Bacanal
18 Opostos Complementares - Parte 2
Notas iniciais
Parte 2 – Os lábios dele e o silêncio.
Eu te usarei como um sinal de alerta
E se você falar que não faz sentido,
Então você terá perdido sua cabeça.
Eu te usarei como ponto de foco
Assim, eu não perco o lado que eu quero.
E eu segui em frente, por que eu pensei que eu poderia,
Mas eu senti sua falta mais do que eu pensei que eu sentiria
Eu te usarei como um sinal de alerta
E se você falar que não faz sentido,
Então você terá perdido sua cabeça...
— Amber Run, “I Found”
— Sim? — Apolo perguntou calorosamente, com um sorriso impresso nos lábios morenos, exibindo todos os seus dentes brancos, alinhados e compridos.
Eros esqueceu o que ia dizer.
Primeiro porque ele era uma visão. Os cabelos dourados e levemente crescidos, desordenados pelo calor da luta, brilhando molhados contra a sua pele bronzeada como fios de ouro polido. Parecia haver luz atrás das suas íris, reluzindo num azul-celeste impossível, adornados pelos seus cílios louros e compridos, suavemente úmidos pelo recente acesso de riso. O esforço da batalha ainda presente pelo sangue que corava a pele sobre o nariz aristocrático e as bochechas altas. Os músculos bem trapalhados dos braços expostos ressaltados pelos resquícios da chuva que ele não tinha secado, a túnica cerúlea levemente colada no corpo.
Segundo porque, Eros sabia com toda certeza, jamais havia recebido um sorriso sincero dele na vida. Ela já o olhara com indiferença, com raiva, com impaciência, com indignação, com magoa e com desconforto. Já o encarara com receio, desconfiança, desprezo, constrangimento e até mesmo com ódio bruto. Mas nunca com aquela leveza, com tranquilidade, com divertimento. E um sorriso largo e brilhante entre os lábios. Se já o achava belo e desejável antes, teria de rever os seus conceitos.
— Eros? — o deus do sol o chamou, erguendo um pouco as sobrancelhas, parecendo achar aquela contemplação muda divertida.
— Ah, sim... – o Cupido murmurou, balançando um pouco a cabeça.
Hoje foi o dia mais estranho da minha vida... ele pensava. Primeiro aquela discórdia que quase acabou em sangue. Então uma invasão de gigantes! E lá estava ele, entrando na justa como um completo louco. Depois seu pai aparecera e fizera... aquilo (que ele só conseguira absorver depois da quinta taça de vinho). E agora Apolo estava ali, sendo simpático e gentil. Eros arregalou os olhos para si mesmo. Tífon podia escolher esse momento para se libertar e destruir o mundo, seria bastante apropriado... Mas antes de voltar ao que queria saber, acabou cedendo a sua natureza empática e perguntando:
– Você está bem?
Apolo acabou de limpar as lágrimas dos olhos, soltando umas risadas curtas e meio descontroladas pelo nariz.
— Estou sim – afirmou tranquilamente, ainda com um sorriso verdadeiro na boca esculpida – Apenas admirando o meu grau vulgarmente absurdo de tolice inata – acrescentou, como se não fosse importante, piscando divertidamente – Nada demais.
As sobrancelhas de Eros subiram tanto que teriam feito linhas na testa, se sua pele não fosse perfeita.
— Acho melhor você dar um tempo nisso... – ele sugeriu docilmente, olhando para a taça cheia que o Sol tinha nas mãos. Só bêbado ou morto par ele passar por cima do próprio orgulho daquela maneira.
— Ah, eu nem toquei nisso – Apolo afirmou, largando o cálice numa mesa qualquer. Voltando o olhar para ele pacientemente.
— Certo... – Eros murmurou, desistente. Lutar enlouquece. Concluiu, somando a visão daquele Apolo feliz e ridiculamente despreocupado a de Dionísio dançando quase despido no fundo – Hermes – ele disparou, olhando-o quase austeramente. Mas a voz lhe saiu terrivelmente frágil e quebradiça – Como ele está?
A postura de Apolo mudou no mesmo momento. Ele endireitou as costas largas na cadeira, o sorriso bobo sumindo dos seus lábios, uma expressão mais séria e concentrada tomando o lugar. Só por aquilo, Eros já estremeceu.
— Ele se machucou muito? — perguntou nervosamente, ansioso demais para esperar a resposta – Quebrou alguma coisa? Feriu algum órgão? Rompeu ligamentos? Céus, pode ter tido hemorragia interna! Ou síndrome do esmagamento...
— Eros...
— A culpa é minha! Eu tentei ajudar, juro que sim! Ele estava ficando cansado, eu podia ver. O gigante quase o pegou uma vez! Achei que se não pudesse vê-lo, não conseguiria acertá-lo, mas...
— Eros...
— ...foi uma completa estupidez! E aquela coisa o acertou mesmo assim. Tudo aconteceu tão rápido! Eu voei o mais depressa que pude para alcança-lo. Mas no fim, não consegui evitar a queda! E agora ele está...
— Bem! – Apolo o cortou, elevando a voz acima daquela histeria, ficando de pé na frente dele – Hermes está bem, Eros – ele afirmou, tocando-o levemente em ambos os ombros, um sorriso suave e calmante no canto dos lábios.
Eros parou, piscando bobamente.
— O que? — ele perguntou, agudo e incrédulo – Mas... ele não se mexia e...
— Ele desmaiou – Apolo explicou com paciência – Mas de pura exaustão. Somada a uma concussão, que não foi séria. Tem meia dúzia de esfolados, vai ficar com torcicolo e um galo dolorido por uns dias. Mas está bem – afirmou, a voz segura e calma – O gigante estava desorientado, não o acertou um golpe de verdade, e graças a você, ele não chegou a atingir o chão. Ele não quebrou nada, nem se feriu internamente. Aquele idiota está praticamente intacto! – acrescentou, alargando o sorriso por um momento. Porém, depois, deixou uma amenidade séria tomar seu rosto e tom antes de dizer – Obrigado.
