Bater de Asas
7 7. Olhando o Vale.
Notas iniciais
Depois de mais ou menos ter dormido com o Zack, acordei sendo cutucada com a ponta de um chifre no rosto, Zack dormia encostado no meu ombro, por um momento ele parecia calmo e sereno, oque não era o normal dele, não me mexi, penso que ele deve estar bem cansado já que passou dias pensando em trocar curativos e limpar sangue, fiquei lá, um tempo apenas olhando, até que ele vai escorregando e deita no meu colo, sem perceber ele puxa a coberta e se ajeita, dou uma risada por dentro pensando no sono pesado que ele tem.
Com a mão esquerda, abaixo lentamente até encostar no cabelo dele, ele mexe um pouco e permanece deitado de lado de costas para mim, começo a fazer carinho desde a base de um dos chifres, até a frente da orelha, meu coração palpita, até que ele puxa minha mão contra o peito dele, fiquei olhando para saber se ele estava acordado, parece que foi involuntário ou talvez não, ainda estava de madrugada então adormeci.
Acordei com Zack soltando minha mão e sentando, ele parecia tentar entender, sem dizer nada tirou a coberta, ainda sentado do meu lado.
— Você deveria ter dormido na cama.
Ele esfrega um dos olhos.
— Falei que não deixaria você dormir no chão.
Acredito que ele ignorou o fato de ter dormido abraçado com minha mão, mas eu não esqueci.
— Eu vou dar uma saída, buscar madeira e caçar algo, tenta se manter viva.
Ele levanta bocejando e sai.
— Aqui eu sozinha de novo.
Até o Zack voltar é algumas horas, isso se ele caçar rápido.
— O que vou fazer enquanto Zack não volta.
Não queria dar trabalho, mas não conseguia ficar quieta, levantei e arrumei a cama, peguei a coberta que dormimos, fui a beira da caverna e balancei, para tirar a poeira.
— Tudo aqui precisa de um pouco de sol.
Assim deixando estendida no chão para tomar um sol, fui até o fundo da caverna e dei uma olhada para toda a casa pensando no que fazer, vi que havia muitas coisas entulhadas, olhei em volta pensando em uma solução, olhei embaixo da cama e havia duas tábuas, peguei elas e coloquei em cima da mesa.
— O que posso fazer com isso.
Olhei para a parede e tive a ideia de fazer prateleiras, tirei algumas pedras da parede para colocar as tábuas, assim que ficaram paradas, peguei pequenos, mas grossos galhos que sobraram da fogueira e coloquei na diagonal embaixo das taboas para sustentar elas, logo que terminei olhei mais de longe, fiquei orgulhosa de mim, coloquei os temperos em cima e limpei a mesa com meu ajuntado de palha que chamo de vassoura.
Zack chegava quase sempre quando o sol estava no meio do céu, e faltava um pouco para isso. Então olhei e tinha muitos entulhos de pedras, fui pegando as mais leves para não abrir o ferimento de novo e joguei elas pela entrada, assim que terminei, olhei e a caverna estranha, parecia agora uma casa feita de pedra.
Orgulhosa de mim, vi que Zack tinha uma bacia com água e umas faixas do lado, peguei tudo e sentei na cama, tirei a blusa e as faixas, o ferimento estava quase bom, então usei o meu quase poder de cura e coloquei as mãos em cima, uma luz parecia sair, já fiz isso milhares de vezes, então logo tudo estava curado e bem, fiz o mesmo com a asa.
Enquanto limpava as faixas na bacia, Zack chegou com um porco selvagem e galhos, parecia estar ferido na perna, mas ignorava.
— Esse foi difícil, e nem adianta me olhar que não quero sua cura.
Assim que deixou o porco no chão, parou para olhar a casa que estava limpa, e as duas prateleiras.
— Você tem problemas com ansiedade.
Assim ele foi olhar os temperos e as prateleiras, enquanto eu sorria feliz com meu trabalho.
— Você fez tudo isso... Sozinha.
Assim que terminou de falar, veio em minha direção e levantou meu braço olhando minha barriga, ignorando o fato de estar de sutiã, parecia estar preocupado com o ferimento.
— Onde está o ferimento?
— Eu curei, estava melhor então foi bem mais fácil.
Ele cutucou minha barriga com cara de não acreditar, já que o ferimento havia sido feio.
— Mas isso não te dá tontura? Você não desmaiou certo?
Afasto a mão dele e coloco a blusa.
— Está parecendo bem preocupado para alguém que a alguns dias queria eu morta.
— Idiota, só não quero você desmaiando, e ainda não cogitei de te deixar viva.
Concordo com a cabeça e com sarcasmo, já que se ele quisesse já teria feito isso antes. Olhei para a perna dele e sabia que ferimento de dente de javali era feio.
