Bacanal

21 Para me lembrar - Parte 2


Notas iniciais
Olha quem apareceu, num dia nada há ver, para atualizar vocês. Estava pensando em esperara até domingo, mas aquela parte minha que manda nesse quesito disse "Poste logo ou vai enlouquecer". E como não preciso de nenhum incentivo para abandonar a sanidade, era melhor obedecer. Não saiam no sol hoje crianças, porque tem muito lemon para vocês...

Parte 2: Passarinhos Coloridos

Desde a primeira vez que nos amamos

Desde a primeira vez que nos tocamos

O toque dos seus dedos, o seu cheiro que fica,

Minha mente acelerada com os pensamentos do seu sorriso...

Oh, você tem que me dar um pouco. Ou você pode dar tudo.

Mas nunca é o suficiente.

Tem uma energia. Quando você me abraça,

Quando me toca... É tão poderosa

Eu consigo sentir.

— Major Lazer, “Powerful”

— Como funciona? — Eros ronronou, enrolando a corrente fina entre os dedos delicados, ao mesmo tempo em que também enroscava sutilmente as pernas nuas entre as dele – Digo, como sabe quem está chamando?

Hermes ainda guardava o mesmo sorriso satisfeito que fora incapaz de desfazer desde que acordara. Ter o espécime masculino mais belo já nascido no mundo nu nos seus braços devia contribuir.

Eros tinha a cabeça loura despreocupadamente largada no seu peito, as melenas platinadas e macias esparramadas, contrastando com o leve bronzeado da sua pele; e ele brincava com um sino pequenino, pouco maior que um polegar, parecendo multicolorido, visto que era feito que dezenas de materiais diferentes. Mercúrio usava aquele sininho como pingente, numa corrente longa e fina ao redor do pescoço. E o Cupido o sacodia levemente de um lado para o outro, parecendo fascinado por não emitir nenhum som.

— Todos os deuses tem uma cópia, mas de matérias diferentes – Hermes explicou, envolvendo os dedos dele com os seus, brincando com ele – Cada um soa de uma maneira, assim eu sei de onde vem.

Aquele era o método inventado por Hermes para que pudessem chama-lo quando necessário. Afinal, ter de mandar uma mensagem para chamar o deus das mensagens não fazia nenhum sentido. Assim, todo deus tinha um sininho parecido com aquele. O de Eros era de platina; o de Apolo era de ouro; o de Dionísio, de cobre. E assim por diante. Quando tocavam os seus, de qualquer lugar do mundo, o dele tocava em harmonia.

Genial. Mas pouco perto do que ele já havia inventado. Nada parecia muito grande para o deus que criara os números e o próprio alfabeto. Sim, Hermes inventara as letras. Todo em prol de facilitar-lhe a vida. Adorava o seu trabalho, voar o dia todo, para todos os planos daquela dimensão. Mas, impaciente como era, já entediava-se brutalmente em ter que decorar palavra por palavra de todas as mensagens que tinha de enviar. Acabando por pensar furiosamente em uma maneira de transformar os sons em símbolos que pudesse grafar e entregar diretamente, primando também pela privacidade do remetente. E deixando para ele apenas o prazer da viagem.

E foi assim que nasceu o grego antigo.

— Como soa o meu? — o Cupido perguntou, vagarosamente.

Hermes nem pensou para dizer:

— Como o canto de um passarinho...

*

— Algumas horas atrás -

Se alguém lhe perguntasse mais tarde sobre como sucedera os acontecimentos daquele exato momento, Hermes juraria categoricamente não se lembrar de forma alguma do momento em que deu a ordem, em que cedeu completamente, em que deixou seu corpo se aproximar. Só sabia que, no segundo seguinte a aquele sorriso devastador, estava sendo embalado pela cama de veludo mais macia do mundo. Estava mergulhando da sobremesa mais saborosa do firmamento. Estava flutuando sobre o melhor perfume da existência.

Essa era sensação de ter os lábios de Cupido nos seus. Aqueles lábios cheios e deliciosos, macios como seda. No segundo seguinte ao momento em que ele abriu a boca para sua língua, Hermes já tinha certeza de que, na verdade, nunca beijara na vida. Ou se o que fizera antes fosse realmente beijar, aquilo era algo completamente diferente.

Eros sorriu contra seus lábios escuros quando ele começou a deitá-lo no colchão, uma mão ainda entremeada nos seus cabelos compridos, outra descobrindo a pele impecável do seu pescoço. Apressadinho... Pensou, sentindo-o deixar parte do corpo esguio contra o seu, misturando os cheiros dos dois, deixando as mexas coloridas caírem dançando contra as suas louro-platinadas, parecendo tinta fresca numa tela limpa; sem tirar a boca da sua por nenhum segundo. Um folego admirável. E um gosto fresco gengibre e limão-cravo. Hermes não era um autocrata nem um submisso. Era um parceiro perfeito, acompanhando todos os seus movimentos, como se houvessem ensaiado.

Muito apressadinho... O Cupido corrigiu, quase rindo. Estava dando-lhe corda, o corpo docilmente esparramado pela cama, os braços quietos aos seus lados, pousando em cima das mexas espalhadas contra o roxo profundo dos lençóis. Hermes pareceria viciado nos seus lábios, não os abandonava por nada. Mesmo que agora estivesse muito interessado medi-lo minunciosamente, deslizando os dedos pela sua pele ainda vestida, sentindo os músculos suaves por baixo do tecido diáfano. Até que aquele pano todo se tornou extremamente inconveniente, e Mercúrio apressou-se em tentar tirá-lo dali.

O movimento seguinte de Eros lembraria o de um dançarino renomado, tal foi a fluidez e facilidade com que enlaçou as pernas longas e brancas ao redor da sua cintura estreita, e com um simples e rápido descolar de quadris, girou Hermes, trocando as posições, estando sentado sobre seu abdome no segundo seguinte.

Mercúrio arregalou os olhos ao cair de costas no colchão. Estava tão distraído que quase não vira o que ele fez. Logo distraindo-se de novo com a pressão das suas coxas ao redor do corpo.