Eros oscilou as íris pelos olhos dele, sem saber o que dizer. Emudecido pelo alívio visceral.
— Se não fosse por você, Hermes teria se ferido seriamente. Está certo, ele estava cansado. Nossos lances estavam fazendo muito pouco estrago. E ainda sim, não tínhamos uma estratégia melhor. Era o único jeito – Apolo continuou — Hermes não daria valor a própria segurança, não pararia por estar exausto. Era questão de tempo para que errasse um movimento ou vacilasse na velocidade. Atena e eu já estávamos desesperados. Então você apareceu – ele soltou um suspiro de alívio, piscando lentamente os olhos azuis – Essa luta foi sua, Eros. Não sei o que teríamos feito sem você...
— Não foi grande coisa... – o Cupido balbuciou contrariado, virando o rosto para que o cabelo comprido e ainda meio úmido ocultasse suas bochechas rosadas, de um constrangimento que nunca nudez nenhuma teria lhe causado. As mãos cálidas de Apolo ainda o prendendo pelos ombros, esquentando sua pele por baixo da roupa – Eu não planejei nada do fiz. Foram apenas um monte de ações desesperadas e...
— Você salvou meu irmão – Apolo o cortou, os olhos sérios, sinceros e agradecidos – Obrigado – repetiu, apertando levemente os dedos em volta dele – Muito, muito obrigado.
Eros voltou o rosto para ele devagar, e o encontrou sorrindo. Não sabia o que tinha acontecido com o Apolo orgulhoso, desdenhoso e ranzinza, mas aquela versão lhe parecia muito melhor. E acabou lhe sorrindo de volta.
Os dois o tinham reconhecido aquele dia. O pai e o tio. Que ele acreditava que o desprezariam e desdenhariam para sempre. Sim, o mundo podia acabar agora. Ele não se importaria tanto assim.
— Ele deve acordar em algumas horas, aliás – o Sol acrescentou, desfazendo-se daquele toque inédito e sentando-se de volta na cadeira – Hermes tem um núcleo de energia interna incomparável, mesmo que o esgote ao limite, estará novo em folha em pouco tempo – e deu um sorriso de canto antes de acrescentar – Achei que gostaria de saber...
Oh, céus, são alucinações ou ele realmente acabou de ser malicioso e sarcástico comigo? Eros perguntou-se maravilhado. Nem vendo quando abriu um sorriso de pura lascívia para retrucar.
— Sim... me agrada muito saber... – murmurou, movendo os lábios lentamente – Parece bastante... útil — Não havia a menor dúvida agora.
Aquele Apolo era muito melhor.
Eros acabou soltando uma risada gostosa, decidindo se acomodar no banco comprido ao lado dele. Se alguém lhe dissesse que estariam rindo um para o outro naquela manha, ele teria o expulsado aos palavrões. Toda aquela raiva agora toda parecia... esgotada. Velha. Desnecessária. Gritos nunca foram o seu modo de resolver com as coisas, e se pensasse nisso um tempo mais, acabaria se envergonhando um pouco. Por isso, acabou tirando aquilo da consciência. Decidido a lidar com toda aquela situação de outra maneira.
Mas todos os pensamentos sumiram da sua cabeça quando, por distração, acabou pressionando as costas contra o encosto de madeira dura do acendo, fazendo pontos brilhantes dançarem nos seus olhos pela dor.
— Eros?! – Apolo chamou, já se levantando por reflexo. No que o Cupido apenas tentava desfazer a careta de dolorida – Você está ferido? — ele perguntou, esquadrinhando a superfície visível do seu corpo com os olhos – Anteros garantiu que me diria se houvesse se machucado...
— ...Eu estou bem – ele afirmou, de uma maneira que os deslizes no seu tom contrariaram mortalmente. E Apolo o encarou numa leve repreensão, aproximando as sobrancelhas, não acreditando nem um pouco.
— Onde dói? — insistiu, pegando o rosto dele nas mãos sem nenhum aviso, estudando os reflexos da sua pupila, a cor dos lábios e a temperatura da pele lisa.
— Hum... não que eu não esteja gostando disso... mas.. – Eros murmurou, sorrindo manhosamente entre seus dedos treinados e quentinhos – não é realmente necessário...
— Eu sei reconhecer dor quando a vejo, Eros – Apolo replicou, sério e autoritário – Vai me dizer onde é, ou terei de despi-lo e examiná-lo em publico?
— Oh... – Eros arquejou, se fazendo ultrajado. E a voz que veio a seguir era languida, melosa e lindamente arrastada – Não faça promessas tão doces, Polly. Posso exigir que as cumpra...
(Acontece, queridos mortais, que Apolo não estava só prometendo...)
— Ei, tudo bem! Certo! Tudo bem! EU JÁ ENTENDI! – Eros exasperou. Quando Apolo realmente começou a desamarrar o seu cinto. O pegando completamente de surpresa – Credo, você é sempre autoritário assim?
— Onde? — Apolo sussurrou ameaçadoramente, ainda segurando firmemente as extremidades de couro fino do seu cinto, erguendo apenas uma sobrancelha de um jeito perigoso. Embora por dentro desse um sorriso de vitória.
Eros deu um suspiro derrotado, esperando ele tirar as mãos da sua roupa. Não que tivesse vergonha da própria nudez, ou mesmo do volume do público. Mas, deuses, seu pai podia estar ali ainda! Por Zeus!
— Não é no meu corpo... – ele murmurou, fazendo o outro franzir o cenho – São as minhas asas – explicou – Absorveram o pior do impacto... – disse baixinho, fazendo uma careta agoniada só de lembrar.
Apolo abriu os olhos em compreensão, assentindo levemente.
— Me mostre – ordenou.
— Não tem por que, elas vão se curar sozinhas.
— E você vai continuar com dor. Posso muito bem adiantar o processo. Anda, me mostre.
— Você já curou todo mundo. E depois de lutar por horas! Seria esgotá-lo sem motivos e...
