Bad Minds [HIATUS]
13 Eu preciso de você
Notas iniciais
O despertador tocou no criado mudo ao meu lado, e eu o soquei insanamente, no intuito que o mesmo parasse com o som estridente e agonizante. Me sentei na cama, eu estava na ponta dela, com as mãos na cabeça tentei familiarizar o que estava acontecendo, já que no instante eu não me lembrava de muita coisa. Com o passar dos segundos longos, consegui me lembrar, e isso foi a prova que o meu raciocínio estava lento. Virei para o lado, me deparando com Trice ao meu lado da cama, e logo após no chão Dannis.
É, Dannis tinha um poder de persuasão incrível, conseguindo fazer com que nós duas dormíssemos na cama.
Acabei por me lembrar da noite passada e um sorriso lampejou sobre os meus lábios, por alguns segundos somente. Me lembrei também das canções, e no quanto ficara surpreendida em ouvir Tony cantando, realmente a voz dele era divina — rouca e um tanto sexy, também. Depois fomos fazer inúmeras coisas, comemos, contamos piadas — as melhores, obviamente, eram as de Tony. —, e por fim assistimos a um filme chamado A Morte do Demônio. Não era um filme completamente ruim, só também não era um filme no qual eu assistira inúmeras vezes como costumo a assistir filmes no qual eu gosto. O problema era que eu não gostei muito de assistir ontem, imagine outras vezes.
Achei estranho o fato de que Jarvis ainda não tivesse nos desejado um bom dia, e depois despejasse um turbilhão de informações de como anda NY e o clima, etc. Afinal, a primeira coisa que eu ouvia no meu dia ultimamente era a voz calma do mordomo eletrônico de Tony, chegava a ser até ser relaxante ou algo do tipo. Decidi que já era hora de acordar Trice e Dannis.
Primeiro comecei por Trice, já que eu a conhecia mais, e sabia que não seria muito fácil acordá-la — comecemos com o difícil primeiro, não? Fiquei em pé em frente ao seu lado da cama, e atrás de mim estava o colchão no qual Dannis dormia como um bebe. Ele, com apenas uma samba-canção, dormia de bruços dando a visão das suas costas esbranquiçadas, e o seu rosto estava sendo esmagado pelo travesseiro de penas. Já Trice, dormia com a boca aberta e de lá escorregava uma baba da sua boca até chegar ao travesseiro. Seria uma tarefa dura acordá-los, eu já tinha consciência disto.
— Trice — a chamei, e a minha voz estava calma.
Ela nem sequer emitiu um som, e muito menos se mexeu. Maravilho jeito de acordar alguém, sussurrando, pensei comigo mesma enquanto revirava meus olhos.
— Ei, acorda — tornei a chamá-la, porém dessa vez o meu tom estava elevado a um oitavo do seu normal.
Novamente, não obtive nenhuma resposta da dorminhoca, ela continuava ali, parada — babando no travesseiro que eu pretenderia usar depois. Perfeito. Em outra tentativa, talvez não fracassada, estralei um dedo na frente da sua cara. Eu tinha dito, talvez. Tentei de tudo, tudo mesmo. Gritei, cantei, dancei na cama, disse que iria fazer uma inscrição em um programa de Talento, fingi chorar, fingi estar morrendo, falei que iria me suicidar, entre outras coisas.
Mas, Trice não acordava. Muito menos Dannis, esse agora tinha um sorrisinho no rosto, sonhador. Mas, nem ameaçava acordar, apenas espreguiçava-se inconsciente, e se ajeitava contra o travesseiro. Com tantos amigos no mundo, eu fui arranjar dois que têm sérios problemas em acordar rápido e na hora.
Bufei, e um deslumbre de uma ideia passou por minha cabeça. Era genial.
— Jarvis — eu chamei, enquanto ia em direção as cortinas do quarto, que hoje não tinham se aberto automaticamente. Abri as cortinas, e observei o sol abraçar todo o quarto. Esperava que isso os acordasse, mas não funcionou. Trice foi a única que reagiu. Como estava de frente para o sol, então franziu os olhos levemente, porém não os abriu. Bufei novamente, mas do que frustrada. Qual é, esses dorminhocos não se ligam que hoje tem aula?
