Bacanal

4 Gato e Sapato


Notas iniciais
Olá, queridos leitores. Quer começar pedindo desculpas a quem está acompanhando pelo atraso de um dia. Já estava com saudades disso aqui. Agora, pausa iluminada para um momento muito especial: Eu gostaria de agradecer do fundo do meu coração à leitora CassandraCain, que fez uma conta só para poder fazer um comentário divino e maravilhoso que amoleceu meu coração apolónico shauhsauhsuash. No meu mineirês agora, que é para provar de falo sério: te amu demais,Cain, cê num tem noção! Agora voltando. Jaz aqui o trio sedução novamente, para a minha (e talvez nossa) alegria. Boa leitura! :)

— (...) O amor é poderoso, Piper. É capaz de deixar os deuses de joelhos.

— Rick Riordan, “O Herói Pedido”

Maldito, filho de uma hárpia! Que os gigantes o devorem e Tártaro tenha sua alma!Apolo rosnou em pensamento. Ele devia ter previsto esta! Eros fora tão gentil e acessível, incentivando sua curiosidade com palavras macias e agora o deus do sol se sentia preso numa arapuca de embustes. Não conseguia ver nenhum outro objetivo naquilo que não fosse constrangê-lo completamente. Fitou o outro com um ódio tão letal que cortaria em dois quem se metesse entre eles.

— Você fez isso tudo de propósito... — Apolo sibilou entre os dentes, baixo demais para o recém-chegado ouvir, já tomado pela embriaguez que ele trazia consigo.

— Acalme-se... — murmurou Eros, apenas. Ignorando condescendentemente ira do outro, sorriu e se levantou. — Disí, meu cachinho de uva preferido, você está atrasado! — gritou, zombando do amigo, que respondeu com uma gargalhada gostosa e doce, encolhendo os ombros delicados.

— Eros, meu pedacinho de céu nublado, foi só para você sentir saudade.

O deus do vinho caminhou despreocupadamente para eles. Vestia um chiton curto verde muito escuro contrastando com a pele clara, um cinto fino de couro avermelhado trançado amarrado na cintura estreita, e broches redondos e esculpidos em bronze nos ombros pequenos. Calçava sandálias altas de couro simples e os cabelos castanhos se enrolavam selvagemente ao redor da costumeira coroa de vinhas. Ele estava lindo.

E acompanhado.

— Espero que não se importem de eu ter trago o Floquinho, ele está muito carente hoje. — disse o jovem deus, carinhosamente.

Floquinho, por acaso, não era um cachorro nem um gatinho. Era um leopardo-das-neves enorme, com uma pelagem espessa e lustrosa, cinzenta pintada de preto nas costas e branco puro no peito. Tinha um porte elegante, patas poderosas e era todo cheio de músculos, garras e dentes. Mas andava ao lado de Dionísio como um cãozinho adestrado, embora fosse provavelmente maior do que ele.

— Claro que não! — exclamou Eros encantado, e fazendo menção de alisar o pelo do felino. — Olá, Floquinho.

O leopardo arreganhou os dentes para ele e rosnou.

— É um prazer te ver também... – balbuciou Cupido, magoado, mantendo as mãos perfeitas bem longe da mascote raivosa do amigo.

Eu te entendo, Floquinho. Pensou Apolo, se afeiçoando instantaneamente ao animal. Ele causa isso nas pessoas...

— Floquinhoooo... — repreendeu Dionísio, provavelmente tentando fazer a voz infantil soar autoritária, mas só lhe saiu mais infantil ainda. — Se você não se comportar, nós vamos embora e eu nunca mais saio mais com você! — concluiu fazendo bico com a boca vermelha e cruzando os braços.

O felino gigantesco emitiu um ganido arrependido, esfregando carinhosamente o focinho escuro na perna do dono, levantando um pouco o tecido de sua roupa já curta e expondo um pedaço escandaloso de coxa branca.

— Assim é melhor... — desculpou Baco — seja bonzinho! — incentivou, acariciando lentamente a parte de trás de suas orelhas. Sem se importar com seus músculos e pele desnudos.

Mas Apolo se importou. Apolo se importou bastante... Suas íris azuladas dispararam por todos os detalhes do salão, buscando alguma coisa – qualquer coisa – que não fosse aquele pedaço gracioso de perna nua. Infelizmente, o lugar estava lotado de membros nus em todas as posições possíveis, o que o levou a apertar os olhos, inconformado.

— Então... — Dionísio começou, chegando mais perto. Por um instante, Apolo apenas assistiu os olhos da dupla estudando minunciosamente os corpos um do outro. Ah, vai começar... ele reclamou mentalmente, sentindo a pele do rosto esquentar. – Você se vestiu assim só para mim? Estou deliciado. — o jovem deus disse simplesmente, sem tirar uma partícula de inocência da cara.

