Bacanal
13 Santa Hipocrisia - Parte 1
Notas iniciais
Parte 1: Os ruídos
Não quero ouvir meus sons
Quero silencio em meu mundo interior
Uma comunhão íntima com o silencio
Essa é minha oração mais valiosa
Na ausência de palavras
Só a essência fala
Estou cansado
Caminho carregando
Sentimentos pesados
E intensidades ferozes.
— Zack Magiezi
Ele estava correndo. Tinha visto o vislumbre dos cabelos dela por entre as árvores. Estava perto. Muito perto. Se ele corresse um pouco mais, se fosse um pouco mais veloz, poderia alcança-la. Poderia tocá-la. Poderia finalmente lhe dizer...
O quê?
Me desculpe por ter te amado? Me desculpe por ter te destruído?
Existe alguma diferença?
As folhas em que ele encostava pegavam fogo. A grama em que ele pisava se carbonizava até a raiz. E tudo o que ele deixava para trásera um rastro de cinzas. Por que era isso o que ele era — A própria destruição.
Apolo parou.
Estava na borda de um precipício, um buraco imenso no meio de uma clareira. Um abismo em luz, um abismo sem fim.
— Você o construiu. — disse uma voz.
Apolo se virou para ver Eros ali, parado ao seu lado, estudando serenamente os limites do buraco. O Cupido ergueu os olhos pretos para ele, tão profundos quanto o abismo que rodeavam.
— Você sabe disso. Não sabe? — ele perguntou.
— Eu sei...
E de fato sabia. Quase via a terra e lama que ele cavou a anos sem conta, manchando sua a pele e roupas.
— Mas eu ajudei... — o Cupido confessou, olhando para as próprias mãos. Estavam sujas.
— Não o tempo todo. — Apolo decretou.
Eros apenas assentiu.
— Ele está te chamando... — Disse o Cupido, por fim.
Quando Apolo virou-se para perguntar-lhe “Quem?”. Ele não estava mais ali. No lugar onde antes pisava, nascera um jacinto.
— Você definitivamente está me seguindo. — concluiu uma voz meiga e conhecida atrás dele.
Apolo virou-se devagar.
Ele estava ali, do outro lado do precipício. Os cabelos cor de caramelo caindo sobre seus olhos escuros.
O rapaz sorriu para ele, mostrando seu par de covinhas.
— Saia daí, seu tarado preguiçoso! — ele reclamou, sempre tão atrevido. — Aposto que lanço melhor do que você...
— O quê...? — Apolo começou a dizer, quando viu o disco. — Não...
— Ora, vamos. Vai ser divertido!
— Não! — Ele estava correndo outra vez, contornando as pressas aquele precipício.
— Mas o abismo era tão grande...
— Jacinto, saia daí!
— Ah, que foi? Está dizendo que eu não faço o tipo atlético? -Jacinto questionou, fazendo bico.
— Jacinto, por favor, saia daí. Saia daí agora!
— Certo, eu não faço... — rapaz concluiu por si só. — Mas isso não quer dizer que sou completamente imprestável!
— Não... Por favor, não... — Apolo murmurava, muito consciente de que nunca chegaria a tempo. — De novo não...
O rapaz se virou para a vista outra vez, ao tempo perfeito do disco acertá-lo em cheio na têmpora esquerda.
Apolo o alcançou.
O sangue dele manchou as suas roupas.
— Eu sinto muito... — o deusmurmurou para o corpo nos seus braços.
Se não o tivesse deixado sair de casa...
Se não tivesse aceitado posar para ele...
Se não tivesse se apaixonado...
Se não tivesse feito o Cupido odiá-lo...
Se o abismo fosse um pouco menor...
— Eu sinto muito, muito, muito...
Uma mãozinha cálida pousou na sua bochecha.
— Não precisa se desculpar. — Dionísio disse, porque era ele quem estava nos seus braços agora. O perfume dele tomava todos os seus sentidos, os olhos verde-musgo piscavam devagar, numa compreensão muda. Os lábios vermelhos sorriam. — Creio que eu tenha assumido o risco.
Mas então, como se ele fosse uma tela de aquarela em que pingassem uma gota de tinta violeta, uma nódoa roxa despontou na sua bochecha. E outra, um pouco maior, na lateral do queixo liso. Quatro pequenas feitas garganta, várias e várias no pescoço, a maioria acompanhada com meias luas do diâmetro exato das presas de um certo deus. Sabe se lá quantas mais no resto do corpo...
