Bacanal
5 Maldito Morfeu
Notas iniciais
E se vocês ainda estão respirando, vocês são sortudos.
Porque a maioria de nós está arfando através de pulmões corrompidos,
Incendiando nossos interiores por diversão,
Coletando os nomes dos amores que deram errado.
Os amores que deram errado.
— Daughter, “Youth” (Traduzida)
— Sete séculos e meio atrás –
Apolo desceu do Olimpo, com um peso desconfortável no peito largo. Vira claramente mágoa que causara despontar nos olhos escuros de Eros. Embora seu orgulho ferido e sua vaidade crescente se parabenizassem alegremente, um fiapo de consciência insistia em lhe dizer como aquilo tudo fora desnecessário. Não importa, ele pensava, colocando os pés no mundo mortal.
De repente, sentiu uma pontada de dor fina no meio das costas. Mas foi um tipo de dor estranha: quente, lenta e quase prazerosa. O deus levou a mão à pele que queimava calidamente e não encontrou nada ali. Mas um calor arrastado, denso e levemente dolorido irradiou daquele local para o seu corpo todo, como se tivesse sido envenenado por magma, como se fosse atingido em cheio por uma lança em chamas. Ou, quem sabe...
Uma flecha de ouro.
Apolo arquejou, todo o seu ser vibrando em harmonia com alguma força desconhecida. E única coisa em que conseguia pensar era que precisava desesperadamente estar em algum lugar. Um lugar que não era ali. Um lugar que ele não conhecia. Mas seus pés aparentemente sim, porque começou a correr como se sua existência dependesse disso.
Pulou pedras, atravessou rios, desviou de árvores e escalou morros, sem nem notar. Andou por dias. Andou por horas. Andou por anos. Ele não tinha a mínima ideia, não parecia importante. O seu coração batia como um tambor tocado por um bêbado mais feliz do que convinha. Nos seus ouvidos. Na sua garganta. No seu corpo todo. E aumentava conforme ele se aproximava de seja lá onde estava indo.
Então parou.
As mãos quentes suavam frio. Estava difícil de respirar. Estava difícil de pensar. Adentrou lentamente na borda de uma clareira, os passos mudos e receosos. E então a viu.
No meio do círculo arbóreo, trançando os cabelos distraidamente, havia uma ninfa. Suas melenas eram volumosas e encaracoladas, cor de chocolate amargo. Os olhos azul-esverdeados com formato engateado se destacavam contra a pele escura como ébano, por debaixo de um par de sobrancelhas finas. Os lábios escuros muito cheios cantarolava ritmicamente uma canção da floresta.
Apolo correu para ela antes de perceber o que estava fazendo.
Quando a ninfa o notou ao seu encalço, não pareceu ter visto o tão belo e dourado deus do sol. Sua expressão era de quem se encontrara com um horrendo e monstruoso espectro da floresta. A mulher colocou a mão sobre o peito, de onde irradiava um frio cortante e repulsivo, tão qual tivesse sido alvejada por um dardo de gelo. Ou, quem sabe...
Uma flecha de chumbo.
A ninfa pôs-se a correr desesperadamente.
— Não! — Apolo gritou, ao vê-la escapar dos seus braços. — Não, por favor, espere...
— Deixe-me em paz! — ela o cortou, sibilando agressivamente entre os dentes brancos. — Vá embora e me deixe em paz!
Ele não conseguia nem pensar nessa possibilidade.
— Pare de me perseguir, seu bastardo! Vá embora! — ela gritou para ele, correndo pelo bosque.
— Não posso. — ele disse, atrás dela, como um louco ferido. — Eu a amo.
— Pouco me importa! Eu o detesto! Deixe-me ir!
— Não diga isso... — ele murmurou, sentido lágrimas escorregarem pelo seu rosto. — Não sou um camponês qualquer, ou um bárbaro. Sou Apolo, um filho de Zeus. E uma flecha mais letal que as minha acertou meu coração! Por favor, pare...
— Nunca! — ela gritou de volta, com lágrimas de pavor manchado sua face. — Meu nome é Dafne, sou filha do rio Peneu. E não quero saber de Cupido ou Hemineu1. Agora me deixe em paz!
Eles ficaram nisso por uma eternidade. Apolo perseguia a ninfa com o desespero de um viciado em abstinência e ela fugia dele como uma corça de um lobo selvagem. Ele pedia, suplicava, implorava para que ela parasse, que o ouvisse, que o amasse. Em troca, ela o xingava, ofendia e amaldiçoava em todas as língua que conhecia.
