Bacanal

19 Insanos


Notas iniciais
Não. Eu não morri. Ainda... Eu sei que vocês já deviam estar achando que eu tinha abandonado a fic. Mas isso NUNCA vai acontecer ( há não ser se eu morrer de verdade, mas aí eu conto o final para quem vier para o Elísio comigo :3 ). E eu vou pedir as devidas desculpas nas notas finais. Por que agora eu tenho que dizer algo muito mais importante. Lucas pl, divo do meu coração, você tem alguma ideia do quando eu estou te amando neste momento? Provavelmente mais do que a sua mãe! haha. Que recomendação mais linda e fascinante você me deu... Deve ter sido uma das recomendações mais bem escritas e articuladas que eu já li no nyah. Óbvio que estou pulando de orgulho até agora, e mortalmente agradecida ♥ Dito tudo isso, e antes de finalmente começar o capítulo, eu só tenho uma pergunta: alguém aí, por algum acaso, está afim... de uma limonada?

O amor me fez ver coisas loucas.

O amor e a vida me tornaram insano.

O amor bombeia a dor pelas minhas veias.

O amor e a vida me tornaram insano.

E talvez seja bonito.

Talvez seja bonito...

— To Love (feat. Broods), “Freak Of Nature”

— Vocês estão bem? — Eros conseguiu perguntar, depois de pelo menos cinco minutos de imobilidade chocada.

Mete e Arpe sorriram juntas como espelhos.

— Sim, senhor – responderam em uníssono.

— Mas, você está sangrando! – o Cupido exclamou, ao ver gotinhas de líquido já coagulado contra a pele clara da testa da bacante loira.

— Foi apenas um arranhãozinho, mestre – ela o tranquilizou, tocando ponto em questão. Fazendo Eros perceber que era verdade. Nem chegava a ser um corte em si, e sequer sangrava mais – Consigo o mesmo sozinha quase todo dia. Sou deveras desastrada – afirmou, com uma risadinha tímida, naquela espontaneidade que só os subordinados de Dionísio tinham.

Eros se surpreendeu ao perceber o quanto ela era bonita, agora que não estava chorado, para variar.

Os três ficaram olhando uns para os outros sem saber ao certo o que dizer. Até que, por fim, Eros não conseguiu segurar uma risada. Daquelas aliviadas, depois do puro terror.

— Não se preocupem com Dionísio... – ele disse, imaginando que isso ainda pairava na mente das duas bassárias – Ele vai ficar bem – afirmou, com convicção. Um resto de sorriso ainda brilhando maliciosamente no meio dos seus lábios cheios – Ele vai ficar muito bem...

As duas assentiram obedientemente, mas acabaram por entreolhar-se de forma incerta depois.

— O que devemos fazer agora, senhor? — Mete perguntou por fim, carente da liderança do seu mestre.

— Ah, vocês eu não sei... – o Cupido disse de bom humor – Mas se está realmente tudo bem e me dão licença – ele continuou, virando-se no corredor e jogando as mechas louras para trás – Eu vou dar um jeito nesse cabelo!

E sem acrescentar mais nada, saiu desfilando contente pelo corredor.

*

Apolo fechou a porta com o calcanhar, fazendo o trinco reclamar baixinho. O menino no seu colo reclamou também, quando ele o deitou devagar sobre a cama no meio do quarto, deixando um miado caprichoso escapar pelos lábios. Dionísio não o soltou. Pelo contrário, envolveu ainda mais as pernas em torno da sua cintura, e os braços ao redor do seu pescoço. Obrigado o deus do sol a ficar sobre ele na cama purpúrea, apoiando os joelhos no colchão, para não deixar tudo do seu peso em cima do pequeno. Embora, agora soubesse, ele era mais do que capaz de suportá-lo.

— ...Dionísio – Apolo chamou, arfando sobre o seu cheiro de inebriante de folhas secas e frutas frescas.

Ele não respondeu. Só esfregou o narizinho no seu pescoço, como um felino querendo atenção. Fazendo Apolo se arrepiar inteiro.

— Ah, Dionísio... – o Sol murmurou, fechando os olhos. Sabendo que nunca conseguiria sair dali agora, nem se o próprio Zeus tentasse arrancá-lo de cima do irmão.

O deus do vinho foi largando um monte de selinhos erráticos pela pele da sua garganta, queixo e bochechas. Como se tentasse achar os seus lábios por ali, mesmo sem disposição para abrir os olhos. Quando finalmente pressionou a boca vermelha contra a sua, Apolo não se negou a ele.

Havia tanto o que falar. Tantas coisas a lhe explicar. Tantas desculpas que precisava pedir. Palavras, frases, epopeias inteiras, que foram sumindo quando o gosto da boca dele explodiu na sua língua outra vez.

Vinho tinto. Licor de morango. Salada de frutas.

Apolo viajou dentro da boca dele devagar. Com cuidado. Com carinho. Deixando um rastro morno do seu sabor de própolis e cereais.

Nem tudo era dito palavras afinal.

Eu sinto muito.

O mover calmo dos seus lábios dizia.

Fui tão estúpido.

Aquela mordidinha no cantinho da sua boca falou.

Senti tanto a sua falta. Eu quis morrer...

Admitiu, enlaçando a língua dele com a sua.

Ficar longe de você doeu tanto... tanto...

Contou, prendendo o lábio inferior dele entre os dentes.

Eu amo você...

Apolo arquejou, tirando a boca do beijo, momentaneamente parado pelo susto, ao ouvir o som do tecido fino se partindo e sentindo a brisa fresca tocando sua pele onde não devia. Dionísio tinha agarrado a gola da sua túnica azul-cerúleo e a puxado para baixo com violência. Rasgando a roupa ao meio sem nenhuma dificuldade, como se fosse feita de papel. Uma faixa quase perfeitamente reta e grossa de pano caro saindo na sua mão, para então ser descartada num canto qualquer do mármore do chão.

Os olhos dele estavam abertos agora. Verdes como o fundo de um rio. Um desejo profundo e primitivo pesando no negro das suas pupilas, que tomavam quase tudo. Rastros explícitos de uma selvageria ainda não esgotada dentro dele. Ele desceu os orbes pela pele dourada que tinha acabado de expor sem licença nenhuma. O pescoço elegante. As clavículas angulosas. O tórax delineado e largo. O abdome duro e perfeitamente trabalhado, todos os gomos alinhados e esculpidos por baixo da cútis bronzeada. O caminho bem marcado nos quadris. O sexo, já desperto, adornado de fios dourados e curtos. As coxas grossas e musculosas...