Eros sorriu satisfeito ao vê-lo piscar surpreso para a sua atitude. Teria o controle agora. Estavam no seu reino. Não que não estivesse gostando dos seus modos. Apreciava imenso os espontâneos e entusiasmados. Mas, ele estava indo depressa demais. E o Cupido não queria só prová-lo, queria aproveitá-lo ao máximo. Tinha esperado por isto muito mais do que costumava fazer. Não era feito da matéria dos que teimam em conter seus desejos explícitos.

Viu-o descer os orbes dourados até as suas pernas, muitos expostas pelo pano repuxado pelo seu próprio corpo. Perfeitamente brancas e perfeitamente lisas. Mais grossas do que ele poderia rodear com os dedos compridos, os músculos delineados e firmes por baixo da pele clara. Tão lindas...

Eros bamboleou as ancas sobre ele, como uma dançarina do ventre. Um modo muito mais eficiente de chamar sua atenção do que se tivesse gritado no seu rosto. E Hermes ergueu as íris para ele no mesmo momento, um arquejo gemido e surpreso escapando pelos lábios arroxeados.

— Olhos em mim, Colorido – o deus do Amor decretou altivo. Sorrindo-lhe daquele modo devastador. Pensando em mil e uma maneiras de enlouquecê-lo.

Hermes obedeceu. Por quase um minuto, apenas olhou para ele.

A intensidade daquele olhar arguto foi tão expressiva que, por um momento, Eros esqueceu-se do que estava prestes a fazer. Hermes poderia estudar todos os centímetros dele. Podia ter aproveitado para ver seu corpo mais de perto, como tantos sempre quiseram. Até tocá-lo indiscretamente. Mas não. Daquela maneira típica, de quem procura a todo tempo desbravar enigmas, Mercúrio prendeu-se nos seus olhos.

Escuros. Escuros como tinta. Escuros como carvão. Escuros como o infinito. Escuras de uma maneira profunda e absoluta. Não havia nem sinal das pupilas. Nem da maciez tão evidente no resto dele. Aquelas íris eram duras. Pretas e duras como uma joia. Afiadas como alguma parte dentro dele que não costumava ficar a mostra. Íris pretas implacáveis como a Guerra.

O que fazia dos seus cílios a moldura perfeita. Contra aquele negro avassalador, eram quase brancos. Eram quase transparentes. Longos fios grossos e curvados como penas. Como penugens delicadas e macias. Filhos dos cabelos muito claros que escorriam livres e perfumados pelos lados do seu rosto. Como cascatas platinadas. Como cortinas de seda fina.

Sem saber por que, Hermes ergueu umas das mãos lentamente, querendo tocá-lo. Não nas tentadoras coxas meio despidas; no pescoço esquio e elegante; nos lábios fartos tão próximos, entreabertos, sempre convidativos. Queria tocá-la na face. Senti-lo contra seus dedos por um minuto. Apenas para ter certeza da veracidade daquela visão tão bonita.

Quando teve sua pele contra as digitais, apenas num roçar suave contra a bochecha esquerda, viu o rosto de Eros mudar. E sentiu quando estremeceu levemente sobre ele. Engraçado, aquilo era tão familiar. Seu cheiro, seus olhos, os lábios próximos e os cabelos caindo em volta deles. Suas pernas se apertaram em volta dos seus quadris, no que pareceu quase involuntário. Ele era muito leve, Hermes percebeu, mesmo que não fosse especialmente magro, tendo o ideal impecável de músculos e carne por baixo da pele. Ainda sim, não pesava nada sobre si. Ela gracioso, delicado e leve como um...

Como um...

— ...Passarinho.

Elas voltaram. Todas as lembranças embaçadas e perdidas da batalha voltaram. Dançaram na frente dos seus olhos como numa peça de teatro.

As flechas. As asas. A queda.

E o preto absoluto e avassalador dos seus olhos escuros.

— Você... – Hermes murmurou, assombrado – Você o matou. Você me salvou. Você... – repetiu, deslizando as falanges pela sua bochecha — ...meu passarinho...

Eros arregalou os olhos, entreabrindo os lábios em harmonia. Percebera algo estranho desde que ele o tocara daquela maneira, exatamente igual ao modo que fizera depois da queda, antes de perder os sentidos para a exaustão. Fato que o fez estremecer ao lembrar-se do pânico e da dor do momento. Mas só agora percebera que Hermes não se recordava daquilo. Provavelmente pela pancada forte na cabeça. E tê-lo numa posição tão semelhante, aparentemente trouxera as lembranças de volta.

Eros não conseguia nem se mexer. O modo como Hermes o olhava era diferente de tudo. Eros era lindo. Todo mundo via. Todo mundo sabia. E por vezes, era a isso que o reduziam. Lindo. Sensual. Habilidoso. Excitante. Devasso. Tudo o que começasse e acabasse na cama. Tudo que poderiam aproveitar. Olhavam para ele querendo tocá-lo. Querendo prová-lo. Querendo beijá-lo. Querendo tê-lo debaixo do corpo. Olhavam-no com cobiça e desejo. Não daquele jeito. Com gratidão. Com admiração. Com uma adoração que beirava a dos mortais.

— Não foi bem assim... – ele se viu obrigado a dizer, mesmo que não fosse verdade. Sentindo as bochechas claras queimarem num rosado constrangido, virando o rosto para que as melenas escondessem sua face – Você não ia morrer – disse, exagerando na última palavra, chegando a arregalar os olhos escuros – Só ia... se quebrar um pouquinho... – concluiu, muito baixo.

Ouviu Hermes rindo. Breve e suave. Sacudindo-os ligeiramente. Os dedos dele roçaram na sua bochecha outra vez, trazendo seu rosto para frente devagar.

— Obrigado por não deixar eu me quebrar nem um pouquinho... – ele disse, sorrindo. A devoção brilhando nos seus olhos dourados. E Eros descobriu que, constrangido ou não, ele gostava daquilo.

Ele gostava muito daquilo.