Em algum momento, as forças da ninfa começaram a fraquejar. E, mesmo sendo veloz e ágil como era, viu o terrível perseguidor aproximar-se mais e mais a cada minuto. Quando o pavor a tomou por inteiro, começou a rezar:
— Deus-rio, meu pai, ouça minha prece...
— Dafne...
— Livra-me deste castigo cruel...
— Dafne, por favor...
— Poupa sua filha de um destino tão pavoroso...
— Dafne, eu lhe imploro, por favor...
— Mate-me se for preciso.
— NÃO!
— Leve-me a inexistência se necessário...
— Não, não, não!
— Apague o meu nome da história...
— Por favor, não!
— Ou mude-me...
Ele finalmente a alcançou.
*
— Presente —
Apolo acordou bebendo ar, como se estivesse se afogando. Sentou na cama num solavanco violento, jogando longe os travesseiros. Apertou a garganta, desesperado por oxigênio, mas ele não veio. Sentia frio. Um frio dolorido e absolutamente discordante com os quase 50° que inflamavam a sua pele. Os lábios morenos começaram a ganhar uma coloração assustadora de violeta. Soube que ia desmaiar.
— Meu senhor, eu tenho permissão para entrar? — disse uma voz feminina no outro lado da porta, com tom de alarde. — O senhor estava gritando!
Apolo apoiou a base da nuca na cabeceira alta e dourada da cama, a visão se escurecendo.
— Meu senhor!
A serva havia entrado de rompante no quarto, temendo encontrar o que de fato encontrou.
O deus do Sol sentiu mãos delicadas o embalarem suavemente. A mulher se retraíra levemente quando o calor dele queimou lhe a pele, mas ela passou os braços desnudos em torno dos seus ombros largos mesmo assim. Uma das mãos acarinhou a lateral da cabeça loira do deus maternamente.
— Está tudo bem. Você está bem. Não foi real... — ela murmurou para ele, docilmente. — Já faz centenas de anos. Não aconteceu de novo. Nunca vai acontecer de novo. — ela disse, segurando o rosto dele entre as mãos. — Nunca. Agora respire...
Apolo ofegava dolorosamente em intervalos curtos, puxando apenas golinhos de ar para os pulmões corrompidos.
— Respire... — a serva sussurrou de novo, limpando as lágrimas do rosto dele.
Ele não sabia que estava chorando.
Apertou os olhos, sentido a alma descer em linhas molhadas pela face. Já faz setecentos e cinquenta e um anos. Disse para si mesmo. Não aconteceu de novo. Continuou, finalmente conseguindo encher o peito de ar. Nunca vai acontecer de novo.
— Isso, meu senhor. Muito bem... — disse Aurora, a serva gentil, passando os dedos entre seus cabelos.
Apolo escondeu o rosto molhado na curva do pescoço dela, exaurido demais para dar atenção ao próprio orgulho agora, e continuou chorando, em completo silêncio.
Aurora mordeu os lábios, segurando bravamente as próprias lágrimas. Odiava vê-lo naquele estado. Seu deus tão poderoso, orgulhoso e dourado, reduzido a farrapos ofegantes de pânico. Sim, crises de pânico. Não fora a primeira vez. Nem a segunda. Nem a décima. Os episódios haviam diminuído de frequência com o passar dos anos, ela não conseguira nem se lembrar de quanto tempo havia desde a última vez. Chegou a considerar esperançosamente que ele houvesse finalmente superado suas perdas, ou ao menos, encontrado paz ante a lembrança delas.
Aparentemente não.
Maldito Morfeu. Ela xingou em pensamentos. Sabia que era errado odiar os deuses, sejam eles como forem, mas odiava o deus dos sonhos, assim como odiava o deus do Amor.
Odiavam o que eles faziam com ele.
A respiração seu deus ainda estava pesada e difícil do ouvido dela, arfante, mas regular. O roxo-azulado sumiu aos poucos dos seus lábios, embora suas lágrimas ainda molhassem calidamente o ombro da ninfa dourada.
— Quem foi dessa vez? — ela perguntou mansamente, ainda afagando a cabeça de Apolo como a um filho com pesadelos.
Ele soltou um suspiro trêmulo.
— Dafne... — murmurou, engolindo à seco.
Aurora conteve um suspiro aliviado. Poderia ter sido pior.
