A neve caía lentamente. Shane, Eric e Dylan andavam pelo caminho que levava a Hogsmeade conversando sobre os boatos de uma suposta reunião organizada por Harry Potter e seus amigos.

- Então quer dizer que eles estão violando tipo, umas mil regras? — perguntou Dylan.

- Shhh! Fala baixo! — sussurrou Eric — A adorável Umbridge deve escutar conspirações até na Casa dos Gritos!

- Desculpa — disse Dylan. Nós podíamos participar, não é?

- Eu não sei... Apesar de eu não saber o que é, não deve ser boa coisa — retrucou Eric.

- E por que? — perguntou Dylan, curioso.

Ele tropeçou em um monte de neve e xingou baixinho.

- Ora, reunir-se na Sala Precisa... Com sei lá quantos alunos... Não soa bem, né?

- E quem te contou isso? — perguntou Dylan.

- Alguém viu Luna Lovegood, Dino Thomas e Simas Finnigan entrando por lá, seguidos de um monte de alunos — respondeu Eric.

- Discretos, pelo visto... — comentou Dylan, sarcástico.

Shane não prestava atenção na conversa. Só pensava no fato de caminhar em direção a Hogsmeade para se encontrar com seus pais. Faltavam poucos dias para o Natal, e eles tinham que conversar com o filho a respeito de algo.

Não disserem o quê. Não podiam esperar até o Natal? O que seria tão importante? Não devia ser algo bom, isso ele tinha certeza.

- Shane? — chamou Eric.

- Hã? O que? — respondeu Shane distraidamente.

- Cara, você está calado desde que saímos de lá — falou Eric — O que aconteceu?

- Nada... — respondeu Shane, brevemente.

Ele abaixou a cabeça e continuou a caminhar.

Eric e Dylan encararam-se por um instante, e rapidamente entenderam o que se passava pela cabeça do amigo.

- Desencana, Shane. Para de pensar o pior — disse Dylan.

- Não tem como, Dylan! — exclamou Shane. Ele percebeu que havia aumentado o seu tom de voz e logo o diminuiu — Desculpa... É que... Faltam poucos dias para o Natal. O que eles querem me falar que não pode esperar até eu chegar em casa? Não tem como ficar animado com isso.

- Mas talvez seja uma boa notícia! — disse Eric — E talvez essa boa notícia não possa esperar! Talvez uma viagem... E você tenha que preparar suas roupas... Talvez porque a carta nãochegaria a tempo, sei lá.

Shane assentiu.

- Pode ser, Eric. Mas quando soube que eles me esperavam em Hogsmeade, não senti uma boa sensação.

Dylan passou um de seus braços pelo ombro de Shane.

- E onde que vocês se encontrarão? — perguntou ele.

- No Três Vassouras — respondeu Shane, cabisbaixo.

- Nós estaremos na Dedosdemel te esperando — informou Dylan — E seja o que for, estaremos lá pra você. E disso você tem certeza, né?

Shane sorriu.

- Valeu, cara.

O caminho que se seguiu até chegarem a Hogsmeade foi de puro silêncio. Apenas o som de seus tênis afundando na neve era ouvido. O único som diferente deste foi quando passaram por um grupo de garotas do terceiro ano, que soltaram risadinhas nervosas quando passaram perto deles.

Quando finalmente chegaram à vila, Eric e Dylan derau um abraço em Shane, desejando-lhe sorte. Os dois foram a Dedosdemel, dizendo que comprariam feijõezinhos para comerem mais tarde. Shane acenou aos dois, e nem se deu conta quando cehgou em frente à porta do Três Vassouras.

Shane nem havia notado que havia apressado o passo até chegar no local, apesar de querer evitar aquele momento ao máximo.

Então, com respirando profundamente, ele abriu a porta do local. E bem na direção da porta, na última mesa, estavam seus pais, sorrindo, tentando esconder o que Shane já havia previsto: uma notícia naõ tão agradável.


*****


Já acomodado na mesa, Shane sentou-se em frente aos seus pais, que estavam sentados um do lado do outro.

- Quer pedir alguma bebida? — perguntou seu pai.

- Não, obrigado — respondeu Shane — Como vocês estão?

- Está tudo indo bem, Shane. Apesar das circunstâncias, está tudo indo bem — respondeu o pai.

Shane sentiu um frio na barriga.

- Ah sim. E o que andam fazendo? — perguntou ele, tentando evitar ao máximo a notícia.

