Bargain
23 Behind the feelings
Notas iniciais
Tobias
Era domingo a tarde e eu estava jogado no sofá. Tris dormia com a cabeça no meu colo e eu tentava me distrair com um filme de ação. Não que estivesse tendo sucesso. Me concentrei em fazer cafuné nela e me limitei a tentar resolver meus problemas da empresa.
Eu tinha uma viagem de negócios marcada para daqui duas semanas e por mais que doesse em mim, eu teria que ir para Boston, já que era uma reunião importante. Ainda tinha o caso contra Marcus, que estava me tirando do sério. Pelo o que o detetive responsável pelo caso tinha me falado, a armação toda era maior do que qualquer um de nós tinha imaginado, e o advogado do meu pai estava dificultando tudo. Sem contar que eu ainda tinha vários contratos com empreiteiras para revisar e assinar.
O toque da campainha me tira dos meus devaneios, e eu dou um jeito de me levantar gentilmente, para não acordar Tris. Ela estava tendo problemas para dormir de noite e eu não queria atrapalhá-la quando ela finalmente conseguia descansar um pouco. Ela não conseguia achar um jeito que ela gostava de dormir e estava começando a sentir muita dor nas costas.
Me dirijo para a porta, aproveitando para abaixar o volume da televisão no caminho. Dei de cara com a minha mãe, que estava acompanhada de uma outra mulher, que eu reconheci na hora. Era Natalie Prior.
Eu as encaro, sem saber se tento ser educado ou repreendo minha mãe por trazer a mãe de Tris aqui. Eu não julgava muito sadio mais uma discussão acalorada e mais um turbilhão de sentimentos. O médico havia me alertado que mesmo ela estando saudável e fazendo tudo da maneira certa, gravidez de gêmeos sempre era mais complicada e podia se tornar de risco. Ele também tinha me alertado que estresse demais não faria nada bem.
— Será que nós podemos entrar? — Minha mãe pergunta, ignorando o meu silêncio inicial. Eu ergo uma das sobrancelhas, pensando na melhor maneira de responder sem ser muito grosso. Eu realmente estava tentando não causar nenhuma confusão desnecessária.
— Eu não sei se é uma boa ideia — Eu respondo simplesmente, evitando encarar nenhuma das duas.
— Tobias — Minha mãe me repreende — Nós só queremos conversar um pouco — Ela acrescenta, me encarando e proticamente esperando que eu as deixe entrar sem fazer objeção nenhuma. Eu já devia estar esperando ela fazer alguma coisa assim. Ela estava decidida a juntar Tris com a família e fazer todo mundo conviver pacificamente. Eu achava que isso se devia principalmente a separação dela.
— Mãe, eu… — Começo a dizer, mas sou interrompido por Natalie antes que eu consiga concluir a minha frase.
— Eu pensei muito sobre o que você me disse aquele dia, no hospital — Ela diz, me olhando. Ela não me encarava duramente e eu não conseguia ver nenhum traço de raiva em seus olhos. Eu sabia que tinha sido grosso com ela, embora tivesse falado o que eu realmente achava — E você estava certo. Eu falhei como mãe, fui omissa e não consegui me dar com isso. Eu queria tentar novamente. Pelo menos tentar começar a me redimir com ela.
— Eu entendo — Eu digo, suspirando. Ela me parecia genuinamente com vontade de, finalmente, tentar começar a fazer as coisas de uma maneira certa — Mas eu ainda estou incerto sobre o que Tris pensa sobre isso e eu acho que é uma coisa que ela deve decidir. Sem contar que pode ser um pouco arriscado caso… caso saia tudo de uma maneira indesejada — Eu acrescento.
— Nós só queremos conversar — Minha mãe diz, gentilmente.
— Eu vou perguntar pra ela — Eu digo, um pouco contrariado — Vou acordá-la e perguntar se ela concorda com uma conversa. Se ela disser que não, não tem mais nada que eu possa fazer. Essa decisão não é minha — Eu aviso, já deixando falado que se Tris decidisse que não, ela teria que ir embora.
— De acordo — Natalie responde, com um sorriso tímido no rosto.
— Esperem um instante — Eu digo, voltando para dentro do apartamento, mas deixando a porta aberta atrás de mim. Volto para perto do sofá.
Acordo Tris gentilmente. Ela abre os olhos e dá um sorriso pra mim. Eu respiro fundo, pensando em como falar e tentando prever a reação dela. Se ela se irritasse… Bem, eu não queria nem imaginar.
— Aconteceu alguma coisa? — Ela pergunta, dando um beijo no meu rosto. Eu a abraço antes de responder.
— Tem alguém aí que quer te ver — Eu respondo, apontando para a porta entreaberta — Vai depender só de você.
