Bad Minds [HIATUS]
21 Esvaindo
Notas iniciais

We're only lost children
Trying to find a friend
Trying to find our way back home
Tudo em minha volta parecia estar esvaindo-se, e por mais que eu não estivesse a parte do que isso significava, nada estava bem. Como minha vida poderia estar ainda na linha, quando a totalidade que eu conhecia já não mais se alinhava-se comigo, dando espaço às outras linhas malignas, que estavam se interligando diabolicamente comigo? Como de costume, nada com que eu pudesse obter uma resposta sólida, ou até mesmo, acreditável.
— Está olhando para o cereal há mais de meia hora e, incrivelmente, ele ainda está intocável — a calmaria da voz de Isaac criou mãos e me arrancou de uma densa camada de pensamentos que me retirava do mundo.
Eu estava ficando completamente alienada aos meus problemas, que mal me lembrava que a vida do lado externo de mim dava continuidade — pouco se importando se eu estava bem ou mal, na verdade.
A colher pairava no ar, e logo, a repousei sobre a borda do prato fundo de porcelana cujo cereal recheava-a.
— Desculpe — falei, fitando os olhos arredondados e enfeitados por um carinho estranho de Isaac. — Eu estava só... pensativa.
Isaac assentiu. Estava tamborilando com os dedos o mármore enegrecido da ilha de sua cozinha supermoderna e equipada das melhores e mais caras coisas que, bem, há em cozinhas. As banquetas em que estávamos sentadas eram com os pés de madeira, e o estofado — macio demais para que meu bumbum não pudesse reclamar — era de uma cor levemente dourada, e puxada para um amarelo.
— Pensativa demais — analisou ele. Seus braços eram suportados pela pedra fria, e a sua estrutura corporal era jogada completamente no mármore. — Aconteceu alguma coisa?
Eu podia sentir toda minha pele perder o sangue, e no mínimo, eu deveria estar completamente semelhante à uma folha de papel novinha. Era uma reação típica minha, e como sempre, ela não poderia estar de fora. Os resquícios de raiva permearam minha cabeça de forma rápida e eficiente. Estavam se transformando em uma bolha maciça e penetrada de um recheio enjoativo e que me fazia querer colocar tudo para fora. Obviamente, a minha mudança de humor repentina não era culpa de Isaac, mas por parte, sua pergunta provocou um tamanho reboliço em toda minha mente e piorou de uma vez por todas o meu estado.
Aconteceu alguma coisa? Eventualmente, era o questionamento que todos queriam ouvir — às vezes, era única coisa que tinha um potencial significativo para melhorar todo o meu dia, mas, a pergunta nunca vinha, como o amor sem volta e enorme que eu sentia por papai, não era correspondido. Agora, quando é a coisa que menos quero que atravesse meus ouvidos, e em seguida, ponteie meu coração, Isaac me vem com essa pergunta. Não podia culpá-lo, logicamente, mas foi mais do que impulsivo e não havia um freio.
Mascarei todos meus ridículos conflitos, e encarei o prato fundo com um cereal de chocolate mais do que crocante — segundo a marca que expos os dizeres na caixa de papelão da comida.
— Comigo? — questionei, filando a colher pelo cabo metálico e frio. Coloquei-a por entre meus dedos finos, enfiei no meio do molho de leite e cereais naturais cujo nome era meu café da manhã, superdotado, afinal. Parecia que Isaac não era bom nas dosagens de comida, sempre exagerando. Mas, eu ficava feliz por ele estar se esforçando e sendo generoso comigo. — É lógico que está tudo bem. Tirando o fato de que sua gatinha entrou de alguma forma pelo meu quarto e me acordou, não vamos esquecer, está tudo bem.
— Wow. Cristal realmente gostou de você. Faz até sentido. Senti falta de uma bola de pelos manhosa ao meu lado na cama — deu de ombros, se içando para cima, e capturando com as mãos grandes a caixa de leite. — Dormiu bem?
Tirando o fato de que, mais de noventa por cento da noite estive pensando em Tony; como Tony beijava bem; no beijo que tive com Tony; o jeito como depois da troca de salivas, Tony me tratara mal; e em como Tony estava sendo ridiculamente irredutível; sim, eu tinha dormido bem. Mas. Todos esses pensamentos disparados em mim, sem querer, não eram algo de que Isaac precisava estar à parte.
— Dormi perfeitamente bem, obrigado.
Isaac sorriu, parecendo satisfeito pela — falsa — noticia anunciada, e despejou o líquido perfeitamente branco em um copo cilindrar, que de tão adornado, a boca era rodeada por uma camada fina de ouro. Pensei em quais outras coisas na casa de Isaac poderiam ser possivelmente enfeitadas de ouro, e não duvidei que a lista poderia ser imensa.
— Acredito — embora o comentário estivesse sendo pronunciado em uma apenas palavra de crença, o tom de Isaac estava humorado e sarcástico demais, longe de expressar confiança em minhas palavras.
Arqueei minhas sobrancelhas, tentando parecer convincente. Certo. Eu era uma péssima atriz, que claramente era impossibilitada de fazer no mínimo um comercial sobre pastas de dentes. Mas, por enquanto, eu poderia negar até a morte.
— Está duvidando?
