Bad Blood
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Está meio chatinho, mas é só pra vocês terem uma certa noção de como vão ser as coisas.
Realmente espero que gostem.
Boa leitura (:
Capítulo 1
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Nevava pequenos flocos alvos. Um vulto percorria por entre as árvores imperceptivelmente. Abaixo dele, um corpo movimentava-se rápida e freneticamente. A luz da Lua refletia medo e angústia nos olhos daquele ser. O som de uma corrida veloz ecoava audivelmente há alguns metros de distância. Estava apavorado. Escutava sons de todos os lados, porém hesitava se era apenas paranoia ou não, afinal estava em uma floresta. Todavia, sua resposta veio em segundos depois.
Enquanto corria, suas botas de pano improvisadas se prenderam a um galho, levando-o a tropeçar e desequilibrar. Desesperou-se. Qualquer tempo perdido seria crucial, qualquer parada poderia significar morte. E não deixava de estar certo. Aquela pequena distração custou-lhe a vida.
No mesmo instante que perdeu o controle sobre seu corpo, voltou sua preciosa atenção para seu pé preso em um galho. Apesar do frio, suava constantemente. Aflito, imediatamente puxou sua perna, não se importando se rasgaria a bota ou não, acima de tudo precisava correr. Um ligeiro, porém forte, rosnado a sua frente o sobressaltou. Olhava pasmo para seu predador de prontidão. Sua pele se tornou ainda mais pálida. Então, desesperadamente começou a puxar sua perna com mais força, rasgando seu calçado e um pedaço de sua canela. O gelo contra sua ferida ardia, mas ele não importava. O animal permaneceu imóvel, apenas rosnando com os pelos eriçados e garras afiadas a mostra. Sem pensar duas vezes, o ser procurou algo para se defender e encontrou um galho consideravelmente grande e afiado. Sorriu sadicamente. Pegou firmemente aquele pedaço de madeira e, sem pensar, correu na direção do animal. Iria para mata-lo ou ser morto. Seria a presa ou o predador. Ainda assim, o animal permaneceu imóvel. Até certo momento. No instante que o ser saltou para atacar o animal, algo subitamente surgiu contra suas costas, perfurando-o ao meio. O ser assustou-se com o repentino ataque e questionava-se o que havia acontecido. A neve caía em sua face queimando-a, sua visão começava a enturvar, ainda assim pode ver o animal – com a ajuda da luz lunar – deitado, bem a sua frente, rente ao seu nariz. Pode sentir a respiração quente dele bater contra sua pele. Sentiu um fluído cálido escorrer por sua boca e por sua barriga. O tom esbranquiçado abaixo de si tornava-se escuro. Seu corpo doía então aquilo que o cortava movimentou-se e a dor cruciante intensificou. Sentiu um volumoso líquido lhe subir a garganta novamente. Lágrimas formavam-se tristemente e escorriam por sua face enquanto roçava o nariz úmido na maciez mixada. Soluçou, engasgando. Lamuriava-se. Apenas queria ter uma vida melhor. Dar uma vida melhor a sua família. Sorriu tristemente. O choque de temperaturas incomodava-lhe. Sua visão, embora já escura, pode notar a brancura da neve torna-se escura. O gosto metálico do sangue em sua boca estalava em sua língua. Sentiu um peso sair de suas costas e algo dispersar de seu corpo. Por um segundo a dor reduziu, mas voltou lacerante. Entretanto, sentia-se mais leve. Quase não mais enxergava devido à escuridão da noite e ao fim tão próximo, mas pode escutar passos firmes afundarem-se na neve, rente a si. O som de lâmina cortou o ar. Um último reflexo do luar pode permitir que visse – com dificuldade – apenas o vulto de um corpo movimentar-se. O gelo mesclado por vermelho escorria por seu ombro tatuado e desnudo. Gemeu agonizando. A morte chegava se divertindo lentamente com seu ser, sorrindo prazerosamente. Idealizava-a, mas não via nada. Seu coração falhava quando escutou novos movimentos e em seguida uma sequência de fincadas perfurando seu corpo, porém estava em tal estado de inércia que já não mais fazia diferença.
