Bater de Asas

3 3. Conhecendo Mais.


Notas iniciais
Ainda estou viva, pelo jeito ele não é tão perigoso assim... ou é? *Música do capítulo: Welcome Home, son— Radial Face*

&. Escutar a música para melhor experiência .&

Acordei no dia seguinte em uma cama, depois da estranha madrugada é bom saber que pelo menos eu pude descansar decentemente... Espera... Como eu vim parar aqui?

— Me diz que você não me colocou na cama depois que eu dormi.

A ideia me perturba e começo a corar.

Só me lembro de jantar um porco que ele me deu e suponho que adormeci, mas não sei se seria pior ele me largar no chão dormindo ou me carregar enquanto durmo.

— Queria que eu te deixasse no chão? Você dormiu com um pedaço de porco na mão.

Deve ter sido uma cena e tanto.

— Sei lá... Mas você parece melhor.

Comento o observando, a ferida parece melhor e sua cor está mais saudável. Quase parece um garoto normal, se você não considerar as asas e os chifres.

— Se o ferimento não é grande, consigo me curar sozinho.

Ele esticou o braço mostrando o ferimento quase bom e apenas observo com tédio, ele é de poucas palavras mesmo.

— E aí? Você vai começar seus experimentos comigo?

Tenho a impressão de ouvir um tom de deboche, mas simplesmente ignoro. Lembro que nosso acordo falava que eu poderia fazer anotações sobre a raça dele.

— Não é bem isso, só vou fazer anotações sobre você e talvez alguns desenhos.

Ele me observa como se eu fosse a criatura mais esquisita que já conheceu, apenas reviro os olhos. Acho que notou meu desconforto e mudou para uma expressão neutra, agora não sei se está bravo ou simplesmente não me levando a sério.

— Ok então, vamos começar, não gosto de estranho muito tempo na minha casa.

Acho que você simplesmente não gosta de seres vivos. Acabo sorrindo com meu pensamento e ele me observa com certa curiosidade, apenas ignoro.

Levantei e peguei meu caderno que sempre me acompanhava, me sentei e o observei, precisava dar alguma instrução para ter o que preciso para minhas anotações.

— Bem... Poderia esticar as asas?

Peço educadamente e ele apenas me observa com seus olhos de safira e faz o que peço sem reclamar, se virando de costas.

Era uma situação estranha, minha primeira vez interrogando alguém e estudando dessa forma.

Suas asas eram grandes, fortes e com as penas negras como a noite, tão opostas às minhas.

Notei cicatrizes nas bases, mas preferi não questionar. Ele não parece o tipo que gosta de falar sobre seu passado. Sua camisa possui aberturas para as asas assim como a minha.

— São grandes, proporcional a sua altura.

Acabo comentando em voz alta, ele apenas me encara por cima dos ombros com um sorriso presunçoso enquanto faço um pequeno esboço delas em meu caderno.

— As suas deveriam ser também, mas você é muito baixa e parece frágil também.

Paro de desenhar e o encaro irritada. Realmente se comparada a ele sou pequena. Mas em hipótese alguma sou frágil! Sou uma excelente arqueira e sobrevivi sozinha por muito tempo.

Apenas revirei meus olhos com o comentário sincero e presunçoso, isso está virando hábito.

— Ok comediante senta aqui do meu lado.

Ele sorri e se senta, nesse momento apenas me conformo com ele estar certo sobre eu ser baixa... tenho que olhar para cima para ver seu rosto. Confesso que estou bem curiosa sobre seus olhos... ele ficaria bravo se eu perguntasse?

— Você... Poderia fazer aquela coisa com os olhos de novo?

Arrisco-me e ele me observa como se uma segunda cabeça tivesse nascido em mim. Será que eu estava sendo invasiva demais? Não, isso era necessário para o bem de minhas anotações, se um dia eu precisar me defender de um da raça dele, tenho que saber contra oque estou lutando.

— Só faço quando estou com sentimentos fortes, especialmente a raiva.

Seu tom é irritado assim como o olhar que me direciona, acho que não gosta de falar sobre isso.

Faz sentido o que ele disse, mas o que posso fazer? Estou curiosa e preciso de informações para minha pesquisa, foi graças a ela e a leituras que eu fazia que consegui sobreviver a natureza e criaturas nela... Acho que minha curiosidade vai me matar um dia... porque simplesmente aperto seu ferimento e o vejo muito irritado...

— Isso também é por você ter me sequestrado, e aí, tá com raiva?

