Lauren deu um passo para trás, assustada com tamanha raiva de Vivien. Porém, recompôs sua expressão em seguida, afinal, não queria demonstrar nenhuma fraqueza perante os outros. Voltou a olhar firmemente para Vivien, e ajeitou sua posição para algo considerasse ameaçador ou intimidador.

— Tudo bem, posso ter errado em tê-la chamado de vadia. Mas isso quase justifica o caso de você estar dando em cima do Shane — disse Lauren, olhando para a Vivien com desprezo.

Vivien pareceu chocada com o que havia ouvido, e tratou de se defender.

— Ah, então eu sou uma quase vadia? — perguntou ela, dando mais um passo pra frente — A culpa não é minha se você não consegue segurar seu namorado, querida.

O rosto de Lauren ficou vermelho. Depois do comentário muito audível de Vivien, as pessoas ao redor começaram a rir baixo e cochichar entre elas.

— Isso não é da sua conta — esbravejou ela, apontando diretamente para Vivien — Se você fosse mais correta do que eu, me deixaria tentar reconquitá-lo!

— Eu nem sabia quem você era, e eu não quero nada com seu namorado, ex, o que for, garota! — respondeu Vivien, abaixando um pouco seu tom de voz.

Lauren a encarou por um tempo.

— E além disso — continuou Vivien, quebrando o pequeno silêncio que havia sido formado — Acho que você não está com muito direito de tentar reconquistá-lo...

O rosto de Lauren ficou mais vermelho dessa vez, e muito mais intenso.

— Eu vou te falar só uma coisa — começou ela — Você não sabe de nada. Saiba que eu sou muito capaz de segurar meu namorado!

— Ah, isso é verdade. Eu me confundi! — exclamou Vivien- O caso não foi você segurá-lo! O caso foi ele não ter conseguido segurar você!

Isso atingiu Lauren em cheio. Podia-se ouvir muito bem os cochichos e risadas que as pessoas faziam ao redor da discussão das duas.

Shane as encarava, desesperado e envergonhado. Ele não tinha nenhuma reação naquele momento, e não sabia o que fazer. Mas devia fazer alguma coisa. Pelo contrário, a discussão ali poderia se agravar e algo muito pior poderia desencadear-se. Devia fazer qualquer coisa para tentar apartar aquela discussão.

— Chega! — exclamou ele, em alto e bom som — Vocês duas! Acabou! É melhor você ir, Lauren. Se um professor chegasse aqui, vocês teriam problemas.

Ele estava no meio das duas, com os braços esticados, cada mão segurando o braço de uma.

— Lauren, vai logo — finalizou ele.

Dar as costas soaria como se ela estivesse sendo dada por vencida. E isso não era a sua intenção. Mas depois do último comentário de Vivien, Lauren preferiu passar a impressão de que obedecia às ordens de Shane do que deixar o local por sentir-se humilhada e sem mais argumentos para debater com Vivien.

Antes de virar-se e voltar à sua mesa, Lauren olhou mais uma vez para Vivien, que a encarava, mas com um olhar arrependido. Vivien não queria ter dito aquilo, e muito menos ter feito agindo daquele jeito. Talvez sentiu-se na necessidade de se impor, e tentar mais uma vez, inconscientemente, mostrar a Shane e seus amigos que ela não era uma idiota, reprimida, do tipo que levaria os desaforos de Lauren e ficaria quieta.

Mas Vivien acabou achando que, se não fosse pelos últimos eventos ocorridos, ela talvez não teria feito aquilo tudo. Se Lauren tivesse a chamado de vadia, com certeza sua raiva seria limitada a estar dentro de si mesma, e Vivien estaria assustada, esperando que Shane ou Grant pudessem resolver o problema par ela.

Assim que Lauren virou-se e andou de volta à sua mesa rapidamente, Vivien respirou tão profundamente que parecia que não havia respirado naquele último minuto.

— Viv, você está bem? — perguntou Harmony, que agora havia sentado perto da amiga, segurando sua mão.

— Estou, eu estou — respondeu Vivien apressadamente — Meu Deus! O que foi aquilo? Por que eu disse tudo aquilo?

— Querida, relaxa. Ela mereceu, né? — disse uma calorosa Betsy, que havia chegado e provavelmente havia assistido a briga de camarote.