— Eros... estou perdendo a paciência... – Apolo avisou, num tom grave. Sério. Deliberadamente controlado.
E absurdamente sensual.
Assim é difícil... Eros pensou, largando o segundo suspiro vencido, virando-se sentado no banco de madeira, ficando de costas para ele. Cedendo a postura imperiosa e terrivelmente (leia-se maravilhosamente) máscula do antigo rival.
— Elas devem estar horríveis... – murmurou, estranhamente acanhado, começando descer a manga da túnica por um dos ombros. Ela já estava rasgada no lugar onde as asas se abriam, ainda meio molhada e suja de chuva, de modo que aquilo era desnecessário, mas acabou sendo uma maneira dele se preparar para a dor que viria a sentir.
Apolo o assistiu despir a túnica até a cintura, completamente calado, expondo toda a pele branquíssima e impecável das costas nuas com movimentos fluidos e languidos. Ela era tão lisa que parecia porcelana. Uma linha suave perfeitamente desenhada no meio delas, os músculos delicados dos ombros e as escápulas movendo-se por baixo da cútis.
— Não seja tolo, Eros... – ele murmurou devagar – Não existe nada feio em você.
Eros lançou lhe um olhar surpreso por cima do ombro, as íris escuras muito expostas pelas pálpebras, sombreadas pelos cílios compridos. Ele sabia ouvir desejo, na voz de qualquer um. E acabou entreabrindo os lábios cheios e rosáceos de maneira instintivamente sedutora. Sorte de Apolo estar fixado na pele bonita e linha languida da sua coluna, ou aquilo o teria desconcentrado mais que um pouco.
O Cupido respirou fundo, voltando a face para o fundo do salão, tirando os poucos fios louros ainda perdidos nas costas e os acomodando no ombro direito. Acabando de desnudar a nuca macia e parte do pescoço longo e elegante. Com um leve apertar de lábios receoso, começou a abrir as suas asas.
Apolo arregalou os olhos, fascinado. Era como ver um lírio florescer. As pétalas cândidas se abrindo devagar. No que as penas iam crescendo e se esparramando umas sobre as outras. Alongando-se luminosas pelas laterais. Até se esticarem completamente em ambos os lados do Cupido. Numa envergadura que ultrapassaria facilmente quatro metros. E mesmo compostas de ossos aerodinâmicos, músculos fortes e penas espessas, pareciam tão leves quanto plumas. Passando a impressão que poderiam desmanchar-se lindamente, como um dente de leão soprado pelo vento. Emitindo um levíssimo brilho metálico, tal qual houvessem sido salpicadas de pó de platina.
Lindo... Apolo pensou, nem vendo que tinha aberto os lábios um “Oh...” admirado. E quase verbalizou aquela opinião quando percebeu a postura tensa e forçadamente estática do outro, como quem tenta desesperadamente resistir à dor, e não perdeu mais nem um segundo.
— Farei o mais rápido que puder, prometo – o deus da medicina sussurrou sobre o seu ombro, no que Eros só conseguiu assentir, mordendo os lábios rosados.
Apolo não estava mentindo quando disse que faria no tempo mais curto de dispusesse, o que de maneira nenhuma significou que foi um processo rápido propriamente dito. Curar era algo preciso e delicado, que o deus dourado lavava extremamente a sério. Poderia ser ligeiro e apressado, ou meticuloso e bem feito, nunca os dois. Fizera muito bem em insistir para cuidá-lo, vendo como as asas foram maltratadas. Várias penas foram arrancadas ou deslocadas. Farpas afiadas tinhas se cravado na pele sensível e agora exposta. Os músculos foram esmagados e os ossos, pressionados até trincaram.
Apolo tirou as lascas de madeira uma por uma, com uma mão leve e cuidadosa, estancando o icor na pele machucada. O metacarpo da asa esquerda era só pedacinhos, o rádio e o úmero da direita estavam trincados, e as falanges de ambas torciam-se em posições estranhas. Embora aquilo tenha feito o deus do sol apertar os lábios de dó, não o surpreendeu. Os ossos de aves eram ocos em sua maioria, finos e delicados, feitos para serem leves, não resistentes, e aquilo devia estar doendo um bocado.
— Acabou... – ele disse por fim, sabendo que tinha feito o possível. Os músculos precisariam de tempo e descanso, a as penas perdidas cresceriam novamente, ele tinha certeza.
Eros soltou um suspiro tão manhoso e aliviado que ele quase riu. Aquilo tinha doido bastante, a ponto de quase machucar os lábios cheios de tanto morder. Mas era Apolo colocar um osso de volta no lugar e o local era tomado por um calorzinho gostoso e anestésico. E agora ele já não sentia dor nenhuma, apenas uma calidez amena e dormente.
— ...Obrigado – o Cupido murmurou, retraído as asas curadas de volta para a pele, ajustando a roupa no lugar e virando-se de frente outra vez, soando tenro e sonolento.
— Era o mínimo – Apolo respondeu suave, mas sério. Vendo Eros encostar-se molemente nas costas do assento, com as pálpebras pesadas e um sorriso meio bobo – Ainda levará umas duas semanas para que possa usá-las. E deve me lembrar de dar-lhe algo para dor enquanto isso.
— Uhum... – ele mal gemeu, baixinho. Acomodando o corpo macio na cadeira, cedendo ao cansaço do dia, e deixando os cabelos louro-platina escorregarem pela face. Fazendo Apolo se lembrar de um passarinho escondendo o rosto debaixo da asa quando quer dormir.
— Certo – o Sol disse, rindo. Eros conseguia ser bonitinho quando se distraía.
Apolo voltou para o próprio assento, quase largando um suspiro cansado. O deus da paixão estava certo quando disse que já tinha usado muito de si mesmo, e seus músculos pesavam na cadeira. Mas de maneira nenhuma deixaria a pessoa que tinha salvado seu irmão com dor por mero capricho.
