Bacanal

2 O Bacanal


Notas iniciais
Capítulo bem grandinho para engajar a estória. Agora aparece meu personagem favorito. O texto tem algum termos numerados que provavelmente são desconhecidos para quem não é muito familiarizado com mitologia, todos são explicados nas notas finais. Aqui segue uma definição simples das personagens principais para ninguém se perder nos sinônimos. — Apolo/Febo/Sol: deus do sol, da musica, da poesia, da medicina, da razão e dos oráculos. — Eros/Cupido/Amor: deus do amor, da paixão e do sexo. — Dionísio/Baco: deus do vinho, das festas, das orgias e do teatro. Boa leitura.

Dos faunos o cortejo alegre e rude

Rodeia Baco, cuja fronte a hera

Cinge, como a Apolo, a quem a espera,

Como a Apolo, a eterna juventude.

Em torno ao jovem deus, lindas bacantes,

Címbalos, tirsos, plantas carregando,

Da embriagues se mostram presa, quando

Bem alto entoam versos delirantes.

— Longfellow, “Canção de Brinde”

— Presente –

Dionísio arquejou, entreabrindo os lábios vermelhos. Os cílios espessos tocavam em suas em suas bochechas lisas enquanto os olhos dançavam por baixo das pálpebras fechadas. Os cachos castanhos entremeados de folhas de vinha molduravam a face macia e ruborizada.

Sempre ruborizada.

Ele arquejou novamente, desta vez deixando ver os dentinhos brancos molhados de vinho. O peito, nu e alvo, subiu e desceu lentamente, enquanto ele lutava para se conter, acabando por derrubar o cântaro já vazio que segurava molemente na mão direita. As bacantes riram, deliciadas.

Apolo trincou os dentes.

O deus das orgias estava estirado languidamente sobre uma cama de almofadas delicadas, a cabeça pousada sobre o colo esbelto de uma de suas servas, que ora ou outra lhe acarinhava as melenas em desalinho. Ele usava apenas um chiton1 púrpura curto, que a muito havia se soltado dos alfinetes de ouro que o segurava em seus ombros, e agora repousava frouxamente ao redor de sua cintura, deixando à mostra centímetros e mais centímetros de carne terna e clara. O umbigo pequeno estava cheio de vinho tinto, o qual ele tentava equilibrar, enquanto uma bacante morena especialmente bonita lhe tocava em pontos maldosamente estratégicos. Ao seu redor, uma dúzia de outras bacantes, alguns sátiros e mais um punhado de divindades assistiam a brincadeira lasciva.

Apolo era um deles.

Um gemido alquebrado escapou de sua boca quando a bacante deslizou as unhas pela parte interna de sua coxa esquerda até por baixo do tecido amarrotado e fino de sua solitária peça de roupa, maculando a pele suave com uma trilha de linhas escandalosamente vermelhas. O deus jogou a cabeça para trás, esparramando ainda mais os cachos macios pelas pernas desnudas da ménade2, mas manteve o tronco magro bravamente imóvel, e todo líquido rubro inerte. As fêmeas exclamaram em expectativa, e depois murmuraram aprovação ou decepção, sempre em cochichos e risadinhas.

A bacante morena apertou os lábios numa expressão manhosa, para depois abri-los num sorriso libertino. Subiu a mão espalmada pelo peito liso do deus e, num movimento brusco, agarrou-lhe um mamilo avermelhado, apertando-o entre os dedos.

Dionísio gemeu alto, abrindo os olhos verdes e escuros como as folhas entre seus cabelos, e em sua surpresa... mexeu os quadris.

Uma linha fina vermelho-escura escorregou lentamente pela pele branca da lateral do seu abdome, mas antes que pudesse manchar o tecido das almofadas, a bacante inclinou-se sobre seu senhor e lambeu o vinho derramado até a sua fonte, rodeando o circulo demoradamente com a língua, e então finalmente umedecendo os próprios lábios e sorrindo em satisfação. As outras explodiram num rompante barulhento de palmas, gargalhadas e gratificações ruidosas.

O jovem deus ergueu o tronco, sentando-se sobre as almofadas, e abriu um sorriso preguiçoso, guiando os dedos até o queixo da bacante morena e trazendo-a para perto.

— Ah... minha querida. — murmurou. A voz doce e cálida como um vinho aquecido cheio de especiarias. —, você conhece todos os meus pontos fracos... — e beijou a boca ainda úmida da bacante.

Apolo desviou os olhos.

— Desconfortável, tio?

O deus do sol ergueu os orbes azuis, controlando uma contemplação enfurecida, tanto pela insinuação quando pelo vocábulo inapropriado.

