Bad Reputation
2 Nothing Left to Lose
Notas iniciais
After Jesus and Rock 'n' Roll, couldn't save my
immoral soul, well, I've got nothing left to lose"
Eu tive que vender minha moto. Sim, a minha moto. A droga da minha Fat Boy. Isso era o que mais havia me deixado puta da vida.
As gêmeas provavelmente me xingariam horrores por eu ter feito o que fiz. Mas eu sabia que despedida seria algo perverso. Elas não aguentariam. Alice, apesar de toda a sua promiscuidade e de se fazer de durona, não suportaria nada. Hannah era menos emotiva, tendia mais ao foda-se, e, talvez, não sofreria tanto como a irmã.
Desde que o acidente ocorreu, eu e as gêmeas nos apegamos demais. Éramos as mais serelepes da sala, como dizia tia Lisa, mãe das garotas.
Bristol ficava cerca de treze horas de distância da minha amada Cali. Já estava vendo um filme maldito de romance há oito horas, pois minha televisão estava quebrada e só repetia o mesmo filme. Desisti e fui, pela enésima vez, pedir à aeromoça para mudar de lugar.
— Querida, há protocolos para seguirmos. – bufei. Ela só sabia responder aquilo?
Fingi que ia voltar ao meu lugar e a vi indo em direção ao fundo do avião. Aproveitei rápido a situação. Peguei num pulo as minhas poucas bolsas de mão e sentei em um lugar vazio qualquer.
Finalmente paz.
Pude escolher um filme melhor e ainda sentar na janela. Não percebi quando caí no sono.
***
Faltava apenas uma hora.
Eu estava um pouco nervosa. Quero dizer, não via minha prima e meus avós desde meus oito anos de idade, já que meus pais não gostavam muito quando a família ia à nossa casa, pois os fazia perder tempo e, bem, tempo, para eles, significava dinheiro.
Eu, sinceramente, não sabia o que esperar. É claro que, de alguma forma, estranha e complexa, eu os amava e sentia falta, mas não pude discernir totalmente meus sentimentos, visto que eu não possuía intimidade. Não sabia como me tratariam ou pior! Como eu deveria agir? Creio que Reia não aprovaria muito se eu acendesse um cigarro enquanto conversasse com ela. Bufei. Seria realmente complicado me portar na presença dos meus avós.
Peguei-me pensando em como meu irmão estaria. Bobby realmente era alguém a quem eu me importava. E muito. Ele tentava sempre manter contato comigo, principalmente após o acidente, porém simplesmente me afastei. Thalia foi a minha melhor amiga – e prima – na infância. Éramos muito apegadas, até que Atena brigou com Hera e nunca mais a vi. Passamos nossa pré-adolescência e adolescência separadas, portanto não sabia se Thalia continua a mesma.
Meia hora.
Mordi os lábios, pouco apreensiva. Coloquei meus fones, que tocavam Nothing Left to Lose, do The Pretty Reckless. Sorri. Eu realmente não tinha mais nada a perder.
***
Desci do avião. Eu só queria fumar. Havíamos pousado com uns dez minutos de antecedência. Aproveitei. Fui até uma área aberta, com passos rápidos. Eu estava esperando liberarem as malas e, portanto, carregava apenas as minhas bolsas de mão.
Achei meu maço e peguei um cigarro, colocando-o entre meus lábios. Ia pegar o isqueiro quando uma menina – mais alta que eu – quase me derrubou.
— Merda. Toma cuidad... – eu disse, abaixando-me para pegar meu cigarro que havia caído; cessei minhas palavras imediatamente ao levantar-me.
Droga, era Thalia. Tentei esconder o cigarro, mas ela apenas me abraçou.
— Annabeth! – a morena berrou enquanto me esmagava.
— Oi. – resmunguei baixinho, já que minhas cordas vocais provavelmente estariam rompidas após seu pequeno gesto.
Retribuí o abraço.
Thalia usava roupas góticas – muito legais, por sinal – e estava com uma maquiagem forte ao redor dos olhos. Sorri ao lembrar-me de quando ouvíamos rock enquanto pulávamos em minha cama, alegando que quando crescêssemos seríamos estrelas do rock.
Ela se desvinculou de mim e sorriu. Thalia estava linda. Seus olhos azuis eram ainda mais elétricos pessoalmente, do jeito como me lembrava.
— Porra, quanto tempo. Eu não sabia se viria. – ela disse e eu sorri – Não precisa esconder de mim. – apontou pro cigarro – Esconda apenas do vô. A vó é tranquila.
Arqueei a sobrancelha.
Não me lembrava muito dos meus avós. Reia realmente era calma, pelo o que me lembro. Sempre fazia pão caseiro e os doces que pedia. Um sentimento estranho percorreu meu corpo. Eu amava minha vó. Sentia falta dela.
Logo atrás de Thalia, avistei um loiro alto correndo em minha direção.
— Puta merda! – exclamei – Bobby! – disse ao abraçar meu irmão. – Você tá um gostoso! – disse rindo, dando-lhe um soquinho no braço.
— Você não cresceu nada! – revirei os olhos; Bobby me abraçou de lado e me deu um beijo no topo da cabeça. – Está com 1,50? Ainda? – revirei os olhos.
— Cala boca.
— Olá, querida... – pude ver Reia se aproximando. Coloquei meu cigarro no bolso.
Reia me abraçou com intensidade. Suspirei e retribuí o abraço, dando um sorriso de lado, sem abrir os lábios.
— Oi, vó.
Ficamos conversando e pude, de fato, perceber o quanto eu sentia a falta deles. Em Cali eu não sentia nada, por que caralhos estava agora? Provavelmente devido à ausência. Mas agora era diferente. Eu estava com eles.