Vivien assustou-se com sua presença, e olhou para Betsy irritada.

— Ih, baixa a bola, Vivien — repreendeu Betsy assim que viu a expressão da amiga — Não é a Lauren que tá aqui não. Não sou branca, e nem loira! — concluiu ela.

Betsy era negra e tinha um corpo que dava inveja em muitas meninas. Segundo ela, nunca havia feito nenhum exercício para modelar aquela aparente perfeição, mas muitos duvidavam. Seus cabelos eram médios, pretos e a cada dia aparentavam estar diferentes. Ou estavam lisos, cacheados, bagunçados, presos...

Antes de tornar-se amiga de Betsy, Vivien sempre havia achado a garota uma idiota qualquer. Mas Betsy era muito divertida e verdadeira, e isso mudou um pouco o jeito que Vivien olhava para Sonserina, casa a qual Betsy pertencia.

— Ai, mas você fica falando essas coisas! — reclamou Vivien — Não tá vendo que eu tô nervosa?

— Amadores... — comentou Betsy — Viv, para com isso! Você venceu a discussão. A Lauren estava tão vermelha que parecia uma lagosta de peruca!

Harmony riu. Vivien olhou para ela, e sua expressão mudou na mesma hora.

— Qual é, Vivien? — disse Betsy — Estou aqui para te parabenizar e você fica assim? Foi ela que veio te procurar, e te tratar de qualquer jeito pensando que era a tal.

— O que ela não é! — complementou Harmony.

— Porque eu sou a tal! — finalizou Betsy.

Vivien não deixou de esconder um sorriso.

— Eu vi esse sorrisinho — disse Betsy, sentando-se ao lado dela — Não fica assim, ouviu?

Vivien assentiu com a cabeça. Ela olhou para Eric, que lhe deu um sorriso, na tentativa de confortá-la um pouco mais. Mas ela não olhou para trás, ou veria Shane. Ele devia falar com ela, e não ela com ele.

Shane ainda estava ainda chocado. Sabia que deveria falar com Vivien, mas no momento, era melhor não falar nada do que falar algo que soaria idiota. Porque não sabia o que falaria.

— Eu tô indo, galera — disse Vivien — Vou descansar um pouquinho.

— Calma que eu vou com você — disse Harmony, levantando-se junto com ela e dando um beijo no rosto de Eric — Depois a gente se fala, Eric.

— Não! Calma que eu vou com vocês — disse Eric, levantando-se também.

Shane olhou para Vivien. Os dois encararam-se rapidamente.

— Tchau, depois a gente se fala — disse Shane secamente, sem olhar para Vivien.

— Tá bom — respondeu ela — Até. Tchau, Grant.

— Tchau — disse Grant.

Shane sentou-se ao lado do amigo, e os dois obersavaram Vivien, Eric e Harmony partirem.

Vivien olhou para trás antes, e pôde ver que Lauren olhava para ela. Porém, agora a expressão da menina não aparentava raiva. Ela olhava para Vivien com ressentimento. Talvez ela também estivesse pensando que a discussão das duas fora desnecessário.

Os três saíram do Salão Principal e dirigiram-se aos corredores. Porém, nenhum dos três sabiam para onde estavam indo. Apenas seguiam pelos corredores sem rumo, e talvez Harmony e Eric entendiam a necessidade de Vivien de deixar o Salão no momento.

— Talvez vocês não queiram falar disso agora — começou Eric — Mas se você não quiserem, eu paro de falar, ok?

Ele não obteve resposta, mas Vivien assentiu com a cabeça.

— Olha, o Shane e a Lauren têm uma história um pouco conturbada — começou Eric — Eles começaram a ficar ano passado, no terceiro ano, um pouco antes do Natal.

"O Shane sempre andou comigo e com o Dylan desde o início, e sempre foi metida à garanhão como eu e Dylan. Só que o Shane nunca foi assim. Ele sempre teve vergonha de chegar nas meninas, e enquanto eu e Dylan sempre estávamos conversando com alguma ou até mesmo beijando, ele sempre arranjava uma desculpa: ou a menina era feia ou ele tinha que estudar, e evitava de ficar conosco para conversar. Resumindo: o Shane nunca teve jeito para meninas".