E ele estava sangrando dourado pela grama.
Me desculpe por machucar você...
O sorriso do menino foi sumindo. Ele tirou os olhos dos seus e viu todas nódoas, riscos, presas e sangue na superfície macia da sua pele alva.
— Não é como se você se importasse...
— Mas...
— E você se importa? — Foi Eros quem quis saber. Estava ajoelhado ao seu lado, contando as marcas arroxeadas no corpo do amigo. A terra sobre eles começou a estremecer. — Você realmente se importa?
— Sim. — Apolo respondeu de imediato, sentindo um par de lágrimas mudas escorrendo pelo seu rosto. — Eu me importo... — A beira do precipício estava oscilando se ele perceber.
Eros olhou no fundo dos seus olhos antes de dizer.
— Então devia ter dito.
O chão finalmente cedeu.
E todos caíram no fundo do abismo.
*
Apolo acordou com o barulho. O ar não veio, como não vinha a uma semana. Ele não se importou. Deixou-se sufocar. Deixou-se desmaiar. Deixar-se-ia morrer se fosse possível.
Ninguém bateu na sua porta, como não batiam a uma semana. E dela nada entrava ou saia. Nem água, nem comida, nem ninguém.
Estava no limiar na inconsciência quando o barulho tornou a despertá-lo. Os pulmões inconvenientes voltaram aos poucos a funcionar. Malditos. Apolo não queria acordar.
— Não quero nem saber! — alguém gritou do outro lado, propositalmente alto e escandaloso. — Se não abrirem essa porcaria de porta, eu vou parti-la ao meio. E quem estiver no meu caminho também!
— Senhor, por favor...
Apolo enfiou a cabeça debaixo dos travesseiros. O tecido e as plumas cortaram o som por algum tempo.
Mas então...
— APOLO!!! — Hermes gritou a plenos pulmões. — Se você dá valor à vida útil dos seus servos, tem cinco segundos para sair daí! Senão eu vou quebrar todo mundo na porrada! A começar pela mobília!
— Isso não está acontecendo... — o deus do sol murmurou, os lábios abafados contra o tecido macio.
— Um! — Hermes começou a contar.
— Sim, isso está acontecendo... — concluiu para si mesmo, tentadíssimo a apertar os travesseiros contra o rosto até se asfixiar.
— Dois!
— Não acredito...
— Três!
— Hm...
— Quatro!
Apolo destrancou a porta do quarto...
— Cinco!
E a meteu-lhe a sola pé.
Todos eles pularam. A madeira gritou como se estivesse se partindo, machucando o mármore liso contra que se chocou com violência. Uma das dobradiças se soltou, caindo a pedaços tilintantes no chão.
— Filho de uma harpia maldita... — Apolo rosnou para o irmão, na entrada do quarto. — Por todas as almas decrépitas do Hades, o que, em nome de Zeus, você quer?...
Hermes arregalou os olhos âmbar. Seus cabelos tinham um tom de laranja tão intenso que quase feria a vista, movendo-se hipnótica e furiosamente. Entre o deus dos ladrões e a porta escancarada, havia quase uma corrente de músculos vivos, no que meia dúzia de servos tentava lhe impedir a entrada forçada. Agora meio desfeita pelo susto da sua aparição escandalosa.
Ele deixara suas ordens bem claras quando se fechou naquele quarto a uma semana atrás. Nada de barulho. Nada de incomodo. Nada de nada. Nem de ninguém. E os pobres dos seus servos ainda tinham barrado a sua entrada nas duas outras vezes em que Hermes tentara vê-lo. Mas a determinação e habilidade dele fora demais para eles agora. Afinal, o deus dos ladrões era perfeitamente capaz de entrar em qualquer lugar. Porém, alguém que normalmente teria se posto no meio daquela barreira humana, não estava ali.
Aurora escorava-se displicentemente numa das paredes da antessala, os braços bronzeados cruzados, apenas assistindo a cena. Ambas a sobrancelhas louro-douradas erguidas numa expressão muito nova e absolutamente estranha aos seus traços. Algo entre o tédio, a raiva e o puro cinismo. Ela ergueu os olhos luminosos para o seu senhor.
— O senhor seu irmão está aqui para vê-lo. — disse-lhe, com uma docilidade sarcástica pesada em cada palavra. — Devo dispensá-lo?
