Baist - A lenda de Lian e Krull

2 Capitulo 2 - O prelúdio de uma amizade


Notas iniciais
Chegando com um pouco de atraso mas é isso, hoje Lian vai conhecer um amigo para a vida toda.

Não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento, mas eu só fiquei lá, naquele lugar, chorando, em algum momento também gritei, e assim se seguiu aquela infinita noite. Em um confuso momento, procurei o apito do Lamastim que meu pai tinha, ficava num colar em volta do pescoço dele, mas eu não achei. Estava cada vez mais frio, eu tremia, pela primeira vez ficar perto do Lamastim era tão frio quanto gelo. Não sei o que me fez me mover, mas eu comecei rastejando, tentando levantar, logo eu estava andando, e por fim correndo, correndo para longe dali, longe daquele pesadelo, tinha que ser um pesadelo, algum sonho maldito, do qual eu acordaria assustada e gritando e minha mãe e meu pai viriam a noite ver se eu estava bem, e tudo ficaria melhor, mas eu não acordava, não era um sonho, era real. A dor e o medo me cegavam, eu não sabia onde estava, meu pai e Lamastim se foram, estava tudo escuro, parecia que até a lua tinha sido engolida pelas trevas que me rodeavam. Eu corri e por fim tropecei em algo duro, uma pedra provavelmente, e cai para dentro de uma caverna, novamente me bati em algo duro e... quente. Eu não queria abrir os olhos, eu não queria saber onde estava, só fechei os olhos completamente perdida e fugi para o refugio dos sonhos.

A manhã me pegou jogada em cima de uma pedra oval negra como carvão, numa caverna desconhecida para mim, com todo meu corpo ardendo de dor pelos hematomas, feridas e pela posição em que eu dormi. Eu pensei que o calor vinha dos escassos raios de sol que chegavam até aquele local, mas de repente eu percebi que vinham da pedra em baixo de mim. Movi-me lentamente tocando com os pés o chão frio da caverna, ainda em estado de sonolência, sem me lembrar direito do porque eu estava ali, até que tudo veio a mim rápido demais para eu agüentar e desabei em lagrimas novamente, chamando meu pai, minha recusa do que aconteceu ainda era latente.

Recostei-me a pedra buscando o conforto de seu estranho calor, não pensaria no que aquilo poderia significar, eu queria fugir daquela realidade, mudar o destino, voltar atrás, rezei para que tudo voltasse ao normal, que meu pai me achasse ali, não ligava para a baita bronca dele ou da mamãe, só queria que um milagre acontecesse. Nesse momento algo se moveu contra minhas costas, olhei de relance para a pedra, buscando o que teria a feito se mover, até que encostei meu ouvido e ouvi algo estranho dentro da pedra, me afastei na hora, com medo. E foi ai que eu percebi que algo estava errado, e que aquilo podia não ser uma pedra, tinha a forma oval, era negra, era quente, pensei talvez que poderia ser um tronco quebrado que tinha pegado fogo, mas não deixou nenhum vestígio de fuligem em meu corpo ou mãos, não era um carvão, além disso, a superfície era porosa e lisa, como uma casca...epa, como uma casca? E se fosse um ovo? Um ovo de uma daquelas criaturas que vi ontem à noite? E se fosse logo o ovo da criatura que matou meu pai? Procurei uma pedra grande, se fosse um ovo eu poderia quebrá-lo e isso mataria a criatura maligna que se encontra ali dentro, em teoria, mas se já tivesse crescido e pronto pra nascer? Eu não estaria libertando-a? O certo seria eu deixar essa coisa ai e sair correndo, mas pra onde? E se eu não achasse o caminho de casa antes que essa criatura acordasse? E se a mãe dessa criatura estiver por ai só me esperando pra me devorar? Essas eram as minhas opções, morrer La fora ou morrer aqui devorada? Minha cabeça se encheu de mil perguntas e o medo crescia, eu escutei barulhos, parecia um ovo, um ovo negro, mas um ovo, se eu ficasse ele podia nascer e me matar, se eu fosse a mãe disso podia me ver e me pegar, e do jeito que eu estava machucada não iria longe.