— Acho que até você está duvidando de você mesma, Skylynn. Acredite sua cara já não é convincente, e estar com as sobrancelhas arqueadas em uma expressão de indignação não ajuda em nada. Principalmente, essas suas olheiras roxas rodeando seus olhos de forma, muito, mais do que chamativa. Meia hora não é a definição de dormir bem, pequena gafanhoto.
Esbugalhei meus olhos. A única hora em que eu tinha encarado o espelho oval da suíte em que dormi, fora de manhã. Mas, o sono me permeava de forma tão tremenda que tudo que notei fora a armação embaraçada e cheias de nós que meus cabelos adquiriram com as viradas e roladas pela cama coberta por um lençol de seda fininho e macio. Então, as olheiras mal passaram percebidas diante os meus olhos, e esperava eu que elas fossem as únicas coisas que não pude sondar quando eu estava em uma dormência sonífera.
— Não estou com olheiras, Isaac — resmunguei. Eu tinha certeza que minhas bochechas foram tingidas de um escarlate berrante, mas, eu ainda mantive meus olhos duros fitando a ondulação da coisa em meu prato. — É apenas um, sabe, exagero de melanina ao redor dos meus olhos.
Disfarçadamente, soergui a colher, deixando-a virada. Havia algumas gotículas de leite escorriam e ziguezagueavam pela superfície inox e lisa do talher, mas nada que não me deixasse sondar através de meu reflexo ondulante as faixas roxeadas que mais pareciam marcas de um soco bem dado. Lógico, eu não estava sem olheiras. E o pior de tudo, é que eu não era capaz de camuflá-las. Maquiagem nem de longe era algo que eu era apta a usar, e eu mal sabia o que era cada coisa — o mais perto dos enfeites que toquei com dedos fora um simples gloss. Blush era utilizado para usar nas olheiras?
— Exagero de melanina... — riu Isaac, como se seus ouvidos absorvessem uma quantidade exagerada de uma piada que de tão ruim, acabava por ficar boa. — Muito bom, mas, bem isso não cola.
Olhei-o diretamente nos olhos. Eu não podia negar que, além de legal demais para ser verdade, Isaac fica era um belo homem. Ele teria uma namorada ou até mesmo uma esposa? Até agora, não havia sinais de alguma coisa dentre esse tipo, mas eu sabia que se ele tivesse, a felizarda com certeza deveria ser muito feliz.
— Talvez eu tenha ficado um pouco acordada — admiti com uma voz meramente inocente. Logo em seguida, bufei, esquecida completamente de meu plano, antes infalível, de negar até à morte. Contudo, fora impossível com duas orbitas oculares azuladas me fitando com um carinho quase igual, ao que um dia, Brian Johson já usara comigo. Um mero sorriso idiota pincelou meus lábios. Contente-se Skylynn, nada de trocar sorrisos paternais com um pré-desconhecido, pensei, fechando os olhos para que eu pudesse solver cada palavra se transformando em uma frase de censura a mim mesma. — Mas, eu dormi bem quando consegui pregar os olhos.
Dormir bem era melhor do que eu imaginava. Principalmente, quando em meu sono nenhum Loki maníaco e obsessivo dava às caras, preenchendo um fundo preto com luzes psicodélicas e fumaças verdejantes. E, felizmente, nesta noite, o pouco tempo que dormi substituiu tudo isso pela melhor coisa que servia como o melhor substituto de todos os tempos: um preto continuo e liso, calmo, que me fazia apagar por pouco tempo. Até que as luzes dos raios solares imponentes abraçaram todo o quarto, esquentando até o dedinho de meu pé.
— Você fica mais fofa vermelha — a voz de Isaac relatou, e eu, de imediato, deixei meu queixo cair praticamente no piso caríssimo e reluzente da cozinha. Isaac, embora parecesse alheio às palavras que dissera, continuou com um sorriso bobo nos olhos que analisavam-me de cima ao baixo, sem deixar de lado cada detalhe. Por mais incrível que pareça, nenhum sorriso lascivo surgiu pelos finos e rosados lábios de Isaac. Apenas aquele sorriso enfeitado de uma paternidade esquisita pintava todo seu rosto mediano. — Você parece uma pessoa muito especial para mim. Os olhos são iguais, totalmente iguais. Uma amiga minha.
Juntei as faixas de pelo cujo nome eram sobrancelhas em uma expressão que transparecia claramente a minha falta de coerência com suas palavras. Por um lado, aquilo justificava muito suas palavras. Mas, por outro, aquela totalidade apenas tornava as coisas menos desprovidas de uma sanidade mínima. Quem seria a mulher cuja semelhanças eram as mesmas do que as minhas?
— Ela deveria ser bem, desculpe...
— Linda? — questionou Isaac, ingerindo um gole enorme do liquido branco, e evasivamente transparente. O mesmo riso sem som que o preenchera quando estava falando sobre Brian, permeou Isaac. — É, ela era. Perfeitamente linda.
Tentei esconder o espanto que duplicava o tamanho dos meus olhos subitamente, e a cor vermelha atacava minhas maças do rosto mais uma vez. Nada do que não fizesse parte do cotidiano pacato e sem adornados que reluziam minha vida. Mordi meus lábios, visivelmente apavorada com o olhar examinador de Isaac, no qual uma máquina de raio x parecia trabalhar sem ímpetos, altamente eficiente.
