Bater de Asas
2 2. Presa
Notas iniciais
Após ver aquela sombra escura alada apaguei, e agora acordei no chão de um local desconhecido. Meu corpo está todo dolorido, precisei de alguns segundos para me recuperar da tontura e conseguir focar minha visão novamente. Quando volto a enxergar, percebo estar no túnel de uma escura caverna, de um lado, o túnel seguia até onde as sombras impediam a visão, e do outro, conseguia ver a saída. O local era alto, ao ponto de conseguir ver a floresta onde vivo. Na verdade, parece que estou na montanha que tanto temia e observava da janela de casa.
Estou deitada no fundo da caverna, daqui consigo ver uma mesa de madeira velha e suja de sangue na esquerda, e do outro lado, uma cama desarrumada. Mas o que mais me surpreende é que, bem próximo da saída do lugar, há um "garoto" sentado.
Parecia ser alado como eu, mas suas asas eram escuras como a noite, um menino de cabelos negros, com chifres que saíam do topo da testa seguindo até o final da cabeça. Parecia estar tentando limpar um ferimento em seu braço, onde o sangue corria, alcançando o chão. Fiquei paralisada, observando a misteriosa figura, iluminada apenas pela luz do luar... confesso estar hipnotizada com tal cena.
Quando voltei para a realidade, percebi que meu arco estava embaixo da mesa. Senti que minhas mãos estavam presas em minhas costas, com algo apertando meus pulsos... ótimo. Em silêncio me estico tentando alcançar o arco com o pé, porém, para meu azar, ao puxá-lo um som se faz presente, e sinto que fui notada...
O garoto continuou de costas apertando ainda mais o ferimento, levantando a cabeça, virou, me observando por cima do ombro, tenho um vislumbre de seus olhos safira, o mesmo azul cintilante que vi mais cedo...
— Não é possível que você esteja tentando fugir.
Sua expressão é irônica, arrogante e incrédula. Tal como sua voz, rouca e baixa, carregada de sarcasmo e deboche. Sua atitude arrogante me irrita ao ponto de cerrar os olhos e o encarar com fúria. Sento-me o encarando seriamente.
— Até onde sei, isso que você fez, se chama sequestro.
Digo tentando imitar seu tom, e não passar medo. Porém, acredito que falhei miseravelmente, ele apenas me encara e fica em silêncio... Isso está ficando extremamente desagradável. Reúno o que me resta de forças e tento intimidá-lo, mesmo sabendo que as chances de isso ocorrer são bem baixas...
— O palhaço! Você me atacou, arrastou para uma caverna, me amarrou e ainda tem a audácia de me irritar. Queria o quê? Um Obrigada?
No momento seguinte, me arrependo da fala, porque não estava na melhor das situações. Ele pareceu respirar fundo, seus olhos antes de uma safira cintilante, agora assumiam outra tonalidade, um vermelho sangue, sombrio e cruel. O sangue escorria de seu ferimento no braço, pude notar que suas presas agora estavam maiores também.
— Ouça com atenção, já matei humanos melhores que falavam menos, o que deixa ainda mais atrativa a ideia de te matar. Mas, como deve ter visto, estou ferido, poderia apenas te matar e beber o que restar do seu sangue para me recuperar... Porém, vi como você curou o lobo, como fez aquilo?
Apesar de bravo, ainda percebi o tom de curiosidade em sua voz, por baixo de todo aquele sarcasmo e arrogância. Bem, posso usar isso a meu favor.
— OK, primeiro seu nome, jovem sequestrador.
Busquei todo o meu controle, para não demonstrar o quanto de medo estava sentindo. Minhas pernas tremiam, e um calafrio passava em minha coluna. Mas precisava me manter firme, ele ainda não sabia o que minha espécie era capaz de fazer.
— Exigente para uma pessoa amarrada que está à minha mercê, me chamo Zack.
Sua expressão era cansada, e pelo tom de voz vacilante, tive certeza de que estava sentindo muita dor. Mesmo que tentasse a todo custo não demonstrar.
— Sou Yasmin, de forma resumida, não sei o que faço, mas consigo curar ferimentos leves, oque não dá para fazer se estiver morta.
Ele arqueia a sobrancelha, quase em desafio, se levanta e caminha vagarosamente em minha direção, sem nunca quebrar nosso contato visual. Por fim, se abaixa na minha frente e mostra o ferimento. Parece que foi mordido por um lobo.
— Olha, tá bem feio, teria de suturar antes de curar, consiga uma agulha e linha que te ajudo.
Respondo observando melhor o ferimento, mas sem deixar de o observar atentamente. Zack me sequestrou, quem sabe o que poderia fazer...