Dionísio aproximou o rosto do seu peito e o lambeu desde o esterno, pela garganta, até o começo do queixo. Vagaroso e deliberado. Passando a língua lentamente pelos próprios lábios rubros depois. Como um gato após uma refeição especialmente saborosa. Fazendo Apolo silvar com a sensação. A trilha molhada que ele deixou vibrando daquele jeito cálido e fresco ao mesmo tempo.

Baco acabou de despi-lo, arrancando os retalhos restantes de roupa avidamente. O pano fino quase grudando nas suas unhas. No que Apolo apenas o assistia, os olhos arregalados atentos a cada detalhe.

Dionísio estava diferente. O corpo debaixo do seu parecia ainda menor. Mais leve. Mais magro. Podia sentir as ondulações das suas costelas contra a pele desnuda, que não apareciam antes, cobertos por uma camada de carne macia que não estava mais ali. O cheiro, embora familiar e doce, ainda tinha algo de ferino e predatório. Os olhos dele estavam pesados e escurecidos. Mas não era apenas de desejo como na primeira vez, embora ele estivesse claramente ali. Não era só anseio. Cobiça. Pretensão. Aquela vontade caprichosa de comer um doce entre as refeições. Era necessidade. Era urgência. Era a fome de quem está morrendo de inanição. Era a sede dos perdidos no deserto. Era ar dos afogados. Não era querer, era precisar.

Precisar urgentemente.

Dionísio precisava vê-lo. Precisava senti-lo. Precisava do peso dele contra si. Precisava do seu gosto. Do seu calor especial. Dos músculos dele contra a sua pele macia. Dos dedos dele nos seus cabelos escuros. Dos dentes dele na sua carne suave. Precisava das suas marcas. Do seu controle. Da sua luxúria. Precisava que ele o esvaziasse. Já tinha levado os barulhos da sua cabeça. Mas ainda havia bestialidade e grosseria dentro dele. Arranhando as paredes do seu peito. Debatendo-se violentamente no amago. Apolo poderia tirá-los dele. Deixa-lo dócil e são outra vez. Só precisava que ele perdesse o controle. A cautela trágica que estava tendo.

Precisava fazê-lo gemer...

Apolo nem teve tempo de ofegar quando as mãos dele o empurraram brutalmente, com aquela força surreal, fazendo-o cair de costas no colchão. Espalhando almofadas por todo o lugar. Batendo os pés de madeira da cama contra o piso audivelmente.

Baco estava em cima dele em um segundo. As pernas brancas e macias em volta do seu abdome. Ele curvou o corpo delgado e meio despido sobre o seu, capturando sua boca ainda entreaberta de surpresa com os lábios vermelhos. Incitando-o com a ponta língua. Que ele delineou contra a sua pele sensível e superfície dos dentes compridos. Apenas provocando e recuando. Fugindo sempre que ele tentava alcança-la com a sua. Até que Apolo rosnou inconscientemente e segurou o rosto dele entre as mãos, invadindo a sua boca com avidez e ferocidade. Não lhe dando chance alguma de escapar.

Dionísio gemeu naquele ósculo controlador. Sentindo o peito mais leve. Mas ainda não era o suficiente.

O deus do vinho mordeu a língua do deus do sol, com força. Fazendo-o se afastar de rompante. A carne sensível latejando. E os olhos azuis chispando de algo que nem mesmo ele entendia, fechados em fendas estreitas. Quis coloca-lo de quatro e descontar duramente por aquilo. Faze-lo gemer alto e marcá-lo com os dentes outra vez. Quis até mesmo dar-lhe uns tapas. Ver a pele clara e macia se avermelhar na forma dos seus dedos. Mas foram as lembranças daquelas marcas que o mantiveram parado. Que o obrigaram a usar a voz. Fechando os punhos e rilhando os dentes.

— Dionísio, o que você está... ah!

Ele tinha começado sério e austero. Mesmo que o menino estivesse fazendo trilhas circulares e lentas na pele do seu peito e barriga com a língua. Rodeando os mamilos morenos e os músculos saltados do seu abdome. Escorregando as nádegas cobertas cada vez mais para baixo do seu corpo. Avivando os nervos da pele onde ele tocava. Fazendo a sua temperatura subir.

Mas toda e qualquer palavra coerente desapareceu do seu vocabulário refinado quando Dionísio lambeu a ponta da sua ereção.

Ele estava sentado entre as suas pernas agora. As mãos pequenas e branquinhas em volta do seu sexo. Seus dedos delicados dedilharam toda a sua extensão, medindo-o pelo tato. Fazendo-o pulsar impossivelmente caustico e molhado entre o aperto estreito e rítmico dos seus dígitos macios. Aumentando-o. Endurecendo-o. Tornando-o sensível e quente até o limite.

Apolo queria dizer algo. Mas sabia que se abrisse a boca, só faria gemer vergonhosamente alto. Nenhuma única sílaba coerente na base da garganta. Nenhuma sequencia de pensamentos lógicos na cabeça. Ele quase podia sentir. A razão sendo arrancada dele. A cautela sumindo a cada movimento do menino. A civilidade indo embora devagar. E outras coisas tomando os seus lugares. A fome. A ânsia. A selvageria. As pitadas descontroladas de delírio. O deleite insano e ferino. Tudo que o pequeno queria que ele tomasse.

Quando Dionísio o colocou na boca, teve certeza absoluta que ia enlouquecer.

Enlouquecer era bom, ele pensou. Enlouquecer era maravilhoso. Enlouquecer era a melhor coisa que ele já tinha feito na vida! Céus, por que ele nunca tinha enlouquecido antes?

Enlouquecer era quente. E molhado. Deliciosamente molhado. Enlouquecer fazia pontos coloridos rodopiarem atrás das suas pálpebras fechadas. Fazia gemidos rosnados escaparem no meio dos seus dentes. Fazia pequenas explosões detonarem em cadeias na pele do seu baixo ventre. Fazia-o morder os lábios para não gritar.

Dionísio tinha começado apenas lambendo-o devagar. Da base até a glande. Como se ele fosse um petisco gostoso que não quisesse acabar rápido demais. Deixando a língua pequena escorregar por ele de maneira imprevisível e levemente animal. Fracionado e repetidamente. Lembrando o modo como os gatos lambiam as patas para se limpar.