— Ela era sua namorada? — deixei a pergunta inconivente escapar por entre um suspiro de alivio quando o raio x azul de Isaac correu os olhos para o mármore negro, estritamente entretido com as variações do preto da pedra.
Um engasgo atingiu Isaac de forma engraçada. Virei para olhá-lo com um sorriso no rosto, e em contra partida, Schaelder triplicava os olhos médios, e esmurrava o peito coberto por uma camiseta social bege. Certo, essa pergunta não era a mais correta a se fazer.
— Só... — tossiu e resfolegou rapidamente, em busca de ar nos pulmões dos peitos rijos. — coma esse cereal. Cristal adoraria comê-lo quando ver que você está o esbanjando por aí, intocavelmente.
Assenti, comedindo meu sorriso sapeca, e contornando com a mão o copo cilíndrico que estava em frente à minha tigela. O líquido amarelo do suco suculento de laranja atravessou minha boca, garganta, causando várias explosões de sabores enzimáticos. Repousei o recipiente na pedra, e filei o fino cabo do talher. E só agora pude sentir o gosto que me lembrava à minha casa, o qual era do cereal que mamãe costumava comprar à mim. Revirei meus olhos, alienada à um delírio crescente, que adormecia minha boca de nostalgia e de um sabor na hora reconhecido. E incontáveis doses dessa porção adentraram rápida e perfeitamente a abertura de minha boca, que parecia ter sido elaborada para que a colher a rompesse de forma irredutível.
— Viu — disse Isaac, dando um último pequeno gole no leite de seu copo. Rodei meus olhos para encará-lo melhor. Ampliei minhas sobrancelhas, em uma pergunta muda a ele, uma vez que minha boca estava ocupada demais em uma tarefa bem mais precisa: triturar o mais rápido possível da comida em minha boca, para depois, comer ainda mais. — Você estava morta de fome.
— Sélio?
Isaac riu de minha expressão.
— Não fale de boca cheia, garota.
— Não estol falando de bolca seia — resmunguei, engolindo solidamente os resquícios de comida que haviam ficado em minha boca. — De qualquer forma, acho que já acabei com minha fome devastadora — empurrei a tigela para mais à frente, em um sinal de pura satisfação. Gorgolejei o resto de meu suco gélido de uma vez.
— Fique à vontade para comer mais — ofereceu Isaac, prestes a alcançar com os dedos a caixa do cereal que eu estava degustando avidamente. Parei-o, tocando com as pontas de meus dedos o seu ombro. Isaac recolheu suas mãos, as repousando logo em seguida sobre seu colo.
Dei um breve sorriso com agradecimento à ele.
— Por enquanto, vou dispensar. Minha barriga está bastante cheia de comida matinal para crianças — brinquei, passando a mão em meu estômago de forma circular.
Isaac se levantou da banqueta, mas não antes de recolher os dois copos que usamos sobre o prato que eu utilizara. Rodeou a ilha, e colocou as louças na pia do outro lado da cozinha, entre o fogão e a geladeira dupla de inox. Voltou-se ao lugar de antes, agora, olhando relativamente sério para mim. As mudanças radicais de humor que ele portava eram realmente imprevisíveis, pensei, não entendendo o porquê do olhar rígido que Schaedler disparava a mim.
— Algum problema? — eu quis saber, vagamente desconfortável com os dois diamantes acesos perfurando cada poro de minha pele.
— Stark está atrasado — disse ele, olhando para o relógio de ouro maciço em seu pulso esquerdo. Retorci o nariz ao ouvir o nome de Tony, pouco à vontade ainda pelo fato que aquilo acontecera noite passada. — Já me avisaram que é algo típico dele. Só não imaginei que fossem duas horas.
— Que horas vocês combinaram?
Troquei de assunto. Não era o mais distante o possível de Tony, portanto, eu ainda poderia ouvir alguns Stark saindo da boca de Brian. Entretanto, eu não queria ficar enumerando as inúmeras falhas em que Tony adorava portar consigo, e que de forma lasciva, comecei a gostar delas. De fato, minha cabeça já esteve bem melhor.
— Oito horas. E agora são exatamente dez horas. De fato, seu amiguinho não é bom em cumprir horários.
— Me diga algo que eu não sei.
— Ok — ele riu fraco, passando seu dedo pelo bigode loiro escasso; de começo, não entendi, mas apenas me toquei do que se passava quando Isaac revirou os olhos, e esticou sua mão para o outro lado do balcão, onde um guardanapo repousava. Isaac filou uma folha fina do saco, e eu a peguei, limpando rapidamente o bigode sabor laranja que estava posto sobre meus lábios. — Olhe, olhe. Algo que você não sabia.
Rolei meus olhos, sorrindo por fim. Joguei a folha pelo mármore, já que a lixeira não estava ao meu alcance — e sim, do outro lado da cozinha, sob a pia. Dei batidinhas na calça-moletom que um dia fora de Isaac, o pano era grande para mim, mas foi de imensa utilidade quando precisei de uma roupa.
— Muito engraçado — balbuciei, entretida em olhar para as várias modificações pretas que ornavam o balcão.
— Essa é minha especialidade, Skylynn.
...
