Bad Reputation
3 She's Thunderstorms
Notas iniciais
"Lying on her front, up against the wall,
she's thunderstorms"
A escuridão era notória.
Eu estava perto de uma pub. Já era sexta-feira. Precisava estar chapada. Agora.
Minha conversa com Reia não havia sido uma das melhores. Infelizmente, ela já sabia dos meus hábitos. Aquele oficial de justiça contara tudo a ela meses antes de eu ser notificada. Como? Todos sabiam, menos eu. Reia havia sido boazinha e educada demais no primeiro dia. Eu já devia ter desconfiado. Ela quis conversar sobre o que eu vivi durante os últimos quase dez anos. Engraçado. Eu os rejeitava, mas eles não vinham atrás de mim em momento nenhum e agora ela veio com essa conversa de que eu preciso ser mais agradável, submissa e ter mais empatia?
Empatia é o caralho.
Reia agiu igual a minha mãe. Tal mãe, tal filha. Desde as minhas recaídas, eu vivia em uma espécie de prisão domiciliar. Atena e Frederick alegavam que aquilo era necessário para que eu mudasse e consertasse. Isto é, devido ao meu histórico escolar e emocional, meus pais me mantinham trancada em casa. Eles passavam o dia fora e teve até alguns dias que foram à viagem de negócios e me largaram para as traças. Eu tinha uns nove anos quando tudo ocorreu; foi após a briga de Atena e Hera. Essa maldita briga influenciou e refletiu na família toda, visto que Reia nunca mais foi nos visitar. Nas férias de verão da época em que eu tinha oito anos fora a última vez que havia visto a minha família.
Quando meus pais descobriram que eu usava drogas, tudo piorou. Aí que a prisão domiciliar realmente se manifestou. “Ué! Mas você não teve mais liberdade do que deveria?”. Em partes. Acabei tendo porque meus pais não ligavam para o meu bem-estar, ambos preocupavam-se com dinheiro, status, fama, etc. e isso fez com que eles não conhecessem a filha que tinham. Todavia, no intuito de se fazerem de pais enérgicos e sábios, Atena e Frederick me trancavam em casa. Obviamente que algumas vezes eu conseguia escapar, mas eu estava farta daquela farsa. Era tudo uma grande fachada. Ótimo jeito de educar a filha, prendendo-a como se ela fosse um animal.
Esses últimos dias foram horríveis. Na manhã seguinte que cheguei e, até hoje, eu havia ficado apenas com Reia. Thalia e Bobby não puderam ficar comigo devido às ordens dela. Minha avó alegou que queria passar um tempo especial comigo, me conhecer novamente e conversar tudo o que deveria ser conversado. Mas ontem... Ela se transformou.
E agora minha avó me dizia sobre ter empatia? Vá para puta que pariu. Eu estou realmente cansada.
Desde que cheguei, meu avô Cronos não havia aparecido. Reia avisara que ele chegaria logo, pois estava em uma viagem de negócios. Entretanto, ela já havia me alertado sobre umas malditas regras que eles possuíam. O que é a maior enrolação, já que eu perguntei a Thalia e ela acabou me dizendo – após muita chantagem emocional – que criaram essas tais regras só porque eu havia chego.
Meus avós realmente eram pais da minha mãe.
Reia queria se transfigurar numa nova Atena e me manter na linha. As regras consistiam em: não sair de casa sozinha e sem previamente avisar aonde vai/com quem/fazer o que/por quê/etc.; não frequentar locais promíscuos (ela achava que eu ia à prostíbulos?); nada de passeios noturnos; não trazer estranhos à casa; nada de bebidas e drogas; sem celular após às 22h; dentre outras.
Sem celular após às 22h? Eu definitivamente não sei o que se passa na cabeça deles.
Eu não pude dizer a ela tudo o que queria. Resmunguei apenas alguns palavrões. Onde eu havia me enfiado? Aliás, eu estava certa. Eles realmente querem me pôr para estudar com Thalia em um internato. E para foder mais ainda, esse internato ficava fora da cidade. Ou seja, além de estudar em uma merda de um internato, quando finalmente voltasse para à casa de Reia, eu teria que obedecer às regras ridículas estipuladas.
Eu realmente precisava de um baseado.
Decidi entrar na pub. Era em torno de duas da manhã. O segurança parecia ter uns 28 anos e seria fácil me deixar entrar. Fiz minha melhor cara.