–-Kurama! – escutou uma voz masculina ecoar firmemente. Ainda assim, era suave e sutilmente doce. Ponderou em quão irônico era seu assassino ser tão cruel, mas aparentar ser uma pessoa gentil, porém, cortando seus pensamentos ouviu apenas um rosnado em reposta – Tenha respeito. – a voz ecoou novamente, mais calma. Em sequencia, sentiu algo quente e úmido correr por seu queixo e boca, como se o limpasse de seu sangue. Apenas escutou o som emitido pela lâmina cortar o ar e cair a poucos centímetros de seu nariz, provavelmente perto do animal. Novamente, o animal retrucou com o rosnado, contudo, era mais feroz que antes. E não escutou mais nada, inclusive o som rude e grave.
Sentiu seu coração parar vagarosamente e a dor já não mais o atribular. Moveu os dedos sobre o macio gélido, apertando-o e deixando-o escapar pelos vãos de suas mãos. Queria sentir por uma última vez o toque suave e ao mesmo tempo doloroso da neve. Assimilou que aquilo já estava no final. Não mais sentia as pernas, os braços mal se moviam, respirar tornou-se uma tarefa incrivelmente difícil e um frio incomum queimava-o por dentro. O constante sangue não deixava de fluir por sua boca e feridas. O coração já mal batia. E pensar que anos de vida seriam dispersos assim em tão pouco tempo... Em questão de rápidos e poucos minutos. Sorriu. Se era para morrer, então queria fazê-lo ao menos com um sorriso nos lábios. Um sorriso triste, sarcástico e arrependido.
Então, os últimos sons que ouviu foram novamente de passos apressados correndo na neve, porém cessaram-se rápido de seus ouvidos. Enquanto já ao longe, o ser parou de se mover e o fluído carmim já não mais constante afundou-se na vastidão até então cândida.
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A aurora iniciava-se no distante horizonte. Com certo fascínio ela estava a admirá-la. Os primeiros raios solares deveriam iniciar um novo dia logo, logo e, naturalmente, ela tinha seus deveres a cumprir. Seu rosto ainda estava marcado pelo sono. Havia caído uma nevasca fina durante a noite anterior e isto só a fez dormir mais. Envolta por sua manta de pele – mais quente do que aparentava – estava deitada em sua cama, olhando para a janela ao seu lado com um sorriso singelo e satisfeito. Embora estivesse cedo, ela gostava de acordar antes do usual para olhar o Sol raiar no leste.
Remexeu um pouco na cama, buscando uma melhor posição e em seguida coçou os olhos, manhosa. O cabelo bagunçado caía-lhe sobre a face de maneira rebelde, mas ela não fazia a mínima questão de movimenta-lo, não estava incomodando, afinal, já estava acostumada. Ainda com muita preguiça removeu vagarosamente o cobertor sobre suas pernas, liberando partes por partes: dedos dos pés, pés, panturrilha, até que tudo abaixo de sua cintura fosse ao encontro com a friagem. Arrastou as pernas pelo lençol até encostar a ponta do dedinho no chão frio. Ao sentir o choque de temperaturas entre seu pé quentinho e o chão gélido imediatamente recuou as pernas e retornou tudo para debaixo da proteção macia e cálida de seu querido cobertor. Novamente rolou sobre a cama, encolhendo-se buscando ainda mais calor. O quarto ainda estava escuro, e ainda teria algumas horinhas a mais para dormir então logo escondeu a cabeça por entre os travesseiros e voltou-se a ficar quieta. Como antes, preguiçosamente. Entretanto, por mais que se esforçasse e o sono parecer estar ali, ela não conseguia dormir. Começou a rebolar pelo colchão, grunhindo impaciente até que desistiu e esticou-se, afogando o rosto no travesseiro. Grunhiu de preguiça novamente e mais uma vez forçou a dormir. Conseguiria se não fosse o barulho irritante vindo da cozinha. Bufou raivosa e jogou – contra sua vontade – o cobertor para o lado. Ajeitou sua camisola azul royal que estava enrolada em sua cintura e arrastou-se cama a fora. Seu corpo obejetou ao sentir o frio vindo contra sua sola do pé, mas ela não importava. Tratou de logo despir-se, e agora que estava completamente nua passou a importar com o tempo frio. Buscou o vestido mais quente que estava ao seu alcance rápido, porém, largou-o de lado ao lembrar que suas roupas interiores estavam no outro lado do cômodo. Correu até elas, tremendo um pouco. Com dificuldade as pôs e apertou o espartilho. Agora, mais calma, caminhou até o vestido e o vestiu. O barulho na cozinha havia intensificado e começava a irrita-la. E se irritou ainda mais procurando seu par de botas por todo o quarto, mas não encontrou em lugar nenhum. Sua saída foi calçar qualquer outro. “Droga, eles são meus preferidos, onde está?” Forçava a mente enquanto amarrava os cadarços das botas vitorianas. “Ah! Ino! Sua porquinha, ela sabe que são as minhas favoritas!” amaldiçoou a si mesma mentalmente por ter aceitado o trato em que a garota pudesse pegar o que precisasse. Era mutuo, porém quase nunca consultava o armário dela quanto ela o seu, por mais estranho que pareça.
