Bacanal
14 Santa Hipocrisia - Parte 2
Notas iniciais
Parte 2: A Lua do Caçador
Há sangue em suas mentiras
O céu está bem aberto
Não há lugar para você se esconder
A lua do caçador está brilhando
Estou correndo com os lobos hoje à noite
Estou correndo com os lobos.
— Aurora, “Running With Wolves”
— Presente –
Hermes continuava olhando para ele, com aquela impaciência típica vibrando no tom amarelado dos seus olhos. Por fim, Apolo tirou as mãos do rosto e disse.
— São muitos “idiotas” para três parágrafos...
— Não o suficiente. — o outro respondeu de imediato.
Apolo não se lembrava da última vez que vira o irmão tão irritado. Pelo menos, não com consigo.
— Você... falou com ele? — o Sol perguntou, com nada mais do que um sussurro culpado. Não deixando de notar o quão irônico era serem aquelas as mesmas palavras que lhe questionara na varando do Palácio de Dionísio há uma semana, antes de ir ter com o pequeno no telhado, na noite que levou a tudo aquilo.
— Ah, eu tentei! — Mercúrio afirmou, enfaticamente. — Depois que você recusou a minha entrada pela segunda vez, foi para o Palácio da Uva que eu fui. Sabia que minhas respostas estariam lá. E estavam. Mas se falei com Dionísio? Não, não falei! — ele disse, torcendo os lábios de um jeito zangado. — Aparentemente, nosso irmãozinho se recusa terminantemente a sair do próprio quarto a exatamente... uma semana! — e revirou os olhos, com um suspiro meio rosnado. — Com tantos genes para vocês espelharem, francamente... — ele resmungou, quase para si mesmo. — Mas Eros estava lá e me contou tudo. Ou, pelo menos, tudo o que sabe. Por que nem ele parece fazer alguma ideia do que raios deu errado nesse seu cérebro!
— Hermes! Apolo reclamou.
— Sem “Hermes”, você não tem nenhum direito de reclamar! Dionísio é meu irmão também! Eu devia estar dando na sua cara! — o outro cortou, incisivamente. — Tudo que tem o direito de dizer nesse momento é o que aconteceu. E você vai me dizer, irmão, vai me dizer agora!
Apolo cerrou os dentes, tirando os olhos dele. Conhecia Hermes desde que ele nasceu, não tinham muitos anos de diferença. Ele era uma constante errática e intrusa na sua vida. Sempre fora assim: entrando onde queria, falando o que achava que devia e tendo uma boa resposta para tudo. Curioso, articulado, inquieto e extremamente inteligente, o suficiente para beirar o irritante. Já tinham quase atracado pelos cabelos em várias ocasiões. Uma vez, ele lhe roubara cinquenta cabeças de um dos seus rebanhos sagrados, sem nenhuma boa explicação. Mais tarde Apolo descobriu que ele só fizera aquilo para ver se conseguia. Devolveu-lhe depois? Não mesmo. Hermes acabava com um apego muito forte ao que tinha roubado. Em vez das devidas desculpas, tinha preferido compensá-lo, e lhe presentou com uma peça excêntrica que tinha inventado. Uma lira. E foi dedilhando o instrumento pela primeira vez que Apolo descobriu que era o deus da música.
Muito bem, Hermes podia ficar com as vacas...
Não seria pouco dizer que muito do que Apolo era, viera pela influencia do irmão. Talvez por isso Hermes se sentisse tão responsável. Talvez por isso se dava ao trabalho pôr-se a escutá-lo toda vez que via uma cara feia ou ouvia um suspiro pesado. Ou talvez essa fosse simplesmente a sua natureza. Não importava. Hermes queria uma resposta e, Apolo sabia com toda certeza, não sairia dali sem ela. Nem que tivesse de torturá-lo para isso.
— Apolo, por todos os deuses, eu sou muitas coisas nessa vida, mas “paciente” não é uma delas! — ele avisou, apertando o alto do nariz. — Você vai abrir essa boca e me explicar o que aconteceu ou juro por Zeus que vou estrangular...
— Eu o machuquei.
Hermes se calou. Por quase um minuto, apenas olhou para o irmão, a espera de um complemento que não veio.
— O que? — perguntou por fim, erguendo as sobrancelhas.
— Eu o machuquei, Hermes! — Apolo repetiu, entre dentes cerrados, como que o culpasse pela agonia que era repetir.
Mercúrio uniu as sobrancelhas coloridas na fronte, aprumando-se desconfortavelmente no sofá.
— Como?
Apolo largou um suspiro pesado, fechando os olhos azuis.
— Depois da festa, eu o trouxe... — ele parou, com uma careta de quem morde algo inesperadamente azedo. — Não, eu o arrastei para cá. — corrigiu. — E nós, bem... ah...
— Transaram. Não tenho oito anos, Apolo, já entendi. — Hermes apressou, descartando sua hesitação com um torcer de lábios tedioso. – Ainda não vi o problema.
— Eu também não vi na hora, mas depois... ele dormiu aqui e as marcas foram... aparecendo... — ele esfregou o rosto nas mãos, tentando tirar aquelas imagens do fundo das pálpebras.
Hermes oscilou as íris âmbar pelo irmão, subitamente perdido, como se tivesse acabado de perder um lance importante do seu jogo preferido.