— Não estou a fim de dar relatórios sobre o porquê de meu imenso atraso, e em substituição do meu corrompido monólogo, apenas direi um “oi, tudo bem?” e logo em seguida, vocês nos deixarão entrar por essa porta ignorantemente ornamental — foram essas as primeiras palavras que Tony disse, ao bater na porta, e estar magnificamente mais sexy do que ontem, quando dei passagem para ele. Por de trás dos ombros dele, consegui captar um loiro alto, outro loiro baixo, uma loira mais baixa ainda, e uma ruiva roqueira com os olhos ornados de um tédio transitável. — Ah, então. Esses três pirralhos invadiram minha torre, e esse homem picolé estava em minha torre. Todos em busca de respostas sobre você, Skylynn.
Tentei não reparar em sua falta de expressão enquanto me analisava em todos os lugares expostos, e até mais. Algo se retesou em meu corpo, e eu tentei não ligar. Mas, a cada segundo em que eu averiguava os caramelos, agora, duros, eu não conseguia conter a enxurrada de flashbacks berrando os toques dos nossos lábios numa sincronia nunca registrada antes; lascivo e carinhoso em um teor palpável.
— Sky! — estridente e alta. Foi a assim que a voz de minha melhor amiga, Trice Evans, metralhou meus ouvidos. A loira atravessou avidamente Tony, jogando-o para o lado em uma cotovelada em cheio na barriga do playboy. — Qual é o seu problema, garota? — sua mão se cerrou, e em seguida, tudo que senti foi ela me socando fracamente na cabeça. Massageei o local atingido, embora não tivesse doído tanto. — Não ouse se expressar em seus gritos dolorosos, Skylynn Wade Johson. Se você acha que eu, Trice, irei te deixar sair ilesa dessa, tudo bem. Você está totalmente certa. Mas, isso não reduz nada minha vontade imensa de querer te dar mais socos como o que acabei de proferir nessa cabecinha desprovida de cerebelo. Mas, que porra! Beijar um professor? Tudo bem, Brian é simplesmente um deus grego, e aquela bunda é esculpida por todos os pintores mais eficientes do mundo. Embora isso seja já um bom motivo, você não pode sair por aí beijando nosso professor de biologia, que é um agente da S.H.I.L.I.D. Primeiramente, que, pelo que eu saiba você é boca virgem. Espere, você era, e cara, qual seu problema? Por que não me falou?
Depois da chuva de palavras rápida e roboticamente proferidas, Trice parou alguns segundos para expelir o ar que saíra rapidamente de seus pulmões, que eram mais do que guerreiros, já que minha amiga não costumava deixar pausas entre uma palavra e outra. Pude ver até Dannis soltando o fôlego, como ele sempre fazia depois dos discursos incansáveis de Triz. Voltei meus olhos à minha pequena loira, e imediatamente laceei seus ombros finos e ossudos com meus dois braços. Afundei meu rosto na cortina aloirada e lisa linda dela, sentindo o cheiro ótimo de morangos frescos atingirem minhas narinas fortemente.
— Desculpe não ter te contado sobre isso. Mas, eu estava mais do que impossibilitada. Ei, espere.
— O quê? — resmungou Trice com a voz levemente embargada. A vontade de chorar também me atingiu no meio. O sol amarelado rajava todos os raios sobre nós, e ali, a única pessoa que esteve onipresente em minha vida a cada segundo depois da morte de mamãe, me abraçava fortemente.
Eu queria chorar. Tudo estava se acumulando em mim negativamente, e os meus ombros eram estreitos e pequenos demais para aguentar o mundo que se esgueirava para cima de mim. E ainda sim, a vontade de chorar era sufocante, mas, não me dava a oportunidade de deixar as gotículas aquosas rolarem dramaticamente.
— Stark te contou sobre isso, não foi? — questionei sussurrante, sorrindo fraco, embora fosse algo tolo para querer saber. — Idiota.
O cabelo de Trice farfalhou, fazendo cócegas em toda a pele exposta que os fios atingiam.
— Sim. Se quer saber a cara dele não foi as melhores ao dizer isso — o tom dela foi relativo ao meu. — Na verdade, ele mal queria contar a nós. Mas, Dannis é bom em persuasão, e eu sou irritantemente incansável.
— Eu sei mais do que ninguém de seu poder infalível de ser muito, muito incansável.
— Isso se aplica mais quando o que estar em questão é você, céu — ela disse, sua voz se açucarou ao dizer o modo irônico de meu apelido.
— Céu não é um bom apelido, Triz.
Seus braços apertarem-se ainda mais ao redor de minha cintura, e eu sentia que ela sorria. Eu tinha a certeza que a atualização de esse apelido era, de fato, uma implicação dela — a qual apaziguava de forma mais do que eficiente os meteoros destrutivos criados por vários motivos em minha mente.
— É sim.
Ouvimos um pigarreio altamente sarcástico, provido, é claro, por Tony Stark. Mordi, distraidamente, o interior de minha bochecha, comedindo a minha vontade de perguntar a Stark o que passava pela sua enigmática e difícil cabeça. Desfiz o meu perfeito abraço com Trice, e a loira se afastou minimamente, como se manter uma distância fosse algo que dispusesse alto risco. Rodei meus olhos para todos presentes no hall da mansão de Isaac; na verdade, nem todos, uma vez que eu tentava ao máximo não sondar algo que chegasse a ser até o dedão da mão de Tony Stark. Algo insistia em me alertar, que caso, eu o olhasse por mais tempo do que o necessário, minhas bochechas sugariam toda a cor vermelha do mundo para si, deixando-me com uma coloração parecida com os cabelos fogosos da irmã de Dannis, cujo nome era Alice.