- Seu pai está bem no trabalho, querido. E sua irmã está ótima — respondeu sua mãe — E eu sei, querido, que talvez você esteja...

- E como vai Sarah? — perguntou Shane, interrompendo sua mãe.

- Shane, sua mãe acabou de falar que sua irmã está ótima — disse o pai.

Shane não estava encontrando outra saída para evitar a notícia. Com o modo estúpido e óbvio que arranjou para fazer com que seus pais não mencionassem o assunto de imediato, provavelmente eles mesmos já haviam sacado o desejo do garoto de não querer falar sobre o que fosse o motivo para não terem esperado o Natal para tê-lo informado.

- Querido, o que queremos falar com você é algo que...

- Mas ela cresceu ou o que? — interrompeu Shane, mais uma vez.

- Shane... — disse sua mãe, com um olhar severo ao filho — Sabemos que soou estranho a você termos que vir aqui falar sobre algo que parece tão urgente.

Shane apenas a observava.

- E é, querido — concluiu sua mãe — Posso dizer o que está havendo?

O garoto afundou no estofado.

- Claro — respondeu ele.

- Eu e seu pai sempre achamos que você amadureceu rápido demais para sua idade. Independente de sua atitude, você consegue entender com facilidade o que se passa entre nossa família. Até mesmo já presenciou algumas discussões, coisa que gostaríamos que nunca acontecesse.

Seu pai ficava cada vez mais sério enquanto a mãe falava.

- Eu e seu pai sempre tivemos um respeito enorme pelo o que significa família. E amamos a que temos.

- Shane, família significa, em sua essência, amor — completou o pai.

- Eu sei. Vocês sempre me disseram isso — disse Shane rouco.

- E sem amor não há família — disse o pai.

A mãe balançou a cabeça.

- Não é isso, Shane. Sem amor, não há como sustentar uma família. Ela em si continua existindo talvez, mas não em um mesmo lugar, em uma mesma casa — tentou a mãe corrigir, mas percebeu que sua frase parecia confusa. Ela balançou a cabeça e continuou a encarar o filho.

- Eu não consigo entender aonde vocês querem chegar — disse Shane, impaciente.

Pai e mãe se entreolharam por um momento. Suas expressões demonstravam insegurança, e Shane podia perceber ali um certo sentimento de amedrontamento.

Ele continuou olhando para os dois, esperando uma resposta. Os olhos de sua mão acumulavam lágrimas em suas pontas. Ela segurou sua mão, e com uma voz tremida, ela disse:

- Querido, eu e seu pai tomamos um decisão em nossas vidas. Nós tentamos, Shane, de verdade.

- Filho, você não sabe o quanto — disse seu pai.

- Mas... Eu e o seu pai decidimos que vamos nos separar. Iremos terminar nosso casamento — terminou a mãe, afastando as mãos do filho e encolhendo-se em seu assento, como se Shane pudesse atacá-la a qualquer momento.

Shane ficou paralisado. Seu coração batia acelerado, e o frio na barriga havia ficado muito intenso. Ele olhou para os dois. Seus olhares pediam compreensão, e ao mesmo tempo tristeza. A ficha ainda não havia caído. Não podia ser uma brincadeira. Eles nunca teriam falado aquilo tudo para ser um brincadeira, e muito menos teriam ido a Hogsmeade para dizer a Shane que estavam apenas brincando.

Ele não conseguia acreditar. Mas decidiu dizer alguma coisa, para, pelo menos, despreocupar seus pais um pouco. Lógico que, do jeito que estava, não escolheu as melhores palavras para falar:

- O quê? Vocês estão brincando? — e levantou-se de sua cadeira.

A mãe também se levantou em um salto, batendo na mesa e quase derrubando sua caneca de cerveja amanteigada. Isso fez com que todos presentes no bar olhassem para a mesa.

- Sentem! Os dois — pediu ele, sussurrando — Estamos chamando a atenção das pessoas. Podemos ter essa conversa normalmente.

Shane olhava para a mãe, que estava prestes a chorar. Ele sentou-se novamente, e só assim ela também se sentou.

- Eu não acredito nisso! Por quê? — perguntou ele.

- Querido, não temos muito tempo. Queríamos vir aqui para lhe contar, mas logo temos que voltar ao trabalho — disse o pai — Mas, Shane, não estamos dando certo mais. Sua mãe e eu sempre nos respeitamos, mas chegamos à conclusão que não nos amamos. Não mais como marido e mulher.

