Baunilha

2 A Nova Intimidade


Notas iniciais
Obrigada à todos os leitores, desejo-lhes uma boa leitura!

É difícil acompanhar a didática daqui. Não completei nem a primeira semana e já estou com uma enxurrada de dúvidas. Os professores são excelentes, mas a qualidade de ensino é muito diferente da minha antiga escola. Estive pensando nela durante essa manhã. Me dei conta de tantos momentos que podia ter aproveitado mais, pessoas para quem devia ter dado mais valor. Deve ser isso o que chamam de nostalgia. Talvez essa multidão de sentimentos seja só uma conseqüência da estranheza que esse lugar me trás. Esses bastardos ricos!

Já tive sete aulas, estamos em horário de almoço. Me impressiona como o restaurante do colégio pode ser tão fino. Fala sério, é só um colégio! Mas, provavelmente, eu só estou reclamando porque não posso pagar. É, deve ser só dor de cotovelo. Preparei minha comida ontem pela noite, não é nada de especial, são apenas dois onigiris, mas que devem estar deliciosos!

Enquanto aprecio meus bolinhos coloridos, observo meu professor de biologia se aproximar. Ele é engraçado, apesar de odiar o primeiro ano. Talvez isso seja só um charme ou uma maneira de chamar a atenção dos alunos. Ele abre um sorriso amarelo e meio desconfortável e lança na minha direção. Puts o que foi agora?

– Olá, Fujioka-kun! Como está? – Ele se sentou na minha mesa e começou a mexer compulsivamente os dedos, como uma espécie de mania nervosa – Eu andei conversando com a coordenação e nós temos que avaliar alguns pontos no seu desempenho, okay?

– Estou bem, obrigada. Okay... – O que mais eu poderia responder para uma pergunta como essa? Meu queixo está um pouco trêmulo, me deixa um pouco nervosa o fato de estar sendo posta contra a parede por um professor praticamente desconhecido.

– Você não parece estar assimilando a matéria, além do mais, é um bolsista e deve ser o primeiro da classe para continuar estudando aqui. Não quero perder um aluno bom como você. Por isso procurei a coordenação e expus seu caso para outros professores. Por sorte seu problema parece ser só em relação à biologia! Porque nós não marcamos um ou dois plantões pela tarde durante a semana? Apenas nós dois.

– Isso vai ser ótimo. Obrigado. – Respondo friamente, não gosto nem um pouco desse tipo de situação, apesar de ser justa e necessária. Sua expressão é séria, o que faz sua testa enrugar um pouco. Independente do que eu sinto agora, foi uma gentileza dele vir aqui. Por isso dou-lhe o meu melhor sorriso.

– Que bom que estamos combinados! – seu olhar se tranqüilizou.

Quando o professor está quase se retirando, ouço passos vindo em nossa direção. São passos combinados, parecem ser até mesmo de uma só pessoa. E, antes que eu pudesse tomar qualquer atitude, estou olhando dentro daqueles olhos dourados de Kaoru. Imagino o quão difícil é encontrar olhos com essa tonalidade... Com essa hipnose. Mas há algo diferente. Não vejo mais aquele lado obscuro, talvez sensual, quente, mas não perverso. Talvez haja até um tom de preocupação e alegria, muita alegria.

– Oi! – Dizem os dois ao mesmo tempo. – O professor rapidamente se levanta e cumprimenta os rapazes. Tentando mostrar-se íntimo dos dois estende uma mão para cada um e chama-os pelos nomes. Me dói ouvir os nomes errados. Será que é tão difícil saber quem eles são? Os rostos deles não se alteram, é como se já estivessem acostumados com esse tipo de situação, blindado. O quão difícil foi a vida de vocês?

– Então, Hitachiin, estamos com um problema sério aqui. Vocês são colegas de Haruhi, certo?

– Com certeza! – diz Kaoru com um sorriso grande e convidativo.

