Bacanal

7 No alto das coisas


Notas iniciais
Ah meu Zeus... advinha quem está mais vermelha de Dionísio com vergonha: isso mesmo, a tia Norma aqui... Gente, que atraso horroroso! Mil perdões. Eu juro pelos deuses que o capítulo estava prontinho no manuscrito, mas por questões de força maior (também conhecidas como: fiquei de castigo... eu sei, é ridículo... NÃO RIAM!), não pude passá-lo para o not e postá-lo. Mas aqui jaz, tardio embora cheio de amor e carinho. Boa leitura.

A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder a ela.

— Oscar Wilde, “O Retrato De Dorian Gray”

— Você está querendo me dizer que o deus das festas fugiu... da própria festa?! — Apolo soltou, exclamando baixo entre os dentes.

— Eu... ah... — a bacante começou a soluçar nos braços de Eros.

— Não sabemos se foi isso o que aconteceu. — Cupido disse, embalando a mulher distraidamente.

— Oh não, tenho certeza de que as hárpias o raptaram!

— Não precisa ser cínico. — Eros reclamou. — Grosso...

— Ora, mas... — o deus do sol apertou os dentes. Agora que havia decidido tomar um rumo divergente de Dionísio definitivamente, isso acontecia! — Certo, e o que é que eu tenho com isso? — perguntou, friamente.

A ménade começou a chorar de verdade, escondendo o rosto no peito de Eros, que fechou a cara para ele.

— Nem comece, Apolo. — murmurou, perigosamente calmo. — Ele é seu irmão… e seu amigo.

O Sol encarou aqueles olhos implacavelmente escuros enquanto pode, mas eles eram muito mais duros que os seus, o fazendo acabar por soltar um suspiro irritado e desistente.

— Ah, que seja... — soltou. Não acredito que estou me metendo nisso...— nenhuma das bacantes o viu? — quando a mulher negou com a cabeça, o rosto bonito molhado, ele continuou: — E Sileno? Vocês perguntaram para ele?

— Claro que sim. — Eros murmurou, seco.

— E nada? — Apolo insistiu.

— Eu perguntei “Sileno, onde está o seu deus?” e ele disse “Que deus?” — Cupido respondeu, apertando os lábios cheios aborrecidamente.

Apolo revirou os globos azuis.

— V-Velho... idiota... — balbuciou a bacante, entre soluços, a voz abafada pelo tecido da roupa do deus do amor, que ela molhava com lágrimas tímidas.

— Somos todos capazes de concordar com isso, querida. — Eros disse para ela, suavemente, enquanto acariciava seus cabelos claros.

Apolo encarava aquilo com uma inveja feia e não ignorável cutucando sua consciência. Nunca fora capaz de demonstrar um afeto tão simples e sincero, como o outro fazia distraidamente. Fato que lhe tornava toda demonstração de carinho público, irritante.

— Por quê? — o Sol disparou, desviando os olhos.

— Por que o quê? — Eros franziu as sobrancelhas platinadas, confuso.

— Por que ele faria isso? — Apolo continuou, apertando o queixo quadrado entre os dedos. — Não encontro lógica neste comportamento. Vocês o conhecem. Por que ele faria isso?

Eros franziu o cenho, negando com a cabeça. A mulher desafogou a face do seu peito e murmurou.

— Meu senhor n-nunca fez nada... nada pa-parecido. —balbuciou ela. — Sempre foi metódico e extremamente perfeccionista com os mínimos d-detalhes em festas importantes. — Apolo não conseguia nem imaginar Dionísio sendo minucioso, mas a deixou continuar. — Acompanhou a preparação desta com um afinco que eu nunca vi... — ela parou, os olhos castanhos se perdendo por um instante. — Mas...

— Mas? — Eros incentivou afável, colocando as mechas de cabelo que grudaram da pele das bochechas na bacante atrás de suas orelhas.

— Ele estava... diferente hoje. — a mulher prosseguiu, a voz mais firme. — Desde manhã, estava estranhamente calado, soturno… quase inexpressivo. — um soluço escapou de sua boca. — Pensei que estivesse apenas ansioso, esta é uma festa importante para ele, até a divindade do seu pai prometeu comparecer e meu senhor não camufla as emoções… mas… — hesitou por um estante, tomando folego em seguida. – Era eu quem o estava vestindo esta noite. Antes de sair, ele disse que queria ficar um momento sozinho, e eu… eu… — ela se encolheu, prestes a desabar de novo. — Eu obedeci. Achei que só estava nervoso! Mas quando voltei, ele tinha sumido! — algumas lágrimas desceram por suas bochechas. — É culpa minha! Minha! Eu devia ter percebido alguma...

— Ei, não fique deste jeito… você deve obediência ao seu senhor, cumpriu o seu dever. — Eros murmurou para ela, apertando-a contra si novamente.

Dramática...Apolo pensou, tentando não revirar os olhos.

— Isso é t-terrível. — a bacante soluçou. — O senhor Zeus deve chegar a qualquer momento e não encontrará o anfitrião para recebê-lo. Será de uma deselegância hedionda! Nunca vão deixar meu senhor se esquecer disso...

