Bad Reputation
1 My Medicine
Notas iniciais
"Somebody mixed my medicine and I don't know what I'm on. Well I drink what you leak and I smoke what you sigh."
Seus olhos ardiam.
O cabelo loiro claro, longo e cacheado nas pontas já fora preso num coque frouxo há muito tempo. O cropped preto de spikes já não estava arrumado ao corpo e mostrara seu sutiã de renda, revelando seios fartos.
Annabeth arfou.
Buscava ar incansavelmente, porém parecia não vir nada aos seus pulmões. A luz estava forte, via apenas alguns flashes, que ardiam seus olhos. A música eletrônica tocava de maneira intensa. Quando finalmente achou o ar, ela deu uma longa risada. Os garotos ao seu redor, da mesma idade e alguns mais velhos, se aproveitavam da falta de lucidez da menina e passavam a mão pelo seu corpo.
O que acontece é que isso já não a incomodava mais.
Após sua longa risada, Annabeth encarou a trilha de cocaína disposta à mesa e continuou sua missão: esquecer não apenas seu passado trágico, como também o seu presente. Ajeitou o pó na mesa com o auxílio de um cartão de crédito, olhando para o garoto de sua escola, Math, que a olhava assustado. Ela sorriu. Então, enrolou umas notas de dólares de forma fina e cheirou. Sua careta logo se transformou em outra risada.
— Obrigada, garotos. Isso é tudo por hoje. — disse, retirando-se do colo de um deles.
Fez um aceno para Math, despedindo-se. A garota foi em direção à saída. Já estava cansada de sua vida monótona. Antes de finalmente deixar o local, foi em direção ao barman, exigindo uma dose de cachaça. Tomou com fervor. Sua garganta nem ardia mais. Puxou um garoto loiro de olhos cor de mel pela nuca e beijou-o com voracidade, sendo correspondida rapidamente. O loiro pôs sua mão na cintura, subindo-a para seu rosto, mas ela logo livrou-se dele, dando-lhe apenas uma piscada e um sorriso.
Agora sim podia ir.
Achou um baseado pronto no cantinho de uma pesa próximo à saída e aproveitou para pegar. Retirou o isqueiro do bolso de sua calça jeans rasgada e o acendeu. Acenou para o segurança, que já a conhecia há muito tempo, e foi em direção de sua moto. Jogou seu baseado pela metade numa grama qualquer que achou e começou a dirigir sua Harley Davidson Fat Boy.
Annabeth Olympus Chase morava com amigas em um apartamento ao sul de São Francisco, na Califórnia. Nunca fora o tipo de menina calma, meiga, Barbie e fútil. Annabeth era hostil, talvez arrogante, indisciplinada e tornara-se aquilo que prometera ao seu pais nunca tornar-se: dependente química.
Seus pais haviam desaparecido após uma viagem a negócios para África, quando tentavam aumentar seus domínios. Eles eram donos majoritários da Allabastro, uma grande empresa de associados em arquitetura, contabilidade, assessoria jurídica. Já possuíam várias filiais em diversos países e haviam ido à África para tal expansão.
Entretanto, o avião particular onde estavam havia simplesmente desaparecido, sem deixar vestígios. O caso demorou quatro anos para ser definido como morte presumida. Ela sabia que se completava os quatro anos nessa exata noite, quando fora informada pelo advogado da família. Queria ignorar. Queria esquecer.
Naquela época, Annabeth já possuía um certa tendência para uso de entorpecentes devido às constantes brigas com os pais. Eles eram muito ausentes na vida da garota, o que gerava inúmeras discussões sem fim por divergência.
Frederick Chase era um advogado renomado de sua cidade e conheceu Atena Olympus, em uma conferência de negócios. Desde que engravidou e casou com Frederick, homem meio rude, porém atencioso, Atena vivia de forma regulada, sendo controladora e muito racional.
Quando seu primeiro filho Bobby nasceu, Atena se realizou, pois sempre quisera um menininho. Os pais do garoto eram atenciosos e tinham uma renda baixa, nada boa, mas o proporcionavam tudo o que estava em seu alcance.
A sua primeira filha, Annabeth, nasceu após três anos, em um momento muito tenso na vida do casal. Eles tentavam procurar patrocinadores e associados para a empresa que queriam montar e, como estava no começo, uma boa desenvoltura para um grande negócio exigia-se tempo, dedicação e muito investimento.
Portanto eles já não tinham mais tempo para a menina e acabaram mandando Bobby para morar com os avós, em Bristol, na Inglaterra.