— Não pode ter sido tão ruim... — acabou murmurando.
— Você não o viu! — Apolo rosnou. — Parecia que tinha levado uma surra! Ou sido... violentado... — ele se levantou de repente, começando a dar voltas coléricas no sofá.
— Apolo, calma...
— Fui muito rude com ele! Você não tem ideia! — quase gritou, mordendo furiosamente as falanges dos dedos nas pausas.
— Apolo, pare com isso! Está se machucando...
— Eu o queimei! — disse enfático, como se o desafiasse a discordar. — Perdi o controle da minha temperatura corporal e o queimei. Mais de uma vez. Você poderia contar facilmente todos os meus dentes da sua carne! Ainda deve ter pele dele debaixo das minhas unhas! – afirmou, enfiando as mesmas nas palmas da mão. — Eu o fiz chorar! Eu o fiz gritar! Eu o fiz... sangrar... — ele esbarrou no braço do móvel e acabou caindo sentado no estofado. Não pereceu nem perceber — Foi isso o que aconteceu, irmão. — disse, num sussurro amargo. — Está feliz agora?
Hermes estava muito longe da felicidade naquele momento.
— O que deu em você? — ele perguntou, seriamente.
Apolo riu. Tão cínico e sem humor que lhe causou um calafrio.
— Quando eu souber, aviso... — murmurou.
— Eros disse que você quase o estrangulou. — Mercúrio lembrou, franzindo o cenho. — Pensei que fosse um exagero...
— Não foi. — Apolo adiantou.
— Você não é assim, Apolo! Nunca foi agressivo. O que raios está acontecendo com você?
— EU NÃO SEI, HERMES! — ele exasperou, arregalando os olhos azuis. — Tem algo no cheiro... no gosto... na áurea dele... — negou com a cabeça freneticamente. — Ele me faz sentir coisas que eu nunca senti! E querer coisas que eu nunca quis! Faz-me perder completamente a cabeça e esquecer da razão! Faz de mim outra pessoa...
— Está dizendo que a culpa é de Dionísio?
— Não! — Apolo exasperou de imediato. Mas depois, piscou perdidamente os olhos azuis. — Sim? — perguntou, inseguro. — Talvez... — sugeriu, para si mesmo. — Eu não sei! — concluiu por fim, escondendo o rosto nas mãos outra vez. — Desde aquele bacanal eu não sei de mais nada...
Aquilo acabou por amolecer o irmão.
— Ah, Apolo... — Hermes murmurou, sentando ao seu lado, tocando-o de leve no ombro direito. — Você está apaixonado.
O deus do sol deslizou os dedos pelo rosto apenas o suficiente para que se vissem suas escandalosas íris azuis.
— Catastroficamente. — ele concordou, a voz melódica abafada entre os dígitos.
— Então por que o mandou embora?
Ele cobriu os olhos de novo.
— Por que eu não quero machucá-lo mais... — murmurou. — Não quero prendê-lo a essa casca vazia que eu me tornei. Não quero contaminá-lo com as minhas maldições. — e largou um suspiro denso e comprido, expondo a face cansada a vista do irmão. — Ele merece algo melhor do isso. Merece alguém que tenha cuidado, que consiga amá-lo sem feri-lo, que não vá invariavelmente destruir tudo o que toque em algum momento. Eu não sou essa pessoa. — e deixou os orbes claros caírem no chão. — Eu nem sei quem eu sou perto dele...
Hermes apenas o encarou, os olhos âmbar sérios e compenetrados. Então assentiu suavemente para si mesmo, como quem toma uma importante decisão.
E desceu uma bofetada sonora na têmpora do irmão.
— Ai! — o Sol arquejou, completamente chocado — Mas, o que...?
— Essa foi a desculpa mais ridícula que eu já ouvi em toda a minha vida! — Hermes exasperou, como se ele o tivesse ofendido pessoalmente.
Apolo piscou para ele, as pálpebras arregaladas.
— Precisava ter me batido? — inquiriu, indignado.
— Talvez não. Mas foi divertido! — Hermes admitiu, erguendo as sobrancelhas. — Me sinto consideravelmente melhor agora.
— Hermes!
— Apolo! — ele gritou de volta, imitando seu tom. — Você é meu irmão, meu melhor amigo, e eu te amo. — começou, segurando-o pelos ombros. — Mas você também é orgulhoso, antissocial, emocionalmente confuso, extremamente egocêntrico, viciado a culpar-se sem razão e tem uma tendência latente a autodestruição. — disse, agarrando-lhe o pulso e puxando seus dedos para fora da boca, no que ele tinha começado a mordê-los outra vez, como que para exemplificar o que estava ouvindo. Hermes viu o icor se acumulando nos pequenos cortes que ele tinha aberto aos dentes, e suspirou para eles. — Então, se Dionísio é capaz de mudá-lo, — murmurou, limpando o sangue dourado dos seus dedos e lábios. — eu estou longe de achar que isso seja um problema.
