Back to December

1 Capítulo 1 - Freedom Ain't Nothin' But Missin' You


Notas iniciais
Hello! Estou aproveitando minhas férias (que já estão acabando) para escrever um pouquinho. Essa história de natal é uma que já tenho há muitos anos na minha mente, mas nunca tive a chance de realmente escrevê-la. Inspirado na música da Taylor Swift e no clássico do "Um Conto de Natal", Back to December é uma história dramática, então para quem gosta pegue seus lencinhos! É uma fanfic curtinha com um capítulo por dia até o natal (ou seja, quatro capítulos no total) Espero que gostem!

“It turns out freedom ain't nothin' but missin' you

Wishin' I'd realized what I had when you were mine”


Oliver Queen


O silêncio no vigésimo primeiro andar da Queen Consolidated tinha um peso diferente naquela noite. Não era a calmaria habitual do pós-expediente, aquela que eu costumava apreciar enquanto trabalhava até a exaustão ou dormia no desconfortável sofá da sala da presidência. Não. O silêncio daquela noite era vazio. Opressor. Mesmo horas depois de os funcionários terem partido e levando consigo a irritante animação festiva, resquícios daquela alegria permaneciam no ar, me incomodando mais do que eu admitiria.

Com um toque firme, apertei a tecla enter. O último e-mail do dia foi enviado, confirmando um contrato de parceria que mudaria o rumo da empresa para sempre. Amanhã mesmo o nome da Queen Consolidated estamparia as capas das principais notícias de negócio do país.

Recostei-me na cadeira de couro.

Eu havia conseguido.

A promessa feita diante de dois túmulos estava cumprida. Três anos depois, a dívida que quase nos engoliu após o funeral do meu pai estava quitada. As ações estavam em alta. A Queen Consolidated não era apenas uma empresa salva, era um império que reergui das cinzas.

Tentei sorrir. Mas a sensação que eu esperava não veio.

Não havia euforia, nem mesmo uma leve satisfação pelo dever cumprido. Havia apenas a sensação de uma conquista vazia.

Girei a cadeira contemplando a janela de parede inteira do meu escritório.

Lá fora, a neve caía suavemente, cobrindo Starling City com um manto alvo. As luzes natalinas nos prédios vizinhos pintavam a noite com pontos verdes, vermelhos e promessas de felicidade. Lá fora havia risadas e calor, apesar de ser inverno.

Havia vida.

Então era melhor eu permanecer em minha sala, fria e escura, onde nada disso pudesse me atingir.

– Oliver?

A voz de Diggle rompeu a bolha dos meus pensamentos. Ele estava parado à porta, casaco na mão e uma expressão solicita no rosto.

- Já estou indo. – avisou — Precisa de algo? Ainda tenho que passar na padaria para comprar a torta favorita de Lyla e pegar os presentes dos gêmeos na casa da avó, mas tenho alguns minutos para você.

Senti uma pontada de inveja, rápida e dolorosa. A vida seguiu para John, a vida seguiu para todos, exceto para mim.

– Não, pode ir. – Diggle assentiu, mas não deixou a sala. Aquele olhar paternal e preocupado que eu aprendi a evitar estava lá, me analisando.

– E você? – sondou, mas não respondi. – Sua mãe me ligou. A ordem expressa era te empurrar porta a fora antes das seis...

Num reflexo olhei para o meu relógio no pulso que marcava 18:33.

– Isso não vai acontecer – respondi, sem encará-lo e fingindo analisar um dos contratos em cima da mesa que já havia assinado. – Ainda tenho muito trabalho a fazer. – Menti.

Diggle suspirou. O som cansado de quem já lutou aquela batalha mil vezes e sempre saíra perdendo. Ele caminhou até mim e sua mão pesou no meu ombro.

– Robert estaria orgulhoso, Oliver. – Ouvir o nome do meu pai ainda era doloroso, quase um golpe físico. – Não pelo império que você construiu, mas pelo homem que você é. — Ele pausou, a voz baixando um tom. — Já passou da hora de você se permitir viver um pouco.

Travei o maxilar. Assenti apenas para que ele fosse embora, mantendo minha armadura intacta. Diggle não entendia. Ninguém entendia. Bem, talvez houvesse uma pessoa. Uma única pessoa capaz de destruir minhas defesas e me fazer desabar.