Annabeth tornara-se um peso para os pais no instante que a luxúria e a ganância foram cultivadas dentro de Atena e Frederick. No intuito de compensar Annabeth, eles a criaram com muita liberdade, sem limites, sem educação e responsabilidade e, principalmente, sem amor.
Os pais sabiam que perderam a filha quando não foram a sua festinha de 4 anos, por causa de uma reunião importante. Entretanto, os adultos entenderam que sacrifícios eram necessários para concretizar um bem maior.
Ainda aos 4 anos, Annabeth sofria abusos repentinos de um amigo de seu pai do trabalho, chamado James. O homem possuía aproximadamente 28 anos na época; era o mostro que Annabeth retratava em todos os seus desenhos da escola. Desde então, apesar de ser apenas uma criancinha, Annabeth passou a ter seus sentimentos bloqueados devido à estresse e distúrbios traumáticos e tornou-se praticamente incapaz de sentir emoções intensas e profundas.
Aos 5 anos de idade, Annabeth era terrível. Já se mostrava insubmissa e problemática. Certa vez pediu a professora para ir ao banheiro e arquitetou um plano: trocar o sabonete da escola por um tipo de molho de pimenta que ardia a pele. Entretanto não conseguiu porque a professora já sabia do seu histórico e pediu para que uma auxiliar a acompanhasse, ficando do lado de fora do banheiro. Chase pegou, portanto, o recipiente onde se encontravam os sabonetes líquidos num tom de marrom e pensou rápido.
A menina fez suas necessidades em cada recipiente e os colocou de volta, como se nada tivesse acontecido. Quando a auxiliar entrou para fazer xixi, achou o cheiro estranho, mas não perguntou. Ao sair, ligando a torneira, perguntou se Annabeth já havia lavado a mão, ela alegou que sim.
A auxiliar, então, lavou suas mãos e ao perceber que aquilo não era o sabonete, gritou. A menina riu e saiu correndo.
Todavia, a menina nunca dera problemas para Atena no quesito de avaliações escolares. Apesar de tudo, era muito inteligente e aprendia muito rápido. O impasse urge ao passo que a menina utilizava a maior parte de sua inteligência para arquitetar planos maquiavélicos.
Aos 8, Atena foi chamada à diretoria da escola devido à primeira briga da filha. A menina abaixou a saia de uma coleguinha de classe e a socou no nariz quando esta não queria sair do balanço para que Annabeth o usasse.
Aos 11, fumou seu primeiro baseado, prometendo aos pais jamais usar drogas novamente.
Aos 12 já saia pelas ruas sem rumo, usava LSD, fumava cigarros e baseados.
Aos 13 seus pais desapareceram e a menina realizou sua primeira tentativa de suicídio.
James retornou para falsamente consolar a garota e aproveitou de seu estado psicológico afetado. Pensou em gritar, em batê-lo novamente.
Mas não.
Dessa vez ela não tentou impedir.
Estava devastada e sem forças, pois sabia que havia perdido tudo. A esperança era falsa. Tudo era falso. Sua vida era um mar de hipocrisia. E ela a perdeu, a partir daí.
Aos 15 experimentou pela primeira vez ecstasy e cocaína; já havia perdido as contas de quantos garotos ela havia dormido. Simplesmente não se importava.
E lá estava ela, com 17 anos, prestes a iniciar o último ano do ensino médio, dirigindo sua Fat Boy.
No trânsito, a menina era imprudente e dirigia sem cautela nenhuma, na esperança de sofrer um acidente e simplesmente encerrar sua vida.
Contudo isso nunca ocorreu.
Por possuir reflexos bons, proporcionados pela enorme experiência em brigas, ela mesma, por instinto, se livrava dos acidentes. Sempre se xingava depois, mas nada podia fazer já que era automático.
No apartamento não muito grande, estavam duas irmãs gêmeas, Hannah e Alice, amigas de Annabeth desde os 13 anos. Elas deram suporte a amiga, e por terem vida semelhante à de Annabeth, decidiram morar juntas.
Hannah e Alice eram muito bonitas; possuíam um corpo belo, olhos castanhos claro-mel e apenas diferenciavam-se pela cor de cabelo. Hannah tinha os cabelos lisos, loiro escuro, diferente do tom de Annabeth, que eram de loiro bem claro e que à luz do sol se tornava cobre, enquanto os de Alice eram semi-enrolados, negros como breu.
Hannah estava dormindo no sofá. A televisão estava ligada e havia um baseado, ainda aceso, entre seu dedos. Annabeth pegou-o e tragou até que este se acabasse.
Desligou a TV e foi em direção do seu quarto. No caminho, encontrou Alice nua em cima de um homem, também nu. Bufou e os chutou.