– Vocês são os melhores alunos da sala na minha matéria e o Haruhi está com dificuldades. – NÃO! Por favor, professor, não faça isso comigo. Quanta humilhação, eu não preciso da ajuda deles de forma alguma. Meu rosto cora durante a situação e vejo que o Hikaru percebe.

– Eu posso ajudar. – O Hikaru respondeu antes que o Kaoru. Foi uma resposta seca, curta, mas carregada de muitas expectativas. Ele é sempre tão fechado e excluído, talvez esteja interessado na minha amizade, no que eu tenho a oferecer para ele. Apesar disso, essas foram suas ultimas palavras do dia.

– Perfeito! Haruhi esteja lá em casa às 9 da manhã, vou te dar nosso endereço no final do Host Club. – Kaoru é sempre um cavalheiro, parece feliz e disposto a me ajudar.

Meu coração se aquece um pouco mais com a doçura na voz do meu pequeno amiguinho. Ele vem correndo e se joga contra os meus braços. Por mais rápido que seja o contato, é sempre um conforto que vem de graça. Talvez seja por isso que eu atribuo tanto valor ao abraço.

– Haru-chan, você não vai acreditar no figurino separado para hoje! – Dizia ele em um tom de voz controlado, olhando em meus olhos e sorrindo como se tivesse ganhado um doce de um desconhecido.

– Então me conte! – Procuro sempre retribuir o carinho dele com mais carinho ainda.

– Vamos nos vestir de Hobbits! – Assumo que essa proposta me fez cair na gargalhada, o que atraiu todos os olhares do salão para mim. – Não gostou da idéia? – Perguntava com os olhinhos cheios d’àgua.

– Não! Não é isso! É só que é engraçado imaginar o Mori-senpai ou o Kyoya-senpai vestidos como seres menores que anões. Quero dizer, eles são altos e magros, não faz muito sentido. – Novamente esse pequenino me surpreende rindo junto de mim mais uma vez. Estava até um pouco constrangida por estarem todos me olhando, mas agora está tudo bem, consegui me explicar.

– Acho que me expressei mal, Haru-chan! Só nós dois vamos de Hobbit, os outros vão se fantasiar de outros personagens. Olha só, o Hikaru e o Kaoru vão de anões, o Mori vai de mago cinzento, o Tama-chan vai de elfo e o Kyoya vai de Sauron! – Me deu uma vontade quase incontrolável de rir quando ouvi que o Kyoya-senpai faria o Sauron. Céus, é tão a cara dele ser o vilão!

Todos parecem concordar com a idéia. Em pouco tempo as moças vão começar a chegar e eu não quero fazer feio. Querendo ou não, esse é o meu trabalho. Me dirijo para o vestiário, a fantasia parece ser difícil de pôr, por isso é melhor começar já.

– Onde está o Haruhi? – Hikaru pergunta secamente.

– Trocando de roupa ali. – Aponta Kaoru com brilho nos olhos.

Não da pra ouvir muito bem o que eles falam lá fora. O barulho mais compreensível é o choro do Tamaki! Kyoya-senpai deve ter feito algo para chateá-lo. Esses meninos são até engraçados. Assumo que meu coração parou no instante em que ouvi o ranger da porta atrás de mim. Ao olhar para trás encontrei olhos dourados perplexos olhando direto para mim. Encarando meu corpo, minhas poucas curvas, meus seios, meus olhos. Não com maldade, mas com surpresa, choque. Me senti um alien, mas a culpa não foi dele. Antes que eu pudesse me desculpar por não ter trancado a porta, ouço-a sendo fechada. Céus, quantos segundos essa cena levou para acontecer? 40? Isso foi rápido, mas um pouco assustador.