Mas isso deixou de ser o bastante.

Dionísio ficou sobre os quatro membros no colchão, sem tirar os olhos daquele pedaço dele, concentrado como uma caçador. Então o tomou nas mãos pequenas outra vez, apoiando os antebraços nos seus quadris. Fazendo a pele ali queimar, e queimá-lo de volta. Mas ele não se importou. Apenas aproximou o rosto dele. As pupilas estavam tão dilatadas que quase não havia verde nos seus olhos. As bochechas estavam tão coradas que os lábios vermelhos quase se perdiam na sua face. Os cabelos adornavam seus traços delicados como uma coroa de cachos rebeldes, aderindo a sua cútis úmida pelo calor abrasivo da presença do outro.

Baco piscou os olhos devagar, erguendo as íris brevemente. Vendo o deus do sol deliciosamente desmontado pela sua cama. Os dedos morenos agarrados aos lençóis. O peito talhado de músculos movendo-se de maneira irregular e veloz. A pele dourada brilhando. Como que chamado por aqueles olhos, Apolo abriu os seus, contemplando sua face corada. Sua boca rubra. Seus cabelos desalinhados e escuros. Suas pupilas dilatadas. Ele era tão lindo que dava vontade de chorar. Mas não foi o que fez quando, sem dizer uma palavra, Dionísio entreabriu lábios, aproximando-se dele, e o escorregou lentamente para dentro da boca.

Já tinham lhe feito isso antes. Não em raras ocasiões. Mas, naquele momento, pareceu que não.

Pareceu que nunca tinha sido tocado. Nunca tinha sido beijado. Nunca tinha sido amado. Ele se esqueceu. Se esqueceu de todas as outras vezes. De todos os outros toques. De todas as outras bocas. Esqueceu-se do cheiro deles. Do gosto deles. E do das próprias lágrimas que sempre viam depois. Ele se esqueceu dos seus vazios. Dos seus escuros. Dos muros que sempre o prendiam dentro dele mesmo. Esqueceu-se de como era se sentir sozinho. Indesejado. Ferido. Esqueceu-se da dor. Esqueceu-se dos louros.

Esqueceu-se até mesmo dos jacintos.

Dionísio rodeou a língua em volta da sua cabeça. Com uma calma torturante. Tornando-o mais molhado e escorregadio. Para então começar a deslizá-lo para dentro. Somente um pouco, antes de voltar à glande, e tortura-lo com aquela massagem circular outra vez. Então mais um pouco. Centímetros novos de pele morena tornados úmidos. E mais um pouco. A superfície da língua cálida sendo coberta e descoberta devagar. E mais um pouco. A ponta larga e caustica atritando deliciosamente contra a textura do céu da boca.

O que era uma canção de ninar tornou-se uma balada. Os lábios cada vez mais rubros e cheios se apertavam em volta dele de maneira rápida e feroz. E ele descobria a boca do menino como se fosse a primeira vez. A língua pequena e submissa. As bochechas suaves e macias. A trama das pregas palatinas.

Dionísio não pausava o ato nem diminuía o ritmo. Apenas o engolia centímetro por centímetro. Como se estivesse faminto. Como se estivesse sedento. Como se não pudesse conter-se mais nem um segundo. Indo e voltando, constante e veloz. Tomando cada vez mais dele para si. Até que o sentiu perfeitamente e satisfatoriamente prensado no fundo da sua garganta.

Não tinha conseguido devorar tudo. Era provável que ainda houvesse quase um quarto dele escapando dos seus lábios. Mas aquilo não era questão de habilidade. Eros havia lhe ensinado muito bem como fazer aquilo — o deus do sexo podia ser um professor extremamente rigoroso e perfeccionista quando se dispunha – E ele mesmo nunca se privara de praticar. Era uma questão de física. Sua boca era pequena e apertada, e Apolo era grande.

Muito grande.

Baco trouxe o rosto para trás, descobrindo-o lentamente. Deixando os dentes o tocarem numa carícia levíssima. Ouvindo como recompensa um gemido que pareceu ter saído do mais profundo e descontrolado do seu amante. Que já deixava os sons de deleite saírem pelos lábios sem razão que os impedisse. Finalizou aquele movimento com uma nova lambida decidida na sua ponta, provando do gosto do pré-gozo expelido por ali. Então estreitou os olhos.

O deus das orgias tinha-lhe o membro firmemente seguro pela base entre as mãos. E o encarou como se tivesse vida própria. Como se o tivesse desafiado pessoalmente. Como se duvidasse do que ele era capaz. Apolo havia conseguido reunir razão e controle o suficiente para se obrigar a abrir os olhos, e pegou o final daquela cena. Dionísio abrindo um sorrido apenas de lábios. Um sorriso sombrio. Perigoso. E contundente. Tal qual dissesse ser muita tolice da sua parte provocá-lo daquela maneira.

Se a extensão dele não cabia na sua boca, ele usaria mais do que ela.

Assim, ainda sem dizer nada, voltou com ele para dentro do seu vácuo doce e úmido. Fez muito devagar. Deixou que sentisse perfeitamente a toque do interno dos seus lábios. A textura suave de toda a sua língua. A temperatura cálida das suas bochechas. O roçar mínimo da ponta dos dentes. O molhar contínuo da sua saliva. Então deixou que sentisse o aperto da sua garganta. A curva pendente da úvula. O extremo sul do céu da sua boca.

Apolo arqueou as costas como um guepardo quando se percebeu continuando a invadir todo o espaço disponível — e não disponível — na cavidade oral do irmão. Num movimento calmo, lento e continuo. Pode sentir lhe as amígdalas. Contraindo-se em volta dele em espasmos erráticos incontroláveis, causando-lhe ondas de deleite. Pode se sentir passando da garganta. Chegando ao palato mole. O membro que restava para fora daquele aperto molhado e delirante foi desaparecendo dentro dos lábios carmim do menino. Quando chegou a faringe, vencendo todos os obstáculos anatômicos, não havia mais nada a devorar.