Dafne fora a primeira de muitos quebrarem seu coração. Sua paixão por Quione quase destruíra completamente a amizade que tinha com Hermes, que se apaixonara por ela também, e com Artêmis, que a matara depois de ter sido diminuída pela mortal. Com Corônis, gerou um filho que mais tarde seria assassinado pelo próprio Zeus, por ter-se tornado poderoso demais, e o fez ser castigado com um ano de trabalho forçado por ter matado os Ciclopes como uma vingança ao pai. Cassandra, a princesa troiana, o rejeitara com repúdio, mesmo depois dele tê-la presenteado com o dom da profecia. Héstia o recusara como a todos. Deméter o considerou indigno da bela filha.
E, é claro, havia Jacinto...
Não existira ninguém depois de Jacinto.
Apolo finalmente pode olhar para a serva que o abraçava devotamente. Tinha cabelos e olhos tão dourados quanto ouro líquido, e a pele bronzeada como todos os servos do deus do sol. Ele desencostou a cabeça do colo dela lentamente, que afrouxou o aperto cálido dos braços.
— Obrigado... — murmurou, os olhos baixos e constrangidos.
Aurora limpou os últimos resquícios de choro do seu rosto com uma eficiência vinda do treino. Apolo permitiu o toque suave imóvel e praticamente inerte, fechando os olhos azuis. Quando estava devidamente limpo e seco, a mulher passou os dedos por seus cabelos, ajeitando as melenas douradas numa ordem elegante.
— O senhor seu irmão está aqui para vê-lo. — disse por fim, colocando a ultima mexa solta no lugar. — Devo dispensá-lo? — perguntou por obrigação, mas já sabia a resposta.
— Não, — ele respondeu, previsivelmente, limpando a garganta. — Diga que já vou encontrá-lo. E sirva algo a ele enquanto isso.
— Já foi feito, meu senhor. — ela rebateu, com um sorriso suave. Se alguém podia amainar a melancolia de seu senhor, esse alguém era Hermes.
Apolo sorriu de volta, embora seus olhos não.
A serva levantou-se da cama de penas com elegância e pegou uma bacia de água fresca que havia deixado apressadamente num canto qualquer quando entrou no quarto e encheu a pia de mármore claro do recinto com ela.
— Meu senhor... — ela fez uma reverência curta e saiu do quarto, sabendo a hora certa de deixá-lo sozinho.
O Sol deitou a cabeça na cabeceira de novo, amortecido. A imagem da amada ninfa da floresta se transformando num loureiro ainda viva por detrás de suas pálpebras fechadas. Sim, ela preferira tornar-se uma árvore a tê-lo. Podia sentir nitidamente a textura do tronco que ele abraçara perdidamente na ponta dos dedos, na pele dos braços, o canto dos lábios. Não soube quanto tempo ficou assim, apenas ninando a planta e chorando pateticamente, antes de apanhar um de seus ramos e colocá-los na cabeça, jurando a ela que sua memória seria tão eterna quanto ele mesmo.
Respirou fundo uma, duas, três vezes antes de encontrar ânimo para viver aquele dia. Depois se levantou mecanicamente, tirando os lençóis brancos de cima do corpo moreno e nu. Caminhou até a pia e lavou o rosto na água fresca. Agarrando as bordas de mármore branco, encarou-se no espelho a sua frente. Os cabelos estavam ordenados, o rosto fresco e limpo, e os olhos já sem o vermelho evidente do choro recente, mas pareceu-lhe horrível mesmo assim. Paciência... Pensou, resignado, enquanto apanhava de um baú gigante um chiton azul-cobalto e o enrolava em torno do corpo musculoso.
Como um relógio-de-sol preciso, Aurora voltou ao recinto no momento exato de prender-lhe o tecido fino nos seus ombros largos com alfinetes de ouro, o que ela fez rapidamente. E depois catou um cinto de couro descolorido e o ajustou ao redor da sua cintura.
— Sandálias? — perguntou, eficiente.
— Não. — murmurou o deus. — Hermes é de casa...
A mulher assentiu concordante e seguiu o deus passivamente para fora do quarto.
— Bom dia, raio de sol. — zombou Hermes, o corpo esticado preguiçosamente no sofá azul celeste de Apolo, enrolando mexas do próprio cabelo curto com os dedos, agora num tom escuro de vermelho-sangue.
— Bom dia, ruivo folgado. — respondeu, dando um tapa nas pernas que Hermes apoiava na mesinha de centro.
— Ora, não sou eu quem recebe as visitas descalço. — retrucou, despreocupadamente.
— Vou fingir que você não mora aqui por meio período.
— Vou fingir que você não espera ansiosamente pela minha presença.
Apolo revirou os olhos.