Ao sair do vestiário vejo Hikaru corado e olhando fixamente para o livro em sua frente. Pela forma como está, não deve estar lendo nada, apenas desviando o olhar do meu. Ele foi o primeiro a me ver e isso me cora um pouco também. Estava apenas de calça e sutiã. Ah Haruhi, custava ter prestado um pouco mais de atenção? Pelo modo de agir dos outros, mais ninguém parece saber que sou uma garota. Os únicos que sabem são Hikaru, Honey-senpai e, possivelmente, Kaoru. Mais tarde vou ter uma conversa com o Hikaru... Será que amanhã seria melhor? É, acho melhor deixar para amanhã. Já estamos no meio da tarde, logo começarão os trabalhos e ainda está tudo muito recente. Ele parece ocultar o acontecido, vou fazer o mesmo.

– Haru-chan! A roupa caiu direitinho no seu corpo! – Ah, como esses olhinhos brilham.

– Obrigado, senpai! – Ele aproveitou eu ter saído de lá para se trocar também. A roupa é quente e cheia de pano, pelo sintético e cordões. Mas nada disso realmente importa, eu sou uma grande fã da trilogia, apesar dos Elfos serem a minha raça favorita.

Todos estão prontos para começar! O Tamaki-senpai está me deixando um pouco constrangida com a sua roupa. Talvez pela raça que ele escolheu, não sei. Sua roupa é toda branca, com longos tecidos e alguns detalhes em verde musgo e dourado. Está bonito, muito bonito. Ele vem sempre jogando seu charme para cima de mim, sou seu aluno, filho e cachorro. Romântico, não?! Por mais estabanado e exibicionista que ele seja, da pra perceber que ele tem um bom coração.

– Sejam todas bem vindas, minhas belas damas! – exclama o príncipe dos Hosts e as garotas derretem como manteiga ao sol. Ele pode ser bonito, mas não chega a esse nível, aliás, o único capaz de me fazer derreter aqui é o Honey.

Os trabalhos começaram e as garotas parecem não entender muito bem de onde são as fantasias, mas ainda assim gostam muito. Foram muito bem feitas. Enquanto eu me preparo para receber as minhas clientes, Yue se aproxima com um sorriso enorme.

–Olá Funjioka-kun! Espero que goste de minha companhia, pois escolhi ser sua cliente por toda essa semana. – É um pouco difícil e constrangedor compreender essa perseguição dela.

–Ah... Olá! – Algumas garotas acenam para mim sorrindo, elas são gentis. – Sobre o que quer conversar hoje, senhorita Yue-san?

– Não seja tão palhaço! – Ela me lança um riso elegante e curto – Pode me chamar de Yue, dessa forma seremos amigos, certo?

– Okay Yue! Como foi seu dia?

– Ótimo! – Ela faz o tipo de pessoa inteligente.

– Foi bom também, apesar de eu estar tendo algumas dificuldades em biologia.

– Eu posso te ajudar com isso! Sou excelente. – Ela afirmou isso com tanta certeza que cheguei a me assustar com sua autoconfiança. Há também um brilho do seu olhar diferente dos que eu conheço.

– Ah não, obrigada, mas o Hikaru e o Kaoru já vão me dar suporte amanhã. – Automaticamente o seu sorriso desaparece e eu vejo um olhar ser lançado na direção dos dois, mas prefiro ignorar.

– Entendi. Se precisar de mim, sempre estarei à sua disposição.

No mais eu acabei por atender apenas ela. Foi bom. Eu servi café e chá para todos, o salão não é tão grande, então não fica algo muito cansativo. O Hikaru continua sem olhar diretamente para mim, mas vez ou outra percebia o Kaoru e a Yue trocando farpas. Será que eles não se dão bem? Enfim, depois que a Yue saiu, eu pude conversar com outras meninas, sem cobrar nada, apenas para ter uma dose de feminilidade. Os garotos atendiam uma garota ou outra, a preferência está sendo toda para mim. Eu sou a carne fresca.

Depois de fechar o salão e trocarmos de roupa, eu me dirijo à saída, mas o Tamaki-senpai me impede sorrindo. Ele voltou ao normal, então não estou mais corada que o comum.