Dionísio fechou os olhos, totalmente concentrado. Deixando-o lá dentro. Comprimido. Aprisionado. Mais fundo do que qualquer outro já havia chegado. Sentindo os louros e macios pelos pubianos fazerem cócegas suaves do seu nariz. Não engasgou. Nem enjoou. Obrigou seus pulmões a pararem de funcionar, privando-se de respirar por um momento. Tendo toda a garganta ocupada e preenchida pelo irmão. Podia senti-lo pulsar contra as suas paredes sensíveis. Gotas do líquido seminal escorregando livremente direto para seu esôfago. Pareciam pingos de lava, queimando prazerosamente dentro dele.

Apolo estava perdido em outro mundo. Deliciosamente abandonado no limbo do deleite. Ele se sentia uma combustão. Uma explosão. A radiação em carne caustica e pele sensível. Dionísio estava calmo e centrado. A mente limpa e pacifica como em poucas vezes na sua existência. E total controle sobre si mesmo. O controle que ele havia roubado do deus do sol, que não apenas renunciou ao domínio que tinha sobre si, como sequer tinha consciência de que o fizera. E do que fazia. Dos sons roucos e alquebrados que dançavam torpes para fora dos seus lábios e entre seus dentes brancos. Dos espasmos inesperados que sacodiam seu corpo quente e musculoso. Das vezes em que murmurou o nome do menino entre deslizes inconscientes e quase devotados.

Em algum momento, Baco não pode mais negar oxigênio aos seus pulmões, e o deslizou para fora da garganta. Somente por tempo o bastante para que um fio de ar aplacasse a agonia no seu peito. Então ele estava naquele aperto de novo. Encarcerado naquelas paredes molhadas e estreitas. Impulsionando-se mais para dentro, no que os quadris de Apolo se moviam por iniciativa própria.

Começou-se uma batalha de pele, carne e musculo. Uma disputa por espaço, por tempo, por ritmo. Uma justa que exigiu o máximo de Dionísio. Da sua determinação, placidez e habilidade. Uma guerra que fez jus ao seu esforço porque, minutos depois, o vencedor e o vencido se fizeram claros, quando um urro brutal retiniu nos seus ouvidos sensíveis, vibrando longamente nas cordas vocais do melódico deus da luz. Ressoando nas paredes. Repercutindo em todas as superfícies. Ecoando dentro do silencio pacato da sua cabeça. E o prazer dele encheu o seu estomago vazio, aquecendo-o de dentro para fora.

O pequeno deus do vinho gemeu para a sensação. Suave e longamente. Enquanto deixava-o escorregar para fora da sua boca vermelha. Chupando a pele caustica pela última vez. Limpando os resquícios mornos da sua semente. Sentiu dedos cálidos e firmes se entremeando nos anéis castanhos dos seus cabelos, puxando o seu rosto para cima. Fazendo-o interromper aquela tarefa saborosa e molhada de rompante.

Dionísio nunca havia visto fogo azul na sua vida. Era um caso possível. Quando a concentração de oxigênio na combustão é muito alta, a chama brilha num tom violáceo ou azulado. E, embora o menino jamais houvesse presenciado o fato, pode imagina-lo mais que perfeitamente ao ver-se alvejado por aquele par de írises celestes.

Elas estavam queimando.

A pele de Apolo brilhava como metal. Seus cabelos claros se colavam na sua testa. A respiração vinha em ofegos curtos, movendo seu peito delineado com velocidade. E tudo nele parecia belamente desarranjado e descontrolado. Mas olhos estavam fixos. Perigosamente fixos. E naquela cútis morena e pelos dourados, ele lembrava um leão-da-montanha. Caçando-o com as pupilas dilatadas. Devorando-o agressivamente mesmo a distancia. E Dionísio sorria por dentro, ao não enxergar sequer um resquício de cautela ou cometimento ali.

Ele havia conseguido.

Apolo começou a trazê-lo para cima, os dedos engatados nos seus cachos. O pequeno não teve nenhuma dificuldade de ler aquela ordem silenciosa, e escalou seu corpo docilmente, já desenlaçando o cinto fino que prendia o chiton azul ao redor da sua cintura, de maneira deliberadamente lenta e mansa. Quando tinha as pernas em volta do seu abdome outra vez, sentado sobre os gomos duros da sua barriga, puxou o pano fino para fora do corpo, deixando-o deslizar pela pele suave, antes de larga-lo num lugar qualquer. Expondo-se completamente branco e corado a vista do outro.

As mãos de Apolo estavam nele um segundo depois. Os dedos longos subindo pelas suas coxas macias, apertando as ancas estreitas, alisando a barriga plana e sensível, beliscando o bico dos mamilos, rodeando a sua garganta. O Sol o trouxe para si, puxando-o pelo pescoço, de maneira possessiva e indiscutivelmente dominadora. Como no beijo feroz no qual prendeu seus os lábios inchados e rubros, deixando-os ainda mais sensibilizados e marcados pelas mordidas que lhe dava. Apolo largou o ósculo de rompante, empurrando-o de volta para a posição sentada na sua barriga, ainda guiando-o pela garganta. Então soltou os dedos do seu pescoço delicado, já vermelho por aquele aperto firme, e escorregou mão até a pele do seu ventre, fazendo o pequeno estremecer, e impelindo-o para trás, imperioso e exigente.

Dionísio ergueu-se sobre os joelhos, andando com eles para onde era indicado, obedecendo-o prontamente. Até que tinha as coxas apertadas ao redor dos seus quadris. Havia tanto desejo reprimido sendo libertado sem controle, que Apolo havia permanecido rígido e desperto mesmo depois de chegar ao ápice do deleite, derramando seu sêmen direto na garganta do amante. E erguia-se solidamente, friccionando a pele entre as nádegas do menino. Ainda pulsando quente contra os dígitos de Dionísio, quando este o alocava precisamente na superfície externa e ansiosa da sua entrada.

Houve uma pausa silenciosa. Uma calmaria cheia de expectativas. Aquele suspiro concentrado antes de soltar uma última flecha. Peitos arfantes. Lábios molhados. Olhos nos olhos.

Dionísio quebrou o momento fechando as pálpebras brancas, cerrando os dentes pequenos e ganindo baixinho entre os lábios vermelhos, ao começar a descer obstinadamente sobre o sexo do irmão.