— Tá, Eric, mas onde você quer chegar? — perguntou Vivien.

— Ah, tô falando por falar. Mas é bom que vocês entendem um pouco também — alertou ele — Enfim, então um certo dia, como eu disse, umas duas semanas antes do Natal do ano passado, nós estávamos em uma festinha que havíamos feito pelo jogo de quadribol que havíamos ganhado. E todos nós sempre soubemos que a Lauren olhava para o Shane de um jeito diferente.

"Então, naquela noite, ele percebendo aquilo, pedimos para que ele fosse lá falar com ela. Ele desconversou, falando que ela não queria nada com ele. Nós insistimos, mas não adiantava. Do jeito que você pôde ver um pouco da Lauren, ela não enrola muito pra fazer as coisas".

— É, eu pude — confirmou Vivien.

— Aí foi a Lauren que chegou no Shane. Ela começou a conversar com ele, o parabenizando pelo ótimo jogo. E dava pra ver que o Shane estava muito nervoso. Que eu saiba, desde que ele andava com a gente, ele só havia ficado com três meninas. Enfim, foi a Lauren que teve a iniciativa para chegar nele e tal... Depois disso, eles começaram a namorar, e o Shane ficou perdidamente apaixonado por ela. Era uma merda.

"Ele não parava de falar nela, eles se viam toda hora, e ele queria abraçá-la ou beijá-la toda hora. Dava pra ver que o Shane tava mais confiante, já que agora ele não precisava conversar com uma menina pra conseguir um beijo. Ele mudou o jeito dele, ficou mais solto...".

— E mais idiota — riu Vivien.

— É, eu acho que ele estava fazendo aquelas coisas idiotas com você como um modo de talvez dar um ideia em você, sei lá — disse Eric.

Vivien olhou horrorizada.

— Coitado, então ele precisa de ajuda — disse Harmony. Eric a abraçou.

— Concluindo: dava pra ver que a Lauren estava sendo sufocada. Ela ameaçou terminar com ele, e ele mudou. Mas ele sempre foi muito apaixonado por ela, e há poucos dias, quando ele descobriu que Lauren havia o traído, ele ficou devastado.

"Ele gosta tanto dela que quando soube que ela havia o traído, não a perdoou".

— Você tá sendo irônico? — perguntou Harmony.

— Não! Pode parecer sem sentido, mas é verdade. Algumas vezes, por amar tanto alguém, se essa pessoa trai sua confiança fica difícil perdoá-la. Ou você não acha? — perguntou Eric.

Vivien pensou que aquilo fazia sentido.

— Desde então ela está correndo atrás dele, e ele aparentemente não quer mais nada com ela. Ele sofreu uma desilusão — concluiu Eric.

Por uns segundos, os três ficaram em silêncio andando pelos corredores.

— Pra onde estamos indo? — perguntou Harmony.

— Eu não sei. Eric, então me fala um negócio — emendou Vivien rapidamente — Como é mesmo o nome do menino que a Lauren ficou?

— Ryan Rivers — respondeu Eric — Por que?

— Nada — respondeu Vivien — Eu havia me esquecido.

*****

A escada que dava caminho para o corujal estava escorregadia. Louise estava com muito frio. Usava um casaco fino por cima de um grosso suéter de lã que usava. Suas mãos estavam de luvas, mas mesmo assim ela podia sentir que elas estavam muito geladas. O cachecol da cor de Lufa-Lufa estava enrolado em seu pescoço, e seus cabelos curtos no ombro balançavam a medida que o vento soprava.

Louise precisava mandar uma carta para sua família. O Natal já se aproximava, e ela decidiu ficar na escola. Seus pais viajariam para a casa dos avós na França, e voltariam um pouco depois das aulas começarem. E Louise não queria perder as aulas.

Ela era muito tranquila. Louise contrastava totalmente com sua amiga Lauren, principalmente se fossem comparadas pelo ocorrido daquele dia. Ela não brigaria com aquela menina chamada Vivien. Pelo contrário, raciocinaria antes, e chamaria a menina para conversar em um canto, calmamente. Algumas vezes Louise não compreendia como alguém poderia ser tão temperamental. Era estranho.