— De maneira alguma. — respondeu calmamente. — Por quê a pergunta? — rebateu, erguendo uma sobrancelha dourada.

— Ah, você parecia consideravelmente desconfortável... — provocou o outro, uma duvida perigosamente divertida brilhando nos olhos escuros.

— Neste caso, creio que tenha sido apenas uma impressão equivocada. — disse, mantendo o rosto neutro. Quando o outro apenas cerrou levemente as pálpebras, acrescentou. — De qualquer forma, este não é exatamente o meu tipo de... celebração. — completou cautelosamente, com um franzir mínimo entre as sobrancelhas, desviando a atenção para o cálice ainda cheio entre suas mãos.

— Não pensei mesmo que fosse. — declarou prontamente.

Apolo voltou-se rapidamente para o outro deus a sua frente, desta vez com não tão competente em esconder sua irritação. Ele era um deus da Razão, não se afetava tão frequentemente. Mas Eros tinha uma facilidade extremamente inconveniente de tirá-lo do sério. No entanto, apesar dos seus olhares homicidas, este tinha a face despreocupadamente voltada para o salão. Apolo acompanhou seu olhar.

Dionísio agora se encontrava numa cadeira alta, luxuosa, coberta de peles felinas, com toda a pompa de um trono. Uma serva qualquer havia prendido apenas uma das pontas do chiton sobre seu ombro esquerdo com nó, permitindo a visão do mamilo ainda excessivamente enrubescido pelo tratamento anterior. Sobre seu colo havia uma vasilha de bronze trabalhado cheia de uvas maduras, as quais ele jogava, uma a uma, para a pequena multidão de ménades, que ziguezagueavam num completo caos de movimentos, tentando pegar as frutas com a boca.

Em uma ocasião, duas bacantes tropeçaram entre si, e desabaram numa confusão de membros eufóricos, que acabou com uma delas sobre a outra, o vestido emaranhado entre elas lhe deixando as nádegas redondas completamente nuas.

Ah, deuses... Apolo pensou, acometido. Sua companhia não só gargalhou da cena com os demais, como aplaudiu vigorosamente.

— Linda! — proclamou. — Mas a verdade, tio, é que não existe realmente outro tipo de... celebração. — retomou inesperadamente, imitando a pausa hesitante do outro, embora ainda fitasse, concentrado, a confusão do salão.

Apolo cerrou os orbes azuis ante a incapacidade de discordar. Afinal, o deus das festas deve saber como dar uma...

— Eros, por que estamos aqui? — perguntou. A frieza da voz contrastando com o calor suave de emanava da sua pele.

— Ora... — Eros finalmente voltou a atenção para sua companhia – era você quem queria conversar. Reatar os laços. Retomar a relação... Como nossa adorada Hera costuma dizer? — ele passou os dedos finos pelo queixo liso, fingindo dúvida. — Oh sim! “Trabalhar com o perdão.” — completou, com um sorriso sádico escondido na curva dos lábios cheios.

Apolo não reagiu à provocação, embora sentisse um gosto amargo na boca. De fato a esposa de seu pai fazia uso da expressão com relativa frequência, normalmente quando estava a ponto de matar sanguinariamente algum semideus e o senhor dos céus a obrigava a se conter.

Semideuses. Filhos bastardos. Como ele.

— De fato. — respondeu o deu do sol. — Mas, por que aqui? — insistiu, rodando as íris pelo ambiente.

Eros deu ombros tediosamente, abrindo um sorriso lento.

— Território neutro? — sugeriu mais do que respondeu, erguendo as sobrancelhas claras.

— Território neutro... — repetiu Apolo, a incredulidade despontando na voz. — Acaso tomou para si as tarefas de minha irmã? — ironizou, referindo-se a Atena, deusa da sabedoria e estratégia em batalha.

Para sua irritação, o Cupido apenas riu. Alto e prazerosamente. Tinha uma gargalhada suave e bonita como o canto de um pássaro.

— Ah, meu querido parente. — começou. A voz transbordando condescendência. — e o que é o Amor, senão uma batalha árdua que todos lutam e ninguém vence?... — deixou a pergunta retórica pairando no ar denso a sua volta, enquanto apoiava a fronte sobre as mãos cruzadas, cravando os olhos impiedosamente escuros nos ramos de louro entremeados nos cabelos dourados e agora curtos de Apolo. — Esta é uma lição a qual eu esperava que já houvesse aprendido.

A aljava bicolor de Eros descansava pacificamente no contorno da cadeira as suas costas e o arco de metal claro estava praticamente largado ao seu lado, se apoiando tordo no assento. Mesmo assim, Apolo sentiu como se tivesse sido violentamente atravessado por uma de suas flechas.

Outra vez.