Fez-se um silêncio longo cheio de expectativas. Os olhos de Apolo se perderam em algum lugar, enquanto as palavras de Hermes iam, aos poucos, entrando na sua cabeça. E mudando as coisas de lugar. Estava certo. Ele era tudo aquilo e um pouco mais. Era uma pilha de emoções não sentidas contidas por uma rede nociva de racionalidade covarde. Era um prisioneiro dentro dos muros altos que tinha construído e um perdido na escuridão do abismo profundo que tinha cavado. Era totalmente e miseravelmente infeliz. Há muito, muito tempo. E se Dionísio o fazia diferente, mesmo que fosse daquele modo bárbaro tão estranho a ele mesmo, aquilo não podia ser ruim.
Lembrou-se de como se sentiu ao tê-lo nos braços pela primeira vez, no telhado mais alto do seu palácio. Lembrou-se de como era maravilhoso perder o controle, nos seus lábios, na sua pele. Lembrou-se do modo como apenas o seu cheiro era capaz de deixá-lo tonto. Lembrou-se das antitesias* deliciosas que ele lhe causava, fazendo-o sentir-se perdido e achado, certo e errado, alto e baixo, e como isso o privava da sua fria e frígida razão. Lembrou-se de quando ele riu contra os seus lábios, e Apolo pensou que fosse capaz de voar sem querer. Lembrou-se do beijo que ele lhe roubara sem explicação e de como queira ter continuado, mas mesmo depois de tê-lo queimado, ele não o culpara por isso. Lembrou-se da sensação fresca e extasiante que a boca dele deixou na sua bochecha no Palácio da Paixão. Lembrou-se até da maneira angustiada em que ele o fitara quando dissera que iria embora do bacanal e de como seus olhos pediram para que ficasse.
Fazia muito tempo que ninguém pedia para que ele ficasse.
Ah, sim... a felicidade era pequena e tinha gosto de delírio. Mas mesmo assim...
— Eu não quero machucá-lo mais. — ele repediu, desoladamente.
— Então não o machuque. — Hermes respondeu simplesmente.
— Mas, eu...
— Você fala de Dionísio como se ele fosse uma escultura de cristal que você vai quebrar a qualquer momento. E isso está muito longe da realidade. — Mercúrio cortou. — De todos os amantes e amores que já teve, ele é o único que você não pode e nunca poderá destruir. Ele sempre estará ali. É pequeno e bonitinho, sim. Mas não é fraco nem frágil. Não é um mortal impotente ou uma criança indefesa. Dionísio é um deus. Um filho de Zeus. O mesmo sangue que corre em mim e em você, corre pelas suas veias. E ele é tão forte e poderoso quanto qualquer um de nós.
— Você disse que ele ainda era uma criança! — Apolo exasperou. — Aquele dia no telhado, disse que eu devia ser gentil por conta disso.
Hermes franziu o cenho.
— Eu não disso isso no sentido literal, Apolo. — respondeu, com tom de óbvio. — Ele tem quase duzentos anos. Com essa idade, você já tinha matado o seu primeiro mostro e perdido o seu primeiro amor. E Dionísio passou por coisas no mundo mortal e eu e você não conseguiríamos nem imaginar. Coisas que o moldaram. Mais uma vez, ele está longe de ser essa criaturinha quebradiça que você insiste em ver. E se acha que o forçou a algo que ele não queria, está sendo muito arrogante.
— Mas...
— O que eu quis dizer. — Hermes continuou, ignorando aquela interrupção. — É que ele ainda é novo nesse jogo de hipocrisias que é o Olimpo. Ainda não se habituou aos sorrisos falsos e beijos interesseiros. Não está acostumado a jantar com o inimigo.
Apolo finalmente entendeu o que ele estava dizendo.
— Como sabia que ele estava lá em cima por causa de Hera?
Hermes deu ombros devagar.
— Foi apenas um palpite. Ela costuma ter esse efeito nos demais. — ele disse, como se suas capacidades dedutivas não fossem espantosas. — Mas isso não interessa. Tudo o que importa agora é como vamos consertar isso.
Apolo quase começou a morder as falanges de novo.
— Não! — Hermes ralou, dando um tapa estalado na sua mão. — Se machucar não vai ajudar. Cure isso agora!
O Sol fez uma careta aborrecida para o tom autoritário do irmão, mas obedeceu, fechando os cortes nos dedos e também os da parte de dentro dos lábios, que ele não conseguia parar de morder.
— Não sei se isso tem conserto, Hermes. — murmurou quando concluiu. — Ele deve me odiar...
— Talvez. Provavelmente... — o deus dos ladrões concordou. — Mas foi pelo que você disse, não pelo que fez, e as palavras são vento...
— Como pode ter tanta certeza disso? — Apolo inquiriu, entre os dentes.
— Por que se fosse o caso, ele não teria esperado por você, idiota! – Hermes se exaltou, perdendo a sua pouca paciência.
Houveram três segundos de pura tensão. Três segundos em que Hermes não soube se estava prestes a ser socado ou abraçado. Três segundos em que Apolo apenas o encarou estático antes de dizer.
— Meu Zeus, eu sou muito burro...
Hermes não conseguiu resistir e quebrou a densidade do momento rindo dele.
— Que bom que finalmente chegamos a um entendimento. — provocou.
— Ah... — Apolo quase gemeu, apertando as têmporas.
Como pudera ser tão estúpido? Era óbvio como uma soma de números naturais. Se realmente tivesse machucado Dionísio como acreditava que tinha, ele teria ido embora. Teria gritado com ele. Teria parado tudo. Não dormido tranquilamente nos seus lençóis. Não o esperado pacientemente por horas. Não chorado doloridamente quando o mandou embora. Isso muda tudo...