Joguei-me no chão, frustrada e com medo, eu não podia fazer nada contra o que estava vindo, eu já havia caçado e visto a natureza o suficiente para saber quem são as presas mais fáceis, e eu era uma delas agora, esse pensamento para uma garotinha é traumatizante. Fiquei lá, agora dor, medo e até sede, com um inicio de fome, me atormentavam, eu deveria estar almoçando agora, minha mãe faria aquele cozido de coelho que eu tanto gosto e de sobremesa uma maçã... macieira...pai...o choro veio de novo, junto com o pensamento do que minha mãe estaria pensando ou fazendo agora, será que ela tentaria me procurar? Tomara que não, pois aqueles baists poderiam estar ali fora, e pegariam ela também. Eu comecei a fazer uma prece para minha mãe me ouvir e não vir, eu não queria ela ferida também.

As horas se passavam, tentei deixar meus pensamentos tristes distantes, não sei de onde arranjei forças aquele dia, mas passei a me preocupar com meus ferimentos, não eram muito sérios, eram arranhões e hematomas que me deixaram muito dolorida, somente os dedos do pé direito pareciam lesionados em algum local pois doíam muito ao tocar. Andar com esse pé era um desafio, mas foi preciso, segui o cheiro e a brisa de algo fresco e achei um local em que caia pequenos pingos de água no chão, fiquei ali por um tempo de boca aberta, saciando um pouco minha sede, após isso fui tentei sair da caverna, era um terreno íngreme e havia musgo, mas também raízes de algumas árvores que tinham se infiltrado ali, usei elas como apoio para sair e vi que a caverna era um pouco escondida pela vegetação. Era minha chance de fugir, no entanto eu não fazia idéia de onde estava, toda aquela parte da floresta era desconhecida para mim, a noite cairia antes que eu achasse uma saída, e eu e meu pai não éramos os únicos caçadores da noite, principalmente agora com esses novos baists por ai.

Eu sempre gostei de baists, parecia até que eu tinha uma conexão com o Lamastim, ele vinha quando eu queria, sempre ficou feliz em me ver, apesar de seu ar de indiferença em certos momentos, nunca se recusou a me seguir, nem quando eu o levava pro banho sem ele saber e depois ele ficava me olhando como se eu o tivesse traído. Na cidade eu gostava mais da Taora e do Jalar, ambos baits, a Taora era um javali, e o Jalar uma raposa, o povo da cidade temia Taora, porem um dia quando eu tinha 5 anos escapuli do meu pai para ver a loja de doces e encontrei Taora presa num poste de madeira a alguns metros dali, dizem que foi minha imaginação, mas eu posso jurar que Taora me disse para solta-la dali que ela deixava eu montar nela, o resto vocês devem imaginar, um javali gigante solto na cidade foi um evento que poucos esquecem, ninguém se feriu, somente ficaram assustados por verem uma garota de 5 anos montando um javali gigante, que coisa né? Minha historia com Jalar foi mais pacifica, eu andava pela cidade com minha mãe, indo vender alguns legumes, enquanto ela barganhava o valor com um comprador, eu vi uma raposa gigante nos olhando e fui até lá, era a raposa do comprador, estava presa a ferro na casa, quando me aproximei ela olhou pra mim com desconfiança eu disse que era amiga, acho que ela entendeu porque logo eu estava brincando coçando a barriga dela, e eu podia jurar que ela ria, em ambas as situações eu levei uma surra e uma bronca. Eu teria aceitado com prazer mil surras e mil broncas em troca de tudo ser como era antes, esses baists que eu vi ontem eram monstros, acho que era isso que meus pais temiam quando eu brincava sem cuidado com Taora e Jalar, naquele dia eu podia ser morta por aqueles seres que eu tanto gostava, os baists.

Anoitecia, eu encontrei um galho para me apoiar, e algumas bagas de alguma planta que eu desconhecia, era perigoso eu comer frutas desconhecidas, sabia que podiam ser venenosas, mas eu estava morrendo de fome, por sorte nada me fizeram. Voltei para a caverna, usei alguns gravetos que recolhi e fiz uma fogueira, viver de um modo simples tinha suas vantagens, eu aprendi como sobreviver muito antes de eu ter 5 anos. Fazer fogueira era simples, também usei algum musgo e plantas que reconheci na floresta para fazer pequenos curativos, as bagas eu podia procurar mais, já que vi que não são venenosas, a esperança de sobreviver renascia de novo, até eu escutar uma batida forte atrás de mim, era a pedra de novo.