Olhou novamente para a janela e fracos raios já cortavam o céu. O barulho estava ficando ensurdecedor e se continuasse da mesma forma em breve acordaria todos os vizinhos em um raio de trezentos metros. Passou as mãos pelos longos cabelos bagunçados. Buscou ao seu alcance de visão sua escova de cabelos, mas novamente não achou absolutamente nada. Estava começando a ficar realmente nervosa. “Já vi que hoje vai ser um dia do cão!” murmurou entre dentes enquanto caminhava novamente até seu armário. Ao abrir as portas se deparou com um bilhetinho e uma escova de cabelos, todavia, não era esta que procurava.
“Desculpa testuda, mas aquela escova já estava muito velha! Essa é melhor, considere como um presente!” Isso era o que vinha escrito no pequeno papel a letras apressadas. A garota estremeceu ligeiramente.
–-Droga Ino, precisava levar minha escova também?! – já não mais murmurava e seu tom de voz quase equiparava com os estrondos da cozinha.
Pegou a tão polêmica escova e a utilizou como devia, mas não adiantou muito. Os cabelos, embora fossem lisos, continuavam rebeldes. Olhou-se no espelho com um profundo e raivoso suspiro, jogando o objeto longe não se importando onde ele poderia acertar. Puxou ar para os pulmões, contando em sequencia na tentativa de se acalmar, e, em parte funcionou.
Decidida, caminhou a passos fortes e firmes para fora do quarto. Cada vez mais que se aproximava do andar térreo, mais o barulho intensificava e mais seus ouvidos se incomodavam. A casa ainda estava um tanto escura devido as cortinas fechadas, mas enxergava bem. O estalo de seus saltos contra o assoalho era completamente abafado por tão intenso que era o ruído metálico, cada vez batendo mais contra seu cérebro. Farta daquilo tudo, resolveu correr até a fonte, um pouco preocupada. Seria um ladrão? “Não, se ele pelo menos quer ter um pingo de dignidade não faria tanto barulho.” Ou talvez seus pais tivessem machucados, pedindo por ajuda do jeito mais escandaloso possível. Ponderou. Conhecendo-os, aquela era situação possível. Seu coração descompassou ligeiramente ao ver sua mãe encostada ao batente da porta.
–-Mãe – parou ao lado da mulher ainda de pijama, aflita. Sua mãe apenas girou o rosto – aconteceu alguma coisa?
–-Veja com os próprios olhos. – apontou para a pia.
A garota de cabelos curtos aproximou-se vagarosamente do local indicado e, por pouco, não surtou. Um homem agachado em baixo da pia, armado de uma chave de fenda, destruía o encanamento.
–-Pai! – a voz alterada para permitir que no mínimo escutasse a si mesma – O que o senhor pensa que está fazendo?! – segurava-se para não ter uma crise de nervos.
–-Ora, não vê?! Estou concertando essa porcaria de encanamento! A propósito, dormiu bem querida? – sorriu bobamente, sem interromper suas atividades.