— Astronomicamente e inaceitavelmente burro. — ele murmurava para si mesmo, desesperado. — Ah céus, o que eu vou fazer agora...?
— O que a sua mãe te ensinou quando ainda era um filhotinho: — Hermes disse, atraindo sua atenção. — vai se explicar, se desculpar e tentar compensar o que fez. Com sorte, e muito amor no coração, eles vão perdoá-lo.
— “Eles”? — Apolo perguntou, erguendo a cabeça.
— Ora, sim! — ele exclamou, em tom de repreensão. — Deve desculpas a Eros também. O que fez com ele foi injustificável. Podia tê-lo machucado de verdade! — brigou, parecendo extremamente irritado.
Apolo franziu o cenho para o irmão, estranhando aquela comoção furiosa. Hermes e Eros não eram amigos, sequer se conheciam mais que o superficialmente. Pelo menos, até onde ele sabia...
— Desde quando você e Eros são próximos assim?
— Isso não vem ao caso! — Hermes descartou de imediato. — Você devia estar fazendo as pazes com ele, não testando a solidez do seu pescoço! Fez uma promessa a sua irmã! Lembra-se dela?
Apolo aprumou-se seriamente estofado antes de dizer:
— Sim, Hermes, eu me lembro...
***
— Um mês atrás –
Era uma noite quente, daquelas em que se ignora a ameaça dos insetos hematófagos e tem de se abrir as janelas e livrar-se das cobertas para dormir. Mas os dois deuses na praia não pensavam nisso. Nenhuma temperatura seria alta demais para Apolo e Artêmis se habituara a todo tipo de provação física, de maneira que aquele calor opressivo era quase agradável, umedecido pela brisa marítima. O que não era agradável, de forma nenhuma, era o silêncio desconfortável e pesado em que tinham se metido.
— Você cortou o cabelo... — Apolo murmurou por fim.
A deusa da lua, que até o momento apenas estudava o quebrar das ondas numa concentração rígida, virou-se para ver o irmão.
Artêmis era linda, com a sua pele alva e luminosa como cristal. Tinha os mesmos traços retos, equilibrados e aristocráticos do irmão gêmeo, embora com ângulos mais suaves e delicados. Era alta e ágil. O corpo atlético se movia como a sombra de um carnívoro noturno languido e flexível. Onde a áurea de Apolo emitia um calor ameno e continuo, a dela causava um frio inquietante e primitivo, uma friagem inconstante que incitava qualquer a se mover, correr pelos bosques e uivar para lua. Fazia querer rolar pela grama, marcar as árvores com as unhas e acasalar sobre a brisa noturna. A áurea de Artêmis era selvagem, visceral e inculta. E ela tinha cheiro de sereno, terra macia e carne vermelha.
Ela não usava as típicas túnicas de algodão ou linho e se cobria de peles dos animais que caçava, atadas por tiras de couro curtido e calçada com longas botas escuras. Pelo menos três facas de diferentes tamanhos se dependuravam no seu quadril e o arco estava sempre as suas costas. Seus olhos eram gélidos e penetrantes, olhos de um predador, num tom escuro de azul-crepúsculo, suavizados apenas pela moldura das longas pestanas prateadas. E seus cabelos costumavam chegar-lhe a cintura, sempre presos em tranças apertadas, mas agora, as mexas claras estavam curtas como de um menino, caído numa franja lisa e irregular pelo seu rosto alvo e cobrindo parte do diadema em formato de lua crescente que sempre usava na testa. Apolo não se surpreenderia se ela os tivesse aparado com a própria faca de caça.
— É mais prático desta maneira. — ela lhe respondeu, sua voz era grave e rouca.
Era verdade, mas não era verdade. E Apolo sabia. Também tivera os fios dourados compridos um dia e acabou por deixá-los curtos depois de Jacinto. Cortar os cabelos era uma antiga forma de luto. Quando você está quebrado e arrasado por dentro, lhe parece inaceitável que nada por fora reflita isso, que tudo continue no mesmo lugar, como se nada houvesse acontecido. Então parece lógico livrar-se de uma parte de si. Por que é isso o que você é agora, apenas um pedaço do que já foi um dia.
— Ficou belo em você. — Apolo disse, com sinceridade.
Diana não lhe respondeu, apenas empurrou os fios prateados que lhe caiam nos olhos e voltou a vista para o mar outra vez.
Apolo deixou escapar um suspiro denso e aborrecido.
— Já faz mais de dez anos, Artêmis. Por quanto tempo mais pretende não falar comigo?
A deusa da caça sorriu para ondas. Um sorriso feroz e frio, que lhe pareceu mais um aviso, como um lobo mostraria os dentes a quem imprudentemente pisasse em território proibido. Suas presas eram incrivelmente brancas, os caninos mais afiados do que qualquer humano teria.
— Há pouco tempo atrás, Apolo, eu sequer pensava que voltaria a falar-lhe um dia. – foi o que ela respondeu.
Apolo trincou os dentes audivelmente.
— Não estou arrependido, irmã. — ele disse, duro e incisivo.
Dessa vez, ela riu. Num rosnado áspero, sarcástico e curto.
— Eu tenho plena certeza disso, irmão. — Diana respondeu, fitando-o com seus olhos letais outra vez. — Seu orgulho nunca permitiria.