— Aí, Annie, que saco. — Alice reclamou, tentando se levantar. — Que horas são?
— São 5h da manhã e você está pelada no corredor. Achei que as regras fossem para todas. — Annabeth revirou os olhos, referindo-se à uma das regras que tinham de não fazer sexo em locais públicos da casa.
Alice resmungo uns palavrões e chutou o cara.
— Ei Carlos, você já pode ir. — disse ao homem.
— Meu nome é Karl. — ele argumentou, tentando se levantar.
— Tanto faz. — Alice disse, revirando os olhos.
Annabeth os ignorou e foi em direção ao seu quarto. Havia saquinhos com maconha e cocaína em cima da cômoda e seus instrumentos musicais ao lado.
Ela sempre buscava auxílio na música antes das drogas. Entretanto, as drogas, agora, eram seu refúgio, seu porto seguro. Afogava suas mágoas e precisava estar sempre chapada para não enlouquecer e não se perder em suas memórias, já que tinha pavio curto e explodia com facilidade.
Deitou-se na cama, sem remover nenhuma roupa, apenas fechando os olhos e blasfemando sobre sua dor de cabeça já presente. Nem percebeu quando dormiu profundamente na manhã quente de verão da Califórnia.
***
Eram 9h da manhã quando o interfone tocou incansavelmente. Alicia e Hannah haviam ido à Igreja com os pais, como de costume aos domingos. Eles impuseram essa condição para que as gêmeas morassem fora, apesar de já saber o histórico das filhas e apenas optar pela desculpa de tentar convertê-las à religião.
Annabeth xingou e foi, com a mesma roupa da noite passada e maquiagem borrada, atender à porta. Ela nem se deu o luxo de olhar quem era. Apenas abriu.
— Annabeth Olympus Chase? — um homem moreno de meia idade perguntou.
— O que é? — ela retrucou bocejando. — Que horas são em, cara? O que você quer? As gêmeas não estão, se é o que quer saber.
Ele olhou sério, confuso, porém abriu um pequeno sorriso sem mostrar os dentes.
— Sou o Dr. Harry White. Sou oficial de justiça. Posso entrar? — questionou apontando o dedo para o apartamento.
Rapidamente ela fechou um pouco mais a porta, lembrando-se das drogas que haviam lá e disse irônica:
— O que caralhos você faz aí? — ele arqueou as sobrancelhas diante da prepotência da menina.
— Escuta. Eu sei quem você é e o que faz. — disse o oficial, num tom mais firme. — Eu venho apenas te comunicar de algo.
— Obrigada, mas não quero saber. Passar bem... — disse fechando a porta, porém foi impedida.
— Eu não tenho tempo para sua arrogância. Conhecia seus pais. — a menina arqueou as sobrancelhas, mostrando leve interesse em sua fala. — Vim apenas dizer que o caso dos seus pais foi encerrado na última sexta-feira.
Ela já sabia.
Revirou os olhos, tentando novamente fechar a porta, sem sucesso.
— Annabeth, você tem 17 anos. Você é menor de idade e não pode ficar sem a custódia de um representante legal. Por isso, devido à sentença de morte presumida atribuída ao caso, o juiz determinou que você seja levada à Inglaterra, em Bristol, para morar com os seus avós.
— Mas que porra é ess...
— Você irá. Não há nada legalmente que você possa fazer.
A menina suspirou, no intuito de controlar seu ódio. Contudo, ela sabia que mais cedo ou mais tarde isso aconteceria com ela. É claro que sabia, não era burra.
Desde o desaparecimento de seus pais, a menina escondia-se do mundo. Não dava notícias de seu paradeiro a ninguém de sua família, apesar de sentir um pouco a falta do irmão. Ela constantemente mudava de lugar com as gêmeas, para não ter a infelicidade de que alguém as achasse. Elas eram encontradas quando queriam apenas.
O oficial estendeu à ela um papel, cujo objetivo era informar o que Harry dissera há pouco. Ela o pegou, revirando os olhos.
— Quanto tempo eu tenho? — disse de forma rude e séria.
— Seu avião parte às 10h. — respondeu seco.
Harry não se despediu, simplesmente a deixou com a sentença na mão e saiu rumo ao elevador.
***
Despedidas nunca eram fáceis, mas para a loira era. Estava acostumada com perdas. Estava calejada.