Deuses, ele era tão apertado... Agora, que nem preparado tinha sido, contando apenas com sua própria saliva deixada sobre o outro como lubrificação, fechava-se em torno dele como se quisesse estrangulá-lo. A dor do ato rilhando seus dentes, mostrando-se mais difícil do que fora na primeira vez. E mais dolorido. Nem por isso Dionísio parou o movimento que, embora lento, fora determinado e contínuo. O deus do vinho não tinha problemas com a dor nesse sentido. Havia algo nele que incitava seus amantes a apertá-lo, morde-lo, arranhá-lo e usá-lo ao limite. Coisa que nunca se privara de retrucar. E mesmo Eros, que era sempre cuidadoso e delicado, acabava mapeado pelos seus dentinhos. A dor e o deleite eram gêmeos siameses, quase indissociáveis para ele. Preciosos em partes iguais. Nunca abriria mão de um pelo outro, se pudesse escolher.

O que não o impediu de cravar as unhas na pele do ventre do irmão, inconscientemente, partilhando parte da sua agonia quando finalmente sentou-se sobre os seus quadris, completamente e forçadamente preenchido por ele.

Apolo assistiu Dionísio estremecer por um instante, a respiração partida em ofegos difíceis que foliavam no sei peito liso e infantil, a pele clara da garganta e esterno tingindo-se de um vermelho vivo de esforço e contato. Os dedos pequenos curvados, entrando na sua carne. Olhos cerrados e dentes cingidos. Ele estava sofrendo calado. Apenas o ar entrava audivelmente, puxado com urgência para dentro dos lábios inchados e entreabertos.

Apolo podia ter tirado a dor dele. Aplacado aquele desconforto. Poupando-o como se culpara de não ter feito na primeira vez. Mas, por alguma razão, não fez isso. Como se algo dentro dele soubesse que não era isso que o pequeno queria. Que nunca fora. E que a dor lhe faria tanta falta quanto o prazer em si. Apenas vendo a assertividade dos seus pensamentos quando Dionísio começou a se mover sobre ele, ainda que aflição estivesse longe de diminuir.

Baco deslocava-se devagar, bamboleando os quadris estritos, empinando a lombar com suavidade, apoiando o peso nas mãos agora espalmadas, que pressionavam os músculos da sua barriga. Obrigando seu corpo a aceitá-lo. A submeter-se como seu espírito já o tinha feito. Mesmo que a sensação fosse ser espancado por dentro, a golpes lentos e deliberados. Dando-lhe uma satisfação serviu ao ver que conseguia continuar. Acelerando o ritmo. Voltando a dar prazer ao irmão, que começou a mover-se ao compasso da sua provação devotada, os olhos incendiários embaçados de deleite. Os sons já não eram contidos pelos lábios de ambos, e Dionísio gania agudo cada vez que suas nádegas se encontravam com as coxas morenas e duras do outro, tendo-o enterrado em si até o final; e Apolo emitia um rosnado grave e profundo, vibrando mais na sua garganta e peito que em seus lábios, nos exatos mesmos momentos. Unindo os ruídos impudicos naquele dueto de contrastes bonito e obsceno. Regidos pelos sons de fricção molhada do sexo dos dois.

Sem qualquer aviso, Apolo subiu as mãos pelas coxas do menino, deixando nelas linhas de unha paralelas e vermelhas, e agarrou-lhe por ambos os quadris. Numa força subjugante que marcou a pele branca imediatamente. Fazendo-o parar aquela dança lenta, os olhos arregalados de surpresa. Então o imobilizou naquele lugar, um pouco erguido sobre os joelhos. E estocou.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Rápidas. Violentas. E agressivas. Sem nenhuma pausa digna. Sem nada de força medida. Apenas atos da selvageria que gritava ensandecida dentro dele, cada vez mais alto e difícil de conter. E de tentar conter.

E de querer conter.

Dionísio jogou a cabeça para trás e uivou como se estivesse morrendo.

Um fio de racionalidade estalou dentro da mente alucinada de Apolo, tornando por certo de que o tinha machucado de verdade, parando o movimento imediatamente.

— NÃO! – o menino gritou, completamente desesperado. Arranhando seu peito com as unhas meio crescidas, listrando a pele dourada de linhas profundas e ranhos feios, abrindo alguns cortes rasos, como um animal irado e enlouquecido – Não! Por favor, não! – ele choramingou, exibindo o par de olhos enormes, meio úmidos de aflição – Por favor, por favor, não pare...

Apolo arregalou os olhos ante a compreensão.

A verdade é que as três estocadas duras e rudes que tinha lhe dado haviam acertado seu ponto mágico com uma precisão tão extraordinária que beirou a crueldade. Fazendo ondas de prazer insano borbulharem dentro dele como lava em um vulcão, muito mais intensos e atrozes que qualquer dor que ele tivesse sentido ao longo da noite. Sendo seus gritos de pura e absoluta satisfação.

E se Baco fosse algum exemplo de sanidade, teria deixado de sê-lo naquele exato momento.

— Por favor, não pare... não pare... por favor... – o pequeno suplicou, rebolando o bumbum macio no seu colo, a beira de outra loucura. O corpo tomado pelo pânico da falta daquele contato autoritário e agressivo, como se já lhe fosse dependente. Esfregando-se nele necessitado e desesperadamente.

Apolo nem viu um sorriso lento e soberbo se abrindo dentre seus lábios morenos. Mantendo-se imóvel por mais um momento, subindo com umas das mãos por seu corpo diminuto e delgado, até fechar os dedos ao redor da sua garganta e queixo, obrigando-o a olhar para ele, parando de bambolear a cabeça morena em choramingos doídos. Ofegando ao ver-se engolido e consumido por aquele incêndio azul-celeste.

— Por favor... – Dionísio implorou mais uma vez, fungando o narizinho, prestes a chorar de verdade. Fazendo-se o mais suplicante e manhoso que pode entre o aperto cáustico e forte dos seus dígitos. Alisando a pele do braço que ele usava para lhe segurar como um bom bichinho, manso e obediente. Vendo que nem violência dos seus arranhões impensados nem a provocação dos seus movimentos friccionados havia funcionado.

Apolo sentou-se de repente, colando os corpos tão distintos e suados um no outro. Queimando-o no calor do seu peito malhado. Trocando sua garganta pelos cachos macios da sua nuca, nos quais enlaçou firmemente os dedos. Aproximando ele de si até poder provar da pele do seu pescoço, onde trilhou um caminho lento nódoas futuras até chegar ao lóbulo da sua orelha, logo marcado por uma mordida e dizer:

— Bom menino... – ele sussurrou, terrivelmente sério e rouco. Mostrando-se satisfeito com o último ato do pequeno, que quase ronronou mal as palavras faziam sentido no seu ouvido. E Apolo finalmente decidir por um fim a sua tortura, voltando a enterrar-se violentamente nele outra vez.