– Filhinho venha cá! Hoje você foi esplêndido com a senhorita Yue-kun! Além do que, você fica realmente bonito de Hobbit. – Ele tem uma risada contagiante e anda sempre alegre. É como um Honey gigante e melancólico... Ah, narcisista também! Será que ele realmente não entendeu que sou uma garota? Quero dizer, ele tem mania de me abraçar. Estou tão cansada que meus pensamentos começaram a falhar. Meus olhos escureceram e meu mundo girou de uma só vez

–Haruhi, você está bem? – Abro os olhos mais uma vez e encontro jóias violetas me encarando cuidadosamente. Me sinto confortável, como se estivesse deitada em um sofá feito para mim. Sua mão toca de leve o meu rosto, procurando encontrar nos meus olhos a explicação da minha queda. Após um meio minuto recupero a consciência. Sim, esse é o meu senpai, estamos tão próximos que não consigo evitar o brilho nas minhas bochechas. Estou sendo segurada como uma princesa e, levando em consideração o fato de eu ser um garoto para ele, isso se tornou muito gay de uma hora para outra. Quando ele percebe a nossa situação acaba corando também, e nos separamos.

– Uhum... Só estou um pouco tonto, nada demais.

– Você comeu hoje? – É perceptível o tom de preocupação em sua voz.

– Comi um onigiri no almoço. – Estou sendo sincera, comi o suficiente, mas novamente vejo seu rosto perto do meu.

– Haruhi! Como pode comer apenas um bolinho e se sentir forte por um dia todo? Venha, vai jantar comigo hoje. – Ele parece irritado e gentil ao mesmo tempo, é confuso. Além do mais, nenhum garoto nunca me chamou para jantar.

– Hm, acho melhor não.

– Eu disse que você tinha opção, baixinho? – Ele sorri novamente para mim e eu sinto uma enorme vontade de corresponder. Está lembrando o meu pequeno Honey.

Do outro lado da sala eu sinto um ar pesado, o olhar de Hikaru e de Kaoru na minha direção são frios e cheios de uma emoção indecifrável. Resolvo olhar novamente para Tamaki e ele parece cheio de boas intenções. Porque não aceitar?

– Okay, mas preciso estar em casa às 10. – Seu rosto ficou radiante.

Estou indo direto para o carro dele. É grande, preto e confortável! Ele se sentou à minha frente e está sorrindo o tempo todo. Deve haver algum plano por trás desse brilho todo. Está chovendo e o barulho das gotas na janela me trás certa nostalgia.

– Heeeey, onde está essa sua cabeça? – Ele está com os cotovelos apoiados no joelho, a cabeça inclinada para mim e com um sorriso bobo. Parece feliz, animado. – Vamos, Haruhi, me conte mais sobre você. – A única coisa que consigo pensar é sobre como seu rosto fica bonito com essa luz fria batendo nele. Mantenho a compostura e continuo a conversa.

– Desculpa! Eu só estava lembrando de alguns momentos da minha infância. – tento encerrar o assunto, mas é uma tentativa falha. Essa daí quando quer uma coisa, consegue.

– Nada disso. Eu quero te conhecer. Quero dizer, você está conosco há pouco tempo e não faz o tipo expressivo. É como um livro esperando para ser lido.

– Não seja tão profundo – Dessa forma eu me sinto constrangida – eu só estou um pouco pensativa.

– Okay. Quando eu era pequeno, gostava de correr na chuva. Pra falar a verdade, gosto até hoje! – surge um sorriso ainda maior no seu rosto ao ver a minha surpresa – Minha mãe nunca me deixava correr e brincar por ai. Dizia sempre que eu adoeceria e que seria difícil cuidar de mim. Já meu pai, sempre me acobertava e depois me defendia para a minha mãe. Não tenho muito do que reclamar! Só sinto falta de momentos como aquele. – É fácil sentir a sinceridade dele. Tudo é tão transparente, tão convidativo e confiável.

– Entendo...

– Não precisa me falar nada se não estiver confortável.