- Por favor, Shane, eu e seu pai sempre admiramos um ao outro, e sempre nos respeitamos... — começou a mãe, até ser interrompida por Shane.

- Então por que vocês se separaram? — perguntou Shane nervoso — Vocês pensaram nos seus filhos antes de tomarem essa decisão?

A mãe pareceu chocada com a pergunta.

- Querido, você e Sarah não têm absolutamente nada a ver com nossa separação. Amaremos vocês dois para sempre, incondicionalmente! — disse ela.

- Eu não entendo... — disse Shane, bagunçando seus cabelos fortemente com as mãos — Vocês nunca brigaram. Nunca fizeram nada desse tipo.

- Não na sua frente, e nem da de Sarah — respondeu o pai — Porque nossos problemas não cabem a você e Sarah serem cientes.

- Pai, pelo amor de Deus. Me dê um motivo! Só um! — pediu Shane, com lágrimas em seus olhos.

O pai o encarou com certa tristeza. A mãe olhava para o filho.

- Shane, podemos falar isso outra hora — começou seu pai — Por favor.

- Não, eu preciso saber um motivo — insistiu ele.

- Você não quer ouvir nossos motivos, Shane — disse a mãe.

- Se vocês não me falarem nada, eu levantarei agora e irei embora — disse Shane, firmemente.

Os pais se entreolharam. As mãos de sua mãe tremiam. Shane pegou uma de suas mãos, e olhou para a mãe. Ela olhou para ele, e disse:

- Promete que não ficará chateado?

- Eu não vou prometer nada, mãe. Mas quero que você me conte — pediu Shane secamente.

- Segure minha mão enquanto eu contar. Me dá forças — pediu ela.

Ele apertou ainda mais suas mãos com as de sua mãe.

- Eu e seu pai descobrimos que não estávamos mais dando certo quando... — ela pausou por um instante, e tomou fôlego — Quando sentamos para conversar sobre nosso relacionamento, e acabamos admitindo um para o outro que estávamos saindo com outras pessoas.

A notícia veio como um choque para Shane. Ele olhou os dois com desdém, e largou a mão de sua mãe.

- Como vocês puderam fazer isso? — perguntou ele — Como tiveram coragem de admitir isso?

- Shane, por favor... — pediu o pai.

- Não, pai. Eu nunca esperei isso de vocês. Vocês me decepcionaram. Eu acreditava no amor de vocês dois. No casamento de vocês dois. Vocês acabarem me traindo também.

- Claro que não, Shane! Não diga bobagens! — disse sua mãe.

- Meu Deus! Você estava com outro homem, mãe! Como vocês conseguiam olhar um para a cara do outro? — perguntou Shane, com uma voz tremida.

Totalmente inconformado, ele continuava a olhar para os pais. Ele bagunçou os cabelos mais uma vez, e abaixou a cabeça, olhando para a mesa.

- Deve haver um jeito! Tentem se reconciliar! — disse ele, exaltado.

- Sua mãe e eu já entramos com o divórcio. O que separa os casais no mundo de sua mãe — respondeu seu pai.

Shane era mestiço. Seu pai era um bruxo, e sua mãe, trouxa. Divórcio não era uma palavra nova para Shane, já que sua mãe era advogada, e algumas vezes, realizava trabalhos que envolviam divórcios de casais.

Ele se levantou.

- O que você está fazendo? — perguntou seu pai.

- Indo embora — respondeu ele, secamente.

- Shane — chamou sua mãe.

Ele olhou para trás, e a encarou.

- Entendemos como você se sente. Conversaremos melhor no Natal, tudo bem? — disse a mãe.

- Não teremos conversas no Natal. Não vou para casa neste Natal. Esperava passá-lo com minha família — retrucou ele, grossamente.

- Mas ainda seremos. Passaremos nós e Sarah, juntos — disse o pai.

- Não. Não quero fingir que somos uma família — disse ele, continuando a andar.

- Shane, por favor — pedia sua mãe, atrás dele, chorando.

Ele continuou a andar em direção à porta. Sua mãe andava atrás dele.

- Sarah está com saudades. Ela quer te ver. E ela ainda não sabe de nada. Por favor! — pediu ela, pela última vez.

