Bakumatsu
5 Inferno Kamiya
Notas iniciais
O cheiro de terra molhada estava presente por toda a cidade. A chuva já havia castigado o suficiente e finalmente se recolhera dando lugar a um tímido, porém presente, astro-rei. O sol brilhava com intensidade mediana e uma leve brisa entrava pela janela entreaberta daquela pequena cabana. A brisa atrevida e, àquela hora da manhã, bastante incômoda balançava ligeiramente a franja solta de Sanosuke. Seus cabelos, balançados pela movimentação do ar na cabana, faziam as vezes de um pequeno mosquitinho e conseguiram, depois de algumas bufadas mais profundas, acordar o moreno.
Sano se levantou lentamente, permaneceu sentado em sua cama e olhou ao redor, contemplando o verdadeiro pandemônio em que sua casa se transformara. A noite passada havia sido longa, com todas aquelas pessoas bebendo, jogando, e falando alto. Festas animadas eram a única maneira de desligar Sanosuke dos problemas e pensamentos castigantes, como todos os que lhe percorriam após deixar o Akabeko na noite anterior. As palavras ríspidas e as atitudes pouco civilizadas do alto após as declarações de Yamagata, na noite anterior, já haviam desaparecido dos holofotes na mente de Sano enquanto se ele afogava em sakê.
Levantou-se, agarrou uma das garrafas vazias que cobriam o chão do quarto e a lançou contra a lixeira no canto oposto do cômodo, provavelmente verificando a pontaria e checando se ainda haviam sequelas da noite anterior. Procedeu calmamente até a porta afim de contemplar o sol daquela manhã. Porém, ao atingir seu destino, notou uma movimentação realmente muito estranha apesar do horário já um pouco avançado. Todos pareciam correr em direção a um mesmo destino. Bastante intrigado, Sanosuke parou um jovem que corria erguendo-o do chão com uma das mãos e então, ainda de forma bastante sonolenta, perguntou:
– O que está aconteceu? Pra onde está indo toda essa gente?
– Ainda não sabe? — indagou o jovem rapaz, sacudindo-se no ar — O dojo Kamiya pegou fogo!
No instante que concluiu sua frase, o pequeno garoto sentiu-se liberado pelo braço forte que o agarrava e acompanhou, com o olhar, a desesperada corrida de Sano em direção ao prédio que, teoricamente, ardera em chamas na noite passada. A fumaça preta e ainda consistente fez anoitecer nas proximidades do dojo fazendo com que Sano, a cada passada em direção ao local, adentrasse cada vez mais em um breu fechado e de cheiro desagradável. Finalmente atingiu seu destino. Atravessou violentamente toda a multidão que se reunia no lugar e, ao ultrapassar o último curioso, estarreceu. A paisagem moldada gelou seu sangue, fazendo com que o homem não conseguisse mover um único músculo.
A seus pés, um corpo humano coberto com um lençol rosado. Mais a frente um outro lençol, de cor azul, cobria outro cadáver. A esquerda daqueles dois, um terceiro lençol pendurado no velho carvalho plantado no quintal do dojo também encobria outro corpo sem vida. No centro de tudo isso, havia o prédio principal do Dojo Kamiya Kasshin.
Completamente consumido pelo fogo que, àquela altura já havia sido controlado, o dojo encontrava-se irreconhecível. O outrora ponto de reunião do Kenshingumi tinha se transformado em um amontoado de cinzas e tábuas soltas. Notou, após alguns segundos de observação, que haviam mais alguns corpos carbonizados. Contou mais dois deles. Sentiu um aperto muito forte no coração.
"Kenshin e Kaoru tem alguma relação com todos esses cadáveres?"
Olhou em volta. Esquerda... Direita... Procurava algum rosto conhecido, de preferência os rostos dos ocupantes da casa. Não encontrou. Correu a vista pelo pátio do dojo e pelas pessoas que estavam reunidas ali na frente porém, como da primeira vez, não obteve sucesso. Decidiu adentrar aos portões do dojo mas foi barrado pelos fortes braços de um oficial de uniforme impecável e de face impassível.