O poderoso deus do sol, da musica, da poesia, da medicina e dos oráculos apenas fitou rival inexpressivamente.

Eros demorou muito a apresentar outra forma que não a infantil, uma criança alada, um pequeno cupido. Mas quando finalmente o fez, aparentou estar, numa perspectiva mortal, no tenro começo da vida adulta, com não mais do que duas décadas de vida. Ainda muito jovem se comparado à aparência usual da maioria dos deuses. E trazia esculpido no rosto todos os traços avassaladoramente belos da mãe, Afrodite: os malares altos; o nariz reto e pequeno; as sobrancelhas arqueadas; a curva do queixo bem traçado; os lábios cheios e tentadoramente rosados, como se implorassem por um beijo.

Isto além das melenas suavemente onduladas de um louro claríssimo que adornavam sua cabeça e desciam graciosamente despenteados por seus ombros, os ângulos sinuosos e curvas languidas do pescoço esguio, a uniformidade marmórea de sua pele branca, o comprimento assombroso dos cílios quase brancos e curvos que molduravam um par de enormes olhos escuros. Não. Escuros não. Pretos como tinta. Como uma noite infinita. Como um poço sem fim. Aquelas íris negras eram a única herança visível do senhor da guerra, seu pai e irmão de Apolo.

O deus do sol quis olhar para seu sobrinho e detestá-lo. Quis notar aquela beleza capaz de destruir a sanidade de qualquer mortal e desprezá-la. Quis amaldiçoar seu nome e a sua existência. Quis humilhá-lo, exilá-lo, machucá-lo. Quis até mesmo que fosse possível matá-lo, ver o icor3 gêmeo ao seu deixando seu corpo depois que despedaçasse aquela perfeição com uma centena de setas.

Mas não pode fazê-lo. Não porque não tivesse motivos. Ele tinha, e se lembrava vivamente deles toda vez em que o significado daqueles louros lhe pesavam dolorosamente na cabeça. Mas sim porque, se contasse todo o tempo que passou gritando, chorando e abominando o outro com toda a sua essência, equivaleriam anos e mais anos mortais. Apolo estava simplesmente cansado. Esgotado até o ultimo gemido. Espremido até a última lágrima.

Por isso, quando Eros sustentou aqueles olhos, azuis como um céu de verão, não viu neles nem um traço da cólera implacável que esperava encontrar. Ali havia apenas uma fadiga terrível e uma tristeza que apenas um deus do olimpo era capaz de sentir e se manter vivo.

Para a surpresa de Apolo, o sarcasmo sádico no rosto de Eros desabou e ele deixou o ar escapar lentamente pelos lábios cheios, com uma expressão séria e estranhamente amena.

— Eu não o encontrei aqui com a intenção de tripudiar. — murmurou. A voz baixa, lenta e mais gentil do que o outro julgava possível vindo dele. — nem mesmo... zombar de seu sofrimento. — completou, com uma ruga mínima surgindo entre as sobrancelhas.

— O sofrimento que você me causou? — perguntou o Sol, ainda sem raiva. Apenas com uma inflexão dura.

— O sofrimento que você me compeliu a causar. — respondeu o Amor, no mesmo tom.

Os dois se fitaram mudos, a música desconexamente alegre do salão inchando o silêncio entre eles. Apolo desviou os olhos primeiro, negando levemente com a cabeça.

— Este pode ser o cerne da questão, no entanto, deixou de importar a décadas. — declarou. As íris perdidas nos movimentos pouco pudicos das bacantes no centro do salão, sem realmente vê-los. — Não foi para debater inutilmente nossas razões que o procurei.

— Então, por que o fez?

— Porque estou cansado de odiá-lo. — rebateu de imediato, fazendo o outro arregalar levemente os olhos pretos. — E sou inteligente o suficiente para querer que não me odeie, tampouco. — disse, erguendo um pouco queixo. — Há de concordar que a maneira com que expressa sua insatisfação é bastante... eficiente. — concluiu, destacando o eufemismo numa gradação ligeiramente ácida.

Foi a vez do deus do amor sentir um gosto ruim na boca, evitando mexer-se desconfortavelmente no assento e entregar seus pensamentos.

— De fato... — foi tudo o que disse.

— Além disso... — Apolo continuou, piscando demoradamente, e baixando o tom de voz ao dizer: — Eu prometi isso à uma pessoa...

— Quem? — Eros perguntou antes de perceber, os olhos negros cintilando de curiosidade.

— Isso não é da sua conta. — foi o que ele disse apenas.

Antes que aquilo se tornasse outra pausa lotada de fatos não ditos, Apolo sentiu-se amolecer.