Shane, assim que abriu a porta, pôde sentir um vento frio batendo em seu rosto. Parou com ela aberta, e sem olhar para trás, com uma lágrima caindo lentamente em seu rosto, respondeu:

- Diga à Sarah que sinto muito.

Ele saiu, andando em direção à Dedosdemel, deixando sua mãe para trás, chorando. Ele tentou segurar seu choro até chegar na loja de doces, mas não conseguiu. Sentou em um banco em frente à loja, e desabou em lágrimas. Ficou lá até Eric e Dylan o avistarem. Se bem que um momento sozinho seria ótimo.



*****


Eric e Dylan tinham uma calorosa conversa sobre as últimas novidades de Hogwarts.

- Cara, o que foi que dissemos que compraríamos para o Shane? — perguntou Dylan.

- Acho que varinha de alcaçuz — respondeu Eric pensativo — Mas não tenho certeza.

Eric vasculhou umas prateleiras de doces.

- Será que você acha que eu deveria levar algum doce para a Harmony? — perguntou ele.

Dylan o encarou sério, mas logo mudou sua expressão. Agora parecia indiferente.

- Por que isso... Quero dizer... Isso por causa de Harmony... Eita... Por que? — perguntou Dylan, finalmente.

- Desengasga primeiro — riu Eric — Por que? Ué, porque eu estou ficando com ela... Sei lá, você não acha uma boa ideia?

- Não acha que está muito cedo? Talvez ela pense que você quer um compromisso sério, e isso pode assustá-la. — sugeriu Dylan.

- Mas eu quero um compromisso sério — respondeu Eric.

Dylan o olhou surpreso.

- Quer mesmo? — exclamou ele.

- Cara, a Harmony é muito bonita. Aqueles cabelos cacheados... — começou Eric, abrindo um sorriso — Aquele jeito dela... Eu quero dizer, ela é toda tímida. Mas é divertida, sabe? Eu sinto que temos uma ótima sintonia.

Eric continuava olhando para as prateleiras. Dylan olhou para o lado, tentando esconder sua expressão de tristeza. Teria que desistir de seu primeiro amor.

- Quer saber? Eu vou levar. Eu digo que foi algo que sobrou, sei lá. Vamos ver no que vai dar — disse Eric, animado.

Dylan deu um sorriso para o amigo, mas se sentia confuso. Estava feliz por Eric gostar de alguém, mas triste por esse alguém ser a menina que não saía de sua cabeça. Dylan, apesar de nunca falar muito com Harmony, gostava muito dela.

- Hã, e o Shane? — perguntou ele, tentando mudar de assunto — Já faz um tempo que ele está conversando com os pais.

- É verdade — disse Eric, olhando para a janela — Calma aí, Dylan. Aquele dali é o Shane!

Eric apontou para o menino que estava sentado no banco bem em frente à Dedosdemel. Ele estava encolhido, e limpava as inúmeras lágrimas que caíam pelo seu rosto vermelho.

Os dois correram para o lado de fora, e sentaram-se ao lado do amigo.

- Shane, o que aconteceu? — perguntou Dylan — Por que você não entrou? Você vai congelar de frio!

- Vamos entrar, assim você nos conta o que aconteceu — disse Eric, já levantando-se e puxando o amigo para dentro.

- Não, eu não quero ficar aqui — disse Shane, escondendo o rosto — Eu estava indo embora, mas vocês dois podem ficar, se quiserem.

Eric e Dylan olharam para Shane com certa preocupação.

- O que aconteceu, Shane? — insistiu Dylan.

- Foi algo tão grave assim? — perguntou Eric.

- Foi a pior das coisas, Eric. A pior — ele respondeu.

Shane conseguiu conter o seu choro. Uma hora sabia que se acostumaria com tudo. Que talvez seus pais estivessem com razão. Mas naquele momento, não conseguia pensar em sentar com seus pais em uma mesa e fingir à Sarah, sua irmã, que tudo estava bem. Simplesmente não podia.

- Meus pais vão se separar — revelou ele.

Eric ficou boquiaberto, e Dylan abraçou o amigo.

- Eu estou melhor, mas... Sei lá, eu nunca esperei isso, sabe? Ainda não consigo entender — disse Shane.

- Relaxa, Shane. Eu nunca passei por isso, mas consigo imaginar o que você está passando — confortou Eric.

- Você quer conversar sobre isso, Shane? — perguntou Dylan.

Shane olhou para o amigo, com o rosto ainda vermelho.

- Claro. Preciso desabafar — respondeu ele — E com quem mais eu faria isso?