— Engraçado, eu ia perguntar a mesma coisa... – ronronou Eros, num tom que de inocente não tinha nem sombra, as bochechas pálidas adquirindo um tom tão rosado quanto seus lábios voluptuosos. Os olhos negros ganhando um brilho devasso quase assustador.

Ele olha para o garoto como se quisesse devorá-lo. Apolo pensou, deixando os olhos vagarem brevemente pela figura diminuta e agradável de Dionísio. Notou então as maçãs coradas do seu rostinho em forma de coração, a curva da boca cheinha e rubra, a maciez tão aparente de sua pele alva e infantil. Muito bem, eu admito: ele parece... apetitoso.Um pensamento rebelde e fugaz ecoou na sua mente, levando a se perguntar qual seria a textura daquela pele fresca. E mais ainda, qual seria o gosto da sua linda, pequena, e tentadora boca vermelha.

E lembrar que Eros sabia disso e ele não, lhe deixou com um humor nebuloso.

—… e você sabe muito bem. Aliás, dá para ver os seus mamilos por baixo disso. — Apolo ouviu Baco dizer, apontando a túnica translúcida de Eros, com a simplicidade de uma criança que nota um curioso objeto decorativo.

O Sol não conseguiu evitar uma olhadela para o peito esbelto do Cupido, notando a veracidade da observação do deus do vinho, sobre a forma de um par de círculos pequenos e cor-de-rosa destacados contra sua pele branca, que agora pareciam gritar por atenção.

— Oh... é mesmo? — Eros exclamou, num falso ofego de surpresa. Ele fitou o próprio corpo languido e praticamente desnudo como se o estivesse vendo pela primeira vez, dando uma voltinha metódica em torno de si mesmo. — Dá para ver mais alguma coisa? — perguntou dissimuladamente, a voz baixa, lenta e sensual.

Agora que Apolo estava prestando a devida atenção, sim, dava para ver muita coisa...

Dionísio abriu a boca para responder sem nem pensar. Apolo imaginou a verdade constrangedora que sairia dali e impediu por reflexo, pigarreando sonoramente, enquanto se levantava. Ambos se viraram para ele, como se houvessem esquecido completamente da sua presença.

— Apolo, você está aqui! — exclamou Dionísio, sorrindo de orelha a orelha com os dentinhos brancos. O pirralho nem me viu. O Sol resmungou, estranhamente aborrecido. E eu aqui, babando nel...Arregalou os olhos para si mesmo. Assim, quer dizer... Antes que pudesse se repreender, ouviu: — Bem que eu notei que estava mais quente.

Para sua surpresa, os olhos gigantes do jovem moreno deslizaram vagarosamente pela sua figura, tal como fizera com Eros. Foram das suas curtas melenas douradas enfeitadas pelos louros para seus olhos escandalosamente azuis, seus malares altos, nariz reto, longo e aristocrático, envoltos na cútis beijada pela luz do sol, e então para a boca esculpida e o maxilar quadrado, depois para os ombros e peito largos e másculos, infelizmente bem cobertos por uma túnica turquesa bordada em ouro e uma capa branca. E continuou descendo... A intensidade crua daquilo fez com que Apolo sentisse como o olhar tocasse sua pele. Arrepiou-se dos pés a cabeça, um calor furioso tomando-lhe as faces bronzeadas.

— Você é uma visão, sabe... — o menino comentou. As íris verdes ainda perdidas em algum lugar entre as coxas e as panturrilhas musculosas do deus do sol.

Apesar de tudo, Eros teve que se utilizar de todo seu parco autocontrole para não se esborrachar de rir da reação encabulada de Apolo. Ele não sabe se corre, se esconde, finge que não ouviu, retruca ou deixa o queixo cair mesmo, e ainda cora como se fosse um adolescente virgem. Isso é deprimente.Passou a língua pelos lábios volumosos sem nem perceber.Ele seria um completo fracasso amoroso sem nem ao menos ter me antagonizado.Um sorriso melindroso de formou no canto esquerdo da sua boca respondendo a excitação ardilosa que vibrava nas suas células.Sorte sua que estou do seu lado agora, Polly.

— É claro que ele sabe. — o Amor disse serenamente. — Não são as nossas graciosas formas que os mortais esculpem obcessivamente, sempre... nuas. — ele estalou a língua contra os dentes algumas vezes. — Às vezes, acho que são mais sábios do que nós... — Apolo lhe lançou o segundo olhar homicida naquele dia, ao qual ele ignorou com a mesma aparente indiferença.

