Back to December
2 Capítulo 2 - All I Gave You Was Goodbye
Notas iniciais
“And then the cold came, the dark days
When fear crept into my mind
You gave me all your love and all I gave you was goodbye”
Oliver Queen
Eu esperei pelo impacto. Pelo som dos ossos se quebrando contra o asfalto gelado de Starling City. Mas ele nunca veio. Ao contrário disso, aterrissei em algo macio. E o vento uivante da queda foi substituído por uma melodia natalina suave e cheiro de chocolate e canela queimados.
Abri os olhos. Eu não estava morto na calçada. Eu estava deitado no tapete felpudo da sala do apartamento que Felicity e eu dividíamos. Sentei-me, o coração falhando uma batida tentando entender como eu estava ali. Nosso apartamento. Havíamos escolhido aquele lugar juntos, próximo ao centro, arquitetura antiga, janelas amplas. Involuntariamente, sorri ao ver as almofadas jogadas no sofá, os livros empilhados de qualquer jeito na mesa de canto. Cada pedacinho daquele caos organizado contava a nossa história.
O sorriso esmaeceu assim que meus olhos pousaram em um porta-retratos sobre a lareira. Felicity, Tommy e eu, sentados debaixo de um velho carvalho na mansão Queen. Tommy não fazia ideia, mas fora naquele dia, minutos depois daquela foto, que Felicity e eu trocamos nosso primeiro beijo.
- Pare de sonhar acordado e levante-se, Ollie! — A voz do Fantasma de Tommy soou divertida, ele estava encostado no batente da porta da cozinha, braços cruzados, observando a cena com uma leve nostalgia. – Ou vai perder a melhor parte!
Levantei-me, desistindo de racionalizar como isso era possível. Meus pés me levaram instintivamente em direção à cozinha, guiados por uma voz que eu não ouvia há três anos.
E lá estava ela.
Ela era ainda mais linda do que eu me lembrava.
Lábios vermelhos, cabelos loiros caindo em ondas suaves sobre os ombros e um sorriso capaz de realinhar o eixo do meu mundo. Havia uma mancha de farinha na ponta do nariz dela e creme de confeiteiro na bochecha.
– Isso não pode estar acontecendo... – Felicity murmurava, encarando a fornada de biscoitos que tirava do forno. — Moira vai odiar. Vai achar que eu sou um completo desastre.
Uma versão minha do passado entrou na cozinha. Ele era tão diferente de mim. Leve. Despreocupado. Feliz, percebi. Ele a abraçou por trás, Felicity virou o rosto levemente se aconchegando em seu abraço.
– Minha mãe vai amar. — garantiu o Oliver do passado, beijando o pescoço dela — Se não amar, eu comerei todos e assim não sobrará prova do crime.
- Oliver! – ela se virou rindo e batendo no meu eu do passado com o pano de prato.
O meu eu do passado aproveitou a brecha para girá-la nos braços e roubar um beijo.
Era possível sentir ciúmes de si mesmo? Meu coração gélido ferveu de ódio, uma vontade irracional de invadir aquela memória, empurrar aquele Oliver ingênuo e reclamar aqueles lábios para mim. Como se eu ainda tivesse algum direito sobre ela.
Desviei meu olhar para o Tommy do passado que cutucava a travessa de biscoitos com uma expressão de dúvida e curiosidade.
- Não podemos dizer que não é crocante — Tommy declarou, mordendo um biscoito que fez um barulho de pedra se quebrando. — Quase quebrou um dos meus dentes, e tem um sabor intenso de...humm... Carvão? Com certeza alguém no masterchef irá amar essa releitura do biscoito de natal, irmãzinha.
- Tommy! — Felicity jogou um pano de prato nele e me vi rindo junto com o meu eu do passado. Os músculos do meu rosto protestaram, haviam se esquecido de como rir. — Pare de zombar da minha desgraça! Eu só queria que fosse perfeito. É o primeiro Natal oficial que passamos todos juntos como... família.
A palavra família pairou no ar, agridoce.
- Nós éramos felizes — a voz do fantasma de Tommy soou ao meu lado. Ele estava encostado na parede, observando a si mesmo com pesar. — Esse foi nosso último Natal.
O Oliver do Passado soltou Felicity e caminhou até Tommy, ficando estranhamente sério.
- Ei, preciso da sua ajuda para escolher um vinho.
- Claro. — Tommy limpou os farelos de carvão da boca. — O dever me chama.
Segui os dois até o pequeno corredor, o Fantasma de Tommy ao meu lado.
- Eu lembro desse momento — o fantasma sussurrou. — Você estava suando frio. Nunca o vi tão nervoso em toda a minha vida.
