Bacanal
8 Delírio
Notas iniciais
É você que tem
Os olhos tão gigantes?
E a boca tão gostosa?
Eu não vou aguentar...
Senta aqui do lado
E tira logo a roupa.
Esquece o que não importa.
Nem vamos conversar...
— Rubel, “Quando Bate Aquela Saudade”
O gosto dele explodiu na sua boca.
Foi como se não comesse a centenas de anos, não bebesse a dezenas de séculos, e então houvesse sido afogado por uma maré de sabores. Era melhor do que qualquer coisa de já houvesse comido. Melhor do que qualquer coisa que já houvesse bebido. Mastigado. Provado. Imaginado. Ingerido. Era melhor que o melhor vinho, entre os milhares de barris abaixo deles. Era melhor do que ambrosia, a bebida dos deuses.
Era melhor do que estar vivo.
Apolo agarrou a nuca de Dionísio no desespero de um morto de fome, os dedos longos se prendendo nos cachos baixos e sedosos, os fios apertados entre os dígitos. O menino arquejou de surpresa ao ter a boca pequena sorvida pelos lábios em brasa do deus do Sol.
Apolo gemeu contra sua carne carmim, sem ter consciência de que o fazia. Toda e qualquer partícula de razão que ainda havia no seu corpo estava concentrada numa única e indispensável tarefa: não fazer Dionísio pegar fogo, não queimá-lo descuidadamente como outrora. Fora isso, não tinha absolutamente nenhum domínio sobre si. O que era perigoso. Era insensato. Era irresponsável.
Era maravilhoso.
Dionísio moveu a boca sobre a dele, dando-lhe mais espaço, mais carne, mais sabor. O deus do Sol deslizou a língua pela parte interna daqueles lábios rubros com gosto de delírio. Primeiro rápido e exigente, arquejos quebrados e famintos escapando roucos pela sua garganta. Depois lento e metódico, os sons estalados das carnes cálidas dançando devagar. Queria conhecer cada centímetro daquela pele molhada. Navegar naquele desconhecido quente. Marcar aquele tesouro de luxúria.
Desceu uma mordida feral no lábio inferior do menino, sentindo a carne macia se moldar ao contorno dos seus dentes. Dionísio gemeu, mostrando as presas brancas e pequenas, cerradas pela dorzinha repentina. Apolo largou seu lábio com uma lambida e arrastou a língua pela superfície lisa dos seus dentes. Medindo-os. Contando-os. Então pressionou a ponta dela no choque apertado entre eles, um estranho violento e quente exigindo passagem.
Dionísio abriu a boca para ele.
Apolo agarrou não somente a totalidade do pescoço delicado do deus moreno como a sua cintura, espremendo o tecido fino e negro entre os dedos, apertando os músculos suaves por baixo dele. E puxou o pequeno para mais perto, numa pressa irracional e imprudente. Dionísio enlaçou o pescoço dele com os braços, agora envolvido no aperto cálido e rígido do seu colo, o peito liso e imberbe esmagado contra o tórax lotado de músculos trabalhados e esculpidos, emitindo uma quentura febril.
O Sol explorou aquela boca como se fosse o destino da sua vida. Varreu-lhe o céu cheio de textura, deixando nele cócegas lascivas. Desbravou lhe o interior das bochechas macias. Deslizou pela parte de trás dos seus dentes. Trançou a língua dele com a sua.
A língua dele era um pedacinho do Elísio. Pequena. Cálida. Doce. E submissa. Se movendo a regência imperiosa do deus da música. Acatando seus compassos firmes e passeando por suas notas autoritárias. Dançando com ele como ele bem queira.
Apolo estava tonto. Seu corpo já não existia mais de tão leve, a não ser onde o deus das orgias lhe tocava distraidamente a pele. Nesses lugares, a cútis vibrava como se atingida por agulhas envenenadas de desejo, micro-raios de Zeus eletrizando lhe até as moléculas. Nunca antes de sentira tão perdido e tão achado ao mesmo tempo. Tão alto e tão baixo. Tão certo e tão errado. No controle e sem controle.