Pele. Musculo. Carne. Sangue. Movimentos frenéticos e fluidos escorregadios. Saliva doce e suor salgado. Choque. Golpe. Atrito.

Dionísio gritava tão alto que poderiam ouvi-lo claramente no salão abaixo. Com música ou não. Os brados desinibidos saindo agudos e miados dos seus pulmões. Pulando convulsivamente no seu colo, no que Apolo ocupava-se em gemer grave contra sua pele branca e suave, presa entre os dentes ou sugada pelos lábios. Estocando cada vez mais profundo e rápido dentro dele.

Até que tremeram. Estremeceram. Torceram e se contorceram. Um sobre o outro. Um dentro do outro. Um para e pelo outro. Desmanchando-se em líquidos brancos e gritos agudos. Chegando ao pico supremo e torpe do deleite insano ao mesmo exato momento.

Apolo largou-se no colchão, o pequeno caindo sobre seu peito, oscilando a moda da sua respiração difícil e pesada, ainda sem sair dele de fato. Dionísio suspirou baixinho, exalando ar morno contra sua pele nua, e acomodou minimamente o corpo exausto e usado contra ele, sem importar-se com a sua própria semente, que molhava as barrigas em contato dos dois; ou com a do outro, que ainda escorria quente entre suas coxas.

— Eu também amo você... – ele murmurou de repente. Soando calmo e plácido. Fazendo Apolo abrir os olhos azuis. Por que, embora o pensasse com todas as forças, não havia verbalizado nada parecido.

Mas, nem tudo era dito com palavras afinal...

E Dionísio havia entendido.

Assim, sem dizer mais nada, e ainda com Apolo dentro de si, o pequeno fechou os olhos. E depois de oito dias insones, simplesmente adormeceu.

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Hermes sonhou que estava caindo.

Rápido e sem controle. Uma chuva preta e suja o impedindo de ver. O estomago afundando dentro de si mesmo. A mente tomada pelo pânico.

Quando seu corpo estava para quebrar no chão, acordou.

Hermes se sentou na cama de rompante, a cabeça girando. A primeira coisa que sentiu foi uma dor aguda, e embora meio dormente, levemente latejante na parte de trás da sua cabeça, pescoço e começo dos ombros. Onde o gigante o tinha acertado.

O gigante...

As imagens da luta dançaram atropeladamente na frente dos seus olhos. Lembrava-se de do começo de tudo. De ver as criaturas subindo a base do Olimpo. De ver Dionísio numa forma felina vermelha atacando o primeiro oponente. Lembrava-se da estratégia. De ter voado em volta do monstro por muito tempo.

Então se lembrava de estar caindo.

Tudo entre e depois disso era vago e confuso. Não sabia o que o tinha distraído. Mas tinha a impressão que o golpe que sofrera fora por descuido da sua parte, embora não conseguisse se sentir culpado por isso. E quanto mais forçava o cérebro a recordar-se daqueles instantes, mais zonzo ele se sentia, e mais os pensamentos embaralhavam-se, misturados na sua mente.

O deus dos viajantes piscou os olhos âmbar sobre o lugar, desnuviando as íris analíticas.

A cama onde estava tinha lençóis arroxeados e macios. Um tom parecido pintado nas paredes. Um punhado de quadros de tamanhos e temas divergentes se dependuravam tortamente por elas, de uma maneira em que ele tinha de se impedir de levantar e alinhar todos eles. A luz era suave e amarelada, deixando sombras amenas pelo lugar. Um cheiro agradável de cera de abelha, geleia de uva e folhas aromáticas. Ouvia um som rítmico e abafado de música passando por detrás da porta fechada. Ainda se encontrava no Palácio do Vinho, pelo que pudera perceber. E, além dele mesmo, o quarto estava vazio.

Hermes moveu-se com cuidado, sentando na beirada da cama, passando os dedos longos pelo galo dolorido acima da sua nuca. Deslizou os olhos pelo próprio corpo, vendo-o estranhamente intacto, embora sentisse os músculos cansados e a pele sensível, estava muito bem. Seja lá pelo que tinha passado, Apolo devia tê-lo cuidado. Reconhecia aquela sensação morna e anestésica que a cura dele deixava na carne. O único indício de violência em si mesmo, era a túnica que já fora branca, mas agora mesclava-se entre o cinza úmido, marrom-terra e preto seco. Amarrotada e rasgada em alguns lugares.

Precisava tirá-la do corpo o quanto antes.

Foi com esse pensamento na cabeça que ouviu uma série de batidas educadas e suaves na madeira do outro lado da porta.

— Entre, por favor – ele disse imediatamente. Reconhecendo as beiradas languidas daquela áurea próxima.

Eros colocou a cabeça para dentro do quarto, sorrindo para ele.

— Olá de novo...

Os cabelos dele caiam soltos e sedosos em volta do seu rosto claro e perfeito. Uma túnica nova, de tecido diáfano e leve, aderindo ao redor do corpo. Um cheiro fresco e suave de banho recente misturando-se ao perfume delicioso natural na sua pele.

— Me desculpe por gritar com você hoje cedo – ele entrou no quarto já dizendo, com uma expressão que tentava ser amena e humilde, mas a malícia impressa no canto dos seus lábios cheios tornava impossível – E por tudo mais – acrescentou, fechando a porta. Apoiando o corpo delgado sobre ela. A túnica de um rosa forte e escuro destacava um leve colorado nas suas maçãs altas e angulosas, ao mesmo tempo em que fazia sua pele parecer ainda mais branca e lisa. O cabelo solto e recém-lavado brilhava como platina – Anteros é meio super-protetor. E eu estava... fora de mim.

Hermes piscou e sorriu tranquilamente, dando-lhe um aceno ligeiro da mão, indicando seu lado da cama com umas palmadinhas. Pensar na cena daquela manhã era engraçado. Parecia ter acontecia há séculos atrás.

— Não há necessidade disso – disse calmamente – Eu entendo perfeitamente. Teria agido de maneira parecida no seu lugar. Na realidade, eu provavelmente nos teria estapeado – admitiu, com uma expressão arguta – Posso ter dado uns tapas em Apolo quando tive oportunidade, aliás... – acrescentou, enrolando uma mexa de cabelo colorido entre os dedos. Dando-lhe ainda um sorriso lento e orgulhoso.

