Bacanal

20 Para me lembrar - Parte 1


Notas iniciais
Alerta do autor: caros leitores, atenção! O texto a seguir não é recomendado para diabéticos; portadores de resistência a insulina, síndrome metabólica, problemas de glicemia, intolerantes a carboidratos doces; e pessoas com dietas restritivas de açúcar. Cuidado, pode matar... Ou faze-los babar colorido por alguns dias. Avisado com amor ♥ Boa leitura...

Parte 1: Como somos violentos

— Só me diga que ainda estará aqui quando eu acordar (...).

— Eu estarei aqui até que o tempo parece não existir mais.

— Edie Nemesis, “O Príncipe dos Dragões”

Apolo já havia acordado de muitas maneiras nos seus mais de novecentos anos de vida. Já acordara sufocando. Já acordara chorando. Já acordara sozinho. Nem tudo em sua existência havia sido obrigatoriamente trágico e dolorido, e ele também já tinha acordado sendo beijado. Abraçado. Agradado. Aprazido.

Mas nunca, jamais, havia acordado sendo lambido.

O deus do sol abriu os olhos, arregalando as pálpebras em torno das íris azuis, tirado do mundo de Hipnos num rompante inesperado ao sentir uma língua larga e incrivelmente áspera esfoliando a pele da sua bochecha direita, num movimento lento e molhado. Virando-se assustado para aquele lado da cama, esperando ele não sabia o que, quando caiu dentro de um par de pupilas fendidas e orbes cinza-azulados.

— Floquinho? — o deus exclamou surpreso, vendo o felino piscar para ele de pé ao lado da cama.

Aquilo deve ter parecido um incentivo irresistível, pois o leopardo pôs-se a lamber seu rosto inteiro.

— Ah, não... não, não... garoto, calma... – Apolo pediu, saindo daquele carinho molhado ao sentar-se na cama, limpando a face com as mãos.

Floquinho estava tão ridiculamente feliz que parecia um cachorrinho, balançando a cauda listrada e quase dando voltas em si mesmo. Por fim, ergueu-se brevemente sobre as patas traseiras, colocando a parte de cima do corpo forte e peludo na cama, deitando a cabeça atrevidamente no colo coberto de lençóis do deus do sol.

Apolo ergueu as sobrancelhas, muito surpreso, mas inexplicavelmente feliz. Acarinhando os pelos escuros atrás das orelhas do felino sem hesitação, fazendo-o ronronar em cima dele.

— Bom dia, Floquinho... – ele murmurou para o leopardo, que tinha os olhos fechados no seu colo, agora bamboleando o rabo comprido lenta e preguiçosamente – De onde você veio, garoto? — Apolo perguntou, ao lançar um olhar rápido para a porta do quarto e notá-la ainda fechada, corando levemente ao considerar a hipótese do animal ter estado ali o tempo todo. Afinal, tinha de assumir para si mesmo: na noite anterior, as moiras poderiam ter dançado nuas em volta da cama madrugada a fora que ele nunca teria percebido.

A resposta do leopardo foi levantar a cabeça de rompante e lamber os dedos que lhe faziam carinho, depois voltar todo o corpo para o chão. Apolo o acompanhou com os olhos enquanto o felino dava a volta animadamente na cama, dessa vez subindo parcialmente no lado esquerdo, onde Dionísio ainda dormia.

Apolo deixou seus olhos descansarem no menino.

Ele repousava da mesma maneira doce e silenciosa que no Palácio da Luz. Uma mão sob a bochecha. O polegar pequeno contra o lábio inferior. Os lençóis, agora purpúreos, enrolados em volta dos quadris. A respiração morna vagueando muda pela boca entreaberta.

Apolo sorriu sem nem perceber. Entremeando os dedos longos nos cachos meio desfeitos e desalinhando do menino, num carinho lento e muito suave. Delicado demais para despertá-lo. Apenas sentir a maciez dos seus cabelos entre os dígitos lhe trazia uma felicidade pura e irracional demais para medir com suas belas palavras.

Ouviu Floquinho fungando. Ergueu os orbes para vê-lo com a cabeça apoiada sobre as duas patas no colchão. Os olhos cinzentos enormes brilhando de expectativa. As pupilas dilatadas e a cauda movendo-se ansiosamente.

— O quê? — ele perguntou para o felino, como se esperasse uma resposta verbal e completa. Quase rindo de si mesmo por isso.

Mas Floquinho, obviamente, não disse nada. Apenas lambeu deliberadamente os próprios bigodes, voltando o olhar para Dionísio.

Apolo ergueu uma sobrancelha para aquilo, um sorriso indolente e travesso se abrindo no meio dos seus lábios esculpidos. Deixando escapar uma risada ligeira, o deus do sol inclinou-se sobre o pequeno deus do vinho, sentindo o perfume natural tão delicioso na sua pele, e num rompante de traquinagem quase infantil, simplesmente lambeu a bochecha exposta e corada do menino.

Dionísio acordou como ele. Os olhos arregalados de surpresa, saindo da terra dos sonhos de uma vez. Desperto como um gato assustado.

Baco piscou os orbes algumas vezes, batendo os cílios escuros e espessos como asas de borboleta. Suas íris de um verde profundo viram Floquinho primeiro, ainda apoiado animadamente na cama. Mas um calor ameno e inenarravelmente agradável atraiu seus olhos para o outro lado. Vindo a contemplar a figura do deus do sol, ainda totalmente despido, sentado pacificamente ao seu lado, um sorriso deveras suspeito nos lábios morenos. Parecendo uma criança pequena e levada, e não um jovem adulto nos seus vinte e poucos anos, como seus traços indicavam. Muito menos um deus com nove séculos de vida.

Dionísio oscilou os olhos pelos dois seres aos seus lados, ponderando algo seriamente.

— Muito bem, quem foi? — o pequeno questionou, a voz doce e delicada meio embargada pelo sono interrompido. Uma sobrancelha castanha levantada em desafio. Os lábios rubros e cheinhos apertados num biquinho caprichoso.