Aquela insolência bizarra não escapou a ninguém, vindo a causar vários esgares chocados. Inclusive de Hermes, que separou visivelmente os lábios escuros. Mas Apolo não lhe respondeu. Havia uma semana que Aurora decidira odiá-lo e ele simplesmente não se sentia no direito de ofender-se com isso.
— Saiam todos daqui... — o deus murmurou, num tom de morbidez e cansaço.
Os servos trocaram alguns olhares mudos, mas obedeceram de imediato. Aurora foi a última a sair, descolando-se do mármore da parede numa lentidão zombeteira.
— Agora eu entendi a porta trancada... — Hermes cochichou, no momento em que ela dava o último passo duro e debochado para fora. — Aquela ali enfiaria uma tesoura na sua garganta fácil, fácil.
— Hermes...
— Você está horrível! — ele cortou, fazendo uma careta dramática enquanto o estudava de ponta a ponta.
Apolo usava uma túnica cinzenta qualquer que não trocava a dias. Os cabelos louros em completo descaso, caindo lisos sobre os olhos, visivelmente mais compridos do que aquele corte pedia. Os lábios rachados de quem há muito não toma água. A pele decorada de quem há muito não come nada. E as olheiras tão explícitas que pareciam maquiagem.
— Tenho certeza absoluta de que nunca te vi tão horrível em toda a minha vida!
— Hermes...
— Parece que você foi para a guerra. Perdeu. Morreu. Ressuscitou pelas metades. E na volta foi atropelado por uma biga!
— O que você está fazendo aqui?
— O que eu estou fazendo aqui? — Mercúrio repetiu, completamente indignado. — O que você está fazendo aqui?!
— Tenho quase certeza de moro aqui...
— E eu tenho quase certeza de que você tem outras coisas para fazer além de mofar no seu quarto como... ah... não sei... — ele ironizou, apertando o queixo como se fosse algo terrível difícil de imaginar. — que tal... ERGUER O MALDITO SOL?!
— Hélio...
— Está a um passo de enlouquecer! — Hermes cortou, agressivo. — Ele pode dividir certas responsabilidades com você, mas não pode ser você! — acrescentou. — Algo haver com não ser o deus da medicina, nem dos oráculos, nem da poesia, nem da música, nem de...
— Eu já entendi. — Apolo interrompeu, entre os dentes.
— Oh, eu fico muito feliz em saber que eu não terei de lembrá-lo de que você é um deus e não uma donzela magoada! — Hermes retrucou, no mesmo tom. — Tem noção do desequilíbrio que causou na Ordem das Coisas?
Nisso Apolo não respondeu, apenas olhou para ele. O olhar do mais completo descaso.
— Por Zeus... — Mercúrio murmurou. — Você tem. E não está dando a mínima... — concluiu, incrédulo.
— Que bom que finalmente chegamos a um entendimento. — Apolo disse, com o sorriso mais falso e cínico da história registrada. — Agora, se não se importa, tenho um monte de nadas que não lhe dizem respeito para fazer. — e virou-se para voltar ao quarto. — Sabe onde fica a saída.
Hermes conseguiu entrar no seu quarto antes dele. O bastardo era rápido...
— Hermes... — Apolo imprimiu entre dentes cerrados, no tom da ameaça explícita.
Foi a vez do esguio e veloz deus dos ladrões lançar lhe um olhar de desdém.
— Se quer ter o direito de rosnar, raio de sol, tenha certeza de que não parece que vai desfalecer a qualquer momento. — disse, sem nem se dar ao trabalho de virar-se para encará-lo. — Compromete consideravelmente o clima intimidador. — e meteu-se pelo cômodo adentro.
Ao outro não restou nada que não fosse ir atrás.
O quarto monumental do deus do sol era dividido em cinco câmaras. O dormitório, no centro, onde ficava a cama propriamente dita; era grande o bastante para umas quatro pessoas – das espaçosas — ladeada por finas cortinas de cetim branco, moldurada por uma delicada e ornamentada cabeceira dourada, e lotada de travesseiros azuis. Depois o vestiário, onde se guardavam todos os tons de azul em forma de roupa que era possível possuir. Então o lavatório, com nada menos que três banheiras termais em forma de cascata. Uma pequena biblioteca, com escrivanias de mogno claro e centenas de folhas e penas, onde ele normalmente escrevia. E uma sala íntima, quase a cópia em escala reduzida do conjunto de sofás ovalados e estofados em azul celeste da sala principal.