– Bem... A chuva na janela faz um som gostoso. Quando a minha mãe estava no hospital e eu ia dormir com ela, me lembro de chover quase todas as noites. Ela me embrulhava no seu lençol e me contava histórias de princesas e gladiadores. – Ele está me analisando, captando cada sinal meu. Sabe, ele parece ser um bom amigo, pelo menos um bom ouvinte.

– O que realmente aconteceu com a sua mãe?

– Ela teve uma espécie rara de câncer, os médicos queriam enviá-la para os Estados Unidos para ser estudada. Obviamente meu pai negou a pesquisa! Já é tortura demais está destinada a morrer dentro de um hospital, mandá-la passar por isso tudo... Ah, ela não merecia isso, ninguém merece. – Eu me esforço para conter as emoções e consigo, mas ainda assim minha fala sai mais fina que o normal.

– Eu te entendo, Haruhi. – O brilho nos seus olhos escureceu um pouco, como se sua mente estivesse vagando por ai – Minha mãe também tem câncer. Ele atacou a bexiga dela e, por isso, vive de repouso em casa ou internada em algum hospital. Está na França, lá o tratamento para esse tipo da doença é mais avançado.

– Sinto muito... Mas não se entristeça. Quero dizer, ela ainda está viva para ouvir você dizer que a ama, ou para sentir o seu abraço. – A surpresa e a felicidade voltaram rapidamente para o estado de espírito do senpai.

– Obrigada! Aliás, o que você quer comer?

– Qualquer coisa.

– Okay, eu ouvi comida mexicana? – Então esse é o Tamaki brincalhão.

– Sim, você ouviu comida mexicana! – É praticamente impossível não cair na onda dele. Ouço-o falar rapidamente para o motorista o nome do restaurante.

Aqui é bonito, tem uma luz amarelada que deixa você se sentindo mais bonita! As pessoas estão bem vestidas e nós dois de uniforme. Olham para nós como se fossemos de outro planeta. Definitivamente as pessoas pensam que eu sou um garoto, que @#$*&. Ele escolheu uma mesa afastada, na quina do restaurante e, obviamente, é o melhor lugar daqui. Não faço a menor idéia do que pretendo comer.

– Já decidiu o que vai pedir? Posso pedir para você, se quiser.

– Ah obrigada. – é um tanto difícil admitir não ser capaz de escolher um prato de comida. Ele se dirige ao garçom e pede uma série de coisas, pelo visto já é rotineiro dele vir aqui.

A comida não demora muito para chegar, está quente. Meu estômago vazio quase pula para cima do prato. O sabor apimentado deixa os meus sentidos mais aguçados, por isso procuro comer só um pouco. Ele parece corado e envergonhado, algo o está incomodando, o que não é muito típico dele. Me impressiona como ele se sente confortável no próprio corpo. Seus olhos fogem um pouco dos meus e começo a desconfiar que talvez a vermelhidão seja conseqüência da pimenta!

– Haruhi, está gostoso?

– Sim... Obrigada. – Porque essa situação soa tão desconfortável?

– Que bom! – Seu sorriso é confortável e me acalma um pouco. Não é nada fácil comer com alguém que você não tem intimidade.

– Ah! – ouço um grito abafado vindo de Tamaki. Ele acabou de derramar toda a travessa de molho quente no seu uniforme. Céus, como ele pode ser tão desastrado? Sinceramente...

– Aah... Sinto muito, Haruhi! O meu uniforme está quente e ensopado. – O vermelho na sua camisa é quase tão intenso quanto o das suas bochechas. É, talvez eu esteja sendo dura demais com ele.

– Precisa de ajuda?

– Sim! Tem como você vir comigo no banheiro para eu me lavar? – Eu hesito um pouco... Ir banhá-lo? Bem, isso não passa de um ato inocente, afinal de contas eu sou um cara.

– Okay.