Apolo ponderou as palavras da mulher, soturnamente. Apesar de espalhafatosa, a bacante estava com a razão. Numa corte imortal, as fofocas duram para sempre.

— Eles já estão percebendo... — ela murmurou lugubremente.

Os três sondaram o salão lotado discretamente. Os convidados pareciam inquietos, como se esperassem impacientemente por algo. A bacante começou a roer as unhas compridas nervosamente, choramingando baixinho. Eros tinha a expressão de que acabara de comer algo horrível.

— S-Senhor Eros, acha que existe a-alguma chance de meu mestre… bem, o senhor s-sabe… ter perdido a cabeça? — a bassária sussurrou, soluçando no ouvido do Cupido, se aproveitando da distração pensativa de Apolo.

— Não — ele negou com firmeza, no mesmo volume. — Haveria um rastro de destruição inegável se houvesse acontecido...

— Certo. — Apolo se pronunciou, atraindo a atenção dos dois. – Vamos resolver isso! — anunciou, decidido.

— Como? — Cupido perguntou. O Sol o ignorou.

— Você! — chamou a ménade, seco. A moça quase pulou, fazendo uma continência. — Onde estão as outras bacantes?

— Ah, estão divididas por andar… procurando…

— Isso é inútil. Reúna todas as que não estiverem dançando agora.

— Mas...

— Ninguém conhece a plantas deste palácio, nem a vocês, tão bem quanto ele. Se realmente quer se esconder, não serão vocês que irão encontrá-lo. — cortou impacientemente.

— Ah, então... — a mulher hesitou. — o que devemos fazer?

— Distraí-los. — respondeu Apolo, indicando os convidados com a cabeça. — existia algum numero ou apresentação preparados para hoje? Digo, depois disso tudo? Algo naquele palco grande, que não envolva a presença de Dionísio? — perguntou, indicando a estrutura vazia.

— Sim. — ela assentiu, esperançosamente. — Sim, vários.

— Ótimo. Prepare-se para exibi-los imediatamente.

— Ah, mas... começar assim? Sem nenhuma apresentação do anfitrião. — perguntou, nervosa.

— Ora, o deus das festas pode inovar, não? — sugeriu Cupido.

— Sim, sim. Inventamos uma desculpa qualquer para isso depois. — descartou Apolo, — Posso contar com você para isso? — inquiriu gravemente.

A bacante engoliu à seco, mas depois mordeu o lábio numa expressão desafiadora e respondeu com firmeza.

— Sim, senhor!

— Então vá! — ordenou.

A mulher saiu apressadamente, sem mais nenhuma palavra, desviando graciosamente dos convidados.

— Isso vai realmente servir para alguma coisa? — Eros perguntou, incerto.

— Não. Foi só para tirar ela de cima de mim. — respondeu, seco. — Já estava me dando nos nervos...

O Cupido olhou-o incrédulo, depois bufou, negando com a cabeça.

— Que seja... — soltou, irritado. — Mas, e agora? Ainda precisamos encontrá-lo.

— Ou encontrar alguém que o faça. — respondeu. E de repente, partiu numa linha reta pela multidão.

— Espere, o quê? — Cupido ofegou, correndo atrás dele. — O que você vai fazer?

— Recrutar alguém. — Apolo disse, austeramente. — Alguém rápido.

— Mas, q... — Eros fez um silêncio entendido, quando chegaram a um convidado em especial.

Apolo nem perdeu tempo com cumprimentos.

— Hermes, preciso de ajuda.

*

No final, não foi preciso muito. Menos de uma hora depois, o deus dos viajantes encontrou o Sol numa varanda afastada do salão.

— Eu o encontrei. — disse, os cabelos curtos, agora num tom forte de fúcsia, se movendo hipnoticamente.

— Eu sabia que iria... — elogiou Apolo, aliviado. – Obrigado.

— Não há necessidade disso, o garoto é meu irmão também. Já fiz muito mais por ele. — respondeu Hermes, daquele jeito rápido e prático dele, enquanto levitava na beira da sacada.

— Sim, eu sei que sim... — murmurou, envergonhado pelo altruísmo do outro. Por isso todos te amam, irmão. — Onde? — perguntou baixinho.

— No alto das coisas. — recitou Mercúrio — Ali... — e apontou para a cópula arredondada do topo da torre mais alta do Palácio Dionisíaco.

Apolo deixou o queixo cair.

— O quê? Aquilo deve ter uns… noventa metros de altura!

— Noventa e cinco metros e sete centímetros… — Hermes murmurou desatento. O irmão o encarou .– Ah, é fácil de perceber.

— É claro que sim. — o Sol ironizou, antes de apertar os olhos para a construção. – Como raios ele subiu ali?

— Esta é uma excelente pergunta. — concordou Mercúrio, parecendo achar graça. Nem ele fazia ideia de como o irmão havia feito aquilo.

— Você… falou com ele? — Apolo perguntou quase num sussurro.

Hermes negou com a cabeça, fazendo as melenas rosadas dançarem.