Foi para lá que Hermes foi.
Mas não se sentou na sua conhecida displicência. Em vez disso, esperou pelo irmão, de braços em nó na frente do peito magro e uma sobrancelha alaranjada alta em reprovação. Numa impaciência de um tutor que aguarda ansiosamente a oportunidade de repreender um aluno errático e teimoso.
— Agora, sentadinho. — ele exigiu, apontando para o móvel mais próximo. — Precisamos conversar...
Apolo se largou ali como quem desiste da vida. Não porque importava-se minimamente com a irritação do irmão. A realidade era, estava tonto o suficiente para temer uma queda súbita se insistisse em ficar de pé muito tempo mais.
— Muito bem. — Hermes elogiou, sentando-se a sua frente, como se ele fosse uma criança especialmente burra que finalmente fizera a tarefa direito. — Este é o momento em que você me conta tudo o mais detalhadamente possível, na vã, embora significante, esperança de que possa justificar esse comportamento ridículo.
O olhar que Apolo lhe lançou teria feito um mortal entrar em combustão espontânea. Seu humor estava um pouco pior do que horrível...
— Ah, não?! — o deus dos ladrões exclamou, sem nem o mínimo traço de assombro. — Pois então... — ele cruzou os dedos longos e os estalou em sequência, acomodando-se melhor no estofado azul. — eu conto.
“Era uma vez, um idiota. Mas não era uma idiota qualquer. Era uma espécie muito rara e especial de idiota. Como pedia a sua natureza, esse idiota fez uma idiotice. Uma idiotice desnecessária e estúpida, como convém a todas as idiotices. E as consequências dela o acompanharam por anos sem conta. Foi quase que se o próprio destino quisesse puni-lo pelo seu grau anormal de tolice inata.
Mas, como todas as coisas tem fim, a sorte decidiu por bem dar-lhe uma chance inédita de felicidade. E não apenas isso como, consciente da imbecilidade inerente ao cidadão, o fez de maneira tão explícita, clara e inegável que nem mesmo aquela espécie de idiota teria capacidade de ignorá-la ou desprezá-la.
Porém, para a completa surpresa de todos que assistiam, a vida pareceu tem julgado mal a imensidão de estupidez que cabia dentro daquele idiota. Por que ele não apenas viu a sua felicidade ateando-lhe bandeira, como teve capacidade de tocar nela, provar dela, tomar dela...
E simplesmente colocá-la para fora.”
Hermes apertou os lábios arroxeados ao terminar, os olhos âmbar feitos em lâminas finas.
— Parece familiar, irmão?
Apolo escondeu o rosto nas mãos.
**
— Uma semana atrás –
— Você ainda está aqui... — foi a primeira coisa que Apolo disse ao pôr as íris azuis em Dionísio. As mesmas palavras que Jacinto declamara ao despertar nos seus braços anos atrás, como quem temesse ter apenas sonhado.
As ironias do Destino...
Ele parecia muito bem. Limpo, alimentado, desperto. Os cachinhos meio bagunçados moldurando seu rosto enrubescido. A roupa que ele usava saltava aos olhos, o Sol tinha certeza de que nunca o vira em tons que fugissem ao verde, marrom e vinho. E aquele azul – seu azul – tão suave e sutil, pereceu estranho aos seus contornos de pele macia. Embora de maneira nenhuma menos agradável a vista. Adornando aquela cútis de leite, que já não ostentavam nada da violência que tinha sofrido.
Ele era tão lindo.
Daquele jeito miúdo, vermelho e delicado. Parecia uma daquelas espécies de gato que de jeito nenhum foi feita para crescer, e que você teme pegar, por que são tão pequenos que poderiam se quebrar. Parecia um docinho de morango, tão perfeitamente confeitado, que você o admira por horas, sem sequer considerar a absurdo que seria estragá-lo ao tê-lo na boca. Parecia um sonho maravilhoso, do qual você se recente tragicamente ao ser despertado, e na primeira oportunidade, volta a se encolher nos lençóis e implora ao destino que lhe devolva a aquele véu de frágil de fantasias açucaradas.
Miúdo. Pequeno. Frágil.
Era tudo o que Apolo conseguia ver naqueles traços delicados, nos seus cachos escuros, nas suas bochechas coradas. E se perguntar se havia sequer um ser no mundo que teria a coragem psicopata de machucá-lo como ele tinha feito.