–-Mas oq... Mãe! – apelou.
–-Eu tentei. – deu de ombros – Você sabe como seu pai é. Quando dá alguma coisa na telha dele...
–-Pai! Não podia fazer isso depois?! – voltou a apelar ao senhor.
–-Minha flor, essa torneira estava fazendo um barulho insuportavelmente irritante durante a noite. Eu não aguentei. Não quer vir me ajudar? Querida – direcionou-se para a esposa – Lembra quando ela era pequenina e carregava meu estojo de ferramentas para todo o lado dizendo que queria concertas as coisas? – riu das lembranças.
–-Lembro! – gargalhou gostosamente – Ela era gordinha, tão fofinha que dava vontade de apertar o tempo inteiro!
–-Mãe! Pai! – protestou. Era muito cedo para nostalgia.
–-Ah, querido... – suspirou – Agora são outros tempos. Deixe nossa filha em paz. Já não é mais como antes...
–-Mamãe, pare com isso.
–-Não importa, não importa. Eu tenho orgulho de você, querida. – acariciou o rosto da menina.
–-Ora mamãe, o que a senhora tem? Ainda é muito cedo para isso. Do jeito que a senhora fala parece que vou me mudar para um lugar distante!
–-Mas vai ser algo parecido.
–-Mãe, a senhora está parecendo uma criança! – a senhora loira virou o rosto em uma atitude realmente infantil – E, papai, desse jeito vai acordar todo mundo!
–-Esse encanamento infeliz está me provocando e não vou parar enquanto não estiver acabado!
–-Ah, tudo bem! – suspirou em derrota – Mas eu vou sair.
–-Aonde vai querida? – sua mãe indagou.
–-Caminhar um pouco. Estou sem sono – “e mesmo se tivesse não dormiria de qualquer jeito” pensou – e o barulho está de mais!
–-Eu gostaria de ir com você, mas tenho que garantir que seu pai não quebre a casa toda.
–-Deveria esconder a caixa de ferramentas – sussurrou quase inaudível.
–-O que disse?
–-Nada, nada. Devo estar de volta em pouco tempo.
–-Não se esqueça das suas tarefas!
–-Pode deixar, mãe.
Enfim conseguiu escapar daquela casa, não se esquecendo de pegar seu casaco no cabideiro. Apesar de ter batido a porta, o eco foi apenas um ligeiro ruído. Ainda estava cedo e, por mais incrível que pareça ninguém havia aparecido a sua porta para reclamar.
Embora houvesse nevado durante a noite, as ruas estavam limpas. A cidade era conhecida por ser sempre muito limpa. Os postes de luz ainda permaneciam ligados, entretanto, fracamente. Estava tudo pacífico, a neblina estava baixa. Continuava a caminhar. Não fazia ideia de onde poderia ir. Todos que conhecia ainda estariam dormindo, com exceção de seus pais. A visão estava dificultada. Seus sapatos estalavam alto contra as ruas de pedras. O frio era intenso. O ar machucava-lhe as narinas e a cada expiração uma pequenina e comprida nuvem escapava de seus lábios avermelhados. Arrependeu-se de não ter colocado um casaco mais grosso. O inverno daquele ano estava sendo mais rigoroso que o comum. Olhou para o céu. A iluminação batalhava devagar contra a neblina, tornando-a cada vez menos densa. Permaneceu por um longo tempo levando os pés enquanto olhava para seu movimento. Tanto que nem ao menos percebeu já ter chegado aos arrabaldes da cidade. Sem noção de tempo ou espaço. Olhou novamente para o céu e o Sol já quase iluminava toda a cidade. Olhou para os lados e reconheceu o lugar. As pedras das ruas já não mais tão conservadas abrigavam bêbados e boêmios. Não tinha medo. Não admirava tal modo de vida, mas uma parte de si achava interessante e curioso. Esquecer-se de um pouco das responsabilidades. Um desejo comum a sua idade, contudo, apenas um desejo. Prosseguiu levando os pés por sua rota, um pouco indiferente aos olhares lançados sobre si. Não que quisesse parecer superior, apenas não queria problemas. Pensou em ir à casa de Ino, mas mesmo que o Sol já esteja quase alto no céu, com toda absoluta certeza a garota ainda estaria em seu quinquagésimo quinto sono. Continuou caminhando. Queria aproveitar a manhã livre, o que era raro. Voltou sua concentração para seus pés. Sua visão acompanhava o movimento sem se distrair, afinal, aquela era sua distração. Um sorriso sutil era perceptível em seu rosto. Quanto tempo permaneceu caminhando? Ela não sabia. Apenas quebrou seu encanto quando a brisa gélida majorou. Ergueu o rosto e diante de si estavam portões de cobre corroídos pelo tempo, dando alas a um caminho coberto por neve. Uma parte intocada da cidade. Não havia caminhado por lá, ainda. Tinha tempo, então porque não? Sua única proibição seria não ultrapassar até seu limite de memória. Meneou a cabeça afirmativamente e prosseguiu, apertando fortemente seu casaco contra si.