— Oh... – Eros gemeu, com aquela voz macia e insinuante que parecia veludo nos seus ouvidos, de uma maneira que fez seus pelos se arrepiarem – Não me mate de inveja! – ele ronronou, colocando uma mão delicada de dedos finos sobre o peito esbelto, olhando-o fixamente com seus olhos escuros, e acomodando-se languidamente na cama ao seu lado.

Perto. Muito perto.

Hermes deslizou os dedos pelos braços, tentando acalmar a própria pele, que lhe enviava uns choques amenos e estranhos. Embora não desagradáveis de fato.

Ele nunca tinha ficado sozinho com o Cupido, e todas as vezes em que lhe sentira a áurea, ela estava misturada a dezenas de outras ao seu redor. Agora que pensava nisso, é provável que o tivesse evitado. Efeito colateral daquela contenda antiga com ele tinha seu irmão. Um desperdício injusto e terrível, ele pensava agora. Até que deu as caras pelo Palácio da Uva, e em vez de encontrar Dionísio, teve de pôr-se a par daquela história pela boca rosada e catastroficamente distrativa dele — o que também não foi exatamente... desagradável — Na realidade, ele não conseguia pensar em uma única frase em que “Eros” e “Desagradável” pudessem dispor-se juntas. Que Apolo o perdoasse, mas não seria verossímil.

Porque tudo nele parecia agradável aos sentidos. Desde a voz sedosa, a textura dos cabelos claros e compridos, a lisura porcelanada e alva da sua pele, ao corpo perfeitamente equilibrado entre planos, curvas e músculos, se movendo libidinosamente por baixo da túnica fina, leve e provocantemente transparente. Era agradável o modo como ele falava. Os lábios colorados e cheios se movendo devagar, uma curva de malicia curvando-os nos cantos. Era agradável o jeito que ele se movia. Leve e fluido. Como se estivesse flutuando. As pernas longas e delineadas davam passos largos e seguros. Os quadris bamboleavam levemente. Não o suficiente para parecer feminino de fato. Apenas incrivelmente hipnótico e insinuante.

Hermes já tivera amantes de todos os gêneros, mas nunca se sentira especialmente atraído pelas formas masculinas. Algo naquela solidez áspera e robusta o repelia. Mas Eros estava a anos luz daquilo. E lhe parecia mais macio, delicado e convidativo do qualquer mulher que já tivesse visto, com exceção da sua mãe, de quem espelhara os traços pequenos, simétricos e perfeitos. No que apenas os olhos pretos e a áurea afetada se mostravam incisivos e implacáveis.

Impetuosa. Era a palavra certa. A áurea dele era impetuosa como o próprio desejo, intensa como uma paixão e irresistível como o prazer. Hermes podia senti-la na pele, arrepiando seus pelos e vibrando nas suas células, enquanto tentava impedir as costas de arquearem, no que parecia ter-lhe dedos suaves brincando com a cútis sensível da sua nuca. Podia senti-la na boca, que de repente lhe pareceu parada e sozinha demais. Podia senti-la em todos os nervos, que se tornaram muito mais conscientes de si mesmo, flertando com seu autocontrole, incitando-o a fraquejar. A áurea dele era íntima e invasiva, fazendo ter-lhe vontade de morder os lábios e fechar os olhos, enquanto acelerava lhe a pulsação e jogava seu próprio sangue para lugares inapropriados de expor em público, mas lhe deixava as palmas frias. A sua boca queria contato. A sua pele queria contado. O seu sexo queria contado. Por que vê-lo era desejá-lo. E estar com ele era estar excitado.

Só esperava que ele não notasse a maneira como isso se manifestava por baixo da sua túnica...

— Por falar no nosso querido raio de sol – Hermes começou, tentando distraí-lo. Pousando os braços no colo afim que encobrir a sua excitação – Onde ele está?

Eros arqueou apenas um dos cantos da boca cheia, num meio sorriso tão libertino que o fez arquejar, ainda sem vacilar no estudo cuidadoso que lhe fazia.

— Você não adivinharia... – desafiou, num tom enrouquecido que lhe saiu raspando voluptuosamente nas frestas dos dentes.

— Ah... – Hermes meio suspirou, meio ofegou. Os olhos agora tão fixos quanto os dele – Não diga “no quarto de Dionísio”...

— No quarto de Dionísio – Eros sussurrou. Se sua voz fosse um gesto, seria uma carícia – Se você ficar bem quietinho... – ele acrescentou, baixando tom ainda mais, um sorriso terrivelmente devasso brincando nos seus lábios –...conseguirá ouvi-los – prometeu, os olhos pretos pesados de malicia.

Os dois apenas se fitaram por um minuto. Eros oscilando entre os cabelos cor de lavanda e seus lábios escuros, enquanto Hermes se mantinha obcecadamente fixo na boca farta e rosada a sua frente. Até que puderam ouvir claramente um dueto de sons deveras descontrolado e comprometedor, chegando abafados, mas nítidos pelas camadas de parede.

Então riram juntos. Como se tivessem combinado. A gargalhada de Eros era tão gostosa e bonita que Hermes parou de rir mais cedo para ouvir-lhe o final. Parecia um pássaro cantando.

— Eles só precisavam de um empurrãozinho – o Amor afirmou, largando o corpo frouxa e languidamente no colchão as suas costas. Como se tudo houvesse sido ridiculamente fácil desde o início.

— Ou dois – Hermes sugeriu, erguendo as sobrancelhas lilases.

— Ou vários... – Eros acrescentou, numa risadinha delicada.

Então existe alguém com o meu senso de humor. O Cupido pensava, lambendo os lábios. Que interessante...

Nunca tinha reparado em Hermes antes. Talvez porque quase sempre o visse ao lado de Apolo e o Sol ofuscava qualquer um. Entretanto, ele era bastante agradável à vista. Eros raramente achava alguém magro realmente bonito. Preferia as curvas acentuadas ou os músculos definidos às costelas expostas e ossos saltados. Mas Mercúrio era um magro elegante e saudável. Com uma musculatura suave e bem delineada por baixo de sua pele levemente bronzeada, que parecia fresca e cálida ao toque alheio. O rosto tinha traços retos semelhantes ao pai e alguns irmãos, mas com ângulos mais acentuados e linhas alongadas. Fazendo da sua face um caminho de curvaturas exóticas. Muito ressaltado pelos sagazes olhos cor de âmbar, os lábios arroxeados de quem parecia ter acabado de comer uma cesta de amoras maduras, e as suas melenas aéreas, que não se contentavam a imobilidade nem a constância de cores comuns, e agora brilhavam naquele tom claro e gélido de lilás.

