Bacanal

3 O Jardim do Inimigo


Notas iniciais
Capítulo novo em uma semana, como prometido. É provável que continue a postar os próximos sempre aos domingos. Segue o mesmo esquema do anterior, termos numerados nas notinhas finais. Personagem novo dá as caras :) Hermes/Mercúrio: mensageiro dos deuses e patrono da ginástica, dos ladrões, dos diplomatas, dos comerciantes, da astronomia, da eloquência e dos viajantes. Boa leitura...

Se o inimigo deixa uma porta aberta, precipitemo-nos por ela.

— Sun Tzu, “A Arte Da Guerra”

Três dias se passaram entre o bacanal e a mensagem. Apolo não pode deixar de achar aquilo demasiadamente teatral. Quando Hermes apareceu fim da tarde, ele já sabia de onde vinha a missiva. Eros o estava convidando para a ceia, em um dos seus palácios. “Por um segundo passo”, o Amor escreveu, numa caligrafia irregular e desnecessariamente rebuscada. Digam o que quiserem do Cupido, mas ele conhece e tem grande apreço pela etiqueta. Se o primeiro movimento fora de Apolo, ao expressar seu desejo de concilio entre os dois, o segundo cabia a ele. Ele o fez. Bastante rápido... Porém, a prontidão do outro não desagradou o Sol, ele admitiu a si mesmo.

Estavam naquela época do ano em que Perséfone voltava para seu marido, Hades, e para o Submundo, causando o inverno no mundo mortal. O que significava que os dias eram mais curtos, e o seu tempo livre, maior. O que normalmente ele gastaria satisfeito compondo, tocando ou treinando a pontaria.

Não dessa vez.

Nos últimos três dias, atirar lhe pareceu absurdamente enfadonho; tocar, maçante e melancólico; e compor... bem...

O deus da musica com bloqueio criativo. Que as moiras me levem se houver algo mais ridículo! Apolo pensou sombriamente. Cômico. Tolo. Patético...

Auto depreciações à parte, as ultimas 72 horas se mostraram de uma agonia constante. O deus estava ansioso, inquieto e desfocado. Nunca antes se distraíra com tamanha facilidade. A música, sua amante serena, se mostrava possessiva, sensível, e havia se recusado a ele. Nem quando Eros o machucou pela primeira vez e seu, até então, único amor se destruiu, o destruindo junto; nem quando pela segunda vez o Amor se vingou, e o menino dos seus olhos deixou a vida nos seus braços; nem quando o ciúme o tomou e ele feriu a irmã gêmea, que tanto amava, como havia sido ferido; nem assim os versos o haviam abandonado, nem na escuridão absoluta ele se sentira completamente sozinho. Era no cume de sua tristeza que lhe nasciam as mais belas letras, as mais primorosas melodias, e as canções que duravam para sempre.

Por que agora? Ele se perguntava, inconformado, andando em círculos nervosos sobre o piso polido do seu quarto dourado. O que mudou? Era um questionamento inútil. Ele sabia a resposta. Recostou-se numa parede de mármore branco e suspirou morbidamente.

— Eu sempre soube que havia uma boa razão para evitar aquele menino... — murmurou para si mesmo, mordendo a parte de dentro do lábio inferior. Não conseguia deixar de ver Dionísio como pouco mais do que uma criança. O “rapaz” tinha mais de um século idade, é verdade, mas para tem tinha mais nove, isso ainda era infância.

A imagem do jovem deus moreno gemendo despudoramente, com os cabelos macios desarranjados e os olhos enormes fechados, surgiu sem convite na sua mente, fazendo-o apertar as mãos sobre o rosto de modo rude, como se pudesse expulsá-la com as unhas. Outra pergunta, muito mais coerente e perigosa, ecoou em sua cabeça:

Por que ele me afetou desta forma?

Apolo deixou os orbes azuis vagarem sem rumo certo pelo quarto. Viu a amada lira encostada com pouco cuidado numa poltrona estofada em azul celeste, o arco dourado sobre a aljava vazia de setas, uma pilha de pergaminho riscado de tinta e embolado sem jeito numa escrivania de mogno claro, um vaso cheio de jacintos vermelhos precisando de água...

Ele não tinha resposta para a pergunta que verdadeiramente o perturbava. E, se existisse uma, duvidava que fosse gostar dela.