— O que você quer, hein? — perguntou, apenas exagerando sua irritação, mas apoiando ele mesmos os pés descalços na mesinha.
— Não é o que eu quero, e sim o que você quer, irmão querido. —cantarolou Mercúrio, com um sorriso cativante.
— Ah, é mesmo? — Apolo ironizou, erguendo as sobrancelhas. — E o que eu quero, ruivinho?
— Primeiro: desfazer essa cara de ressaca, que está terrível! — disse simplesmente. Bem no momento que Aurora entregava a Apolo um copo de ouro cheio de leite aquecido e adoçado com mel, como ele gostava. — E depois, você quer desesperadamente que eu fique aqui quietinho para você me contar absolutamente tudo o que aconteceu ontem.
— Ah, é isso o que eu quero? — zombou secamente, bebendo o líquido quente e doce.
— Pode começar! — anunciou Hermes, acomodando os braços confortavelmente atrás do pescoço, como se esperasse passar horas ali. Ignorando deliberadamente o mau humor inegável do irmão.
Apolo bufou para ele, mas acabou por narrar a noite anterior. Omitindo a parte do beijo fugaz que ganhara de Dionísio e tudo o que sentira quando a isso, quase tocando a pele da bochecha carinho. Também não falou sobre a “história” que Eros jogou em cima dele no final. Não queria nem pensar nela.
— Então, Afrodite está grávida de novo? — Hermes perguntou por fim.
— Aparentemente sim. Não conte aos outros, não sei se ela quer que todos saibam.
Mercúrio fez cara feia para ele.
— Por acaso eu sou o deus dos fofoqueiros agora?
— Ora, não sou eu que vivo de espalhar notícias. — rebateu Apolo, no que Hermes lhe mostrou a língua.
O Sol só ergueu as sobrancelhas para aquilo, deixando o rosto sério.
— Você sabia daquilo? Que Eros tem problemas com os irmãos? — perguntou.
Hermes franziu o cenho claro, com uma expressão de desagrado.
— Fobos e Deimos, sim... — ele murmurou, taciturno. — Você não ia querer crescer na mesma casa que aqueles dois.
— Hm... — Apolo soltou entre lábios fechados. — suponho que não. — mas estava incomodado com o cenho fechado do outro. Só eu posso ficar triste nessa casa. Pegou uma almofada branca do seu lado do sofá e arremessou com tudo no rosto dele, acertando em cheio o meio da sua cara. — Até porque eu já tenho a minha cota de irmãos insuportáveis!
— Ora, seu... — resmungou Hermes, devolvendo o arremesso, que Apolo segurou no ar a frente do rosto.
O irmão mostrou-lhe a língua outra vez.
— Se fizer isso de novo, vou cortar a sua língua e dependurar na minha lira. — ameaçou Apolo, falsamente perigoso.
Hermes estreitou os olhos âmbar para ele, com um sorriso lento, e provocou:
— Eu quero ver você tentar, raio de sol...
**
Eros depositou um beijo lento no esterno do amante. Depois seguiu uma trilha pelo seu ombro, clavícula, pescoço, até acabar prendendo o lóbulo da sua orelha delicadamente entre os dentes perfeitos. O gosto dele nunca enjoava. O Amor pressionou os lábios voluptuosos na pele da sua garganta e a sugou para dentro deles, deixando nela uma bem visível marca vermelha. Então lambeu vagarosamente a cútis sensibilizada e, por fim, depositou ali um suave selinho.
Ele nem se mexeu.
Eros o encarou, de cima. Ele estava deitado molemente por baixo do Cupido, o quadril encaixado entre suas pernas longas. A cabeça estava apoiada lateralmente no colchão macio e as íris perdidas no canto direito do quarto púrpuro, enquanto acarinhava a raiz dos cabelos de Eros distraidamente.
O Amor cerrou um pouco os olhos pretos. Deslizou a mãos de dedos finos por sua barriga lisa, deixando suaves marcas de unha pelo caminho, numa carícia que, ele sabia, devia tê-lo feito se contorcer. Mas ele apenas deixou escapar um arquejo mínimo entre lábios.
Ele costumava ser o amante perfeito. Gostoso, desinibido e extremamente sensível. Gemia lindamente a cada toque. Entregava-se docilmente a cada carícia. E acompanhava energeticamente cada movimento.
Pelo visto, não hoje.
Eros praticamente se sentou em cima dele.
— Diga-me agora o nome do meu cruel rival, que te rouba dos meus toques com sua simples lembrança, e eu o transformarei em uma peneira com minhas flechas imediatamente! — exigiu saber. — E, pelo amor de Zeus, pare com isso! — acrescentou, tirando as mãos dele da sua cabeça. — Não sou Floquinho.
