Bacanal

1 Prólogo


Notas iniciais
Caros leitores aventureiros, escrevi essa estória com muito empolgação, e foi preciso uma coragem inédita para expô-la, mas eu amo a estrutura desse site e tive muita vontade de compartilhar com vocês meus devaneios mitológicos. O texto contém flashbacks, mas todos serão devidamente avisados, assim como a discrepância dos anos.Os frases em italico equivalem a pensamentos das personagens. As palavras em italico no meio do texto normal são vocábulos em destaque apenas. As frases entre parenteses são comentários do narrador. Boa leitura...

Eu teria perdoado a sua vaidade se ela não houvesse ferido a minha.

— Jane Austen, “Orgulho e Preconceito”

— Sete séculos e meio atrás-

O orgulho de Apolo não cabia dentro do seu peito.

Ele bebeu ar audivelmente, deixando um sorriso largo exibir os dentes compridos e brancos. Seus cabelos longos e dourados como ouro polido dançavam majestosamente em torno do rosto belo e bronzeado ao sabor da brisa quente. A luz do sol brilhava na sua pele.

Estava no topo de uma colina na base do Olimpo. Viera até ali para se afastar um pouco da balburdia massiva que o rodeava sem trégua por toda a última semana. Era um ato de falsa modéstia. Ele não assumiria publicamente, mas sorveu cada elogio, gratificação, congratulação, tapa nas costas e beijo na face que lhe davam sem reservas. Os homens adoram os deuses, os deuses adoram heróis.

E ele era um deles.

O mundo estava cheio de monstros, cada qual com sua trilha de cadáveres e seus rivais. Mas havia um em especial que vinha aterrorizando mortais e imortais: a Serpente Maligna, a Cobra Monstruosa, a Devoradora de Homens – A Píton.

Sendo um dos bastardos de Zeus, Apolo sofrera na mão de Hera mesmo antes de nascer. Além de amaldiçoar sua mãe, Leto, e impedi-la de conseguir abrigo para o parto em qualquer lugar da terra, a rainha dos deuses ainda colocou o monstro reptiliano ao seu encalço. O jovem deus ainda não podia nem imaginar labuta dolorosa da mãe, grávida e sozinha, sem que as fibras do seu ser vibrassem de fúria. Contra deusa, nada podia fazer, mas desde que segurou um arco pela primeira vez, soube que seria ele quem mandaria aquela criatura para o Tártaro.

Que um raio de Zeus o acertasse na cabeça se ele ousasse dizer que fora fácil. Perdera a conta dos anos que passou se fortalecendo. Correndo até a fadiga extrema. Treinando até sangrar os dedos. Forçando até o limite. Ninguém lhe pedira para fazer isso. Ninguém iria ajuda-lo. Ele não tinha nada além da própria vontade e do ódio mais puro. Mas ele conseguiu. Perseguiu o monstro até a sua toca, cheirando a veneno e corpos putrefatos. Instigou a sua ira e lutou. Lutou como um titã em fúria. No fim de três dias de justa, a Píton tinha uma fecha no olho, uma na boca e outra no peito do corpo escamoso, frio e morto e um Apolo fadigado, ralado, mas ileso, voltara vitorioso para casa.

Ah, o orgulho agradecido nos olhos da mãe dele aqueceram seu coração cansado. Sua irmã, tão corajosa e dura, beijou-lhe o rosto com lágrimas nos olhos. Encontrou a paz naquele dia. Mas logo então vieram os outros. Filas de deuses, grandes e pequenos, exaltaram sua vitória, exageraram seus feitos, bajularam sua pessoa, e incharam seu jovem ego. Sim, o que ele fizera fora épico, afinal. Quantos deles tinham a resiliência e dureza necessárias para suportar aquela labuta? Quantos marcharam sozinhos e regressaram? Quantos haviam sobrepujado monstruosidades tão poderosas e voltado incólumes? Um? Dois? Nenhum?

Pois que o adulassem por anos. Ele merecia.

No meio desses pensamentos, ainda com um sorriso vaidoso no rosto, Apolo ouviu um ruído seco e elástico que ele reconheceria a quilômetros de distância. Era um arco sendo retesado. Seguindo a origem do barulho com a cabeça, girou a tempo de ver o arqueiro soltando a flecha. Metros abaixo dele, num declive plano, Eros treinava a pontaria.