Apolo olhou para Floquinho, que o encarou de volta, com um piscar de pálpebras, rápido e cúmplice. No que então o Sol ergueu as mãos num gesto de desentendido.

— Não temos a mínima ideia do que você está falando... – ele respondeu, inocentemente. Ainda com aquele sorriso largo e irresistível.

— Hm... – Dionísio resmungou, esfregando os olhinhos. Parecendo mais que nunca ter os poucos quatorze ou quinze anos que a sua aparência sugeria. Fazendo o outro querer rir da sua expressão enfezada de adolescente despertado pela manhã. Até porque, já passava do começo da tarde.

Baco deu um bocejo tão longo e espontâneo que Apolo poderia ter lhe contados todos os dentes. Sentando-se lentamente na cama, coçando os próprios cachos escuros.

Dormir era tão maravilhoso, ele pensou, ainda piscando sonolento. Era tão maravilhoso e raro para ele. Poderia contar nos dedos as vezes que dormira tranquilamente na sua vida, sem pesadelos ou ruídos que o despertassem pela madrugada. Mas aquela havia sido uma delas. Uma das melhores por sinal. Seu corpo parecia leve e descansado. A cabeça serena e estranhamente limpa. A luz que escapava pelas cortinas pesadas do seu quarto sugeria já ter passado do meio dia, o que o fez erguer as sobrancelhas castanhas. Nunca tinha dormido tanto assim. Há não ser naquela vez, quando passara a noite com Apolo. Em que ele o tinha esvaziado dos barulhos. E o deixado calmo, dócil e pacífico o suficiente para...

Espera.

Apolo quase caiu de costas no colchão quando, sem nenhuma explicação, Dionísio se atirou em cima dele.

Dedos pequenos e afobados passearam pelos traços do seu rosto, medindo todos os ângulos, quinas e curvas da na sua face. Dígitos mornos se entremearam por seus cabelos dourados e lisos. O menino chegou a farejá-lo. Esfregando o nariz pequeno e arrebitado, com uma pontinha triangular que mais fazia lembrar um focinho, na pele do seu pescoço.

— É você mesmo... – o deus do vinho murmurou por fim, descendo as palmas distraidamente pelo seu peito bronzeado.

Ele tinha sonhado com aquilo tantas vezes. Tantas infinitas vezes nas parcas horas em que sua mente conseguia se apagar o suficiente para se aproximar do era dormir. Seria preferível passar toda aquela semana em claro. Uma insônia prolongada seria desgastante, mas não o mataria. No entanto, ele se esforçava para dormir. Mesmo sabendo que os ruídos e as lembranças antigas o despertariam depois. Apenas para ver aquela imagem na sua cabeça. O belo deus do sol na sua cama, sorrindo tranquilamente. Estando ali quando ele acordasse.

Mas ele estava ali agora. De verdade. Emanando aquele cheiro de própolis e canela. Esquentando seus lençóis com aquela pele quente, dourada e desnuda. A boca esculpida curvada num resto de sorriso. Os olhos cor de céu no verão abertos de surpresa. Os fios de ouro dos seus cabelos sem ordem pela face. E os lábios de Dionísio se encheram do seu gosto cálido quando o submergiu num beijo desesperado, enlaçando os braços macios em torno dele com força. Como se pudesse desaparecer entre os seus dedos.

Não desapareceu.

Quando o menino enfim chamou por ar, tirando os lábios famintos dos seus, Apolo desceu as mãos pela face dele, acomodando seu rosto macio e corado entre os dedos.

— Sou eu mesmo. Estou aqui – ele disse, tão melodioso que pareceu uma canção – Eu sempre vou estar aqui...

Por um momento, o pequeno não disse nada. Apenas encarou o irmão, afogando-o naquela maré escura, profunda e esverdeada.

— O que aconteceu?... – ele murmurou baixinho, vagando com as íris entre os seus olhos azuis, embora soasse aéreo e distraído, como se perguntasse a si mesmo. O que de fato estava fazendo, vendo recortes de memória recente dançado dentro a frente das suas retinas.

Ah, sim... os gigantes...

Dionísio lembrava-se deles. Do cheiro putrefato e ácido pinicando seu nariz. Da pele borrachuda e dura entre seus dentes. Do sangue negro com gosto de óleo na sua língua. Oh, sim, o Monstro dentro dele se lembrava vivamente. Da sensação da carne amarga sendo rasgada pelas suas presas. Da dor fina e atroz da cauda fraturada, esmagada sobre seus pés – lembrança que fez o menino rosnar baixinho, erguendo as sobrancelhas do irmão. Mesmo que com sua excelente regeneração, os ossos já estivessem praticamente perfeitos quando votou a sua forma pequena.

Então houvera dança. Vinho.

E nada.

Havia um buraco ali. Escuro, borrado e confuso. Como se tivesse perdido os sentidos. No final desse breu, eles já estavam na cama.

— Ah, não... – Dionísio arquejou, uma expressão horrorizada moldando seus traços pequenos. Os olhos abertos e os lábios partidos, cobertos pelas mãos.

Pela primeira vez desde que o vira, o deus do vinho pareceu pálido ao deus do sol. Seus orbes verdes estavam arregalados ao limite e ele pareceu esquecer ao certo como se respirava, ofegando em intervalos curtos. Porque aquele escuro difuso e zonzo era dolorosamente familiar. Sua cabeça estava cheia deles.

— Eu p-perdi a razão, nã-não foi? – ele murmurou, encolhendo-se nos seus braços, falando entre arquejos – Oh, deuses, o salão estava lotado. Estavam todos aqui – o menino se lembrou, tremendo visivelmente. Os olhos gigantes marejados nos cantos – Eu machuquei alguém? Por favor, me diga que não... – suplicou, erguendo as íris escuras. Apertando-o desesperadamente entre os dedos – Diga que destruí o palácio inteiro, mas não machuquei ninguém, por favor... — e foi largando o corpo diminuto e macio contra o dele, soluços esparsos sacodindo vez ou outra o tronco nu. Até ter escondido o rosto no seu peito.