Assim que chegou ao corujal, encontrou um dos meninos mais altos e magros que já havia visto. Ele usava um topete que ela achava bonito, e estava de óculos, algo inédito para ela.

— Oi, Sebastian — cumprimentou ela — Como tá?

— Eu tô bem — disse ele — E você?

— Bem também — respondeu ela, sorrindo para o amigo — Mandando cartas?

— Não, esperando uma — respondeu ele.

Ela sorriu para ele e andou pelo corujal em busca de sua coruja, que sempre deixava ali. Hawkie, sua coruja, caçava e voltava para o corujal. Algumas vezes Louise a levava para seu dormitório, mas achava que Hawkie preferia ficar ali, livre, e ficar junto à menina somente quando requisitado.

Louise esticou o braço quando avistou Hawkie, uma coruja marrom, e Hawkie desceu rapidamente para pousar em suas braços. Louise amarrou a pequena carta que desejava felicidades aos pais e à sua família no Natal na pata de Hawkie, e soltou a coruja, que voou em direção seu destino.

Então, ela voltou-se para Sebastian.

— Você não acha melhor esperar lá na escola? Depois você volta — sugeriu ela — Aqui está muito frio.

— Não, eu não posso — respondeu Sebastian, apressadamente — Eu quero logo ler essa carta. Eu preciso muito.

— E você vai ficar aqui, congelando, sozinho? — perguntou Louise.

— Não tem problema. Vai valer a pena à espera — respondeu ele sorrindo.

— Tudo bem, eu vou te fazer companhia — disse ela.

Sebastian arregalou os olhos.

— Não, Louise! Você está com frio. Eu sei que você sente muito frio! Não precisa ficar aqui comigo! — disse ele, atropelando as palavras.

— Para de bobeira! — disse ela — Você acha que vou te deixar aqui sozinho?

— Mas eu fico bem aqui, sozinho...

— Está decidido — disse ela, calmamente.

Ele sorriu para ela.

— Se você insiste...

— Insisto mesmo — afirmou ela — Agora vamos tomar cuidado e sentar em um lugar que não esteja sujo por cocô de coruja.

Ela e Sebastian recostaram-se sentados em uma parede em que acima deles não havia nenhuma coruja, para que não corressem o risco de receberem caca na cabeça.

Sebastian sentou um pouco mais afastado. E ela olhou para ele, fingindo uma cara brava.

— O quê? — perguntou Sebastian.

— Ora, eu vou ficar aqui mas eu ainda sinto frio — disse ela — Chega mais perto.

Sebastian ficou um pouco sem jeito, e chegou um pouco perto, mas ainda sem encostar nela.

— Mais perto — pediu ela.

Sebastian ficou sem-graça, e encostou em Louise. Ela encostou sua cabeça ao lado do ombro do garoto, e agarrou-se em seu braço para tentar se aquecer. Ela percebeu que Sebastian parecia um pouco envergonhado.

— Qual é, Sebastian. Sou sua amiga. Não vou tentar te beijar, seu bobão — riu ela.

— O quê? Eu sei, eu sei! — disse ele, atrapalhado — Eu sei, né, Louise. Eu tô quieto...

Ela riu, e os dois aconchegaram-se no calor do um do outro. Sebastian ficou enrolando seus cabelos distraidamente, enquanto Louise apertava um pouco mais seu cachecol para se aquecer.

E então, silenciosamente, os dois observaram a neve que caía pesadamente do lado de fora.

*****

O dia estava passando rápido na opinião de Shane. Mas ele também achava que aquilo provavelmente deveria ser a sensação correta: na última noite, ele e alguns outros estavam cumprindo uma detenção, que não foi cumprida devidamente. Eles simplesmente fugiram da detenção, e foram parar na Sala Precisa. Lá, beberam até ficaram chapados e acabou tentando beijar Vivien, que rejeitou seu beijo. Quando voltaram, foi descoberto que não haviam feito o suficiente para cumprir a detenção.

E então, tiveram que passar mais algumas horas cumprindo o que deveria ter sido cumprido há muito tempo. Não teve muito tempo para dormir, e logo já estava em horário de aula. Antes disso, teve uma discussão no meio do corredor com Lauren, que ouviu sua tentativa de beijar outra garota. Depois, no Salão Principal, para o almoço, Lauren discutiu com Vivien na sua frente, e ele não fez absolutamente nada. Na verdade, pensou que naquele momento deveria estar parecendo um idiota, observando as duas brigando.