Não ouse pensar nela. Você não é digno de sequer da memória nela.

As palavras gritaram dentro da minha cabeça. Voltei minha atenção para Diggle com deliberada frieza, sem permitir que suas palavras ou sua gentileza penetrassem na armadura de aço que cuidadosamente construí ao longo de três anos.

– Feliz natal, Oliver. – Disse por fim, ao perceber que não obteria de mim a resposta que queria.

– Feliz natal, Jonh. – Retribui.

O sorriso que ofereci a ele foi uma falsificação perfeita. Uma máscara que eu usava há três anos. Três anos desde a noite em que o asfalto congelado, um volante e minhas próprias mãos tiraram a vida do meu pai e do meu melhor amigo Tommy.

Assim que a porta se fechou, o celular vibrou sobre a pilha de contratos assinados, o som do zumbindo do metal contra a madeira, quebrando minha linha de pensamento. A foto de Thea iluminou a tela, seguida de uma mensagem de texto.

“Mamãe está perguntando se deve esperar para o brinde da meia-noite. Por favor, Ollie. Não faça isso de novo.”

O "de novo" pairou no ar, pesado.

Deslizei o dedo pela tela, não para responder, mas para virar o aparelho para baixo, escondendo o rosto esperançoso da minha irmã contra a mesa. Eu não podia ir. Não podia sentar naquela sala de estar perfeitamente decorada, com a árvore enorme e ver minha mãe sorrindo nos braços do Walter, o novo marido. Ver Thea radiante contando sobre a faculdade ao lado do seu namorado, sabendo que eu era a única peça que não se encaixava naquela família perfeita.

Eu fiz isso por elas. Sacrifiquei cada pedaço de quem eu era para garantir que elas pudessem sorrir assim novo. Sacrifiquei quem eu mais amava. Esse era o preço necessário e ainda assim não parecia suficiente.

E lá estava novamente meus pensamentos traidores indo até ela.

Eu evitava pensar nela.

Todos os meus dias eram uma luta constante para evitar que minha mente se lembrasse dela. Era por isso que eu me enterrava no trabalho, que fugia de tudo o que pudesse me lembrar do seu cheiro, do som do seu riso ou de como seu rosto se iluminava quando me via. Porque eu sabia que, no instante em que me permitisse sentir a falta dela, eu cederia. Eu iria querer estar com ela novamente.

E todo o meu sacrifício perderia o propósito.

Apoiei os cotovelos na mesa e enterrei o rosto nas mãos, permitindo-me, por apenas um segundo, sentir o peso exaustivo daquela armadura, que parecia ainda mais pesada.

Era o peso da ausência dela.

Meus olhos pousaram involuntariamente no sofá de couro no canto da sala. A memória me atingiu com a força física de um golpe. Foi ali. Naquele mesmo sofá. Logo após o funeral do meu pai e de Tommy. Quando o mundo esperava que eu fosse forte, foi ali que eu desmoronei. E foi ali que ela me segurou.

Mesmo quando seu próprio coração sangrava a perda do irmão.

Fechei os olhos e quase pude sentir o cheiro dela novamente, me anestesiando. Deus, como eu sentia falta dela. Ainda me lembrava daquela noite com uma clareza dolorosa. Foi a primeira vez que ela me viu chorar. Ela não disse que tudo ficaria bem, não tentou consertar nada. Ela apenas envolveu os braços ao redor dos meus ombros trêmulos e me segurou enquanto eu me partia em pedaços, juntando meus cacos com a força do próprio corpo dela.

Ela era a única que não tinha medo da minha escuridão. Era a única que a iluminava. E por isso era a única que eu não poderia ter.

- Eu sacrifiquei minha vida com ela — sussurrei para a sala vazia, a confissão queimando minha garganta mais do que o uísque faria. – Para que pudesse corrigir todo o resto.

Levantei-me, caminhando até o pequeno bar no canto da sala, fugindo daquele sofá e daquela memória.

Fiz o que era certo.

Aquela pequena voz moldada pela culpa disse para mim.

- Fiz o que era certo — repeti em voz alta para tentar me convencer, servindo-me de uma dose de uísque puro. Eu precisava que queimasse. — Eu não a merecia.

A temperatura da sala caiu de uma só vez. Como se alguém tivesse arrancado as janelas e deixado a nevasca de Starling City invadir o escritório. O aquecedor soltou um zumbido agudo, morrendo logo em seguida. Minha respiração quente formou uma nuvem branca diante dos meus olhos.