— Ei, tudo bem. Tudo bem... – Apolo sussurrou, aninhando-o nos braços. Pronto a tranquiliza-lo – Não aconteceu nada de...

— AH, MEU ZEUS! – Dionísio gritou de repente, afastando o rosto dele. Só agora havia notado os vergões feitos à unha, talhando toda a pele bronzeada e luminosa do peito do deus do sol. Uma tela inteira de arranhões feios e profundos, fazendo parecer que ele havia lutado com um lince. O que, no fim, não fugia ao todo da realidade – Ah, não...não...não – ele negou com a cabeça histericamente. Vendo ainda uma nódoa arroxeada pouco abaixo do seu esterno, numa semelhança terrível ao tamanho e formato da sua mão – Eu machuquei... v-você? — ele gaguejou, o rosto montado no puro pavor. Os lábios vermelhos tremendo – Oh pai, não seja verdade... – ele implorou a Zeus, apertando os próprios cachos entre os dedos, quase arrancando as melenas castanhas, os antebraços cobrindo os ouvidos, numa defesa irracional e instintiva contra a realidade – Não você... não você...

— Dionísio... – Apolo chamou, afagando delicadamente na pele macia e branca dos seus braços. Sem sucesso. Apenas vendo o pequeno se sacodindo de um lado para outro, ainda negando com todo o corpo, puxando os cabelos punitivamente – Dionísio, por favor, me escute — Mas aquela afabilidade de nada adiantou, e o deus do vinho continuou murmurando negativas e rezas alucinadas, o corpo pequeno tremendo violentamente — Dionísio, olhe para mim! – Apolo não pediu dessa vez, ele exigiu. Tirando os braços do menino do caminho dos seus ouvidos e erguendo o rosto dele para si, segurando-o firmemente pelo queixo liso.

Dionísio estava chorando. Não daquela maneira controlada e enfurecida como no dia anterior. Ele parecia apavorado. Os seus dentinhos estavam batendo um no outro e ele soluçava sem parar. As lágrimas cálidas escorregando livremente pelas bochechas coradas, molhando seus lábios. E tudo no seu corpo sacodia e se apertava, tentando parecer ainda menor do que já era.

Porque ele estava apavorado. Não conseguia imaginar ter feito algo pior do que o que fizera. Saber que ele o tinha visto daquele jeito já permeava os seus piores pesadelos. Não apenas o assistira se tornar aquele monstro sanguinário, rasgando o gigante em tiras sangrentas, como também o vira completamente louco. E o pequeno não fazia a menor ideia de porque ele ainda estava ali. Calmo e plácido sobre a sua cama. Devia achá-lo horrível! Bárbaro. Insano. Bizarro...

Ele era tão perfeito. Tão belo, ordenado e equilibrado. Tão sério, seguro e são. Tudo em Apolo lembrava-lhe luz, calma, poder. Poder sobre si mesmo. Sobre o que fazia e o que pensava. Sobre suas palavras poéticas e notas melódicas. Tudo nele era refletido, racional e controlado. Como se tivesse sido montado, moldado e esculpido a perfeição. Perto dele, Dionísio se achava uma desolação. Uma bagunça irrefletida e negligente. Um perigo legítimo e lamentável. Ele se sentia um erro da natureza. Um acidente teatral e violento. Um defeito selvagem e inculto. O mais puro e completo caos.

Era barulhento. Era espontâneo. Era instável e inconstante. Era confuso e incompleto, cheio de buracos da memória. Era carente e raivoso, cheio de mortes na consciência. Era frequentemente e irreversivelmente insano.

Até aí, ele poderia se perdoar. Por ser quebrado e estranho. Por colocar medo em quem o visse mais de perto. O medo já o tinha ajudado. Já o salvara muitas vezes. Não cobraria dos outros afeto por si. Por aquela criatura assustadora e mortífera que ele poderia ser tornar. Pelo ser descontrolado e lunático que vivia dentro dele. Ele era assim, nunca soubera como não ser. E não se culpava por isso.

Mas, machucar Apolo, ferir quem amava tanto... Ele sabia o que era, afinal. Como o próprio Apolo não sabia. Sabia que era forte. Que era imprevisível e perigoso. Que, as vezes, não tinha controle sobre si. E, mesmo assim, ainda o deixara tão perto... Ainda lamentara egoisticamente quando ele se afastou. Ainda insistiu em colocá-lo em risco. Onde estava com a cabeça, por Zeus! Não importava porque, isso não tinha perdão.

— Me desculpa... – ele suplicou mesmo assim, entre o aconchego quente dos seus dedos, as lágrimas ainda molhando sem pausa sua bela e delicada face – Eu não sei o que faço quando fico assim! Sequer me lembro de nada! Eu não queria te machucar. Não queria! Me desculpa... – chorou, fechando os olhos, deixando mais um riacho salgado escorregar pelas bochechas e dígitos do outro. Esperando o momento em que ele fosse acusá-lo. Olhá-lo com estranheza e aversão. E abandoná-lo pela segunda vez.

— Olhe para mim, Dionísio – Apolo ordenou, fazendo a voz grave estalar como um chicote, apertando os dedos na sua pele. Abrindo os olhos dele na mesma hora – Existe uma, e apenas uma, pessoa que deve desculpas nessa cama – ele disse, duramente, queimando-o com suas incendiárias írises azuis – Essa pessoa sou eu – decretou – E fim.

— Mas...