A paisagem não era completamente diferente do que estava acostumada. Pinheiros e mais coníferas e uma extensa cobertura bela e gelidamente alva. Todavia, as características que diferiam eram inteiramente encantadoras. Por mais frio que fosse, o ar era úmido e agradável, suas narinas já não mais doíam como antes. Pássaros lindos e curiosos por todo o lugar encantavam toda a floresta cantado suas melodias confortáveis aos seus ouvidos. O som do vento intercalando por entre as árvores criava um sussurro gostoso e embora fosse uma floresta, a luz solar refletida na candura causava uma iluminação diferente, como se tudo fosse mais nítido. Havia algumas pequenas cavernas que lhe chamava a atenção. Prosseguiu caminhando, reparando em todos os detalhes à sua volta. Dali, o céu parecia ser mais azul, assim como tudo aparentava ser mais belo, mais vivo. Isso fazia esquecer-se até mesmo de suas botas afundando até a canela.
O vento brincava gentilmente com seus cabelos e com seus sentimentos quando ela sentiu seu pé afundar mais que o normal e ao movimenta-lo algo estava bloqueando. Estava distraída demais para notar. Com isso, seu corpo perdeu o equilíbrio e caiu bruscamente na neve, afundando parcialmente. Indagava-se o que havia ocorrido enquanto tentava se erguer coberta por gelo. Notou que havia tropeçado em algo, entretanto, do jeito que havia caído, haveria de ser algo grande. Curiosa, engatinhou até o tal objeto, afastando a neve. Suas pupilas contraíram e o espanto e surpresa tomaram conta de sua feição. Frenética, retirou toda a neve do que via e, quanto mais se aprofundava, mais o carmesim se tornava aparente. Sobressaltou-se ao ver tamanha ferida. Olhou para os lados, mas não havia absolutamente nada que poderia amparar-lhe. Estava sozinha. Uma leve epifania surgia dentro de si. Rapidamente verificou o pulso do corpo e constatou que – apesar de leve – ainda o tinha. Questionava o que poderia fazer quando lhe veio a mente a caverna não muito distante da qual tinha visto. Sua prioridade seria tirar aquele corpo da neve e aquecê-lo já que provavelmente já estaria em um nível de hipotermia subaguda, caso contrário, a morte seria certeira. Como carrega-lo? Era um corpo masculino, então com toda a certeza seria mais pesado que si. Uma grande dificuldade, se não problemático. Olhou novamente ao redor, buscando algo em seu campo de visão que pudesse auxiliar, porém tudo estava congelado e ela estaria também se não fizesse algo logo, seu casaco não era apropriado para tal situação. Reuniu o máximo de forças que pode em seus braços e pernas, contornou o braço do corpo ao seu pescoço e, com dificuldade, ergueu-o. Depois de alguns segundos, começou a arrasta-lo. Graças à grossa camada de gelo, conseguiu movimenta-lo melhor, mas ainda era complicado. Depois de cinco minutos começou a ofegar. Parava hora ou outra para descansar e retomar o ar. Depois voltava. A cabeça do ser apoiada a seu pescoço começava a incomodar-lhe. A circulação de suas mãos começava a diminuir. Respirar tornou-se ainda mais difícil. Necessitava de bastante equilíbrio para não escorregar. Suava e seus cabelos começavam a grudar-lhe no rosto. Em sua mente, a caverna não parecia tão distante. Uma ponta de preocupação tomava conta de si. “E se eu me perdi?” pensou, afinal, havia saído de sua rota. Tudo era claramente branco, parecia não haver diferenças. Parou por um instante e olhou para seu redor, a aflição expressa em seu rosto. As consequências de se perder eram...