Também descobriu que não queria mais joguinhos. Não hoje. Sentia que ainda teria muito tempo para provocá-lo, para brincar com ele. Hoje queria apenas tê-lo. Queria apenas estar com ele. E amá-lo com simplicidade.

Assim, desistiu de toda aquela cena sedutora, daquela pompa armada e manipuladora. Deixou-se sorrir. Sem querer excitá-lo. Sem querer seduzi-lo. Sem querer nada. Sorriu apenas porque estava feliz. Feliz de estar ali. Feliz pelo modo como Mercúrio olhava para ele.

Enganava-se, porém, se acreditava ser menos sedutor e belo dessa maneira. Era inerente a ele como sua própria pele, como seu próprio cheiro. E Hermes queria desesperadamente tocá-lo. Queria desesperadamente beijá-lo. Queria desesperadamente...

Eros deslizou as mãos pelo seu peito coberto, até tê-las ambas ao redor do seu rosto, as palmas macias como de damas da corte, sem calos nem mesmo do arco. Trazendo assim seu corpo até o dele. Os cabelos deles voltaram a se misturar, e o Amor pousou os lábios fartos nos seus. Suave como um beija-flor. Num ósculo calmo e afetuoso. Como se estivesse lhe agradecendo por alguma coisa. Mesmo sem entender o porquê – afinal, era ele quem deveria agradecer – Hermes devolveu, com todo o carinho que tinha em si. E era muito.

O deus dos ladrões podia carregar consigo uma pose segura e autossuficiente, podia ser impaciente e implicante ao limite do aceitável, podia ser irritado e intrometido com frequência. Mas não passava de uma manteiga macia, derretia-se com facilidade. Nunca conseguiu odiar ninguém. Nem mesmo a sua madrasta insuportável. Em troca, não havia viva alma imortal que não o gostasse ou, pelo menos, não lhe fosse grato por alguma coisa. Vivia salvando a pele dos outros. Mesmo sem ser solicitado. Dionísio fora um dos amparara, quando ainda não passava de uma sementinha; e depois, quando o levou e escondeu entre os tios mortais, achando que seria o suficiente para livrá-lo da ira de Hera. Não foi. Culpara-se muito quando soube pelo que o menino tinha passado no mundo. Afinal, fora ele quem o prendera naquela forma inferior. Podia ter feito mais por ele. Podia ter sido um irmão melhor. Fato que tornou impossível a sua inércia quando soube que estava sofrendo tanto por culpa do cabeçudo teimoso e confuso do seu outro irmão. Tudo o que não queria, era ser relapso e indiferente com seus parentes, como seu pai sempre fora...

Ah, aquela família ainda daria um jeito de minar a sua imortalidade e matá-lo algum dia.

Mas ele não se importava. O altruísmo era inerente a ele. Como sua própria pele, como seu próprio cheiro. No entanto, não fora ele o salvador agora. Ele tinha sido salvo.

O gosto de Eros parecia desmanchar-se na sua língua, como um suspiro. Aquela mistura irresistível de doce intenso e pimenta quente. Ele tinha o tinha salvado. Tinha se arriscado. Talvez até se machucado por ele. A queda dura voltou a sua mente, o som de madeira e pedra se chocando contra eles... se chocando contra ele. Chegando abafados pelas suas asas e difusos pelo torpe forçado da sua cabeça. Acompanhados pela imagem das penas perdidas dançando no ar em volta deles depois, de um modo catastroficamente belo. Eros tinha se machucado, não havia a menor dúvida.

Cupido piscou várias vezes ao ser afastado da sua boca. Fora apenas impelido suavemente por uma de suas mãos, nada agressivo ou rude. Muito delicado na verdade. Ficou absolutamente surpreso simplesmente porque, além de não saber seus motivos, Eros nunca havia sido afastado por nenhum dos seus amantes na vida. Nunca. Jamais. E aquilo foi tão estranho quanto todo o dia havia sido.

— Você está bem? — Hermes perguntou, um brilho intenso de preocupação e culpa nas íris âmbar. E, por alguns segundos, Eros não entendeu o que ele quis dizer – Quando nós caímos... – ele explicou, vendo a percepção alcançar o rosto bonito do deus do Amor – Você se certamente machucou... Como você está?

O Cupido deixou-se sorriu outra vez, percebendo não ser o único a morrer de preocupação naquele quarto. Era tranquilizante.

— Eu estou bem... – ele respondeu, e, para variar, não pareceu ter muita credibilidade ali – Eu me machuquei um pouco, mas Apolo cuidou de mim – insistiu, sendo eufêmico apenas na parte do “pouco”.

Mas, impressionantemente, não pareceu ter sido o suficiente. E Hermes ainda tinha um peso desconfortável e quase constrangido no olhar.

— Eu sinto muito... – ele murmurou. Não foi covarde em evitar seu olhar, até roçou os dedos no seu rosto, suave como se pudesse desmontá-lo – Você não devia ter se machucado. Eu fui terrivelmente relapso. Distraí-me e o deixei me acertar – Distrai-me com você. Pensou. Você, as suas asas brancas e as suas roupas molhadas de chuva— Não devia ter pagado por isso. Devia ter me deixado... cair – disse. E depois de minutos esperando algum tipo de manifestação de humor sarcástico, o Cupido surpreendeu-se titanicamente ao perceber que ele estava falando sério.

— Você ficou louco? — foi como ele reagiu, a emoção encarnada. Soando exasperado e até rude. Não acreditava no que estava ouvindo. Era ridículo.

— Quando eu disse que nunca iria te machucar, eu não estava mentindo... – acrescentou, ainda calmo, sem reagir a sua indignação – Ou, pelo menos, eu não achei que estivesse. Foi culpa minha isso tudo. Por favor, me des...