As luzes do teto piscaram. O monitor do meu computador chiou e apagou.

Estiquei a mão para pegar um floco de neve que caia a minha frente. Ele derreteu na palma de minha mão. Real. Frio.

- Mas que diabos...?

Girei o corpo encarando o escritório que mais parecia o polo norte. O chão de madeira nobre, os móveis de couro, tudo estava sendo coberto por uma fina e nada factível camada de neve.

Caminhei até a janela de vidro, meus sapatos quase deslizando na camada fina de gelo.

Algo deve ter acontecido para toda essa neve entrar. Talvez a janela tivesse se estilhaçado, talvez fosse algum problema no telhado, mas quando meus olhos focaram no vidro, ele estava intacto, mas algo estava muito errado. Não foi a peculiaridade de estar nevando em um ambiente fechado que me assustou, e sim o reflexo que vi atrás de mim.

O copo de uísque escorregou dos meus dedos, estilhaçando-se no chão.

Havia alguém parado no meio do escritório. Alguém usando um terno cinza impecável e aquele sorriso torto que eu não via há três anos.

- Você sempre teve um péssimo gosto para bebidas quando está se sentindo culpado, Ollie. — Girei o corpo devagar, meu coração martelando contra as costelas.

- Tommy? — minha voz saiu como um sussurro quebrado.

Ele colocou as mãos nos bolsos, inclinando a cabeça de lado.

- Em carne e osso... Bom, na verdade só em espírito. – Ele sorriu, quase encabulado.

Dei um passo para trás.

- Isso não é real. – balancei a cabeça, apertando os olhos. – Devo estar sonhando ou tinha algo no uísque.

- Você sequer chegou a encostar os lábios no copo.

A voz de Tommy soou mais perto. Quando abri os olhos, ele estava a centímetros de mim. O frio que irradiava dele era quase palpável.

- Você não está aqui! Eu estou alucinando. – deixei-me cair no sofá, buscando apoio físico para a minha sanidade, mas Tommy sentou-se bem ao meu lado cruzando as pernas casualmente. Senti seu peso afundar o estofado. Como isso era possível?

– Você sempre foi o rei da negação, Ollie – revirou os olhos para mim – "Eu estou bem", "Eu não preciso de ajuda". — Ele imitou meu tom grave com um escárnio doloroso, e então sua expressão endureceu. — "Eu preciso terminar com a mulher da minha vida porque não mereço ser feliz".

A menção a ela vindo dele me atingiu como uma flecha em chamas bem no centro do meu coração congelado.

- Eu fiz isso por eles. — defendi-me, a voz trêmula. — Eu salvei a empresa. Cuidei da Thea. Da minha mãe. Eu não poderia me... – escolhi a palavra com cuidado – ... me distrair com ela quando havia tanto a fazer.

- Se distrair...? — Tommy se levantou abruptamente — Não me faça te dar um soco na cara, Ollie. — a expressão de Tommy havia mudado para algo mais sombrio — Eu tenho certeza que mesmo em espírito sou capaz de te deixar com um olho roxo.

- O que você esperava que eu dissesse?

- Que você sempre foi enlouquecidamente apaixonado pela minha irmã! – Perdeu a paciência, a voz ecoando nas paredes de vidro da minha sala — Você pode ter mergulhado no trabalho para cuidar das dívidas que seu pai deixou, para se distrair da dor. Mas não ouse me ofender dizendo que Felicity foi apenas uma distração para você.

E ali estava.

Fechei os olhos, absorvendo o impacto do que simplesmente ouvir o nome dela fazia comigo.

Felicity.

Meu coração gelado derreteu, subitamente lembrando-se de como era bater.

- Isso foi há três anos. – murmurei, levantando-me e caminhando até a janela novamente, dando as costas para ele. Eu precisava olhar para fora. Precisava que a cidade lá embaixo me lembrasse do mundo real. Do meu mundo frio.

- E três anos não seria o suficiente para você esquecê-la.

Nem mesmo uma vida. Confessei apenas para mim.

- Você precisa desaparecer. – ordenei, sem me virar.

- Uau. – Senti a aproximação dele, o ar ficando mais frio às minhas costas. — Seu melhor amigo volta dos mortos na véspera do natal e é assim que você me trata? Eu esperava fogos de artifícios, champanhe e talvez um abraço.