— Ainda estou bravo com você – ouviu a voz sedosa e agora letárgica do Cupido dizer – Pode não parecer, porque estou verdadeiramente agradecido e você me deixou mole! – ele esclareceu, quase acusador, visto que mal abria os olhos para falar, mexendo apenas a boca cheia lentamente – Mas ainda estou bravo com você...
— Eu sei... – Apolo murmurou de volta – É justo – acrescentou placidamente. E deixou os olhos vagarem por ele de maneira pensativa antes de dizer – Há algo que preciso lhe contar, Eros – ele começou. A voz grave e melódica soando estranhamente humilde – Não para me justificar, nem mesmo amenizar a minha culpa – afirmou, firmemente – Eu só quero que você saiba...
Eros fez um esforço titânico para abrir as pálpebras, fixando aquelas íris implacavelmente pretas no antigo rival.
— Diga – o Cupido murmurou. Ignorando o sono anestésico que o estava chamando.
Foi então que Apolo contou. Absolutamente tudo. Desde a promessa que tinha feito a Artêmis, os motivos de o levaram a tentar por fim a aquela inimizade antiga. O que sentiu no bacanal para onde ele o levou, o modo como a áurea de Dionísio o desconcertou totalmente. Que não conseguiu fazer nada útil, nem pensar em algo que não fosse ele pelos próximos três dias, e como isso o tinha irritado e assustado. Apenas piorado com a ceia no seu palácio. Como saber a intimidade dos dois o tinha incomodado, e como a sua pele reagiu onde o menino tocara inocentemente. Contou até do sonho de teve naquela madrugada. Que o pequeno tinha lhe beijado sem aviso antes de convidá-lo para a festa e que ele o tinha queimado a boca sem querer. Passou por toda a conversa que tiveram no telhado, onde perdeu os últimos resquícios da sua cautela e sanidade. Como tudo o que veio a seguir foi frenético, impulsivo, apressado e sem controle. Como fora delirante e delicioso. Como tinha mudado tudo.
Então contou sobre as marcas. Sobre o sangue. Sobre os dentes e as unhas. Contou sobre o desespero e a culpa. Sobre o modo como tinha se odiado. E como achara que só poderia protegê-lo se o afastasse.
— Você tinha razão – o Cupido murmurara no final, depois de ouvir a história toda calado – seu grau de tolice inata é admirável...
Apolo acabou soltando uma risada triste e conformada.
— De fato...
— E você estava rindo histericamente quando eu cheguei porque viu do que Dionísio é capaz e agora está se sentindo meio ridículo – Eros acrescentou, quase duramente, num tom mais afirmativo que questionador.
— A facilidade com que você lê minhas emoções é perturbadora – o Sol admitiu, visto que tinha sentido isso desde a ceia no Palácio da Paixão.
Foi a vez de Eros largar um risinho curto.
— Passe a vida tentando ler os sentimentos de Anteros, e o resto fica fácil para você – ele gracejou, fazendo o outro rir com ele.
Eros soltou um resmungo meio suspirado, sentando direito no banco. Apoiando os cotovelos nas coxas e olhando firmemente para o outro antes de dizer.
— Não vou perguntar se o ama – o Cupido começou – Eu vejo isso. Eu sempre vi. E mesmo agora, que vislumbrou o seu lado mais sanguinário e assustador, que esteve tão perto do seu poder de destruição e de loucura, continua aí – ele deu um sorriso suave e afetuoso – Eu nunca tinha visto, sabe. Sabia que ele podia fazer aquilo. Cibele não apenas o ensinou a lutar, como a controlar todos os poderes. A destravar todas as formas. Eu pedi para ele me mostrar. Pedi várias vezes. Mas ele sempre recusou. O máximo que fez um dia, depois de muita lamúria da minha parte, foi transformar as orelhinhas – Eros deu uma risadinha – Ficou tão fofinho...
— Por que ele nunca te mostrou? — Apolo perguntou, imitando a posição dele, os olhos azuis brilhando de interesse.
— Ele tinha medo – o Amor esclareceu – Nunca me disse, mas eu sabia. Tinha medo de como eu o veria. Achava que eu me assustaria. Que começaria a temê-lo e talvez não o quisesse por perto mais. Eu já tinha visto o pior do seu Louco interior. Ele temia que ver o Monstro também fosse demais para mim – ele disse, lançando um olhar breve e carinhoso para onde o menino ainda dançava sem descanso nem controle – É bobagem, claro. Meu amor por ele não é condicional – e fixou os orbes negros no Sol antes de completar – E eu agora vejo que o seu também não.
Apolo apenas assentiu com firmeza, e Eros voltou a olhar Dionísio.
— Apesar de tudo, eu devo confessar – o Cupido murmurou, os olhos levemente arregalados – vê-lo daquele jeito foi...
— Incrível – Apolo cortou sem se conter, os olhos também presos em Baco reluziam – Foi absolutamente e devastadoramente incrível. Ele é... especial – o Sol murmurou, arrebatado – Meu Dionísio é muito especial.
Eros teve de conter-se muito para não rir. Os orgulhos e másculos eram os que ficavam mais bobos e ridículos quando apaixonados, concluiu. E ele estava perto de soltar um “assustador” antes daquele surto fascinado. Mas agora, apenas concordou.
— Sim – disse sorrindo – Ele é sim.
Ficou assistindo Apolo babar no seu amigo por cinco minutos antes de conseguir dizer.
— Tem minha benção... – murmurou, fazendo o Sol voltar-se para ele de olhos arregalados – Apesar de ainda querer fazer desse seu peitoral impressionante um alvo cravado de flechas, eu entendo – afirmou – Entendo por que fez o que fez. E sei que tive parte da culpa. Pelos seus traumas. Pelos seus medos. As lágrimas de Dísi pesam na minha consciência também – Eros respirou fundo, passando as mãos pelos cabelos – Mas ele ama você. Está bravo, ferido e, agora, com medo também. Mas ama. Então... eu só... – ele puxou um pouco as melenas da franja nervosamente, tentando não ser levados pelas próprias emoções – Eu não vou ameaçar você. Nem exigir. Eu só vou pedir, por favor... – e largou os cabelos, afogando Apolo no mar escuro e suplicante dos seus olhos pretos – Não o machuque desse jeito de novo – ele implorou, os cílios inferiores ficando meio úmidos – O corpo dele é forte além do imaginável, mas a mente... – ele suspirou — A mente dele frágil. E o seu coração está quebrado. Ele já perdeu tantos dos que ama. Não suporta mais ser abandonado. Se fizer isso outra vez... Se o deixar assim...