— Sim, Skylynn — depois de dois minutos, Jarvis finalmente responde. — Posso ajudar em alguma coisa?
— Acho que sim — grunhi, e depois os meus lábios se iluminaram pela ideia que eu teria. — Que tal você colocar um som bem alto? Preciso, tipo, acordar esses dois dorminhocos.
— Sim, Skylynn. — e então, o meu quarto foi preenchido pelo som altíssimo até demais.
O jeito escandaloso e assustado como Dannis acordou foi o melhor. Ele, assim que a música entrou em ação, deu um pulo e lançou o coitado do travesseiro a metros de distancia dele, e depois soltou um berro. Trice, ainda sim um pouco tranqüila, abriu os olhos sem entender, e depois soltou alguns murmúrios sobre o que estava acontecendo. A música já tinha acabado o meu riso então começou a preencher o lugar da música, enquanto eu respirava fundo entre as risadas, pela falta do ar. Dannis e Trice me olhavam com um ar de incredulidade pelo que eu tinha pedido ao Jarvis, mas eu apenas dei um sorriso.
— Vocês nunca iriam acordar — eu expliquei a eles. — Aliás, nada de chegarmos atrasados hoje. Sério.
Trice levantou-se da cama, visivelmente ainda sonolenta, e começou a rastejar até o meu closet.
— Dormimos muito tarde — ela gritou lá do closet, num tom alto o bastante pra que ouvíssemos. — Aquela disputa no karaokê me cansou, não quero fazer isso por um bom tempo.
— Somos dois — Dannis murmura, mas ainda está estirado pelo colchão, sem sinal de quando iria levantar de lá. — Não podemos faltar a aula hoje? Meu corpo precisa de um descanso. E por algumas horas.
Neguei com a cabeça, Dannis revirou os olhos. Eu devo dizer que a minha vontade de ir para escola não era a das melhores, entretanto eu sentia que deveria ir, porque tinha algo a mais hoje. Nunca é admissível perder algo mais na minha vida, e não iria ser hoje que seria.
Rumei ao closet, troquei minhas roupas e esperei pelo meu algo a mais.
☼ ☼ ☼
Não houve tempo para que falássemos com Tony, apenas nos trocamos, descemos o elevador, que hoje parecia eternamente lento, e então embarcamos na Lata Velha de Dannis. O caminho foi descontraído, houve pouca conversa, e o carro era preenchido pelas músicas que a melhor rádio de NY tocava. Não tinha uma única música que fosse ruim para qualquer dos ouvidos — até os piores. Então, era a rádio mais ouvida, falada e, novamente, a melhor. Era radiante começar um dia com uma boa música e com os seus amigos ao seu lado. A minha vontade de não ir à escola, tinha evaporado, fiquei pensando no meu algo a mais, porque eu sentia que não era apenas um sentimento bobo, e sim real. Eu só não sentia se o que eu iria ver hoje seria algo bom ou mal, disso eu não tinha nenhuma certeza.
Por isso, comecei a andar na incerteza e na curiosidade — esta que crescia a cada momento que eu pensava no que poderia ser. Na verdade, eu estava voando, na sensação e na minha cabeça. Cheguei na escola, e a cada passo que eu dava sentia que a qualquer segundo eu poderia criar asas, batê-las e sair voando distante do mundo. Incrivelmente bem, eu só não quanto tempo isso iria durar, mas eu iria aproveitar até quando desse. Botei os meus pés no asfalto de frente da escola, e bati uma das portas da Lata Velha tão forte, que pensei que definitivamente o carro de Dannis teria um fim.
Dannis correu para ver o quase estrago que eu tinha feito. Assim que bati a porta, o carro balançou e os pneus quase cederam nos asfalto, resultando no, talvez, desmoronamento do carro.
— Sinto muito — eu me adiantei em pedir desculpas, por mais que não me importasse com a Lata Velha, e sim no que Dannis poderia sentir. — Não sabia que iria ser tão forte.