— Identidade, por favor.
Sorri. Apresentei minha identidade falsificada. Eu sabia que ele não iria cair nessa. Ele não tinha cara de idiota.
— Está de brincadeira? – ele disse rindo. Sorri ironicamente.
— Talvez, quando eu sair daqui... – eu sussurrei em seu ouvido, tentando me levantar o máximo possível para alcançá-lo – hm, é, eu possa... – continuei, dessa vez pondo minha mão em seu peito e descendo de forma calma e suave até chegar em seu órgão – recompensá-lo por esse enorme favor.
Senti o grandão sorrir.
— Eu vou cobrar. – falou, por fim.
Ao entrar, as luzes fortes me animaram. A música pop me enjoava, entretanto aquilo não era minha maior preocupação no momento. Eu necessitava achar alguma amizade para me ensinar as artimanhas dessa cidade. Sentei-me no balcão e pedi uma dose de tequila.
Enquanto esperava pelo barman, observei com afinco cada pessoa ali presente. Havia jovens, adultos e até senhores. Olhei atentamente. Via apenas pessoas dançando e se beijando. Ao fim de um estreito corredor, pude reparar em três jovens, que aparentavam ter a minha idade. Eles se entreolhavam a todo instante, sendo que, um deles, observava seu redor com frequência.
Tomei minha dose.
Fiquei uns cinco minutos os observando antes de chegar a uma conclusão. Sim, eles com certeza tinham aquilo que eu procurava. Fui andando calmamente até o meio da pista; dancei sensualmente, ainda os olhando. Um loiro que possuía uma cicatriz me fitou. Seus olhos pararam em mim e penetraram minha alma. Virei de costas para ele e continuei rebolando. Quando, disfarçadamente, pude perceber que ele vinha até minha direção, eu me esquivei sutilmente, fingindo que não o tinha visto e fui em direção ao banheiro, que ficava no corredor no qual os outros dois estavam. Dei uma leve esbarrada no outro loiro e adentrei ao banheiro, sem olhar para trás.
Chequei-me no espelho. Eu não estava muito maquiada, possuía apenas rímel e um lápis para destacar meus olhos. Eu usava um vestido xadrez bem curto que marcava minha cintura, meia calça arrastão (adoro) e all stars. Apesar de eu ser extremamente anã com os meus um metro e meio, odiava usar saltos. Eu estava aceitável até. Teria apenas que puxar uma parte do meu vestido para o ombro, já que não possuía decote.
Ao sair do banheiro e adentrando ao corredor, percebi que os três ainda estavam lá, um pouco mais longe, porém os garotos estavam conversando, virados de costas para mim, e eu teria que pedir licença para passar, já que a passagem estava bloqueada pelos mesmos.
— Com licença, rapazes. – falei educadamente, enquanto prendia meus cabelos em um coque frouxo.
— Sem problemas. – um japonês me respondeu, cedendo passagem. Sorri educadamente e passei.
— Ei! – virei-me e agora era o loiro número um, da cicatriz, que falava – Você está aqui sozinha?
— Estou de saída. – disse saindo.
— Ah, qual é! Vamos tomar pelo menos um drink. – o loiro número dois pediu. Assenti.
— Sem problemas. – sorri amigavelmente.
Eu não podia chegar e dizer “e aí, galera, me passa as drogas”. Teria que ter certeza absoluta. Sem contar que eu não conhecia nada e ninguém, não sabia nem ao menos como as coisas funcionavam por lá. Eu só não queria acabar careca.
Fomos em direção à mesa mais afastada da pista de dança. Eles pediram uns drinks – que não ouvi – e sentaram-se junto a mim.
— Então... – comecei.
— Sou Ethan, prazer. – o japonês começou. Assenti. – Estes são Luke – apontou para o loiro número um, o da cicatriz – e Will. – apontou para o loiro número dois, que tinha várias sardinhas espalhadas pelo rosto.
Os três eram muito bonitos. Pude ver um pouco melhor devido a iluminação estar mais forte.
Ambos os loiros possuíam olhos azuis, entretanto os de Luke se destacavam mais devido à cicatriz que atravessava o olho direito. O cabelo de Will era comprido, enquanto o de Luke era curto. Ethan tinha o cabelo mediano, negro. Sua pele era clara e seus olhos aparentavam ser castanho-escuros.
