Bakumatsu

6 O Retorno do Mestre


Notas iniciais
No último Capítulo: "– Cheguei tarde... Maldito Shinsengumi... Shinsengumi. Sano conhecia aquela palavra de algum lugar. Talvez tivesse ouvido falar deles durante conversas de Kenshin com Yamagata que ele ouvia sorrateiramente. Fechou os olhos por meio segundo, tentando lembrar alguma coisa que ligasse o Shinsengumi ao massacre no Dojo Kamiya Kasshin. Quando havia conseguido buscar algo para finalmente dirigir-se ao antigo inimigo de Kenshin, porém, não o encontrou mais ali. Aoshi havia partido exatamente da mesma maneira que aparecera, sem manifestar-se. Havia deixado para trás apenas uma apagada trilha de pegadas que seguia floresta adentro."

Sanosuke seguiu os passos de Aoshi floresta adentro afim de descobrir o quanto o homem sabia de toda aquela história. Queria muito saber o porque do assassinato dos Himura mas queria, acima de tudo, descobrir quem havia feito aquilo para que pudesse vingar a morte de sua família. Sentia-se completamente impotente não podendo proteger os amigos, mas havia prometido que o sangue da família Himura seria cobrado com muita violência.

Aoshi seguia a sua frente como se nem houvesse percebido que Sanosuke vinha logo atrás, apesar de Sano saber muito bem que o outro tinha plena percepção de tudo que acontecia ao seu redor. Ele era assim, sempre fora assim, e o tempo que ele passou desaparecido aparentemente não havia nublado nenhum de seus traços familiares.

Aoshi caminhava sem ameaçar olhar para trás e Sanosuke seguiu acompanhando os passos do homem de perto e tentado, ainda em vão, juntar palavras para interpelar seu misterioso guia. Sua vontade era pular sobre Aoshi e espancá-lo até que ele revelasse cada nuance daquela trama horrorosa e que já havia feito as mais inesperadas vítimas fatais.

Em certo momento Aoshi parou de caminhar e Sanosuke parou exatamente ao lado dele. Os dois olhavam para frente e não ameaçavam cruzar seus olhares inflamáveis. Qualquer olhada de canto de olho parecia ter o poder de pôr a floresta toda em chamas e por isso, ficaram ali parados por alguns segundos. Ainda olhando fixamente para frente, Aoshi começou:

– Quer saber o que aconteceu com Himura? Então deve vir comigo.

No exato momento em que Aoshi concluiu a frase, uma garbosa carruagem parou exatamente na frente dos dois homens e a porta se abriu. Aoshi entrou sem pestanejar. Sano hesitou por um momento.

Quatro cavalos pretos e de músculos exagerados puxavam a carruagem, que era conduzida por uma pessoa debaixo de um capuz grande e que dificultava seu reconhecimento. A carruagem era quase tão negra quanto a crina dos cavalos e possuía adornos dourados e prateados por toda sua extensão. Em cada quina do teto, gárgulas não menos negros do que a própria carruagem se erguiam, amedrontadores. Os olhos vermelhos dos gárgulas brilhavam ao serem iluminados pelos tímidos, porém poderosos, raios de sol que penetravam na floresta e davam a impressão de serem enormes pedras preciosas. O rodado de madeira, tinha seus raios convergidos à uma corpulenta bola dourada. Sano balançou a cabeça em uma tímida reprovação.

"Digna de um verdadeiro rei"

Ele não sabia por onde Aoshi havia andado todo aquele tempo, nem tinha ideia de onde ele havia tirado aquele meio de transporte tão luxuoso. Não sabia se deveria entrar e seguir com Aoshi, nem tão pouco tinha a certeza de que Aoshi o permitiria negar a carona. Frente a tantas incertezas, entrou.

O interior do carro era luxuoso tal qual seu exterior. Cortinas brancas e espessas cobriam as janelas, e um forro vermelho cobria todo o interior da carruagem. Acentos confortáveis para quatro pessoas preenchiam as duas paredes perpendiculares à porta. Em uma das paredes estava Sanosuke e na outra, Aoshi e um outro homem.

O homem era alto e tinha os ombros extremamente largos. Braços musculosos e com várias cicatrizes brotavam de seu quimono azul sem mangas. Sanosuke correu seus olhos um pouco mais acima e admirou a face do homem. Cabelos escuros e compridos, olhos castanhos tão frios quanto a neve do inverno, nariz e boca pequenos. Os olhos frios fitaram Sanosuke e a boca ameaçou um princípio de sorriso. Sano reconheceu aquela face de imediato, Aoshi interrompeu a troca de olhares dos dois:

– Himura está morto.