Muito bem, esse é o limite dele. Eros lia o corpo do deus do sol como a um livro clássico e relativamente previsível, e sabia que se o provocasse mais naquele instante, os injurias que o outro com toda certeza disparava em pensamentos o acertariam na cara. E como ele gostava muito daquela cara, moveu o corpo para o lado bruscamente, acenando com as mãos.

— Venham, sentem-se logo. Estou com sede! — exclamou, sentando ele mesmo sem cerimonia no seu lugar da mesa. — Eu deixei a bebida por sua conta, espero que não se importe. — completou, assistindo um Baco ingenuamente feliz e um Apolo furioso, se acomodando na mesa. Floquinho entendeu que estava convidado também e se deitou mansamente aos pés do dono.

— Você não conseguiria imaginar a dimensão da minha ofensa caso não o fizesse. — Dionísio cantarolou, movendo a cabeça ritmicamente. Ele pegou a taça de platina, esguia e rebuscada, a sua frente e a girou nas mãos pequenas, fazendo-a dançar entre seus dedos com a destreza distraída de um malabarista treinado. — Muito bem, o que vamos comer? — perguntou, desviando os olhos do cálice, embora ainda o manipulasse com a mesma habilidade.

— Dádivas de Poseidon. — respondeu Eros, logo antes de bater palmas. No instante seguinte, o que restava dos aperitivos consumidos anteriormente flutuaram ao redor deles, sendo rapidamente substituídos nas mãos dos criados invisíveis por bandejas prateadas lotadas de variedades de peixes, crustáceos, moluscos e diversos frutos do mar.

Apolo quis achar aquilo tediosamente dramático, mas foi distraído pelo brilho das íris esverdeadas de Dionísio, que acompanhava todos os movimentos da comida com um sorriso maravilhado.

— Já sei... — ele murmurou para si mesmo. Logo depois fechou os olhos, concentrado.

Diferentemente do que a maioria dos mortais ingênuos acreditava, quando Baco enchia milagrosamente a sua taça, ele não estava simplesmente criando o vinho do nada. Não era assim que as coisas funcionam. A produção da bebida sagrada não era uma questão de magia. Era arte. Dionísio produzia cada vinho que consumia. Desde a escolha da semente, o plantio, o cuidado, a colheita, o armazenamento... Da condição exata do solo ás mínimas variações de umidade e temperatura, o deus controlava toda a situação. E quando os cálices do trio foram preenchidos por uma linda variação de vinho branco, o que ele fez foi escolher cuidadosamente a receita mais apropriada, localizar mentalmente a posição do seu barril no Palácio do Vinho, assegurar-se de que o tinha na temperatura perfeita e o transportá-lo do recipiente para a mesa.

Simples assim.

Eros pegou sua taça e cheirou o vinho claro preguiçosamente, depois molhou os lábios com ele.

— Perfeito... — ronronou, uma expressão de prazer moldando seus traços, logo depois deu um gole longo. — Deve ser o melhor branco que já fez, amorzinho.

Amorzinho? Apolo ruminou, indignado. É sério isso?...

Dionísio encolheu os ombros pequenos, sorrindo timidamente, como uma donzela lisonjeada.

— Obrigado.

Apolo pegou o próprio cálice e levou a boca, o cenho fechado. Só bebendo para aguentar… ah nossa! O vinho era realmente delicioso. Fresco e frutado, desceu maciamente por sua garganta.

— Ele está certo. — o sol admitiu, para o espanto do Cupido. — É excelente...

Num movimento rápido e completamente inesperado, Dionísio se moveu da cadeira e depositou um beijo afável e ligeiro no alto da bochecha esquerda de Apolo. Previsivelmente, o deus ficou vermelho até as orelhas por baixo da cútis morena. A preciosa pele tocada pelos lábios rubros do belo menino queimou de um jeito fresco, gostoso e assustadoramente inquietante.

Meu Zeus, você acabou de matá-lo, Dísi!Eros deixou um sorriso terrível se espalhar por sua boca. Isso vai ser ótimo...

— Muito agradecido. — cantarolou o deus moreno, alheio a comoção a sua volta. — Agora parem de me bajular. Vai ficar melhor quando começarem a comer.

— O seu desejo é uma ordem. — disse Eros, degustando um bolinho de peixe branco. — Aliás... — ele parou por um momento, erguendo uma sobrancelha loura. — Por que ele ganhou um beijinho e eu não? — fez um bico de falsa mágoa.

— Por que você não está merecendo! — rebateu Baco, de imediato, abrindo um marisco com as mãos pequenas. — Acho bom que não se esqueça de que me abandonou por meses!

— Oh, Dísi... — murmurou Eros, lascivamente — Você está certo, querido. Eu mereço seu castigo. Mas sabe que posso compensá-lo pela minha ausência. — ele sorriu daquele jeito – É só pedir...