— Pelo amor de Zeus, cala a boca! – Eros explodiu, chegando a tapar a boca dele com as mãos macias, arregalado seus olhos – Eu não mereço isso... – resmungou quase para si mesmo. Já bastava Anteros tratando-o como se fosse de porcelana, ou os outros sempre esperando pouco dele. Ele não era pouco, não era inútil, e estava cansado daquilo. Tirou as mãos dos seus lábios para apoiá-las nos quadris. A imagem perfeita de uma matrona irritada – Escuta aqui, Colorido – ele começou, apontando-lhe um dedo fino – Vou lhe contar uma coisa muito importante, então preste atenção: eu não faço o que eu não quero! – declarou, encarando-o duramente com seus olhos escuros – Se eu entrei nessa roubada, foi porque eu quis. Se eu me arrisquei, foi por que eu quis. E se eu me machuquei, eu sabia que poderia acontecer! Não se atreva a culpar-se pelo o que eu escolhi! – rosnou entre os dentes perfeitos, quase tão furioso quanto estivera naquela manhã, quando parecia querer cortar Apolo em tiras finas.

Estava ali. Aquela partezinha dele que não era macia. Que era afiada como os olhos de Anteros.

Hermes entreabriu os lábios, surpreendido. Mais uma vez sendo alvo da raiva do Cupido. Alvejado por aquelas írises duras.

— Mas...

— Tem essa de “mas” não! – Eros o cortou, antes que pudesse concluir qualquer coisa. Estava quase gritando – Quer dizer que o senhor pode ir lutar a vontade, pode ser por em perigo como e o quanto quiser, e eu tenho que ficar só olhando? — questionou colérico. Não estava com raiva de Hermes exatamente, estava com raiva de todo mundo. Do pai que sempre o tratou como se não valesse nada, do irmão que pensava que era de cristal, dos gêmeos que achavam que podiam fazer dele o bem entendessem, e de todos que já o tinham subestimado um dia. Mercúrio apenas beliscara um ponto sensível sem querer – Tenho que ver quem eu gosto se machucar e ficar quieto? É isso que eu devia fazer? Ser um completo inútil? É isso o que você pensa de mim?

— Eros...

O Cupido conseguiu chocá-lo um pouco mais: deu-lhe um tapa na lateral da cabeça. Não fora forte, nem doera. Eros não tinha muita força física e não queria machucá-lo. Mas prometeu a si mesmo no meio da batalha que bateria naquela cabeça colorida quando tudo acabasse. E o momento lhe pareceu perfeitamente apropriado.

— Mas... o que? — Hermes balbuciou, sem entender nada. Se o Amor estivesse presente no momento em que o mesmo dera aquela bofetada em Apolo, veria como as expressões de ambos foram exatamente idênticas.

O Karma era uma coisa impressionante...

— Isso foi por quase me matar do coração! – Eros disparou, enfurecido – No que você estava pensando afinal? Eu entendo que precisava lutar, mas devia ter parado quando começou a se cansar! Não acredito que os dois maiores cérebros do Olimpo não pudessem pensar numa estratégia que não envolvesse te quebrar inteiro! – exasperou, referindo-se a ele e Atena – Mas que Tártaro! – acabou xingando, já sem conseguir colocar sua irritação em outras palavras, cruzando os braços sobre o peito esbelto e virando o rosto para o lado.

Certo, ele estava com raiva. E muita. O que era extremamente sensual e até um pouco engraçado; já que, a despeito da postura raivosa, continuava confortável e languidamente sentado sobre o abdome de Mercúrio.

Ouviu o mesmo rindo. Pareceu querer conter, mas acabou escapulindo entre seus lábios escuros.

— O que foi?! – Eros quis saber, quase rosnando para ele.

Hermes não pareceu intimidado com isso, foi até mais difícil conter um sorriso divertido.

— Você fica bonitinho indignado – esclareceu o deus dos ladrões, mostrando os caninos inclinados num sorriso largo.

Aquilo minou a ira do Cupido, mas não seu orgulho. E ele apenas resmungou um “Hm” desdenhoso e jogou as mechas soltas por cima do ombro antes de dizer:

— Eu fico bonito de qualquer jeito – esnobou. Logo voltando os braços a aquele nó apertado. E a face para um lado qualquer.

— Isso é... verdade – Mercúrio admitiu, quando numa reflexão rápida, não o conseguiu imaginar menos belo de maneira nenhuma. Eros devia ser lindo até babando – Ei... – ele chamou, começando a deslizar levemente os dedos pelas suas coxas expostas, fazendo-o voltar apenas os olhos pretos para ele – Você está certo.

Hermes ainda estava impressionado com a velocidade com que Eros se apegara a ele, com que começara a se preocupar de verdade. Não estava em um estado diferente, e sabia. Mas sempre fora apressado e impaciente, se apaixonava na velocidade dos raios de Zeus. Era realmente bom não estar sozinho nisso. Era tranquilizante...

Também percebera a falácia dos próprios argumentos. Se ele havia se arriscado mais do que qualquer um naquela luta, que direito tinha de repreendê-lo por fazer o mesmo? Era tão deus quanto ele. Tão habilidoso quanto ele. O Olimpo também era a sua casa. E seus traços delicados e modos amáveis não tinham nem deviam ter nada a ver com isso. Censurara tanto Apolo e estava fazendo a mesma coisa.

Eros ergueu uma das sobrancelhas arqueadas, desconfiado.

— Estou tentando fazer aqueles cálculos na cabeça... – Hermes continuou, quase murmurando, ainda dedilhando como que distraído os dígitos nas suas pernas – Mas são muitas variáveis. A distancia, o ângulo, o vento, a chuva, a curvatura do terreno, os meus movimentos e os do gigante... – numerou, parecendo quase cansado no final – Parece impossível para mim...

Eros tinha desfeito o nó dos braços lentamente, olhando-o com mais interesse que raiva agora, embora ainda tivesse as sobrancelhas louras erguidas. E Hermes evitava sorrir, sabendo estar vencendo aquele joguinho.