— E fim! – ele repediu, mais alto e incisivo. Fazendo o menino entre os seus dedos engolir a seco – Você não machucou ninguém – disse ainda, sem soltar seu maxilar dos dígitos – Não de verdade. Eros levou um tombo bobo, aquela sua bacante que chora vai ficar com dor de cabeça, e isso... – ele agarrou o pulso do pequeno com a destra livre, espalmando sua mão infante contra a nódoa escura no meio maltratado do seu peito. Os dedos dele tremeram – Foi você, sim. Mas não quando se perdeu por um instante. Foi antes, no momento em que tentei traze-lo para dentro e você me afastou – um sorriso mínimo abriu-se em um dos cantos dos lábios morenos do deus do sol – Isso, você fez lúcido e consciente. E fez muito bem – acrescentou ainda, o sorriso agora começando a mostrar os seus dentes – Eu achava que sabia quem você era. Quando tudo não passava de uma quimera1 frágil e muito longe da realidade – e com os dedos que seguravam seu rosto, Apolo desenhou um carinho suave e lento pela sua bochecha – Fez muito bem em mostrar como eu estava errado.

Baco permaneceu estático. Olhando-o sem piscar dentro dos cílios densos e molhados. Um caminho brilhante marcando-o da linha d’agua até o fim do queixo delicado, como a um guepardo. Mas as lágrimas não desciam mais. O peito não magoava-se com soluços. E a respiração ia e vinha calma entre os lábios.

— Mas... – ele murmurou ainda, embora a lembrança de tudo aquilo que o outro narrara houvesse voltado a sua memória – E isso? — perguntou baixinho, quase deslizando as digitais pelas linhas vermelho escuras talhadas na pele dele, rabiscadas sobre o volume dos seus músculos; sem coragem real para fazê-lo.

— Ah, isso? — o Sol murmurou de volta, aproximando os dedos dele de si, deixando-o tocar na obra das próprias unhas. Uma seriedade languida e pouco pudica substituindo a repreensão concreta e inquestionável de antes – Isso você fez quando já estávamos aqui – contou ele, indicando a cama desordenada e usada em volta deles – Acho que queria algo de mim... – acrescentou ainda, mordendo rapidamente os cantos da própria boca, antes de deixa-los de curvarem num sorriso – Não se preocupe – ele murmurou, deslizado o polegar pelo ombro esquerdo de Dionísio, até o começo do seu pescoço esguio – Eu descontei...

Só então o deus do vinho notou todo um caminho de círculos violeta, vagueando por toda a pele clara do seu peito, ombros e, ele tinha certeza, da garganta. Gêmeos deles coloravam a sua barriga, marcas perfeitas sobre ambos os quadris, mas em vez de dentes pareciam-se com dedos. E as suas coxas estavam listradas de arranhões leves, mas compridos. Uma dorzinha muito específica se fez notar entre as suas pernas, onde ainda estava úmido da semente do outro.

— Eu me lembro agora... – Baco murmurou, mais calmo. Sentindo o irmão limpar cuidadosamente os restos de choro nas suas bochechas – Mas, eu... exagerei... – insistiu, fazendo um a careta doída para os vergões altos sobre o tórax forte do outro, deslizando os dedos por eles o mais leve e delicado que pode, não querendo faze-los arderem.

Apolo quase riu daquele zelo inocente, pegando novamente a mão dele e pressionando-a contra a sua pele quente.

— Eu tenho controle sobre a dor, pequeno... – ele disse, sorrindo tranquilamente – não estou sentindo nada.

O menino arquejou, antes de largar um suspiro de alívio, ao constatar aquela verdade. Apolo era o deus da medicina. Tinha poder sobre enfermidades, traumas e ferimentos. Mais que hábil de revogar a dor sobre os outros e sobre si. Capaz de curar por excelência.

Fato que fez Dionísio inclinar a cabeça para a esquerda, deixando Apolo com a certeza de que estava prestes a ouvir uma indagação.

— Por que não se curou? — o pequeno perguntou, confirmando as deduções do deus do sol, agora delineando sem medo os arranhões na sua pele.

Apolo desceu os olhos sobre o próprio peito, estudando aquelas marcas por algum tempo, até dar de ombros levemente.

— Eu não sei ao certo – confessou, apreciando o toque suave dos seus dedos macios – Penso que... – começou, hesitando ligeiramente, piscando demorado para aquele carinho lento – Foi você quem as fez, e eu... as queria para mim – murmurou, os olhos quase se fechando – Para me lembrar...

Dionísio parou o afago terno dos seus dedos, fazendo o deus do sol tornar a abrir os olhos azuis.

— Você entende... – o menino disse, surpreso. Acomodando-se melhor, saindo de cima dos joelhos e passando as pernas sobre as dele. Olhando-o com um novo e fascinado interesse – Mas, se pensa assim... se, pensa como eu... – articulou, tombando a cabeça morena para o outro lado dessa vez – Por que as tirou de mim? — perguntou, franzindo um pouco as sobrancelhas castanhas – Por que tirou as marcas que me fez da primeira vez?

Foi a ocasião certa para o deus do sol parecer pálido ao outro. Ele engoliu a seco meia dúzia de vezes e esqueceu momentaneamente como se piscava. Deixando as íris azuladas nele por um momento longo e inquietante.

— Eu... – Apolo começou, apertando os lábios nervosamente. Repreendendo-se por não conseguir ser menos egocêntrico nem para se explicar. Largando um suspiro longo entre os lábios – Quando estávamos juntos – ele corrigiu, ordenando as sílabas lentamente, acariciando um dos joelhos dele sobre a sua perna direita, distraído – Foi diferente de qualquer coisa que eu já tivesse sentido. Foi a primeira vez que não racionalizei o que estava fazendo. Não fiquei preso dentro da minha cabeça. Eu vivi tudo. Eu senti tudo. E mesmo assim, não tinha muita consciência do que estava fazendo. Descobri uma parte minha que não tinha a mínima ideia que existia. Tudo foi tão... novo – ele fez uma pausa, descendo os olhos até o lençol da cama – Quando eu acordei e o vi... daquele jeito – ele apertou as pálpebras por um momento, apertando também os dedos em volta do seu joelho delicado sem ver – Havia tantos hematomas. Nódoas, mordidas, arranhões. Eu até o tinha queimado outra vez. E havia... sangue – Apolo abriu os olhos, deslizando os orbes até o rosto dele, tocando a sua face suavemente com as falanges dos dedos – Eu nunca tinha deixado ninguém assim. E não fazia ideia do quando você é forte. Eu pensei... – suspirou – Pensei que tinha machucado você. Que o tinha ferido de verdade. Eu me odiei mais do que a qualquer coisa na minha vida. E achei que, se visse aquilo, me odiaria também... – um sorriso triste desenhou-se nos seus lábios, enquanto tirava os dedos dele – Foi estupidez, eu sei. Mas...