Na memória, o Oliver do Passado verificou se Felicity não estava ouvindo, enfiou a mão no bolso e tirou uma pequena caixa de veludo preto. Suas mãos tremiam levemente.
- Eu vou fazer o pedido hoje à noite — o Oliver do passado sussurrou, os olhos brilhando com uma mistura de medo e ansiedade. — Na festa de natal da minha mãe. Não na frente de todos, é claro. Felicity me mataria se eu fizesse assim, irei pedi-la no jardim e como seus pais já faleceram eu pensei que deveria ter sua benção. – Terminou encabulado.
- Ollie...
Tommy tinha um sorriso diferente no rosto. Naquela época eu não soube decifrar, estava tão nervoso que não consegui perceber, pensei ser hesitação. Agora observando de fora eu entendia. Era orgulho.
- Você acha que é cedo demais? — Oliver do passado perguntou, inseguro.
- Ollie, olhe para ela. — Tommy apontou para a cozinha, onde Felicity brigava com o saco de confeitar, tentando decorar os biscoitos queimados. — Minha irmã é um desastre na cozinha, mas está lá, tentando impressionar sua mãe. Eu a conheço desde sempre e ela nunca fez um café para me ajudar com a ressaca. — Tommy colocou a mão no ombro do amigo, ficando sério. — Ela não apenas te ama. Você é tudo o que ela sempre sonhou, eu nunca vi minha irmã tão feliz. É claro que você tem a minha bênção! — Ele apertou o ombro de Oliver. Seu sorriso era amplo e completo, mas seus olhos ficaram escuros por um pequeno momento — Só me prometa uma coisa, Ollie. – a voz era séria desta vez — Não quebre o coração dela, ou eu juro que volto do inferno para te assombrar.
O Fantasma de Tommy riu ao meu lado. Uma risada seca e sem humor.
- Parece que eu também vim cumprir uma promessa.
Na memória, o Oliver do passado sorriu, confiante. Alheio em como sua vida mudaria em poucos dias.
- Eu nunca vou machucá-la, Tommy. Eu vou passar o resto da minha vida fazendo-a feliz.
Me encolhi, sentindo fisicamente a dor da promessa quebrada.
Névoa cobriu a cena e a cozinha quente, o cheiro de queimado e as risadas aos poucos desapareceram, permanecendo apenas a confortável sensação de estar em casa. Quando a névoa se dissipou por completo, estava frio novamente.
Estávamos no jardim da Mansão Queen, debaixo da árvore que Felicity e eu trocamos nosso primeiro beijo. A neve caía suavemente parecendo pétalas de flores brancas. O lugar estava lindamente iluminado e estranhamente florido. Como se até mesmos as flores tivessem resistido ao inverno apenas para presenciar aquele momento.
- A resposta — o Fantasma de Tommy apontou.
Vi o Oliver do Passado ajoelhado na neve. Felicity estava parada à frente dele, as mãos cobrindo a boca, lágrimas escorrendo pelo rosto. Mas não eram lágrimas de tristeza. Eu me lembrei daquele momento. Da sensação de que o universo inteiro tinha parado apenas para nós dois.
- Sim! — a voz dela cortou o ar gelado, cheia de certeza. — Sim, sim, sim! Mil vezes sim, Oliver!
O Oliver do Passado levantou-se e a girou no ar. Quando ele a colocou no chão, ele olhou para ela. Eu nunca mais tive aquele olhar. Não era apenas o olhar de um homem apaixonado, mas sim de alguém que tinha encontrado o propósito da vida. Ele deslizou o anel no dedo dela. O diamante brilhou, mas não tanto quanto o sorriso de Felicity.
- Foi o momento mais feliz da minha vida — sussurrei para o fantasma de Tommy.
- Foi — Tommy concordou. — E durou exatamente sete dias.
A névoa retornou. Dessa vez densa, cinzenta e violenta. O lugar ainda era o mesmo, mas dessa vez não havia as luzes do natal. A neve parou de cair e se tornou gelo fino cobrindo o chão e a vegetação que havia sobrevivido ao início do inverno, já havia morrido. Tornando-se nada além de galhos secos e retorcidos.
Três dias após o funeral. Sete dias após o pedido.
Felicity usava um casaco preto pesado. Seus olhos estavam inchados, vermelhos, o rosto pálido sem maquiagem. Ela parecia tão frágil.
- Não... — recuei, assim que entendi do que se tratava. — Não me faça assistir a isso, Tommy.
- Você precisa, Oliver. — Tommy ordenou, sua voz dura. – Precisa encarar o que você fez.