Se houvesse, ele queria matá-lo.
Santa hipocrisia. O deus da poesia debochava de si mesmo.
Dionísio parou num solavanco.
Ao simples manifesto audível de Apolo na porta ele se pusera a correr ao seu encontro. Não parou para analisar o que queria com isso. O deus do vinho não tendia a gastar seu tempo com reflexões complexas e desnecessárias e, se alguma vontade inerente o acometia, ele se entregava a ela sem complicações.
Dionísio queria Apolo.
E embora houvesse passado horas no seu aguardo, não pré-programou o que faria ao encontrá-lo. Talvez pulasse nele, como um mascote ao ver o dono querido.
Dionísio nunca tivera esse instinto: de animal domado, de fera submissa. Sempre fora o caos e a selvageria. Sempre fora os dentes e unhas. E mesmo quando sua natureza gentil se punha a vista, ainda era a desordem ferina e inculta que regia seus atos. Mas isso mudara quando Apolo tocou nos seus lábios.
E algo dentro dele quis desesperadamente agradá-lo.
Quis que ele o chamasse. Que o beijasse. Que o usasse. Que prendesse seu corpo contra o dele em algum lugar. Quis servi-lo com todos os gostos, e toques, e gestos que poderia lhe dar. Quis que ele tivesse seus lábios, sua pele, sua alma. Quis dar-lhe todas as formas de prazer que conseguia imaginar. Quis ver o rosto dele mudar ao dizer seu nome. Que fosse sussurrando. Que fosse gritando. Que fosse mandando. Quis que ele o decorasse com dentes, com os dedos, com as unhas. Que o marcasse como uma propriedade. Quis que afagasse seus cabelos e dissesse que ele fizera bem, que o tinha satisfeito como ninguém.
A áurea dele não tinha paralelo.
Era quente, quente, quente... quente como a destruição. Quente como fogo vivo. Quente como um abraço de mãe. A sua áurea tinha gosto de infinito, de céu azul ensolarado, de raio de luz refletido numa gota de orvalho, de mel colhido pela manhã. A sua áurea lhe fazia se sentir santo, cálido, calmo. Fazia-lhe sentir paz. Uma paz tão ordenada e serena que parecia pecado, tão tranquila que parecia errado.
Era isso o que ele sentia quando aquela áurea caustica e analgésica tocava a sua, que aquele calor o salvaria, que ele podia pôr o bicho feroz, do qual tanto dependera na vida, para dormir sossegado. Por que ele estava assegurado, estava protegido. E aquela sua violência rude já lhe era desnecessária.
Dionísio queria dizer-lhe: Toma. Toma tudo. Tudo o que for tragável. Tudo o que for possível. Beba de mim, como eu bebo meu do vinho. Até que tudo o que restar for a impressão dos seus lábios cálidos e o rastro do seu gosto suave na borda do meu copo. Tire de mim todo som, sabor e textura que quiser. E depois, faça de novo. E de novo. Até que eu esteja tão vazio que possa me deitar no seu colo e deixá-lo preencher-me com um pouco do seu calor. Porque eu estou cansado. Cansado de ser tão lotado. Cansado desses ruídos que não param. Que me acordam de madrugada, mais alto do que a minha voz. Que me descontroem por inteiro. E me fazem viver nas pausas de um pesadelo, só esperando para perder o controle outra vez. Estou cansado de despertar entre destroços. Da minha casa. Da minha cabeça. Estou cansado de ter medo de mim mesmo. Mas, quando você me tocou, quando você me beijou, eles pararam...
Os ruídos finalmente pararam.
Era nisso que Dionísio tinha pensado enquanto vasculhava o próprio corpo a procura dos sinais que ele devia ter lhe deixado. Que ele estava agindo como um felino domado, como o arisco Floquinho fazia em suas mãos. Ansioso por cada afago. Atento a cada ordem. Desmanchando-se por um pouco de atenção. E se perguntou por que isso não o incomodava. Dionísio não sabia, mas não saber nunca fora um problema para ele.
Havia uma tranquilidade estranha no ato de ceder. De pertencer. De obedecer. De estar totalmente e perigosamente entregue. De abster-se do controle. Da responsabilidade. Do pesado fardo do domínio próprio. Uma tranquilidade que ele não se lembrava de provado antes, mas que Apolo, consciente ou não, havia lhe apresentado. Por que ele não tinha apenas o amado. Ele o tinha tomado. O tinha dominado. O tinha possuído.