— Não se trata do meu orgulho, Artêmis, se trata do que ele fez!
Foi a vez dela de largar um suspiro pesado e raivoso.
— É um ponto de vista... — respondeu, entre os dentes claros.
Apolo mordeu a parte de dentro dos lábios, sabendo que por aqueles caminhos, não chegariam a lugar nenhum.
— Por favor, Têmi... — ele murmurou, chamando-a pelo apelido que não usava desde a infância. — Não quero brigar com você.
A deusa da lua trouxe o ar para os pulmões lentamente, como se a estivesse ferindo.
— Você se lembra daquela noite? — ela perguntou, os olhos azul-crepúsculo perdidos no quebrar das vagas. — Nós estávamos bem aqui. — disse, marcando a areia clara com os pés. — Eu estava exatamente aqui quando senti o cheiro de sangue na água, e o vi... — sua franja lisa cor de prata polida caia nos seus olhos e ela tirava os fios de lá agressivamente, embora fossem curtos demais para prender-se atrás das orelhas e sempre a acabavam escorregando de volta. — Existe uma coisa especial no sague de semideuses, — murmurou. — não é dourado como o nosso nem vermelho como o dos mortais. É uma mistura. Parece cobre líquido. Bonito de se ver... — disse, com a sombra de um sorriso brincando nos seus lábios. — Sabia disso, irmão?
— Não... — Apolo sussurrou de volta. — Eu não sabia.
— Claro que não! — ela sibilou, o rosto claro refletindo a luz da sua lua no mar aberto. — Você tem outras coisas para fazer quando não está interrompendo a vida alheia.
— Artêmis...
— Você ficou aí! — Diana rosnou entre as presas, finalmente olhando para ele outra vez. — Ficou parado e calado enquanto me via entrar no mar e buscar o corpo dele. — ela disse, os lábios tremendo. — O corpo do meu melhor amigo e... talvez... do meu único amor — engoliu a seco, rangendo os dentes. — Reduzido a nada mais do que um amontoado encharcado transpassado por uma flecha... minha.
Apolo viu as lágrimas se acumulando seus olhos escuros. Lágrimas que ela nunca deixaria cair. Era mais forte do que ele. Sempre fora.
— Você não o amava. — ele murmurou. — Apenas se convenceu que sim.
— Ah, mas eu nunca saberei, não é mesmo? — ela exclamou, de um jeito cínico e perigoso, estreitando os olhos para ele. — Devo agradecê-lo por isso, irmão?
Sim... Apolo pensou com tristeza. Não existe prazer duradouro no amor, irmã. Apenas angustia, arrependimento e uma dor sem limites.
Apolo se lembrava daquela noite, cada mínimo e ínfimo detalhe. Inclusive do modo como os cílios dela pesaram com aquelas mesmas lágrimas contidas quando ela terminava de tirar Órion do mar.
Eles eram inseparáveis. A deusa selvagem e o jovem caçador. Apolo não sabia como tinham se conhecido e nunca se preocupara em perguntar. A verdade é que o Sol jamais nutrira a mínima simpatia pelo rapaz. Mas também nunca dissera isso a irmã. Ela o adorava. Passavam todos os dias caçando e as noites juntos em torno de fogueiras acesas no meio das florestas, comendo do que tinham predado e contando um ao outro das aventuras. Combinavam como duas metades. Ele era belo de se ver, Apolo admitia, para quem aquele modo rústico agradasse. Moreno, robusto, a pele de um bronzeado vermelho atraente, e modos sólidos e brandos ao mesmo tempo, de quem consegue se fazer leve e silencioso em perseguição, mas tem força o suficiente para quebrar pescoços com apenas uma mão. E ele tinha sangue de deuses, embora de ascendência desconhecida.
Eram os olhos dele que o incomodavam. Embora fossem de um castanho-mel suave e cálido, tinham escondidos uma dureza afiada, arrogante e perigosa. Olhos de uma ave de rapina. Que te convencem a não o incitar a uma briga, pois deixam claro que ele é capaz de qualquer coisa para vencer. Olhos de quem tem plena certeza que pode ter de tudo o que quiser, pois é rápido e forte o bastante. Olhos de quem não se sente obrigado a nada, mas, por outro lado, nunca aceita um “não” como resposta.
E esse foi o seu erro.
Apolo não estranhou que ele a tivesse desejado. Nem mesmo se estivesse realmente apaixonado. Na realidade, aquilo lhe parecia previsível e quase inevitável. Outra razão pela qual não apreciava aquela proximidade perigosa. Artêmis sempre fora casta e, portanto, distraída nos assuntos do desejo e do coração, jurara virgindade eterna quando ainda era pouco mais do que uma criança. E jamais submeteria seu corpo ou sua liberdade a homem nenhum. Todo o que lhe interessava era a adrenalina da caçada, o cheiro da floresta e o gosto da carne conquistada. O resto sempre lhe parecera vaidoso, fútil e desnecessário.