Eric deu um sorriso. Dylan pegou a mão do amigo, e fez um gesto para ele se levantar.

- Então nós vamos comprar feijõezinhos e o que você quiser, e no caminho, você nos conta tudo — disse Dylan.

Shane deu um sorriso pequeno.

- Obrigado, caras. Eu amo vocês — disse ele, abraçando os dois.

Eric e Dylan retribuiram o abraço, e eles ficaram ali, por um tempo.

Tempo suficiente para deixá-los sem graça.

- Acho melhor nos afastarmos — disse Eric — Passou um grupo de garotas agora que nos viu e nos encararam de um jeito estranho.

Ele olhou para o grupo, que ainda olhavam para os meninos, e que já estava um pouco longe.

- Não somos gays! Podem investir! — gritou Eric.

Dylan riu, e Shane deixou escapar um risada.

- Não me faz rir, Eric — pediu Shane, sorrindo — Preciso me concentrar em toda a minha tristeza para contar para vocês sobre a separação de meus pais.

Eric chegou perto de Shane e lhe deu um tapa na barriga.

- Então vamos? — chamou ele.

- Claro. Vamos — disse Shane, e seguiu os dois para dentro da Dedosdemel.

Esquecendo um pouco a separação de seus pais, Shane olhou para o alto e contemplou a neve que caía. E agradeceu por ter os melhores amigos que poderia conhecer.



*****


O Salão Principal estava com bastante gente. Era um dos últimos jantares antes do Natal, e a mesa estava farta. Vivien, Harmony, Betsy, Grant e Sebastian tinham uma conversa calorosa sobre seus planos para o Natal.

- Bem, eu ficarei enfurnada aqui em Hogwarts mesmo — reclamou Betsy.

- Correção: enfurnada aqui comigo! — brincou Betsy, chegando perto da garota.

Betsy se afastou rapidamente.

- Droga! Existe Natal mais insuportável? — disse ela, em voz alta.

Todos na mesa riram.

- E você, Vivien? O que irá fazer no Natal? — perguntou Sebastian.

- Ah, eu vou ficar por aqui também — respondeu ela — Meus pais viajaram para a casa de meus tios, então passarei o Natal sozinha este ano.

- Ai, Viv! Não sozinha! Eu vou estar aqui! — disse Betsy, abraçando a amiga.

Vivien retribuiu o abraço e deu uma risada como agradecimento.

- E por que você vai ficar, Betsy? — perguntou Vivien.

- Meus pais vão para a Itália. Decidi não ir — respondeu ela, normalmente.

Harmony arregalou os olhos. Sebastian deixou seu omelete cair do garfo, e Vivien e Grant ainda se perguntavam se ela estava brincando.

- Tá zoando, né? — perguntou Harmony.

- O que? — perguntou Betsy.

- Calma aí. Acho que você confundiu Itália com o banheiro dos monitores. Itália, Betsy. Por que? Por que? — perguntou Harmony, pasma — Gente... Betsy... Procure um médico.

- Nossa, tudo bem — começou Betsy — Não querendo me gabar, mas já fui na Itália antes. E sempre visitamos minha tia e os filhos dela. Meus primos. Bando de chatos ignorantes. Não quero passar meu Natal lá!

Harmony pareceu um pouco mais aliviada com a explicação.

- Eu enfrento vinte primos chatos e nem ligo se eu ester na Itália — comentou Harmony baixinho, propositalmente.

Betsy fez uma careta para a menina.

- Acho que vocês não entenderam direito, galera! — disse Grant — Acho que é uma desculpa... Ela sabe que eu vou ficar aqui...

Sebastian riu.

- Ai, Grant. Se toca, vai — riu Betsy.

Sebastian se serviu de mais omelete, e Vivien deixou cair um belo pedaço de frango na mesa.

- Droga! — reclamou ela, pegando o frango e o colocando em seu prato — Quem mais vai passar o Natal aqui?

- Que eu saiba, eu, você, Betsy e o Shane — respondeu Grant.

- Podíamos fazer alguma coisa, né? — sugeriu Betsy — Só nós quatro!

- Seria ótimo! — concordou Vivien.

Grant ficou pensativo e disse:

- Vocês repararam que em tão pouco tempo começamos a andar juntos? Quero dizer... Isso é legal, não é?

Vivien ficou sem graça.