— Não vou – Apolo interrompeu, os olhos duros e firmes como duas safiras – Eu não posso – admitiu, sem nenhum acanhamento. Antes de acrescentar – Nunca mais...
Eros segurou o olhar dele por muito tempo, e não viu nada que não fosse certeza, determinação e sinceridade ali. Por isso, acabou recostando-se molemente no assento outra vez, já sem dor nenhuma para machuca-lo, e uma expressão levemente satisfeita nublando seus olhos escuros.
— Vocês são Opostos Complementares, sabe...? – ele comentou, desinteressadamente. Vendo uma surpresa confusa se espalhar pelo rosto do antigo rival – Eu tinha desconfiado disso desde o bacanal. A forma como foram tão dramaticamente afetados pelas áureas um do outro. E, depois de ouvir tudo o que me contou, não tenho mais duvida nenhuma. É a única coisa que explicaria o comportamento dos dois. O modo como se sente incivilizado enquanto ele fica manso. Por que, acredite, Dionísio não é nem um pouco manso. Muito menos na cama... – Eros provocou, sorrindo de lado – Sempre foi completamente selvagem. E quem acaba cheio de marcas de unha, mordidas vermelhas e as roupas todas rasgadas sou eu...
— O que isso quer dizer? — Apolo cortou, tentando soar educado. E ignorar uma pontadinha afiada e inconveniente de ciúme. Até porque estava verdadeiramente curioso.
Eros apertou os lábios volumosos um no outro, pensando na melhor maneira de explicar-lhe isso, e acabou sorrindo quando a encontrou. Nada é mais assimilável e prático que o exemplo.
— Quando Anteros nasceu, eu ainda era meio criança. Não tinha crescido como os gêmeos. Eu não queria. Sabia que me fariam mais mal. E mesmo quando foram embora, continuei parecendo só um menino. Eu achava que se crescesse, teria que ir embora também. Teria que tomar meu próprio rumo, sair debaixo das saias da minha mãe, e isso me assustava muito. Eu não queria ficar sozinho. Eu não sei ficar sozinho... – ele começou lentamente – Mas aí ele chegou... – o sorriso que Eros deu nesse momento foi tão largo e bonito que quase fechou seus olhos pretos – As nossas amas morriam de medo dele – contou, dando uma risadinha – Ele nunca chorou. Nem quando nasceu. E também nunca sorria, nem fazia aquelas caretinhas fofas de criança. Ele só ficava olhando para a gente, esquadrinhando tudo com aqueles olhos de gelo seco. Elas ficavam apavoradas – repediu, ainda rindo – Mas eu não. Eu adorava segurá-lo. Conversava com ele o dia inteiro, mesmo sabendo que não me entendia. Fazia ele dormir na minha cama quando minha mãe deixava. E mesmo daquele tamaninho, ele já me olhava feio quando eu o abraçava demais – Eros deu um suspiro nostálgico – Ele me acalmava. Mesmo ainda sendo só um bebezinho, a presença dele fazia tudo parecer mais ordenado, mais sereno. Eu sempre fui à flor da pele, uma confusão de sentimentos e emoções sem controle. Mas não quando estou perto dele não é assim. E desperta em mim aquilo que eu mais preciso e que mais me falta. A razão, o controle, a ordem. Assim como eu sei que sou o único capaz de destravar seus sentimentos e emoções. De fazer com que ele se sinta real – o Cupido olhou bem para seu ouvinte antes de completar – Ele é o pedaço que me falta. Minha metade. Meu oposto perfeito. Foi o fim da minha solidão. Com ele eu pude crescer...
Apolo continuava olhando para ele, sem ao menos piscar. Numa concentração que o incentivou a continuar.
— Nós somos caricaturas, Apolo. Somos polos e extremidades. Os humanos, nesse sentido, são muito mais completos e inteiros do que nós. Conseguem ter luz e trevas, o melhor e o pior de tudo dentro de si mesmos, são como uma colcha de retalhos. Mas nós não. Nós somos lisos e puros. Somos partes concentradas. Somos oito ou oitenta. Somos a essência das coisas – Eros pegou do chão uma peninha que tinha caído e a equilibrou horizontalmente no indicador – Equilíbrio – ele murmurou – Nós precisamos de alguém que nos equilibre. Que nos complemente. Que nos salve da nossa própria natureza. Ou nos perdemos em nos mesmos... – e soprou a pena, que saiu rodopiando levemente pelo salão – Anteros é o meu complemento. Como meu pai é o da minha mãe. Como Dionísio é o seu – ele voltou a olhar o deus do vinho dançar antes de completar – Você vê? Ele é claro onde você é escuro e escuro onde você é claro. Ele é a noite e você o dia. É a terra e você o céu. Ele é a loucura onde você é razão. É o descontrole da sua educação. A espontaneidade do seu cometimento. A selvageria da sua civilidade. É o caos da sua ordenação – olhou-o de canto seriamente – Ele faz você se sentir inculto. Faz você perder o controle e abster-se da razão. Faz de você selvagem, porque é disso que você mais precisa. Enquanto ele se sente dócil, pacífico e são ao seu lado – e deu um sorriso travesso para Apolo ao dizer – Agradeça a fortuna por isso, Polly. Nem você e a sua estupidez de estimação, nem as vulgaridades do destino, nem o tempo ou as convenções, nada no mundo poderiam comprometer o quanto ele quer e precisa de você...