— Quem é? — Ela pergunta, franzindo a testa. Ela provavelmente já tinha uma boa noção de quem estava aí fora.
— Minha mãe, acompanhada por Natalie — Eu respondo. Ela prende a respiração — Se você não quiser, elas vão embora — Eu acrescento rapidamente.
— Eu… — Ela se corta no meio da frase — O que ela te disse?
— Que ela pensou no que eu falei pra ela no hospital e que eu estava certo, e que ela quer tentar começar a reparar as falhas dela. De uma maneira certa, dessa vez — Eu respondo, abraçando ela gentilmente.
— Diz que elas podem entrar — Ela responde baixinho. Eu concordo com a cabeça e começo a andar para a porta novamente, mas Tris segura o meu braço — Promete que não vai sair do meu lado?
— Eu prometo — Eu digo, dando um beijo nela. Ela solta o meu braço e eu vou até a porta. Convido as duas para entrar. Eu sabia que isso não ia ser fácil pra nenhuma das duas, especialmente para Tris. Ninguém poderia dizer que ela não estava tentando.
Tris está de pé, olhando as recém chegadas fixamente. Minha mãe e Natalie param a alguns passos de onde ela está. Eu passo pelas duas e paro ao lado de Tris, que me abraça. Eu retribuo o abraço, deixando-a mais perto de mim.
— Você está linda, Tris — Minha mãe diz, dando um sorriso. Tris agradece, parecendo sem graça.
Natalie me parece não saber por onde começar. Talvez ela não saiba o que dizer ou talvez ela tenha medo que a filha comece a gritar, jogando na cara dela tudo que pensava.
— Tris — Ela diz, suavemente. Eu noto o uso do apelido. Natalie sempre a chamava de Beatrice — Eu… Bem, eu queria começar com um pedido de desculpas — Ela continua. Tris ainda está parada ao meu lado, em silêncio. Eu continuo a abraçando — Eu falhei com você. Vezes e mais vezes. Eu sei que não é e nem vai ser fácil nem rápido pra você me perdoar, se você estiver disposta a tentar, mas eu queria que você soubesse que eu estou arrependida. Sempre estive arrependida, desde o momento que você saiu por aquela porta.
— Eu estou cansada de brigar — Tris diz, ainda me parecendo em dúvida se diz a Natalie que vai tentar perdoá-la ou diz para a mãe a deixar em paz.
— Eu também — Natalie diz, suavemente — Assim como estou cansada de fazer tudo do jeito errado — Ela faz uma breve pausa, dando um passo para mais perto de Tris, que não recua o que eu considero como um bom sinal. Talvez hoje não tenha que terminar em gritos e lágrimas, como geralmente acontecia.
— Eu posso tentar — Tris diz, em voz baixa. Uma lágrima escorre pelo rosto de Natalie. Minha mãe dá um sorriso largo e me parece bem satisfeita com esse momento — Não prometo nada, mas eu cansei de viver em guerra.
— Eu posso te dar um abraço? — Natalie pergunta. Tris demora alguns segundos para responder, parecendo estar considerando a pergunta, até que concorda com a cabeça.
Eu solto Tris e dou um passo para o lado, dando espaço para Natalie se aproximar. Ela abraça Tris, que não se mexe. Os braços dela estão ao lado do corpo, imóveis. Eu imagino que isso era até mais do que Natalie podia esperar.
Eu, no fundo, sabia que todo o lance de ter uma família estava mexendo com Tris e eu sabia que ela não queria que as nossas crianças crescessem numa zona de guerra de família.
Vejo minha mãe enxugando as lágrimas. Natalie se afasta de Tris, que volta para mais perto de mim. Natalie está sorrindo e Tris está inexpressiva. Provavelmente sentindo um monte de coisas ao mesmo tempo.
Alguns minutos depois, as duas se despedem e eu as acompanho até a porta. Tris permanece em um silêncio pensativo. Eu me sento ao seu lado e a puxo para mais perto de mim.
— O que você achou? — Ela pergunta, encostando a cabeça no meu ombro e fazendo carinho na minha perna.
— Eu acho que você foi sensacional — Eu respondo, beijando o topo de sua cabeça.
— Eu sei que eu provavelmente nunca vou conseguir esquecer o que aconteceu, mas talvez seja hora de viver em paz — Ela diz — As coisas estão diferentes agora.
— Perdoar não é fácil — Eu digo, fazendo carinho em sua bochecha — Mas tentar é sempre possível.
— Eu não quero que os nossos filhos cresçam dessa forma — Ela diz — Se a gente conseguir pelo menos manter alguns minutos de conversa civilizada, pra mim tá ótimo.
Eu a beijo e ela retribui. Nós ficamos assim por mais vários minutos.
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