Baist - A lenda de Lian e Krull

1 Capítulo 1 - Incidente florestal


Notas iniciais
Essa é a primeira historia que eu tento escrever então sejam pacientes comigo, ok? Tentarei postar um capitulo por semana se gostarem =)

Desde pequena, eu me dou bem com eles, mas eu nunca pensei que isso ia mudar minha vida. Do que eu estou falando? Talvez vocês estejam confusos, bem, é uma longa história...

Eu sou...eu era da cidade de Yanli, antigamente um vilarejo, a uns 300km da capital do meu Estado, era uma vida pacata, simples. Eu cresci numa pequena casa de carvalho amarelo, com minha mãe, meu pai e o Lamastim. Quem é o Lamastim? Bem ele é um dos baists, nome dado a animais que eram maiores que animais comuns. Quando eu digo maiores, quero dizer maiores mesmo, o Lamastim parecia um Mastim comum, só que era, em quatro patas, do tamanho do meu pai.

Bem essa era a minha vida até os meus 9 anos de idade, mas algo mudou.

Era uma manhã linda de primavera, exceto pelo fato que tínhamos que refazer a horta, eu queria fugir muito disso, preferia caçar com meu pai:

-EU QUERO IR, por favor pai, POR FAVOR.

-Lian, eu já disse, é perigoso, você ainda é pequena para isso.

-EU JÁ TENHO 9 ANOS, e o Lamastim quer que eu vá também, não é Lamastim? – Olhei incerta para o Mastim de 2 metros ao meu lado, ele deu um latido indiferente e continuou a lamber as partes intimas- Viu? Ele quer!

-Ai, ai, o que eu faço com essa garotinha? – Disse meu pai com um sorriso no rosto, o que queria dizer que eu tinha ganhado- Any, o que você acha? – Ele olhou para minha mãe que estendia as roupas no varal. Eu odiava quando ele perguntava a opinião da mamãe, ela era sempre contra.

-Não, não, está doido Pedro? Ela é só uma criança, eu já tolerei ela ficar perto dessa monstruosidade – Apontou para o Lamastim- Não vou tolerar também ela se arriscar nessa floresta, ainda existem baists soltos por ai.

-O Lamastim me protege- Abracei o gigante Mastim preto ao meu lado-Eu já sou crescida, por favor mãe..

-NÃO! E já que é bem crescidinha venha me ajudar com o resto dessa roupa e depois vamos juntas espalhar restos de verduras na terra, aposto que vai ser muito “divertido” – Falou sem o mínimo de divertimento.

E foi o fim da conversa, ela foi buscar mais roupa e eu fiquei emburrada na minha piscando os olhos rapidamente para não chorar, relutante em segui-la, até que meu pai chegou pertinho do meu ouvido falando baixinho:

-Me encontre debaixo da macieira naquela hora.

Meu rosto se iluminou, não era a primeira vez que aquilo acontecia, meu pai gostava de caçar de dia, mas às vezes caçava a noite, saindo de manhã para verificar as armadilhas e voltando a noite para me levar e caçar criaturas noturnas. Eu saia com ele escondida durante essas caçadas, a primeira vez foi contra a vontade dele, eu me escondi dentro do saco onde ele colocava as caças, no lombo do Lamastim, mas ele acabou gostando da minha companhia e foi me levando mais vezes, me treinando, fez um arco pra mim... Quando minha mãe soube disso tudo ficou uma fera, eu preferia mil vezes enfrentar baists furiosos do que minha mãe na noite que descobriu. Desde então meu pai faz tudo com mais cautela, fazendo recusas iniciais, para enganar a mamãe, mas depois vinha sorrateiramente para encontrar-me, acho que a mamãe sabia disso, mas fazia vista grossa para no dia seguinte me encher de trabalho domestico enquanto eu estava exausta pela noite, como uma espécie de castigo.

Naquele ano eu queria que fosse diferente, a caça do inicio da primavera era a mais farta, pois os animais estão saindo da hibernação, e de manhã seria lindo ver os pássaros, as borboletas e as aranhas de varias cores com orvalho em suas teias. Eu queria ir à caça da manhã e fugir da dureza de limpar a terra e da infeliz podridão que é preparar o solo, nossa é muito nojento jogar aqueles restos podres de alimentos, mas minha mãe diz que faz as plantas crescerem melhor, e até agora ela não errou, pois todo ano tínhamos alimentos suficientes, mesmo que fosse uma horta pequena. Não foi daquela vez que eu fugi do trabalho, mas pelo menos eu teria diversão a noite, pelo menos foi isso que eu pensei aquele dia.

Vou lhes situar melhor sobre onde é a casa e o vilarejo Yanli, minha casa é uma das mais próximas da floresta, a qual fica a sudeste do vilarejo, a maioria dos moradores evita a floresta por temer ataques de animais ou até de baists. Mas a família do meu pai tem tradição na caça, e o terreno próximo a floresta era melhor para o plantio de uma horta, assim poderíamos economizar muito em comida. Só compramos mais no inverno, vendemos de vez em quando.