Apolo ficou um momento calado. Apenas piscando e absorvendo a informação.
— O que eu preciso fazer para que pare de me chamar disso? — ele perguntou de repente, fazendo Eros rir.
— Faça meu amigo feliz... – ele murmurou, acomodando-se sonolentamente no assento outra vez.
— Mesmo? — o Sol disse, esperançoso.
— Não – Cupido respondeu de imediato, dando sorriso maldoso – Vou te chamar assim até esse mundinho azul acabar, é melhor se acostumar... – completou, os olhos já se fechando outra vez.
O Sol decidiu ser bonzinho e privar-se de responder, deixando o outro cair no cochilo que tanto queria. Se chegasse a dormir de verdade, Apolo encontraria uma cama para coloca-lo. Ele merecia.
Faz tanto sentido... O deus a luz pensou, perdendo os olhos no chão, mas não vendo nada em específico. Apenas deixando a mente trabalhar as descobertas. As palavras de Eros pareciam encontrar-se amistosamente com uma verdade já concreta, mas ainda não assimilada, no seu interior. E ele não achou num um único modo de contestá-la. Até mesmo na aparência, o menino era o seu oposto. Pequeno e delicado onde ele era alto e musculoso. Tinha cachos castanhos onde seus cabelos eram lisos e louros. Pele branca-rosada contra a sua morena-bronzeada. Olhos verde-escuros contra os seus azul-claros. Voz doce e cálida ante seu timbre melódico e grave.
Minha metade. Meu oposto perfeito. O pedaço que me falta. Aquilo era belo e poético, ele pensou. Como também era assustador. Não importava. Era verdadeiro e inevitável. Era o medo que ele mais queria na vida.
Apolo levantou os olhos para comtemplar o menino dos seus olhos outra vez.
Mas o que ele viu quase o tirou do chão.
— Eros! – o Sol chamou, alto e descortês, já nem se lembrando que tinha decidido deixa-lo dormir.
— Hum... – o Cupido resmungou, sem nem abrir os olhos.
— EROS! – Apolo gritou, o sacodindo sem o mínimo de delicadeza.
— Ai, Zeus, o que?! – ele acordou assustado, quase caindo do banco.
— Tem alguma coisa errada! – o outro respondeu, apontando para o fundo do palco.
Eros piscou os olhos para tirar o sono da vista e viu.
Dionísio estava entre duas bacantes, que o seguravam por ambos os braços delicados, praticamente arrastando-o para fora do palco. Entreolhando-se com puro terror. Os olhos dele estavam vidrados. Fixos. Quietos.
Até que começaram a dançar sem nenhum controle. A boca pequena e vermelha movendo-se em formas repetidas. Frenéticas.
E insanas.
— Ah, não... – Eros murmurou, antes de levantar-se rapidamente, já esquecendo o sono perdido. E sem explicar absolutamente nada correu até o amigo.
Dionísio estava perdendo a cabeça.
**
— Não chore agora, Arpe! – Mete ralou entre os dentes – Nosso mestre precisa de nós, contenha-se!
A bacante loira engoliu a seco, tentando limpar a umidade dos olhos, e quase deixando Baco escapar entre seus dedos.
— Ah, Zeus! – ela exclamou, assustada, segurando-o de volta.
— Dançavinhoesexo-dançavinhoesexo-dançavinhoesexo... – Dionísio repetia sem parar.
— Ele já está no segundo estágio, temos que trancá-lo agora! – Mete exclamou, acelerando o passo, puxando os dois a força. Perdoe-me por isso, senhor... a mulher pensava, trincando os dentes. Não vou deixa-lo machucar ninguém, eu prometo.
— Devíamos chamar mestre Eros – Arpe sofregou, correndo atrás dela.
— Dança, vinho e sexo é o que eu sou... – Dionísio apontou, seriamente – Sexo. Quero sexo. Onde ele está? Ah, ele me abandonou. Me colocou para fora. Mas ele voltou. Agora está falando com o Amor. Eu queira que ele me visse dançar. Eu não sei por que, não importa mais. Ele me viu daquele jeito. Ele vai embora agora...
— Não temos tempo... – Mete balbuciou – Ele está entrando no terceiro estágio! – Foi rápido demais! A bassária percebeu, desesperadamente. Precisava chegar a um quarto reforçado imadiatamente, mas ainda estavam no meio de um corredor. Não vai dar... não vai dar tempo...
Para provar seu argumento, Dionísio simplesmente parou.
Ele não tinha resistido até o momento. Nem sequer dava sinais de saber o que acontecia a sua volta, e deixou-se levar pelas menades a beira do desespero.
Até agora.
Baco apenas firmou os pés no chão, sem nenhum esforço. E as mulheres sofreram um tranco tão violento que Mete caiu de joelhos no chão e Arpe foi lançada contra uma parede.
— Ele vai embora... Todos eles vão embora... – Dionísio sussurrou – Por que eles têm que ir embora? Por quê? — ele questionou, rosnando entre os dentes.
— Maldição... – Mete deixou escapar, levantando-se lentamente. Afastando-se a passos cautelosos e apavorados quase por instinto – Arpe...
— Ai... – a outra apenas gemeu, a mão direita sobre um corte na lateral da testa, que se abriu quando ela chocou a cabeça contra a moldura de um quadro na parede, manchando os dedos dela sangue.
— Sangue... – Dionísio murmurou, olhando obcecadamente para o líquido valioso, fazendo a mulher se encolher contra a parede – Tinha tanto sangue... – ele disse, se aproximando devagar – Mas não era assim – ele contou – Era vermelho. Muito, muito vermelho. Estava por toda parte...
— Arpe, saia daí... – Mete rosnou entre os dentes.
Mas ela não se mexeu.
— NÃO! – Dionísio gritou, pegando-a pelo pescoço – NÃO FAÇA ISSO! NÃO FAÇA! – ele berrou, levantando-a no ar – VOCE NÃO ENTENDE! O SANGUE É VERMELHO! ELE NÃO VAI VOLTAR! NÃO VAI VOLTAR! O CORAÇÃO DELE AINDA ESTÁ BATENDO. NÃO O TIRE DELE. NÃO TIRE!