— Não foi – Dionísio o interrompeu, trazendo a mão dele de volta para aquele carinho no seu rosto, fechando os olhos para o calor ameno da sua pele – Eu entendo – ele disse, abrindo as pálpebras – Você sentiu o que eu senti há minutos atrás, quando achei que tinha perdido o controle e te machucado. Foi... horrível – murmurou, estremecendo levemente – Foi uma das piores coisas que já senti. Achar que tinha feito mal a alguém que eu amo... – disse, muito naturalmente, fazendo Apolo sentir que seu coração tinha se derretido como magma – Só conseguia pensar em que criatura terrível eu era. Que o tinha deixado em perigo por negligencia. Que precisava...

— Me afastar? — Apolo perguntou, de repente.

Dionísio apenas assentiu, concordando com a cabeça, inocentemente. Mas Apolo continuou encarando-o. Algo profundo e denso nas suas íris celestes. Como se esperasse dele alguma coisa importante.

Baco cobriu a boca rubra com as mãos, arquejando audivelmente, quando o entendimento lhe caiu como uma pedra.

— Então foi por isso que...

— Sim – Apolo adiantou, ainda com aquele sorriso melancólico.

Foi por isso que ele o mandara embora, daquele modo que lhe parecera tão cruel e, por bem ou mal, muito eficiente. Para protegê-lo. Para mantê-lo a salvo. Fazia sentido... Dionísio não teria entendido isso antes, mas compreendia agora. Aquele zelo instintivo era mais forte do que a razão em si.

— Eu quero você, Dionísio – o deus do sol declarou, de rompante – Eu quero você por inteiro. Quero aquele monstro assustador. Quero aquele lunático descontrolado. Quero o menino dançou que para mim a noite toda, que roubou meu beijo mesmo sabendo que poderia queimá-lo, que guardou as minhas roupas, mesmo me odiando um pouco... – ele disse sorrindo, notando o chiton azul-bebê que o pequeno se recusara a descartar, embolado num canto da cama – Quero o deus que retalhou um gigante sozinho. Quero o garoto doce que me obedece quando mando. Quero menino selvagem que me bate quando erro. Quero o gato que me arranha... – murmurou, rouco e grave, descendo os dedos pelos talhes no seu peito – Quero sua pele corada. Seus cachos macios. Sua boca vermelha. Quero o seu gosto. Seu cheiro. Seu aperto... – ele não estava tocando no deus do vinho, apenas o fitava. Mas aquele olhar azulado era tão intenso que o pequeno o sentia na sua pele – Era mentira – o Sol confessou – Quando eu disse que já tivera tudo o que queria de você, era mentira. A mais catastroficamente falaz e ridícula que eu já contei. Não eu estou nem perto de começar a ter o que eu queria. Porque eu quero você, Dionísio – repetiu – Eu quero você por inteiro...

Dionísio não fazia nem a menor ideia do que dizer. O menino tinha muitos talentos inatos, mas ordenar as palavras com aquela beleza não era um deles. Por fim, fez o que sempre fazia: redeu-se aos seus instintos. E enlaçou Apolo no aperto dos seus braços. Tentando passar um pouquinho do sentia por ele pela pele. Pelo cheiro. Pela força levemente desmedida com que o apertou. Pelo toque molhado e cálido dos seus lábios nos selinhos loucos que desenhou nele, sem sair do calor abrasivo do seu abraço. Um pouco disso apenas para reafirmar a presença dele ali. Ter certeza de que não estava devaneando ou sonhando ainda.

Não custava garantir.

— Eu sabia... – ele murmurou, derretendo-se dentro dos braços musculosos e quentes que o rodearam sem mais, abafado pelo aperto morno do seu peito. E Apolo inclinou-se levemente para trás, afim de enxergá-lo melhor – Eu sabia que era mentira – Dionísio explicou, com um sorriso suave – Eu sabia... aqui – ele disse, colocando uma mão sobre o próprio peito, preferindo os gestos as palavras que não sabia como articular – Mas, doeu mesmo assim... – confessou, deitando de volta o rosto na curva do seu pescoço.

— Eu sei... – ouviu Apolo dizer, desenhando a linha da sua coluna exposta com as falanges dos dedos, devagar – Eu quis te proteger, e o fiz te machucando de verdade. Que tolo sou eu... – murmurou, um suspiro escapando pelos lábios – Acha que pode me perdoar um dia, pequeno?

Dionísio saiu do seu abraço, segurando-se em seus ombros largos, ficando bem visível a sua frente, para que pudesse vê-lo com clareza ao assentir repetidamente, com uma seriedade infantil. Os olhos verdes decididos, bem abertos. E Apolo apenas sorriu. Até ver as írises dele escorregarem pelo seu peito outra vez, a determinação trocada pela dúvida e pela culpa.

— Que foi, meu amor? — o Sol perguntou, nem atentando para o quão fácil e macio aquele vocábulo deslizou entre os seus lábios.

— Você não me acha... assustador? — o pequeno murmurou, ainda fitando os talhes que fizera na sua cútis dourada. Expondo o temor que o assombrara desde transformou-se ao alcance da sua vista, o que tinha provocado aquele olhar de tristeza terrível que lhe deu – Não tem medo de mim?