Shane se sentia mal por não ter falado nada com Vivien. Ele deveria ao menos ter pedido desculpas à ela. Lauren não entendeu que Shane era o único culpado por aquilo, e que Vivien não tinha absolutamente nada a ver com o casal. E ele tinha certeza de que ela não gostaria de fazer parte de um relacionamento conturbado como o dele e de Lauren.

“Vocês não estão mais em relacionamento, merda!”, pensou Shane, lembrando a si mesmo. O fato que Shane não podia negar era que ele ainda gostava de Lauren. Obviamente. A menina foi no início sua “namoradinha”, como seus pais falavam, mas no meio de todos aqueles jovens e até mesmo na rotina de conviver como namorado dela fizeram-no que amadurecesse, e nutrisse um amor que realmente considerasse verdadeiro por Lauren. Então, Shane tinha certeza que talvez seus sentimentos poderiam durar muito ainda.

Sentado na mesa do Salão Principal, depois das aulas de História da Magia, Shane estava pensativo, contemplando o nada, até que seu silêncio foi interrompido por Betsy, que aparentava estar muito animada.

- E aí? Como você se sente? – perguntou ela.

- Como eu me sinto pelo o quê? – rebateu Shane, desconfiado.

- De saber que duas meninas estavam brigando por você – respondeu ela, rindo.

Ele deu uma risada forçada e voltou a abaixar a cabeça.

- Brincadeira idiota – disse ela – Mas enfim, me conte as novas!

- Bem, Betsy. Eu acho que depois de Lauren e Vivien, não há outra novidade que possa superar essa – respondeu Shane.

- Tem razão, mas, sei lá... Vai passar o Natal aqui? – perguntou ela.

- Não, vou para a casa dos meus pais. E você?

- Eu também. Minha avó e meus tios virão nos visitar. Minha tia é legal. Mas a minha avó fica perguntando tudo o que acontece na escola – informou Betsy.

Shane riu. Ele sabia do que Betsy estava falando.

- Fica me perguntando o que eu aprendi, se eu já sei abrir portas, levitar objetos... Parece que sou uma burra que não vai aprender nunca! – continuou ela.

- E ainda diz toda vez: e nunca pratique as Imperdoáveis – completou Shane.

- Ai meu Deus! Eu pensava que isso só acontecia comigo! – riu ela. Os dois gargalharam.

- Eles são assim mesmo. Ficam assustados só de pensar que estamos aqui, por nossa conta. Eles sabem que Hogwarts é gigante, e que somos propícios a realizar muitas coisas erradas aqui dentro – disse ele.

- Verdade... – concordou Betsy.

Um silêncio repentino tomou conta da conversa. Shane olhou para Betsy, e parecia que a menina gostaria de falar alguma coisa.

E Betsy realmente queria falar. Ela só esperava que Shane não ficasse bravo com ela, e nem pensasse que ela queria fazer fofocas. Ela queria lhe dar um conselho de amigo.

- Posso te falar um negócio? – perguntou ela, calmamente.

- Claro – respondeu Shane, confirmando seus pensamentos e a ouvindo atentamente.

- Olha, eu sou fofoqueira e adoro saber das coisas que acontecem em Hogwarts – começou ela – Mas eu te conheço há muito tempo, e você é meu amigo antes de tudo. Então, eu não estou falando isso com a intenção de fazer fofoca, tá?

Shane não respondeu nada, mas assentiu com a cabeça.

- Tudo bem. Eu acho, Shane, que se você ainda gosta da Lauren, o que eu acho que sim, e realmente estiver disposto a perdoá-la, faça isso. Perdoar não significa que você voltará com ela.

Betsy falava calmamente com Shane, com medo de que o garoto pudesse explodir de raiva.

- Não adianta sofrer, cara. Se você quer voltar com ela e tentar mais uma vez, não tem problema. Não ligue para o que os outros pensam. Porque no final das contas, você prefere ser alvo de fofocas de todo mundo mas estar feliz do que tentar evitar ser mal falado e viver sua vida na merda.

Shane a encarava durante todo o tempo, e não havia dito nada.