Na noite anterior, depois da partida de Apolo, um Eros muito excitado e – talvez – levemente embriagado, pedira de um jeito quase irresistível que Dionísio passasse a noite ali, argumentando que podia compensarsua ausência e recente e entregar seu prêmio todos de uma vez. Baco, divertido, mas muito sóbrio, negou o convite, explicando que Floquinho não dormia na casa de estranhos de jeito nenhum. Eros resolveu aquilo fácil.
Foi para a casa dele.
Agora tinham acordado meio emaranhados um no outro. Como costumavam fazer.
Dionísio arregalou os olhos para ele, recolhendo as mãos quando percebeu que realmente o afagava como fazia com o felino.
— Desculpe. — pediu, fazendo um biquinho com a boca rubra.
— Eu estava com saudade de você. Podia me dar mais atenção! — piou Eros, magoado.
— Eu sei. Sinto muito... — disse, esfregando as mãozinhas no rosto. Os cabelos dele, excepcionalmente livres das vinhas, estavam num desalinho teatral, moldurando sua face corada contra os lençóis. E ele parecia ainda não ter acordado direito. — Estou distraído.
— Percebe-se... — resmungou Cupido, meio sibilante entre os dentes.
Dionísio chegou a se encolher no colchão, lançando lhe um olhar culpado de olhos imensos. Mordeu o pequeno e delicado lábio inferior, com um brilho suave destacando as íris esverdeadas, arrependido.
— Desculpe. — Eros pediu na hora. Era impossível ficar bravo com aquela coisa fofa. — Não gosto de ser rude com você, me desculpe.
— Você nunca é rude comigo. — ele disse baixinho. Deixando as costas da mão direita descansarem indolentemente na sua testa.
O Cupido passou uma perna por cima dele e deitou o corpo esbelto e desnudo ao seu lado, apoiando o cotovelo no colchão e a cabeça na mão.
— O que há com você? — perguntou caprichoso, numa voz arrastada e lenta. — Acaso não o agradei como devia ontem à noite?
Dionísio deu um sorriso preguiçoso e meio contundente, como se lidasse com uma criança manhosa.
— Você sempre agrada, Eros. Sabe disso. — e escorregou um pouco da cama, deitando a cabeça morena no braço delineado do outro — Só tive um sonho ruim.
Maldito Morfeu. O Amor pensou, aspirando o perfume do menino vagarosamente, e entremeando os dedos entre seus cachos escuros, numa carícia lenta demais para ser inocente.
— No que está pensando? — ele perguntou docilmente, enrolando uma melena castanha do cabelo dele no indicador.
— Em Apolo.
Eros deu um pulo tão surpreso que puxou a mexa entre seus dedos com força.
— Ai... — gemeu Dionísio, esfregado a raiz dos fios retesados.
— Você disse “Apolo”? — perguntou afobado, com um sorriso gigante. — Eu ouvi “Apolo”. Você disse “Apolo”!
— Disse. — confirmou confuso, ainda massageando o couro cabeludo — Por que isso tudo?
— Por nada não... — respondeu Eros, se fazendo de desentendido e tentando conter o sorriso comprometedor. — E desculpe por isso, foi sem querer. — pediu, depositando um beijo por sobre os fios que puxara — Agora, a cargo de curiosidade… por que exatamente você está pensando no nosso querido deus do sol?
— Sonhei com ele hoje. — o menino murmurou simplesmente.
— E não foi bom? — Eros perguntou, com um tom lascivo e esperançoso.
Dionísio franziu o narizinho, um bico se formando na sua boca vermelha.
— Não.
— Me conte.
O menino o fez.
— Tem razão... — Eros murmurou, recostando as costas cama púrpura e levando Dionísio junto – Podia ter sido melhor.
Baco se virou para o seu lado, deitando parte do corpo pequeno sobre o dele, apoiando o queixo liso no braço dobrado descansado no seu peito.
— Eu sei dos problemas que vocês tiveram no passado. — ele murmurou, deslizando o dedo indicador em círculos pequenos sobre a pele branca de Eros, distraidamente. — E fico muito feliz que estejam tentando se acertar. Ele é... legal... — disse, franzindo um pouco o cenho macio, como se suspeitasse não estar usando a palavra certa.
O Cupido sorriu sem mostrar os dentes.
— Sim, ele é “legal”. — disse, meio zombeteiro.
— Mas parece muito sozinho. — concluiu Dionísio, como numa sentença terrível.