Apolo encarou o jovem deus do Amor e seu primeiro pensamento foi o que aquele pirralho estava fazendo ali.

O rapaz puxou outra flecha da aljava e a encaixou na corda do arco curvo e languido, distraidamente. Um vento repentino jogou uma mexa solta do seu cabelo quase liso contra seu rosto delicado, mas ele não se moveu com o incomodo, apenas soprou suavemente a melena loura e com uma graça circence, disparou a segunda flecha. Numa trilha reta e ligeira, ela encontrou o mesmo destino da primeira.

O centro do alvo.

Exibido. Apolo pensou. Treinar ao ar livre num lugar ao qual nem pertencia. O que ele estava fazendo ali afinal? Não era um olimpiano. Afrodite deve ter precisado dele em algum momento, mas agora provavelmente está ocupada e largou o filhote zanzando com armas perigosas por aí.

O deus do sol encarou o sobrinho por mais algum tempo, que continuava o exercício sem ter a mínima noção da sua presença, o que lhe pareceu ultrajante. Lembrou-se metodicamente de todos os rostos daqueles que lhe parabenizaram por sua epopeia na ultima semana.

Eros não estava entre eles.

Quanto mais observava, mais irritado o deus ficava. O sobrinho acertava seta após seta sem nenhum esforço visível. Usava roupas finas, num tom rosa-seco, que insinuavam os músculos suaves por baixo da pele. Os cabelos compridos e muito claros estavam atados por uma tira de couro simples, expondo a cútis branca impecável do seu pescoço gracioso e seu rosto absurdamente bonito, e ele apertava concentrado os lábios cheios que invejariam uma cortesã cada vez que puxava a corda rija do arco curto.

Houve um tempo em que Apolo era o mais belo entre todos os deuses. Seus semelhantes invejavam suas formas e os mortais as idolatravam, elevando-o ao ideal de beleza masculina e esculpindo-o em mármores caros centenas de vezes. Mas então Afrodite e Ares se apaixonaram como só os irracionais fazem, e a deusa da beleza pôs aquele bastardo — perfeito — no mundo.

Fleck!

Uma das flechas acertou o meio exato da outra, deslizando dentro dela, partindo a madeira flexível no meio até a base. Eros ergueu a cabeça por um instante e sorriu, satisfeito. Já pegava outra seta quando alguém limpou audivelmente a garganta atrás de si. O deus do Amor abandonou a postura e se virou para o som, num movimento fluido, encontrando Apolo de braços cruzados sobre o topo da colina.

— Ah, tio, você está ai! — exclamou, colocando a mexa rebelde atrás da orelha. A voz dele era irritantemente suave e macia. – Perdoe-me, eu não o tinha visto...

— Claramente não. — o Sol cortou. A voz melódica estava dura como as batidas de um tambor. — Se eu o quisesse mal, já teria uma dúzia de furos. Você é distraído, descuidado e ainda está fazendo isso errado.

Por um instante, Eros ficou verdadeiramente confuso, estreitando um pouco as sobrancelhas claras.

— Fazendo errado? — hesitou — O quê?

— Está dando piruetas por acaso? Plantando bananeiras? Fazendo malabarismo? — questionou Apolo, rude.

O que restava de sorriso no restava no belo rosto de Eros, desvaneceu-se.

— Não... — ele respondeu num murmúrio mínimo.

— Se bem que, desengonçado como é, não teria competência para isso também... — continuou Apolo, como se não tivesse ouvido.

O Cupido deixou os lábios volumosos se abrirem minimamente, numa surpresa magoada. Apolo estava claramente zangado com ele, e ele não sabia o motivo.

— Além de não demonstrar a menor cautela ou vigília, está atirando de forma equivocada e nem percebeu. — acrescentou, descendo a colina.

Eros não conseguiu evitar lançar um olhar para o alvo cravejado e garantir que não estava delirando ou se por algum acaso bizarro as flechas tinham mudado de lugar. Não. Todas as sete continuavam firmemente apertadas no centro do alvo.

— Eu estou falando com você, garoto. — repreendeu Apolo, estalando os dedos agressivamente perto do rosto do sobrinho, que piscou repetidamente por reflexo.