Questiono curiosa, ele apenas baixa a cabeça e solta um suspiro com a dor evidente, se levanta em total silêncio e quando me dirige um olhar novamente, fico dividida entre medo e fascínio... os olhos estão como ontem a noite, vermelhos e negros, pareciam cruéis... ao mesmo tempo que bonitos...

— Você não tem medo de morrer não?

Às vezes penso que não...

Senti o ar ficar mais frio, aqueles olhos eram realmente assustadores e hipnotizantes, mas tinham um ar de mistério e por um segundo ele me deu um sentimento de família, de alguém que também estava escondido como eu, então em uma ação involuntária coloquei minha mão no rosto dele. Não tenho ideia do porquê fiz isso...

— Você se parece comigo, como se fosse meu oposto...

Realmente meu oposto... porque sentia essa proximidade com ele? Totais opostos na aparência, mas sempre escondidos ou fugindo e às vezes roubando para sobreviver.

Seus olhos pareciam surpresos e nervosos. Em um ato de reflexo sua mão vai para meu pulso o tirando de seu rosto e se afastando.

— O que pensa que está fazendo?

Seu tom é mordaz e raivoso, como se eu tivesse cometido um crime gravíssimo... Errei em encostar nele, ele não parece ser de contato físico.

Não sei dizer se ele se assustou, ficou com raiva ou simplesmente não gosta que toquem nele... só sei que ainda estou encarando meu pulso em sua mão com um forte aperto... ele era muito forte.

— AI.

Reclamei do aperto doloroso e puxei meu pulso bruscamente, me levantando nervosa.

— O que deu em você para achar que pode me tocar desse jeito? Ficou maluca?

Acabei ficando nervosa com tudo, especialmente pela reação dele com minha atitude... acho que já chega de estudo por hoje... o que deu em mim? E qual o problema dele? Preciso ir para casa me acalmar...

Por isso rumo à saída sob o olhar escuro dele, ainda parecendo nervoso...

Zack apenas se levantou enquanto encarava sua mão... por um instante ele parecia perdido...

— Eu... Não controlo...

Suas palavras saem como um sussurro, mas ainda sim, as ouço claramente... acho que já tivemos contato suficiente para um dia.

O observei perdido em seus próprios pensamentos, respirei fundo... extrapolei alguns limites dele, e sei que foi reflexo e não maldade. Seus dedos deixaram um vermelho, que agora observo... realmente, chega de contato hoje... melhor ir para casa e descansar...

— Eu... Vou para casa.

Comento me virando em sua direção, seus olhos ainda estão perdidos, quando se voltam a mim, noto o que parece remorso e culpa por sua atitude... mas dura segundos, logo voltando a rotineira atitude.

— Não seria sensato sair agora, mas não vou te impedir, faça o que quiser. Já cumpriu sua função.

Respiro fundo, seu tom é arrogante e presunçoso...

— Ok...

Não vou discutir com ele agindo dessa forma.

Eu estava irritada, mas não valia a pena começar uma briga, por isso apenas me virei de costas, estiquei minhas asas e voei... Foi quando alcancei os céus que notei onde sua caverna ficava... era bem próximo da minha cabana. Após passar do campo aberto onde havia a árvore solitária, tinha uma montanha onde nunca fui, era a casa de Zack.

— Seu comportamento me assustou, mas não sinto maldade dele, acho que apenas está perdido... como eu... talvez não sejamos tão distantes um do outro...

Meus pensamentos saindo de minha boca enquanto voo em direção a minha casa, meu cantinho seguro...

Quando a noite caiu e comecei a preparar meu jantar, um coelho que peguei na floresta, acabo ouvindo uns sons em minha varanda que me deixam em alerta... Pego meu arco e sorrateiramente alcanço minha varanda...

Acabo me assustando com Zack parado em um galho de árvore como um animal, me encarando... Como achou minha casa? Ele tá me seguindo?

— Como me achou?

Questiono sem rodeios, como ele aparece aqui do nada e ainda age como se fosse o dono do lugar?

— Nem vai me convidar para entrar?

Simplesmente ignora minha pergunta, com aquela atitude sarcástica dele.

— É... Nã...

Nem consigo terminar de falar, ele se auto convida e pula pela varanda, balançando as asas para tirar as folhas das penas, limpou os pés no tapete, o que me surpreendeu... e foi direto para o fogão verificar o que estou preparando.

— Que fofa, fez até janta para seu vizinho.

Como assim? Meu novo hábito vindo à tona novamente, meus olhos quase vão para meu cérebro de tanto que reviro. Para a sorte dele, o coelho era grande e gordo, acho que é suficiente para nós. Apenas apontei para a mesa com duas cadeiras.