Apesar de nossa casa ser próxima a floresta, não é muito longe do centro do vilarejo, então daqui dava para ver mudanças que estavam ocorrendo desde aquela época, como o fato do comercio estar aumentando, pessoas da capital estarem investindo aqui, dentro de pouco tempo meu vilarejo viraria uma cidade, principalmente com a chegada do “Prefeito”, ele não era prefeito de verdade, era tipo um nome que as pessoas começaram a colocar nele, ele era rico e famoso, e sua influencia estava afetando meu vilarejo de modo que eu não tinha idéia naquela época.

Voltando a aquele dia, a preparação da horta foi horrível como sempre, eu estava ansiosa para a noite chegar, minha mãe ficava conversando sobre assuntos variados envolvendo frutas, hortaliças e verduras, até que parou e começou a falar algo estranho:

-Lian, sabe por que eu não gosto de você caçar com seu pai?

-Porque você é chata? Humf

-Filha, eu me preocupo muito, acho você tão nova para isso e é errado também

-Com minha idade papai já caçava veados, porque não eu?

-Seu pai é homem minha filha e...

-O que tem ele ser homem? Só porque eu sou menina eu tenho que ficar aqui fazendo coisas chatas?

-Minha filha... as coisas são diferentes, cada um tem suas funções e...

-Eu posso caçar tão bem quanto qualquer menino.

-Eu não duvido disso minha flor, mas isso não é coisa de menina, um dia você vai crescer e entender que cada um tem seu papel, e preciso te ensinar o que uma menina deve saber.

-E se eu não quiser desempenhar esse papel? Eu gosto de caçar, mãe..

-Um dia você vai compreender e vai me agradecer por isso.

-Eu não quero isso- Atiro a enxada ao chão- Eu cansei disso, porque não me entende?

-Lian olha...

-CHEGA...

Sai correndo e chorando e subi o pequeno morro até a macieira que fica atrás da casa e fiquei lá chorando até a noite, minha mãe não veio me procurar, logo a lua apareceu e minhas lagrimas já estavam secas. Lembrei-me do meu pai e corri para a casinha do Lamastim, o tirei lá de dentro -ele me lambeu toda- e escalei as correias da sela do Lamastim até chegar ao seu lombo:

-Vai Lamastim, papai logo vai chegar.

Meu pai só levava Lamastim para caçar com ele a noite, de manhã ele seria facilmente visto e assustaria as presas, de noite, pela cor escura do seu pelo, ele seria menos visto, e seria um ótimo modo de se locomover e de caçar. Logo meu pai chegou e montou o Lamastim facilmente, sua cara não era boa, ele não vinha com nenhuma caça o que queria dizer que as armadilhas não pegaram nada. Não falamos, eu ainda estava chateada pela conversa com minha mãe e ele estava chateado pela péssima caça da manhã, todos tínhamos tido decepções demais naquele dia.

Alguns minutos de corrida com Lamastim fez tudo parecer melhor, a noite estava fresca e o vento batia em meu rosto. Logo paramos na clareira de sempre, onde escondíamos nossas armas, eu usava um arco de madeira simples, meu pai, porem, havia adquirido uma arma de fogo, eu não entendia muito delas, acho que era uma espingarda ou algo do tipo, não me perguntem como ele conseguiu aquilo, mas era preciso para caçar. Vocês devem estar pensando, caçar a noite é horrível, é porque vocês não conhecem como era com meu pai e o Lamastim juntos. Lamastim farejava, quando achava, ele dava um fraco som, que só a gente sentia estando em cima dele, meu pai então mirava e pimba, caça feita. Há é, vocês devem estar pensando como enxergávamos a noite para mirar e tal, é que de algum jeito, junto com a arma, meu pai adquiriu um óculos esquisito que o permitia ver no escuro, ele só tinha um, então revezávamos, uma caça para ele acertar com a arma, a outra eu com o arco. Minha maior caça foi uma ratazana que era tão grande que eu acho que era um baist, apesar de que meu pai riu e disse que era só uma ratazana que comeu demais.

Naquela noite, começamos como sempre, pegamos as armas, ajustamos tudo, meu arco estava ruim, acabou molhando mesmo com a proteção plástica que eu coloquei ele, e a madeira estava apodrecendo, o que me deixou fora da caçada aquele dia, meu pai prometeu fazer outro no dia seguinte. Promessa. De qualquer forma, subimos no Lamastim e saímos a procura de animais, meu pai com o óculos, eu lutando para enxergar, mas era uma noite clara por causa da lua quase cheia. Passaram-se horas e nada:

-Que estranho, de manhã era a mesma quietude, nada, pensei que de noite pelo menos teríamos melhor sorte.