–-O-Oq... – o corpo agonizou.
Direcionou seu olhar para a cabeça em seu pescoço e aproximou sua bochecha de sua testa. Estava congelando. Não tinha tempo para ter medo, responsabilidades maiores estavam em suas mãos. Prosseguiu e agradeceu a Deus ao encontrar a entrada da tão esperada caverna. Quase esgotada, terminou puxando o corpo consigo. Estava escuro, mas procurou não se desesperar. Recostou o corpo no chão e procurou por pedras fora da caverna. Embora tenha sido um pouco complicado encontrar pedras no tamanho certo em meio à neve, havia o feito. Abaixou-se rapidamente ao chão e rasgou boa parte da barra de seu vestido, em seguida esfregou as pedras sobre tal. Em poucos minutos conseguiu fogo, mas a claridade espantou um bando de morcegos. Assustada, protegeu os olhos e a cabeça com os braços, mas teve que se recompor logo, o fogo não duraria muito tempo. Procurou por qualquer coisa na caverna que poderia usar como combustível e novamente agradeceu a Deus por encontrar alguns galhos secos. Correu rapidamente até eles, o fogo já estava quase no fim e os ateou. Era quantidade suficiente para duas horas ou um pouco mais.
Pena que enquanto preocupava-se com o fogo, a garota não percebeu que cada vez mais a ferida no corpo diminuía.
Assim que garantiu que a fogueira estaria segura, aproximou-se do corpo ainda inconsciente deitado. Possivelmente estaria ainda mais machucado pelas escoriações feitas durante o tempo que o carregava. Encostou-lhe a mão e, estranhamente, já não estava mais exageradamente frio, todavia, ainda preocupante. Fitava-o confusa. Estava com roupas sem mangas, o que era ainda mais estranho. “Provavelmente estaria a pouco tempo na neve” ponderou. Contudo, deixou de lado. Precisava examinar as feridas. Para isso, retirou a roupa superior que ele vestia. Um corpo bem conservado, não deixou de notar, mas a ferida enorme que trazia no abdômen a lembrou de sua prioridade. Examinava calculistamente todos os lugares e de fato havia causado escoriações. Não sangrava devido ao frio que serviu para estancar qualquer vazamento. Pela respiração constatou que não havia nada sério em seus órgãos internos, senão já havia morrido a muito. Seu único problema era a temperatura baixa e para isso a melhor solução seria esquenta-lo corporalmente. Corou sutilmente enquanto retirava o casaco, era um corpo masculino e nunca havia visto um... Algo, não havia visto algo assim pessoalmente. Constrangida, era como estava. Mas o bem maior invadiu sua mente, fazendo-a levar aquilo como se fosse profissional. Mesmo assim, se deu ao mínimo de não olhar para o corpo enquanto levava a mão para desabotoar o vestido. Ainda assim, enquanto o fazia se pegou olhando para o rosto dele. Era bonito. Finos traços, mas másculos. Os cabelos eram de uma tonalidade lindamente loira e seu jeito bagunçado servia-lhe como charme. E o corpo, bom, era bem definido. Embora estivesse pálido devido às circunstâncias, provavelmente seria melhor em seu estado são. Pensamentos diferentes começaram a surgir. Corou ainda mais. Repreendeu-se virando novamente o rosto. “Mas o que é isso Sakura? Não pense nessas coisas!” disse a si mesma.
Desabotoava o penúltimo botão de seu vestido, ainda recusando-se a olha-lo. Mas estava distraída de mais para perceber um brilho de safiras despertarem-se subitamente atrás de si. Foi um grande susto quando sentiu uma gélida mão encostar-se a sua alva pele. Tanto que desequilibrou-se, quase caindo.