Todo deus em sua forma divina causa certos efeitos nos demais seres com sua simples presença. Para os mortais, o impacto era tão intenso que destruía instantaneamente sua frágil sanidade ou até mesmo seus corpos, sendo invariavelmente letal. Fato que obrigava as divindades a adotarem formas inferiores quando tinham a intenção de interagirem com os homens sem matá-los. Já nos outros deuses, isso se traduzia numa série de sensações especificas. Os humanos chamavam aqui de “áurea”.

Apolo causava nos próximos uma percepção de calor ameno e agradável, como se tivessem a pele tocada pela luz de um nascer do sol; além de amainar ligeiramente qualquer dor física e proporcionar o relaxamento de uma canção suave, o que era consideravelmente avivado por sua voz grave e musical. Eros gerava uma inquietação abrasadora no baixo ventre, que arrepiava os pelos e eletrizava a pele; tornava todos os desejos viscerais mais intensos, enfraquecia o autocontrole e induzia a um comportamento mais afetado e afetivo.

Quanto mais tempo se passa na companhia de um determinado deus, mais habituado e, por tanto, menos comprometido pela sua presença o individuo é. Ou pelos menos foi isso o que o deus do sol garantiu a si mesmo, quando foi tomado por aquele torpor demente.

Seu cérebro pareceu flutuar dentro da sua cabeça, e seus membros se tornaram prazerosamente leves. Seus lábios formigaram, tomados por uma sede absurda, que não era de água. Um calor muito diferente do seu subiu por seu pescoço e face, vindo do seu interior. Seus tendões e músculos se afrouxaram, e a tensão que nem havia notado que tinha nos ombros, desapareceu. Sua língua pareceu derreter dentro da sua boca. De repente tudo se tornou mais lento. Mais denso. Mais doce. As luzes piscaram descompassadamente e as cores se fundiram umas nas outras. Ele sentiu uma vontade irresistível de enlouquecer, enquanto sua consciência era lenta e gostosamente colocada para dormir.

Delirante. A sensação era delirante...

Não. Apolo lutou contra aquela embriaguez insana, apertando os punhos e puxando o ar sofregamente para dentro dos pulmões. O que apenas serviu para machucar lhe as palmas das mãos e inundá-lo com o perfume inebriante de frutas maduras, folhas secas e — é claro — vinho tinto, forte e antigo.

Dionísio...

— Que os sátiros me arrastem de volta para fora do Olimpo se quando eu despertei dos braços de Hipnos4 esta manhã achei que teria uma dupla tão ilustre presente em minha humilde festividade!

O deus do vinho surgiu por detrás da cadeira de Eros, apoiando intimamente as mãos na madeira da parte alta das costas do assento. O Amor riu em saudação. Apolo não sabia se era capaz de sustentar indiferentemente os olhos verdes de Dionísio, então cravou sua atenção em Cupido, ato que quase o fez abdicar da diplomacia e estapeá-lo ao perceber sua tranquilidade. Ele não parecia nem mesmo afetado por aquilo que quase o amortecia, e o máximo que Sol notou foi um sutil enrubescer em suas bochechas claras, o que o levou a agradecer mentalmente por sua pele bronzeada.

Dionísio era o deus mais jovem de Olimpo. Não devia sequer ter mais de dois séculos de vida e estava ali a menos do que isso. E mesmo que fosse um dos seus irmãos de sangue, desde que Zeus o considerou digno de ser um Olimpiano e o trouxe para o plano imortal, Apolo o evitava como os gatos fugiam da água gelada. Por quê? Ele não saberia dizer. A áurea dele tinha muito há ver. Aquele conjunto de sensações… estranhas, o afetavam de uma maneira que ele não conseguia explicar nem mesmo para si. Então simplesmente decidiu que não gostava delas.

— Ora essa, Dísi, não fale como se eu fosse um estranho! — protestou Eros, torcendo o tronco esbelto e inclinando a cabeça a fim de fitar o anfitrião.

Varias informações chegavam a Apolo simultaneamente, como a familiaridade do pouco espaço entre as divindades, a facilidade de com que Eros mantinha contato visual, além de um monte de movimentos e sons secundários vindo do resto do salão. Mas o deus descartou tudo isso por uma, e apenas uma informação:

Dísi?

— E como não? Você me abandonou! — retrucou Dionísio, imprimindo uma acusação caprichosa na sua voz rica e doce.

— O quê? — exclamou. — Como assim? Não. Eu não... eu só... quer dizer...

Com o silêncio embaraçado de Eros, Apolo arriscou deslizar os olhos para cima.