O Oliver que estava ali agora não tinha luz nos olhos. Ele parecia ter envelhecido dez anos em uma semana, curvado sob um peso invisível. Ele não olhava para Felicity. Ele olhava para um ponto fixo no horizonte, frio e distante. Seu rosto estava duro, o maxilar travado. Acima dos olhos um pequeno curativo. Um acidente terrível onde duas pessoas morreram e o responsável por isso saíra com um mísero corte.
Felicity estava parada à frente dele, tremendo. Não de frio, mas de choque.
- O que você está dizendo? — a voz dela era um fio quebrado. — Oliver, por favor, olhe para mim.
- Acabou, Felicity — a voz do meu eu do passado era mecânica, sem vida. Como se tivesse ensaiado várias vezes o discurso até atingir o tom preciso de frieza. — Eu não posso fazer isso. Eu não posso ter distrações. A empresa precisa de mim. Minha família precisa de mim.
- Eu sou sua família! — ela gritou, segurando o braço dele. — Nós vamos nos casar! Precisamos ficar juntos agora, mais do que nunca.
- Não vamos e não precisamos. — ele se soltou do toque dela como se ela queimasse. E talvez realmente queimasse seu coração gélido. — Foi um erro. Eu cometi um erro.
Eu vi o momento exato em que parti seu coração. Não houve som, mas foi ensurdecedor.
- Diga que não me ama. — Ela se agarrou aquele último fio de esperança, segurando a manga do meu casaco. Como se pudesse me segurar ali e impedir de ir embora.
- Não me peça para dizer que não te amo. – me vi dizendo, sabendo que meu eu do passado pensou exatamente isso, mas não teve coragem de dizer. O Oliver do passado endureceu todo o corpo e com uma expressão fria destruiu o coração de quem ele mais amava.
- Não sou mais capaz de amar, Felicity. — ele mentiu, a voz tão fria quanto o inverno ao redor. — Não você. E nem ninguém.
- E foi nesse momento que você quebrou a promessa, Ollie. Você partiu o coração da minha irmã. E ao fazê-lo... você congelou o seu.
Felicity recuou um passo as palavras de Oliver atingindo-a como um tapa. Ela olhou para a mão esquerda. Para o anel que brilhava ali, uma promessa feita em outra vida. E com as mãos trêmulas, ela o retirou.
- Oliver... — ela tentou entregar, mas ele não se moveu.
- Fique com ele — ele disse, tentando se manter indiferente — Venda. Doe. Não me importa.
- Não — ela pegou a mão dele e forçou o anel contra a palma, fechando os dedos dele ao redor do metal gelado. — É seu.
Ela se virou e correu para a noite.
Levando consigo o último resquício de calor que poderia derreter um coração frio.
O Oliver do passado permaneceu imóvel, como uma perfeita estátua de gelo no jardim morto. Ele apertava o anel com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Somente quando o som do carro dela desapareceu na estrada, ele abriu a mão. Olhou para o diamante solitário. E, pela primeira e última vez, permitiu-se desabar.
O Fantasma de Tommy se aproximou do meu eu do passado, olhando para o anel na mão dele.
Com um grito gutural de frustração e raiva Oliver jurou a si mesmo que aquela seria a última vez que se permitiria sentir algo tão intenso. Meu eu do passado girou o corpo, o braço formando um arco perfeito e então arremessou o anel com toda a força em direção à escuridão do jardim, se livrando de qualquer lembrança do amor mais intenso que sentiu na vida.
- Não! — eu gritei, tentando impedir meu eu passado, mas eu era apenas um espectador.
Eu conhecia seu destino, ficaria perdido para sempre. Eu o procuraria depois, em uma noite de embriaguez e um breve momento de lucidez, caindo de joelho na neve suja. Me lembro de cavar a terra congelada até machucar meus dedos. Mas nunca o encontrei.
Diferente da minha lembrança embora o anel girasse no ar com uma lentidão torturante, ele nunca tocou o chão.
O tempo desacelerou, até quase parar.
Contrariando todas as leis da física, o anel girava vagarosamente no ar mantendo-se suspenso.
O fantasma de Tommy no entanto se moveu em velocidade normal, caminhando tranquilamente. Ele esticou a mão pálida, sem pressa, como quem pega um floco de neve caindo do céu. Seus dedos se fecharam ao redor do anel, segundos antes dele desaparecer no breu da noite.
O tempo voltou ao normal. O Oliver do passado caiu de joelhos chorando, se permitindo sentir o peso do que havia feito.
Mas eu via a verdade.
Tommy abriu a mão, revelando a joia intacta em sua palma translúcida. Ele olhou para o anel com tristeza e depois se virou para mim, fechando os dedos sobre ele.
- Você tentou jogar sua felicidade fora, Ollie — Tommy disse, guardando o anel no bolso do seu terno. — Mas eu a guardei para você. Para quando você estiver pronto para merecê-la de novo.
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