E então acabou.
Dionísio desgrudou os lábios dos dele, na ânsia de puxar o ar esquecido, arfando lindamente. Seu hálito morno e adocicado resvalou agradável nas faces ardentes do deus do sol, expandindo o peito macio no pouquíssimo espaço que o outro lhe dava. Só então Apolo percebeu a agonia dos próprios pulmões, deixando o oxigênio entrar. No seu corpo. Na sua cabeça.
Os braços do menino, descobertos pela túnica rica, ainda estavam enroscados no seu pescoço. Ele piscou muitas vezes, as pálpebras brancas dançando sobre as íris escuras, parecendo quase negras a pouca luz. Seu rosto estava impossivelmente mais vermelho que o de costume. Assim como seus lábios, rubros e inchados, algumas meias-luas decorando o inferior, entregando a fome de Apolo numa exibição luxuriosa e muda. O deus moreno o olhava com espanto por detrás dos cílios compridos, as pupilas dilatadas sem saber se respondiam a adrenalina ou endorfina, susto ou desejo.
De súbito, o menino jogou a cabeça para trás e riu.
O Sol o assistiu pasmo, não tendo coragem de se mover. Deixando o corpo macio de Dionísio no aperto do seu colo por mais algum tempo, sem tentar achar desculpas para isso. A respiração ainda irregular e ofegante, os músculos se contraindo ante a uma urgência pouco conhecida.
— Apolo. — o menino chamou. Sua falta de folego era quase música, no timbre da sua voz embriagante.
— O quê? — o Sol perguntou, arfante.
Dionísio deu o sorriso mais extraordinariamente travesso que ela já vira na vida.
— Você não pediu permissão. — delatou o menino, os dentinhos brancos brilhando em triunfo.
Apolo deixou os olhos saltarem dos seus dentes para os seus lábios. Quase ouvindo a ultima parcela de cautela evaporar do seu corpo, disse, rouco e rápido:
— Para o Tártaro com a permissão... — e o afogou no seu beijo de novo.
Dionísio riu contra a sua boca, deliciado. As cadencias agradáveis de uma felicidade genuína e infantil. E aquilo encheu Apolo de uma alegria que poesia nenhuma saberia descrever. Ele estava rindo dele. Estava rindo para ele. Estava rindo nele. E isso era incrível.
O Sol envolveu o corpo diminuto, apertando-o entre os braços de músculos duros, gravando sua presença macia e cheirosa. Nem viu quando começou a deitá-lo, tirando-o de cima nas suas coxas para estirá-lo sobre as calhas inclinadas do telhado da torre. O menino permitiu a própria manipulação física com satisfação, segurando-se na nuca do deus maior.
Apolo debruçou-se sobre ele, parte do peito forte comprimindo o pequeno contra as peças de madeira, as mãos perdidas entre seus cabelos escuros e a superfície das suas roupas finas. Tomou-lhe a parte de dentro da boca sem nenhuma falsa paciência ou etiqueta, vagando pela doçura do seu espaço cálido como se lhe pertencesse. O gosto inexplicável de Dionísio parecia viajar pelo icor das suas veias, como álcool, deixando-lhe um rastro gostosamente turbulento de nervos desencapados. Ele sugou a língua do menino para dentro da própria boca, tal qual quisesse tomar dela todo aquele sabor, precisava dele.
Mas o telhado não foi páreo para sua fome.
Em resposta ao jogo desordenado de pesos e movimentos imprudentes, as telhas por debaixo de Dionísio se soltaram das vigas e começaram a escorregar. Apolo sentiu o corpo sob o seu deslizar para baixo, a boca vermelha o deixando por um arquejo de susto. O Sol agarrou o braço dele por reflexo, pendurando os dois naquela inquinação instável, as peças embaixo dele também rangendo perigosamente. Ouviu-se um barulho seco e rachado quando as calhas soltas chegaram ao fim da superfície áspera e mergulharam na altura nauseante, para se espatifarem no chão duro muito metros abaixo, longe demais para serem escutadas.