Foi nesse momento que Hermes chegou, trazendo um sorriso aberto. O deus mensageiro tinha um par de olhos âmbar inegavelmente astutos e cabelos curtos e encaracolados que eram leves que nem plumas, se movendo ao toque da menor brisa e insistindo em mudar constantemente de cor, agora num tom de azul suave como a aurora. Tinha um rosto comprido moldado por ossos angulosos, nariz longo e reto, uma boca escura e gestos rápidos e irrequietos. Sua presença imediatamente trouxe um pouco de animo ao irmão perturbado.

— Deduzo que sua iniciativa não tenha sido um fracasso completo. — disse, sem nem perder tempo com comprimentos. Era um dos únicos deuses além dos próprios envolvidos a saber detalhadamente do desentendimento, rixa e do — potencial e otimista — processo de reconciliação entre o Amor e o Sol.

— Isso, ou ele está me atraindo para o Tártaro... — resmungou Apolo, sombrio. Vislumbrando as cenas de três dias atrás enquanto girava a carta nas mãos, com o cenho bronzeado franzido.

— Não seja tão fatalista! — repreendeu Mercúrio, oscilando levemente de altura quando as asas alvas em suas sandálias empurravam um pouco mais de ar. — Vejo que está considerando. Então o primeiro encontro entre vocês não pode ter sido tão ruim. — disse, encadeando as palavras numa conclusão ligeira.

O deus do sol respondeu com uma careta. Não demonstraria seus sentimentos tão facilmente a nenhum outro, mas Hermes tinha um lugar privilegiado na sua escala afetiva. O deus dos ladrões era amado por todos os irmãos e mais do que todos por seu pai.

— Hum... — Hermes murmurou, analisando metodicamente a fronte do irmão. – Quer me contar como foi? — sugeriu, mansamente.

— Você tem tempo para isso? — perguntou Apolo, com descaso.

— Ora essa, não faça tanto drama, Febo! — reclamou, usando o nome que Apolo menos gostava e fazendo as asinhas baterem furiosamente nos seus pés, os cabelos azulados dançando. Já entrando sem convite no palácio dourado, continuou. — Eu sempre arrumo tempo para o meu irmão...

— Preferido? — insinuou o deus do sol, com um sorriso mínimo, rendendo-se lentamente a energia vibrante do outro.

— Eu ia dizer “mais bonito”. — respondeu, com ar de confissão.

Apolo riu fugazmente. Pela primeira vez em três dias.

— Serve...

*

Algumas horas depois, um Apolo desconfortável, embora consideravelmente menos aflito, adentrava a passos largos e rijos no salão do deus do Amor.

Não poderia descrever a decoração e arquitetura do lugar com um adjetivo melhor do que “muito Eros”, ou talvez, erótica. De pé direito baixo, as paredes eram revestidas de textura e pintadas num tom de vermelho-rosado profundo e quase totalmente encoberta de pinturas gigantescas. Nas telas haviam de ninfas desnudas correndo alegremente pela floresta, banquetes exuberantes sob uma luz mínima e provocante, bustos de princesas e rapazes jovens e lindos como flores, ou casais apaixonados que se tocavam como se suas vidas dependessem disso. Havia dezenas de esculturas também, a maioria exibindo o último tema, as mãos dos amantes agarrando roupas de mármore e afundando lascivamente da pele de pedra uns dos outros, que frequentemente não eram do sexo oposto, numa intimidade escandalosa, que faria uma donzela corar até as orelhas. Do teto próximo desciam lustres espiralados e esculpidos de tal forma que faziam o metal claro e maciço parecer leve como as penas que os enfeitavam. O chão era de um padrão quadriculado de branco e preto, polido até brilhar como um espelho. Roseiras vermelhas e abertas enfeitavam todo o parco espaço restante, inundando o ar com seu perfume pungente. A iluminação era feita por centenas de velas de cera de abelha, espalhados pelo local sem janelas visíveis, deixando parte de tudo numa suave penumbra. Os móveis eram de uma madeira antiga e tão escura de era quase negra, moldados em formas arredondadas e angulosas, como as curvas de uma mulher, as cadeiras revestidas de veludo macio em negro ou púrpura.

Todo ali passava a ideia de intimidade e intensidade, o que fazia o deus do sol sentir-se absolutamente inadequado. Estou entrando voluntariamente no jardim do inimigo. Quase riu da exibição infantil de Eros, ao ser conduzido pelo palácio por servos completamente invisíveis, até para seus olhos imortais. O Cupido devia achar as portas de abrindo aparentemente sozinhas, jarras flutuando e vozes vindas do nada algo muito divertido.

— Veja só quem decidiu iluminar meu dia com sua adorável presença. — cantarolou Eros para os criados invisíveis, quando Apolo entrou no salão — fico honrado que tenha aceitado meu convite.