Eu havia me esquecido daquela maldita pedra, ou melhor, ovo, mas ai olhei o galho que eu me apoiava e tive uma idéia, baists recém nascidos podiam ser ferozes, mas também deviam ser tão vulneráveis quanto bebes, eu podia afiar a madeira com algumas pedras e fazer uma lança para matar o bicho assim que nascesse, e foi assim que passei uma parte da noite, afiando aquele pedaço de madeira, me agarrando nele com uma nova esperança de sobrevivência. Em algum momento adormeci, e acordei sobresaltada com altos barulhos vindos do ovo que rolava para perto, como se para se aproximar de mim e me atacar, havia rachaduras pela casca, aquela coisa ia nascer. Com um alto “crac” a casca se rompeu totalmente e parte caiu nas brasas da fogueira que chiaram em prostesto, pela pouca luz das brasas e do luar, eu vi algo escuro se debatendo tentando sair dos restos de casca, ouvi um fraco guincho vindo da criaturinha, por fim saiu totalmente do ovo, cambaleando, era como um lagarto, só que com o tronco com algo maior do que deveria, até que ele estendeu-as e eu vi que eram asas, como a dos morcegos, mas com algumas pequenas saliências que pareciam penas nas pontas das asas, um lagarto com asas? Nunca tinha visto um animal assim, e baists são animais só que maiores, não? A confusão me fez hesitar, mas logo recobrei a consciência ao ver os minúsculos dentes brancos que refletiam no luar, ergui a lança, esse movimento fez a coisa olhar pra mim com seus olhos dourados, pareciam confusos, até assustados, como eu, logo pensamentos foram caindo sobre mim, afinal esse bichinho havia sido deixado para trás, animais protegem suas crias, se seus pais não estavam ali então podiam estar mortos, como meu pai, então esse pequeno ser que nasceu ali estava tão abandonado no mundo, até mais do que eu, e eu estava planejando matá-lo? Mas ele podia me atacar, por isso eu tinha que matá-lo, porem se ele fosse me atacar, já teria feito, não é? A lança pesou em minhas mãos e eu a larguei no chão, eu não sabia o que sentia exatamente, era um misto de medo, culpa, confusão, dor, e outras coisas que não sei descrever, me ajoelhei no chão e comecei a chorar enrolada em torno de mim mesma, se aquela coisa quisesse me atacar, essa seria a hora perfeita, a hora da fraqueza interior, percebi que a coisa começou a me cheirar e a grunhir, eu esperava um ataque, mas aquela coisa quente encostou em mim e começou a grunhir mais alto, senti o toque de suas escamas, em alguns locais parecia ainda estar melado de alguma coisa, mas era quente do mesmo jeito e aconchegante, perdida em meus medos e emoções acabei adormecendo, ainda temendo um ataque, e me isolando do mundo para que fosse menos indolor.

Acordei recostada naquela coisinha negra, devia ser metade do meu tamanho, também dormia, era manhã, então eu olhei melhor como ele era. Parecia um lagarto, mas tinha asas, era negro rajado de azul bem escuro, sua cauda tinha uma penugem, assim como as bordas das asas,um pescoço longo, pequenos espinhos pela extensão de sua coluna, quatro patas com pequenas garrinhas e na cabeça tinham elevações que sugeriam, pelo que eu vi em bovinos, que ali iriam crescer chifres.

–Eu me preparei esse momento todo para matar você, e você nem mesmo me feriu, por quê?

O pequeno baist foi acordando aos poucos, minha tensão ia aumentando, aquilo ainda podia ser feroz, no entanto dentro de mim eu sentia que ele não me atacaria, longe disso, ele parecia gostar de mim. Eu fui a primeira coisa que ele viu ao nascer, então isso me fazia o que para ele? Uma mãe? Talvez por isso ele não me atacasse. Toquei na cabeça do baist fazendo um pequeno carinho, ele fez um som que eu juro, parecia um riso para mim, como se tivesse sentindo cócegas, ele estava sentindo, eu tinha certeza, ainda não sabia como, mas sabia. A sensação que senti com ele foi como eu me senti com a Taora ou o Jalar, melhor, foi bem mais forte, eu sentia que ele não me machucaria, só parecia confuso e...com fome. Isso me preocupou, fome é uma sensação que pode fazer mudar atitudes em certas situações, aquele momento pacifico podia virar algo pior se ele não se alimentasse. Eu suspirei, como achar alimento para aquilo? Eu não tinha idéia do que ele era, parecia um lagarto, e lagartos são normalmente carnívoros, esse pensamento não me tranqüilizou, bagas não o alimentariam, precisava de carne.

–O que eu faço? Pense Lian...Pense...calma...ele é um lagarto, não um felino, então não é filhote daquele monstro...então o monstro não esta por aqui...ele pode ter ido embora então....talvez eu possa...ir....mas...

