Bad Minds [HIATUS]
23 A verdade dói, Sky
Notas iniciais

Sondei-me através do estreito e fixo espelho por última vez.
As azuladas pedras, cujo nome era meus olhos, eram rodeados por bolsas feiamente roxeadas, criando côncavos buracos, deixando minhas esferas oculares mais salteadas. Os olhos costumavam a ser minha marca registrada, segundo à todos, sempre acesos, vibrantes e avivados — mesmo com meus poucos problemas. Agora, eles são maiores que o normal, opacos, e adornados de um obscuro e desconhecido sentimento. Meus cabelos também não estavam nas melhores e simbólicas condições; desprovidos de brilho, pareciam uma palha negra e já cremada, mal o balanço do vento seguia.
Oh, céus, o problema seria comigo mesma?
Fechei a porta do guarda-roupa acinzentado e embutido, escondendo logo após o espelho pequenino. Recuei com alguns passos fracos e vacilantes (afinal, eu ainda estava recém baleada por Brian), e em seguida, consegui sentir a textura incontida de maciez do lençol cinza em cima da cama. Aliás, tudo naquela cabine daquela organização era acinzentado. A cor que eu considerava ser o marco da morte, falando nisso.
O cômodo era tão pequeno que tudo que cabia era uma pequena cama, um guarda-roupa, uma porta para o lado externo, e uma passagem vazia para o banheiro. E acima da cama, uma cilíndrica janela se implantava e eu podia ao menos ver que o sol dominava lá fora por enquanto.
Mais um fato que aguçava ainda mais a minha depressão disfarçada era: estar sozinha, sendo espremida por quatro lisas e tecnológicas paredes. Não que alguém tenha tido a coragem ou até mesmo a consideração de ter me convidado para a reunião, cujo assunto era eu, e então aqui estava eu.
Sem escolhas e alternativas.
E então, num supetão, a porta metálica se abriu.
Um contorno alto, forte e praticamente azul cobalto invadiu minha visão. E, só após eu me encolher vagarosa e cuidadosamente na cama, e piscar meus olhos sucessivas vezes, absorvi quem de fato ele era. E pelo quintos dos infernos, eu mal conseguia raciocinar direito. Quer dizer, estar diante ao maior herói do seu país (uniformizado, ressalto) não é muito estabilizador em questões estruturais, e muito menos emocionais.
Steve era um amigo para mim, e se não for muito exagero, o irmão que nunca tive. Eu ainda não havia pensado muito — mesmo sabendo — sobre ele ser realmente o Capitão América, aquele cara que todos os pais costumavam a contar suas histórias aos seus filhos. Porque, para mim, ele sempre seria aquele cara lindo, acolhedor, e simplório que conheci no Central Park. E ali estava ele, trajando um apertado uniforme, com seu símbolo estampado, e com um sorriso normal com tantas emoções subtendidas.
Como se fosse normal salvar o mundo a cada hora, e dia.
— Steve? — questionei-o, com sobrancelhas erguidas, e expressão ainda incrédula. Custava adentrar em minha mente que ele era mesmo quem ele era, e que no fundo, ele queria apenas um lugar para se encaixar no novo mundo.
Seu sorriso se dilatou, ganhando mais e mais expansão por seu rosto descoberto pela máscara que sua mão esquerda segurava.
— Eu mesmo — respondeu. Ele parecia um pouco comedido, como na maioria das vezes, mas agora a coisa toda era cheia de divergências. Ele mordia os lábios minimamente, absorto num mundo distante hora ou outra, e sua mãe livro perambulava pelo metal da porta. — Posso entrar?
Assenti com minha cabeça, um pouco cética, para depois com certeza completar:
— Pode, é claro — falei, dando espaço para que ele pudesse se sentar na cama, que apesar de definidamente pequena, o cabia sem problemas. — Estou mesmo precisando de uma visita, ainda mais você que é ninguém mais nada menos do que...
— Capitão América? — Ele arquejou suas sobrancelhas aloiradas, enquanto se sentava timidamente ao meu lado. Sorri, sentindo o seu plausível tom estranhamente afastado, e sondando seus lábios finos se moldando à uma linha fina, um esboçar de um sorriso reservado, e quase incomum.
— Na verdade... — Solevei meu dedo indicador, equilibrando minha voz ao meu tom que ele utilizara. — Eu pretendia me referir à apenas Steve Rogers ainda, o único lado da moeda benevolente que conheço de você.
Steve parou para pensar alguns instantes.
— Quando você diz benevolente ... é algo irônico?
— Hm, depende. Na maioria das vezes, sim. Mas, acredite, quando digo que você é inteiramente bom dos dois lados, tenho a certeza que não estou mentindo.