— Nós não temos tempos para demonstrações de carinho — a voz de Tony esclareceu, sua expressão era regida de tédio, e seus olhos reviraram-se nas órbitas incontáveis vezes. — Há coisas mais sérias, como por exemplo, ele — seu braço içou-se para o ar, mostrando algo que estava atrás de minhas costas. — Isaac Schaedler. Ex-agente da S.H.I.E.L.D que tem muitas coisas a nos revelar.
— Não seja duro, Stark — Steve saiu de trás de Dannis, e ficou lado a lado a Tony. Seus olhos transbordavam uma doçura praxe dele, e um sorriso de lado puxava apenas uma extensão labial. — Skylynn deve estar assustada.
E eu estava. Mas, não era algo que eu era capaz de confirmar.
— Olá Steve — falei, acenando a ele. — Dannis, — lancei-o um sorriso duro e afetado ao mesmo tempo. Alguns porquês de seu sumiço repentino pulsavam em minha cabeça, mas acabei por ignorar. Ele, com aquele típico sorriso sorrateiro e com a onipresente lerdeza, acenou de volta, em um balançar de cabeça, que fez sua touca azulada mover-se minimamente. — Alice.
A ruiva, muito mais amigável do que ilustrei, deu um sorriso breve e pouco açucarado. Estava com aquela sua postura eu-não-ligo, igual à do dia em que a conheci. Seu pescoço e pulsos eram ornados por inúmeras peças que definiam o seu estilo obscuro: pretas, e incrustadas de espinhos.
— Olá, Johson.
Steve virou seu torso para olhá-la, e um sorriso brotou imediatamente em seus lábios. Apressei-me em não deixar uma expressão insinuadora reinar em todas minhas feições, entreolhando imediatamente os olhos de Trice, que transmitiram o que eu queria saber. Assim como eu, ela havia percebido o que passou pelos olhos de Steve por milésimos.
— Não era de meu objetivo trazê-los comigo — indagou Stark, dando passadas até chegar em Schaedler. — Mas, isso não reduz em nada a conversa que teremos a partir de agora. Pelo menos, tenho alguns reforços para arrancar respostas de você, Isaac.
— Não pretendo usar violência, Stark — interviu Steve, já, logo, dando-se conta das ideias que no mínimo perambulavam pela mente icônica de Tony. — Apenas uma conversa.
Tony, irritadiço, revirou os olhos.
— Que seja.
— Acho que deveremos sentar para termos a tal conversa — sugeriu Isaac, levando suas botinas de couro até o outro lado do interminável hall. Ao lado da passagem que levava à cozinha, estava situado uma mesa circular no meio e ao redor dois sofás de couro, extensos e que poderiam abrigar mais do que um time de futebol. Fizemos seus mesmos passos, e de imediato, os dois sofás foram preenchidos, e restou, logo, apenas eu de pé. Em um monte de achochado estava Stark, Dannis e Alice; respectivamente. No outro, Trice, Steve e Isaac. — Sente-se, Skylynn — Ele bateu duas vezes no couro, no vão entre ele e Steve. Esgueirei-me entre os dois, encolhendo-me entre os dois; homens de alto porte, fortes, e intimidantes.
— Obrigado — agradeci, fixando minha atenção ao assoalho amadeirado do hall; Tony estava exatamente em minha frente, e eu, ainda muito conflitada, estava incapacitada de olhá-lo fundo nos olhos.
Meu campo de visão se limitou, mas ainda sim fui capaz de ver Dannis erguendo a palma da mão esquerda, voltando a atenção de todos a ele.
— Por que estamos tendo essa reunião sobre a Skylynn ter beijado nosso professor de biologia?
Um bufar raivoso saiu por entre os lábios de alguém.
— Não foi só um beijo, Stans — o timbre da voz de Trice estava irritadiço, e recheado de impaciência. Não ergui meu olhar, mas eu podia sentir que Dannis havia reagido de uma forma que foi capaz de duplicar a ir de Triz. Outra lufada de ar foi jogada por ela. — O que se trata aqui, é que, nosso “suposto” professor, além de agente da S.H.I.L.I.D....
Um riso anasalado riscou todos nossos ouvidos. Era fofo, e de fato, carrega com si a leveza que somente Steve emanava.
— É S.H.I.E.L.D — corrigiu.
— Hm, tanto faz. Mas, o que está em jogo aqui é quem realmente é esse Brian.
Dannis ergueu novamente sua mão, e eu juro que vi uma coesão de meteoros vindo a seguir.
— Nosso professor de biologia — ponderou, com uma voz cheia de hesitação. Solevei minha cabeça quando as palavras permearam meus ouvidos, angulando-me exclusivamente para lançar a ele uma expressão de quem dizia “qual seu problema?”. Dannis, é claro, captou o olhar, e o devolveu com um dar de ombros, visivelmente mascarado por uma falsa inocência.
Alice, ao lado do irmão, rajou sobre ele uma cotovelada em meio à extensão de bíceps que Dannis continha. Ele, se retesou abruptamente, massageando o local atingido com uma expressão com direito a indignação, e um finco enfeitando de forma engraçada, sua testa coberta por fios loiros.