O deus da paixão sorria tranquilamente, exibindo os volumosos lábios rosados. Havia um inegável toque de malícia neles, mas Apolo supôs que Eros fosse simplesmente incapaz de tirá-lo da boca. Vestia uma túnica diáfana, levemente transparente, num tom de lilás-lavanda, que acentuava a palidez da sua pele perfeita e o tom claro das melenas compridas, agora presas num exuberantemente desarrumado rabo-de-cavalo atado por uma fita de seda negra, deixando o pescoço gracioso, assim como os ombros e braços esbeltos, à mostra, sem capa ou cabelo para cobri-los. Usava apenas um adorno, sobre ambos os pulsos delicados, havia dezenas de finos braceletes de platina, nas quais se dependuravam pingentes de pequenas conchas brancas. Os olhos pretos cintilavam.

— A honra é minha. — respondeu Apolo, neutro e formal.

O deus da poesia amava coisas belas, porém, para ele, a formosura de Eros gritava “perigo!”. Como as garras afiadas de uma ave de rapina. As cores vibrantes de uma víbora venenosa. Ou o perfume inebriante de uma planta carnívora.

Por um instante mínimo, o Sol achou ter visto o sorriso do Amor se congelar na sua boca cheia, mas antes que pudesse dizer com certeza, ele acenou com a cabeça, expondo o pescoço longo.

— Venha, sente-se comigo. — pediu, dirigindo-se a uma mesa redonda de madeira escura e acomodando-se numa cadeira.

Apolo não estranhou em nada o pedido simples, mas mesmo assim sentiu a espinha vibrar, como se pisasse conscientemente num ninho de cobras.

Apolo detestava cobras.

Vamos lá, dei-lhe uma chance. Ainda não há nada de errado aqui. Pensou, enquanto se assentava elegantemente em frente ao anfitrião. Eros recostou-se nas costas da cadeira de um jeito totalmente informal e ofereceu a ele um sorriso que devia ter sido educado, mas lhe saiu meio libertino.

— Então, quais são as novidades? — o Amor perguntou, jogando o rabo de cavalo para trás.

Eu não consigo fazer absolutamente nada útil há três dias porque por algum motivo perverso não sei como tirar Dionísio da cabeça e, mais uma vez, é tudo culpa sua...

— Nada especial. — o Sol respondeu. O rosto indiferente como o de uma estátua. Para sua inquietação, o sorriso de Eros se alargou.

Mentiroso... o Amor cantou em pensamentos. Muito bem, eu começo então.

— Minha mãe está grávida de novo. — Eros disse sem esperar pela pergunta.

— Oh. — Apolo murmurou surpreso. — Eu não sabia.

— Quase ninguém sabe. É bem recente ainda.

— Meus parabéns, então. Mais um irmão.

— Ou irmã. Sinto que será uma menina dessa vez... — Eros disse carinhosamente.

Apolo apenas assentiu rigidamente. Eros o encarou por alguns segundos e depois riu.

— O que foi? — o deus do sol perguntou, franzindo o cenho.

— Você. — ele respondeu, gesticulando. — Tem uma pergunta dando piruetas dentro dessa sua cabeça loira, mas você resiste bravamente em fazê-la por motivo nenhum. Por favor... — Eros murmurou, apoiando os cotovelos na mesa e chegando o rosto perfeito mais perto de Apolo. A pele dele tinha um perfume muito doce e picante, como uma sobremesa temperada com pimenta. As conchinhas dependuradas nos seus pulsos tilintaram. — A ideia aqui é estabelecer algum nível de amizade. Não seja tão educado. Eu não sei lidar com cometimentos.

Apolo resistiu ao impulso de se afastar dele. Ter consciência de que o outro sabia exatamente o que ele estava pensando não o agradou em nada, mas acabou cedendo, com um discreto dar de ombros.

— Se você insiste... — começou, erguendo as sobrancelhas douradas. — quem é o pai?

— Não tenho ideia...

— Ela não sabe?! — exasperou Apolo antes que pudesse se conter, arregalando os olhos azuis.

— Oh céus, nem tanto! — Cupido riu, descartando a hipótese com um aceno da mão. — Ela sabe sim, é claro. E até creio que tenha me dito, mas eu não prestei atenção ou esqueci. — ele disse com certa indiferença. — provavelmente algum mortal lindo de morrer. Se fosse de Hefesto ou do meu pai, ela não se importaria que o Olimpo inteiro soubesse. Mas, cabe como são ciumentos aqueles dois. — ele concluiu, com uma risadinha condescendente.