— Mestre... – Mete choramingou, ignorando todos os seus instintos primitivos e forçando o corpo a chegar perto dele – Mestre, por favor, solte-a... – ela implorou, vendo os lábios de Arpe ficarem roxos.
— ELE VAI MORRER! POR FAVOR! NÃO ESCUTE AS VOZES... NÃO ESCUTE! É UM RIO! VOCES VÃO SE AFOGAR! VÃO SE AFOGAR!
— Mestre, por favor, ela vai...
Mete se calou quando ele a agarrou pela garganta com a outra mão, levantando-a ao lado da bacante loira, que já começava a parar de espernear, os olhos rolando para dentro das pálpebras.
— POR QUE VOCÊS NÃO ME ESCUTAM! – ele urrava, desesperadamente, sacodindo as duas no ar – EU VOU FICAR SOZINHO OUTRA VEZ, NÃO POSSO! – Dionísio gritou, negando a cabeça violentamente – NÃO PASSE A FACA NA GARGANTA! NÃO PASSE...
— Me perdoe, mestre... – Mete ainda murmurou, antes de começar a ser arrastada para a inconsciência. Eu falhei com o senhor...
— Dionísio, não! – uma voz conhecida exclamou.
Baco abriu os dedos de rompante, deixando as duas mulheres caírem no chão. Fixando os olhos no dono da voz.
Ah, céus... Eros pensou, a voz tremendo até em pensamentos, vendo o amigo caminhar até ele com aqueles passos mudos de predador.
Atrás dele, Mete sentou-se, bebendo goladas de ar. Mas Arpe permaneceu no imóvel no chão.
— Dionísio, meu amor, precisa se acalmar... – Eros disse suavemente, valendo-se do máximo de maciez da sua voz. Mas sabia que era um esforço inútil. Ah, um Tártaro de maldições! Aquela semana fora terrível para o amigo. Estava brincando no limiar da insanidade a dias. Não seria estranho tê-lo ainda mais desgastado por aquela luta. Por uma transformação que exigia tanto do seu controle e da sua força. Tripudiando com as suas identidades. O Fofo, o Louco e o Monstro. Era como Eros costumava pensa-lo. E as paredes que os dividiam eram finas e instáveis. E enfraqueciam quando pressionadas.
Ele devia ter ficado mais atento. Não havia chegado há tempo. Havia falhado com o amigo. Nada do que dissesse ou fizesse o traria de volta agora. Ele sabia. Preciso tirá-las daqui... O deus pensou, olhando para as bacantes por cima do ombro de Dionísio. No que a de cabelos escuros tentava fazer a outra acordar. Se o pequeno chegasse a feri-las de verdade, jamais se perdoaria por isso.
— Me acalmar... – Dionísio repetiu, inclinando a cabeça morena para um lado, os olhos embaçados e sombrios – Ele disse que eu devia me acalmar. Ele disse rindo. Enquanto enfiava na minha garganta, me impedindo de respirar – o menino contou, sem exibir uma única expressão, o rosto tão imóvel quanto de uma boneca – Ele era muito mau. Sempre me machucava quando montava em mim. Nunca parou, mesmo quando eu chorava. Ele gostava de me ver chorar. Lambia as lágrimas nas minhas bochechas. E depois me batia para ter mais. Ele tinha me comprado. Disse que eu era o bichinho dele. Que existia para satisfazê-lo. Disse no meu rosto e depois cuspiu em mim. Cuspiu em mim. Para que eu lembrasse o meu lugar. Ajoelhado aos pés dele. Sempre aos pés dele. Onde poderia me chutar se o incomodasse. Onde eu poderia chupá-lo quando ele mandasse. Fazendo-me engasgar até perder os sentidos. Eu o mordi uma vez. Ele quebrou meu pescoço. Mas não entendeu por que eu não morri. Então quebrou de novo. E de novo. E de novo. Cada vez mais devagar. Ele era muito mau... – repediu, se calando por um instante. Então um sorriso demoníaco nasceu na sua boca vermelha – Mas o sangue dele tinha um gosto bom... – devaneou – muito, muito bom...
— Ah, Dísi... – Eros murmurou, ouvindo seu próprio coração estilhaçar.
Essa era a pior parte, ter que ouvir as lembranças que a mente dele tentava tanto reprimir. Os anos que passou sendo usado e abusado como um escravo na mão dos mortais. Preso naquela forma inferior, sem sua força para protegê-lo. Sem seus poderes para defender-se. Sozinho, fraco, louco e indefeso. Um gatinho num circo de leões. Aquele dono nem havia sido o mais cruel, o Cupido sabia. Havia um que gostava de queimá-lo, marcando-o como fazia com o gado. Outro o deixava sem comer por dias quando se aborrecia, não necessariamente com ele. As duas únicas coisas que o confortavam naquele momento, era a certeza de que Dionísio se esqueceria de tudo outra vez quando a crise acabasse; e, é claro, o fato do amigo ter se transformado no Gato Vermelho sem querer e arrancado a cabeça daquele bastardo maldito em especial.
Literalmente.
Dionísio apoiou-se numa parede, escorando a lateral do corpo meio despido molemente, como se não suportasse o próprio peso. As íris dele estremeceram, e ele bateu a cabeça contra o mármore da construção com baque doloroso. Fazendo a pedra trincar. Estava começando a querer se machucar.
— Dísi, não! – Eros exclamou, aproximando-se dele.
Qualquer ser racional teria se afastado de prontidão. Qualquer criatura com amor a vida, correria para longe daquela situação. Qualquer pessoa prudente ver-se-ia saindo daquele lugar, por puro senso de autoproteção. Mas Eros não era razão. Não era frieza. Não era prudência. Era o amor e o cuidado. Era o afeto e paixão.
Era a pessoa errado naquele momento.