Triz analisou o quase estragou, e depois deu os ombros, como se não tivesse nada demais.
— Podia ter desmoronado — ela falou. Falou apenas para que Dannis se sentisse provocado. — A sua sucata cinza já está pronta para ir para o ferro velho.
— Trice — ralhei, e dei alguns tapinhas nas costas de Dannis que olhava para ela, muito desapontado.
Dannis se virou para Trice.
— Tudo bem, Skylynn — mas falava comigo. Pegou as chaves dentro do carro, fechou os vidros e por fim travou o carro. — Esse carro é cheio de más lembranças mesmo, não tem porque se importar com um carro, principalmente esse.
E com a mochila nas costas, e uma segurando-a, ele rumou entre os mares de alunos calmo, porém convicto. Quando dei uma rápida fitada no chão, constrangida, mas rapidamente levanto minha cabeça em direção aos mares de alunos em frente a entrada da escola, ele já tinha nadado pra dentro.
Fitei Trice, e ela tinha um olhar de decepção, só que eu não soube se era dela mesma, ou da atitude de Dannis. Pela primeira vez, não consegui ler minha melhor amiga, e isso provava no quanto esse pequeno momento desconfortável tinha sido sério.
Andando pelos corredores, nós duas víamos os múrmuros de vários alunos, a agitação e a algazarra, não incomum, mas elevada. New York High School podia ser uma escola que nem a dos filmes, a mesma realidade, só que nunca era visto um agitamento tão grande como esse.
— Uau, — eu estava assustada e surpresa. — Alguém brigou com outro alguém para isso estar acontecendo? É até previsível.
Viramos um corredor, e este era onde nossos armários ficavam. Até agora, não tínhamos topado com o Dannis, Trice não insistiu e nem eu. Achei melhor que ele tivesse um tempo, como todos merecem ter.
— Não sei — respondeu Trice, jogando um de seus livros didáticos no armário. — Mas, acho que não. As brigas já não são mais novidades nessa escola. Todo dia é uma, a escola já está acostumada com isso.
— É, pode ser. Será que não tem um aluno novo?
— Dannis é um aluno novo — ela pronunciou Dannis com uma tristeza minúscula, mas perceptível. — E, além do mais, fiquei sabendo que as vagas já estão fechadas. Então não tem a menor chance de ser um aluno novo. Dannis teve sorte.
Terminei de colocar as minhas coisas do armário, logo o fechei. Comecei a achar estranho. De janeiro a janeiro NYHS sempre dava um jeito de manter as vagas abertas, durante todo o tempo.
— Isso não faz sentido — protestei, calculando porque uma escola sempre tão gananciosa como esta, pararia o seu lucro. — Mesmo que a escola nunca receba uma muitos alunos durante o ano todo, não cortariam as vagas, que quando são preenchidas dão rios de dinheiros para Srta. Jensen.
Trice deu os ombros, concordando.
— De qualquer forma, as vagas acabaram mesmo. Fiquei sabendo que uma prima da Giselle, do segundo ano, iria entrar na escola. Mas, não conseguiu, porque as vagas, segundo ela estavam esgotadas.
Começamos a andar pelos corredores, enquanto a nossa aula de biologia não começava, faltavam dez minutos para o sinal tocar. Embora, estivéssemos já em direção a nossa sala, fomos paradas por Nancy Bloom, uma aluna do primeiro ano, que tinha o objetivo de sempre falar da vida de todos da escola — e saber tudo. Era uma ruiva baixinha dos cabelos esvoaçados, magrinha e sempre uma jeans do tamanho das minhas, sendo que ela deveria vestir uns cincos números a menos que eu. Sempre carregava com ela uma prancheta, que usava para anotar tudo que sabia e que acontecia no dia, para depois publicar no jornal na escola. Nancy Bloom era uma típica menina que morreria para encontrar alguns de seus milhões de ídolos, e a sua vida social quase chega a ser tão péssima como a minha. Pelos os boatos — que não eram informados por ela —, ela passava horas e horas da sua vida apenas fazendo matérias perfeitas para que no dia seguinte, estivessem estampadas no jornal em colunas gigantescas.