- Eu não sei, por mim, tanto faz. Eu fico feliz de ver vocês dois juntos ou separados se for o melhor, Shane –completou ela.

- Eu sei, Betsy – disse Shane, sorrindo para ela – Obrigado.

Ela o abraçou e lhe deu um beijo na testa.

- Parece que temos vinte anos, mas temos só catorze – riu ela – Como assim, né?

- Amadurecemos rápido demais – respondeu Shane – Acho melhor eu voltar a brincar de carrinho, sei lá.

- Eu também acho melhor eu voltar a brincar. Se bem que agora não tem mais graça fingir ser algo que eu sou – comentou Betsy.

Shane já espera uma resposta bastante inusitada vinda da amiga.

- Você brincava de quê? – perguntou Shane.

- Eu fingia que era popular – respondeu ela, e sorriu para Shane.

Ele retribuiu o sorriso e ficou a observando até desaparecer, quando virou à esquerda no corredor assim que saiu do Salão.

*****

Louise estava bem mais confortável do há algum tempo, antes de chegar no corujal. Sebastian também estava mais à vontade, e bem quentinho também. Os dois estavam parados, conversando. Sentados no mesmo lugar, também quase não haviam trocado de posição.

- Eu fui um idiota hoje, né? – perguntou Sebastian, mudando repentinamente o assunto.

- Por que? O que você fez? – perguntou Louise, curiosa.

- Ah, cara, eu falei aquelas coisas para a Lauren, sabe? Coisas que eu acho que eu não deveria ter falado... – respondeu ele, baixinho.

- Relaxa, Sebastian – disse Louise, o abraçando.

Sebastian logo se desfez do abraço para contestar.

- Não, Louise, você não entende! – disse ele – Se eu não tivesse falado aquelas coisas, talvez a Lauren não teria ido brigar com a ruiva que eu esqueci o nome! E aquela briga toda não teria acontecido!

- Sebastian...

- Sei lá, eu podia ter pelo menos dado as costas pra Lauren e seguir em frente – imaginou ele – Ou ter falado alguma coisa diferente, sei lá! A Lauren me intimida um pouco.

Louise achou o último comentário engraçado. Deu alguns tapinhas no braço do garoto, chamando sua atenção.

- Ela intimida muita gente – disse ela, quando ele finalmente olhou em seus olhos.

Sebastian sorriu para ela, mas recompôs suas expressão anterior, a de decepção.

- Mas mesmo assim ainda me sinto culpado – falou ele.

- Cara, deixa eu te falar um negócio – começou ela –Acho que você estava naquela hora que eles brigaram porque Lauren ouviu ele falando algo sobre a menina que ele tentou beijar, não estava?

Sebastian confirmou com a cabeça e Louise prosseguiu.

- Então! Aquilo já estava para acontecer, Sebastian – disse Louise – A culpa é toda e completamente deles. Por não saberem resolver o término do namoro de forma correta.

O garoto permaneceu calado, ouvindo.

- Então, para de se culpar. Eu te conheço, e você vai ficar se lamentando pelo resto de sua vida! – finalizou ela.

Quando ela acabou, Sebastian parou de encará-la e fitou mais uma vez a neve, que agora, caía com uma intensidade um pouco menor.

- Tá bom – concordou ele – Você tem razão. Mas o que eu vou falar com o Shane se ele me perguntar alguma coisa? – e voltou a olhar para a janela.

- Ora... – começou Louise, pensativa – Você pode...

- Meu Deus! – exclamou Sebastian, interrompendo a garota. Ele deu um pulo e assustou a menina, que ficou de olhos arregalados por um instante.

Ela levantou-se devagar, e ainda olhando para o amigo.

- Caramba, Sebastian. A carta chegou – perguntou ela.

- Sim, sim! – exclamou ele – Ali a coruja chegando. É a coruja da minha mãe!

- Que ótimo – disse ela – Mas só não me dê esse susto novamente.

- Foi mal – disse ele, sorrindo, sem conseguir disfarçar sua animação.

A coruja, um pouco parecida com a de Louise, pousou diretamente nos braços de Sebastian. O garoto retirou uma carta em formato triangular, lacrada com um selo em forma de coração. No envelope que a carta estava, havia o o formato de uma pequena mão, impressa por tinta preta.

