Back to December

3 Capítulo 3 - Burned in The Back of Your Mind


Notas iniciais
Chegou capítulo fresquinho :)

“Because the last time you saw me

Is still burned in the back of your mind

You gave me roses and I left them there to die”


Oliver Queen

A terceira vez que a neblina densa nos atingiu, eu já estava preparado para ela. Meu coração estava quase ansioso na verdade. Queria eliminar aquela última visão, então me apeguei esperançoso a ideia de poder ver Felicity novamente, com o coração inteiro e um sorriso no rosto. Dessa vez luzes douradas perfuraram a densidade da névoa. Fui atingido por uma onda de calor, cheiro de pinheiro fresco e música natalina clássica se misturando ao som de várias pessoas conversando e tilintar de taças.

– Onde estou? – perguntei, sem reconhecer os rostos.

– A festa anual de natal da família Queen. – Tommy informou – Esse é o primeiro ano que a sua mãe a organiza após o acidente. Parabéns, você conseguiu o dinheiro necessário para isso! – Deu tapinhas em meu ombro.

Depois de ouvir Tommy falar, entendi. Era mesmo a mansão dos Queens. Havia tanto tempo que eu não pisava na casa da família que por um momento eu me esqueci de como era em seu auge. Mas era melhor assim, haviam muitas lembranças em todo o lugar. A mansão estava incrível, ainda melhor do que costumava ser. Guirlandas adornavam a escadaria com grandes e elaborados laços de veludo, uma árvore de quase cinco metros preenchia o centro do salão com seus ornamentos dourados e vermelhos. Garçons circulavam com bandejas de prata servindo champanhe e canapés variados.

– As festas da família Queen sempre foram as melhores! – Tommy falou pegando uma taça de champanhe de um dos garçons que passava e dando um longo gole. Balancei a cabeça desistindo de racionalizar aquilo. – Oh, ali está Moira Queen.

Minha mãe estava linda usando um elegante vestido verde esmeralda e ria de algo que Walter lhe falava. Os dois haviam se casado há pouco mais de dois meses em uma cerimônia intimista no jardim da mansão, não pude ir. Na verdade, inventei uma desculpa para não ir. Não que eu não estivesse feliz por minha mãe seguir em frente, e estava certo de que meu pai, aonde quer que estivesse, também gostaria de saber que ela havia encontrado um bom homem para lhe fazer companhia.

Vi Thea logo atrás deles e quase recuei. Ela não parecia mais a garotinha que me seguia pela casa tentando me acertar com um arco e flecha de brinquedo. Ela estava mais alta, com um rosto sério e mais adulto, que não combinava com a idade dela.

– Elas parecem bem – comentei, sentindo um misto de alívio e uma pontada estranha no peito ao perceber quão rápido o tempo passara. – É tudo o que eu queria para elas. Eu não sei o que queria que eu visse aqui Tommy. – Virei-me para o meu amigo – Meu objetivo está cumprido, todos estão felizes. – Felizes sem mim, completei apenas em minha mente.

Vi minha mãe se dirigir para o centro do salão, ao lado de Walter e Thea. Ela bateu levemente com um talher na taça de cristal, pedindo silêncio. O burburinho cessou imediatamente, todos os olhos estavam nela, inclusive os meus.

– Gostaria de propor um brinde – a voz dela era elegante, mas carregava uma fragilidade que poucos notariam. – À Queen Consolidated e ao ano incrível que tivemos. Recuperamos nosso legado e o futuro é esperançoso.

Os convidados murmuraram aprovações. Minha mãe ergueu a taça um pouco mais alto, seus olhos varrendo a multidão, procurando por um rosto que ela sabia que não encontraria.

– E ao meu filho, Oliver. Que tem trabalhado incessantemente para tornar tudo isso possível... – A voz dela vacilou por um milésimo de segundo. – Mesmo que ele nunca esteja aqui para aproveitar conosco o que reconstruiu.

– Ao Oliver – Walter completou, segurando a mão dela.

– Ao Oliver – os convidados repetiram.

Eu estava parado a poucos metros deles, mas nunca me senti tão distante. Eu era o fantasma na minha própria festa.

– Você falou com ela? – escutei minha mãe perguntar à Thea, num sussurro ansioso, assim que o brinde terminou.

– Convidei Felicity pessoalmente – Thea suspirou. Meu coração deu um solavanco e me vi vasculhando o salão a procura dela. – Eu insisti para que viesse. Achei que não devíamos deixar ela sozinha na data de hoje, considerando... tudo.