— Annabeth. – apresentei-me, apoiando minha mão em meu queixo.
— Você é daqui, Annabeth? Nunca a vimos antes. – Will questionou. Seu sotaque era marcante.
— Na verdade fui despachada pra cá. – Sorri. – Sou da Califórnia.
— Uau... E foi despachada pra Bristol? – Luke perguntou, enquanto pegava as bebidas que o garçom havia trazido.
— Vim morar com meus avós. – respondi simplesmente enquanto pegava meu copo. Eles eram xeretas.
— Você estuda? – Ethan perguntou enquanto apreciava seu drink.
— Vocês não têm cara de quem estudam. – contra-argumentei. Ethan riu.
— Estudamos em um internato.
Aí caralho. Seriam eles meus salvadores naquela porra?
— Da Goode High? – perguntei arqueando a sobrancelha.
— O próprio. – Will afirmou.
— Legal. Vou pra lá também. – pude ver Luke sorrindo de forma travessa.
Eu tinha que parar com essa lengalenga e ser mais objetiva. Deixei que a conversa fluísse um pouco mais e quando já havíamos acabado os drinks, questionei.
— Escuta... Esse internato... É difícil de se viver lá?
— Na verdade não é muito não. Achei que seria pior quando entrei. – Ethan começou.
— Talvez você tenha problemas para adaptação. – Will afirmou e arqueei a sobrancelha.
— Ah, é? E por quê? – ele sorriu.
— Você não parece o tipo de garota que segue normas.
Aleluia. Aquele era o caminho que queria achar na conversa.
— Não sou.
— Então. Talvez você tenha problemas para adaptação. – concluiu.
Os garotos me contaram que o colégio era enorme, por isso ficava fora da cidade; tinha piscinas, lagos e até parques com complexo esportivo, ginásio, campo de futebol, centro equestre, etc. Havia também sala de jogos, laboratório de ciências, arte e design, teatro, auditório, clínica médica, igreja, lojinha de conveniência, e a tão famosa residência dos alunos e professores, dividida por sexo, obviamente.
— Não tem farra por lá?
— A maioria ocorre na época de jogos ou no tempo livre. – Ethan argumentou. – Você gosta de farra? – sorri.
— Quem não ama uma farra? – Luke me olhou com desejo. Sorri.
— Escuta... talvez vocês possam me ajudar em algo mais... pessoal. – comecei; eles me olharam, atentos.
— Claro, diga. – encorajou Will.
— Preciso de umas informações sobre a cidade nessa área e não me refiro apenas à farra.
Eles se entreolharam, provavelmente entendendo o rumo que eu queria dar àquela conversa.
— Venha. – Luke levantou-se e disse de forma mais seca.
Segui-os até o andar superior da boate. Lá havia uma sala escondida. Entramos.
— O Frank que comanda tudo por essa região. – Luke começou enquanto sentava-se numa poltrona — Ele tem de tudo. Qualquer coisa que quiser, é só pegar conosco.
— É claro que a maioria das pessoas não tem acesso a este conhecimento. Então... – Will continuou, lançando-me um olhar de “se contar, já sabe”. Assenti, suspirando aliviada.
— O que você tem aqui e agora? — apressei-me em dizer.
— Tudo. – Ethan completou.
— Graças aos deuses.
Peguei uns pinos de cocaína, umas gramas de maconha, um rolinho de seda e até alguns maços de cigarro, já que não conhecia ninguém para me vender nessa cidade aparentemente regrada demais. As demais coisas eu deixaria para usar em festas. Já seria arriscado demais levar tudo isso à casa de Reia.
Por fim, bolei um baseado e acabei fumando com eles, ali mesmo, enquanto ríamos e eles me contavam um pouco mais sobre a tal Goode.
Eles disseram que, por ser um local enorme, era tudo um pouco longe. Os estudantes tinham que caminhar bastante todos os dias para chegar à sala e outros lugares de atividades diversas. A acomodação dos alunos se dava através de pequenos quartos com banheiro embutido, espalhados pelo grande parque. Pelo menos eu teria um pouco de privacidade. Só podíamos sair do local aos sábados, ao meio dia, devendo retornar nos domingos até às dez da noite. Entretanto, uma vez por mês, era autorizado sair às sextas-feiras após o período letivo. Bufei. Meus avós me achavam com cara de palhaça? Puta que pariu.