A mão de uma criança.

Sebastian abriu a carta enquanto Louise olhava e esperava, curiosa. Ele não podia conter sua animação de finalmente ler aquilo que estava esperando há muito tempo. Quando soube, nem pode dormir na noite, pensando no momento em que receberia a carta como prova do que havia acontecido.

Louise chegou perto de Sebastian, para ler a carta junto com ele.

“Sebastian, aqui é a mamãe. Está tudo bem aqui conosco, e nós estamos te esperando ansiosamente. No Natal, seu primo Neil passará alguns dias aqui, então venha logo!

Como eu prometi, aqui está o que você está tanto esperando para ler. Hunter está com uma letrinha linda, não é? Te amo, filho. E te espero em breve!

PS: Tem uma surpresa toda vez que você abrir a carta. Tem um tempo certo, então não demore a ler!

O que veio a seguir foram letrinhas todas tortas ainda, algumas ainda bem mal escritas, mas Louise entendeu que aquelas letrinhas eram de uma criança, talvez a dona da mão impressa no envelope. Ela olhou para Sebastian rapidamente, e podia ver algumas lágrimas descendo dos olhos do amigo.

- Eu... Eu estava ensinado o Hunter a ler e a escrever nas férias, Louise – disse ele, limpando as lágrimas rapidamente, mas sem desviar o olhar para a carta – E eu fui embora sem ver sua primeira escrita. Sua primeira letra.

Louise o observava encantada.

- Eu amo muito meu irmão, Louise. Ele importa muito pra mim, e olha o que eu recebo!

Louise fez um esforço para entender o que estava escrito. Estava escrito “Feliz Natal!”. Ela sorriu ao decifrar as letras.

De repente, a carta saiu das mãos de Sebastian para flutuar pelo ar sozinha. Dobrando-se e desdobrando-se enquanto uma voz vinda dela começou a falar, pôde-se ouvir:

- Irmão, estou com sodades! Vem logo me ver senão eu aí em Hogs... Hogats...Mamãe, como que fala mesmo?

A carta voltou as mãos de Sebastian. O menino estava maravilhado, como se pudesse ver o Paraíso bem à sua frente. Ele olhou para Louise, com uma lágrima brotando dos seus olhos, e ele estava feliz. Uma felicidade pura que somente Sebastian possuía.

Louise tentou de todos os modos, mas não conseguiu: deixou escapar uma pequena lágrima que havia brotado em seus olhos.

*****

Dylan estava sentado no pátio da escola, sozinho, sentado em um banco de mármore frio. A neve do fim do dia havia cessado, e agora, apenas poucos flocos de neve caíam em uma velocidade devagar. Imaginou que seus cabelos estivessem praticamente brancos, de tantos flocos que já deviam ter caído neles.

Mais à sua frente, em outro banco, estavam Eric e Harmony. Eles haviam chegado há quinze minutos, e quando avistaram Dylan, apenas acenaram para ele. Tentando disfarçar, Dylan apenas acenou e retribuiu o sorriso dos dois. E permaneceu ali, sentado. Cansado por tudo o que havia ocorrido. Queria dormir cedo naquela noite.

Vivien sentou-se ao seu lado.

- Oi – cumprimentou ela.

- Ah, oi! – disse ele, assustado.

- Me desculpe – riu ela – Não queria te dar um susto.

- Não tem problema – disse Dylan – Eu estou meio distraído hoje...

- Eu sei no q

ue você está se distraindo – retrucou Vivien.

Dylan a encarou, e pôde ver que a expressão da menina não tentava repreendê-lo, mas com um trocar de olhos, ela pôde alertá-lo: “não adianta mentir, eu sei o que você está pensando”.

Então, ele não se conteve. Não tentou mentir ou disfarçar, apenas disse:

- Vivien, eu acho que sou idiota, retardado, sei lá...

A menina deu uma risada.

- Cara, como eu posso ficar assim? Eu conheci vocês à noite, mas parece que eu já conheço há três anos – continuou Dylan – Como eu posso me sentir tão mal assim por ver o Eric com outra menina que eu sequer nunca tive contato.

- Amor à primeira vista, talvez – sugeriu Vivien.