— Cale a boca, Dannis — ordenou Alice, metralhando o sedutor com suas bombas esverdeadas. — Só fique quietinho e, por favor, omita seus comentários plenamente desnecessário. Agora, podemos voltar a falar sobre o romance clichê que Skylynn sofreu.
Uma desconfortável sensação penetrou todos os meus membros quando a palavra romance, tendo relações ao nome de Brian — e a ele mesmo —, fora pronunciada. Tudo bem. Eu tinha de assumir meus erros: fraquejei pateticamente, e me joguei à um precipício fundo, denso e sem iluminação. Mas, era apenas isso. Só isso. Nada que fosse semelhante aos romances clichês, ou algo do tipo, não era, claramente válido.
— Isaac é muito mais do que um simples professor de biologia — vociferou Isaac, todos os músculos de seu porte adiposo se enrijeceram abruptamente. Seus olhos recaíram sobre mim, e eu não o suportei, voltando a olhar os vários degrades de piso. — Não sinto que Skylynn esteja segura.
E eu também não sentia que o estágio de segurança tivesse avançando, e emplacando todos aqueles que podiam alarmar perigo. Eu estava tão desconfortável, principalmente ignorando de todas as formas Tony; e ele, me tratando como se eu fosse uma idiota que ele tinha beijado, e no pior pensamento de negativismo, já esquecido na cratera de mulheres cujas bocas já haviam sido colididas com a de Stark. Ok, não ajudava de forma alguma reverberar coisas desse nível enquanto todos debatiam sobre um feito que — olha — eu necessitava esquecer.
— Também não é algo que sinto, tenho que concordar — admitiu Tony incrivelmente. Deixei, com discrição, minha boca moldar-se num “O” de pasmo. Ah, sim, agora ele esboçava de um jeito rude que, ambiguamente, se importava comigo. — Mas, se você contasse o que tanto esconde, tudo poderia estar bem melhor.
— Como? — Steve questionou, cruzando os braços; tal ato marcou ainda mais seus generosos músculos sob a jaqueta de couro cor creme.
Ergui meus olhos, minimamente. Aquele sorriso feito para Stark nasceu em seus lábios, adornados por doses alteradas de sarcasmo.
— Isso mesmo que ouviu, picolé. Isaac alega saber porque Brian está perseguindo Sky, mas, além de deixar claro que está à parte das coisas, se recusa a contar. Por favor, peguemos o Oscar de maior cara de pau, para esse cretino.
Isaac soltou um riso, claramente se divertindo bastante com toda a situação. Por que simplesmente ele não poderia jogar a bomba? Qual era a tamanha gravidade que, até por hora, ele fazia todo o desempenho para esconder. Minha mente voltou a ontem à noite, quando Isaac havia vociferado que eu não fazia ideia do que estava enlaçando-me. Isso, logicamente, não estava melhorando minha situação.
— Vocês não podem saber, por ora — sibilou Isaac, olhando Tony rudemente. Estava evidente que, logo de cara, os dois não haviam ido com a cara do outro. A tensão dançava entre o espaçamento que era empunhado entre eles. Estava quase se transmutando em algo concreto, deixando a forma abstrata. — É melhor para todos, acreditem.
— O que é tão grave ao ponto que não pode relevar? — o questionamento de Triz revelou várias oitavas de sua voz elevadas, e sua face era pincelada por um vermelho raivoso.
— Se saberem agora, apertaram um gatilho, e um de vocês será atingido.
Até agora, Alice não havia revelado nenhuma expressão ao assunto, parecendo bastante entretida fixando as bolas esverdeadas na pintura preta de suas unhas. Ao ouvir o pronunciamento, ergueu sua cabeça, e os fios fogosos balançaram de um jeito totalmente natural e esplendor. Suas sobrancelhas se estreitaram rápida e veemente.
— Um de nós será atingido? — questionou. — Creio que isso não se aplica a mim. Mal conheço Sky.
— Então o que você está fazendo aqui? — quis saber Tony, olhando distraidamente para seu reator arc.
— Meu irmão me arrastou para cá, com ele — esclareceu, dando de ombros, e os jogando para o couro do sofá aparatoso que dava um ar granfino ao local. — Mas, por fim, era só a amiga dela. Não que eu não me importe com você, Sky. Mas, não há nada que me coloque em um risco relacionado a esse Brian.
Steve assentiu, parecendo satisfeito com as pronuncias de Alice, e logo, voltou-se para mim.
— Você acha que Brian colocaria outros em perigo?
Suspirei.
— Sendo sincera? — questionei. Ele moveu seu queixo rapidamente, fixando os olhos azuis nos meus, me encorajando. — Acho que sim. Eu... acho que ele seria capaz do possível e o impossível. A obsessão que carregava nos olhos era intimidadora.
— Isso é, de fato, acolhedor — ironizou Trice. — De qualquer forma, acho que o loiro, muito gato, deveria abrir o jogo à todos nós. Somos de confiança. Pelo menos alguns são — murmurou, olhando Dannis de soslaio, já que mantinha seus olhos estagnados em Isaac.
— Não é tão fácil assim — interviu Isaac. — Não posso simplesmente dizer a vocês, o que já guardei há tanto tempo. E que, se querem saber, ainda não está na hora para ser revelado.
