Londres, Inglaterra — 28 de setembro

Escritório do detetive Blake, 21:53

Londres, à noite, é uma criatura distinta da Londres diurna, menos apressada, porém mais cautelosa, como alguém que, ao perceber a ausência de luz, decide escolher cada passo com atenção.

O nevoeiro não se limitava a encobrir as ruas; parecia antes um tecido maleável, costurado aos becos e pontes, esmaecendo as bordas das coisas até que nada mais tivesse contornos definidos. As lâmpadas dos postes, dispostas com esmero em fileiras, lançavam círculos dourados sobre a calçada molhada, como pequenas ilhas de segurança em um mar de sombra.

Os táxis negros passavam devagar, quase sempre com passageiros que preferiam manter a cabeça baixa. Os ônibus, por sua vez, avançavam como bestas pesadas e silenciosas, e seus faróis, ao cortar o nevoeiro, revelavam apenas fragmentos da cidade — um portão ornamentado aqui, uma vitrine fechada ali.

Nos bairros antigos, as fachadas vitorianas mantinham-se imóveis, altivas, como senhoras idosas que já viram mais do que gostariam de contar. Nas áreas modernas, o vidro e o aço refletiam a pouca luz disponível, criando a impressão de que algo observava de volta, algo que conhecia cada um de nossos movimentos.

O Tâmisa¹, sempre presente, corria silencioso, mas não tranquilo. A superfície escura escondia correntes fortes e, talvez, segredos ainda mais profundos. Londres, ao contrário de muitas cidades, não tenta esquecer o seu passado. Ela o guarda. E cobra caro por ele.

O relógio na parede acabara de marcar vinte e uma horas e cinquenta e três minutos quando fechei a última pasta sobre a mesa.

Era noite suficiente para encerrar o expediente e, talvez, arriscar-me a uma caminhada curta até o café da esquina antes que a chuva engrossasse. A lâmpada, suspensa sobre mim, oscilava levemente a cada rajada de vento que se infiltrava pelas frestas da janela, e sua luz amarelada parecia exausta, como se também aguardasse a hora de repousar.

O silêncio do escritório tinha peso. Um silêncio preenchido pelo farfalhar distante das ruas, pelo estalar da madeira antiga sob meus pés e pelo leve tilintar dos cubos de gelo esquecidos no copo de uísque à beira da mesa. Vesti o sobretudo, peguei o chapéu e alcancei o interruptor.

Foi então que o telefone tocou.

Não era um toque qualquer. A campainha metálica do meu aparelho, um modelo antigo de disco, produzia um som inconfundível — agudo, porém carregado de gravidade, como se cada chamada trouxesse notícias que alterariam o curso das coisas.

Deixei o chapéu de lado e atendi.

— Blake. — anunciei, com a formalidade automática de quem está sempre pronto para más notícias.

— Hargreaves. — A voz do sargento carregava a respiração pesada de quem não gosta do que está prestes a dizer. — Temos outro corpo. Acho que vai querer ver.

Olhei pela janela. Chovia. Sempre chovia.

Sentei-me por um instante, apenas para sentir o peso das palavras. Depois, desliguei o telefone, peguei novamente o chapéu e soube, com a certeza que só a experiência concede, que aquela noite não terminaria cedo.