— NÃO TOQUE EM MIM! – Dionísio berrou quando ele chegou mais perto, empurrando-o pelo peito, jogando-o para trás com violência, fazendo-o cair sentado no chão – NÃO TOQUE EM MIM! NÃO TOQUE!
— Ah... – tudo o que saiu dos lábios de Eros foi um arquejo abafado e interrompido, ao chocar o cóccix direto no piso. Foi o tempo de abrir os olhos de expressão de dor para ver um quadro gigantesco sendo lançado na sua direção.
O destino está decidido a machucar-me hoje... Eros pensou, apenas fechando os olhos outra vez. Imaginando o estrago que aquela moldura pesada faria nos ossos finos do seu rosto. Sabendo que não conseguiria sair do caminho a tempo. Sinto muito, Dísi... Disse em pensamentos, já pensando no que poderia fazer para que o amigo se perdoasse por aquilo. Contando os segundos para o impacto cruel.
O impacto que nunca chegou.
Não a ele pelo menos. Porque o quadro se espatifou num corpo parado a sua frente.
Eros abriu os olhos ao ouvir a madeira quebrar. O som da tela sendo rasgada. O cheiro de tinta queimada tomando o lugar. E deu de cara com as panturrilhas musculosas e morenas de alguém.
— Apolo? — o Cupido chiou, chocado.
O deus do sol havia entrado na sua frente, unindo os antebraços numa defesa erguida na frente do rosto, contra qual a peça destruída se chocou. E agora chamuscava nos pedaços restantes aos pés dele. Apolo estendeu a mão para puxá-lo para cima, mas sem tirar os olhos de Dionísio. Os braços dele sangravam.
— Temos que sair daqui! – Eros lhe disse com urgência, ao acabar de se levantar. Vendo que a bacante loira tinha finalmente acordado e, embora vacilante, estava sendo levada pela a outra pelo fim do corredor – Não há mais o que fazer. Precisamos isolar esse corredor e...
Apolo o puxou para baixo brutalmente, forçando-o a se agachar, enquanto um aparador de mogno maciço voava por cima deles, espatifando-se em lascas afiadas no chão logo atrás.
— NÃO VAI ME TOCAR! NÃO VAI ME TOCAR NUNCA MAIS!
— Fique aqui – Apolo sentenciou. Fazendo Eros congelar no lugar. A voz crua e grave. Sem espaço para discussões.
— EU ODEIO VOCÊ! EU ODEIO! – Dionísio berrava para os fantasmas da sua mente, puxando e arrancando os próprios cabelos – EU ODEIO O SEU GOSTO! ODEIO O SEU CHEIRO! – gritava, passando as unhas pela pele macia, abrindo cortes sangrentos – MORRA! EU QUERO QUE VOCÊ MORRA!
Apolo não pode se desviar do vaso de vidro pesado que ele jogou na sua direção, apenas erguendo a defesa com o antebraço direito. Fazendo-o estilhaçar contra seus músculos expostos, riscando novos talhes na pele morena do braço e do rosto.
— Apolo, o que está fazendo?! – Eros finalmente encontrou a voz, vendo a cena com olhos abertos de horror – Ele vai te quebrar inteiro. Saia de perto dele! Saia de perto dele agora!
Não posso. O Sol lhe responderia, se estivesse ouvindo a sua voz. Tudo que existia para ele naquele momento, era o menino a sua frente, dolorosamente enclausurado em si mesmo. A cabeça ocupada com os sons de um passado recente.
Equilíbrio.
A voz dizia em sua mente, enquanto outro vaso, dessa vez de porcelana, se quebrava contra os seus braços.
Precisamos de alguém que nos equilibre.
Um castiçal passou voando a milímetros a do seu nariz.
Que nos complemente.
Um quadro pequeno o acertou direto no rosto, abrindo um corte na sua bochecha.
Que nos salve...
Ele chegou até Dionísio, tentando tirar suas mãos dos próprios cachos, e ele enfiou as unhas na pele dos seus ombros musculosos.
Nos salve da nossa própria natureza.
Apolo prendeu os pulsos dele naquele lugar.
Ou nos perdemos em nos mesmos.
Dionísio se debateu, afundando na sua pele até rasgar.
Vocês são Opostos Complementares...
O Sol deixou as unhas dele cravadas em si.
Ele se sente dócil, pacífico e são ao lado.
Pegou o rosto dele nas mãos.
Nada no mundo poderiam comprometer o quanto ele quer...
Aproximou a face da dele.
...e precisa de você.
E então o beijou.
Não existia mais nada naquele momento.
Não existia tempo.
Não existia espaço.
Não existia ninguém.
Apenas aqueles lábios.
Lábios quentes, com gosto de mel, canela e cereais.
Os lábios dele e o silencio.
O silencio dentro da sua cabeça.
O silencio que ele trazia consigo.
Não havia dor.
Não havia medo.
Não havia barulho.
Eram só os lábios dele.
Os lábios dele. O silencio. E a paz.
Dionísio fechou os olhos escuros.
Os dedos dele amoleceram, soltando-se da sua pele, escorregando molemente pelas suas roupas. O ar preso saiu pela fresta da sua boca entreaberta, fazendo Apolo saborear o doce do seu hálito. Os joelhos dele tremeram, e ele cairia sobre eles. Mas o Sol o pegou nos braços, finalizando o beijo suave com um toque de lábios, apoiando a cabeça dele na curva do seu pescoço. As pernas do menino o enlaçaram indolentemente, assim como seus braços, como se soubessem que aquele era o seu lugar. E deus do caos desmanchou-se completamente sobre ele.
Apolo caminhou com pequeno no colo, calma e lentamente. Os cortes nos braços e rosto se fechando a olhos nus.
— Onde é o quarto dele? — o deus do sol perguntou a Eros, tranquilamente.
O Amor não conseguia nem piscar.
— Segunda porta... – Mete sussurrou.
— ...depois da escada – Arpe completou.
Apolo agradeceu com aceno e andou para fora dali. Levando seu amor nos braços consigo.
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