— Vocês não têm ideia do que está rolando aqui, hoje, nessa escola — ela começou falando um turbilhão de palavras rapidamente como sempre fazia.
— O que houve, Nancy? — Trice a interrompeu, antes que ela pudesse falar algo.
Fiquei observando o quanto ela estava raivosa e impaciente.
Nancy pouco percebeu. Acho que também isso era um problema dela. As pessoas falavam com ela de forma rude ou sempre queriam pregar uma peça com ela, e Nancy nunca percebia.
— Um professor novo. De biologia. Olhos azuis, pele branca como a neve. Cabelo preto, maxilar marcado, forte, barba mal feita... — ela informou, com as mãos cruzadas rente ao pescoço, sonhadora.
Arregalei os meus olhos surpresa, enquanto isso Trice apenas ficou paralisada com a notícia imaginável em uma época dessas; em todas as épocas. Nancy balança a cabeça, incansavelmente e sem sincronia, parecendo uma criança concordando em ganhar um brinquedo maneiro. Depois de alguns segundos, ela rodou os seus calcanhares, e sumiu entre os corredores, eu estava certa que para contar a notícia chocante para outra pessoa.
Em New York High School não era diferente de outras escolas, existia um professor chato e igualmente odiado por todos, e que odeia todos. Esse professor é, ou era, Sr. Adams, um velho gordo, baixote e que cheira a estrume de vaca. Usava os seus óculos redondos, que só aumentava aquele bicho, que por ventura, era seu nariz oleoso e cheio de espinhas. Biologia até o sétimo ano era a melhor matéria que eu tinha, contava os dias, as horas para ter essa, aula. Até Sr. Adams chegar e acabar com todas as minhas notas, que de A passaram a D-. Nunca em toda a minha vida eu tinha visto um velho tão rabugento e sem vida como aquele. Parecia que a função da vida dele era me ferrar, em tudo. Nos meus trabalhos, eu passava horas e horas os elaborando para chegar e entregar para aquele professor e, depois tirar a pior nota possível. Ao longo dos anos, fui aprendendo a recuperar as minhas notas nos finais de bimestre, na qual eu sempre fazia uma prova ferrada de biologia.
Biologia também era a pior aula, com as piores pessoas. A sala era basicamente, todos da elite, Nancy Bloom, os bagunceiros, os que fazem pegadinhas, Trice e eu. Em pensar que toda a semana eu tinha que enfrentar tudo aquilo em duas aulas de cinqüenta minutos, eu tinha vontade de faltar à escola, só para não assistir as duas primeiras aulas. Talvez, com a saída de Sr. Adams tudo melhorasse, e esse talvez estivesse se transformando em quase certeza. Eu não consegui esconder o meu sorriso radiante, era uma notícia boa demais para ser verdade.
— Professor novo e de biologia — murmurei ainda incrédula.
Era bom demais para ser verdade. Seria mesmo verdade?
— Isso é... — Trice estava tão boquiaberta e surpresa como eu. — Fantástico! Eu nunca achei que estaria realmente viva para ver o Sr. Adams vazando dessa escola. Tenho que gravar cada segundo desse dia glorioso.
Eu sorri.
— Somos duas. — concordei. — Será que descobriram que, na verdade, ele era o cara mais velho do mundo, e tinha uma fonte de Nutella, que é tipo, a sua fonte de imortalidade?
— Eu acho que ele decidiu compartilhar com o Egito sobre como ser uma múmia.
Rimos, e colocamos nossos pés a trabalho de encontrar a sala de biologia, para assim, conhecermos quem seria o nosso novo professor de Biologia.
☼ ☼ ☼
Se o corredor já estava uma zona, imagine então a sala de Biologia. Parecia o brechó mais famoso de NY em um dia de liquidação — e as liquidações do Lole’s Brechó eram sempre as piores. Ao chegarmos em frente a sala, que se encontrava com a porta aberta demos de cara com o maior fuzuê que aquela sala já teve. Os alunos, em vez de sentarem em suas cadeiras, estavam em pé, em vários grupinhos conversando sobre, provavelmente, o novo professor de Biologia. Entramos na sala, Trice um pouco na frente e eu atrás, um pouco constrangida. A sala toda parou com o enorme fuzuê e todos os demais me olharam, uns com pena, outros divertidos, e os outros (digo, a Elite) me olhavam cruéis.