O jovem ergueu os olhos verde-escuros para ele.

— Vou pensar no seu caso. — disse, sem afetação.

Floquinho, quase como se entendesse o que era dito, lambeu possessivamente a panturrilha nua de Dionísio que, para evitar sujar as mãos de pelos, afagou o felino com os pés, mas acabou por fazer uma careta para as sandálias altas, desconfortável.

— Eros, se importa se eu ficar descalço? — perguntou.

O Cupido revirou os olhos.

— Mas, por todos os raios de Zeus, que espécie de pergunta tola é essa? — exasperou inconformado. — Dísi, meu amor, por mim você pode ficar nu!

Apolo quebrou uma ostra nas mãos, com um estalo alto, deixando suas partes caírem no prato de prata com um estalo mais alto ainda. Os dois olharam para ele.

— Ah... — Maldição. Tentou desesperadamente não pensar na figura do pequeno, delgado e belo menino moreno, completamente nua ao seu lado. Por favor, não faça isso. Não vou aguentar se fizer... As emoções extravasadas o deixavam cada vez mais envergonhado. Por que é tão difícil pensar perto desses dois? Disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça. — Eros, já contou a ele que Afrodite está grávida?

— Ahhhhhhh? — o jovem deus pulou na cadeira, fazendo Floquinho erguer a cabeça enorme, alarmado. — É mesmo isso? Sério? De novo? Quando aconteceu? De quem é? Há quanto tempo? Por que não me contou?...

Dionísio ainda disparava uma série de perguntas numa animação ininterrupta e ofegante, quase se jogando em cima do deus do Amor, que lançou um olhar de pálpebras estreitas para Apolo. Espertinho...

— De fato. — ele interrompeu o monólogo sem pausas do amigo, com suavidade. — Eu soube anteontem, não tive a oportunidade de lhe contar.

— Será que vai ser uma menina agora? — perguntou por fim, animado. Enquanto arrancava os calçados de couro e largava a sola dos pés pequenos no pelo espesso do leopardo, que começou a ronronar debaixo da mesa.

— Espero que sim... — desejou Eros, distraído. Uma expressão levemente soturna se instalou no seu rosto, absolutamente estranha aos seus traços finos. — Já basta de testosterona nessa “família”...

Apolo não entendeu a súbita mudança de humor do deus do Amor, mas Dionísio aparentemente sim, e apertou os lábios vermelhos de um jeito aborrecido.

— Você já não tem uma irmã? — perguntou o Sol, o mais suavemente que pode.

— Sim, minha avó! — Dionísio respondeu por ele, retornando a costumeira animação.

— Harmonia. — completou Eros, quase num murmúrio. — Mas, como sabe, ela se casou com um mortal e habita definitivamente o mundo humano. Não temos tanto contato. — acrescentou, brincando com umas fatias de salmão grelhado. Evitando verbalizar que a irmã mais nova era completamente distraída, fútil e o irritava rapidamente.

— Entendo... — foi o que o Sol respondeu.

Eros ergueu os orbes pretos para ele, com uma expressão de preguiça.

— Preciso dizer? — ele perguntou, a voz macia entediada.

— O quê? — Apolo e Dionísio disseram em uníssono, misturando o timbre doce e rico ao grave e melódico num arranjo bonito, que não escapou ao ouvido absoluto do deus da musica.

O Cupido chegou mais perto de Baco, com um ar conspiratório.

— Olhe bem para o rosto dele, Dísi. — começou, apontando para Apolo. — Essa é a cara que ele faz quando tem uma pergunta o incomodando, mas ele acha prudente não fazê-la. — ergueu uma sobrancelha clara. — Não é mesmo, Polly? Já conversamos sobre isso, está começando a ficar irritante...

— Você me chamou do quê? — Apolo exasperou, horrorizado.

— É verdade? — perguntou Dionísio, os olhos enormes.

O Sol olhou de um para o outro, perdido. Esses dois são uma forma sutil de tortura... Ele coçou sem motivo o alto do nariz, num tique nervoso.

— Aparentemente... — respondeu, taciturno.

— Qual é a pergunta? — o jovem moreno quis saber, a curiosidade brilhando nos globos esverdeados.

— Eu não sei se devo...

— Faça logo! — exigiu Eros, impaciente.

Apolo apertou os lábios, irritado, mas cedeu.

De novo.

— Por que não que um irmão homem?

Fez-se um silêncio incomodo na mesa. Eros sorriu, pela primeira vez sem nenhum humor ou malícia. Ele olhou para Dionísio como se fizesse um pedido mudo. O menino piscou em compreensão e se aproximou de Apolo lentamente, submergindo-o em seu perfume de frutas e folhas.