— Não somos tão próximos quanto eu gostaria. E ele parecia… aborrecido. — o deus deu ombros, oscilando de altura suavemente. — não achei que fosse o meu papel.

— Certo... — o outro murmurou.

— Então, vamos? — perguntou o deus dos viajantes, estendendo a mão.

— O quê? — Apolo indagou, confuso.

— Eu vou te levar até ele, ora essa! A menos que tenha trago sua carruagem de fogo ou queira escalar até a cúpula.

— Ah, mas...

— “Mas” o quê? — perguntou Hermes, impaciente.

— Talvez seja Eros quem deva fazer isso.

— Por quê?

— Ah... — Apolo hesitou. Porque se me deixar sozinho com ele de novo, é provável que eu o devore! — ele conhece Dionísio melhor e...

— Achei que o tivesse colocado para pôr alguma ordem nas bacantes e nos sátiros. — deu uma risadinha pelo nariz. — Coitado...

O Sol mordeu a parte de dentro do lábio. Foram necessários apenas alguns minutos para que chegassem à conclusão de que as ménades não eram – nenhum – exemplo de organização, e ele deixara Cupido com a tarefa de ordenar aquela confusão, com um leve sentimento de vingança ameaçando curvar seus lábios, totalmente convicto de que tinha lhe delegado a pior tarefa.

Se arrependimento matasse...

— Pensei que estivéssemos com pouco tempo. — insistiu Mercúrio.

Apolo apertou os olhos azuis e deixou escapar alguns resmungos inapropriados, o que era raro. Mas estava bêbado e cansado. Muito cansado.

— O que você disse? — quis saber Hermes, erguendo uma sobrancelha colorida.

Mate-me, por favor...

— Não me deixe cair. — foi o que murmurou, estendendo a mão.

Apolo perdeu a conta de quantas vezes pensou em se jogar de lá de cima em vez de enfrentar outra conversa a sós com o deus do vinho. Aquele menino luxuriante de quem ele fugira desde que o vira pela primeira vez, e que por algum motivo oculto – provavelmente o senso de humor perverso do Cosmo, ou de Eros – havia entrado de rompante na sua vida, virando toda a sua ordem do avesso. Aquela criaturinha pequena, inocente e linda.

Tão linda...

O Sol soube que era tarde demais quando sentiu a presença do outro lhe invadir os sentidos. Hermes percebeu que o irmão estremeceu e depois afrouxou o aperto dos dedos, o que o levou a segurá-lo com mais força e franzir a tez clara, mas não perguntou nada. Enfim, o telhado da cúpula apareceu debaixo dos seus pés e Mercúrio o abaixou lentamente.

— Ele está do outro lado. — sussurrou. — Vou ficar por perto. Quando quiserem descer, me chame. — o outro permanecia estático, como se houvesse esquecido o que viera fazer. Hermes levitou mais baixo, tocando o ombro do irmão. — Seja gentil com ele, sob muitos aspectos, ainda é uma criança...

Apolo puxou o ar audivelmente e começou a rodear a cúpula com uma graça invejável, principalmente para quem já estava levemente embriagado, sem dizer uma palavra. Mercúrio afastou-se lentamente, observando o deus do sol com seus analíticos olhos dourados e perguntando a si mesmo o que é que estava perdendo ali.

Dionísio estava sentado na inclinação das telhas, observando o Olimpo. A túnica negra ricamente bordada em fios de ouro amassada entre seu tronco imberbe e seus joelhos delicados, que ele abraçava apertado. A capa púrpura de uma seda diáfana esparramada a sua volta. Na cabeça, em vez das folhas e vinhas, trazia uma coroa de metal avermelhado com a forma de ramos finos trançados e pequenos rubis encrustados nos elos, perdida entre seus cachos selvagens e escuros. Apesar de parecer o jovem príncipe mais rico da terra, tinha no rosto uma expressão quase nula e estranhamente adulta. Entreabriu os lábios vermelhos de repente e deixou escapar por entre ele um suspiro lento, o corpo tomado por um calor suave e anestésico que só uma pessoa podia proporcionar. Virou a cabeça como um gato, não se surpreendendo ao encontrar Apolo ali, perfeitamente equilibrado nas lajotas inclinadas.

— Olá… — disse o Sol, quase afável.

Dionísio não devolveu, nem sorriu. Apenas deixou as íris esverdeadas divagarem pelos traços retos do outro.

— Como me encontrou? — perguntou, a voz amortecida.

— Não encontrei. — confessou, andando mais alguns passos. — Hermes o fez.

— Aquilo era Hermes? Hum... — virou o rosto liso para a vista. — achei que fosse um pássaro.

— Um flamingo cor-de-rosa bem grande, talvez… — disse, parando a poucos centímetros do irmão mais novo. — Dionísio, por que está aqui em cima?

Um sorriso mínimo apenas ameaçou o canto da boca do jovem moreno, que se virou para Apolo, afogando-o na profundidade dos seus olhos enormes.