Eu andava relutante com a percepção daqueles olhares sob mim, e então apressei os meus passos para chegar logo na mesa onde Trice e eu éramos parceiras das experiências. Sentei, e Trice o fez também, os olhares sempre mantidos em nós, especificamente em mim. Me encolhi, e perguntei para Trice:
— O que houve? — meu tom foi baixinho, e eu quase não abri a boca para falar.
— E eu sei? — perguntou. Olhava tudo em volta, mas parou o seu olhar no fundo. Me virei para trás, e lá estava Dannis fazendo dupla com Emma. — Mas essa vadia não fazia dupla com a Kristen?
— Sim — respondi, voltando o meu olhar para frente e a baderna já tinha recomeçado. Todos tinham me esquecido, e eu dei glórias por isso.
— Nunca ninguém muda de dupla nessa aula, por que eles estão juntos?
Dei os ombros, e tornei a olhar para trás. Trice não tirava os olhos de Dannis, que ria, conversava e sorria ao lado de Emma. Essa, que estava em uma distância perigosamente pequena dele, sorria de uma forma sexy, mas não sexy assim. Só que o problema, era que era o sorriso sexy de Emma, e para todos os meninos dessa escola, era um dos sorrisos mais bonitos e maravilhosos. Achei que pela expressão de Trice, Dannis e Emma explodiriam só pelo o seu olhar dilacerador.
— Você não acha que pode ter sido o novo professor de biologia? — questionei.
Trice parecia não ter ouvido, continuou lá, matando os dois com os olhos, durante a pequena conversa deles, e os rostos próximos. Comecei a pensar que, talvez, Trice estivesse começando a ter uma fagulha de sentimentos por Dannis. Entretanto, a probabilidade de ela admitir isso não era de nem dez por cento.
— Triz!
— Hã, o que? — quando eu gritei, ela pareceu realmente voltar a sua realidade.
Piscou os olhos algumas vezes, e rodou sua cabeça em minha direção. Disfarçando assim, os seus olhares para Dannis.
— Você não acha que o novo professor colocou o Dannis com a Emma? — refiz a pergunta e puxei da minha mochila meu livro, o lápis super afiado, e meu caderno rasurado. — Dannis não tinha dupla de biologia. Acho que essa é a primeira aula dessa matéria dele.
Trice levantou a cabeça, e apoiou o queixo nas duas mãos, pensando na hipótese. Na verdade, era a única hipótese.
— Ou, Dannis pode estar falando com ela por pura vontade. — eu pensei alto demais.
Trice ergueu os olhos, olhando para mim de forma decepcionada e sentimental. Pude ver que se fosse uma hipótese verdadeira, ela ficaria realmente magoada. Uma vez, que ela já está só em pensar em ser verdade.
— É — ela apenas respondeu isso.
— Se eu fosse você ficava tranqüila — lhe assegurei, abri o meu caderno para que quando o novo professor chegasse tudo já estivesse pronto. — Dannis não parece um cara que fala com uma pessoa do tipo da Emma só por falar. Pelo menos não me parece.
— Também não parecia que ele era todo sentimental — contra-atacou Trice, e assim como eu, ela pegou o caderno, o abriu. Catou um lápis do seu estojo rosa, e começou a escrever a data e a matéria.
A letra estava curvada, a ponta do lápis era pressionada de forma raivosa e rude sobre a folha branca do seu caderno. Ela não estava bem, era visível. De forma alguma, maneira nenhuma, Trice usava uma letra assim. Curvada, grossa e gigante. Diferente até demais da sua letra reta, elegante e cheias de cuidados. Comecei a estranhar, não era por coisas banais que ela ficava dessa forma, abalada, irritada e tristonha. Desde que nos conhecemos, no sexto ano, Trice era sempre feliz, animada e nunca deixava ser abalada por pouca coisa. E isso começou a, sinceramente, me preocupar. Era muito raro mesmo ver a minha amiga assim.