O sorriso de Eros sumiu. Ele passou os dedos pelos próprios cabelos, como fazia quando ficava desconfortável ou nervoso. Pensou em discordar, mas não pode. Eros olhava para Apolo e tudo o que via eram camadas. Camadas grossas, altas, paralelas e numerosas. A maioria das pessoas ficava do seu lado de fora. Poucas conseguiam ver por detrás de algumas paredes. A mãe, Leto, era uma delas, assim como Artêmis. Embora provavelmente nenhuma delas enxergasse tão longe quanto Hermes.
Porém, no fim, lá no fundo da sua alma murada, no centro do seu ser vedado e oculto, coberto por seus segredos e preso por seus traumas...
Ele estava sozinho.
— Sim, ele é... — sussurrou por fim.
Dionísio ficou muito quieto, por quase um minuto. Uma marquinha mínima surgiu entre suas sobrancelhas escuras, denotando concentração. Então, de repente, sentou-se na cama com um pulo violento e berrou:
— EROS!
— AimeuZeusoque? — ele arquejou assustado, depois de se erguer num pulinho pouco digno.
Dionísio enterrou os olhos verde-escuros e muito abertos nele, agarrando seus ombros energeticamente.
— NÓS PRECISAMOS SER AMIGOS DELE! — gritou, sacodindo Eros como uma boneca de pano, freneticamente. Jogando os cabelos dele contra o rosto, uma força absolutamente discordante com o seu tamanho.
— O quê? — o Cupido perguntou bobamente, os olhos pretos arregalados por baixo dos fios claros.
— Nós precisamos ser amigos dele! — repetiu, seus dedos ainda entrando na pele dos ombros do Amor. — Precisamos ser amigos dele!
— Dísi, calma! — Eros pediu, colocando as mãos no peito liso e macio dele, depois de tirar as melenas da frente dos olhos. — O que você quer dizer com isso?
O menino arfava visivelmente, os pulmões se expandido e retraindo rapidamente por baixo dos seus dedos.
— Ele não devia viver assim! Ninguém devia! — exclamou, atropelando as letras, as íris verdes dançavam como bacantes bêbadas. — Ninguemdevianinguemdevianinguemdevia...
Eros olhou no fundo dos olhos dele, vendo ali o brilho perigoso de um desespero amortecido.
Uma angustia superada.
Uma loucura esquecida.
— Dísi... — chamou ele, preocupado, a voz mais grave e séria que o de costume.
— Ninguemdevianinguemdevianiguem...
— Dionísio! — exclamou, prendendo o rostinho dele nas mãos.
— Ninguemdevianinguemdevia...
— Dionísio, volte para mim!
— Ninguémdevia...
— Dísi, por favor, volte para mim! — gritou desesperado e deu um tapa no rosto dele.
O par enorme de globos verdes se fixou nele, a boca vermelha parou de balbuciar as mesmas palavras.
Rapidamente.
Freneticamente.
Insanamente.
O menino puxou ar para os pulmões, parecendo absolutamente assustado com sigo mesmo.
— Estou aqui. — sussurrou por fim, apertando Eros entre os dedos.
— Sim, você está aqui. Eu estou com você! — tranquilizou Cupido com um suspiro de alívio, sem se importar com as marcas roxas que despontariam nos seus ombros mais tarde. Afagou suavemente a bochecha em que batera, fazendo uma careta culpada para a vermelhidão escandalosa de surgiu ali. Dionísio não parecia sentir o toque, nem a dor.
Os dois ficaram assim por mais de um minuto, apenas segurando um ao outro. O menino deus foi amolecendo gradativamente, como um balão desinflado, largando por fim a cabeça no ombro do amigo e amante.
— Você me assustou... — murmurou Eros no ouvido dele, o coração ainda batendo forte.
— Me desculpe. — murmurou de volta, se aconchegando no seu colo. — Não sei o que aconteceu...
— Você se perdeu por instante. — disse, aninhando o pequeno nos braços. — De novo...
Baco fechou os olhos com força, escondendo seu medo por baixo das pálpebras e apertando a cintura de Eros entre os braços, de um jeito desesperado.
— Está tudo bem, não aconteceu nada. Eu estou aqui com você... — balbuciou Eros, dando um par de selinhos na bochecha corada dele.
— Você não estava... — ele acusou baixinho, como uma criança ferida. — Por quase dois anos você não estava. E eu fiquei sozinho! Tive tanto medo de machucar alguém... — puxou ar, soluçando. — Tive medo de perder a cabeça sem você aqui. E eu perdi! — exclamou, escondendo a face no pescoço dele. — Tiveram que me trancar em um quarto não usado. Eu o destruí completamente antes de perceber o que estava fazendo...
