"Do crepúsculo dos tempos nós viemos,

movendo silenciosamente através dos séculos,

carregando muitas vidas secretas.

Ninguém jamais soube que nós existíamos entre vocês

— até agora."

Um relâmpago tomou conta do Reino do Céu.

Alguma coisa naquele mundo estava fora do controle.

–Eu, o Último Serafim, — Diante da brancura imaculada do céu, um imponente celestial se revelava diante deles — ordeno que me expliquem a presença de vocês aqui!

–Serafim... — Pequena Dama de Espadas começou, não reconhecendo a fúria que tomava posse das palavras daquele que um dia fora um tão bondoso Serafim. O que havia acontecido ali desde que ela caíra nas garras dos demônios?!

–Pequena Dama de Espadas — Ele ainda se lembrava dela, felizmente — O que faz junto a este infeliz grupo?

–N-não há ninguém infeliz aqui — Ela retrucou, a decepção nos olhos dele fazendo-a calar-se por um instante.

–Viemos resgatar duas almas que não deviam estar aqui — Tentou Coelho de Preto, em vão. O celeste apenas riu, com sarcasmo.

–Vocês não vão levar nada embora deste reino.

–O que houve com você?! — Pequena Dama de Espadas gritou, a cofusão e a angústia sentindo-se presente em sua voz.

–Todos os anjos caíram, minha querida... Foram derrotados pelos demônios da Casta dos Lordes e Guerreiros. E os outros partiram, misturaram-se aos humanos... Só sobrou eu aqui. — Pela primeira vez tirando a máscara sombria que cobria seu rosto, o Serafim revelou o pesadelo em que tentava, sozinho, proteger agora.

–Quando isso aconteceu? — As palavras saindo da boca de Sinistro sem ele sequer se dar conta.

–Foram os humanos, cada vez mais deles fazendo pacto com os demônios... São poucas as almas que agora chegam aqui. — Respirando fundo, ele percebeu que já estava revelando detalhes demais — E é por isso que não posso deixar que vocês levem mais nada embora daqui. Eu não vou permitir!

Valete de Ouro sentiu um arrepio correr-lhe a pele. Lembrou-se de seu contrato com o Ceifador... Ele também tinha sua parcela de culpa nisso.

–Por favor — Começou Dark Carvalho — Precisamos dessas almas. São de duas garotas que...

–Vocês mataram? — O Serafim o encarou, cruel. Ele já sabia de tudo — ele era capaz de ver tudo. — E o que vocês vão fazer depois de terem as almas delas em mãos?

–Devolver ao corpo de suas donas — Cogumelo Fantasma disse, resoluto.

Desta vez o Serafim não conseguiu conter a gargalhada.

–Vocês ficaram loucos?! Não tem como devolver a alma de humanos que já morreram a seus antigos corpos. Vocês até podem ter a alma delas de volta, mas nunca terão a essência, ou aquilo que elas foram um dia. Para os humanos, — Seus olhos tornaram-se escuros — a morte é o fim de tudo.

–Mas elas não mereciam morrer. — Sinistro disse, lembrando-se daquela tarde caótica de sexta-feira. Ele engoliu em seco, encarando o Serafim — O que precisamos fazer para tê-las de volta?