Assim que o baseado acabou e a conversa chegou ao fim, eu me despedi dos garotos e entrei no pequeno corredor que dava para a escada. Antes que pudesse descer para o andar inferior, senti mãos me puxarem para dentro de uma outra sala, que logo pude ver que era uma espécie de armário.
— Você ainda tá chapada? – a voz de Luke apareceu sutilmente em meus ouvidos. Estava escuro e apenas sentia suas mãos me prensando contra a parede.
— Claro. – respondi automaticamente.
As mãos de Luke subiram para os meus seios. Suspirei. Eu realmente havia o provocado. Eu o puxei para um beijo, que foi logo correspondido. Suas mãos me apertavam com fervor. Senti meu celular vibrar, mas não me importei. O loiro ergueu minhas pernas e fez com que eu, ainda prensada na parede, ficasse apoiada apenas por suas mãos, o que fez com que nossas intimidades se chocassem de forma abrupta. Seus beijos desceram para o meu pescoço; arranhei sua nuca. Luke murmurou algo que não consegui entender e, então, fui jogada para o outro lado da pequena sala, trombando em meio ao que me pareciam ser vassouras. Ele me apoiou em um tipo de estante e pôs dois dedos em mim. Droga, o maldito havia provavelmente rasgado minha meia calça. Meu celular vibrou novamente.
Enquanto eu mordia sua orelha, Luke movimentava seus dedos ágeis com força. Ele me puxou para mais um beijo – maravilhoso, no caso – e pude sentir seus dedos saindo de mim. Antes que Luke pudesse pensar em fazer outra coisa, meu celular vibrou pela terceira vez, incansavelmente e, dessa vez, ele não cessou. Bufamos.
— O que é? –disse arfando ao atendê-lo.
— Annie, volta agora. Reia vai chamar a polícia. Acabei de chegar aqui. As coisas não estão boas. – a voz de Thalia soava com receio.
Soltei-me de Luke na hora. Porra.
— Segura essa velha! – respondi, perdendo o respeito.
— Ela percebeu que você escapou pela sacada. Ela está... está bem brava. Hã, acho melhor você voltar. Eu vou distraí-la. Presta atenção...
Fiz um sinal pra Luke parar enquanto o mesmo passava as mãos pelas minhas coxas e beijava meu pescoço.
— Eu vou abrir a porta pra você enquanto ela for ao banheiro, que provavelmente será logo. Você corre pro seu quarto. Eu vou dizer que vi você passeando pelo jardim, desse jeito ela surtará menos. Mas tem que ser agora. Agora.
Puta merda. Saí correndo do local, sem nem ao menos me despedir de Luke. Saí pelos fundos, para que o segurança tarado não enchesse meu saco. Peguei o primeiro táxi que localizei e este saiu correndo pelas ruas.
Ao chegar no condomínio, pedi para que o taxista me deixasse no meio do caminho. Saí, então, correndo em direção ao casarão.
***
— Onde você estava? – Reia adentrou no meu quarto, nada gentil.
— Fui apenas dar uma caminhada. – menti, fingindo um bocejo.
— Annabeth. Escuta. Eu. Não. Sou. Passiva. Igual. Sua. Mãe. – disse pausadamente; dei de ombros. – Se você não cumprir regras, saiba que eu te proibirei de sair da escola aos fins de semana.
— O QUÊ? – berrei, indignadíssima. – Escuta! Eu não sou vaquinha de presépio!
— As coisas funcionarão dessa maneira. – minha vó disse firme, deixando o quarto e batendo minha porta com força.
Para onde havia ido aquela senhora gentil que me trouxe chocolate quente? Eu já deveria saber. Os Olimpus são uns malditos. Eles são controladores, egocêntricos e até manipuladores. Agem na defensiva apenas até conseguirem o que querem – pouco de submissão, no caso – e, depois, revelam seu verdadeiro eu.
Ignorei toda a situação que acabara de acontecer e bolei outro baseado, logo acendendo-o. Eu nem ao menos sabia se as aulas começariam nesta segunda-feira ou apenas na semana seguinte. Entretanto não pude me ver vivendo mais uma semana lá. Apenas sabia que para as férias de verão acabarem faltavam poucos dias. Eu não tinha o costume de desrespeitar idosos, muito menos minha avó. Traguei, impaciente, soltando a fumaça logo em seguida.
Entretanto, o que ninguém sabia era que não é dessa maneira que eu ajo.
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