Eros segurou-se para não derreter de culpa ali mesmo, mas conseguiu prender as emoções na base da garganta. Já tinham conversado sobre isso.
— Sua sanidade não me pertence, meu amigo. Não deve depender de mim para sempre.
Baco suspirou.
— Eu sei... — disse, aspirando o cheio doce e picante do outro, como a um calmante. — Precisamos ser amigos dele. — acrescentou, de repente.
Eros olhou para ele aflito, como se temesse outra crise, mas o menino sustentou seu olhar com calma.
— Hera pode ter causado a minha insanidade. — disse ele, sereno e amortecido. — Mas, se não fosse ela, minha solidão o faria. — explicou — Apolo é meu irmão, não quero que passe por isso. Ele não vai mais passar por isso! — replicou, incisivo. — Nós precisamos ser amigos dele...
Eros alternou os olhos pretos pelo par de írises verde-musgo de Dionísio, calado. Não era tão simples para ele. Havia cicatrizes demais e justificativas de menos entre os dois.
— Você também sabe como é viver sozinho, Eros. — completou o deus do vinho, quase duramente.
O Amor suspirou vencido, com um sorriso suave curvando os cantos dos lábios rosados.
— Muito bem, muito bem. Polly acabou de ganhar dois amiguinhos. — disse num gracejo brincalhão. Dionísio fez uma cara tão feliz que ele não aguentou a apertou as bochechas dele. Porque tão fofinho?Perguntou, espremendo o rostinho bonito entre os dedos com carinho.
Ouviu-se um ruído seco e afobado na porta, como se unhas se arrastassem sobre a madeira.
— Que isso? — Eros perguntou, largando as bochechas do menino.
— Uma entrega. — respondeu simplesmente.
— Eu abro! — disse Cupido curioso, no que Baco aproveitou para deitar-se ociosamente na cama.
O Amor já tinha as mãos na porta quando se lembrou que permanecia completamente nu. Ele estava muito longe de ter problemas com a própria nudez – ou com a nudez alheia, ou com qualquer tipo de nudez... — mas não convinha à etiqueta receber as pessoas pelado.
Pena para elas.
Caçou pelo quarto a túnica lavanda que usara na noite anterior, para encontrar um pedaço de pano feito em farrapos miseráveis, embolado sem jeito no chão. Esticou a roupa rasgada na frente do rosto, tentando se lembrar de como aquilo acontecera.
— Você estava selvagem ontem, amorzinho. — concluiu dissimuladamente, lançando um sorriso ao menino moreno, ainda estirado e nu na cama púrpura. Dionísio ergueu uma sobrancelha castanha.
— Isso é uma reclamação? — perguntou, inclinando a cabeça para o lado.
— Longe disso. — riu, brincando com a túnica completamente destruída nas mãos. — Preciso de roupas.
Dionísio apontou preguiçosamente para o canto esquerdo do quarto.
— Vê aquele baú escuro debaixo do espelho? — perguntou.
— Sim.
— Ele é seu. — anunciou.
— Não diga! — Eros exclamou, se adiantando para a peça da mobília.
Quando ergueu a tampa, uma surpresa previsível: todas aquelas roupas eram suas. Finas, diáfanas e variando em tons suaves de vermelho, rosa e roxo. Dezenas delas, todas dobradas, ordenadas – e algumas inclusive remendadas — dentro do baú.
— Daria para abrir um negócio só com o que você larga aqui em casa. — disse Dionísio, rindo suavemente da cara chocada do amigo.
O Amor de virou para ele, um sorriso libertino na boca cheia.
— Isso é uma reclamação? — perguntou, apertando sensualmente os lábios rosados.
— Longe disso...
Eros meteu uma túnica magenta pela cabeça e correu para a porta. Quando abriu, outra surpresa.
Floquinho esperava pacientemente do outro lado da madeira talhada, trazendo uma cesta cheia segurada entre os dentes. Quando viu Eros no vão da porta, mesmo tendo a boca ocupada, fez absoluta questão de mostrar-lhe todas as presas compridas. Um rosnado baixo vibrando no fundo da garganta.
— Agora é sério! Você dá comida para esse bicho? — perguntou indignado, depois de andar uns bons cinco passos rápidos para trás.
— Floquinho, menos garoto... — pediu Dionísio, preguiçosamente. — Assim você assusta o tio Eros.