O marido e o amante do ser mais bonito que já existiu no universo. Apolo pensava, com muito mais empatia que o Cupido. Ele entedia muito bem de ciúmes.

— Entendo — Apolo murmurou.

— Enfim, Anteros também está com contrariado, é claro. Mas isso não é nem uma novidade, ele sempre diz que nossa mãe tem mais filhos do que o administrável. — Eros continuou, rindo distraído. Referindo-se ao deus da Ordem, seu irmão mais próximo, e total oposto em personalidade e aparência, com aqueles cabelos pretos e assustadores olhos translúcidos. — Não tiro-lhe a razão, mas ele vai superar. Não é como se fosse nosso primeiro meio irmão. Falando nisso, como está Hemineu? Deve fazer alguns meses que não o vejo... Deve fazer alguns meses que não vejo ninguém, aliás. Às vezes, minha mãe me deixa completamente enlouquecido e... Ah meu Zeus! — ele exclamou, sobressaltando Apolo — Eu estou aqui falando como uma velha e nem lhe ofereço nada para comer, que descortesia! – antes que o outro pudesse reagir, ele bateu palmas, chamando o que pareceu uma avalanche de bandejas cheias de aperitivos leves feitos de frutas e massas folhadas.

— Hemineu vai bem. — o Sol murmurou, encarando a comida recém-servida.

Hemineu era outro filho de Afrodite, só que, no caso, com o próprio Apolo, cria de um caso breve que o deus ainda considerava um dos maiores desequilíbrios da sua vida. Mas, o menino era um bom rapaz, tão belo que não raramente era confundido com uma moça. Tornou-se o deus dos casamentos.

— Sempre ocupado aquele ali. — disse o anfitrião, mordiscando uma tortinha salgada.

— De fato.

— Vocês são próximos? — Eros perguntou despreocupadamente.

Apolo o encarou por alguns segundos, as íris azuladas duras.

— Não muito... — admitiu, secamente.

É claro que não. Quem você deixa se aproximar? Eros perguntou a si mesmo em pensamentos, quase com pena. Ninguém é feliz desse jeito, deus da perfeição. Afastar os outros não o faz mais forte, muito menos mais inteligente. O sorriso dele morreu aos poucos. Sabia muito bem que tinha grande parte da culpa pela infelicidade constante do outro. E embora fingisse maravilhosamente que não, isso o perturbava dia e noite, há mais tempo do que poderia contar. Se você quer deixar tudo para trás, tio, eu também deixarei. Não posso mudar o que fiz a você, mas posso tentar compensá-lo... Em segundos, tomou uma decisão.

— Eu tenho uma pergunta. — Eros anunciou. A voz séria, completamente diferente do tom informal de antes. Suas íris pretas se perderam em algum lugar da mesa.

— Diga. — o Sol imprimiu, depois de estudá-lo por alguns segundos. Os olhos de Eros se cravaram nele.

— Por que evita Dionísio?

Apolo travou na cadeira.

— Do que você está falando? — quase sussurrou, os olhos muito abertos.

— Eu não tinha percebido até o bacanal. — Eros começou, calmamente — Confesso que o levei até lá por que sabia que teria certa vantagem e você que se sentiria desconfortável. Mas eu não tinha a mínima ideia do quanto. — ele admitiu, colocando uma mexa loura que havia se soltado atrás da orelha. — Depois daquilo, eu parei para pensar. Tornei-me próximo de Dionísio logo depois que chegou ao Olimpo. Houve um tempo que ele era mais presente para mim do que meus irmãos. Dormíamos nas residências um do outro como crianças numa festa do pijama. Ele é um ser ímpar. É quase impossível ser indiferente. Há aqueles que o adoram e aqueles que o detestam, e a maioria deixa isso muito claro. — deixou escapar um sorriso afável. — Mas não você. Nunca foi a uma de suas festas. Nunca o visitou. Nunca sequer falou com ele a sós. Mas também nunca teve motivos para odiá-lo. E claramente não é indiferente, então… você não gosta dele de jeito nenhum... — a voz dele ondulou perigosamente e ele estreitou os olhos ao completar: — ou gosta dele demais.

Apolo estava imóvel como um pilar. Sabia que deveria estar planejando uma saída estratégica daquela situação, mas seu cérebro se recusou terminantemente a trabalhar. Abriu e fechou a boca três vezes, por fim, acabou por deixar escapar um suspiro longo e quase agressivo.