Ela não viu aquilo acontecendo. Não viu o castanho-claro daqueles olhos duros nos ângulos das suas curvas. Não viu aquelas narinas sensíveis atentas ao seu perfume. Não viu o anseio impaciente brilhar naquelas pupilas. Mas Apolo vira. E não foram poucas às vezes em tentara alertá-la daquilo. Inútil. Tudo o que recebia de volta eram risadas de desconsideração e olhares de condescendência, quase pena. Artêmis nunca lhe dissera com todas as letras, mas ele sabia que ela achava que seu histórico o comprometia, como se estivesse condenado a ver amor e tragédia em tudo pelo caminho. O que era razoável de se pensar. Isso somado a sua natureza protetora e ciumenta, tornava-lhe os avisos mudos. E quando insistia, acabava por irritá-la e ofendê-la. Era-lhe incabível que ele realmente se preocupasse com ela, como se fosse frágil e indefesa. Ela não era e ele sabia. Diana podia lhe julgar por seu orgulho por vezes descabido, mas também era altiva como um felino. Não é com seu corpo que me preocupo, irmã. É com seu coração.Apolo pensava. Pois esse, não há quem realmente defenda.
Ele queria estar errado. Queria muito.
Mas não estava.
E chegou o dia em que Órion finalmente revelou a ela os seus desejos, a espera de uma reciprocidade que, previsivelmente, não veio. Apolo nunca o culparia por isso. Ninguém decide quem ou quando amar, ou o amor não causaria guerras. Mas no momento em que tentou tocar na sua irmã sem a permissão dela, estava condenado. E não foi um relar de dedos tímido. Foi jogá-la contra o mato da floresta e tentar arrancar-lhe as peles sobre o corpo, quase tirando sangue dos seus lábios num beijo intruso e violento. Artêmis levara quase um minuto para recuperar-se do choque absoluto, que era ver sua pessoa preferida nesse mundo, disposta a machucar lhe dessa maneira. Ele nunca teve uma chance de fato, e quando ela finalmente despertou daquele transe atônito e ferido, o espancou até que ele perdesse os sentidos, com uma força a qual ele jamais poderia se equiparar. Mas foi vê-lo ensanguentado e inconsciente, como um trapo torcido aos seus pés, e a deusa se arrependera de ter levado tudo tão longe.
— Estava certo... — ela murmurara ao irmão, depois de contar-lhe tudo, os olhos letais quase embaçados de tristeza. — Se houvesse dado lhe ouvidos, isso não teria acontecido.
Talvez essa fosse uma maldição inerente ao sangue dois, culpar-se sem nenhuma razão.
— Por que ele ainda está vivo? — Apolo rosnara entre os dentes cerrados e lábios comprimidos.
Diana lhe erguera os orbes azuis, com o próprio perigo cintilando nas íris crepusculares.
— Você não tocará nele. — ela determinou, quase exibindo os caninos.
— O quê? — Apolo lhe inquiriu, indignado.
— Você não tocara nele, irmão. — ela repetiu, com um rosnado lupino, que fez o Sol sentir como se estivesse encarando um lobo selvagem.
— Artêmis...
— Ele é meu. — sibilou. — Meu amigo, meu companheiro, meu carma, meu erro... — ela aproximou-se mais, caçando-o com seus olhos escuros, e seus quinze centímetros mais alto não a intimidaram nem um pouco. — se for sofrer alguma retaliação, será pelas minhas mãos. E de mais ninguém. Está claro, irmão?
Apolo sustentou aquele olhar, expelindo ele mesmo um ódio mortal, que não era para ela.
— Está claro... — ela repetiu, perigosamente devagar, inundando-o com seu cheiro de floresta e carne fresca. — irmão?
Apolo piscou lentamente e ergueu o queixo antes de responder.
— Cristalino.
O que veio depois não devia tê-la surpreendido. Apolo deu a ela um mês, esperando por uma vingança que não veio. Antes espalmar as mãos e pôr-se em ação.
Instigar Gaia não fora nada difícil. Ela já detestava Órion desde que ele a tinha desafiado, dizendo que não existia criatura criada pela terra que ele não fosse capaz de caçar. Bem, deve ter mudado de ideia quando viu aquele escorpião gigantesco que ela pôs ao seu encalço, por que fugiu dele como se fosse o próprio Tártaro. E Apolo só teve usar seus oráculos e prever a rota que ele tomaria. Até aí ainda não o tinha tocado e não o faria. Será como quer, irmã.Pensava, ao levá-la até aquela praia, por onde ele sabia que Órion passaria a nado. Pelas suas mãos e de mais ninguém.
— Está uma boa noite para treinar. — ele dissera, girando o arco nas mãos.
— O que está dizendo? É lua nova, quase não há iluminação. — ela retrucara, embora também houvesse pegado o arco, quase por instinto natural.
— Exatamente. — ele devolveu, com um sorriso suave. — Está dizendo não é capaz de atirar sem luz? — provocou, lançando um olhar discreto para o mar. Quase na hora. — Estou desapontado.
— Poupe-me a beleza! Eu atiro como quiser. — Artêmis rosnara, o orgulho ameaçado, já tomando uma flecha prateada nos dedos firmes. — Vamos, escolha o alvo! O mais longe e difícil que puder! — e alocou a seta no lugar, dando um sorriso selvagem. — Vou envergonhá-lo, irmão.
Apolo quase deixou escapar um sorriso cruel. Era o que queria ouvir, Artêmis. E com outro estudo ligeiro ao mar aberto, concluiu. Está na hora.