E nada no mundo se comparava com aquilo.
Então, sim. Talvez pulasse nele, beijasse ele, se agarrasse as suas roupas e depois rasgasse todas. Talvez pedisse a ele que o tivesse de novo, logo na entrada. Por que seu coração já estava em disparada, suas pupilas não cabiam dentro dos seus olhos e ele o queria com uma sede que nunca vinho nenhum tinha lhe causado. Talvez finalmente pudesse guardar as marcas ele lhe fizesse. Se ele deixasse. Se ele quisesse...
Mas então...
— Você ainda está aqui. — foi o que ele dissera ao vê-lo.
E Dionísio parou como se tivesse se chocado contra uma parede.
— Ah... sim. — o pequeno deus murmurou, subitamente envergonhado, os cílios espessos batendo rápido enquanto uma nova camada rubor se depositava nas suas bochechas. — Eu não devia? — ele perguntou, inseguro.
— Não... — Apolo sussurrou.
Dionísio se encolheu como se ele tivesse lhe batido.
Você devia ter corrido, pequeno. Apolo pensou, mordendo o interno dos lábios até que sangrassem na sua língua. Devia ter corrido de mim.
O Sol estava escorado na ponta de entrada, como quem não suporta o próprio peso, as unhas quase entrando na madeira e uma vontade insana de bater em si mesmo. O que estava acontecendo com ele afinal? Por que seu sangue estava fervendo? Devia estar envergonhado. Repreendido. Devia evitar a coragem de olhá-lo nos olhos. Não bebendo das suas formas como estava fazendo. Devia estar arquitetando as mais pesarosas desculpas que pudesse declamar. Não sentindo a boca encher-se d’agua da gana de lhe provar. Devia se curvar em arrependimento. E não querê-lo por sobre os joelhos.
Apolo nunca tivera esse instinto: de hedonista irracional, de bárbaro incontido. Sempre fora a ordem e a educação. Sempre fora sóbrio e polido. E mesmo quando a raiva o tomava, era a frieza lógica que dominava seus sentidos. Mas isso mudara quando Dionísio tocou nos seus lábios.
E algo dentro dele quis desesperadamente possuí-lo.
Quis tê-lo nos seus braços, nos seus dedos, nos seus dentes. Quis prender o corpo contra o dele em algum lugar. E arrancar-lhe gemidos. Altos. Descontrolados. Incontidos. Quis todo o gosto daquela língua, todo cheiro daquela pele, todo som daquela boca. Quis fazê-lo suar, uivar, gritar. Quis marcá-lo como seu e quis que ele fosse. Seu pequeno. Seu amante. Seu brinquedo. Seu delírio constante sem fim. Quis cansá-lo até o limite. Quis desmontá-lo. E montá-lo. E desmontá-lo outra vez. Quis passar da sua pele. Quis que ele se desmanchasse nele. E dissesse que era seu e de mais ninguém.
Por Zeus, o que há de errado comigo?Ele se perguntava sem parar.Que espécie de absurdo é esse? De onde vem esse desejo destrutivo? Apolo não sabia. E não saber era muito difícil para ele.
O menino estava olhando para ele. Com aqueles olhos imensos. Olhos que pareciam muito maiores do que ele mesmo, como se tivessem o mundo inteiro. Ele parecia tão cheio: de vida, de energia, de barulho. Um receptáculo muito pequeno para tantos ruídos. Enquanto isso, Apolo se sentia ridiculamente oco. Uma casca espaçosa e vaga. Um jarro caro e grande demais para tantos vazios.
Mas nem por isso o direito de tomá-lo dele mesmo.
— Eu fiz algo que não devia? — Dionísio perguntou, tão baixo que pareceu um miadinho.
Aquilo deu a Apolo uma vontade insana de rir e chorar ao mesmo tempo, enquanto o segurava pelas bochechas. Já tinha cometido esse erro uma vez, subestimado catastroficamente o efeito que o pequeno tinha sobre ele, achado que conseguiria resistir. Não tinha mais ilusões quanto a isso. Se desse a si mesmo o mínimo de tempo; consciente da culpa que tinha, ou não; sabia o que faria. Sabia que não suportaria. E tudo acabaria como a noite anterior, com ele gritando e sangrando nos seus lençóis.
Não deixaria isso acontecer.