— Eu poderia lhe fazer a mesma pergunta. — quando o Sol hesitou, Baco deixou o queixo cair sobre a curva dos joelhos, tirando os olhos verdes dele. — Não é como se você se importasse.

Apolo sentiu aquela na boca do estomago, como se o outro houvesse lhe agredido. Quase devolveu, acusando-o de ser injusto, quando a vozinha da sua consciência despontou lhe na cabeça. E você se importa? Ela perguntou. Estaria aqui se achasse que tinha outra opção? Mas você tinha, não tinha? Podia ter trocado de lugar com Eros, ele saberia muito melhor o que fazer. Vamos, responda: por que está aqui em cima? Ecoou suas próprias palavras. Foi o altruísmo do seu irmão que o fez perceber a sua própria frieza? Foi a vergonha que o trouxe para cá? E concluiu, perigosamente.

Ou existe outra razão?

Num raro movimento espontâneo, Apolo se sentou ao lado do irmão, trazendo as pernas compridas e musculosas para perto. Aquela estava longe de ser a construção mais alta do Olimpo, mas ainda sim sua vista era estarrecedora. Dalí podia ver facilmente o palácio anguloso e rosa-perolado de Afrodite; o esguio, eclético e absurdamente alto de Hermes; mais ao longe o castelo robusto e largo de Hefesto emitia um brilho metálico; e a mansão modesta de Héstia tinha as janelas quadradas iluminadas pelo brilho alaranjado de dezenas de lareiras aconchegantes.

— É lindo aqui em cima... — comentou.

Dionísio ergueu as sobrancelhas escuras, levemente surpreso.

— Não deve ser nada comparado a visão que tem da carruagem todos os dias.

Apolo ponderou a fala do outro, maneando a cabeça antes de fitá-lo.

— Há vantagens em ver mais de perto. — Dionísio não olhava para ele, o que permitiu que tivesse coragem de estudar a curva acentuada dos seus cílios grossos, que quase tocavam em suas bochechas ruborizadas quando ele piscava; a dobrinha que aparecia no meio do seu lábio inferior toda vez que ele apertava a boca vermelha; o formato das madeixas castanhas que se enroscavam graciosamente na pele macia e clara da sua nuca. — A beleza está nos detalhes...

Baco o olhou de canto por apenas um segundo, como se suspeitasse que ele não estava falando apenas da vista, mas logo perdeu-se no vazio lotado lá de baixo. O Sol seguiu o encarando, a mente trabalhando o que devia dizer.

— Você deve algumas desculpas à bacante que o vestia hoje. — tentou, baixando o volume da voz. — Ela está totalmente convencida de que é a culpada pelo seu sumiço. Chorou um bocado...

Aquilo pareceu atingi-lo em cheio e ele escondeu o rostinho nos joelhos.

— Arpe, pobrezinha. — murmurou, abafado pelo tecido da própria roupa — É tão emotiva...

— E um tanto convencida também. — provocou Apolo. — Se responsabilizar pelos atos de um deus? — bufou. — Você é um filho de Zeus! Um olimpiano. É Dionísio, Baco, Dentrites1 e Bromios2. É o deus do vinho, o patrono do teatro, o espírito das festas, a encarnação da felicidade, o protetor das artes. É o Filho Do Inferno E Do Céu. O Peregrinador. O Três Vezes Nascido. O...

— Eu não precisaria ter nascido três vezes se ela não houvesse me matado duas! — ele cortou, a voz lisa e afiada como uma lâmina.

Ah, enfim chegamos a algum lugar...

**

A história do nascimento — ou nascimentos — de Dionísio era tão conturbada e sangrenta quando a de um bastardo de Zeus podia ser. Começou com a relação adúltera e incestuosa do deus do céu com a rainha infernal, Perséfone. Quando Hera descobriu, não apenas a traição como o fruto dela que crescia saudavelmente no ventre da rival, planejou cuidadosamente a sua vingança. Não contra o marido, é claro, mas contra a criança.

Assim que o bebê imortal nasceu, moreno e belo como a mãe, a senhora do céu raptou o recém-nascido e desceu até o mais sujo, infame e miserável circulo do Tártaro, onde habitavam os Titãs, a qual ela deu a criança para que o matassem. Eternos inimigos de todo deus e perversos por natureza, nem mesmo ele quiseram maltratar aquele que ainda era só uma pequena é bela sementinha de deus. Mas Hera não se conteve e incitou-lhes a ira, anunciando que aquela criança se tornaria um matador de Titãs, que junto ao seu pai lhes traria a destruição e o extermínio, e os convenceu de que aquele filhotinho, que nunca havia visto a luz de um dia, seria a ruina de sua raça. Foi o suficiente. As criaturas funestas não apenas esquartejaram o bebê, como o devoraram, pedaço por pedaço...

Foi Hermes quem soube daquela atrocidade e correu para implorar ajuda aos deuses do Olimpo. Atena ouviu seu pedido e, mesmo não aprovando os relacionamentos extraconjugais do pai, partiu em socorro do irmão mais novo. Porém, a deusa pouco pode fazer pelo pequeno, vendo que havia chegado tarde e que os Titãs eram muitos. Tudo o que conseguiu resgatar, tudo o que sobrou daquela carnificina, foi um pequenino coração de criança.