— Ah, eu tenho... – Apolo respondeu imediatamente, fazendo os olhos dele subirem de rompante, encontrando aquele par de íris graves e incandescentes – Você é assustador, Dionísio – ele afirmou simplesmente – É uma das criaturas mais perigosas, imprevisíveis e lunáticas que já conheci – apontou ainda, e seu tom era deliberado e sério, deixando claro que não estava zombando em suas palavras, que fizeram dos olhos de Dionísio quase maiores que o seu rosto. Quando a fileira inferior das espessas pestanas do menino ameaçou pesar com uma dúzia de lágrimas de desespero, Apolo decidiu, enfim, deixar de ser tão cruel – Eu amo isso... – o deus dourado murmurou, mostrando o alinhamento branco e perfeito dos seus dentes num sorriso largo e lento. Caçando suas mãos pequenas pela cama, enlaçando os dedos em uma, e levando a outra a um toque cálido dos seus lábios – Quando você fica louco... – sussurrou, contra a pele clara e macia da sua mão, soando abafado e enrouquecido — ...ainda que só um pouco... – continuou, piscando muito devagar – Eu sinto... aqui – ele disse, imitando sua linguagem por gestos, mas levando a destra beijada até depois do seu abdome. No baixo-ventre, pouco antes do sexo em si, deixando-o ver como a pele ali queimava ao contato dos seus dedos.

Dionísio permaneceu calado, os olhos pregados nos próprios dígitos. As íris já escuras sendo sombreadas pelo princípio do desejo. Queria tanto tocá-lo mais. Escorregar seus dedos mais para baixo. Dar-lhe prazer imediato. E ouvi-lo gemer seu nome outra vez. Dionísio. Dionísio. Dionísio. Era tão bonito na voz dele. Não importava quão sério ou zangado ele falasse, sempre parecia que estava cantando. Tão melódico, harmônico e agradável era o seu timbre. Podia ouvi-lo para sempre, sem ao menos responder. Só tento aquela música grave e gostosa nos seus ouvidos. Os lábios esculpidos falando contra a sua pele.

Ah, a pele...

Que estrago fizera na pele dele. Não conseguia parar de encarar aqueles talhes fundos. Contando-os um por um. Quase enxergando constelações na conexão das linhas. Aparentando que alguém tentara depredar uma escultura de ouro maciço. Estragar uma estátua linda e preciosa. Era isso que tinha feito? Apolo tinha razão, ele era perigoso. Não se recordava de quase nada dos anos que passou como escravo dos mortais, mas lembrava-se de despertar coberto de sangue. Acontecera mais de uma vez. Sangue vermelho, com gosto de ferro na língua. Restos de roupa e corpo pelo lugar. E ele sabia que havia dilacerado alguém. Podia ser um dos seus donos sádicos. Podia ser um servo desavisado. Uma senhora inocente. Uma criança perdida.

Podia ser qualquer pessoa.

Ele nunca sabia. Nunca lembrava. Eros dizia que ele contava essas coisas quando as crises chegavam, e o seu inconsciente o dominava. Mas deixara claro ao amigo que não queria saber do que se tratava. Aquelas memórias não lhe interessavam. Não havia nada além de dor, morte e loucura ali.

Porque um pedaço de mim é apenas isso... Dionísio pensou, suspirando a contra gosto. Se Apolo era uma escultura de ouro; ele era um vaso de barro, grosseiro e trincado. Ele era simples e rachado, e sempre seria. Uma coisa defeituosa e afiada. Muito afiada. Talvez fosse melhor se...

— Não – Apolo pareceu responder-lhe de repente, embora ele sequer houvesse movido os lábios. As palavras graves num tom repreendedor que já estava tornando-se conhecido.

— O... que? — Dionísio perguntou, batendo os cílios.

— Eu sei o que você está pensando – ele declarou, convicto. Fitando-o seriamente por detrás das íris azuis – Podemos ser essencialmente opostos como Eros disse. Mas, de outra maneira, somos ridiculamente parecidos – o Sol articulou.

Tinha pensado muito nisso. Desde que Hermes lhe contara que o menino passara toda aquela semana trancado, insone e em jejum, como ele mesmo tinha feito. E guardado sua peça de roupa como ele fizera aos louros e aos jacintos. Ver a maneira como ele reagiu aos arranhões que assinou na sua pele apenas o lembrou do desespero passado ao descobrir todos os seus carimbos roxos que lhe fizera da primeira vez. E também se lembrava vivamente do que pensara sobre isso. De como a culpa atroz e atordoante o impelira a cometer um dos maiores erros da sua vida. Sabia exatamente o que ele estava sentindo e o que estava pensando. A fortuna o presenteara através da dor. Existem apenas três modos que alcançar a sabedoria, sua irmã Atena lhe dissera uma vez. O mais nobre, e mais doloroso, era a experiência. E isso, agora, ele tinha.

— Você está pensando que é perigoso em demasia. Que é violento e descontrolado. E que, de alguma maneira, não me merece por isso. Que talvez fosse melhor... me afastar de você – Apolo declamou, calmamente, vendo seus orbes verdes se abrirem ao limite – A resposta é “não”. Não é melhor. Não é prudente. Não é viável. E não vai funcionar – disse ainda, pausado como numa sentença final – Eu não vou me afastar de você. Eu não poderia, mesmo se quisesse. Mesmo se tentasse. Qualquer distancia só me faria sofrer. E eu estou cansado de sofrer... – declarou, deixando as sílabas saírem pesadas como seus sentimentos – Eu sei que você me ama, sua boca já me disse. Eu sei que você me deseja, o seu corpo está dizendo. Mas, mesmo se não fosse o caso, eu não poderia... não vou ficar longe outra vez. Pode me expulsar quantas vezes você quiser. Sou insistente, eu volto. Pode me insultar por horas a fio. Sou paciente, eu ignoro. Pode me quebrar inteiro. Sou o deus da medicina, eu me remendo. Por tanto, vou dar-lhe um aviso – assim, levou ambas as mãos cálidas à base do seu rosto pequeno, aconchegando-o mornamente entre os dedos compridos. E com os olhos, o encarcerou uma cela azulada e incandescente – Se ter-me longe de você for realmente o que quiser – começou, as íris queimando – É bom que tenha um estoque inesgotável de paciência e energia, pois terá que me afastar aos golpes por todos os dias pelo resto imortal da sua vida – ele concluiu, num tom de ameaça claro e explicito – Então eu te pergunto, Dionísio: é isso o que você quer?