Dionísio tinha os braços nus, com músculos suaves por baixo da pele alva, cruzados sobre o peito liso e imberbe. O rosto jovem e bonito montado numa expressão de manha, com uma sobrancelha castanha inclinada em uma interrogação desafiadora e os lábios cheinhos e desconcertantemente vermelhos apertados num biquinho de mágoa. Ele ainda parece apenas um menino.Apolo pensou. Um menino lindo... Acrescentou a contragosto.

— Certo... — Eros suspirou, vencido. — Talvez eu tenha ficado mais ocupado que o de costume por alguns meses...

— Dois anos! — sibilou o deus do vinho, por detrás dos dentes pequenos e brancos.

— Por Cronos! Não pode ter sido tanto...

— Vinte e dois meses e meio, se você preferir. — delatou, parecendo ficar ainda mais corado que o natural.

— Oh, Dísi, não fique assim! — pediu Eros num tom levemente culpado, que fez Apolo unir as sobrancelhas douradas. — O que são dois anos mortais para...?

— Ah, é assim?! — silvou Dionísio. Ligeiramente colérico, ele se moveu de trás da cadeira de Cupido, para se colocar ao seu lado. Apolo que até o momento apenas assistia a discussão calado e levemente divertido, tencionou-se no assento ao sentir ainda mais forte o aroma embriagante do deus. Fique quieto aí, garoto... pensou, irritado. — Primeiro, eu não tenho culpa se você é velho e não sabe contar! — jogou na cara de Eros, arrancando de Apolo um sorriso surpreso, embora contido — E segundo, sabe quantas festas posso dar em dois anos? Quanto vinho posso... ah, posso... beber? Quantas b-beldades... eu... p-posso... oh... Por Zeus! — ele exclamou alto, se interrompendo de repente.

Tanto o Amor quanto o Sol fitaram o deus moreno, inteiramente confusos. A curiosidade de Eros quase se materializando e ganhando vida no ar a sua volta. Mas Baco não olhou para eles, em vez disso, inclinou a cabeça molemente para trás, fechando os olhos e entreabrindo os lábios, deixou escapar um ofego prazeroso e pasmo.

— Humm... — ele gemeu fragilmente — Pelas notas frutadas... Apolo! — bradou, abrindo os olhos e os enterrando impetuosamente no deus do sol — Você é... gostoso...

O queixo de Apolo quase caiu no seu colo.

MAS... O... QUE?...

Uma risada ecoou pelo salão. Só que não foi uma risadinha, foi uma gargalhada do pior tipo. Uma daquelas escandalosas e totalmente inapropriadas que você tenta desesperadamente prender nos pulmões, mas ela o ignora sai arranhando a garganta, raspando nos dentes e estalando sonoramente nos lábios.

Eros apertou as pálpebras, embaraçado. Em sua defesa, ele até tentou abafar a gargalhada com as mãos, mas só acabou quase engasgando e rindo mais. Estava claro que o pequeno deus havia se referido à sua áurea e não à sua pessoa. Mas, mesmo assim, aquilo fora ridiculamente engraçado. Apolo fez o que qualquer ser sensato faria: o fuzilou com os olhos.

— Ai, meu Zeus, minhas desculpas. — disse ofegante, por fim.

— O que foi isso? — perguntou Dionísio, inclinando a cabeça para ele, como um gatinho confuso.

Ah, ele achou ISSO estranho? O deus Sol indagou ironicamente em sua cabeça. Já Eros pensou. Eu nunca vou entender como ele consegue ser bonitinho e sensual ao mesmo tempo...

Certo, talvez Apolo tenha pensado algo parecido...

— Ah... — Cupido hesitou, ante a face luxuriosamente inocente de Dionísio e a de vergonha absoluta e cada vez mais visível de Apolo. — Talvez você tenha deixado seu convidado excepcional levemente… constrangido.

A boquinha rubra do deus moreno formou um “O” de entendimento e ele se virou para o Sol, inundando-o naquela vastidão esverdeada.

— Me desculpe. — pediu simplesmente, sem nenhum acanhamento.

Apolo imprimiu um sorriso educado e rígido nos lábios, muito consciente de que bronzeado nenhum esconderia o calor que sentia nas faces agora.

— Ei, Dísi, onde está meu irmão? — interrompeu Eros convenientemente, no que o deus do sol agradeceu a fortuna, embora jamais fosse admitir — Há tempo que não o vejo.

— Seu irmão? Ah... — Dionísio virou-se para o salão, vasculhando tudo com os olhos — Esta é uma excelente pergunta... Sileno! — o deus grita para o que parecia um amontoado de bacantes seminuas, não obtendo resposta. — Céus... — murmurou. — Sileno. Ei, Sil. Sil? Sileno... Ô SILENOOOOO! — berrou impaciente.