– Desculpe, mas ninguém está autorizado a entrar no perímetro do dojo Kamiya — Disse o homem, com voz imparcial.
– Se não tirar as suas mãos de cima de mim, eu vou arrancá-las dos seus braços! — Respondeu Sanosuke, com voz firme mas sem olhar para o rosto do policial ou movimentar mais o corpo musculoso.
– Deixe-o... Deixe Sanosuke passar!
A voz de Yamagata liberou Sanosuke dos braços do oficial e permitiu sua entrada pelos portões do dojo. O comissãrio aproximou-se e, tristemente, o interpelou:
– Sanosuke...
– Yamagata... — Respondeu Sano, com a voz tremida.
– Eu preciso que você me acompanhe e me ajude a identificar alguns corpos. Algo terrível aconteceu aqui na noite passada.
Dizendo isso, Yamagata conduziu Sano pelo braço para dentro do que restou do Dojo Kamiya Kasshin e fez sinal a um de seus oficiais para que dispersasse o monte de curiosos. O mesmo obedeceu prontamente e partiu em direção ao publico, que se reunia às dezenas na entrada principal do terreno.
Yamagata aproximou-se de Sanosuke com receio. O moreno percorria os arredores com o olhar frenético em busca de algumas boas notícias que, Yamagata sabia, não chegariam. Perguntou, ainda mais receosamente, se reconhecia aquele corpo que estava no centro do tatame do dojo. Sanosuke olhou com atenção e parecia não acreditar no que via. O cadáver, de face cremada, tratava-se de uma mulher grávida com uma enorme katana cravada no ventre. Sano olhou novamente depois virou-se de costas para a cena e concluiu, sem sombra alguma de dúvidas:
– É ela. Essa é a Kaoru.
– E o outro? — O ex-chefe de polícia perguntou, desejando que o amigo de Kenshin não reconhecesse o cadáver.
Sanosuke observou o outro corpo. Altura mediana, cabeça aberta ao meio e completamente desfigurada pelo fogo, Kimono largo e também consumido pelas chamas, espada na mão direita.
"Não pode ser ele!"
O magro sabia que estava tentando se enganar com aquele pensamento. Ele sabia que Kenshin jamais deixaria algo de ruim acontecer à Kaoru. Se sua esposa estava morta, era porque Kenshin não teve como defendê-la. Se não conseguiu defender Kaoru, então estava...
– É ele... — Parou por um segundo, sentindo os olhos arderem com a formação das lágrimas, depois terminou a triste constatação. — Kenshin está morto...
Sanosuke despencou sobre os joelhos e várias lágrimas rolaram em respeito aos amigos falecidos. Lembrou-se da imagem de todos os corpos no pátio do prédio e da poça de sangue sob eles e descartou completamente a hipótese de acidente. Seus amigos haviam sido assassinados!
Um misto de raiva e tristeza invadiu rapidamente o coração de Sanosuke que, àquela altura, chorava inconformadamente. Lembrou da face alegre e sempre sorrindo de seu amigo. Lembrou também das brigas de Kaoru com Kenshin e Yahiko. Sabia que tudo aquilo havia desaparecido de sua vida para sempre. Sentia um vazio grande dentro de seu coração. Um vazio doloroso, de quem havia perdido tudo que tinha na vida. Sabia que nada poderia ser feito para que eles voltassem a viver, mas também sabia que nada daquilo ficaria impune. Cada lágrima derramada seria retribuída com um golpe de seus poderosos punhos assim que ele encontrasse o maldito covarde que havia assassinado sua família. Os Himura, e todos os amigos deles, compunham a única família que Sano havia conhecido depois da Tropa Sekihou, e algum cretino e covarde havia simplesmente tirado essa família dele. Certamente haveria vingança, pois somente a justiça não poderia acalmar o coração e os punhos do Zanza.