Zack parecia terrivelmente desconfortável, como se tudo fosse uma novidade para ele, ou algo que fez há muito tempo... Julgando pelo estado da caverna, acredito que não tenha o costume de receber muitas visitas... o que posso dizer? Estou feliz por finalmente usar a segunda cadeira.

— Senta aí enquanto pego a comida, assim vai me explicando algumas coisas enquanto ajeito tudo.

Meu tom quase sai como um convite, não quero ficar brava com a única pessoa que mantive uma conversa longa, sentando-se e me observando preparar a mesa e servir o jantar, que consiste em carne e legumes com arroz.

— Me... Desculpa...

Seu murmúrio quase sai como uma tortura, acabo ficando surpresa com a fala... não esperava isso dele... será que o julguei errado?

— Está tudo bem, extrapolei alguns limites também... sei que não fez por mal, apenas me assustei com tudo.

Tento levar com normalidade tudo, porque ele parece nervoso e culpado... Parecia mergulhado em uma espiral de pensamentos.

Então seu olhar desviou para a casa, observando minuciosamente cada pequena coisa, o que acabou me deixando nervosa...

— Onde você roubou tudo isso?

Acho que é uma tentativa de mudar de assunto, mas seu tom é sério.

— Eu não roubei! Troquei pela pele dos animais que caço aqui na floresta, o único humano que confio é o senhor que faço as trocas.

Como ele chegou a conclusão de que roubei? É assim que ele consegue suas coisas? Zack é sério demais, sempre alerta com tudo como se algo fosse sair das sombras e o atacar a qualquer momento...

— Por que você é tão sério?

Ele sempre quieto, na maioria das vezes calmo e observador, ele sempre foi assim, ou precisou ficar assim para sobreviver?

— Apenas sou assim mesmo...

Quando desvia o olhar, tenho a certeza de que está mentindo. Esse garoto tem segredos enterrados que quero muito descobrir. Minha intuição diz que ainda vamos nos ver muito, e eu sei que ele não é sério assim... talvez por isso lhe faço uma promessa em forma de desafio...

— Ainda vou te fazer sorrir, anote minhas palavras. Vou ver você sorrindo, é uma promessa.

O encaro seriamente enquanto profiro minhas palavras, ele me observa curioso e astuto.

— Me parece um desafio, eu aceito.

O tom presunçoso dando o ar de sua graça novamente, apenas sorrio com isso e começamos a comer. Até minha curiosidade resolver brincar novamente, não quero ter uma refeição em total silêncio quando tenho a oportunidade de comer com alguém.

— O que você é? Nunca vi ninguém assim! De onde veio? Por que estava naquela caverna?

Zack me observa surpreso, acho que deveria ter feito uma pergunta de cada vez... Mas quero saber mais do garoto parecido comigo que mora em uma caverna.

— Bem, resumindo: sou o que chamam de infernal, demônio ou coisas do tipo. Venho do Sul onde fica a Cidade Infernal, mas meu pai era meio... Idiota e eu não queria seguir oque ele planejava para meu futuro.

Pelo que ele explicou, o pai é alguém importante desse lugar e Zack não quis seguir os passos, por isso fugiu e faz isso desde então, já que os humanos não gostam muito de bestiais e a forma dele de sobreviver roubando não agrada muito a eles.

— E você? Sua espécie que é difícil de achar, eu pelo menos nunca vi e acredito que é por isso que tem caçadores lá embaixo...

Engasguei com a comida e corri para a janela, de onde vi algo iluminando ao longe, pareciam tochas.

— Será que vão me levar de novo...

Acabo comentando para mim mesma...

Senti uma dor no peito, não quero ser levada de novo, da última vez me colocaram em um palco onde pessoas levantavam placas e gritavam quantidades de dinheiro, foi tão difícil sair de lá.

— Eles vão embora logo, amanhã venho cedo aqui para ver se ainda está viva.

Zack disse isso se levantando e indo embora, sem ao menos se despedir...

— Espera... Não quero ficar sozinha de novo...

Ele nem ouve meu pedido... por favor... não quero ficar sozinha... o vejo voar pela janela e sinto as lágrimas teimarem e meus olhos, mas pisco as afastando.

Zack pode ser inconveniente e mal-humorado, mas era melhor que nada... eu só não quero ficar sozinha novamente... Mas me recomponho, sobrevivi até hoje assim, não adianta ficar me lamentando.

Apenas lavo a louça e observo a janela atentamente, torcendo para os caçadores irem embora... é com esse pensamento que vou dormir, torcendo para acordar bem amanhã e rever meu novo amigo...

*Lembrando vocês leitores de curtir e comentar :D*

Notas finais
Esses caçadores, espero que vão embora.