Nisso uma cabeça calva e assustada surgiu subitamente do emaranhado de braços esbeltos e macios das ménades, como se estivesse se afogando.

— O quê? Onde? Quem? — balbuciou o senhor, visivelmente embriagado.

— Eu, Sileno. — respondeu o deus a seu mentor e companheiro de longa data — Quero saber onde está meu filho.

— Filho? — perguntou, piscando os olhos embaçados — Que filho?

— Ora, o meu! — respondeu, exasperado.

— Certo... — murmurou Sileno, levantando-se cambaleante daquela cama de bacantes, que reclamaram manhosamente. – Só um minuto, meus amores... ah, de novo, qual filho?

— E quantos filhos eu tenho? — questionou Dionísio, erguendo as mãos.

— Ahhhhhh... — o senhor fez como se contasse nos dedos, mas acabou desistindo no meio do processo. — Alguns? — sugeriu, coçando a nuca.

Naquele momento, Eros já ria abertamente e Apolo tinha certo divertimento escondido nos cantos da boca. Baco revirou os olhos verde-musgo.

— Filho homem e imortal, Sil. — indicou. No que o outro não respondeu, deu um suspiro cansado. — Príapo, Sileno! Filho meu e de Afrodite. Lembra-se dele? Ele meio que vive com a gente e é um poucodifícil de não notar! — apontou, arregalando os olhos.

— Oh sim! — exclamou o ancião — Príapo, é claro! Sim. Eu sei!...

— E então... — insistiu Dionísio, num tom forçadamente paciente.

— E então o que?

— ONDE ELE ESTÁ? — exasperou entre os dentes.

— Ah, isso! — o senhor ergueu as sobrancelhas em entendimento — Não faço a menor ideia.

Dionísio cobriu o rosto juvenil com as mãos, vencido.

— Sileno... vá se divertir, sim? — disse abafado por detrás dos dedos.

— Sim, senhor. — rebateu de imediato, e se pôs a obedecer num prazer não disfarçado.

A última coisa que eles ouviram antes do velho pular ansiosamente de volta naquela aglomeração de curvas, foi sua voz dizendo “Ei, meninas, quem quer brincar de médico?”

E todas as mãos se levantaram.

Apolo abriu a boca, sem saber se ficava chocado, homenageado ou ofendido. Foi distraído por um suspiro longo de Dionísio, que puxou para si uma cadeira de madeira ricamente estofada e se sentou entre eles, apoiando os cotovelos delicados na borda da mesa lotada de frutas frescas que ninguém comia.

— Sem comentários... — avisou a Eros, que ainda ria.

— Eu adoro esse velho. — foi tudo o que o Amor disse, com um sorriso largo na boca perfeita.

— Hm... — Baco deixou uma risadinha escapar pelo nariz. — É, eu também... — admitiu, virando-se para fitar o mentor com carinho. Isto é, as partes visíveis dele. — Só queria saber por que não tenho um único subordinado competente! — exclamou.

— Ah... talvez seja porque estão todos sempre bêbados? — sugeriu Eros, com tom de óbvio.

Dionísio apertou os lábios colorados.

— Bom argumento.

— Todos os meus argumentos são bons. — exibiu-se, vaidosamente. Passando os dedos pelos cabelos claros.

— Ora, por acaso anda substituindo Atena em suas habilidades? —questionou o deus do vinho, pegando da mesa um morango enorme e maduro e o prendendo entre os dentes.

Eros abriu os olhos negros, surpreso.

— Estou começando a achar que isto é uma conspiração contra o meu ego. — reclamou.

— Como assim? — perguntou Baco, a boca ainda meio cheia de morango.

— Apolo disse o mesmo mais cedo. Não foi? — silêncio. — Ah... Apolo. Apolo? APOLO! — insistiu, estalando os dedos perto do nariz esculpido e amorenado do deus do sol.

O deus de cabelos dourados quase pulou da cadeira, despertando do transe.

— O que? — perguntou um pouco rápido demais.

Hoje está difícil! Pensou Dionísio, achando graça, e ainda tentando se habituar ao calor delicioso que emanava do outro deus.

— Você está bem? — perguntou Eros, desconfiado.

— Sim, é claro. — respondeu, retomando a compostura numa velocidade assombrosa. — Apenas me distraí por um instante. Peço desculpas. Que parte do diálogo perdi? — perguntou, calmamente.

Ah sim, Apolo de fato estava bastante distraído. Mas o deus da Razão não ia se deletar tão facilmente.

A verdade é que o deus do sol passara quase o último minuto inteiro tentando não inspirar lentamente e suspirar como um completo imbecil, tomado pela intensidade adocicada daquele perfume. Não era apenas madeira e vinho, havia também notas de frutas vermelhas, folhas aromáticas, mata fechada, licor de cereja, geleia de uva, e um fundo sutil e metálico de sangue.