— Os irmãos de Eros são maus com ele... — sussurrou, com uma indignação infantil.

Apolo não soube se o que o deixou mais surpreso fora a notícia ou o fato de que cheiro doce e amadeirado de Dionísio o deixara tonto. Ele ergueu a vista para Eros, que tinha os olhos escuros fixos em algo qualquer da mesa cheia. Parecia quase triste, enquanto deslizava os dedos pela pele coberta do ombro direito, distraidamente. Como um fiel faria com um amuleto antigo.

— Me desculpe. Eu não devia...

O Amor o interrompeu com um aceno levemente agressivo da mão.

— Ah, por favor, me poupe disso. — descartou, passando os dedos longos pelo ombro mais rapidamente, de um jeito meio nervoso, como se a pele ali estivesse doendo. — Todos os presentes sabem como é não se dar com todos os parentes! E, além do mais, não é como se fosse um grande segredo.

Apolo ficou calado. Ele não fazia ideia! Claramente o Amor não estava se referindo aos meios-irmãos, já convivia pacificamente com Príapo e mesmo Hemineu. Mas com as outras crias de Ares... Posso encontrar lógica com certa facilidade nisso. Eu mesmo não o suporto. Pensou do deus da guerra; seu irmão selvagem, irracional e violento. Seus filhos não devem ser menos desagradáveis.

— São uns bárbaros repugnantes, aqueles lá! — esbravejou Baco, franzindo o narizinho de uma maneira de só servia para deixa-lo fofo, em concordância aos pensamentos do Sol.

Cupido sorriu para ele, com um carinho evidente.

— Já chega desse assunto. — declarou por fim. — Vamos nos concentrar em comer.

*

E comer foi o que eles fizeram pela próxima hora, o assunto se enveredando por caminhos menos tortuosos e simples trivialidades. O humor do Amor voltou ao normal rapidamente. Floquinho permaneceu absorto na massagem que recebia dos pezinhos de Dionísio e só se manifestava quando o dono se empolgava demais com algum tema e acabava pulando na cadeira, alarmando o felino. Ele e Eros continuaram flertando em intervalos curtos, mas nada demasiadamente constrangedor, e depois de um tempo, a corte libertina do Cupido tornou-se quase engraçada ante as reações honestas e sem afetação de Baco. Agora que podia apreciar com alguma tranquilidade, Apolo admitia que a ceia estava deliciosa. Não se preocupava muito com a variedade das próprias refeições e raramente comia algo vindo do mar, todavia gostou de absolutamente tudo o que pôs na boca. Especialmente do ceviche de peixe branco, salmão e pequenos camarões, temperado com sal, cebolas, limão e bastante pimenta. Também nunca havia comido ostras até aquela ocasião e elas de mostraram muito saborosas. Foi uma pena Eros ter estragado isso, dizendo que elas haviam sido uma homenagem de Poseidon à Afrodite e isso as tornava especiais. Quando Apolo perguntou “como”, o Amor apenas sorriu para ele e disse que, pela quantidade que havia comido, ele iria descobrir logo.

Apolo parou de comer ostras.

Quando todos estavam devidamente cheios – e de Dionísio ter comido uma quantidade proporcional ao tamanho de Floquinho – o Amor levou os três para o seu jardim, no fundo da propriedade.

Era mais um bosque, na realidade. Sem nenhuma ordem visível, o lugar era sombreado por lindas variações de árvores de grande porte floridas. Como cerejeiras; ipês brancos, amarelos e lilases; e flamboyans de um vermelho escandaloso. Havia também vários tipos de trepadeiras carregando flores; sapatinhos-de-judia com seus cachos esverdeados, ipomeias azuis e primaveras de todas as cores. Curiosamente, não havia muitas plantas rasteiras e o chão todo coberto por uma grama macia e escura. Pelo meio do bosque-jardim, havia uma espécie espaço livre em linha reta, que formava um túnel pelas arvores floreadas. Sob a luz de uma enorme lua cheia e várias lanternas de metal com velas acesas, era tudo muito bonito.

Havia cadeiras-espreguiçadeiras de um estofado escuro, macio e confortável preparadas para o trio na estrada do jardim. Eros se sentou no meio, esticando as pernas longas e delineadas com um suspiro prazeroso. Apolo se sentou do seu lado direito e Dionísio, ainda descalço, no esquerdo. Floquinho se deitou numa linha perpendicular a cadeira no dono e apoiou a cabeça gigante do seu colo, fechando os olhos cinza-azulados quando este começou a acarinhar os pelos escuros da parte de trás de suas orelhas. Apolo sentiu uma pontada involuntária de inveja do felino.

— Está na hora do vinho de sobremesa. — anunciou o pequeno, rodando novamente a taça de platina na mão livre.