- Tommy. – minha garganta arranhou quando disse seu nome — Eu não consigo fazer isso.

- Eu sei. – a voz dele suavizou, carregada de uma condescendência que eu não merecia — É por isso que estou aqui, para te ajudar.

Eu não sabia se Tommy era um fantasma ou se era apenas uma alucinação de uma mente cansada demais. Mas eu sabia, por fato, é que a pressão da mão dele em meu ombro era real.

- Eu matei você. – confessei ainda olhando para o vidro.

- Não Ollie, você não me matou. – mesmo ouvindo-o dizer, eu não aceitava. Era eu quem dirigia o carro. — A única coisa que você matou aquela noite foi a si mesmo quando tirou Felicity da sua vida.

Lá estava o nome dela outra vez, acompanhado de verdades que eu não queria ouvir.

- Eu a protegi! — gritei, reagindo com raiva e desvencilhando do seu toque. Eu preferia sentir a raiva do que dar espaço para a culpa. — Eu não sou bom pra ela, Tommy. Felicity... – até mesmo o nome dela em meus lábios parecia errado. Como se eu não fosse digno de dizê-lo — Ela merecia luz, e eu só tinha escuridão para dar. Eu matei você! Como você queria que eu olhasse para ela todos os dias sabendo que eu matei o irmão que ela tanto amava? Então sim, eu a sacrifiquei para que ela pudesse ter uma chance de ser feliz longe da minha bagunça!

- Que nobre — Tommy zombou, caminhando até a janela. — O mártir Oliver Queen. Você diz que a sacrificou para protegê-la, mas nós dois sabemos a verdade. Você a afastou porque tinha medo. Medo de que aquele abraço que você estava lembrando agora a pouco... fosse a única coisa que te mantivesse vivo. E você não acha que merece estar vivo, não é? Não depois do que aconteceu comigo e com seu pai. – Eu não queria ouvi-lo. — Não é sacrifício, Oliver. É punição.

Abaixei a cabeça, incapaz de encará-lo. Ele lia minha alma com uma facilidade aterrorizante.

- Eu não mereço ser feliz — a confissão saiu num sussurro.

Tommy suspirou.

- Você é um idiota teimoso, mas ainda é meu melhor amigo. Eu não morri para que você se tornasse isso. Uma estátua de gelo numa sala vazia.

- Eu não tive escolha! — explodi, a verdade que eu guardava há três anos finalmente rasgando minha garganta. — Como eu poderia ficar com ela, Tommy? — Ergui os olhos, marejados de vergonha — Toda vez que ela sorria para mim... eu via você. Toda vez que ela me abraçava, eu sentia o peso do caixão que eu ajudei a carregar. — Minha voz falhou, tornando-se um sussurro rouco.

Tommy ficou em silêncio por um longo momento. A expressão dele mudou de sarcasmo para uma decepção profunda que doeu mais do que qualquer soco.

- Então essa é a sua desculpa? — ele perguntou calmamente. — Você decidiu bancar o Deus e escolher o que era melhor para ela? Você a abandonou quando ela mais precisava de você, Oliver. Você a deixou sozinha para lidar com o luto do irmão e a perda do amor da vida dela, tudo de uma vez.

- Eu a protegi!

- Você se protegeu! — Tommy rebateu, a voz ecoando como um trovão. O escritório pareceu tremer. — Você não suportava a culpa, então fugiu. Você usou a minha morte como escudo para não ter que enfrentar o medo de amá-la. E quer saber o pior? Você quebrou a única promessa que eu te pedi para fazer.

Meus olhos se arregalaram. A lembrança daquela promessa era uma faca no meu peito.

- Eu tentei...

- Não. Você desistiu. — Tommy estendeu a mão pálida em minha direção. — Eu vim aqui cobrar essa dívida, Ollie. Mas primeiro, você precisa pular.

- O quê?

Antes que eu pudesse reagir, Tommy avançou. Não houve suavidade dessa vez. Ele me empurrou com força contra a janela. O vidro, que deveria ser inquebrável, cedeu como se fosse feito de névoa. O vento gélido de uma noite de inverno invadiu a sala. O chão sumiu sob meus pés.

E, de repente, eu estava caindo do vigésimo primeiro andar da Queen Consolidated.