Badalares do Inferno: Teogonia do Fim
2 O Limbo no Olhar
Margens do Tamisa
28 de setembro, 23:15
A sirene da polícia ainda ecoava quando desci do táxi. O motorista, um sujeito de olhos cansados, evitou olhar-me diretamente, preferindo acelerar de volta ao anonimato da noite. Restou-me apenas o frio cortante do vento vindo do rio e o lampejar intermitente das luzes azuis, que projetavam sombras grotescas sobre as paredes de tijolos úmidos.
A cena estava cercada por fitas amarelas que balançavam com a corrente de ar. Dois guardas mantinham os curiosos afastados, mas havia poucos dispostos a permanecer àquela hora em meio à chuva e ao cheiro pesado que subia do Tâmisa. Era como se a própria cidade tivesse decidido que ninguém deveria testemunhar aquilo.
Hargreaves me esperava sob um guarda-chuva surrado. O rosto do sargento, sempre marcado pela rigidez, parecia agora tensionado além do habitual. Aproximou-se de mim com um aceno breve.
— Blake. — sua voz saiu grave, abafada pelo barulho da água batendo no tecido do guarda-chuva. — É pior do que da última vez.
Abaixei-me, ajustando o chapéu contra a chuva, e segui-o até o corpo. Encontrava-se estendido sobre as pedras da margem, coberto parcialmente por um lençol encharcado. Um policial o retirou com cautela, revelando o rosto.
A luz bruxuleante refletida nas poças formadas pela chuva denunciava os contornos de algo profundamente antinatural. O rosto — ou o que dele restava — era uma máscara pálida, desprovida de olhos, cavidades vazias que não inspiravam apenas horror, mas uma sensação de ausência absoluta.
Seu corpo estava emagrecido, como se todo seu sangue tivesse sido drenado. Recobri o corpo com o manto negro antes que a chuva pudesse levar qualquer evidência nele contida.
— Já o identificaram-no? — Questionei apalpando meu sobretudo em busca de meu bloco de notas.
— O legista chegará em breve. — Afirmou o sargento. — Entretanto, a mulher que encontrou a vítima está aqui.
Discretamente, Hargreaves sinalizou uma pobre moça escorada na escadaria de um edifício próximo. Esquentada por um manto branco improvisado, a pobre dama estava pálida tal qual o cadáver esdrúxulo. Não a julgo, a primeira vez que a morte nos encara de perto aterroriza até a mais valente das almas.
— Uma cortesã noturna?!
— Sim, detetive. Ela tinha um encontro marcado com a vítima. — Hargreaves pôs um cigarro na boca. Era esse o "tic" de meu colega de longa data: o olhar de mil jardas, um trago num cigarro, cabeça baixo. — Não lhe fizemos muitas perguntas, preferi deixar essa parte para você. Sei como adora interrogatórios, Blake.
— Notícias da sua esposa?
— Não, nada.
— Eu sinto muito por Afrodite, Hargie.
— Guarde suas desculpas para si mesmo, Blake.
Hargreaves desviou o olhar, tragando com força, como se a fumaça fosse capaz de dissolver a dor que não cedia. Vi-lhe a mão tremer, e não foi pelo frio. Afrodite. Não ousaria repetir o nome em voz alta; aquele fardo já lhe roubara mais noites do que o merecido.
Afastei-me do corpo, ajeitando o chapéu contra a chuva fina que insistia em me perseguir. Dirigi-me à escadaria, onde a jovem permanecia imóvel, como uma estátua desfeita. Seus olhos vagavam, perdidos em um ponto qualquer da rua, como se desejasse apagar da mente a última meia hora de sua vida.
Aproximei-me com cuidado, apoiando o bloco de notas contra o peito.
— Senhorita — disse em tom grave, porém firme. — Lamento pela sua experiência, mas cada detalhe que possa recordar será de extrema importância. O que viu, ouviu ou pressentiu pode significar a diferença entre deter um assassino ou permitir que ele escolha sua próxima vítima.
A jovem engoliu em seco, as mãos tremendo sob o tecido úmido do manto branco.
— Eu... eu não vi quem fez aquilo. Apenas... o vazio. Ele estava deitado... e seus olhos... — sua voz fraquejou, como se a memória fosse mais letal que a visão do cadáver. — Era como se a vida tivesse sido sugada para longe dele.
Fechei o bloco sem escrever uma linha sequer. Não era o momento de arrancar dela mais do que sua própria mente suportava. Olhei para o rio, sentindo que Londres escondia algo nas sombras mais profundas de sua velha pele de pedra.
"Croac. Croac." Esse maldito corvo de novo? Não podia afirmar ser o mesmo, mas desde que o "Devorador de Olhos" — como os jornalistas e o povo gostava de chamar — entrou em ação, há nove dias, esse corvo desgraçado vem me seguindo em cada cena do crime.
Não sei o que fez-me sair de mim, mas comecei a gritar com ele na expectativa de afugentá-lo.
— Seu bastardo. São vocês que estão fazendo isso?! Volte a mostrar seu bico para mim novamente e lhe arranco as penas!
Minhas mãos trêmulas sacaram meu revólver, apontando para a peste negra que voou para longe. Mas fui contido por um flash que cegou meus olhos.
Obviamente, as notícias circulavam mais rápido que as águas do Tâmisa, a mídia já estava aqui. Os policiais tentaram conter os fotógrafos mas já era tarde demais.
— Afastem-se! — berrou Hargreaves, tentando erguer o braço diante das lentes. — Não é espetáculo, é cena de investigação!
Mas era inútil. Os flashes iluminavam a margem do Tâmisa como fogueiras instantâneas, registrando cada detalhe que, mais tarde, seria distorcido em manchetes sensacionalistas. Vi, entre as lâmpadas que explodiam de luz, um vulto de sobretudo marrom anotar freneticamente num caderno. Jornalistas eram piores que os urubus.
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