— Pois bem. — ele murmurou, fingindo descaso. — Que tal... Vê aquela mancha escura no mar? — e apontou para onde a sombra indistinta de Órion se movia por baixo das ondas. — Deve ser belo peixe, não? Acha que consegue acertá-lo?
Diana largou uma bufada de descaso, retesando a corda do arco.
— Assista-me.
E foi assim que Órion acabou com uma flecha no meio do coração.
— Ele não merecia o seu amor, Têmi... — Apolo murmurou suavemente, antes de imprimir uma dureza fria na sua voz. — Ele não merecia nem estar vivo.
Artêmis ergueu os olhos para o céu, onde brilhava sua bela lua cheia. Perto dela, como se ainda tentasse tocá-la, a constelação de Órion brilhava também, com as estrelas de Escorpião ainda ao seu encalço, onde Zeus as havia encaixado depois das suas mortes, ante a uma a suplica da filha. Apolo detestava vê-lo contra o céu escuro, mas nunca erguera a voz contra aquilo. Os louros na sua cabeça não lhe permitiram.
— Talvez tenha razão... — ela murmurou por fim, a pele brilhando a luz das estrelas. — Mas isso não faz a dor diminuir...
Apolo aproximou-se dela como que quisesse abraçá-la, mas ela afastou-se dele, os lábios formando uma linha magoada e fina. Apolo deu o suspiro mais longo da sua vida.
— O que eu preciso fazer, Têmi? — ele perguntou, pouco mais do que num sussurro. — O que eu preciso fazer para que me perdoe?
Diana ergueu lhe os olhos predadores, como se ele houvesse acabado de pisar na sua armadilha.
— O que está disposto a fazer, irmão? — ela perguntou, como se fosse um desafio.
— Qualquer coisa. — ele respondeu, sabendo que era verdade.
Artêmis sorriu suavemente, embora seus olhos permanecessem frios.
— Muito bem. — a deusa sibilou, antes soltar a última coisa que ele esperava ouvir na vida. — Quero que faça as pazes com Eros.
Apolo olhou para ela como se tivesse acabado de xingar o próprio Zeus.
— Você quer... o que? — exasperou, os olhos arregalados.
— Quero que faça as pazes com Eros. — ela repetiu, numa calma quase cruel.
Apolo tinha os lábios abertos e orbes embranquecidos, numa expressão que beirava o pavor.
— Por que isso? — ele perguntou por fim, a incredulidade moldando seus traços bonitos.
— Por muitos motivos... — Artêmis respondeu sem hesitar, erguendo as sobrancelhas prateadas. — Principalmente porque terá de massacrar o próprio orgulho para consegui-lo e eu estou ansiosa para ver isso. — sussurrou, estreitando os olhos escuros. Mas depois, piscou mais suavemente. — E também porque é o que me parece mais justo.
— Justo?! — Apolo arquejou, quase gritando. — Como isso pode ser justo?
Diana o fitou longamente, como que procurasse por algo perdido nos seus olhos vividos.
— Não percebe, irmão? — ela perguntou num murmúrio. — Você o odeia pelo mesmo exato motivo que eu odeio você.
O modo tranquilo como ela jogou-lhe aquelas palavras frias o feriu cruelmente.
— Você o odeia porque ele tirou-lhe alguém que amava. — ela continuou.
— É diferente! — Apolo sussurrou, estrangulado, tentando acreditar no que falava.
— É mesmo? — Diana inquiriu, parecendo ponderar seriamente. — Tem razão. — concluiu por fim. — Ele não te fez matar Jacinto com as próprias mãos, suponho que mereça um desconto.
Apolo trincou os dentes, sentindo a cabeça doer. E por mais que procurasse nas profundezas da mente, não achou argumento que pudesse prevalecer.
— Não posso... — foi tudo o que ele conseguiu dizer.
Ouviu Artêmis rir.
— Decepcionante, embora previsível. — ela sibilou, ainda rindo pelo nariz. — Santa hipocrisia, Apolo! — disparou, parando de rir. — Já faz mais de sete séculos e ainda parece não ter aprendido o que a vida tenta ensinar-lhe desde que provocou o Cupido naquele monte do Olimpo. — ela se aproximou de rompante, cravando-lhe os olhos azuis. — Você não é melhor do que ele! — ela rosnou, expondo as presas brancas. — Nunca foi. E, depois do que me fez, nunca será. — declarou antes de acabar. — E se não pode perdoá-lo, me diga: Por que eu deveria perdoar você?
Depois de minutos apenas ouvindo o quebrar nas ondas do mar, ele não encontrou nada lhe dizer.
— Acho que acabamos por aqui. — a deusa da caça decretou, virando o corpo para sair.
— Eu vou tentar... — ouviu-se um murmúrio mínimo, quase encoberto pelos sons do mar.
— O que disse? — Artêmis questionou, tornando a vê-lo, os olhos duros como dois cristais.
— Eu vou tentar. — Apolo repetiu, dessa vez alto e decidido, mirando firmemente suas íris azuis.
— Isso é uma promessa? — ela insistiu.
— Sim, Artêmis. — ele garantiu, embora tudo lhe doesse ao completar. — É uma promessa.