— Ah, eu...

— Sua concentração é deprimente.

A mágoa de Eros começou a transformar-se numa raiva cáustica.

— Desculpe-me... — ele disse, rígido.

— Sem desculpas, não é problema meu. Agora faça de novo. — ordenou Apolo.

O Cupido o encarou por alguns segundos, o rosto bonito liso como um pilar, depois sem dizer nada, colocou-se na posição adequada e pegou uma seta da aljava quase vazia. Encaixou a base de penas cinzentas na corda e puxou com calma, os olhos escuros mais absortos que nunca. Mirou o centro perfeito do alvo.

Seus dedos longos e finos se abriam quando ouviu uma risada alta e desdenhosa. Sua cabeça se virou para o som por puro reflexo, comprometendo sua postura. Mas era tarde demais para parar a flecha. Ela partiu numa trajetória errática, e triscou no canto do alvo, lascando a estrutura e mergulhando aos giros para o precipício.

— Isso foi ridículo. — o Sol disse, numa lentidão maldosa. Havia um quase sorriso de vitória na sua boca.

Eros travou o maxilar, apertando os dentes colericamente.

— Você me atrapalhou, — disse num sussurro indignado. – de propósito...

— Ora, é mesmo? — provocou o deus do sol com desdém. — Isso que você usa com tanta indiferença são armas letais! Com elas se fere e se mata. Acha que há silencio na guerra, garoto? — franziu o nariz com desprezo. — Que caísse o mundo na sua cabeça, você poderia ter acertado se não tivesse a concentração de um beija-flor bêbado. Não me culpe por sua própria incompetência!

O deus da paixão estreitou os olhos escuros, a raiva ardente congelando suas feições.

— Por que está fazendo isso? — perguntou por fim.

Apolo o olhou de cima a baixo, com orgulho inchado e ferido embotando sua consciência, explodiu.

— Talvez eu esteja cansado de vê-lo zanzando por aí, carregando minhas armas como se fossem brinquedos! — ele estava gritando agora — Por que acha que é digno delas, menino insolente? O que você já fez para merecê-las? As minhas setas ainda estão cravadas no corpo venenoso da Devoradora, que se estende por toda planície. Com elas eu lutei e fui vitorioso! Mas você... você zomba dos meus instrumentos de morte! Diverte-se com elas como se fosse um passatempo, um joguete! Acha que tem esse direito? — apontou o dedo para o rosto do outro. — Pois eu te digo agora, garoto, você não tem! Contente-se suas poções e venenos. Mas não se atreva a meter-se com o que me pertence. Exprime um pouco de vergonha desta sua natureza indecente e deixa o arco e a flecha para aqueles que são dignos deles!

Sem mais uma palavra, o deus do sol virou-se para o rival e saiu a passos largos dali, como se o outro não merecesse nem o benefício da resposta.

Mas Eros não responderia mesmo se pudesse. O que ele sentia agora não caberia em algumas palavrinhas. O deus do Amor acompanhou a saída do outro, com os olhos escuros queimando num fogo frio e cheio de malícia. As fibras do seu ser vibrando ódio lento e corrosivo, que subiu lhe a cabeça antes que pudesse controlá-lo.

Sem exprimir uma letra por seus lábios cheios, ele pegou de uma árvore baixa onde se dependurava com displicência uma aljava totalmente diferente. Uma de suas metades era branca enfeitada em dourado, a outra escura e lisa como vidro. Puxou uma seta de cada lado. A primeira era fina e afiada, feita do ouro mais puro, as penas brancas como nuvens no verão. A segunda era robusta e pesada, feita de chumbo, a ponta áspera e irregular e as penas completamente pretas.

Sim, Apolo, as suas setas ferem monstros. O deus pensou, retesando a corda do arco, mirou com cuidado. Mas as minhas ferem deuses.

E soltou a primeira flecha.

Notas finais
O primeiro capítulo já está pronto e será postado em breve, assim como a capa da estória (que por algum acaso ainda precisa ser desenhada por mim :p). Os demais capítulos serão postados semanalmente, ou essa é a ideia... Qualquer duvida quanto a um termo desconhecido ou comentário, fiquem a vontade para fazê-lo, terei um prazer enorme em responder.