Ela o levou para o pai, com um aperto no peito normalmente frio. Zeus viu aquele coraçãozinho, que ainda insistia em pulsar fracamente, e não foi capaz de desistir do filho. Usou seu poder para transformar o órgão precioso numa poção, e a deu de beber a uma mortal por quem havia se engraçado nos últimos meses, logo depois de derramar sua semente nela. Era a princesa de Tebas, e seu nome era Sêmele.

Sendo umas das filhas de Harmonia, filha de Ares e Afrodite, Sêmele não era uma mortal comum. Havia sangue divino correndo em suas veias. Fato que possibilitou a segunda gestação de Dionísio no ventre da princesa. Depois de seis meses de relativa tranquilidade, Hera descobriu não só seu fracasso em se livrar da prova da sua traição, como a nova infidelidade do marido.

A deusa cruel desceu do Olimpo e se disfarçou como uma das servas da moça, aproveitando sua proximidade para encher-lhe de dúvidas perigosas quanto a seu amante divino.

— Muitos homens de pouca moral se fingem de deuses para se aproveitarem da devoção de belas donzelas, minha princesa. — murmurou, escovando-lhe lentamente os cabelos longos e irritantemente bonitos.

Sêmele apertou os lábios pintados em frente ao espelho, desconfortável.

— Tenho absoluta certeza de que não é o caso! — disse, com bem menos firmeza do que as palavras escolhidas sugeriam.

— E como saberia, alteza? — perguntou, condescendentemente.

Um sorriso travesso surgiu espontaneamente no canto da boca da moça.

— Ah, se ele houvesse se devotado a você como fez a mim naquela cama, você também sabe... Ai!

A “serva” havia lhe puxado as mexas escuras com a escova.

— Mil perdões, princesa. — disse, com um sorriso frouxo. — Havia um nó — Sêmele respondeu com um biquinho, esfregando o couro cabeludo dolorido, — De qualquer maneira, — continuou a deusa, lentamente. — o talento de um homem na cama não é prova de divindade, alteza...

A moça bufou, irritada.

— Por que está falando disso agora?

— Ora essa, minha princesa! — respondeu, com uma máscara de preocupação no rosto falso refletido no espelho. — É o filho dele que vossa alteza carrega no ventre. Não gostaria de ter certeza quanto a sua natureza? Não quer conhecer verdadeiramente seu amante? Não se importa com o futuro dessa criança?

Sêmele baixou os olhos escuros para a barriga incipiente e passou os dedos por ela, distraidamente.

— É claro que me importo... — murmurou, num tom culpado. — Mas, ora, o que é que eu posso fazer quanto a isso? — exasperou.

Hera sorriu terrivelmente com os lábios impostores, vitoriosa.

Tão insegura.

— Pode lhe pedir uma prova... — aconselhou, com ares didáticos. — Se é de fato o mais poderoso dos nossos sagrados deuses, senhor do Relâmpago e o Olimpo, rei do divino; não lhe deve ser difícil demonstrá-lo... — disse propositalmente devagar, começando a trançar os fios negros e sedosos.

Sêmele apertou os lábios para o espelhos, pensativa.

— Que tipo de prova? — murmurou com incerteza.

— Ora, vejamos... — a deusa em pele humana ponderou, como se jamais houvesse pensado nessa questão. Mas segurando um sorriso de triunfo. — Pode pedir para ele chamar o trovão; Mostrar a sua força sobre-humana; Causar uma terrível tempestade... — cutucou o queixo numa insatisfação falaciosa. — Não, não deve fazer isso. É tudo muito perigoso. De forma alguma deve se por em risco, minha princesa.

Sêmele cobriu barriga dilatada com ambos os braços graciosos, numa proteção instintiva.

— Você tem razão. — disse, olhando para o ventre cheio, com um carinho que só as mães têm capacidade de demonstrar.

Eu nunca vou colocar você em perigo, pequeno. Pensou, torcendo para que, de algum modo oculto, o filho fosse capaz de ouvir. Mal posso esperar para vê-lo. Já não suporto mais apenas imaginar como será seu rostinho. Ele falava sempre no masculino, por alguma razão, tinha toda convicção de que carregava um menino. Eu vou te ensinar a nadar na lagoa eu brincava quando era criança. E depois, nós vamos cavalgar justos pelos bosques do castelo. Vou lhe contar como ganhar todas as garotas bonitas, e você será o príncipe mais cobiçado da Grécia. Ninguém será capaz de resistir... O bebê se mexeu dentro dela. Você gostou disso, não é, seu devassinho?Pensou, sorrindo. Vejo que sairá ao pai.

Pai...

A palavra causou-lhe um calafrio incomodo. Sêleme não era casada e uma gravidez para alguém na sua posição, poderia ser uma catástrofe. Há não ser que carregasse um semideus. Pela vontade dos deuses, tudo é permitido. E a princesa de Tebas estava honrada de ter sido escolhida pelo senhor dos céus. Para amá-lo, agradá-lo, e mais que tudo, gerar um de seus filhos meio divinos no ventre.