— Você é bem direto. — acusou, num tom grave e lento, a voz inegavelmente ácida.

— Como uma flecha. — respondeu Eros, mostrando um pouco mais dos dentes.

— Mas está errado. — o Sol continuou, sem responder a provocação.

— Como? — ele perguntou verdadeiramente curioso.

— Não é um “ou”. — Apolo admitiu, sem fazer ideia do por quê. Malditos deuses da Emoção e suas áureas afetadas! — É um “e”...

Foi a vez de o Cupido encara-lo atônito, a boca sensual estupidamente aberta.

— Um deus da Razão com sentimentos contraditórios... — Eros murmurou, recostando-se na cadeira, os olhos vagavam sem rumo certo enquanto ele parecia perder-se em pensamentos. — Deuses, os últimos dias não devem ter sido fáceis para você... — ele concluiu.

A expressão de Apolo dizia que ele havia acertado em cheio. Por Zeus, será que ele tem ideia do que isso significa? O Amor perguntava a si mesmo. Mas Apolo estava perdido dentro dos próprios pensamentos. Uma única frase do discurso de Eros insistia em rodar na sua cabeça. “Dormíamos nas residências um do outro como crianças numa festa do pijama” Por que eu acho que as suas festas do pijama são bem diferentes das de criança... Um sentimento desagradável se apoderou dele sem explicação.

— Você está com aquela cara. — Eros disse, arrancando-o de seus devaneios sombrios.

— Que cara? — perguntou seco.

— A de que tem uma pergunta que não quer fazer. — respondeu. — Faça.

— Mesmo se eu não quiser saber a resposta?

Cupido não evitou um sorriso travesso.

— Especialmente se não quiser saber a resposta.

Apolo ponderou pelo que pareceu quase um minuto.

— Ora, vamos. Faça... — ele insistiu. A sua voz se fez doce como melado – Faça. Faça. Faça. Faça...

— Vocês já dormiram juntos? — disparou.

Eros ergueu ambas as sobrancelhas platinadas, surpreso. Não porque fosse uma pergunta inconcebível, pelo contrário, lhe parecia bastante óbvio. “Dormiram juntos”, que graça...

— É claro que sim. — disse sem nenhuma hesitação.

— Como assim “é claro”? — devolveu Apolo, com uma expressão azeda. Na verdade, sentia como se tivesse acabado de morder algo com o gosto pavoroso.

— Ora essa! — Eros disse, meio exasperado. — É quase uma lei da química. Se você colocar o deus do sexo e o deus das orgias num espaço fechado, coisas acontecem...

— Eu definitivamente não devia ter perguntado... — cortou o Sol, resmungando para si mesmo enquanto esfregava o rosto com as mãos.

Meu Zeus, Apolo, você está muito mais perdido do que eu imaginava. Eros pensou, divertido.

— Qual é o problema? — ele perguntou lentamente.

— Você não é meio que... tio-avô dele? — Apolo lembrou, fazendo careta. Eros riu.

— Ah, mas isso é absolutamente ridículo... — disse, sacodindo a cabeça e fazendo o rabo de cavalo dançar. — Zeus e Hera são irmãos! Hades e Perséfone são tio e sobrinha! Quando foi que isso importou para os imortais? — argumentou. O outro não soube responder. — Isso te incomoda? — ele provocou.

— É claro que não! — o Sol mentiu descaradamente.

— Como assim “é claro”? — Eros retrucou num tom de troça.

Apolo estreitou os olhos para ele.

— Você é irritante.

O Cupido jogou a cabeça para trás e riu prazerosamente.

— Que bom que estamos nos conhecendo melhor. — zombou. Quando Apolo fez um muxoxo, ele acrescentou. — Ora, nem me venha com essa, você está quase começando a gostar de mim. — lançou lhe um sorriso de lascívia que derreteria um mortal. Mas de um momento para o outro seus olhos de perderam. — Oh! — ele deixou escapar, o sorriso se desfazendo como um desenho na areia. — Pena que isso provavelmente vai mudar em alguns segundos...

— O que quer dizer? — perguntou Apolo, a desconfiança unindo suas sobrancelhas.

— Você não foi o único que eu convidei para a ceia...

Antes de o deus do sol pudesse processar aquela informação, os as portas de madeira maciça e escura do salão se abriram para deixar Dionísio entrar.

Notas finais
Ps:. se o caro leitor, por acaso, desenvolver alguma vontade de pesquisar sobre a genealogia dos deuses, não o faça. Você vai enlouquecer...