— Sim. — respondeu, ainda mais baixo. Sentia que, se falasse mais alto, as palavras o fariam sangrar.
Os olhos de Dionísio ficaram maiores. Como isso é possível? Apolo se perguntou, distraidamente. Estava anestesiado. Amortecido. Era uma lacuna viva com um único propósito: salvar aquele ser inocente da sua própria vida.
“O desejo é seu. A paixão é sua. E o amor é seu.” Foi o que o Cupido lhe dissera. Estava certo. Sempre fora ele. A peça repetida. A incógnita errada. O elemento reagente que fazia tudo acabar em ebulição, em destruição. O desejo é seu. A paixão é sua. O amor é seu. E o quanto isso tinha custado. Quantas marcas alheias tinha causado. O desejo é seu. A paixão é sua. O amor...
Amor.
Apolo conhecia o seu amor agora. E talvez Dafne... e talvez Jacinto... tiveram sorte em livrar-se dele.
— Não entendo... — Dionísio sussurrou, mudando o peso dos pés.
Queria aproximar-se dele. Queria muito. Não sabia no que estava pensando e não se importava. Apenas parecia ser de uma agonia insuportável e isso estava dando-lhe vontade de arrancar os cabelos. Mas ele o tinha ensinado a ler seu corpo e nada lhe dava permissão para tocá-lo. Estava preocupado. Quase não sentia aquele calor ameno e anestésico que sempre emana dos seus poros. Apolo parecia o fim de uma lareira. A lembrança das cinzas. Uma vela extinta.
Parecia estar se apagando.
— Apolo... — ele chamou, rendido aos seus instintos, aproximando-se dele.
O mesmo passo que o menino deu na sua direção, Apolo deu na oposta, deslizando pela parede. Para longe, sem nem olhar. Para outro lugar. Qualquer lugar. Como se não conseguisse sequer considerar a possiblidade de ficar perto dele. E isso doeu.
Doeu terrivelmente.
— Apolo? — Dionísio miou, de um jeito doído, umas gotinhas salgadas começaram a dependurar-se na borda dos seus cílios.
— Quero que vá embora. — foi o que ele respondeu.
— Mas...
— Agora. — cortou, os olhos feitos em pedras foscas e frias.
Dionísio não conseguia se mexer. A dor vinha de tantos lugares que ele não sabia o que fazer. Mas no peito era pior. Era chumbo o puxando para baixo. Era um gato forçando passagem pelas unhas compridas. Era veneno bombeado pelo icor das suas veias.
— Por quê? — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
As íris de Apolo tremeram por um milésimo de segundo.
Por que eu amo você. E a sombra de um sorriso quase se fez ver no canto dos seus lábios, enquanto os olhos se afogavam lentamente.
Era isso. Ele finalmente fora capaz de assumir para si mesmo. Aquela armadilha cruel em que já tinha caído — duas vezes — tinha pulado nela por conta própria, como o tolo que sempre fora. Agora, só lhe restava assegurar de que fosse o único a sair sangrando.
Mas armadura apática na qual ele tinha se metido estava rachando. E áurea dele começou a deixar-lhe tonto. Dionísio precisava ir.
Precisava ir agora.
— Por que eu já tive tudo o que queria de você. — foi o que ele disse, sem ter ao menos a decência de encará-lo.
Dionísio achou que fosse vomitar.
Ele apertou os braços em torno de si mesmo e desviou os olhos para o chão. Não conseguia mais olhar para o outro. Não conseguia respirar. Suas lágrimas fizeram uma pocinha brilhante nos seus pés, maior a cada segundo.
— Por favor, vá embora. — Apolo insistiu.
Por favor, por favor, vá. As suas íris estavam obcecadamente presas numa parede qualquer. Tentava não aspirar mais do seu perfume. Tentava não ouvir os seus soluços. Tentava não ajoelhar-se nos seus pés e implorar para que esquecesse tudo. Que ficasse ali. Com ele. Que o perdoasse pelos seus absurdos. E o suportasse um pouco mais. Por favor, vá...
Ele foi.
Sem dizer uma palavra. Sem olhar de volta. Apenas abriu a porta e saiu. Correndo. Deixando o vão aberto para trás.
Ficando, finalmente, a uma distância segura. Estando, finalmente, longe dele, como devia. Abandonando-o, finalmente, como ele merecia.
E Apolo pode, finalmente, deixar-se estilhaçar.