***
Apolo se levantou do estofado azul como uma atleta daria a largada na corrida da sua vida, os olhos azuis brilhando numa determinação implacável. Estava cansado. Cansado de chorar pelos próprios erros, de viver angustiado e sozinho pelos cantos, e lamentar pelo que ele não podia mudar. Estava farto de ser um joguete nas mãos do destino cruel e dos seus medos estúpidos. Estava cheio de ser arrastado pelas circunstancias e afogado por si mesmo. Basta. Ele não faria esse papel outra vez. Não se machucaria, nem trairia os próprios desejos. Talvez isso fosse egoísta e narcísico da sua parte. Pois para o Hades com isso! Ele amava Dionísio. Tinha plena e absoluta certeza disso. Não nadaria mais contra aquela maré. Não resistiria mais aos próprios instintos. Não lutaria mais contra aquilo. Porque ele era ridiculamente fraco perto do que estava sentindo.
Então, se Dionísio o detestasse, se o desprezasse, e não quisesse mais, teria que expulsá-lo aos tapas pelo resto dos seus dias. Por que ele invadiria aquele castelo, se dobraria no seu colo e imploraria, choraria, lutaria, faria absolutamente tudo o que fosse possível para tê-lo de volta. E se aquilo não o demovesse, ele voltaria no outro dia e faria tudo outra vez. E mais outra. E mais outra. Nem que precisasse passar anos na sua porta. Nem que se esgotasse de todas as suas forças. Não desistiria. Por que nada nunca lhe importara tanto assim.
Talvez Apolo não o merecesse. Era provável que não. Pois que o destino se encarregasse de tentar tirá-lo das suas mãos, ele nunca mais lhe facilitaria o trabalho. Aliás, boa sorte com isso. O mesmo deus implacável e poderoso que derrubara a maldita Píton estava se levantando agora e ele tinha uma nova presa no seu caminho.
— Ei! Ei!!! O Olimpo está chamando, raio de sol! — Hermes gritou, tirando-o do seu foco obstinado. — Aonde você pensa que vai?
Apolo piscou lentamente para ele, como se houvesse enlouquecido.
— Onde mais? — perguntou, a voz grave e melódica lhe saindo numa calma suave e decidida. — Vou ver meu Dionísio.
E com isso, rumou para a porta a fora.
— Mas o... ei, volte aqui! — chamou, sem nenhuma resposta, fazendo que partisse num caminhada irritada e ligeira ao seu encontro. — Apolo, não me ignore, seu ingrato! O senhor não vai a lugar algum! – Hermes anunciou, segurando-o firmemente pelo bíceps.
— Hermes... — Apolo avisou, olhando fixamente para os dedos longos em torno do seu músculo, como quem decidia se os mordia ou quebrava. — Solte-me.
O seu tom era cortante, autoritário e perigosamente controlado, o que e fez Hermes abrir os dígitos quase que por instinto, arregalando as íris amareladas. Mas não era feito do material daqueles que recuam ante a ameaça e se colocou a frete do irmão antes que ele desse mais um passo.
— Apolo... — ele disse, mostrando as palmas num gesto pacifista. — Eu sei que está com presa, que finalmente percebeu quais foram seus verdadeiros erros e quer tê-lo de volta nos seus braços o mais rápido possível. — argumentou, diplomata e empático. — Mas você simplesmente não pode sair assim. — anunciou com seriedade, baixando os braços rendidos.
O Sol uniu as sobrancelhas douradas na fronte, estreitando os olhos azuis.
— Apolo, olhe para você! — o irmão mandou, saindo da frente de um espelho. — Olhe para você...
E o deus da medicina arregalou as íris para si mesmo.
Hermes estava certo no que lhe dissera ao chegar, ele estava horrível. Pálido, amarrotado, visivelmente mais magro, despenteado, fadigado e faminto. No que qualquer um tentaria pô-lo sentado ao mirá-lo por mínimos segundos.
— É capaz de desmaiar antes de colocar os pés para fora daqui! — Mercúrio concluiu, vendo no moldar dos seus traços que havia vencido. — Vamos fazer assim. Você vai agora tirar essa roupa nojenta, entrar numa daquelas banheiras e ficar lá por umas duas horas. No tempo que eu vou levar para ir até o Palácio do Ilusão e trazer algo de Hipnos que seja capaz que tombá-lo num quase coma sem sonhos de pelo menos doze horas. E quando seu banho acabar, vai comer tudo o que seu servos lhe botarem ao alcance e dormir até amanhã. E então... — ele propôs, pousando as mãos no largo dos seus ombros. — Se estiver se sentindo bem a acreditar que é o momento, eu mesmo vou você. — disse, apertando-o amigavelmente entre os dedos. — Mas por hoje, por favor, irmão, apenas descanse.
O deus dos ladrões viu uma luta feroz se travar no rosto dele, no que mais uma vez a razão guerreava contra seus desejos primitivos, que queriam encurtar aquela distância desnecessária e dolorida o mais depressa possível.
— Se eu fosse Dionísio e me deparasse contigo neste estado na minha porta, não o deixaria nem entrar. — Hermes jogou, vendo seu lance pensado cavar fundo a mente do irmão.
E acertar em cheio.
— Muito bem. — Apolo murmurou por fim, sério e decidido. Levando Hermes a um suspiro de alívio.
Ele precisava de cuidado, de sossego, de um descanso mínimo. Aquela calmaria antes das batalhas.
Por que amanhã seria o dia da sua vida.
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