolhida por muitas, obviamente por ser a novidade e não por beleza ou outra coisa do tipo. Elas sentam ao meu redor, esperançosas e os outros hosts me observam.
-Fujioka-kun! Sou a Tonaka e quero que você seja o meu anfitrião para sempre! – seu sorriso e sua ação me assustaram bastante, mas mantive a linha dura. Talvez não seja tão fácil lidar com esse tipo de situação.
- Oi... Como vocês estão?
- Bem... – Isso não está dando muito certo... Eu realmente não levo jeito para isso. As garotas estão começando a ficar incomodadas com o silêncio na mesa. Uma a uma foi se levantando e saindo. Nunca estive mais nervosa, se eu não conseguir pagar essa dívida, meu pai irá ser uma vítima do meu erro também. Okay, talvez respirar fundo seja uma boa opção.
-Olá, sou a Yue. – A voz é suave e autoconfiante. – Seu rosto é delicado e seus olhos são grandes, tem noção do quão bonito você é, garoto? – Isso me deixou feliz! Não pelo elogio, mas por ela ter puxado assunto.
- Obrigado... Você também é muito bonita.
- Conte mais sobre você. – Ela pede com um sorriso bem desenhado na linha da boca, parece uma triz.
- Bem, meu nome é Fujioka Haruhi, moro com meu pai, sou novato nessa escola, pretendo cursar direito, adoro cozinhar, ler e cuidar de gatos.
- E a sua mãe? – É impossível responder essa pergunta sem sentir um peso cair nas minhas costas. Talvez isso nunca passe, mas ainda assim, é essa saudade que prova que um dia ela existiu e foi tudo pra mim.
- Bem, minha mãe me criou até os meus 8 anos de idade. Ela faleceu por uma doença chamada câncer. Como eu era muito pequena, meu pai não me contou os detalhes, ele sempre foi ótimo para mim, sempre me poupou das situações difíceis para me animar. Minha mãe... Ah, ela era a mulher mais bonita do mundo. Inteligente, forte, bonita, animada... Ela foi tudo o que eu quero ser. – Algumas garotas começaram a querer chorar e, antes que eu percebesse, todas as moças estavam ao meu redor, me ouvindo falar. – Olhem uma foto dela – pego meu celular e mostro uma foto de nós duas.
- Aaaaawn! – ouço isso de todas juntas.
- Não fiquem tristes com essa história, por favor! É claro que eu sinto falta dela... Mas foram tantos os momentos bons, entendem? Lembro de quando ela estava internada, meu pai e eu cozinhávamos as receitas que ela havia criado para levar ao hospital. Nunca vou me esquecer desses dias. Me sinto um verdadeiro sortudo por tê-la conhecido! – sorrio com a mais profunda alegria e tranqüilidade que já senti.
- Fujioka, você é mais profundo do que aparenta. – Essa Yue é bonita e sincera, ela me faz sentir a vontade.
Parece que minhas palavras trouxeram a comoção de todos aqui. Elas sorriem com os olhos cheios d’água e os hosts me encaram com uma espécie de sentimento, emoção, algo que eu não entendo muito bem. Como se fosse um respeito. Kyoya está sorrindo, sim, sorrindo! Ah sim, deve ser pelo dinheiro arrecadado.
Passei o resto do turno conversando com as meninas sobre várias coisas, por exemplo, escola, família, trabalho, receitas, séries e livros. Foi engraçado e agradável! Até me esqueci que sou um menino para elas. Quando acabou, Yue foi a última a se despedir. Perplexos, todos os hosts me encararam mais uma vez.
-Hoje nós duplicamos nossa renda. – afirma Kyoya.
- Eba! Eu disse, meu filho é como o papai! – precisa mesmo dizer quem está falando?
- Haru-chan, parabéns! – gritava o pequenino.
-Hm. – concordava Mori.
— É isso ai, Haru-chan! – Kaoru também me parabenizou.
- Haruhi... Parabéns. Pelo menos você conseguiu algo de útil da sua vida. – diz Hikaru sarcasticamente. Mas eu realmente não me sinto ofendida, irritada, mas não ofendida! Pelo menos ele interagiu e olhou um pouco para fora de sua bolha.
Será que todos os meus dias serão assim? Um superando o outro? Esse lugar cheira como bolo quente em um dia de inverno. Algo que se quer guardar sempre um pouquinho para mais tarde. Okay, acho que to viajando! Deve ser o sono, melhor eu ir pra casa.
-Até amanha, pessoal!
- Até amanha!
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