Os três viram os cálices que ainda carregavam, e dos quais já haviam bebido um bocado, se esvaziarem do que restava do vinho fresco e branco para se encherem com um cor-de-âmbar, de cheiro denso e adocicado.

— Está na hora das Histórias Duvidosas... — murmurou Eros, os olhos fechados ante o prazer do gosto da nova bebida. Como era delicioso ser o melhor amigo do deus do álcool.

— Oh, é verdade! — Dionísio cantarolou, abraçando a cabeça peluda de um Floquinho surpreso e confuso.

— Histórias Duvidosas? — perguntou Apolo, bebericando o vinho doce como mel, algumas notas frutadas de pera e ameixa-branca.

— Sim... — Eros disse, abrindo os olhos escuros. — Quando Dionísio veio para o Olimpo, só conhecia os contos mais famosos dos deuses, contados e remodelados infinitamente pelos humanos. Então, toda vez que nos encontrávamos, eu lhe contava uma história que não conhecia. Algumas são apenas bobagens engraçadas e pérolas divinas, outras são contos menos conhecidos, outras ainda são só fofocas duvidosas. — ele deu ombros por baixo da túnica translúcida. — É quase um tradição.

— Não é só isso! — acrescentou o deus do vinho, com a empolgação exibindo os dentinhos brancos. — Quando conta a história, Eros não diz o nome das personagens, e faz com que eu tente adivinhar quem são pelas atitudes e personalidades. Se eu acerto, ganho um prêmio! — exclamou, apertando Floquinho entre o braço delicado e o peito imberbe.

— E se erra? — perguntou baixinho, sabendo que Eros arrancaria a duvida dele de uma maneira ou outra.

— Aí, quem ganha sou eu... — murmurou Cupido, com aquele sorriso.

— Hum... — Apolo resmungou, quase escondendo a cara dentro do cálice cheio de vinho. Talvez devesse ter parado de beber a algum tempo. Imaginava muito bem qual seria a gratificação de o deus do sexo pediria. Embora o seu lado menos afetado pelo álcool houvesse notado que aquela forma de contar histórias era extremamente útil para que um deus jovem como Dionísio aprendesse sobre cada divindade e assim sobrevivesse as hipocrisias da corte e ardilosidades do Olimpo.

— Então vai! Comece! — pediu Dionísio, quase dançando na cadeira de empolgação, mudou a voz para um tom mais grave antes de falar — O que tem para mim hoje?

Eros ajeitou-se no assento, passando as mãos perfeitas pela túnica lilás depois de deixar a taça num apoio entre as cadeiras.

— Muito bem. — disse, suavizando a voz já tão macia. — Eu estava guardando essa para uma ocasião especial... — deitou os olhos pretos sobre Apolo. — mas não vejo oportunidade melhor do que essa. — limpou a garganta lentamente e começou.

Era uma vez, um homem muito poderoso. Entre os seus, era o mais forte e sábio, sendo bajulado e respeitado; entre os demais, era divino e inalcançável, sendo temido e idolatrado. Esse homem era valente. Lutou e venceu como nenhum outro. E acumulou poder, influência e súditos como se fosse ouro abarrotando seus cofres.

Eros faz uma pausa, molhando os lábios com a língua.

Mas esse homem tinha uma fraqueza terrível.

Ele deixou os olhos vagarem de um lado para o outro e sussurrou, conspiratoriamente.

Ele amava alguém.

Deixou que os outros absorvessem a informação, recostando-se na cadeira e tomando um gole lento de vinho.

Seu amor era tão violento e poderoso quanto ele próprio, e crescia e crescia, mais e mais a cada dia. O homem era inteligente, sabia que, um dia, seu amor se tornaria maior do que ele mesmo, e nesse momento, deixaria de ser a criatura mais poderosa da terra, porque estaria entregue. E o seu objeto de amor seria o senhor de tudo.

Então o homem temeu. Aquele sentimento tão visceral e incontrolável vibrava dentro dele.

O Cupido colocou a mão sobre o próprio peito, como se sentisse ele mesmo o que descrevia.

Mais intenso do que a força nos seus músculos, mais implacável que a sua determinação, mais controlador que a sua própria consciência.

O homem podia ser ainda maior, ainda melhor, ainda mais importante. Mas passava dia e noite fugindo desesperadamente de si mesmo. E a cada olhar que lançava o seu amor, a cada toque fugaz e inesperado, a cada palavra trocada, o homem se sentia mais fraco e impotente.

Ele podia ter se entregado. Podia ter abandonado qualquer noção de autopreservação e arriscado tudo nos braços do ser amado. Podia ter encontrado um sentido totalmente novo para sua existência. Podia ter sido feliz.

Eros prendeu respiração, e depois soltou um suspiro melancólico e lento.