Mas se eu fosse embora aquele baist talvez morresse de fome, pois não teve ninguém para ensiná-lo a caçar e a sobreviver, provavelmente seu destino era morrer ali de fome ou sede, eu não deveria ter me importado com isso afinal eu ia matá-lo inicialmente, mas a idéia me deixou inquieta, eu não queria deixá-lo morrer, mas se eu não fosse embora, talvez eu virasse jantar. Decidi enfim ir em frente, peguei minha lança como apoio e manquei para fora da caverna como tinha feito no dia anterior, se eu partisse cedo talvez conseguisse sair antes da noite, era meu plano, ir em frente e não olhar para trás, até que um grunhido veio de trás de mim e olhei. Ele tentava subir a todo custo, desajeitado com as asinhas, escalando e cambaleando até por fim cair e voltar a tentar, isso partiu meu coração, como eu podia deixar ele e ir embora assim? Sem pensar direito eu desci e ele pulou em mim, me segurei no galho para não cair, era pesado, ele se agarrou na minha roupa, e onde a roupa havia lascado as garrinhas machucaram minha pele.

–AIIIII, calma, calma...

Parecia desesperado de certa forma, talvez previsse que eu ia embora, não parou de me agarrar mesmo eu tentando tirar, se agarrou em meu ombro, mudou de posição varias vezes e por fim ficou nas minhas costas agarrado em meu ombro, o peso extra me atrapalhou, mas com muito esforço eu subi novamente. Aos poucos as garrinhas foram abrandando o aperto, havia novas feridas superficiais, feitas pelas garrinhas afiadas do baist, porem eu estava contente, se eu fosse sair que fosse com ele, embora eu não previsse direito o quanto aquilo me atrasaria, dentro de alguns minutos de caminhada eu fiquei exausta, o pé direito pulsava em ardor, eu não conseguiria ir adiante com ele agarrado em mim, mas também eu não conseguia tira-lo.

–Você esta me atrapalhando sabia?

Ele olhou para mim sem entender, seus olhos dourados brilhando com a luz do sol, provavelmente ainda tinha fome, embora estivesse distraído olhando para todo lado com grande curiosidade e interesse. Desisti de ir em frente, eu estava cansada e junto a ele com fome, colhi as mesmas bagas do dia anterior, e comecei a comer algumas, logo o baist demonstrou interesse, e eu sem esperanças até ofereci algumas, ele cheirou, mordiscou algumas e se retraiu, mas continuou a comer para minha surpresa, uma coisa boa afinal, peguei mais algumas e guardei num bolso que tinha na minha calça.

Depois de alguns momentos de descanso ouvi algo nos arbustos, ele também ouviu e ficou prestando atenção, peguei a lança silenciosamente e joguei no arbusto, mas o coelho fugiu, tentei ir atrás tentando achar sua toca, talvez eu conseguisse pega-lo lá, mas nisso não tive sorte, então o baist começou a farejar e a fazer grunhidos e quase me largou, guinando o longo pescoço para o outro lado eu segui, talvez ele tivesse achado o coelho, andei durante minutos seguindo sua direção quase desisti até que ouvi um barulho de água, e ali estava alguns metros adiante um lago, pela primeira vez ele me largou e caiu desajeitadamente no chão, foi correndo para a água batendo as asas para ganhar velocidade, se desequilibrou e caiu de boca no lago, eu ri, ele nem ligou, começou a beber e me juntei a ele.

Depois de saciados da sede eu tive a idéia de pescar, eu nunca havia pescado e isso se mostrou um problema, se passaram horas até eu pegar um único peixe espetado na minha lança. Era tarde, já ia anoitecer, peguei o peixe e levantei, nem precisei esperar para ter o baist se entrelaçando nas minhas costas de novo, e voltei a andar procurando a caverna novamente, o sol já quase se punha quando achei novamente a caverna, antes de entrar peguei uns galhos, desci, fiz uma fogueira nova e esquentei um pouco o peixe. O peixe interessou muito mais meu amiguinho baist, apesar de estar com fome eu dividi e dei metade para ele que engoliu de uma vez, eu deixei esfriar e comi aos poucos, depois peguei as bagas e comi enquanto olhava a fogueira, o baist se agarrou e se enrolou em torno de mim. Pela primeira vez naquele longo tormento eu estava feliz, eu não sei por que cuidar daquele baist me deixou mais feliz do que eu podia ter imaginado, quem imaginaria que a apenas um dia atrás eu queria matá-lo, agora ele era minha melhor companhia naquela escuridão e no frio da noite ele me aquecia, aquecia mais do que meu corpo, ele aquecia minha alma com a inocência da alegria de uma eterna amizade.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.