O banheiro é exageradamente grande. Que tipo de restaurante tem chuveiros? Estou tirando sua camisa aos poucos, o molho marcou muito a sua pele, ela está rosada e sensível por causa do calor. Ele tem um perfil definido, evito ao máximo encarar. Sinto seus olhos me seguindo e observando cuidadosamente. Encosto-o na parede e deixo a água escorrer sobre a sua pele. Seu cabelo loiro intenso torna-se castanho, o que destaca seus olhos violetas. A camisa branca caída sobre seus ombros e a calça começam a ajustar-se no seu corpo por causa da água. Ele está lindo... Não sei se lindo é uma boa palavra para expressar isso.

Com minha mão trêmula, procuro o sabão na prateleira e passo com cuidado sobre a sua pele. Está escorregadia, mas ainda assim macia. Começo pela barriga e vou subindo. O fato de ele estar imóvel me aflige um pouco! Isso é algo que um amigo faria? Ao passar o sabão na queimadura ele contrai o corpo, então deixo o produto de lado e desço a camisa dos seus ombros, até cair no chão. Ele encostou a mão no vidro atrás de mim, me prendendo contra a parede. Nossos rostos estão assustadoramente pertos e ele não demonstra nenhuma reação. A única coisa que sou capaz de fazer é desviar o olhar do dele. Minha pele está quente e eu consigo sentir o calor da sua respiração contra a minha pele. Como os meus sentidos estão sensíveis... Deve ser a pimenta, sim, a culpa é da pimenta! Antes que eu pudesse voltar a olhá-lo, ele toma certa distância de mim, me olhando com cuidado.

– Você me confunde, Haruhi. – É difícil identificar suas emoções, mas as minhas também estão uma bagunça. Fico imóvel observando ele sair do Box molhado, sem se preocupar com nada e indo direto para o restaurante. O que eu fiz de errado? Algumas lágrimas brotam em meus olhos, mas resisto. Saio um pouco depois dele e o encontro pagando a conta no caixa. Ele parece distante, distraído. Vou até ele na intenção de amenizar as coisas entre nós. Fui ignorada. Droga, onde meti a porcaria da minha carteira? Lembro de tê-la tirado para separar o dinheiro da minha parte. Volto à mesa e não encontro nada. Nenhum garçom a viu. Lá tinha todo o meu dinheiro do mês...

De volta ao carro, ainda não nos comunicamos. Ele é educado comigo, mas não disse nada desde que saímos daquele banheiro.

– Tamaki-senpai... – Seus olhos continuam olhando o mundo pela janela, mas ainda me manda um “hm” como resposta. – Você viu a minha carteira? Lembro de tê-la deixado na mesa, mas ela sumiu. – finalmente consigo sua atenção. Ele põe a mão no bolso e a tira, me olhando como se sentisse dor. Quando está prestes a me entregar a porcaria de um quebra molas balança o carro e tudo vai por água a baixo. Nossas testas se batem, o que machuca muito, e resolvo me encostar um pouco no banco para me acostumar com a dor. Ao abrir os olhos fito o Tamaki incrédulo. Ele está encarando a minha carteira como se fosse a prova de um crime. O que diabos ele quer com isso? Ah não...

– Haruhi... Haruhi, você é uma... garota? – Ele está boquiaberto e de olhos arregalados, parece um tanto pálido também. – Quero dizer, desculpe por ver sua carteira, ela caiu aberta na sua identidade... Haruhi... – não sei onde enfiar a cabeça...

– Sim, senpai... Eu sou uma garota. – Essa frase fez os nossos sentimentos entrarem em um nível insano de erupção. Finalmente nos tocamos do que aconteceu... Droga... Droga... Droga...

– Entendo. – Essa foi a sua última fala do dia.

Notas finais
Espero que tenham gostado, fiz com muito amor e dedicação. Este capítulo foi um pouco menor que os de costume, mas ainda assim não perdeu a essência. Os comentários são de grande ajuda para o escritor, tanto para o estímulo, quanto para a análise crítica da obra. Fiquem com o meu carinho e até semana que vem!