A áurea dele era inquietante, estimulante e vivaz. Fazia Eros querer abrir as asas e voar. Totalmente sem destino. Fazia-o sentir-se leve, breve e com mais energia do que o corpo se disporia a guardar sentado ou contido. E ele tamborilava os dedos delicados pelo lençol roxo da cama, tentando extravasar parte daquela disposição. Daquele animo irresistível e absoluto. Queria exercitar-se. Alongar-se. Dar voltas velozes e dançar em torno de alguém. Ou em cima de alguém. Ele parecia fogo. Parecia atrito. Parecia eletricidade. E aquele vigor extasiante o impeliu para perto dele, fazendo-o sentar de volta no colchão, aproximando seus rostos muito além das barreiras opressivas do espaço pessoal.

O deus dos ladrões cheirava a eucalipto, lã nova e fogo vivo. E os olhos amarelados que se fixaram nos seus escuros, sem o mínimo embaraço ou hesitação — o que era bastante raro e instigante — expeliam uma astúcia afiada e atrativa, que poderiam ler todas as suas vontades e mentiras. E Eros sabia o que ele estava lendo nele agora, porque sorriu como quem acaba de ganhar um jogo difícil ou roubar algo valioso do pior inimigo. Seus dentes não eram tão alinhados como os de Apolo, e os caninos se inclinavam levemente sobre os molares, deixando-o com ares mais despojados e genuínos. Uma beleza mais exótica e interessante do que impecável ou perfeita.

— Há algo que quero falar-lhe – Eros sussurrou seriamente, em contraste ao seu sorriso largo e satisfeito – Desde que entrou aqui outro dia.

Os lábios dele moviam-se como se estivessem beijando. E Hermes respirou fundo, aspirando livremente o seu perfume. Era tão doce e claro que ele achava que quase podia sentir lhe o gosto. E de fato podia, percebeu, ao lamber os próprios lábios. Ele tinha cheiro de pimenta do reino e baunilha, com um toque suave de água de rosas vermelhas.

— Pois fale – quase mandou, sem esconder um centímetro dos dentes imperfeitamente agradáveis.

Como que lhe dada a permissão, Eros simplesmente ergueu a mão esquerda e entremeou seus dedos finos nas melenas lilases de Mercúrio.

— Gosto do seu cabelo – ele declarou. Enrolando atrevidamente uma mexa fina no indicador, numa lentidão pouco inocente, embora ainda com seriedade estampada no semblante.

Hermes piscou devagar, ponderando divertidamente as ações seguintes, como se aquilo fosse um jogo de resistência e astúcia. E Eros era um oponente ousado e confiante. Deixou que brincasse livremente com seus cabelos, enquanto a inquietação devassa no seu baixo ventre tornava-se cada vez mais notável e urgente. Quero tocá-lo. Pensou, tirando os braços do próprio colo, como em resposta ao seu desafio sutil. Quero beijá-lo. Percebeu. Porque as intenções dele estavam tão claras quanto as impressões que seus dedos deixavam na pele entre os seus fios. Quero despi-lo... Concluiu. Pois então, que ele notasse o que estava lhe causando. Pretendia cobrar-lhe seriamente por isso. E se ele esperava alguma espécie acanhamento ou hesitação, tinha escolhido o oponente errado.

Hermes não tinha paciência para blefes.

Eu vou gostar de jogar com você. O deus dos ladrões pensou enquanto erguia a mão, prendendo os dígitos obstinadamente nas suas ondas louro-platina e escorregando com eles desde as raízes macias às mexas da altura do queixo, no que suas falanges tocaram como que distraídas na sua pele perfeita.

— E eu gosto do seu – disse por fim. Muito verdadeiro.

Só então Eros sorriu.

Um sorriso de derreter geleiras, causar guerras e parar tempestades. Um sorriso de destruir implacavelmente qualquer forma de autocontrole e arrasar os resquícios da inibição. Um sorriso que expelia todo tipo de depravação, lascívia e malícia em que se pudesse imaginar.

Dionísio não estava ali para ver aquilo. Mas, se estivesse, teria saído do recinto as risadinhas. Por que ele conhecia aquele sorriso.

E Hermes estava completamente e irrecuperavelmente perdido.

Notas finais
Então, eu realmente não tenho uma boa desculpa para ter demorado tanto. Posso apenas dizer que estava com um bloqueio criativo do tamanho do espaço vago do Canadá. Não só para escrever, como para desenhar, tocar, cantar, fazer origami, e todos os meus outros hobbies costumeiros. As vezes acontece, mas acho que é a primeira vez que dura tanto, me desculpem mesmo. Agora, dois avisos importantes: 1 - Pensando no futuro da fic, em como vou articular tudo o que tenho em mente, decidi dividir a estória em ciclos. sendo que o primeiro está próximo de terminar, e este é o penúltimo capítulo. Depois disso, vou tirar um pausa para arquitetar o próximo, onde teremos outros problemas, outros romances, e novos personagens. Não se preocupem, o foco ainda será o nosso trio sedução haha. Talvez eu até inclua ZeusxHades na estória... quem sabe... 2 - dito isso, fico muito feliz em comunicar que a partir do próximo ciclo a fic será betada! :)))))) Quem vai fazer esse trabalho lindo e ter que me aguentar a partir daí é a maravilhosa Lady Maricchi. E podem agradecer por a ela por esse cap, pois ela me ajudou incrivelmente com meu bloqueio, apenas falando da estória comigo. Mari, já te amamos ♥ Acho que é isso, espero que tenham gostado desse lemon gigaaaaante (e super difícil de escrever haha). Teve uma tonelada de Apolísio, um pouco de Hermeros, e vai ter mais no próximo cap. Como sempre, espero as opiniões e o amor de vocês ♥ Beijos possessivos e amo vocês... ps: um passarinho azul me contou que existem pessoinhas que shippam ErosxAnteros... tem mais alguém aí nesse estatística? Eu gostaria de saber... posso pensar em algo sobre isso...