— O alvo era minúsculo, há uma distancia absurda. Perto do gigante, a flecha pareceria uma agulha, e mesmo assim... – ele prosseguiu, agora descansando as palmas inteiras nos músculos das suas coxas – Não acho que Apolo acertaria – disse astutamente, embora não estivesse mentindo. Vendo pela visão periférica Eros arregalando os olhos escuros – Talvez nem Artêmis... — acrescentou num mimo, todos sabiam que Apolo era impressionante, mas Diana era incrível – Você tinha todo o direito de lutar – declarou enfim, admitindo seu erro, parando de estudar suas pernas e olhando nas suas írises pretas – Sinto muito se pareceu que espero pouco de você. Não é o caso. Você não é apenas lindo, amável e gentil. É corajoso, é inteligente e, com o arco, você é sublime – declarou, com um suspiro longo e sonhador – Sei que estava errado no que disse, mas não fique com raiva de mim... – murmurou, valendo-se de um pouco de manha no seu tom, baixando os orbes devagar – Eu só não queria que tivesse se machucado...

(Ah, Hermes, seu espertinho...).

A fúria do Cupido se dissolveu como açúcar no chá da tarde, e ele fitava o deus dos viajantes com uma combinação de surpresa, encantamento, e um desejo feroz e urgente.

— Já chega! – ele exclamou de repente, afastando um pouco as pernas, diminuindo a pressão ao redor da sua cintura. Fazendo Mercúrio erguer os olhos muito abertos, temendo por um instante ter falhado em tudo o que disse – Tire essa roupa da minha frente! – exigiu, já puxando sem licença o tecido caro da sua túnica branca maltratada.

Hermes piscou várias vezes antes de rir, movendo o corpo para ajudá-lo, deixando-o arrancar de si a peça de roupa como quem depena uma galinha, agressivo e apressado; para arremessá-la quase com ódio num canto qualquer. Como se fosse a culpada por qualquer divergência.

Cupido estava sentado sobre a sua pele nua agora, todos os ângulos expostos. Hermes não pareceu acanhado. O seu corpo era como Eros imaginara: esguio o bastante para torná-lo veloz e definido o suficiente para fazê-lo forte. Todos os músculos se alongavam muito evidentes sob a pele, sem gordura nenhuma para cobri-los. Seria o sonho dos praticantes de atletismo. Como os cabelos dele sempre mudavam de cor, o Amor estava curioso em relação a tom dos seus pelos, mas ele era impressionantemente liso. Deixando a pele, num tom moreno-claro, totalmente exposta.

Eros avançou nos seus lábios, sem nada de calmo e cuidadoso agora. Estava feroz. Invadiu a sua boca com seu sabor doce, dançou com ele quase mais rápido e frenético do que pode acompanhar, mordeu os cantos dos seus lábios escuros, misturando um vermelho inchado a aquele tom de roxo.

Seus dedos esguios passearam pela sua pele morena, procurando por pontos fracos como um pirata por um tesouro. Algo fácil para seus dígitos treinados e tato sensível. Os lóbulos das orelhas. A curva das clavículas. O interno das coxas. Eram eles que faziam Hermes suspirar mais alto contra ele. Foram neles que o deus da Paixão se demorou. Com os dedos. Com a boca.

Mercúrio deu o primeiro gemido alto quando ele mordeu a parte de dentro da sua coxa esquerda, deixando marcas muito suaves dos seus dentes. Fez o mesmo com a outra. Gostava de simetria.

— Eros... – ele chamou, já estava ofegando. O Amor inda não tinha dado atenção ao ponto mais sensível, rígido no meio das suas pernas. O Cupido pensou que estava prestes a pedir por isso, e estava pronto para obedecer. Mas não – Eu quero ver você – foi o que ele disse.

Eros ficou surpreso por meio segundo, antes de voltar a ter os joelhos ao redor da sua cintura, fazendo questão de roçar no seu sexo desperto no processo, arrancando dele um arquejo. Então, sem teatro nem cena, puxou a roupa rosada do corpo, tirando-a pela cabeça devagar, fazendo os cabelos mais desalinhados sobre os ombros nus. Mostrando-se a ele por inteiro.

Os olhos de Hermes foram se abrindo como duas flores amarelas. Ele sabia que Eros era lindo, certo? Sabia que era filho da deusa da beleza, seu motivo de orgulho. Sabia que não podia esperar menos do que a perfeição ali. Mas... não. Não estava preparado. Sentiu-se um mortal que sonha com o paraíso a vida inteira, para passar pelas portas do Elísio e perceber que a sua parca imaginação não chegava nem aos pés da sublime realidade.

Belo. Bonito. Lindo. Formoso... Nada disso era suficiente. Nada disso expressava a cor alva da sua pele de porcelana; as linhas languidas dos músculos suaves da sua barriga; o tom rosado-quente dos pequenos mamilos; a forma dos ombros angulares e do pescoço comprido. Era tudo muito certo. Muito equilibrado. Muito simétrico. Muito... Sua mente teimava em oferecer-lhe “perfeito” como adjetivo. Mas não parecia o bastante. Tinha de haver uma palavra melhor. Mais bonita. Mas adequada a ele e a sua beleza soberba, olímpica, poética... Não, nem Apolo e suas rimas ilustres conseguiriam descreve-lo. Pela primeira vez na vida, teve vontade de inventar novas palavras, que pudessem conter ao menos a sombra da visão que estava tendo.

Mas, dentro da sua pobreza de vocábulos, ele era perfeito. Desde o modo como as ondas claras quase se confundiam com sua cútis branca e macia, sem nenhum pelo que a cobrisse, até o formato do umbigo, o caminho anguloso e languido nos quadris, o tamanho simétrico e o cor-de-rosa na ponta do seu sexo. Não era musculoso e grande como Apolo, não era liso e infantil como Dionísio, não era magro e esguio como ele. Era o equilíbrio. Era o ideal. Era o impecável.

Perfeito...

— Você pode tocar, sabe... – Eros murmurou, depois de deixá-lo se perder um tempo considerável nas as suas formas. Estava acostumado a aquele choque, a aquela pausa contemplativa, a aquele olhar enternecido. Mas, por algum motivo, na cor das íris dele pareceu mais importante. E tingiu as suas bochechas de um agradável rosa ardente.