Annabeth estava em um hotel barato. Aproveitou que as gêmeas só voltariam no dia seguinte e encaixotou tudo o que pôde. Chamou inclusive um caminhão de mudança — que cobrou mais caro por estar atendendo em um domingo — para ajudar com os objetos maiores e seus instrumentos musicais. Ela não queria se despedir das amigas. É claro que se importava com elas, mas estava farta de dizer adeus e preferiu sair sem se despedir, pensando ser o mais fácil, deixando apenas uma carta para cada uma junto com uma foto das três sorrindo abraçadas e seus pacotinhos de droga, alegando deixar como presente para as irmãs.
Pegou seu celular, abrindo o Facebook e pesquisou pelo nome de sua prima por parte de mãe, Thalia Grace. Arregalou os olhos ao ver a enorme mudança na fisionomia da prima. Se ela se achava gótica, não havia visto Thalia então. Os olhos azuis elétricos grandes e intensos eram as únicas coisas que ainda continuavam iguais. A boca era de tamanho médio, semelhante à dela. Sua foto de perfil a mostrava sorrindo com os lábios fechados, cabelos negros levemente repartidos ao lado, com maquiagem forte ao redor dos olhos, destacando, mais ainda, o imenso céu ali contido.
Elas não eram amigas no Facebook.
Annabeth só usava as redes sociais para saber das atualidades, fofocas e rir da desgraça alheia; ela não tinha ninguém de sua família como amigo e ela não se interessava em ter e, além disso, não compartilhava, curtia ou expressava nada nas redes. Abaixo do nome de sua prima apareceram algumas fotos de destaque e ela pôde ver, depois de muito tempo, seu irmão e seus avós ali. Cronos e Reia continuavam os mesmos de sempre, cabelos grisalhos e olhos azuis, os dois. Surpreendeu-se com Bobby. Seus cabelos com cachinhos dourados se transformaram em um cabelo louro escuro com corte militar. Seu nariz continuava de batatinha, porém arrebitado. Tão diferente de Annabeth, nem aparentava mais ser seu irmão, a não ser pelos olhos cinzentos, que agora eram pouco mais escuros que os dela. "Ele está um gato" pensou rapidamente. Sorriu ao ver várias fotos de Thalia e Bobby em festas. Suspirou aliviada.
Logo após essa foto, tinha outra com toda a sua família mais próxima. A foto mostrava Cronos e Reia abraçados com as filhas, Afrodite e Hera. Uma lágrima escapou de seus olhos ao ver que faltava, ali, sua mãe Atena. Limpou-a rapidamente e bufou. Ao lado de cada filha estavam seus respectivos maridos, marcados como Hefesto Beauregard e Zeus Grace. Deu um pequeno sorriso ao ver os tios. Poderia até ser dito que quase sentiu saudade. Silena, Piper, Jason e Thalia estavam na frente dos pais, fazendo caretas, enquanto Bobby estava ao lado. "Eu estou faltando na foto... Será que eles lembram e pensam em mim?" pensou e logo se repreendeu; não precisava depender do amor de ninguém e muito menos ser querida ou ser sentida como ausente. Silena e Piper também estavam mudadas, os olhos verdes-azulados, a pele clara e cabelos castanhos-claro de Silena eram os mesmos, enquanto Piper tinha seus olhos pouco diferentes do que se lembrava; sua pele estava morena e Annabeth lembrava de olhos violetas em Piper, mas agora pareciam estar mais puxados para o tom dos de Silena. O que as diferenciava, além do tom de pele, era a altura e definitivamente as roupas. Silena era mais alta e parecia a Barbie, enquanto Piper estava mais pra Susi. Ela não era tão amiga das primas como era de Thalia na infância. Jason estava com o cabelo no mesmo tom de Bobby e continuava com os olhos azuis iguais aos da irmã.
Viu que a prima estava estudando em um internato chamado Goode.
Annabeth quis morrer.
Ela com certeza iria estudar na mesma escola que a prima e socou o espelho ao saber que estudaria em um internato. Bufou com ódio após quebrar os vidros e ver seus dedos todos cortados. A loira jogou o celular na cama e foi tomar um longo banho.
Ao amanhecer, tomou um café reforçado e pegou-se imaginando o que e como faria para ser expulsa de um internato, enquanto tragava seu provável último baseado por pelo menos uma semana. Riu com os próprios pensamentos e partiu para o aeroporto estabelecido na sentença. A menina nunca havia andado de avião e estava um pouco nervosa. Às 9h ela já estava lá. Foi ao balcão, como pedido na sentença, e deu seus documentos. A passagem já estava paga, ela apenas teria que comprovar sua identidade para pegá-la. Apoiou na boca e caminhou até o portão 06 carregando suas infinitas malas e deixando-as com as outras. Quando finalmente deu a hora, ela suspirou profundamente.
Annabeth partiu rumo à Inglaterra, pensando na merda que havia feito.
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