Um “ah” estagnado fluiu de sua boca, num sinal de entendimento brevemente silencioso. As atitudes de Steve, eram no ínfimo, incríveis. Não que eu estivesse utilizando incrível em, uh, bem, obscenos, mas sim, de infinita admiração. Sério, além de herói de toda a pátria, é surpreendente como a personalidade de Rogers se sobressaia sempre aos meios que, às vezes, ele deveria utilizar.
— Menos mal — ele confessou. Apesar de conhecê-lo por um tempo minúsculo, eu era boa em analisar pessoas. E principalmente aquelas que eu tinha um pingo de respeito, ou, vínculo. E seja lá qual fosse meu vínculo com Steve, eu o sentia se alastrando a cada vez que nos encontrávamos, e trocávamos rápidas prosas. Era como se a cada encontro, nosso nível de irmandade de elevasse num supetão, para mais e mais acima. Logo, eu sabia que seu tom, seu jeito, seu sorriso indicava exclusivamente: aflito.
Alguma coisa havia acontecido. Meu sexto sentido, um pouco falho (admito) podia captar. Seja lá o que fosse, ou a gravidade.
— Você quer me contar o que aconteceu? — Pulei a parte dos rodeios, e me dirigi logo ao ponto real e necessário.
Steve se retesou em cem por cento. Seus músculos saltaram ainda mais, sendo engolidos por aquele uniforme extremamente colado ao corpo, seu maxilar travou como uma tranca, e seus olhos se direcionaram imediatamente ao chão esbranquiçado, que me causava pontada leves na cabeça apenas ao olhá-lo.
— Você é boa — Ele riu, fraco. — Há um problema, e por Deus, Sky. Isaac estava certo.
Franzi minhas sobrancelhas, mal por dentro do que ele se referia.
— Isaac estava certo sobre o que, exatamente?
Ele suspirou, fechando os olhos fortemente. Logo, os abriu, mas ainda sim as esmeraldas azuladas averiguavam o chão, como se uma possível ameaça pudesse estar zanzando pelo mar incolor. Suas mãos sufocavam sua própria máscara, que ao meio da guerra, certamente dá-lo-ia um conciso e reconfortante anonimato.
— Ele estava certo sobre você não poder saber de nada.
Isso foi o necessário para que eu fosse sucinta, arregalasse os olhos, e logo deixasse um grito exasperado rasgar a minha garganta rudemente.
— O quê? — minha voz saiu finíssima, como uma fina linha que a qualquer segundo poderia arrebentar. Mas, que diabos estava se passando pelas cabeças desprovidas de neurônios de todos? Respirar fundo já não era uma opção, e sim uma saída, para que assim, eu não tentasse me levantar, e acabar piorando mais a situação deplorável de minha perna baleada. Oscilei raivosamente Steve, e de certo, um pouco magoada, porque, honestamente, eu esperava que nele eu poderia cegamente e sem dúvidas confiar. Na minha cabeça, Steve poderia ser um dos únicos que seriam capaz de comigo, tentar desvendar toda a loucura adornada de terror e alucinações pela qual Loki e Brian agia. Contudo, lá estava ele. Concordando com Isaac que o melhor seria que eu não soubesse, o que eu deveria conhecer; Steve ainda estava imerso na imobilidade, enquanto eu sentia que a qualquer segundo eu iria sufocar. — Por que todos acham que eu sou fraca o suficiente para saber a verdade?
E só então, quando Steve passou as costas das mãos pelo rosto, secando as lágrimas que caiam sem motivo conhecido por mim, percebi a gravidade.
— Porque a verdade doí, Sky. E essa, ultrapassa todos os limites da dor e da insanidade. Você é uma irmã para mim, e vê-la sofrer, mais do que está sofrendo agora, não é uma opção.
Foi a vez de uma lágrima minha cair.
Toquei seus fios de cabelo, assustada. Steve angulou seus olhos nos meus, mudando por completo de postura.
— Esconder minha verdade é uma opção? — Engoli em seco, incapaz de conter as outras lágrimas que caíam em atos sucessivos.
Os lábios de Steve rumaram para minha bochecha, e na medida do possível, ele conseguiu me aninhar em seu colo, como meu pai fazia quando eu era pequena. Meu choro aumentava, mais, mais e mais. E as lágrimas piedosas de Steve se mesclaram com as minhas assim que coloquei meu rosto na curvatura de seu pescoço. Minha perna, estava do outro lado da cama, as duas estiradas, enquanto eu sentava no meio das pernas de Steve, chorando sem nem pensar na resposta de Rogers.
Até que ela veio.
— A melhor.
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