-Será que ainda estão hibernando pai?

-Eu... — Ele ficou com aquela cara pensativa olhando para um ponto da floresta- Filha acho melhor voltar...

De repente ouvimos coisas, uma agitação enorme no meio de todo aquele silêncio infinito, algo que quebrava galhos e folhas estrondosamente, correndo, parecia vir na nossa direção Lamastim rugiu alto dessa vez e meu pai o excitou a sair dali. Corremos rapidamente para fora dali, mas a coisa mudou o rumo e agora parecia nos seguir.

-O que é isso pai?

-Eu não sei, parece grande e desajeitado pelo jeito que esta quebrando tudo, um baist talvez..

Fiquei com o coração disparado, Baists selvagens são realmente perigosos, além do Lamastim, só vi baists no vilarejo, mas sempre fazendo coisas como carregar pessoas ou puxar objetos pesados. Os baists selvagens eram sempre temidos por causarem grande destruição. Lamastim ia rapidamente, ele já havia corrido naquela floresta durante anos, então corria sem grande dificuldade enquanto a coisa ia ficando cada vez mais atrás, durante alguns momentos achei que tínhamos despistado a coisa até que tive a impressão que a lua ficou obscura por alguns momentos, como se algo grande tivesse voado acima de nós, olhei para cima e não vi nada através das arvores. Comecei a ficar mais calma, meu pai olhava para todos os lados, estava concentrado, respirava fortemente como se tivesse corrido junto com o Lamastim. Logo ficou silencioso de novo, comecei a ficar calma, então tudo aconteceu rápido demais para eu explicar.

Primeiro silencio, depois algo veio de cima, caindo e quebrando tudo a nossa frente, jogando galhos partidos para todos os lados. A segunda coisa que percebi aterrorizadamente foi o fogo, fogo por todo lado, e algo grande se movendo, também parecia ter um pássaro grande no céu circulando ao nosso redor, no entanto só peguei isso brevemente porque logo estávamos sendo jogados para longe pelo impacto, a correia que me mantinha no Lamastim partiu, me segurei no meu arco por algum motivo enquanto ia para longe, rolando para lugar algum, numa confusão de folhas, galhos e fogo. Quando consegui parar e me levantar, estava ralada em vários lugares, doía muito, olhei ao redor, procurando meu pai desesperamente:

-PAAIII... PAAAII...

Corri mancando, tentei ir pra longe do fogo, chamava meu pai, nada aparecia, outras coisas grandes estavam se movendo no meio da floresta, pareciam estar travando uma batalha destruidora, rezei para não ser o Lamastim, rezei para achar meu pai, rezei para sair dali, eu não sabia o que estava acontecendo, eu queria achar meu pai e sair dali. Ouvi algo grande na minha direção, corri, mas logo me alcançou e para minha imensa alegria era o Lamastim, meu pai me pegou rapidamente e saímos para o lado oposto ao fogo. Ele estava ferido também, muito mais, parecia que tinha sangue saindo de algum lugar no braço, mas eu não quis dar atenção a isso, o óculos havia desaparecido e isso era importante, pois sem ele acabamos por não ver o baist grande e silencioso que pegou até mesmo Lamastim de surpresa, talvez por ele estar ferido também e com o nariz sangrando. O baist chegou num pulo já mordendo o Lamastim, parecia um grande felino com manchas no pelo azul. Meu pai atirou nele, pelo menos a arma não se foi, a criatura recuou, mas atacou novamente mirando meu pai com sua grande pata com garras, até hoje isso me causa pesadelos, aquelas garras...o sangue... para evitar me atingir meu pai me jogou para longe no ultimo momento...

Novamente eu rolei, havia um terreno íngreme ali, acabei rolando terreno abaixo até que bati a cabeça numa pedra e perdi a consciência por momentos... quando acordei Lamastim também estava ali por perto, no chão, minha visão estava embaçada, fui até ele e senti algo úmido nas minhas mãos, ao redor dele estava sangue por todo lado, eu recuei rapidamente diante disso, chorando e respirando rapidamente andei o mais rápido que pude procurando meu pai, até que o achei, jogado longe do Lamastim, sangue empapando todo seu corpo saindo de um corte enorme na sua barriga, tremendo, me aproximei dele, era noite, mas nem isso escureceu o horror do que havia acontecido ali, me ajoelhei, chorando, ele tinha que estar vivo, ele viveu a tanta coisa até ali

-Pai...? Pai...ei...acorda...o Lamastim ta ferido...pai....eu não sei o que fazer....ei...pai acorda...vamos pra casa....pai....acorda...eu juro que....não discuto mais com a mamãe....juro até que vou tentar ser mais boazinha....eu...pai...por favor....- toquei no rosto dele — Pai...não...não me deixa aqui ...sozinha.... pai.........

Nada adiantou, eu estava enfim, sozinha no silencio daquela noite...