Mas o homem tinha medo. Medo de se colocar nas mãos de outra criatura. Medo de se embriagar naquele sentimento o suficiente para que o poder que tanto almejara se tornasse nada mais do que um sonho supérfluo e trivial. Medo de que se perdesse dentro do que ele mesmo sentia...

E não se importar com isso.

Então o homem, receoso e atemorizado, decidiu que não deixaria isso acontecer. Ele enganou o seu amor e o traiu da pior maneira que pode imaginar, garantindo que este o odiasse para todo o sempre e o mandou, assim, para o mais longe possível, tirando-o da sua vista e implorando que o Destino o tirasse do seu coração. Ainda não satisfeito com aquilo, o homem se casou três vezes, até estar do lado de com alguém que, ele sabia com toda a certeza, jamais poderia amar e, dessa forma, nunca se exporia a tal perigo de novo.

Fez outra pausa, mordendo o lábio inferior.

Mas não foi o suficiente. O sentimento dentro dele se debateu, arranhou-lhe com as unhas, escalou suas paredes, gritou-lhe em plenos pulmões. Depois calou-se, andou cambaleante e débil, definhou, convulsionou, esperneou com violência e adoeceu. Mas nunca morreu. E depois de séculos, o homem entendeu que seu amor era tão imortal quanto ele mesmo.

Poderoso como sempre almejou ser, mas atormentado e ferido, o homem procurava sombras esparsas do seu amor em cada criatura bela que encontrava pelo caminho. Fazia filhos e causava guerras, mas isso nunca importava, porque nada o alegrava, nada o satisfazia. Então ele tenta ir mais longe, mais alto. Na vã esperança de que, um dia, terá poder o suficiente para tornar a si mesmo algo menos vazio.

O silêncio gritou longamente pelo jardim floreado. Nem o crepitar rítmico das velas acesas, o farfalhar da brisa fresca nas folhas ou o canto descompassado das criaturas noturnas pode perturbá-lo.

Apolo encarava Eros, completamente horrorizado. A sua expressão era de um fiel que acabara de ver alguém quebrar as lajotas do seu altar, queimar os destroços e dançar nu em cima das cinzas. Dionísio estava imóvel como ninguém nunca vira, os grandes olhos verde-musgo dançando perdidamente, enquanto todas as peças se encaixavam na sua cabeça. Floquinho se pôs sobre as quatro patas e lambeu a bochecha do dono, preocupado. Ele não pareceu sentir.

— Você não pode ter insinuado… o que eu acho que acabou de insinuar! — o Sol sussurrou de um jeito estrangulado. — Você simplesmente não pode!

— Vejo que interpretou tudo corretamente. — respondeu Eros, completamente indiferente ao espanto chocado do outro. — Meus parabéns, você ganhou. Pode pensar no seu premio agora. — diante disso, Apolo apenas deixou o queixo cai.r — E você, amorzinho? O que tem para mim?

Dionísio ergueu os olhos, muito abertos, para ele.

— O “homem”... — o jovem começou baixinho. — é o deus mais poderoso de todos, respeitados pelos seus iguais, e idolatrado pelos mortais. É Zeus. A pessoa com que se casou e jamais amou é Hera, a qual ele nunca foi fiel, enchendo a terra e o Olimpo com seus descendentes. E a pessoa a quem ele enganou e traiu, fazendo com que fosse para longe o… grande amor da sua vida é... — ele hesitou, como se estivesse dizendo algo terrivelmente proibido. Eros assentiu de leve para ele, dando-lhe permissão para a blasfêmia escondida atrás dos seus lábios vermelhos. — o amor da sua vida é o seu próprio irmão.

“O amor da sua vida é Hades.”

Apolo cobriu a boca com a mão, como se aquelas palavras profanas houvessem saído dos seus próprios lábios. Os olhos de Dionísio tomavam seu rosto todo, enormes. Eros jogou os cabelos platinados para trás, cantarolando balada antiga, em total desarmonia ao clima tenso em volta dele.

— Muito bem, meu amor, você ganhou de novo. — disse alegremente.

— Isso é verdade? — perguntou o menino, baixinho.

— É claro que não! — Apolo respondeu por ele, de um jeito agressivo.

— Talvez não mesmo. — admitiu Cupido, sem afetação, bebendo com tranquilidade do seu cálice cheio.

— Como assim? — Apolo e Dionísio perguntaram ao mesmo tempo. De novo. Arrancando um sorriso travesso do deus do Amor.

— Essa história, se verdadeira, é muito anterior a mim e a qualquer a quem eu poderia perguntar.

— Como soube então? — o Sol questionou, cético.