Hermes, graças a Afrodite, hesitou menos que a maioria, enchendo logo seus dedos com a sua pele. Primeiro pelo abdome, querendo muito sentir o ondulado leve dos gomos por baixo daquele cetim branco; então por todo tronco, vendo os mamilos colorados ficarem ainda menores no aperto dos seus dígitos, sentindo a respiração controlada no seu peito esbelto; para depois vaguear pelas suas costas, acompanhando a elegante linha da coluna, até desembocar em duas covinhas perfeitas na sua lombar. Então vieram as nádegas.

Eros não deu-lhe tempo de pensar em como aquela parte dele também era deliciosa e perfeita, e logo tinha os lábios picantes nos seus outra vez, deixando o corpo sobre o dele. Fazendo contado com tudo. As peles, os cheiros, os sexos. Os fluidos de preparação. E as vozes arrastadas e gemidas.

Sem dar nenhum sinal de que o faria, para o completo descontrole de Mercúrio; Eros posicionou-se sobre seus quadris, colocando seu membro no ponto exato entre as nádegas que ainda apertava até marcar; e desceu sobre ele de uma vez. Deixando-se penetrar. Sem se preparar. Sem avisar. Fazendo-o escorregar para dentro dele até o fim.

Hermes quis gritar como uma meretriz e depois xingar como um marinheiro. Não era muito escandaloso entre os lençóis, mas não estava se reconhecendo mais. A maioria esmagadora dos que compartilharam sua cama eram mulheres, mas ele tinha certeza de que isso não deveria ser assim. Devia tê-lo preparado para lhe receber, não queria ser dolorido para ele. O que seria preocupante, se Eros já não estivesse se movendo. Não para frente e para trás como os amadores. O deus do sexo bamboleava os quadris em círculos lentos, fazendo-o esbarrar em todas as suas paredes internas, que não sofriam com isso. Cupido não hesitara em deixar-se possuir por que tinha uma lubrificação natural ali, a mesma que as mulheres sentiam molhar entre as pernas quanto se excitavam; e Hermes, mesmo sendo longo e nada vergonhoso, entrara com facilidade. E seu canal já se apertava em torno dele, adequando-se ao seu tamanho. Porque tudo no deus do Amor era perfeitamente adaptado e favorável ao sexo.

Num momento Eros estava rebolando o corpo sobre o seu, as mãos perdidas nos próprios cabelos que ele puxava cada vez em que se fazia tocar o ponto sublime dentro de si, mordendo os lábios carnudos e rosados, numa expressão de prazer que roubaria a sanidade de qualquer um; no outro estava jogado contra a cama, no que Hermes descontara aquele giro anterior, não apenas o arremessando contra o colchão macio, como virando seu corpo de bruços, tendo a visão completa da sua bunda voluptuosa, desenhada e macia, que mataria de inveja qualquer cortesã, e das covinhas perfeitamente delineadas na lombar. Ver-se naquela posição de repente não fez Eros ter piedade da sua psique, e o Cupido empinou os quadris para ele, ficando sobre os joelhos, deixando o rosto deitado na cama; e afastando as pernas para que pudesse vê-lo por inteiro, rosado e piscante.

Mas uma vez, Mercúrio não saberia dizer quando foi que deu ordem, que mandou seu corpo violá-lo. Pois quando teve consciência de si, já estocava dentro dele, chocando os quadris contra suas nádegas, deixando-as ruborizadas, numa velocidade alucinante. Estava suando e estava quente. O que estava sentindo, por Zeus? O que era aquela sensação, aquele aperto, aquele deleite?... Nada podia ser tão bom assim. Quase feria as leis do universo.

Eros acompanhava seu ritmo veloz com facilidade, empurrando o corpo contra ele. Em um momento, virou o rosto deitado num travesseiro para trás, para vê-lo. Hermes achou que ia desfalecer. Nunca nada fora tão erótico quanto aquela vista: o deus do Amor sendo tomado, os cabelos claros sem ordem, caindo e grudando na sua pele; o par irresistível de lábios rosados meio abertos, deixando escapar arquejos arrastados e gemidos; as bochechas queimando de esforço e desejo; a cútis brilhando de suor e os olhos quase fechados de deleite.

Já sem pensar no que fazia, Mercúrio trouxe as mãos, que passeavam revezando entre suas costas e suas coxas, para atá-las nas suas ancas. Imobilizando-o naquele lugar. Aproveitando para deslizar as digitais dos polegares pelas covinhas tentadoras na sua lombar. Foi quando o Cupido ergueu o corpo de repente, ficando de quatro no colchão, gemendo longamente, e Hermes percebia que agora fora ele quem encontrara um dos seus pontos fracos.

Com a destra ainda firmemente segura no seu quadril, e a outra mão que se esgueirara entre os fios ondulados e louros da sua nuca, puxando-os levemente, Hermes voltou a estocar. Mais rápido e duro do que antes. Não deixando ele se mover. Apenas recebe-lo repetidamente. Sem pausa nem descanso. O ponto de prazer golpeado com velocidade e força, fazendo-o gemer sem nenhum pudor, ganindo sensualmente.

Ouvi-lo daquele jeito fora o estopim do deus dos ladrões, e com um brado curto e alto, encheu ele de si, inundando-o por dentro. Mas não parou de se mover, levando a mão em seus cabelos até o meio das suas pernas, tocando-o em continuidade as suas cadencias, até ouvir o gemido mais arrastado e delicioso do mundo, e tê-lo desmanchado nos seus dedos em segundos.

Hermes saiu dele devagar, sentindo-se molhar com sêmen, que escorreu para fora dele, brilhando nas suas coxas. Então cobriu seu corpo claro e delgado com seu próprio, o peito prensado contra suas costas, passando os braços ao seu redor; para deixar-se cair de lado no colchão macio, trazendo-o junto de si, encaixando-os como duas conchinhas.

Não sabe-se dizer quem ofegava mais, quem estava mais suado ou melado, nem quem estava mais contente. O corpo de Hermes demorou muito para recuperar-se daquele gozo violento, o melhor da sua vida. Deixando sua cabeça leve e seus lábios com um ímpeto irremediável de curvarem-se para cima.