***
— O que foi que você fez?
Apolo ergueu os olhos aguados. Ainda estava no chão em que tinha se largado depois que o menino foi embora, o rosto apertado contara os joelhos.
Quem o chamara fora Aurora.
Ela ouvira tudo. Estava apenas um pouco atrás do deus do vinho, e tinha se preparado para sair quando ele chegou. Mas então aquele “Você ainda está aqui” fatídico tinha saído dos lábios do seu senhor e ela não conseguira se mover. Antes tivesse. Seu rosto estava claramente molhado e os olhos abertos num choque indignado.
— Por que fez isso? — ela o questionou, como nunca tinha feito na vida.
Ele piscou os olhos para ela, perdido no seu espanto, e abriu a boca para responder.
Mas não tinha nada para dizer.
— O que raios houve com o senhor, como pode fazer isso com ele? — ela estava gritando agora e ele a olhava como se ela tivesse outra cabeça.
— Aurora...
— É mentira! — a serva exclamou, entre os dentes brancos. — Tudo o que lhe disse é mentira. Eu sei! Eu vejo nos seus olhos! — acusou, apontando-lhe um dedo fino. — Quase se autodestruiu para fazer isso! E por quê? Ele pode ter sido a melhor coisa que já aconteceu com você! Por que fez isso?
Apolo engoliu a seco, sentindo as lágrimas se grudarem nos seus cílios.
— Foi preciso... — ele murmurou.
— POR QUÊ?
O Sol deu um suspiro tão dolorido que pareceu ter-lhe quebrado as costelas.
— Você não entende...
— É óbvio que não! — ela gritou, completamente fora de si, o choro de raiva escorrendo livremente pelo seu rosto. — O que poderia levar alguém a isso? Tem alguma ideia do quanto aquilo o magoou?
Apolo não respondeu. Ele apenas chorou.
— Não... — Aurora murmurou — Isso não é você. — e negou com a cabeça. — O meu senhor sempre foi austero e contido. Mas nunca foi cruel — ela disse, com o rosto torcido em desgosto. — Depois de tanto sofrimento. Tantas perdas e tanto luto. Tantas noites perdidas em sonhos partidos e pulmões corrompidos. Tantas lágrimas amargas e ódio contido. Eu sempre sofri pelo senhor. Eu sempre estava lá quando seus fantasmas lhe tiravam todo o ar. E eu chorava quando finalmente podia. Por que você não merecia. Mesmo que seu orgulho falasse mais alto do que devia, o mal que lhe fizeram era ridiculamente desproporcional. A dor que lhe infringiram era revoltantemente injusta. E eu os odiei por isso. — ela expulsou as palavras da boca, o olhando no fundo dos olhos — Hera. Eros. Morfeu. Zéfiro. Eu os odiei por você. Porque eles te faziam sofrer. Porque eles te feriram. Mas então... — Aurora quase engasgou, os lábios tremendo. — Quando pode finalmente livra-se dessa solidão amarga, quando teve uma chance legítima, quando foi devidamente amado, quando enfim teve uma amostra de felicidade... — ela desceu dois tons e endureceu muitos graus antes de completar. — o senhor a expulsou como se fosse uma prostituta barata, sem nenhuma explicação.
Apolo apenas a olhava, sem nenhuma reação.
— Pois bem. — a serva rebelde disse por fim. — se é esse amontoado de destroços que quer ser, se é desse desgosto constante que quer viver, se é dessa angustia estúpida e ridícula que vai se alimentar, tem todo o direito. — e espalmou as mãos uma na outra, como se as tivesse lavando — Eu não me importo mais. Pode sufocar, como gosta. E chorar todos os litros que quiser. Pode extinguir-se da exaustão dos seus pesadelos e depois fugir para a sua sala lacrada. Eu não estarei mais lá por você. Não dormirei na sua porta. Não limparei suas lagrimas. E, definitivamente, não passarei a mão na sua cabeça. Não dessa vez. Porque o que fez foi errado. Foi desnecessário. Foi cruel. E o senhor sabe... — dito isso ela virou o corpo esbelto, pronta para sair dali. O rosto já seco da dó dolorida que tinha sentido, trocada por uma indignação férrea e fria. — Mais uma coisa! — ela se lembrou antes de ir, e com uma calma irônica, encarou-o para dizer — Cuide melhor dos jacintos dessa casa. Ou eles vão morrer também.
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