Aquilo era um mistério há ser desvendado. O sangue dos imortais era completamente dourado, como ouro derretido, o que dava a pele de todos eles um aspecto brilhoso e cintilante. Mesmo assim, as bochechas de Dionísio eram perfeitamente coradas e a sua boca pequena exibia um tom absurdo de vermelho vivo. Tão evidente e destacado contra aquela pele branquinha e claramente macia que por um momento Apolo chegou a considerar que pudesse ser alguma espécie de pintura. Seus lábios praticamente perdiam-se contra o morango devorado, os dentes brancos e afiados brilhando vez ou outra contra a fruta. Fato que o sol observava com todo interesse até ser arrancado dos seus devaneios involuntários.

— Eros está bancando o espertinho. — atualizou Dionísio, totalmente alheio ao estudo minucioso que o outro lhe fazia. E pegou da mesa outro morango.

— Ah... — murmurou Apolo, acompanhando sutilmente o movimento lento dos lábios do jovem deus. — Ele faz isso com relativa frequência.

— Não é?! — exclamou, animado por alguém concordar com ele. As bochechas coradas cheias de fruta.

Não seja tão fofo, garoto. É desconcertante...resmungou o Sol, em pensamentos.

— Já terminaram? — perguntou o Cupido num tom rabugento, erguendo uma sobrancelha. — Então, Príapo sumiu?

— Ah, deve estar perseguindo alguma ninfa por aí. — disse Dionísio, descartando a importância disso com um aceno da mão pequena. — Agora... — começou, lambendo dos lábios o fim do gosto da fruta vermelha. — desfaça essa cara feia, que eu sei muito bem que você veio aqui só para me ver. — provocou, com um sorriso luxuriante e totalmente sincero na boca rubra.

— Oh... — Eros, que já não precisava de incentivo nenhum para ser mal-intencionado, devolveu imediatamente. — você me pegou! — disse, num sorriso predatório.

Apolo se levantou da cadeira bruscamente.

— Preciso ir. — anunciou.

Dionísio piscou surpreso.

— Ah... mas... tão cedo? — perguntou, nem tentando esconder a decepção na voz.

— Sim. — respondeu, rígido. Mas quando aqueles enormes olhos verdes sustentaram os dele, expelindo desapontamento, o deus amenizou involuntariamente o tom. — Faltam apenas algumas horas para o nascer do sol. Devo estar apto para cumprir minhas responsabilidades — foi o que ele disse.

Era verdade, mas não era verdade. O realmente que o impelia para fora daquela mesa era um desconforto extraordinário.

Eros era, por quase unanimidade, considerado o deus mais belo de todos. Com aqueles traços perfeitos e levemente andrógenos, a voz macia e insinuante, e a postura segura e invariavelmente maliciosa. Dionísio não tinha aquela beleza pomposa, mas sua franqueza abrasadora e sua inocência explicita, somadas aquele rosto jovem de traços delicados e sua voz adocicada e embriagante, incitavam a luxúria em qualquer um a sua volta.

O deus do amor e o deus do vinho. O deus da paixão e o deus das orgias. O louro arrasador e o moreno irresistível.

Os dois juntos tinham cheiro de sexo.

Desnecessário. Absolutamente desnecessário. Era o que Apolo repetia para si mesmo. Ele tinha vindo a um lugar estranho a nome da diplomacia, para dar fim a uma rixa de séculos e trazer ao menos um pouco de paz a sua vida. Não para ver deuses flertando!

— Certo... — murmurou Baco. — Tem razão, por mais que me entristeça, não tenho a intenção de atrasá-lo em nome de meus caprichos. — disse simplesmente, sem nem pensar em duvidar dos motivos do outro, fazendo o deus do sol apertar o maxilar num rompante inesperado e fugaz de culpa. Embora o Cupido apenas o encarasse com olhos estritos, não parecendo tão convencido quanto o amigo. — Nesse caso, eu o acompanho até...

— Não. — Eros o cortou, com a voz estranhamente austera, enquanto se levantava da mesa. — Eu faço isso. — quando o deus do vinho o encarou, sem entender, ele acrescentou mansamente. — Tudo bem, Dísi. Ele é meu convidado, afinal.

Dionísio deixou os olhos dançarem de um para o outro, vendo ali um punhado de questões internas e fatos não ditos. Podia ser essencialmente ingênuo, mas não era estúpido. Por isso, apenas assentiu suavemente com a cabeça enfeitada de vinhas, erguendo-se devagar.

— Muito bem. — disse ao amigo antes de virar-se para Apolo – Foi um prazer tê-lo aqui, irmão. Espero que não desapareça.