— Deslumbrante... – murmurou, aparentemente sem motivo. Fazendo Eros virar o rosto para ele, confuso – É a palavra certa para você. Não é apenas lindo ou perfeito, é... deslumbrante – afirmou, satisfeito. Encontrando um vocábulo que julgou belo o bastante para ser minimamente equiparável a ele. E afundou o rosto nos seus cabelos macios cheirosos, sendo naufragados pelo seu perfume. Deixando Eros sorrindo sozinho.

Quase dez minutos se passaram naquela inércia languida, com cheiro de pimenta e sexo. Cupido já começava a fechar os olhos, descansado naquele abraço gostoso.

— Eros... – ouviu Hermes chamar baixinho, colado ao seu ouvido – Está dormindo?

— Ainda não... – murmurou de volta, preguiçosamente – Por quê?

A resposta demorou um pouco para chegar.

— Quer fazer outra vez?

Eros se virou para ele na hora, os olhos arregalados e um sorriso que ameaçava dar caibras em suas bochechas. O deus do Amor nunca se satisfazia com uma vez apenas, precisava de muito mais. Porém, costumava esgotar seus amantes em minutos, a ponto de mal poderem abrir as pálpebras depois. Mas Hermes estava muito acordado, uma ansiedade evidente brilhando nos orbes amarelos, cheios de entusiasmo.

“Hermes tem um núcleo de energia interna incomparável, mesmo que esgote ao limite, estará novo em folha em pouco tempo.” Apolo dissera, sugestivamente. Era melhor que estivesse certo, pois tinha atiçado seu corpo, e ele iria usar cada caloria daquela energia.

— Agora – ele retrucou, já pressionando os lábios contra os seus.

E eles recomeçavam o que levaria ainda longas horas daquela madrugada.

**

Eros largou a pecinha para entrelaçar os dedos nos seus, erguendo a cabeça para ver-lhe o rosto. Os cabelos dele tinham acordado num tom diferente: um branco puro e frio como granizo. Eros passara a manhã inteira com gana naquelas mechas surpreendentemente mais claras do que as suas. Descobrira que, não importava quanto quisesse ou como movesse os dedos, não conseguia prende-las entre eles. Podia tocar nelas, acariciá-las, e até mesmo enroscá-las nos dígitos. Mas toda vez que tentava segurá-las, elas fugiam das suas mãos como água ou mesmo... mercúrio. Mas não importava, segundos depois, ele já estava lá, tentando de novo.

— Está querendo me agradar... – ele murmurou, voltando ao assunto. Sussurrando com aquela voz de cetim. Os dedos entremeados nas suas melenas fujonas.

Hermes piscou devagar, agradado com aquele carinho.

— Eu poderia dizer o mesmo.

— Oh, não... – o Amor ronronou, abrindo seu sorriso menos pudico – Isso sou eu me distraindo – contou. E então escorregou a habilidosa mão livre para o meio das pernas dele – Isso sou eu querendo agradar...

— Ah... – Hermes estremeceu, mole como mel quente no toque das mãos – Diferença... registrada...

Dizer como ele era bom naquilo seria estupidez. Eros era melhor que bom. Eros era melhor que ótimo. Eros era melhor do que incrível. Eros era...

Ah...

Não foram necessários muitos minutos para ter Hermes de dedos agarrados aos lençóis, a coluna arqueada sobre o colchão, murmurando incoerências e, por vezes, palavrões. Mercúrio não era nem um pouco inibido, Eros percebera rapidamente, achando aquilo uma delícia.

— E-Eros... – o deus dos ladrões ofegou, trazendo certa urgência. Avisando-o que estava chegando lá. O que não era necessário. O deus do sexo sabia exatamente há quantos segundos ele estava do seu ápice.

O que fez aquele apertão aparador na sua glande próximo da maldade. Hermes quase se encolheu no colchão, impedido de gozar no último minuto. Fazendo Eros por pouco não rir da sua cara de menino magoado, quase um bico, como se ele houvesse acabado de roubar o seu docinho predileto.

— Ainda não, Colorido – o Cupido decretou, as palavras raspando macias entre um sorriso de todos os dentes – Ainda não acabei com você...

Antes que a mente veloz dele pudesse sequer interpretar o que ele dissera, Eros já o tinha dentro da boca cheia.

Mais uma porção de incongruências gemidas ecoou pelo quarto roxo do Palácio do Vinho. Era engraçado o modo como Hermes juntava rezas e blasfêmias em frases unas, as vezes deixando escapar coisas como “Maldito Olimpo”, “Santo Tártaro” ou “Bendito seja Caronte”. E Eros tinha que sorrir no meio do trabalho, sabendo que estava transformando aquela mente brilhante em gelatina...

Sentiu os dedos dele nos seus cabelos, ligeiros e ansiosos. Mas Hermes não o empurrou contra si como a maioria faria, nem tentou controlar o movimento. O deus do amor tinha o ritmo perfeito, e Mercúrio não fazia o tipo rude. Ele apenas apertou as mexas compridas entre os dígitos, buscando desesperadamente algo para se agarrar, como se estivesse caindo de um precipício. Talvez estivesse, Eros pensava, levando-o até o fundo da garganta. Diminuindo aquele beijo íntimo quando ele estava a ponto se desmanchar, e acelerando quando ele quase se recuperava. Um torturador em deliciosos níveis épicos.

O sistema nervoso de Hermes era o próprio caos. Fora empurrado contra o pico e arrastado de volta tantas vezes que se sentia uma ostra louca girando num mar bravio. As vezes quase conseguia. Via os reflexos claros da luz por baixo d’agua, mas antes que pudesse respirar, Eros o puxava para o fundo insanamente macio dos seus lábios cor-de-rosa.

Até que não puxou mais. Ao contrário. Tirou a boca aveludada e quente dele. E, por alarmantes longos e poucos segundos, Hermes achou que iria se afogar. Seu corpo esguio o traia com espasmos imprevisíveis. Seu cérebro parecia ter escorrido pelos ouvidos. A ausência repentina daquele toque molhado e cálido o deixou com um frio terrível, e o deus dos viajantes tremeu suado contra os lençóis.