Silencio.

Dionísio realmente não era bom com as palavras; mas a resposta deve de ter sido clara o suficiente quando seus dedos, ainda covenientemente espalmados na pele caustica e nua do ventre do irmão, mesmo que nada os segurasse ali; de repente, escorregaram mais para baixo.

— Não sou tão altruísta assim... – ouviu a voz adocicada do menino dizer, um sorriso travesso impresso nas palavras, que Apolo não estava vendo, pois se ocupara em largar a cabeça para trás, fechando os olhos molemente.

— Hm... – meio resmungou, meio gemeu – Bom saber... – murmurou, abrindo os olhos devagar, enchendo os dedos com a pele dele. As coxas, as ancas, a barriga e peito liso, a curva suave do ombro marcado, até o começo dos cachos macios. Então todo o caminho de volta – Já que estamos falando de... hm – ele tentava dizer, perdendo a compostura dramaticamente depressa, desmanchando-se na massagem lenta dos dedos do deus moreno — ...de como somos... violentos... – conseguiu sussurrar, a mão esquerda circulando uma das coxas do menino – Você se importa quando faço isso?... – perguntou, fechando os dedos solidamente sobre uma nódoa especialmente escura perto da patela do deus do vinho, vendo-o arquear ligeiramente as costas, mostrando partes dos dentes pequenos, no que seria uma careta de dor, se não houvesse um sorriso ali.

— Eu gosto... – Dionísio declarou simplesmente, não tendo o mínimo instinto de sair do seu aperto firme.

Apolo já esperava aquela resposta. Baco não parecia ter problemas com a dor. Começava a achar que ele quase gostava dela. Mas sentiu-se na obrigação de confirmar. Fosse por descontrole ou não, tentaria não marca-lo mais se não fosse do seu desejo. Mas, aparentemente, não teriam nenhuma divergência nesse sentido.

— Você ainda vai se arrepender de ter dito isso... – Apolo avisou, um sorriso preguiçoso e largo nos lábios morenos, já querendo alcançar os dele.

Os dedos longos passeando pelo seu pescoço, procurando atar-se nos seus cachos castanho-chocolate. O perfume e a áurea dele competindo pelo pódio do seu delírio. Apolo já o queria tanto. Aquele corpo claro, delgado, pequeno e despido o estava tentando mesmo antes de tê-lo acordado. E a aquela distancia tornava-se mais insuportável a cada segundo. Mesmo que o tivesse tomado a poucas horas. Mesmo que o gosto dele ainda estivesse na sua boca. Mesmo que mantivesse a carne macia entre os dedos. Ele queria mais. E mais. E mais. E...

Algo interrompeu o principiar do toque daquelas bocas. Algo inesperado, alto e alarmante. Um ronco longo e escandaloso que chiou urgentemente pelas paredes marmóreas do quarto recentemente silencioso.

— Ai... – Dionísio gemeu, menos surpreso que o irmão, soltando-o de repente para abraçar o próprio corpo magro e infantil – Que fome!

Apolo o fitou por quase um minuto antes que desmoronar no que deve ter sido a gargalhada mais longa e alta da sua vida. Todo o momento denso de expectativa e desejo desfeito como um castelo de areia levado pelo mar. Pelo Hades, aquilo tinha saído do seu menino? Ele era tão pequenino. Aquilo mais parecia um rosnado irado de Cérbero2. O estomago dele devia equivaler ao tamanho do felino vermelho.

O deus do sol puxou o ar, tentando normalizar a respiração. Vendo Dionísio olhá-lo com um bico nos lábios carmim. Não parecia chateado com sua explosão, e sim um pouco envergonhado, as bochechas mais coradas que o normal. Apolo conseguiu parar de rir em definitivo. Pobrezinho. Se estava desse jeito, era por culpa sua. Não se esqueceria disso. Nem se importaria em adiar seu desejo algum tempo, mesmo que fosse difícil. Os dois queriam comer afinal, apenas coisas diferentes...

— Café da manhã? — o deus moreno perguntou baixinho.

Estava se sentindo culpado. Tinha despertado o apetite do irmão apenas para tortura-lo com a espera. Não queria isso. Passaria a semana inteira na cama servindo-o se ele quisesse. Mas estava realmente com uma fome surreal. A semana que passara em jejum não fora por capricho ou escolha. Toda vez que Eros tentava sequer falar sobre comida, ele sentia vontade de vomitar bile, enjoado como uma grávida. No entanto, seu corpo não se esquecera daquela privação, resolvendo lhe cobrar com toda força de uma vez. E Dionísio sentia como se tivesse uma fera raivosa e alucinada dentro do corpo. Arranhando-o de todos os lados. Fazendo seu estomago roncar de novo e mais alto, no que ele apertou mais os braços em torno de si, como que pudesse abafar aquele gemido doloroso; e erguer os receosos e expectantes olhos verdes para o outro.

— Que tal... almoço? — foi o que ele respondeu, sorrindo tranquilamente, sabendo precisamente as horas pelo ângulo da luz do seu sol sobre as janelas. E Baco dava o suspiro mais aliviado da sua vida.

— Serve... – murmurou, roubando um selinho rápido e agradecido dos seus lábios dourados, pulando rapidamente para fora da cama.

— Ah, nossa! – Apolo exclamou, parecendo surpreso as suas costas.

— O que?

— Eu tinha esquecido... do Floquinho... – ele murmurou, corando por baixo da pele bronzeada. Vendo o felino ainda animadamente – e muito interessadamente – apoiado no colchão da cama.

Foi a vez de Dionísio rir animadamente do seu embaraço quase inocente.

— Ele já viu coisas piores, não é, garoto? — o deus das orgias perguntou, alisando o pelo escuro das orelhas do seu felino, que lhe respondeu lambendo devotamente os dedos pequenos.