– Shinsen... Chegaram antes de nós. Já era de se imaginar... — Concluiu o outro, fitando o chão da carruagem e abaixando um pouco o tom.

Sanosuke ainda não podia acreditar em seus olhos. Aquele homem havia desaparecido há tanto tempo que ele pensou que nunca mais o veria. Chegou a escutar boatos de que ele estava morto, mas seu corpo jamais recebera as honras necessárias. Era estranho ele e Aoshi terem reaparecido assim, ainda mais juntos. Esfregou seus olhos levemente afim de tentar acabar com a peça que eles tentavam lhe pregar. Abriu os olhos novamente e constatou que não eram seus olhos os culpados pela travessura que o acometia, mas sim o destino. Teve total certeza de que, em sua frente e ao lado de Aoshi, encontrava-se Seijuuro Hiko, décimo terceiro mestre do estilo Hiten Mitsurugi e antigo sensei de Kenshin.

Sano tentou entender o que Hiko fazia junto com Aoshi. Os dois nunca haviam tido qualquer tipo de ligação ou contato amigável. Na verdade Sano sabia que Hiko sempre desprezou Aoshi pelo jeito com que ele passava por cima de qualquer inocente para atingir seus objetivos. Eles eram como água e óleo, e ver os dois sentados lado-a-lado deixou Sanosuke bem confuso.

Pensou em interrogar Hiko. Tinha tantas perguntas para fazer que nem sabia por onde começar. Porém, foi interrompido novamente por Aoshi:

– Surpreso, Sanosuke? Não esperava encontrar o antigo mestre de Kenshin comigo, não é mesmo?

Sano conteve-se. Engoliu as palavras mais uma vez e balançou a cabeça milimétricamente sobre o eixo vertical, estreitando o olhar com leveza. Após a tímida confirmação de sua suspeita, Aoshi continuou:

– Viemos até aqui pois temos uma proposta para lhe fazer e, agora que Kenshin está morto, acredito que tenhas mais um motivo para aceitar.

Aoshi falava da morte de Kenshin sem nenhum pesar. Era sabido que ele não tinha nenhum apresso pelo ruivo, apesar de nutrir um respeito conflitante pelo mesmo. Hiko era diferente. Quando Aoshi tocou no nome de Kenshin, ele rangeu os dentes e fechou seus olhos tristemente, talvez tentando interferir na formação de lágrimas que viessem a lhe brotar dos olhos. Sano sabia que ele sempre passara a imagem de homem de pedra e que, não importava o quão ferido ou magoado estava, precisava demonstrar firmeza e força. Por outro lado, ele também sabia o estreito laço de amizade que Hiko e Kenshin tinham, e que fora criado e fortalecido com os anos de treinamento que o mestre havia imposto à seu discípulo. Todos aqueles anos fizeram muito mais do que apenas criar o mais famoso e letal assassino que o Japão já havia visto, fizeram crescer uma relação quase paternal entre os dois mestres do estilo Mitsurugi. De qualquer forma, o próprio Sanosuke havia decidido encerrar as lágrimas pois elas não levariam até sua vingança, Seijuuro deveria sentir e saber a mesma coisa. Pensou por mais um ou dois segundos sobre a tal proposta e resolveu que, dessa vez, a escutaria até o fim. Estava certo de que ela tinha alguma coisa a ver com o sequestro de Yamatsui mas tinha a esperança de que ela o daria a chance de confrontar os assassinos de Kenshin e Kaoru.

– Tudo bem Aoshi. Pode me dizer para que precisa de minha ajuda. — Disse, agarrado àquela tímida esperança.

Aoshi ascentiu levemente com a abeça, retirando de um compartimento atrás de seu acento um capuz negro de tecido muito espesso.

– Coloque isso. Logo chegaremos a nosso destino e tudo ficará suficientemente claro para você.

Sano pegou o capuz atirado à ele por Aoshi e fitou-o firmemente. Aquele estranho adereço o fez imaginar para onde os três homens estariam indo. Percebeu que para chegar tão fundo nessa história quanto gostaria teria que se submeter às condições dos personagens que, aparentemente, regiam a orquestra da morte que com todas as atrocidades cometidas recentemente ia dando seus primeiros acordes.

No momento em que sua cabeça foi envolvida pelo capuz, Sanosuke sentiu um cheiro muito forte e desagradável e rapidamente perdeu a consciência. Estava desmaiado e totalmente a mercê de Hiko e Aoshi, enquanto a carruagem continuava sua trajetória rumo ao desconhecido.

CONTINUA!!!

Notas finais
Não percam o próximo capítulo: A Revolta de Zanza