–-O que esta fazendo? – a voz ecoou enquanto ela se virava bruscamente para ver o que acontecia, ainda com o vestido caído sobre os ombros.
–-Vo-Você... – mal conseguia balbuciar diante a figura imponente a sua frente.
–-O que estava fazendo? – repetiu calmamente.
–-Te salvando... C-Como pode... – estava surpresa de mais para assimilar as coisas, os olhos arregalados.
–-Sua roupa. – proferiu meio indiferente.
–-D-Desculpe é que você estava congelando então... E-Eu... – dizia enquanto abotoava novamente o vestido – C-Como você pode estar bem? Estava com uma ferida grave.
–-Eu melhorei. – começava a vestir novamente suas roupas – E é isso que importa, não?
–-O que te aconteceu?
–-Lobos.
–-É melhor voltarmos para a cidade. – ergueu-se.
–-Sim, você deve ir.
–-Não vem?
–-Não moro lá.
–-Não vai me dizer que mora na floresta! – debochou.
–-Pelo jeito não acreditaria.
–-Então... – a expressão dele era sincera – Mas mesmo assim é impossível você estar como está.
–-Não se preocupe, eu não sou uma ilusão – riu de seu próprio deboche – Quer me tocar pra ver se sou de carne e osso?
–-A sua ferida... Onde ela está?
–-Ela não está. Simplesmente isso.
–-Como?! E a sua hipotermia?! Eu não sou médica, mas estudo medicina e estava evidente.
–-Digamos que sou quentinho.
Ela caminhou decidida até ele, encarando-o nos olhos.
–-A sua feriada tinha um diâmetro muito grande para ser causada por um lobo. Fora o fato que não havia marcas de dentes ou se quer garras.
–-Se pensa assim... – deu de ombros estralando os ossos da coluna, pescoço e braços.
–-Isso é muito estranho...
–-Então deixe de ser curiosa. Além do mais, não sou eu quem tem o cabelo cor de rosa. – ela começava a se irritar com a petulância dele. Mas esquecia-se que era tão petulante quanto ele.
–-Como você suporta a temperatura abaixo de zero sem nenhum agasalho? – dizia enquanto aquecia-se com os braços.
–-Eu já disse, sou quente! E pegue seu casaco. – jogou-o para ela que o catou no ar – Já está na hora de ir, não?
–-Está me expulsando? – indignou-se.
–-Não, estou apenas aconselhando.
–-Então guarde seus conselhos!
–-Quer ficar aqui em uma caverna da qual essa fogueira não vai durar nem duas horas? Tudo bem, a escolha é sua.
–-Digo o mesmo pra você.
–-Eu moro na floresta, isso não é problema pra mim.
–-Ora, mas que ingrato!
–-Pelo que? – arqueou a sobrancelha.
–-Eu estava disposta a fica nu... – enrubesceu ao perceber o que ia falar – Eu te tirei da neve e te trouxe até um lugar seguro para te salvar, e olha que foi difícil, e é assim que me agradece?! – cruzou os braços emburrada.
–-Obrigado. – lançou-lhe um sorriso galanteador, embora tenha dito sarcasticamente.
–-Não tem de que. – no mesmo instante, escutou-se um uivado forte e próximo. A afeição do homem tornou-se séria.
–-O que foi isso? – em parte era uma pergunta retórica, afinal era evidente que era um lobo.
–-É melhor você ir. – disse com mais convicção.
–-Ei, mas eu não sei seu nome.
–-Importa?
–-Eu gostaria de saber o nome daquele que eu ajudei. – o uivado tornou-se mais forte.
Em questão de segundos, o homem tomou subitamente a garota no colo e em um piscar de olhos ela estava próxima ao portão da cidade, atônita ao ocorrido. Quanto ao homem? Ele não havia deixado nem um rastro sequer.
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Notas finais
Erros de português ou incoerência? Também me avisem pelos comentários, ficaria grata.
Até o próximo capítulo ^^
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