Quando ela parou de escrever, voltou novamente a olhar para trás. Lá estava Dannis, sorrindo e sussurrando algo no ouvido de Emma, que estava debruçada sobre quase toda a mesa. Se estivesse acontecendo mesmo alguma coisa entre eles dois, era uma péssima forma de Dannis estar tentando ser amigo de Trice — e já é, mas agora, talvez nem fosse. E se ele estivesse pensando em namorar Trice, era pior ainda. Eu estava, realmente e impulsivamente, tirando conclusões precipitadas. Pouco sabia se Dannis tinha se interessado por Trice, ou nutria algum tipo de pré-sentimento. Só estava pensando isso, porque realmente me preocupava com ela.
— Não fique assim — eu sibilei baixinho, achando até que, como das outras vezes, ela não escutou. Olhava ainda para os dois de forma indiscreta, fazendo me pensar se eles estavam notando e apenas ignorando.
Mas, Trice escutou mais do que perfeitamente. Virou sua cabeça rapidamente para mim, e olhou-me inexpressiva.
— Assim?
— Assim, se importando por Dannis estar conversando com a Emma. Ela, definitivamente, não parece fazer o tipo dele.
— Claro — ironizou, batendo a ponta do lápis contra o seu caderno, e o repousando por ali. — Qualquer pessoa que não tem o menor interesse pela outra sussurra coisas rindo no ouvido da outra. Mas, foda-se. Pouco me importo.
— Não finja como se isso não te afetasse. Eu sei que afeta. E olha, por mais que você negue isso, eu te conheço o suficiente para saber que você se importa.
A sua cabeça pendeu ligeiramente para o lado esquerdo, dando o seu famoso sinal de que ela já estava cansada desse papo, que queria dormir na sala de aula, e pouco se importava com o que passava por essa escola e pelo mundo. Eu estava prestes a argumentar o seu silêncio e o fato de que ela estava sendo bastante infantil ao seu ignorar. Mas, um corpo alto e forte cruzou pela porta, impondo somente por sua entrada um basta a toda a baderna da sala. Era o novo professor de biologia. A sala inquieta por pelo menos uma hora em toda a história de NYHS se quietou, todos se sentaram, observaram o novo professor que tinha virado as costas para turma, arrumando as suas coisas na mesa.
Alguns segundos depois, ele virou-se para a turma, assim então se ouviu pela sala um suspiro por parte de quase todas as meninas — menos um meu e um de Trice, que se mantinha sem expressão. Eu não entendi o motivo, só sei que de um segundo para o outro as minhas mãos começaram a suar. Olhei para o professor e ele era tudo aquilo que Nancy Bloom tinha dito. Só que... Melhor. Eu não sabia se era um melhor bom ou ruim. O nosso novo professor trajava uma calça jeans, calças surradas, uma camisa pólo verde e uma botina perfeitamente limpa, parecia que esse homem nunca fazia algo sujo só por suas botinas. O seu perfil era exatamente como Nancy tinha informado: maxilar marcado, cabelos pretos, barba mal feita, olhos incrivelmente azuis como os meus; o olhar sexy que Nancy tinha errado feio em não falar. Os seus olhos... Quando eu os olhei, foi imprescindível desviar o olhar intenso que se formou entre ele e eu. Quando ele desviou seu olhar do meu, sem antes dar um sorriso quase sem levantar os cantos da boca, eu saio dos meus devaneios.
Secando descaradamente o meu novo professor de biologia? Isso, nem em mil anos, fazia parte do meu perfil. Impossível. Por que tinha sido tão intensa a coesão dos nossos olhares?
— Turma, como vocês devem saber, sou o novo professor de biologia — ele começou a falar com uma voz menos sutil do que eu imaginara por seu jeito sexy e descontraído. — Me chamo Brian Jackson, e tenho certeza que não sou tão chato como o antigo professor de vocês, Sr. Adams e...