Mal sabia ela que nutria um olimpiano completo.

Mas, e se não? E se o neném nascesse totalmente humano? Ela certamente o amaria da mesma maneira. Todavia, como justificaria sua existência a sua família? Como eles o tratariam? Só mais um bastardo na corte? E se o vissem como um estorvo? Ou pior, uma ameaça? Ele correria perigo? E se começassem a considerar tirá-lo do caminho? Sua família certamente era capaz de tão malícia. Ela poderia estar pondo o filho num mundo de cobras e leões! Não! Pensou Sêleme, com um frio na espinha, abraçando ainda mais a barriga gestante. O bebê se mexeu de novo, em resposta ao aperto. Nada de mal vai acontecer com você, eu prometo! Nem que eu tenha que ir até o fim do mundo para deixá-lo seguro. Assegurou, decididamente. Mas sentia medo. Um medo novo e muito maior do que ela mesma. Medo por algo que, de repente, valia mais do que a sua vida. Devo estar preparada. Concluiu, passando os dedos pelo abdome coberto e redondo. Preciso saber...

— Deve haver alguma maneira... — disse alto. Olhando esperançosamente para a senhora, que acabava por atar-lhe as pontas do cabelo escuro.

Os olhos de Hera brilharam.

Tão manipulável.

— Bem... agora que penso nisso... — ela hesitou dissimuladamente. — Talvez haja...

— Como? — Sêmele inquiriu esperançosa

Os olhos roubados da deusa transbordavam de satisfação.

— Forma verdadeira... — ela sussurrou. — Pode pedir a ele que mostre sua forma verdadeira. Sem máscaras ou subterfúgios. Apenas sua divindade como ela é. Como ele se apresenta aos outros deuses. Como ele se mostra a esposa.

Com a última frase, a moça arregalou os olhos, um brilho ingênuo de cobiça destacando as íris escuras.

— Como se mostra a esposa... — repetiu, num murmúrio distraído.

Tão previsível.

— Não entendo. — a princesa sussurrou, o cenho branco levemente franzido para o espelho de prata a sua frente. — Se ele nunca se mostrou dessa forma, há de existir uma razão. — E existe. A deusa pensou, sorrindo por dentro. Você pegaria fogo! — Não vejo porque ele mudaria de postura agora...

— Por que você exigirá isso dele. — Hera respondeu simplesmente.

Sêmele se virou para ela bruscamente, os olhos abertos de espanto.

— Não se exigi nada dos deuses! — ela disparou devotamente.

Hera conteve um suspiro irritado. Finalmente entendo o que ele viu em você. Pensou com desprezo.

— De fato, princesa. — ela cedeu estrategicamente. — Porém, ele deixou de ser apenas um deus para sua alteza. Ele agora é um amante, e um pai. Tem suas responsabilidades. Ambos têm, para com essa criança.

Sêmele apertou os dentes e voltou-se para o reflexo outra vez, os olhos vagando pelo próprio rosto.

— Se eu o irritar, — murmurou, por fim. — posso fazer com que vá embora. E assim não terei minha certeza, nem meu companheiro...

Tão frágil.

— Então deve fazer com jeito e garantir que ele te responda.

A princesa de Tebas franziu o cenho branco e macio, olhando-a com olhos enormes.

— Como? — perguntou, uma pontada de tristeza e outra de receio na voz.

— Faça com que ele jure. — a deusa no corpo falso disse. As palavras rígidas e duras. — Faça com que jure pelo Rio Estige. Nem mesmo o mais poderoso dos deuses pode quebrar esse juramento ela concluiu.

— Jurar pelo Estige? — Sêleme perguntou incerta.

— Jurar pelo Estige. — Hera repetiu, entre os dentes impostores. A satisfação de quem põe uma cereja no topo de um bolo gigante.

Tão estúpida!

O bebê Dionísio se mexeu desconfortavelmente dentro dela, como se previsse o desastre.

Sêmele suspirou, afagando a pele entre ela e o filho querido. Calma, pequeno. Vai ficar tudo bem. A mamãe vai fazer o que é certo para você.

— Que assim seja. — foi o que ela disse.

E assim foi.

Depois de uma noite de luxúria, a princesa ingênua fez com que Zeus jurasse, pelo temido Rio Das Almas, que faria o que ela pedisse, como prova de amor. Quando as palavras “forma” e “verdadeira” saíram da sua boca, Zeus fechou os olhos em desespero, vendo uma trilha sangrenta ligando aquele embuste diretamente a sua vingativa e cruel esposa. Mas nada pode fazer. A sua forma inferior escorreu dele como maquiagem na banheira, revelando todo poder contido do seu corpo divino.

Sêmele estava cega antes de perceber o que tinha acontecido.

A princesa queimou até as cinzas. A beleza desfeita num pó cinzento sem valor. O deus torcia para que ela não houvesse sentido. A pele chiando em resposta a uma força desconhecida.