Se ele realmente estava aqui ontem à noite, viu sim... Apolo pensou, sentindo o rosto quente. Vendo os arranhões recentes no seu peito e o rastro de sêmen seco no seu abdome.

— Acho que precisamos de um banho antes, amor – Apolo comentou, sabendo aquilo ainda serviria convenientemente para acalmar algo ainda desperto depois do seu ventre. E Dionísio apenas agora notava como ainda estava molhado e escorregadio entre as suas coxas.

— Certo. Banho rápido – o menino concordou, correndo imediatamente para dentro de uma porta que Apolo imaginou que levaria a um lavatório. Sem disposição para chamar seus servos para ajuda-lo como era costume. Deixando o outro rindo baixinho da sua pressa.

Apolo levantou-se da cama devagar, irracionalmente constrangido por ter de andar nu na frente da mascote enorme do amante, que o encarava com incrível interesse por trás das íris azuladas. E o deus apenas pediu a fortuna que ele não tivesse a ideia de esfregar-se nas suas pernas.

— Você vem? — ouviu a voz dócil do menino gritando, abafada pelas paredes. E passou rapidamente pelo gato manso, dirigindo-se até o banho, quando notou algo muito curioso e familiar perto dos pés.

— Ah, Zeus...

— Apolo? — o deus moreno insistiu, soando receoso. Como se temesse que ele fosse embora sem aviso outra vez.

— Temos um pequeno problema, Dionísio... – o Sol respondeu, alto o bastante para fazer da voz grave clara, tranquilizando o irmão pequeno, que surgiu de repente na porta do banheiro. O corpo nu já brilhando molhado e os cabelos comicamente cheios de espuma.

— O que? — perguntou, preocupado, vendo Apolo erguer para ele o que parecia uma coleção de retalhos azul-cerúleo, uma sobrancelha loura alta e o rosto sério em reprovação, como um dono que chegasse em casa e encontrasse as almofadas destruídas pelo cachorrinho – Oh... – Dionísio exclamou, fazendo um pequeno círculo entre os lábios – Teve isso... – murmurou, tentando não sorrir travesso para a roupa que destruíra completamente no começo da noite.

— Sim, teve isso – Apolo concordou, falando duro. Apenas vendo o pequeno parar de resistir ao sorriso arteiro que estava contendo – Agora tenho que mandar alguém buscar algo para vestir... – resmungou, largando os restos da túnica em qualquer canto.

— Ah, não... – Dionísio gemeu, dolorido. Apertando novamente os braços em torno do corpo, desfeito por completo o sorriso – Vai demorar muito – reclamou. Não queria sair para comer sem ele e não estava mais suportando aquela fome.

— O que mais eu posso fazer? — Apolo perguntou, pacientemente.

Baco o encarou cuidadosamente por um instante, descendo os olhos por todos os cantos do seu corpo esculpido em músculos e banhado em ouro.

— Você sempre pode sair nu – sugeriu o menino.

Às vezes as suas falas eram tão maliciosas quanto as do Cupido. Mas ao contrário do amigo louro, que tinha sempre uma expressão sedutora e devassa pintada no rosto perfeito, Dionísio conseguia dizer aquilo mantendo toda inocência e docilidade querubinica nos traços infantis. Fazendo aquela proposta parecer perfeitamente razoável e pudica. Era impressionante.

— Não sou Eros para sair exibindo o corpo sem pudor por aí – Apolo resmungou, soando devidamente implicante e muito injusto, já que ele mesmo nunca vira o deus do Amor despido na vida.

Uma pena.

Dionísio coçou os próprios cabelos cheios de sabão, distraído. Pensando em como resolver aquilo. Nada seu lhe serviria — nem em outra vida — era pequeno demais, mal chagava a altura do seu peito. E quase todos os seus servos eram mulheres, não podia metê-lo num vestido. Seus olhos escuros rodaram por todo ambiente, pendendo-se entre planos indistintos. Até que ambos caíram precisamente sobre um móvel muito especial quase oculto pela sombra num quanto do quarto.

— Apolo – o menino murmurou, lentamente. O sorriso levado voltando galante a sua boca vermelha – eu tenho uma ideia, – clareou, ao ver os olhos do amante interessados nele – mas acho que você não vai gostar... – concluiu, as bochechas quase doendo de tanto sorrir.

Dionísio estava certo. Apolo não gostou nem um pouquinho...

Continua...

Notas finais
1 - Quimera: criatura mitológica, muito usada em metáforas e figuras de linguagem para representar sonhos ou ilusões. 2 - Cérbero: cão demoníaco de três cabeças que guarda a entrada do submundo. Então... Mil desculpas, meus amores. A demora dessa vez foi culpa da vida. Primeiro provas da faculdade que estou fazendo, depois prova de Habilidade Específica da faculdade que quero fazer, então minha internet ficou fora do ar quase uma semana, e nos últimos dias, por causa de uma nova dieta e outras medicações que comecei a tomar (é, eu tenho uns probleminhas) estou com uma dor de cabeça tão infernal que não conseguia nem ler, e passava os dias só querendo dormir pela eternidade. Enfim... O bom disso é que eu tive mais tempo para pensar na logística da fic. Primeiro, era para esse ser o último cap do ciclo, mas para variar ficou grande demais e eu tive de dividir... hehe... já se acostumaram né... E falando em ciclos, eu mudei de ideia nesse sentido. Percebendo que o decorrer da estória iria focalizar muito mais no Cupido, eu decidi transformá-lo em outra fic... AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH DUAS FIC? Exato, caros mortais. Haha. Ainda terá terá tudo desse universo, e será praticamente uma segunda temporada. Já adiantando, o nome que pretendo dar é... Erótica! Ta-nã! Ai gente, to empolgada. Até planejando já uma terceira temporada, podendo focar em Hades e Zeus. AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH TRÊS FIC? Pois é... Muitas ideias, muitas emoções. É isso, amorzinhos, to morrendo de saudade de vocês, parece que engoli um buraco negro. Venham me amar! Haha ♥ Beijos violentos e até o proximo cap :)