— Nem tão feio como aquele velho. Longe disso — falou Emma, no fundo da sala.
Todos voltaram a sua atenção para ela, até o Brian — Brian, Brian, Brian. Eu sabia que existiam milhares de pessoas com esse nome. E um dessas pessoas era o meu pai. O cara que nunca mais tinha me ligado, o cara que pouco se importava comigo, o cara que tinha me chutado. O cara que eu amava e sentia falta do pai que ele fora. Voltei a prestar atenção no que se passava na sala.
— Provavelmente sim, Senhorita — o novo professor, Sr. Jackson falou. Acabei por achar melhor chamá-lo desse nome. Eu não queria pensar no meu pai todas as vezes que eu iria falar com Brian, digo, Senhor Jackson. — O meu trabalho será muito diferente do qual Adams vinha trabalhando com vocês. E isso inclui a formação das duplas, e pelo que percebi só vendo as formações é que elas atrapalham muitas pessoas. Já revi tudo isso, e claro, com as indicações da diretora, fiz um novo mapa. Decidi também, por instrução também da diretora que um aluno fará a sua dupla comigo, pela a sua falta de nota. — terminou de falar com um sorriso de lado, o olhar direcionado a mim.
— Esse professor — eu comecei a falar baixo para Trice. — Ele não está me encarando demais?
Trice me fitou estranha, como se eu fosse uma maluca. O Senhor Jackson começou a falar novamente, só que mais tranqüilo. Eu só o olhava, minuciosamente, e comecei a concluir que, talvez, eu estivesse mesmo louca.
☼ ☼ ☼
A troca de lugares tinha rendido toda a aula, eu estava certa de que ficaria com Trice, mas me surpreendi quando ela já era a mais nova parceira de ninguém menos que Dannis. Ela, depois de bufar centenas de vezes e lançar olhares raivosos ao professor, foi para trás caminhando de forma rude pelo chão. Quando chegou a frente à mesa onde Dannis e Emma estavam, expulsou Emma e se sentou no lugar dela com certa repulsa. Ela não precisou de deferimento para colocar as pernas sobre a mesa, em um ato rebelde. Apenas o fez. Emma tinha ficado com o seu namorado, como deveria ficar. Ao longo do tempo Senhor Jackson falava as novas formações das duplas e ia lançando pequenos olhares sob mim. Definitivamente eu estava louca. Nenhum professor, sem nem me conhecer, começaria a olhar de forma adoida. Percebi que ele falava tudo de forma mórbida, mas isso até falar o meu nome:
— Skylynn Johson — chamou animado, mas a turma não pareceu perceber. Parecia que a sua demonstração de animação tinha sido toda direcionada a mim. Ergui meu olhar para ele. — Srta. Jensen sugeriu a sua escolha para ser a minha dupla. Fiz o que ela disse. — pousou o seu olhar sobre o seu pulso, onde tinha um relógio de marca. — Agora, estão dispensados.
Nunca pensei que uma simples mudança de lugares tomaria o tempo inteiro de duas aulas de cinqüenta minutos. Eu não tinha ficado muito satisfeita com o meu novo parceiro, mas eu saí da sala olhando a cada segundo para trás. Toda vez em que eu olhava para trás, o seu olhar caía em mim. Decidi sair logo dali, e esperar a outra semana, só me lembrar que eu tenho como professor só semana que vem, na sua aula.
Se não, eu iria enlouquecer.
As aulas tinham se passado como o próprio Flash apostando uma corrida. Eu no estacionamento da escola, esperando que Dannis aparecesse com Trice e nos desse uma carona. Mas, isso estava longe de acontecer. Trice e Dannis não deram mais as caras em nenhum dos corredores da escola, muito menos chegaram a falar comigo. Então, eu fiquei durante o almoço, sozinha, comendo o sanduíche de atum com queijo que eu tinha comprado. A minha cabeça estava confusa, eu nem me lembrava mais do meu pai com a cabeça ocupada de coisas. Era Tony, heróis, Vingadores, projeto e tudo mais... Aquilo, incrivelmente, estava ocupando-me de um jeito bom. Fazendo-me esquecer todas as coisas que antes me atormentavam. Peguei o meu iPhone do bolso e chamei pelo meu pai. Chamou uma vez, duas, três, quatro. Até que caiu na caixa postal, junto com a esperança de que meu pai poderia voltar a me amar. Eu liguei outra vez, mas não foi diferente da primeira chamada, foi para a caixa postal. Decidi que deixaria um recado.