Stark soltou um suspiro resignado. Todos os meus esforços de não sondá-los desfizeram-se em barro, então. Solevei meus olhos, captando todos seus movimentos nervosos, e os tiques que ele carregava em suas mãos, movendo-as sobre sua jeans incansavelmente. Os caramelos cheios de cinismo, e embalados por uma dureza que eu nunca tinha presenciado antes, averiguaram até por dentro de mim, talvez, conseguindo captar até meus ossos e órgãos. A luz forte do dia atravessando as vidraçarias que iam do teto a alguns vinte centímetros de distância do chão não foi capaz que apaziguar o azulado feixe azul de Tony, provido por seu minucioso reator arc.
— De uma escala de zero a dez — sibilei, desviando todo aquele contato visual devastador, e rajando meus olhos sobre Isaac. —, quanto perigo estou correndo?
Isaac encurvou-se para frente, a base de seus braços estavam se apoiando, agora, em seus joelhos. Não olhou-me nos olhos, mas mantive-me atenta em seu corpo, que no momento, estava sendo permeado por enrijecer que deixava até um músculo de maxilar saltando para fora.
— Quer mesmo saber? — perguntou, com uma divergente esperança sob sua voz rouca. Anui, por mais que a resposta que viesse a seguir deixasse-me desestabilizada só por reverberá-la mecanicamente. — Numa escala de zero a dez, mil é o risco que está correndo.
Escancarei a boca para falar algo, mas a coerência faltou comigo no último minuto. A tensão dançava entre nós num ritmo a cada milésimo mais intensificado, a única coisa que eu podia fazer era fechar meus olhos fortemente, e as pontadas pelo esforço acertavam categoricamente meu crânio. Minha pele percebeu dois braços fortes e encobertos por uma jaqueta de couro retro rodeando os meus ombros, era Steve me abraçando, talvez tentando me isolar de toda a vicissitude — na qual, ia de péssima a indescritivelmente carregada de uma tensão hostil. Minha cabeça caiu nos ombros de Steve, e eu tinha certeza que mesmo de olhos fechados, a averiguação de Tony recaia sobre mim. Apertei um dos antebraços de Capitão, o qual rodeava-me confortavelmente. Eu só precisava de algum ponto para que o chão não se cobrisse por enevoadas e tensionadas pedras verdejantes.
— Sinceramente — a voz de Trice aguçou toda a nossa capacidade de ainda estarmos vivos. Entreabri meus olhos, ainda com uma escuridão semicerrando meu campo de visão. Todos estavam com uma expressão mortífera, abatidos pelas palavras anunciadas por Isaac – que, estranhamente, encontrava-se nas mesmas condições que carregávamos. Triz elevou-se num supetão, seus pés fluíam no piso amadeirado, de tamanha rapidez ao percorrê-lo. — não sei mais o que pensar. Mas, sei o que temos que fazer; proteger Sky. Eu não sei quem ela é pra vocês, mas para estarem aqui, não deve ser pouca coisa. Tudo bem. Não tenho superpoderes, ou armaduras muito fodas, poder de visões ou sonhos enigmáticos, e muito menos consigo seduzir alguém por meio de poderes, mas, há a mesma coisa que vocês em mim. Coisa esta, na qual não faço a mínima ideia do que possa ser. Apenas coloquei essa frase para meu discurso se finalizar fodidamente fo...
Trice não conseguiu finalizar seu discurso, que por mais que tivesse soado engraçado, afligiu meu coração beldamente. Sua boca ainda se escancarava, deixando as palavras serem engolidas pelo zumbido estrondoso vindo do lado externo da mansão. Som de pneus freando depois de uma corrida, cuja velocidade era a luz. Os braços de Steve desenlaçaram-me, e ele ficou ereto, enquanto todos nós angulávamos nossos rostos para o que se passava através das vidraças ao lado da porta dupla. Um conversível havia estacionado de forma incorreta em frente à calçada de Isaac, e um estremecer rugiu todo meu peito quando avistei os fios revoltos dos cabelos de alguém que eu conhecia muito bem, apesar das poucas aparições a mim. Trice, ainda em pé, cerrou os olhos, pondo sua mão em cima dos olhos, os quais se dimensionaram ao ver quem era o dono do carro que estava parado à frente da mansão. Ela recuou com passos lentos, como se o pasmo estivesse deixando-a com um medo incomum.
— O que diabos é isso? — questionou Alice, franzindo os lábios, no mesmo momento em que Brian saia do carro com uma metralhadora superpotente em mãos.
— Abaixem-se, agora! — vociferou em uma ordenança, Isaac, pulando ao chão. Os vidrais explodiram em mil pedaços caindo ao chão, alguns lançaram-se sobre nossos corpos recolhidos no piso amadeirado. O som estrondoso da metralhadora de Brian em ação me fazia ter a sensação pecadora de que a qualquer segundo as balas me perfurariam.
Isaac estava jogado ao meu lado no chão, com as mãos nos ouvidos e um olhar impostado em mim, dizendo claramente que eu deveria manter-me quieta, e em hipótese alguma, eu deveria me levantar. Alguns dois cacos de vidro haviam perfurado minhas costas quando tive de lançar-me no chão, mas pelo visto, havia muitos piores do que eu. Pude ouvir por gemidos desconexos, os quais não tive a capacidade de captar, já que as balas penetrando-se em todos os móveis possíveis do hall cobriam qualquer som preenchido de certeza.