- Sai fora! – exclamou Dylan – O negócio é que... – e fez uma pausa para pensar nas palavras certas – é que eu estou atraído pela Harmony de um jeito que eu nunca me senti antes. Eu a vi, e parecia sei lá... Eu queria muito ficar com ela, entende?

Vivien assentiu.

- Relaxa, cara. Isso é normal – disse ela – Eu já senti isso antes. Tá de boa.

- Isso passa rápido? – perguntou Dylan.

- Mais rápido do que estuporar – respondeu Vivien – Mas por que? Você quer esquecê-la? – emendou ela.

- E tem outro jeito? – perguntou Dylan – Olhe só para eles. Parece que eles gostam um do outro, não parece?

Vivien olhou para o casal um pouco mais à frente. Harmony parecia rir, como se estivesse divertindo-se muito com Eric. E ele também ria, e agora abraçava a menina, pressionando-a contra seu corpo.

- Talvez... – respondeu ela, insegura.

Dylan abaixou a cabeça.

- Tá bom, vou tentar te ajudar e vou te falar uma coisa – disse Vivien. Dylan olhava atentamente para ela – A Harmony não liga muito para esse negócio de ficar. Tipo, todos os meninos que ela já ficou ela sempre fez questão de ser amiga deles, então, geralmente, é comum eu vê-la sempre junto com algum menino assim, sabe? Talvez isso não dê em nada! – falou ela, tentando acalmar Dylan.

Ele se sentiu um pouco mais confiante.

- Daquele jeito ali como eles estão? – perguntou ele.

- Não tão próximos, ou parecendo estar apaixonados...

Dylan a encarou de cara feia.

- Desculpe! – disse ela, apressadamente – Olha, outra coisa.

O menino voltou a olhar para ela.

- A Harmony geralmente fica com o menino uma vez só. Justamente para não se apegar – informou, tentando animar Dylan.

- Isso me dá grandes chances – retrucou ele.

- Ah, Dylan, você disse que não gosta dela! Ficar com ela pelo menos uma vez tá bom! – reclamou Vivien.

Dylan ficou pensando. Será que o que estava sentindo por Harmony era só uma atração? Ou seria o temido amor à primeira vista? Ele ficou indeciso em qual opção ele preferia.

- Eu e Eric temos tanto em comum – disse ele – E acho que é por isso que somos tão amigos. E agora, acho que temos mais uma coisa em comum – finalizou, encarando Eric e Harmony ao longe.

Vivien acompanhou seu olhar, e deu um tapinha em suas costas.

- Lembre-se: ela só fica com o menino uma vez só. Isso é super normal da parte dela. Agora se ela voltar a beijá-lo, eu não posso garantir mais nada.

Dylan riu, com a intenção de agradecer Vivien por tentar acalmá-lo.

E para a surpresa dos dois, puderam ver de longe quando Eric e Harmony se encararam por um momento. A menina colocou suas mãos na nuca do garoto, e lhe deu um beijo apaixonante.

Notas finais
O amor... Sentimento misterioso...

A juventude... Uma época tão boa que eu ainda vivo, e tenho quase certeza de que será uma das melhores da minha vida. Recentemente, compartilhei no meu facebook uma postagem em que estava escrito: JUVENTUDE PERDIDA É O CARALHO. E é o que eu acho. Quero dizer, não estou generalizando e muito menos falando pelos outros. Eu falo por mim.

Ser jovem e aproveitar para experimentar coisas novas (amigos, festas, e algumas coisinhas erradas, como a maravilhosa tequila) não julgo essencial para ninguém. Curte quem quer, e quem acha errado, fica no seu canto. Experimentar o amor, o sexo, o bom e o errado fazem parte da juventude de muitos. E Barrados em Hogwarts é sobre a juventude. E lembrem-se: nesse caso, a juventude na Europa, na Inglaterra, pra especificar.

Lugares onde eles são mais precoces nesse sentido. Então, não estranhem jovens de catorze anos dizendo estarem apaixonados ou doidos pra fazer sexo. Não quero exagerar por esse lado, mas quero ter uma base para acelerar as coisas, mas tudo em seu tempo certo. Aproveitem a fic e suas juventudes!

Quem quer, só envelhece por fora.

PEDRO ROGERIO