- É. Eu gostei de vocês... Não foi muito à primeira vista, mas... Gostei de vocês — disse ela.

- Opa! Eu lembrei de mais uma que passará o Natal aqui em Hogwarts — disse Sebastian.

- Quem é? — perguntou Harmony.

- A Lauren — respondeu ele baixinho, apontando com a cabeça para a mesa ao lado.

Lauren estava sentada junto com Vincent e Louise. Ela estava um pouco chateada e nervosa, enquanto Vincent e Louise tinham uma conversa animada. Seus olhos encaravam os de Vivien, que estava sentada na outra mesa, mas de frente para a garota, assim como Sebastian e Harmony.

Betsy e Grant viraram para trás para vê-la também, e agora, todos na mesa encaravam a menina. Lauren se sentiu intimidada, e virou seus olhos, sem graça, para outro lugar.

- E acabamos de dar um show de como somos discretos! — exclamou Vivien.

Betsy também parecia sem graça.

- Sebastian, ela vai passar o Natal com alguém? Quero dizer, ela ficará sozinha? — perguntou Vivien, tentando mostrar-se indiferente.

- Que eu saiba, sim — respondeu Sebastian — Por que?

- Nada... — respondeu Vivien — Só que é meio chato, né? Passar o Natal sozinho e longe da família...

- É só a convidarmos para a nossa reuniãozinha também de Natal — sugeriu Grant, sem pensar duas vezes.

Betsy o encarou impaciente.

- Sim, Grant, ótima ideia! Vamos chamar a ex de nosso amigo que ainda o ama e que teve uma discussão pesada nos corredores da escola, na frente de todo mundo! — ironizou ela — Não, espera aí! Ah, sim! É também aquela que quase caiu na porrada com a Vivien!

Grant abaixou a cabeça, e Harmony começou a rir.

- Não! Não tem nenhum problema chamá-la! — disse Vivien — Quero dizer, se estiver tudo bem para ela.

- Não estará tudo bem para ela, Viv — contrariou Betsy — A Lauren é muito orgulhosa. Ela nunca vai pedir perdão.

- Bem, de mim, não será — disse Vivien — Quem começou foi ela.

De relance, ela olhou para Lauren mais uma vez. Ela encarava Vivien, e rapidamente desviou o olhar. Vivien se lembrou de falar mais baixo.

- Ela estava olhando para mim de novo! — sussurrou ela — Não olha! — disse ela a Sebastian, que já levantava o rosto para encarar Lauren.

- Desculpa — disse Sebastian.

Vivien sempre esquecia o nome do menino que causou a discórdia no relacionamento de Shane e Lauren.

- Gente... Eu sempre esqueço — começou ela — O nome está na ponta da língua, mas eu sempre esqueço! Qual é mesmo o nome do menino que Lauren ficou quando estava com o Shane?

- Ryan. Ryan Rivers — respondeu Betsy.

- Isso! — exclamou ela — Ryan Rivers! — disse em tom mais alto que quase ecoou pelo salão — Obri...

E quando Vivien percebeu que havia falado alto demais, já era tarde. Há muito Lauren já havia se levantado de sua cadeira e contornar a mesa onde estava sentada. Agora ela se dirigia, com passos pesados, na direção de Vivien.

Todo o salão parou para assistir o que parecia ser um desfile de Lauren em uma enorme passarela. Louise já murmurava "começou a putaria de novo", e Sebastian, de olhos arregalados, já se afastava de Vivien com medo da fúria de Lauren e o que ela podia causar.

- Muito bem! — disse Lauren em voz alta, ainda se aproximando — Como se não fosse o suficiente ficar me encarando toda a hora, ainda grita para todo o salão "Ryan Rivers" com a maior alegria estampada em seu rostinho de santa? Tá pensando o quê?

Agora ela já estava na frente de Vivien, que continuava sentada. Toda a compaixão que estava sentindo por Lauren já havia acabado em um passe de mágica.

- Lauren, não foi desse jeito que você está pensando... — começou Vivien.

- Então, me explique! — pediu Lauren — Vai lá!

Vivien tentava controlar sua raiva. Ela não se descontrolaria novamente.

- Querida, se acalme... — começou Lauren, mais uma vez. Dessa vez, estava um pouco mais irônica.

- Me acalmar? — perguntou Lauren estarrecida — Eu estou cansada! O que você fez comigo da última vez... Sua ridícula!

- Ridícula, não! Pare de me chamar de coisas que não sou! — vociferou Vivien.