Ele se levantou rápido.— Mas é inútil mesmo.
O tom buscava ser arrogante e ofensivo, mas percebi sua frustração, estava irritado por ter se ferido. E agora queria descontar sua raiva em mim. Estava sendo um completo idiota.
— Não tenho escolha... Vou roubar isso na cidade, espero que você esteja no seu lugar quando voltar.
Zack fala reclamando e suspirando irritado, caminhou até a entrada da caverna, abriu as asas negras e voou pela noite. Quando percebi que saiu, me estiquei ao máximo para pegar uma das flechas afiadas. A passei por trás de mim e cortei as cordas. Ao me levantar, acabei esbarrando em um prato com uma perna de coelho assada, jogado no chão. Comecei a observar melhor o local, Zack parecia apenas estar tentando sobreviver, ou fugir... Acabo refletindo sobre o fato dele precisar de mim... Somos mais parecidos do que pensei, ambos vivendo escondidos nas periferias das cidades, encontrando abrigo na floresta... fugindo...
Sempre busquei ajudar todos na floresta, e ele é a raça mais próxima da minha que conheci, claro, que um sequestro não ajuda muito, mas... Tinha que tentar, além disso, no estado que Zack estava, não conseguiria me matar... Acho.
Por fim, me sentei na cama, aguardando ele retornar, acabei escondendo a flecha embaixo da perna. A noite estava fria, e passou muito lentamente, quando Zack retornou, sua face exibia um misto de raiva e alívio, o encarei com tédio.
— Olha, eu poderia ter ido embora facilmente, então, se colaborar, nós dois podemos ficar vivos. Falo após apontar a flecha para ele.
Zack apenas parou na minha frente e com um dedo abaixou a flecha que apontava contra ele. Com a outra mão entregou a linha e agulha, em nenhum momento parecia feliz, mas por fim colaborou e sentou-se me estendendo o braço.
— Olha, se você fizer algo suspeito...
O tom foi uma tentativa ridícula de ser ameaçador, apenas revirei os olhos, entediada.
— Eu sei, você vai me matar.
Respondo ironicamente. Bem, se iria ajudar meu sequestrador, faria isso direito então. Levantei e peguei a flecha que ele havia tirado de mim, o gesto o fez se levantar e me olhar desconfiado.
— É para cortar a linha.
Fiz uma cara de tédio e peguei um pano já sujo de sangue que achei no chão. Limpei o que dava no braço dele. Assim que encostei a agulha Zack segurou meu braço, o observei com um rosto calmo, tentando transmitir calma e confiança, ele estava agitado e nervoso. Quando se mostrou mais calmo, comecei a suturar, por mais que ele tentasse manter a compostura e seriedade, sei que ele estava com muita dor.
Quando terminei, toquei minhas mãos no ferimento e curei até onde consegui, ainda havia um corte fino e raso, mas já estava muito melhor que antes. Precisava de um pano para fazer um curativo, como todos no local estavam imundos, peguei a flecha e tirei um pedaço do tecido de minha blusa, amarrando no braço dele. Zack ficou surpreso com a atitude, mas ignorei apenas terminando o curativo.
— Hum... Ficou bom, já pode ir embora.
Ele fala esticando o braço e testando se estava bom. Seu tom é frio e distante, carregado até mesmo com certa ironia.
Mal-agradecido, nem mesmo um obrigado, se bem que observando a figura, é meio óbvio que não receberia isso. Se para pedir ajuda ele me sequestrou, melhor não pensar no que Zack entende como agradecimento.
— Bem... Não prefere que eu fique para curar mais rápido? Porque posso curar um pouco por dia e você melhora mais rápido.
Ele me olha surpreso, seus olhos voltam ao tom normal, assim como seus dentes.
Finalmente encontrei alguém "parecido" comigo, ou é o mais próximo disso. Posso continuar os meus estudos sobre os vários tipos de pessoas e criaturas que tem nessa região, também imagino que treinando mais a cura, minhas habilidades ficarão melhores.
— Ok... Mas, porque você iria querer ficar?
Zack me questiona visivelmente surpreso, na verdade, também estou surpresa de que sugeri isso...
— É... Aprimorar minha cura e estudar você.
Digo firme e apontando em sua direção.
— Você é estranha.
Falou o caro que me sequestrou para pedir ajuda... Você é mais estranho que eu...
Opto por ficar em silêncio, Zack não parece ser o tipo que mente, e passei muito tempo sozinha, pode ser divertido ter companhia.
*Lembrando vocês leitores de curtir e comentar :D*
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