Uma bala zumbiu perto de meu ouvido, raspando, e logo após atingindo, um dos pés da mesa curvada de centro. Em meio àquele todo caos, eu tentava de toda forma ver se todos estavam pelo menos suficiente bem. Minhas mãos embalavam meus ouvidos, e meus olhos estavam se turvando pelas lágrimas repentinas os rodeando. Mas, claro, elas não saíram. A dor explodiu em mim, quando senti algo duro e metálico perfurando minha perna.
— Skylynn! — a voz esganiçada de desespero de Tony me chamou. Ele, atrás da mesinha de centro, arrastou-se débil e dificilmente até a mim. Nossos narizes se tocaram, e não havia forças para que alguém fosse capaz de fazer um aproximo. As nossas respirações se mesclavam em um desespero, e a dor colossal crepitava aonde fui atingida, no interior de minha perna.
— O que houve? — era a voz de Steve, alta e permeando até os tiros incessáveis. — Ninguém se levanta — e assim, a tiroteio cujo somente Brian atirava parou. Não fui capaz de analisá-lo, apenas o olhei em frente aonde costumava haver uma vidraçaria. Gelei, quando vi uma cabeleira lisa e loira à poucos centímetros de distância do maníaco que usufruía de um sorriso sádico que era sua marca registrada. Eu sentia o fervor de meu sangue sair da ferida que queimava minha pele, transbordando o liquido vermelho para todos os lados. Ainda deitada, apavorada e desnorteada como todos, pressionei minhas mãos onde o tiro atingiu.
A respiração nervosa de Tony batia intensificada em meus cabelos. Brian se aproximava a cada segundo mais de Trice, já até tinha lançado sua arma mortífera pela verdejante extensão de grama. Steve ao lado de Alice — a qual estava mais do que apavorada — içou-se para cima, correndo em direção a Triz. Dannis o fez também. Mas, a minha turvada visão captou dramaticamente os cabelos lindos de minha melhor amiga sendo filados pelas duas mãos calejadas e nojentas de Brian. Depois, Brian deixou-a em pé, levantando-a para passá-la entre o vão da ex-vidraça. Virou-a de costas para seu peito, fazendo uma chave em seu pescoço, enforcando-a sem um mínimo de piedade. Os pés de Trice estavam suspensos no ar, e gritos contidos pela forma que era segurada, escapavam de sua boca.
A dor pouco importava. Eu acabara de ser baleada. Mas, a única coisa que realmente era de importância era que Brian estava com minha melhor amiga, e nenhum de nós sequer movíamos um músculo. Steve, saiu de sua dormência, correu em direção aos dois. Era tarde demais. Trice já havia sido levada para o conversível de Brian Jackson, meu professor insano de biologia e agente de uma das mais perigosas organizações do mundo, e então, o carro zarpou pela rua. Depois, meu campo de visão foi preenchido pelo mar imponente curvando-se sobre a área, com as ondas afrodisíacas beijando a praia.
(..)
Cinco minutos se passaram, a dormência ainda era a rainha de nosso reino lunático. Eu sangrava pelo tiro. Tony estava tendo um ataque, a respiração era desregulada, e seus olhos eram o opaco e se expandiam. Steve, ainda pairava seus pés no piso que estava apenas cinco centímetros da janela em que Triz havia ido ao desconhecido com Brian. Eu não o culpava. Culpava a mim mesma por ter sido como um ima a eles, deixando-os virem mais e mais para o perigo. Dannis, absorto em seu mundo paralelo, apenas acariciava os cabelos escarlates de sua irmã. Isaac estava sentado, com a cabeça entre as pernas. Estávamos — exceto Steve e Isaac — ainda tendo um contato permanente com o chão e os cacos cortantes de vidro. Minhas costas, e minha cocha eram alvos de uma dor nunca decorrida. Mas, eu não era capacitada de fazer algo.
E nem os outros presentes.
Os lábios de Tony encostaram-se em minha cabeça, beijando meus fios. Ele já estava içado para cima, sentado, e estava me ajudando a fazer o mesmo.
Um grunhido meu reverberou no ar, e percebendo-o, Isaac solevou sua cabeça, e olhou a ferida sangrenta no lado interno de minha cocha, lado este que estava levantado para cima.
— Precisamos tratar disso — disse ele. — Agora.
Um som de um telefone permeou o hall.
Algo brilhava no bolso frontal de Isaac, ele o retirou do bolso, e seus olhos queimaram em surpresa e ódio quando leu o que havia escrito em sua tela, agitante.
— É Brian.
— Coloque para que todos nós possamos ouvir — foi um pedido vindo de Steve. Ainda sim seus olhos sondavam a grama esmeraldina salpicada pelas vidraças moídas.
— O que esse idiota quer? — Tony exigiu saber.
Isaac suspirou, deslizando seu dedo pela tela do aparelho.
— É isso que iremos saber.
Um chiado vindo do telefone se propagou, mas logo a voz afiada e sórdida de Brian fuzilou todo o ambiente:
— Isaac, meu caro amigo. A loirinha já foi pega. Devo dizer, que além de aguentar a chatice da garota, capturá-la rendou-me alguns arranhões. Mas, creio que o estrago que fiz em sua aparatosa mansão cobre meus meros machucados. Só quero deixar claro o que você já sabe. Uma foi pega. Não foi bem o que tinha em mente, mas você sabe, que se preciso, capturarei cada um presente nessa casa, até que enfim, eu chegue em Skylynn Johson... Novamente.
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