Dionísio não sucumbiu com a mãe. Zeus o encontrou, abortado e encolhido, no meio dos lençóis sujos quarto, que agora ardia em labaredas altas e flamejantes, o ar carregado do cheiro forte de estática e carne queimada.

Com o bebê prematuro nas mãos, o senhor dos céus abriu um corte longo a própria coxa e o escondeu ali. Onde Hera não poderia feri-lo. Pelo menos, não até que nascesse.

Pela terceira vez.

Quando chegou a hora, Zeus desfez os pontos que seguravam o filho e o recém-nascido a Hermes, que levou a criança para ser criada por sua tia materna Ino, e seu marido, Athamas.

Anos se passaram. O pequeno e belo Dionísio crescia saudável entre os primos mortais. Ino o acolheu e criou como a os filhos mais velho e eles o tratavam como a sua bonequinha, mimado por todos os lados. O menino deus estava feliz.

Hera não.

— Bastardinho maldito. — ela rosnava, assistindo o pequeno por um espelho enfeitiçado, sendo vestido e penteado pelos irmãos de criação, que o por seus traços delicados e natureza gentil, o tratavam como fariam a uma menininha. — Como se atreve a rir desse jeito! — a deusa arranhava as laterais da superfície prateada. — Eu o arranquei dos braços da sua primeira mãe, aquela vadia... — cuspiu, mostrando os dentes. — Eu carbonizei até os ossos da sua segunda mãe, aquela imbecil! — cacos de vidro minúsculos começaram a se alojar por baixo das suas unhas. — Eu roubei você. Despedacei você. Queimei você! — gritou para imagem do menino inocente, girando com um vestidinho de renda em que os primos haviam lhe metido e agora morriam de rir. – Eu fiz você de comida! Eu fiz de você órfão! Como se atreve a ser feliz? Como ousa rir para esses mortais estúpidos? — icor dourados escorria pelos seus dedos. — POR QUE EU NÃO CONSIGO DESTRUIR VOCÊ?

Cacos prateados se espalharam com um estrondo seco e rachado quando deusa arremessou o espelho magico pelo quarto, o chão se tornando um mosaico caótico e afiado. Ela enfiou os dedos ensanguentados pelo cabelo castanho, puxando os fios num acesso de raiva.

— A sua existência zomba da minha! — Hera soltava entre os dentes cerrados de ódio. — Sempre que eu o machuco, alguém o salva. E começa tudo de novo... — ela olhou para aquele mar de cacos quebrados. — Por que eu não consigo destruir você...?

Ao seu comando, os pedaços do espelho destroçado de ergueram no ar, numa regência muda, e começaram a se colar uns nos outros. Até que toda superfície estivesse lisa e inteira de novo. Ou quase.

— Ora, ora...

Um pedaço de caco do tamanho a palma da mão de uma mulher se prendera entre o chão e o pé de madeira pesado de uma cadeira.

E o espelho ficou assim. Incompleto. Feio. Inútil.

Quebrado.

Hera se aproximou dele a passos lentos, os olhos fixos naquela imperfeição evidente. Passou os dedos pelo estrago, sem reagir aos cortes mínimos que se abriram nas suas digitais. Uma ideia maldita e brilhante gritando na cabeça.

— Talvez eu não possa destruí-lo... — ela murmurou, um sorriso tão rachado e afiado quanto os cacos remendados. — Mas eu posso quebrá-lo...

Athamas voltava para casa, depois de um dia muito longo, quando os sussurros começaram. Primeiro baixos e poucos, fazendo o homem sacodir a cabeça, como que pudesse abafar os zunidos. Depois muitos e altos. Uma colmeia furiosa. Um coral raivoso. Uma multidão de ordens ininterruptas. Sussurros gritados. Repetidos. Frenéticos. Contínuos. Insanos.

As vozes o mandaram ir caçar.

Athamas tomou um dardo nas mãos e procurou a presa. Ele a encontrou dentro de casa, um veado novo e manso, que nem tentou fugir ou se defender quando este o transpassou com o aço afiado. Oh, mas não era um veado.

Era seu filho.

Sangue vermelho e mortal inundou a varanda onde antes brincavam. Ino abraçou o outro filho em desespero. As vozes começando a gritar na sua cabeça. Mandaram ela fugir. Mandaram ela se esconder. A mulher correu com a criança nos braços e entrou num buraco escuro e protegido que encontrou no caminho. Mas, oh, não era um buraco.

Era um rio.

Dionísio gritava e chorava, encolhido num canto esquecido, enquanto o tio arrancava o dando sangrento do corpo do primo e a tia se afogava com o outro no fundo do quintal.

Hera quase podia ouvi-lo enlouquecer. Quase via as paredes macias da sua mente infantil se dobrarem sobre elas mesmas, tentando protegê-lo daquilo que criança nenhuma devia ver. Ela pode senti-lo rachar, quando o tio, tomando consciência do que tinha feito, passava uma faca de caça na própria garganta, deixando-o sozinho num mundo de mortos, sangue e loucura.

E a deusa finalmente sorria, sabendo que havia vencido.