Obrigou-se a abrir os olhos. A claridade, mesmo parca, foi cruel com as suas pupilas, que se encolheram dentro das íris âmbar. E ele caçou desesperadamente seu oxigênio pela vista.

Ele estava ali. Quietinho. Sentando de borboleta entre as suas pernas. Apenas olhando-o calmamente. Os cabelos claros todos derramados sobre apenas um dos ombros delicados, as melenas longas ondulando até o seu peito esbelto, escondendo um dos mamilos rosados contra a pele de porcelana. Não estava suado e desfeito como ele. Estava perfeito. A cútis fresca e lisa, levemente ruborizada em suas maçãs. Os fios despenteados, parecendo impecavelmente adequados mesmo assim. A respiração tranquila, preferindo as narinas pequenas aos lábios que, embora úmidos e inchados, permaneciam fechados. Sem ofego. Sem gemido. Sem sorriso.

Hermes perdeu quase um minuto, só olhando para ele. Quando achava que já era o mais belo que alguém pudesse conceber, passava-se um segundo e ele lhe parecia mais bonito ainda. Mesmo daquela maneira. Sem suas palavras libidinosas, sem sua voz de seda chinesa, sem suas carícias maravilhosas, sem seu sorriso devastador. Ele era lindo assim. Quietinho. O rosto liso e estranhamente misterioso, sem dizer uma palavra. Apenas fitando-o com aqueles olhos escuros. A postura ereta, elegante e segura. Altiva até. Como um rei acomodado no seu trono. Porque eles estavam na cama. E, na cama, Eros era o soberano absoluto.

— Eros? — Mercúrio inquiriu, incerto como poucas vezes na vida.

Cupido o escalou de repente, sem dizer uma palavra. Trazendo seu cheiro doce e apimentado, deixando as melenas quase brancas caírem em volta do seu rosto e das mechas brancas de fato. Os cabelos de Mercúrio ficaram quase quietos, como se tentassem imitá-las. Tinha tanta pele em contato. Eros parecia feito de veludo. Quem o tocasse e não suspirasse, tinha problemas de tato. E mais uma vez Hermes se pegou pensando em como ele era agradável em e para todos os sentidos.

Alguns fios louros roçavam macios nas suas bochechas. Os lábios rosados estavam muito perto, e por pouco o deus dos ladrões não os tomou de novo. Foi algo nos olhos dele que o impediu. Aqueles olhos negros. Diferente de tudo nele, a ira do Cupido não era bonita. Seu irmão sabia bem disso. Nos últimos dias por vezes, quando Hermes se via pensando nos seus traços perfeitos e modos suaves, quase se esquecia do que ele fora capaz de fazer pelo orgulho ferido. Quase não acreditava que tivesse destruído alguém. Mais de uma vez. Mas ele tinha.

E quando se viu dentro daqueles implacáveis orbes pretos, Hermes finalmente acreditou nisso.

Eros estava sobre ele como que fosse montá-lo, mas isso não aconteceu. O Amor tinha outro prazer em mente. Ainda sem expressão que traísse seus pensamentos, os olhos fixos daquelas íris âmbar, o deus do sexo passeou com umas das mãos pelo espaço parco e quente entre seus corpos despidos, e voltou ao sexo do amante. Não precisava olhar o que estava fazendo. Seus dedos sabiam exatamente o que fazer e como fazer, onde tocar e por quanto tempo. Ninguém culparia Hermes por estar estremecendo em alguns segundos.

Mercúrio virou a cabeça para um dos lados, apertando os olhos. Eros estava tentando enlouquece-lo. Estava-o levando para onde ninguém nunca tinha levado. Estava entupindo seu corpo de deleite. E, daquela distancia, não importava onde tentasse meter a cara, ele poderia ver isso no seu rosto.

Hermes levou apenas um instante para constatar que era exatamente isso o que ele estava querendo.

Ele queria ver o prazer, o deleite e a loucura. Queria ver de pertinho o que estava causando. Queria que fechasse os olhos e mordesse os lábios. Queria que mostrasse os dentes e gemesse entre eles. Queria que murmurasse seu nome sem querer.

E era exatamente isso que Hermes estava fazendo. Porque era tudo o que conseguia fazer.

Então sim. Gritou no nome dele. Quando chegou o momento, os servos próximos poderiam ter ouvidos aquelas duas sílabas ecoarem pelo corredor, escapando por debaixo da madeira da porta.

O deus dos viajantes puxou o ar aos pulmões, para expulsá-los sonoramente. O corpo ainda torpe pelo fim orgasmo intenso. Tinha os olhos fechados, mas sentiu o amante deitado sobre ele. Tão leve quanto sempre. Agradando sua pele com a dele. O perfume de orquídeas e pimenta emanando pelos poros.

Abriu as pálpebras devagar, a vista fazendo-o silvar por entre os dentes. Eros estava lambendo os dedos tranquilamente, limpando a sua semente perolada e fresca dos dígitos finos. Uma curva de satisfação nos cantos da boca cheia, como se fosse calda de fruta. E depois presenteava seu rosto pasmo com um sorriso terrível, para deitar calmamente a cabeça clara no seu peito e cair num cochilo suave. Como se nada houvesse acontecido.

— Você será a minha perdição, Passarinho... – Hermes murmurou baixinho. Sem saber se ele estaria ouvindo.

Mercúrio não tinha a mínima ideia do quanto estava certo.

Notas finais
Hm... deuses do céu, o que vamos fazer com esses dois viciados frenéticos? Estão tentando me derreter. só eu adoro o modo manipulador e esperto de Hermes, ou as birras de Cupido? Não, eu não vou me despedir. É o último capítulo propriamente dito? sim. E meu coração não sabe que se quer explodir de alegria ou implodir de agonia. Não estou pronta ainda, e essas não serão as últimas palavras da fic. Ainda tem mais um pequeno epílogo, um desfecho que a estória merece (afinal, precisamos saber no que Dionísio enfiou Apolo, alguém tem ideia?) E não pensem que vão se livrar de mim tão facilmente, porque Erótica já está em ponto de bala... Beijos alucinados e obrigada por lerem ♥ Já já eu volto pra vocês...