- Então me explique! — pediu Lauren.

- Eu havia me esquecido o nome do menino que você ficou, traindo a sangue frio o seu namorado. Quando eu consegui lembrar, gritei para todos no salão ouvirem e lembrarem o episódio que foi uma demonstração pura de amor — respondeu Vivien, secamente.

Betsy arregalou os olhos. As pessoas ao redor começaram a rir. Lauren estava a ponto de chorar. Ela olhou para os lados, e não encontrava saída para tamanha humilhação.

Sua cabela latejava. Aquilo não podia estar acontecendo de novo. Não outra vez. Ela estava errada, mas não queria ser a vilã da história. E agora Vivien havia ido linge demais. Lauren estava possessa. Estava com raiva. Tamanha riava que a fez falar em voz alta:

- Eu beijei Ryan e foi um erro que me arrependo — começou ela, quase gritando — Mas pelo menos, não tento pagar de santinha e negar que não está a fim de um menino!

Vivien se assustou com a acusação.

- Não se assuste, querida — continuou Lauren — É o que todos na escola estão comentando! Betsy comentou! O jeito que você encara o Shane! Que gosta dele e não quer admitir.

Vivien olhou para Betsy, que estava tão assustada quanto ela. Betsy sussurrou:

- Depois te explico.

Mas Vivien desejava uma explicação naquele exato momento.

- Isso é ridículo! Por que eu gostaria do Shane? — perguntou Vivien.

- Talvez por ele ter sido o seu primeiro beijo! Pelo menos é o que parece! — bradou Lauren — Já que provavelmente ninguém mais nessa escola te beijaria por ser tão superficial e fingida.

Agora todos ao redor riam de Vivien. Era a bola da vez.

Vivien sentiu um enorme frio na barriga. Queria chorar. Mas não podia. Não na frente de todas aquelas pessoas.

Então, em um momento de raiva, ela levantou-se de sua cadeira, e começou a andar lentamente para a saída, passando pelo público que a acompanhava. Mas Vivien não estava indo embora. Só esperava o primeiro menino que encontrasse em pé na frente dela para realizar a coisa mais infantil e louca que se lembrava.

A vítima se aproximava. Um menino loiro, um pouco mais velho, de cabelos bagunçados e olhos verdes claros. Ótimo, ele é lindo, pensou Vivien. Vai servir.

Então, ela parou no meio do corredor e de braços cruzados esperou o menino se aproximar. Assim que ele pôde perceber que a menina a encarava, já era tarde demais. Vivien avançou nele e lhe tascou um beijo de tirar o fôlego.

Para a alegria de Vivien, ele retribuiu. Ele lhe pegou pela cintura, e eles continuaram o beijo que pareceu o momento mais longo e constrangedor de Vivien.

Quando afastou-se dele, pôde ver que a reação de todos era de pura surpresa. Meninas cochichavam rapidamente, e pareciam olhar diretamente para Lauren, esperando a reação da garota.

- Eu não acredito que ela fez isso — cochichou uma menina do quarto ano de Grifinória.

Quando Vivien olhou para Lauren, viu uma pessoa parada em pé, com os olhos cheio de lágrima prontas para cair por seu rosto. Mas eram lágrimas de raiva. Pareciam lágrimas de humilhação. Betsy estava boquiaberta, e ora olhava para Lauren, ora para Vivien.

- Meu Deus! O que eu fiz? — perguntou-se ela — Como eu sou idiota!

Ela virou-se para o menino, que, apesar de parecer surpreso e confuso, exibia um sorriso sedutor à ela.

- Caraca, me desculpa? — perguntou Vivien a ele — Acabei de fazer uma idiotice!

- Idiotice seria se eu tivesse recusado te beijar, linda — retrucou o garoto.

- Me desculpe mesmo. Se foi bom para você, tudo bem. Mas me perdoe.

Todos ainda olhavam para os dois. Vivien não conseguia entender o por que de ainda tanta curiosidade. O que poderia acontecer já aconteceu. Ela até mesmo estava pensando em conversar com Lauren, pedir desculpas por tudo o que disse e pelo que havia acabado de fazer.

- Eu te beijei do nada. Nem sequer perguntei o seu nome — comentou Vivien, mexendo no cabelo, tentando disfarçar sua timidez, que agora prevalecia sobre ela.

- Meu nome? Claro, gata. Sou Ryan. Ryan Rivers.