– Talvez seja melhor assim – minha mãe ponderou decepcionada. Não pude deixar de sentir o mesmo. Egoisticamente queria uma lembrança dela em um vestido bonito e um sorriso feliz no rosto. – Estar aqui traz muitas memórias para ela. Assim como traz para Oliver.

Minha mãe estava certa? Estaria Felicity ainda presa à essas lembranças assim como eu? Não. Rechacei o pensamento. Já tinham se passado três anos. Ela estava bem. Tinha que estar bem.

– Felicity não veio e disse que tinha um compromisso – Tommy falou com um leve ar enigmático.

– Isso é bom – murmurei. – Ela precisa seguir em frente. Longe da nossa família.

– Será? – Tommy ergueu uma sobrancelha. – Vamos ver esse "compromisso".

Ele estalou os dedos.

E lá estávamos nós, sendo carregados novamente pela névoa.

O cenário mudou num piscar de olhos. A música clássica foi substituída por uma batida eletrônica alta. Estávamos em uma cobertura moderna, repleta de pessoas jovens e animadas. Reconheci a anfitriã imediatamente, a melhor amiga de Felicity Helena Bertinelli. Ela segurava o braço de Felicity com firmeza, guiando-a pela multidão como se ela fosse uma criança perdida.

Felicity estava deslumbrante em um vestido vermelho curto, os cabelos mais longos do que me lembrava quase atingindo a cintura, porém parecia um pouco desconfortável. Ela sorria para as pessoas, acenava... Mas o sorriso morria antes de alcançar seus olhos.

– Felicity, você precisa conhecer ele! – Helena gritou sobre a música, parando na frente de um homem alto, de terno caro e sorriso fácil. – Ray, essa é a Felicity Smoak. Felicity, esse é Ray Palmer. E vocês dois são os maiores nerds que eu já conheci! Perfeitos um para o outro.

– Que sutil, Helena. – Felicity comentou, a voz tensa.

Ray estendeu a mão, encantado.

– Ouvi dizer que você é a mulher que pode hackear o Pentágono com apenas um tablet. E Helena esqueceu de mencionar que é a mais bonita da festa também.

Era o tipo de cantada que faria a antiga Felicity revirar os olhos e rir nervosamente. Mas a Felicity do presente apenas apertou a mão dele, educada.

– É um prazer, Ray. – disse – Helena exagera, no máximo eu consigo hackear a Nasa usando um tablet. Para o Pentágono eu precisaria de pelo menos um notebook. – Me vi acompanhando o riso do homem.

– Eu estava esperando que pudéssemos conversar sobre a Palmer Tech – Ray começou, dando um passo à frente, invadindo o espaço pessoal dela com entusiasmo. – Estou precisando de uma Vice Presidente que entenda de tecnologia tanto quanto entende de...

– Não é o momento de falar de trabalho – Helena interveio, piscando. – Ray é bonito, inteligente e está solteiro!

Vi o momento exato em que o pânico tomou conta de Felicity. O ar pareceu faltar. O otimismo de Ray, a luz que ele irradiava... era demais para ela.

– Desculpe – ela murmurou, soltando a mão dele como se queimasse. – Eu... eu preciso ir ao banheiro.

Ela não foi ao banheiro. Ela foi direto para a saída, pegando seu casaco e ignorando os chamados de Helena.

– Ela está fugindo – observei, contrariando todos os meus desejos para ela senti um alívio egoísta por ela não ter ficado com Ray.

– Ela está sufocando – Tommy corrigiu. – Vamos para onde ela realmente quer estar.

O barulho da festa desapareceu. Agora estávamos no silêncio da casa dela. Felicity havia se mudado para uma pequena casa no subúrbio de Starling City, algo mais longe da agitação. Eu tinha ouvido falar mais nunca tinha visto o lugar.

Era bonito e organizado, a última parte fugindo um pouco do padrão, já que ela tinha a tendência a espalhar suas coisas por todo o canto. Busquei por seus detalhes no lugar. Pelas almofadas estampadas, pelos prendedores de cabelo que ela sempre perdia pela casa, por qualquer coisa da Felicity que conheci... Mas não encontrei nada. Também notei que não havia árvore de natal ou luzes.

Felicity entrou, trancando a porta e encostando a testa na madeira fria por um longo momento. Ela soltou um suspiro trêmulo, como se tivesse segurado o fôlego a noite toda. Tirou os sapatos de salto alto, jogando-os num canto, e caminhou descalça até a estante da sala. Havia apenas uma luz acesa no corredor adjacente que iluminava um porta-retratos específico que eu conhecia muito bem.

Na foto estávamos nós três. Eu, Tommy e ela. Debaixo daquele carvalho no jardim da mansão. Jovens. Felizes. Ignorantes do futuro.