Thalia e Bobby me ajudaram com as malas e fomos ao estacionamento. O sotaque deles era menos forte do que o de Reia. Enquanto íamos eu só pensava em como conseguiria meu pó naquela cidade estranha e onde compraria uma nova moto.
Lá no estacionamento estava uma Amarok preta de quatro portas. Não conseguia imaginar Reia dirigindo uma Amarok.
Então, Bobby pôs minhas malas na parte de trás e as ajeitou. Fez sinal para que entrássemos e sentou no banco do motorista.
— Desde quando você é rico? – questionei rindo.
— Desde que me formei na área de TI. – respondeu ligando o carro.
— TI dá dinheiro? Uau.
— Pra quem é realmente bom, dá sim. Mas consegui entrar no exército e opero lá. – gabou-se e eu revirei os olhos.
Chegamos em um condomínio de alto padrão. Sua entrada era branca e possuía colunas gregas distribuídas. Estava escrito em dourado “Condomínio Olimpo”. Franzi o cenho.
— Sua mãe que projetou. – Reia disse sorrindo satisfeita. Sorri educadamente. – Esse condomínio pertence ao seu avô, querida. Seus tios, tias e primos moram aqui. Há outras famílias também, claro. – fez uma pausa enquanto adentrávamos no local – Moramos ao norte do condomínio e aqui no sul – apontou para uma área que continha um pequeno lago. – mora a família de um amigo de longa data do seu avô, Urano, que, no caso, é o avô paterno de Thalia.
Thalia deu de ombros. Seguimos em frente enquanto minha avó me explicava sobre o local.
Chegamos em uma casa grande. Saímos do carro e levamos minhas malas até a sala principal. Era ampla e em conceito aberto. Já era por volta de uma da manhã.
— Vou fazer um chocolate quente, querida. Você deve estar exausta. – Reia me olhou sincera – Amanhã conversaremos sobre tudo. Enquanto isso, Thalia te mostrará seu quarto. – continuou, indo em direção ao que parecia ser a cozinha.
Nesse meio tempo, Bobby havia levado minhas malas e bolsas para o andar superior, o que agradeci mentalmente.
Subi as escadas com Thalia me contando, animadamente, que amanhã veríamos Piper e Silena e poderíamos colocar a conversa em dia. Sorri com o seu entusiasmo.
Paramos em frente à última porta de um enorme corredor. As paredes do quarto eram brancas; ele era grande, possuía banheiro e até mesmo uma sacada. Animei-me. Mil vezes melhor do que todos os apartamentos que Hannah, Alice e eu já havíamos morado.
Lembrei-me que meu celular ainda estava no modo avião. Coloquei-o para carregar, tirando do modo, em cima do criado mudo que se localizava ao lado de uma cama de casal. Acionei o modo silencioso ao pensar que chegariam milhões de mensagens das gêmeas. Thalia ainda não havia parado de falar sobre como todos estavam felizes e ansiosos para me ver. Sorri.
Molhei os lábios, pela milionésima vez.
— Você está ansiosa? – questionou-me.
— Ah, claro, faz anos que não os vejo e...
— Não me refiro a eles. Está ansiosa agora? – me interrompeu. – Você não para de olhar para os lados e molhar os lábios.
— Eu quero fumar. – murmurei. Thalia coçou a cabeça.
— A sacada é toda sua.
Murmurei um “aleluia” e corri em direção a mesma. Enquanto eu abria a porta da sacada, Thalia dizia que ia enrolar Reia, pois apesar dela ser tranquila, seria foda me ver fumando.
Dei de ombros e abri logo aquela bosta.
Rapidamente peguei um cigarro e coloquei-o entre os lábios. Peguei meu isqueiro no bolso traseiro e acendi. A primeira tragada já me acalmou. Fechei os olhos, apenas aproveitando o instante.
Após uns cinco minutos, apaguei o cigarro e o coloquei dentro do lixo do banheiro mesmo, sem me importar caso alguém visse.
Sentei na cama, retirando meus coturnos, quando a porta foi aberta. Reia trazia, em uma bandeja, um pão de queijo com uma xícara de chocolate quente. Agradeci.
— Amanhã será um novo dia. – disse ela, pondo a bandeja no meu colo. Assenti, enquanto ela acenava, deixando o quarto, mas na verdade caguei para suas palavras. Eu realmente estava com fome.
Suspirei fundo após terminar. Levei a bandeja de volta à cozinha e voltei para o meu novo quarto. Thalia estava sentada na ponta da cama.
— Você sabe que realmente estamos felizes, não é? – disse ela.
— Tanto faz. – resmunguei enquanto caçava algum pijama na minha mala.
— É sério. Esses anos serão recuperados. – disse, por fim.
Thalia deixou o quarto. Coloquei meu pijama e deitei na cama, completamente exausta. Eu ainda não pude discernir completamente o que eu estava sentindo. Era tudo muito novo. Muito diferente. Chequei meu celular e, como previsto, cinquenta e sete ligações perdidas de Hannah. Duzentas e trinta mensagens de Alice. Aí caralho.
Meu Whatsapp estava lotado. No total havia mais de duas mil mensagens. Revirei os olhos e gravei um áudio para o grupo XX, meu e das gêmeas. Contei basicamente tudo a elas. Disse que estava bem, e ficaria bem. Elas que superassem. Terminei meu áudio de sete minutos com um “vou dormir, não me liguem, amo vocês”. Já logo desliguei meu celular, pois sabia que elas me ligariam com certeza e eu realmente queria dormir. Meu dia havia sido uma bosta.
Eu só queria um baseado.
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