— Minha mãe contou para mim. — respondeu de imediato. — disse ter ouvido da boca do próprio Poseidon, depois de uma noite de luxúria. — ele deu ombros. — Ele pode ter inventado, pode ter mentido, pode ter criado isso tudo dentro da própria cabeça. Eu realmente não sei. Se tivesse visto os dois juntos, – Eros continuou, gesticulando. — ambos no mesmo recinto, ainda que só por alguns segundos, eu saberia! — anunciou, depois se recostou melancolicamente no assento, com um suspiro. — Mas como sabem, isso nunca acontece. A única verdade inegável que encontro nisso é, se tal lenda se mostrasse como fato... — ele sorriu com o canto da boca cheia. — explicaria muita coisa.

— Explicaria por que ele deu sua filha para Hades quando este a pediu, sem se preocupar com a vontade dela ou de sua mãe, quando ela era, claramente, uma de suas preferidas... — Apolo pensou alto, contrariando sua própria consciência.

Hades raptou Perséfone logo após Zeus tê-la “dado” a ele, enquanto a menina passeava entre as flores. A mãe nunca superou a falta da filha, e até hoje a Rainha Infernal deixa o marido para passar metade do ano com ela, a trazer assim o verão e a primavera. Apolo nunca havia entendido porque Zeus fizera as coisas daquela forma, quase com desespero. Causando uma angústia tão grande em Deméter, e o inverno e outono no mundo humano. Mudando toda a ordem das coisas.

— Também explicaria nosso querido amiguinho aqui. — disse Eros, desgrenhando o cabelo cacheado de Dionísio num carinho que fez Floquinho soltar um grunhido grave e irritado do fundo da garganta. Gosto cada vez mais de você, bichano. Pensou Apolo.

— Eu? — perguntou o menino, inclinando a cabecinha para o lado, como um gato.

— Todos nós sabemos que Zeus não tem muitos escrúpulos no que se refere a sua vida sexual. — o Cupido disse, simplesmente. — Todavia, ele manteve uma relativa distância das filhas. Com exceção...

— Da minha mãe. — completou Dionísio, apertando os lábios rubros. — Sempre achei que era porque ela é a mais bonita. — completou, distraído.

— Hum, é... — Eros balbuciou, erguendo as sobrancelhas. — Não deixe minha mãe ouvir isso. – porém deixou uma risadinha escapar pelo nariz. A beleza de Perséfone era inegável, mas Afrodite podia ser extremamente vingativa com que ousasse ameaçar seu posto de maior beldade. — Mas, sim. Pode ser por isso. Além do fato de Atena e Artêmis terem jurado virgindade eterna. Tudo isso não passa de especulação. O fato é: — ele cruzou os dedos compridos e finos embaixo do queixo. — se existe uma maneira clássica e trágica de se sentir próximo ao seu amor, é tomar o amor dele. Poucas coisas são mais úteis à cabeça e terríveis ao coração do que "Projeção".

O silêncio voltou a se entremear entre os deuses. Eros bebia do vinho com uma sede assustadora. Dionísio afagava o pelo do leopardo de estimação, distraidamente. E Apolo encarava as lanternas acesas no jardim, com as íris azuladas perdidas.

— Por que contou essa história? — ele perguntou por fim, sem tirar os olhos das chamas.

— Hum... — Eros murmurou sensualmente por detrás do cálice de vinho, piscando demoradamente. — É uma boa história. — Apolo olhou para ele de uma maneira dura, que devolveu afavelmente, com seu par de globos pretos como o infinito. — Sabe, os humanos contam e recontam nossas histórias. Perpetuam nossos feitos por séculos. Tratam tudo o que vivemos e sofremos como lições, para acertarem o máximo possível em suas efêmeras e belas existências mortais. — ele ergueu minimamente as sobrancelhas louras e estreitou os olhos antes de terminar. — Talvez devêssemos aprender com elas também.

Notas finais
Segura essa indireta, Polly. Onde está o seu deus agora? hsuahsuahsuahs Pois é, caros colegas mortais. Ostras são afrodisíacas... Alguém vai ter sonhos interessantes hoje ¬¬ (e sim, isso foi uma dica para o próximo capítulo) Eu só gostaria de lembrar a vocês que gostam dessa estória, que é a primeira vez que exponho algo que escrevo, e gostaria muito de receber algum retorno de vocês. Para saber se estou fazendo isso direito, se há furos ou melhorias a fazer, e principalmente quanto a qualidade da narração. Isso é muito importante para mim. Então, vocês gostaram do Floquinho? Qual é o deus favorito de vocês até agora? Essa história duvidosa no final, hein? Será que faz algum sentido? E, que raios de negócio é esse dos irmãos de Eros serem "maus" com ele? E, o mais importante, vocês estão gostando? Beijos de luz, e até semana que vem :)