Por algum motivo desconhecido, a frase fez com que o deus do sol se sentisse ainda pior, ou talvez, estranhamente mais culpado.

— O prazer foi meu. — ele respondeu, educadamente. Não sabia se estava mentindo.

*

Quando Apolo se retirou, Dionísio soltou um suspiro tristonho, já saudoso do calor agradável e da sensação de tranquilidade o outro levava consigo. Aquela tranquilidade ordenada e serena, tão absolutamente estranha para ele. O deus do caos esfregou os olhos, irritado. Não era da sua natureza ficar abatido. Encheu a primeira taça que viu com sua variação de vinho tinto seco favorito e despejou na boca pequena, acabando com tudo num só gole. Esta talvez fosse a maldição de ser o deus do álcool: sempre beber, nunca se embriagar. Por sorte, havia outras formas de entorpecer os sentidos. Ele vasculhou o salão em busca de Mete, a bacante morena, sua preferida. Estava lhe devendo uma trilha de arranhões e alguns gemidos. Não a encontrou prontamente.

— Sileno! — ele gritou — Onde está Mete?

— Quem? – balbuciou o senhor.

— Mete, a bacante que estava brincando comigo. — o outro não reagiu — A morena bonita, talentosa... — nada — Minha favorita, Sileno!

— Qual delas? — insistiu o velho.

— Ora essa! E quantas favoritas eu tenho?

— Ahhhhhh... — Sileno passou os olhos pelas mulheres do salão — algumas?

— Ah, deuses... — Dionísio resmungou, enchendo outra taça.

Talvez essa não fosse sua noite.

**

Já fora do salão, Apolo suspirou aliviado, mas inexplicavelmente soturno. Sentiu o corpo pesado e rígido, longe daquela euforia insana e languida, tão inteiramente estranha para ele.

— É desconcertante, não? — disse Eros, interrompendo seus devaneios.

O deus do sol o encarou, vendo apenas a silhueta dos seus traços impecáveis, iluminados apelas pela lua minguante de Artêmis. Desconcertante? Ele repetiu, em sua cabeça. O que? A música caótica? As brincadeiras sexuais? Aquele cheiro terrível e delicioso? Aquela maldita boca vermelha?

— A sinceridade. — Eros respondeu suavemente, como se ouvisse cada um dos seus pensamentos injustamente rancorosos. — A sinceridade dele é desconcertante.

Apolo engoliu a seco e não disse nada.

— De qualquer forma... — Cupido continuou, num tom mais despreocupado — isso poderia ter sido bem pior.

— Eu nem sei o que foi “isso”. — retrucou o deus do sol, honestamente.

Eros sorriu sob aquela luz fraca e disse simplesmente.

— Foi um primeiro passo.

Apolo ponderou aquelas palavras e acabou assentindo resignadamente.

— Um primeiro passo. — concordou.

— Bom, então. — Cupido começou, alongando os abraços esbeltos — vejo você por...

— Eu tenho uma pergunta. — Apolo cortou, sério.

Eros sentiu uma apreensão esfriar seu abdome. O deus do sol havia dito que não tinha a intenção de discutir seus motivos ou justificativas. Poderia ter mudado de ideia? Se o fizesse, o Amor se sentiria obrigado a ser agressivo, ou cairia na defensiva. E nenhuma das alternativas lhe agradava em nada. Havia muitos motivos por detrás da sua contenda antiga que não eram do conhecimento do deus do sol e Eros não estava nem um pouco preparado para expô-los a ele. Sua mente começou a trabalhar furiosamente numa maneira de evitar aquela situação, quando ouviu:

— “Dísi”? — perguntou Apolo, incrédulo.

Eros apenas o encarou no escuro por alguns segundos antes de cair numa gargalhada histérica, absolutamente aliviado. Mas antes de materializar as asas brancas e sumir por seu próprio caminho pela noite, ele deixou, rindo, aquilo que pareceu ao outro uma ameaça terrível.

— Não se preocupe, Apolo. Se você for bonzinho, eu arranjo um apelido para você também.

Notas finais
1. Chiton: Vestuário comum na Grécia Antiga, compunha-se basicamente de um retângulo de tecido, normalmente de linho ou algodão, preso aos ombros por broches ou alfinetes, e ajustado a cintura por um cinto. 2. As ménades, ou mênades, também conhecidas como bacantes, tíades ou bassáridas, eram mulheres seguidoras e adoradoras do culto de Dioniso/Baco. 3. Na mitologia grega é o fluido eterno, presente no sangue dos deuses gregos. Essa substância também faria com que o sangue ganhasse uma coloração dourada. 4. Deus grego do sono.