— “Tio Eros”? — perguntou incrédulo. — Tio? Eros?
— Prefere “Tio-avô-sobrinho Eros”? — Baco quis saber, sorrindo travessamente.
— Ai! — Cupido respondeu, colocando a mão no peito como se houvesse sido ferido.
Floquinho lançou lhe um olhar de completo desdém antes de caminhar elegantemente até o dono e entregar-lhe a cesta pesada. Quando Eros fez menção de voltar à cama, ele pulou no colchão e esparramou o corpo enorme pelos lençóis.
— Ciúme é um sinal de insegurança, sabia?! — resmungou para o felino, que bufou pelas narinas.
— Oh, ficaram prontos. — disse Dionísio, analisando o conteúdo da cesta nas mãos.
— Isso são cartas? — perguntou Eros, chegando mais perto lentamente, sem tirar os olhos do leopardo, que ainda o fitava como se a ideia de arrancar-lhe um pedaço de carne parecesse extremamente divertida.
— Convites. — explicou, estendendo um envelope roxo para ele.
Os humanos ainda se utilizavam de blocos de argila e pergaminhos de pele para gravarem suas letras, mas os deuses conheciam o papel.
— Centenário... — Eros murmurou confuso, lendo os caracteres do convite. Então seus olhos se arregalaram. – Centenário! Ah, meu Zeus! — gritou, fitando o amigo. — Já faz isso tudo?
— Semana que vem. — respondeu com simplicidade.
— Oh... — murmurou, sentando-se corajosamente perto de Dionísio e confiando que o pequeno corpo dele serviria uma barreira para o felino raivoso. — Cem anos que você chegou ao Olimpo... Nem acredito.
O deus do vinho apenas sorriu, guardando o convite de volta na cesta.
— Quem você vai convidar? — quis saber Eros, animado.
— Todo mundo. — respondeu, rindo.
O sorriso de Eros de desfez.
— Quase todo mundo! — corrigiu Baco na hora, entendendo o receio do amigo. — Convidei seu pai. Os gêmeos não. — explicou convictamente. — Os gêmeos nunca!
Eros ergueu os olhos para ele, num alívio agradecido. Então, uma ideia lhe surgiu na cabeça.
— Dísi... — chamou o menino. — Esse “quase todo mundo” inclui... Apolo? — perguntou morosamente.
— Sim. — ele disse simplesmente, estudando distraído os detalhes dos convites.
— Hum... — Eros murmurou, abrindo um sorriso lento. E pegou a cesta no colo. — Sabe o que eu acho...?
— O quê?
Cupido pescou do amontoado de papeis arroxeados, que cheiravam suavemente a uva, um envelope especial.
— Que você devia entregar esse pessoalmente. — concluiu, entregando-lhe o envelope com nome do deus do sol.
O menino pegou a missiva entre as mãos, com uma interrogação estampada na face corada e macia.
— Por quê?
Eros deu ombros dramaticamente, os cantos da boca dissimuladamente curvados.
— Se quer mesmo ser amigo dele, é um bom começo, não? — disse, fingindo irrelevância.
Dionísio fitou o retângulo roxo nas mãos, apertando pensativamente a boca cheinha. E então assentiu para si mesmo, decidido.
— Farei isso.
Eros apenas sorriu.
***
— Meu senhor — Aurora chamou.
Apolo amassou raivosamente a décima quinta folha de papel e jogou longe.
— Sim?
Havia decidido passar o dia todo em casa, mandando Hermes avisar a Hélio que teria que cumprir as funções de deus do sol sozinho hoje. Pensou que poderia escrever um pouco, utilizar sua própria melancolia para algo minimamente útil. Ilusão sua. Não lhe saíra um único verso decente aquele dia.
— O senhor seu irmão está na porta. — disse a ninfa dourada.
— Ah, não é possível... — resmungou para si mesmo. Não acredito que Hermes já voltou. Ele definitivamente não pretende me deixar em paz hoje!
— Devo dispensá-lo? — ela perguntou.
— Não. — respondeu, coçando o alto do nariz, e pegou outra folha limpa de uma coluna alta. Mas só de olhar para ela, teve vontade de ser mortal e morrer. — Espere. — disse para a mulher, que já saía pela porta — Deixe estar, eu mesmo vou recebê-lo.
Levantou-se rigidamente e dirigiu-se a entrada do seu palácio dourado, aborrecido e irritado. Já começou a abrir a porta dizendo:
— Mas, em nome de todos os deuses, o que você quer? Já não aguento mais olhar para sua...
E parou quando deu de cara com Dionísio.
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