Pouco a pouco, as lágrimas de Sano pararam de rolar e o moreno levantou-se, ainda com coma expressão fúnebre e triste marcada no rosto. Caminhou lentamente até Yamagata. Seus olhos ardiam e Yamagata sentiu-se estranho ao ser fitado por eles. Sano interpelou o velho governante de forma seca e de punhos serrados o tempo inteiro:
– Eu espero, para o seu bem, que você não tenha nada a ver com isso Yamagata. Espero também que encontre o culpado pela morte dos meus amigos. Espero que o faça antes de mim... Se eu for obrigado a fazer justiça, minha justiça acabará respingando em você também, eu juro!
Após a frase de desabafo, Sanosuke apagou parte do fogo que ardia em sua alma. Yamagata engoliu em seco. Sabia que parte daquele desastre havia sido causado por ele, por isso ele faria de tudo para tentar levar os responsáveis à justiça. Alisava a barba branca com bastante leveza e tristeza, enquanto observava Sanosuke em sua saída pelos portões laterais do Dojo. Só depois que o viu virar à esquerda e dasaparecer de sua linha de visão, pode permitir que algumas lágrimas rolassem pelo rosto enrugado e barbado. Mordeu com aflição os lábios inferiores, tentando e se recompor e voltar à razão, pois precisaria dela para encontrar os assassinos responsáveis por aquele inferno.
Do outro lado dos muros que cercavam a casa de Kenshin, Sanosuke se permitiu parar e respirar olhando o céu escurecido pela fumaça. Seus raivosos olhos pareciam desafiar o próprio Criador para um duelo, por ter retirado os nobres amigos do seu convívio. Na certa, encontrava-se completamente perdido. Não sabia se ficava ali, se voltava para casa, se enchia a cara de sakê, se chorava em um templo qualquer da cidade. Não podia acreditar na cena que havia encontrado ali. Pensou na última conversa que tivera com Kenshin. Lembrou-se mais uma vez de como ele estava feliz e de como ele gostava daquele filho que teria junto com Kaoru. Antes mesmode nascer, Kenshin já o amava demais.
Estava imerso em lembranças e outros pensamentos melancólicos quando ouviu, em baixo tom, uma voz conhecida sussurrando algo que ele não pôde entender. Virou-se em uma fração de segundos afim de observar quem era e então, mais rápido ainda, sua face mudou de feição, passando de triste para estarrecido. Parado, a uns 2 metros dele, estava Aoshi.
Vestia um kimono negro e tinha as costas cobertas por uma garbosa capa azul-marinho. Seus belos cabelos, agora compridos, pendiam sobre os ombros e caiam pela capa até a altura das costas e mantinham o mesmo brilho negro de sempre. Sua face estava inalterada, exceção à uma cicatriz que vinha pouco acima do olho esquerdo e descia até a altura da boca. Seus enormes e congelantes olhos azuis fitavam a entrada do dojo e a cortina de fumaça ascendente de forma indiferente, como se as cenas retratadas ali não fossem diferentes das de uma criança brincando com uma bola. Após todos esses anos Aoshi ainda se mantinha indiferente frente às maravilhas e atrocidades que este grande mundo pode apresentar.
O antigo líder da gangue Oni manteve-se em silêncio por uns 2 minutos. Durante esse tempo, Sanosuke pensava em algo para dizer sobre tudo aquilo mas esforçava-se em vão, posto que nenhuma frase coerente pôde se formar na mente do rapaz. Aoshi tirou os olhos da fumaça negra que subia e os pregou em Sanosuke. Após alguns poucos segundos finalmente proferiu algumas poucas palavras:
– Cheguei tarde... Maldito Shinsengumi...
Shinsengumi. Sano conhecia aquela palavra de algum lugar. Talvez tivesse ouvido falar deles durante conversas de Kenshin com Yamagata que ele ouvia sorrateiramente. Fechou os olhos por meio segundo, tentando lembrar alguma coisa que ligasse o Shinsengumi ao massacre no Dojo Kamiya Kasshin. Quando havia conseguido buscar algo para finalmente dirigir-se ao antigo inimigo de Kenshin, porém, não o encontrou mais ali. Aoshi havia partido exatamente da mesma maneira que aparecera, sem manifestar-se. Havia deixado para trás apenas uma apagada trilha de pegadas que seguia floresta adentro.
CONTINUA!!!
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