— Oi, pai. Aqui é a Sky — eu me aproximei de um carro vermelho conversível. Analisei que fosse o de Emma. — Eu estava com saudades. Você não me liga mais, está tudo bem, papai? Se você tiver um interesse, eu estou bem na casa de Tony. Ele é até suportável. — eu ri fraco, olhando para o chão. — Não vejo a hora de nos encontrarmos de novo. Sinto a sua falta demais. Talvez, podíamos ir para o parque, como fazíamos com mamãe. Me retorne. — respirei fundo. — Te amo, papai.
Assim que terminei a minha ligação, e estava prestes a guardar meu telefone no bolos, ouvi palmas perto de onde eu estava. Olhei ao redor, e lá estava Emma, batendo palmas, com uma falsa emoção e parada a uns 40 centímetros de mim. Usava uma de suas saias, aparentemente quatro dedos a menos do que o normal.
— Eu não sabia que a sua vida era assim. Tão depressiva. Mas, isso não me surpreende. Nunca achei que você fosse, sabe... Gostável. Só que eu também não achei que nem seu próprio pai não gostasse de você. Quer dizer, olhando assim de perto pra você, agora, até que faz sentido. Mas, veja. Você tem uma ótima mão pra te ajudar, ou ela nem está aí pra você? Ahhh, sim eu esqueci que nem viva ela é desculpa. — e riu, abriu a porta do seu carro dando um sorriso de vitória, o qual eu conhecia muito bem. Ligou o carro, saiu cantando os pneus sem antes jogar o vapor quente da combustão do carro.
Assim que ela saiu para longe, impulsivamente eu comecei a chorar. Já tinha agüentado tanto tempo sem dizer nada, que era um alivio chorar. Mas ao mesmo tempo, feria o meu ego de forma bruta. Relembrei o dia em que eu tinha quase beijado Tony, e ele também tinha me perguntado quem eu odiava. Até então eu não odiava ninguém fora a talvez fantasia do homem dos olhos verdes.
Mas, agora, com os meus soluços preenchendo a minha solidão, aqui, no estacionamento, me fazia odiar Emma com todas as minhas forças, de forma intensa e como eu nunca tinha sentido por ela antes. Eu a odiava por ela jogar tudo em minha cara. Por ela fazer tudo, enquanto eu agüentava calada. Por muitas vezes, me deixar assim como eu estava agora, chorando e me lembrando que ninguém me amava nem meu pai e quem me amara, estava morta. Odiava também o fato de pensar que as pessoas, não estavam mais me afetando. Só que no fundo, me afetam mais do que tudo. Eu não agüentava não ter ninguém, e em pensar que eu já tive minha mãe ao meu lado, as lágrimas caiam ainda mais. Eu não podia acreditar que esse era o meu algo a mais, que eu tinha sentido.
Não podia ser, pensei comigo mesma.
A minha alma e meu coração estavam arrasados, os soluços pareciam ter sido feitos para serem eternos. Minhas mãos tremulam, mas por sorte conseguiram pegar novamente o meu telefone que eu tinha colocado no bolso, enquanto Emma me humilhava. Eu só conseguia pensar em uma pessoa que poderia me fazer melhor, e não fiquei relutante em discar o seu número. Precisava realmente de ajuda, de me sentir bem. E ele, sem nem fazer esforço conseguiria. Diferente do meu pai, ele atendeu rápido, como se já se esperasse a minha chamada.
— Skylynn? — a sua voz estava surpresa. Nem eu esperava um dia ter que ligar para ele.
— To... — a minha voz trêmula foi interrompida por um soluço forte. — Tony... Eu preciso de você, agora.
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