Felicity tocou o vidro com a ponta dos dedos, traçando o rosto de Tommy e depois o meu. Ela pegou o porta-retratos abraçando-o com força contra o peito e deixou-se cair no chão.

– Eu tentei – ela sussurrou para a foto, a voz embargada. – Eu juro que tentei, Tommy. Helena disse que eu precisava sair, que já faz três anos... Mas hoje não é um dia bom – as lágrimas finalmente vieram, silenciosas. – Talvez ano que vem. Talvez ano que vem doa menos.

Eu me ajoelhei na frente dela, tentando inutilmente secar uma lágrima que escorria por sua bochecha. Mas minha mão atravessou seu rosto, me lembrando que eu não estava ali de verdade. Que eu não tinha estado nos últimos três anos enquanto ela sofria. Eu era apenas um expectador da dor que causei.

– Eu sinto muito, Felicity – eu disse, mesmo sabendo que ela não podia me ouvir. – Eu sinto muito por ter te deixado sozinha.

Mas o que ela disse a seguir quebrou ainda mais meu coração.

– Eu queria que vocês estivessem aqui – ela soluçou, apertando a foto. – Me desculpe. Deus, me desculpe. Se eu não tivesse...

A frase morreu na garganta dela e o choro veio, doloroso e solitário. Ela se agarrava aquela foto como se fosse a única coisa que a mantinha inteira. Tommy olhava para a irmã chorando no chão com uma ternura devastadora.

Franzi a testa, o coração apertado.

Senti o olhar de Tommy queimar sobre mim, com uma acusação silenciosa.

– Por que ela está pedindo desculpas? – perguntei, a confusão misturada com a angústia de não poder fazer nada. – Eu dirigia o carro. Eu perdi o controle no gelo. A culpa é minha.

– Você é tão arrogante, Ollie. Acha que tudo gira em torno das suas ações.

– Do que você está falando? Eu matei você e meu pai!

– Você acha que se sentir culpado pela minha morte é exclusividade sua, Oliver? – Elevei meu rosto o encarando. Meu coração acelerado dentro do peito.

– Do que você está falando? – Minha mente estava confusa, como sempre ficava quando o assunto era aquele acidente.

– O carro dela não pegou naquela noite, lembra? – Tommy disse suavemente. – Ela pegou o meu emprestado para ir comprar as malas para a viagem de ano novo que vocês fariam. Como ela estava com o meu carro... – Tommy continuou, implacável -... eu fiquei a pé e pedi uma carona para você.

Olhei mais uma vez para Felicity, encolhida no chão sentindo o peso de um “E se”.

– Ela acha que a culpa é dela. – constatei, horrorizado.

– Ela pensa nisso todos os dias – Tommy confirmou. – “Se eu não tivesse pegado o carro do Tommy, ele não estaria no carro do Oliver. E ele estaria vivo.” – Tommy se aproximou de mim, os olhos sérios. – Você carrega a culpa pelo acidente, Oliver. Mas ela carrega a culpa pelo destino. Você fugiu para se punir, mas a deixou sozinha achando que ela matou o próprio irmão.

A revelação me destruiu mais do que eu imaginava ser possível. Eu não a havia protegido. Eu não a havia salvado. Eu a abandonei no mesmo inferno em que eu vivia, mas sem ninguém para segurar a mão dela.

– Você deveria ter sido a pessoa que deveria dizer a ela que acidentes acontecem e que a culpa não é de ninguém... Mas você olhou para ela, viu somente a sua culpa, não aguentou e foi embora.

Tommy se agachou ao meu lado, olhando nos meus olhos.

– Você achou que estava protegendo-a se afastando, porque olhar para ela te lembrava do que você fez. Mas Oliver... Você nunca pensou que olhar para você lembrava a ela do que ela acha que fez? Vocês dois estão se afogando na mesma culpa, em lados opostos de um abismo que você construiu.

Olhei para a mulher que eu amava, destruída pela mesma dor que me consumia. Eu entendi tudo errado. Eu não estava sendo um mártir pagando pelos meus pecados. Estava sendo apenas um covarde.

– Eu preciso consertar isso – falei, levantando-me, a urgência queimando em minhas veias. – Eu preciso dizer a ela.

– Ainda não – Tommy se levantou também. – Você viu o Passado que desperdiçou. Viu o Presente que está ignorando. Agora... você precisa ver o preço final.

– O Futuro? – perguntei, com medo.

– O Futuro onde você enxerga as consequências das suas escolhas – Tommy disse sombriamente.


Notas finais
O que será que espera no Futuro do Oliver? Acho que nada bom. Até o próximo capítulo!