— Olha já tive ferimento pior e não preciso de você.
— Nós temos que parar de nos machucar.
Fico brava e levanto querendo ajudar, seguro os ombros dele e passo uma das pernas por trás das dele e tento derrubar ele, ele fica imóvel.
— Tá de sacanagem.
Assim ele com a própria perna puxa a minha e me derruba na cama.
— Eu tenho que te ensinar a se defender, mas isso vai ficar para amanhã.
Ele me olha com os braços cruzados.
— Zack, eu ando comendo bem, posso te curar também.
Levanto olhando fixa nós olhos dele. Ele cutuca minha testa.
— Tá, eu sei que vai me encher o resto do dia até fazer isso, ainda mais precisamos comer e sair logo.
Ele senta na cama e mostra a parte da perna machucada, não estava tão feio, mas também não era de raspão, também preciso treinar ferimentos maiores, pego uma das faixas e limpo o sangue, coloco a mão por cima e começo a curar.
— Parece que foi destino nos conhecermos mesmo, vivemos machucados.
Nós rimos juntos.
O ferimento está fechando e ainda não sinto tontura.
— Falando nisso, aonde vamos?
Terminei de curar e levantei, sentindo uma leve tontura, mas bem melhor do que as outras vezes.
— Vou te levar para andar um pouco, você parece ansiosa de mais.
Eu nunca fui de ficar quieta, mas concordei com a cabeça e fomos assar o porco.
Após comermos Zack levantou e me chamou até a saída, segui ele e fiquei olhando ele voar, olhei para baixo e fazia dias que não voava, ele ficou me olhando no ar, estiquei as asas e meio desajeitada voei, quando cheguei nele ele segurou minha mão.
— Mas você é desajeitada mesmo.
Assim voamos, ele não me soltou, mas não reclamei, eu não me lembro de voas por passeio, então sentia o vento bater, enquanto ele me guiava.
Quando chegamos o mais alto possível, passamos pelas nuvens e chegamos acima delas, era calmo o sol brilhava por cima delas, fazendo ficarem laranjas, Zack me soltou, e passou as mãos nas nuvens me olhando, fiz o mesmo, eram macias, olhei para o lado e não vi Zack.
Ele estava voando de costas para as nuvens, abaixo de mim, me olhando ele me puxou e fomos para baixo das nuvens e depois por cima delas, assim em sequência, assim que ele me soltou paramos no ar nos olhando, dei um sorriso e empurrei ele, e mergulhei nas nuvens, ele veio bravo, mas com um sorriso atrás de mim, voei rindo, até que sinto puxarem minha perna, e ficamos nessa de caçarmos um aí outro, até que cansamos e ofegantes nos olhamos.
— Você até que não é tão lerda.
— Você já não posso dizer o mesmo.
— Vem, não é exatamente aqui que queria te mostrar.
Assim segui ele e descemos pelas nuvens, passamos por muitos rios até chegarmos a um lugar que nunca tinha visto, eu morava em uma floresta no topo de uma enorme montanha e não sabia.
Estávamos no alto de um morro, e lá embaixo se via um outro vale, pousamos em uma árvore que era muito alta e muito bonita, olhei o vale deslumbrada, os rios caiam do nosso lado até os rios lá de baixo, tinha um barulho ótimo de água, Zack se sentou no galho, sentei ao lado dele, o galho era muito grande, já que a árvore era enorme então não tinha dificuldade de ficar sentada.
Ele me segura para me equilibrar, nos olhamos por um instante, e ele me puxa para mais perto.
— Esse lugar é lindo Zack.
— É mesmo, venho aqui sempre que não estou bem.
Mesmo sendo óbvio, mas penso que Zack apesar de ser idiota na maioria das vezes, ele tinha sentimentos, pensei em todas as vezes que briguei com ele ou o chamei de idiota, ou corvo de cemitério.
— Hey... Desculpa das coisas que te falei.
— Idiota, você pede desculpas demais.
Assim ele puxa minha cabeça, fazendo encostar no pescoço dele.
— Eu também vivo te zoando, você não me deixa triste, pelo contrário.
Tiro a mão dele da minha cabeça e seguro ela e fico olhando o vale.
— Fico feliz que pense assim, você também me deixa feliz.
Sinto meu coração acelerar e encosto no ombro dele, percebendo oque já era óbvio, que gostava dele.
Depois que anoiteceu, Zack levantou e encostou no caule da árvore e esticou a mão para mim. Pensei que seria estranho dormir em uma árvore, e fiquei com medo de cair, mas levantei e segurei a mão dele, ele me puxou e sentei ao lado dele, ele colocou o braço por cima do meu ombro e eu encostei a cabeça quase embaixo no pescoço dele, assim dormimos.
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