***

— Ela nunca deixaria Zeus vir a um “centro de devassidão”, como diria, sem sua detestável companhia. E é claro que eu sabia disso. Tenho me preparado desde que nosso pai respondeu afirmativamente ao convite. Achei que estaria pronto: para vê-la andar no meu salão, beber meu vinho, comer minha comida, e torcer o nariz para minhas bacantes. Minha madrasta. Minha deusa. Minha assassina… — Dionísio ergueu as sobrancelhas escuras. Aquele brilho de loucura despontando nas pupilas dilatadas. — Mas não estou! — rosnou como um felino, entre os dentes pequenos. — Sou capaz de soltar Floquinho em cima dela agora...

Apolo não conseguiu evitar um sorriso mínimo ao imaginar a cena. Tentando ignorar solenemente o modo como seu corpo respondia aquela insanidade perigosa.

— Eu honestamente adoraria ver isso... — confessou, baixo e devagar, quase sonhador.

Viu um sorriso fugaz se formar no cantinho da boca vermelha do menino, mas ele morreu rápido demais. O Sol estreitou os olhos para ele.

— Então, é apenas a eminente presença pouco apreciável de Hera que o aborrece?

— Não é apenas a eminente presença pouco apreciável de Hera que me aborrece. — Dionísio respondeu, imitando o outro numa zombaria suave a seus eufemismos elegantes.

Apolo revirou os olhos para ele, divertido.

— O que mais o angustia então?

— Você.

O bom humor recente desabou das feições do deus do sol e ele entreabriu os lábios morenos surpreso, engolindo a seco.

— Por quê? — perguntou num sussurro, uma culpa inexplicável já pesando no seu peito.

O menino se virou para ele devagar e alternou os globos esverdeados pelos seus olhos, por um tempo longo. Metódico. Torturante.

— Eu acho que você sabe. — concluiu ele, como se houvesse lido isso nas suas íris azuis.

Apolo não conseguiu sustentar o olhar dele.

Ouviu Dionísio suspirar.

— Você é complicado. — ele disse.

O Sol ergueu os olhos, devagar.

— Por que diz isso? — perguntou, embora inúmeros motivos lhe surgissem com facilidade na cabeça.

Baco ergueu as mãos a altura do rosto.

— O seu corpo diz uma coisa. — começou, colocando a mão direita do lado da bochecha carmim. — E a sua boca diz outra. — continuou, colocando a outra mão no lado oposto. Depois deixou os olhos dançarem entre elas, perdidamente. — Eu nunca sei em qual devo prestar atenção! — concluiu, no resmungo de uma criança que não consegue encaixar as peças do seu brinquedo. E depois espalmou as mãozinhas na face, desolado. — É tudo muito confuso...

Apolo mordeu o interior dos lábios com força.

Dionísio tinha as íris verdes submersas na vista outra vez. Uma brisa repentina jogou-lhe umas mexas enroladas e escuras contra os olhos, parando na superfície espessa dos seus cílios. Ele fungou suavemente, sem tentar mexer os cachos rebeldes, que se moviam ao ritmo das suas pálpebras. Ambas as mãos apoiavam seu queixo pequeno, moldurando a boquinha rubra, que fazia um adorável bico de frustração.

Apolo teria trocado todo o seu legado em versos e talento com notas só para conseguir desenhá-lo naquele momento. Gravar seus traços delicados, suas curvas belas e suas cores vibrantes. Queria ser capaz de delinear cada detalhe pelos os dedos. Sob os dedos. Com os dedos. Queira esculpi-lo em mármore caro, pintá-lo num afresco gigante, traçar seus esboços a carvão. Muitas e muitas vezes. Depois queria guardar tudo para si. Amontoar suas formas no seu quarto dourado e olhar para elas pelo resto da vida.

Havia chegado mais perto sem perceber. O perfume de frutas, folhas e vinho em barril antigo, se embrenhando pelas suas roupas, suas narinas, seus poros. Fazendo seu cérebro flutuar dentro da sua cabeça. Seus lábios formigaram, na impetuosa lembrança de um beijo roubado e abrasivo.

E desejado.

Dionísio ergueu os olhos levemente surpreso, quando sentiu a pele quente do peito coberto de Apolo tocar-lhe o ombro esquerdo. E tudo o que viu foi um par de pupilas gigantescas, mal cercadas por uma fina linha azul.

— Acredite no meu corpo. — foi tudo o que o Sol conseguiu dizer, antes de prender a boca dele na sua...

Notas finais
Ai deuses... #atéqueenfim #chorandodeemoção #querolemon hahaha Alguém mais quer matar a Hera, botar fogo e dançar em cima? Dei uma esclarecida na história de Dionísio ou só baguncei tudo de vez?kkk Ah, Polly... sabíamos que você não ia resistir... Quem resistiria? 1 e 2: outros nomes de Dionísio/Baco. Dendrites ("aquele das árvores", referente a fertilidade atribuída a ele); Bromios ( "aquele que faz trovejar" ou "aquele que grita alto"). Beijos nas alturas e até o próximo capítulo. (Que, se o deus da ordem quiser, vai sair no prazo certinho ;)