Dionísio ergueu os olhos para ele. Estavam enormes. O coração do deus do Sol batia nos seus ouvidos, alarmado. Enquanto o segurava firmemente pelo antebraço macio. Sem nenhuma explicação, o menino disparou a rir.
— Dionísio, o quê?... — o Sol perguntou, entre o incrédulo e o confuso.
Baco olhou para ele e sorriu.
— Estou imaginando como vou explicar isso a Eros. — ele elucidou, nem sequer olhando para a altura descabida da qual ainda poderia cair. — ‘Então começamos nos agarrar e quase caímos do telhado...’— imitou, outra vez largando o pescoço para trás por uma gargalhada. — Ele vai rolar de rir...
— Está tudo bem aqui? — perguntou uma voz alarmada e conhecida — Eu ouvi alguma coisa… caindo... — Hermes parou, os olhos âmbar tentando absorver a cena estranha. Apolo segurando o irmão menor pelo braço. Ambos meio desgrenhados e arfantes, as faces coradas e os lábios úmidos, o Sol com uma expressão de culpa.
Por alguma razão, a visão do deus dos ladrões foi uma injeção de histeria para Dionísio e ele voltou a rir loucamente. Provavelmente imaginado como Apolo explicaria aquilo a ele...
Retrucando aquela agitação gargalhante, mais um par de telhas se desprendeu do suporte e caiu duramente para a destruição, fazendo ambos os deuses no telhado deslizarem alguns centímetros.
— Dionísio, pelo amor de Zeus, fique quieto! — Você vai cair! Pensou o deus do sol.
Para sua completa surpresa, o menino obedeceu, imobilizando o corpinho dependurado e prendendo o riso por detrás dos lábios. Apolo tentou puxá-lo para cima, mas o atrito resistiu. Se forçasse o movimento, só faria machucar Dionísio naquelas quinas e arestas duras.
Mais três telhas se soltaram.
— Hermes! — Apolo chamou, com urgência.
— Já peguei. — respondeu, passando os braços ao redor do menino e o erguendo da inclinação com facilidade, no que Apolo pode soltá-lo. As asinhas batiam eficientemente nos seus pés. — Você está bem? — ele perguntou a Dionísio, ajeitando seu pouco peso no colo.
O deus moreno assentiu alegremente, se enrolando nele, como um filho sonolento faria ao pai depois de um dia no parque. Hermes era muito mais magro que o deus do Sol, mas tão alto quanto, o que só reforçou aquela impressão. Apolo nem conseguiu ficar com ciúme daquilo e ele era particularmente bom em ficar com ciúme.
— Vou levá-lo para a varanda. — Hermes anunciou. — Não mexa um só músculo até eu voltar! — e começou a carregar o irmão pequeno de volta para onde o chão não desabava por alguns beijos ardentes.
Apolo quase protestou irracionalmente ao ter Dionísio levado para longe dele. Sua áurea deliciosamente insana se amainando, embora os olhos verdes do menino se mantivessem fixos nos dele até perdê-lo de vista. Hermes era rápido e voltou antes que se desse conta, oferecendo o braço como alavanca. Mais um punhado de talhas caiu quando o Sol deixou o alto da torre.
No meio do caminho, Hermes não aguentou.
— Muito bem, eu preciso perguntar. — ele disse, fazendo Apolo erguer a cabeça para encará-lo. — Quando eu encontrei Dionísio, era parecia terrivelmente aborrecido. A sua expressão era a de um cofre trancado, nem se deu ao trabalho de olhar para mim quando cheguei a ele. – o deus dos ladrões uniu as sobrancelhas cor-de-rosa na fronte. — E agora ele estava rindo como uma criança. Ou um bêbado. Ou os dois! Achei que até poderia convencê-lo a descer, mas nunca que mudaria seu humor desta maneira. O que foi que você fez? — perguntou, acrescentando ainda: — E porque raios ele estava dependurado na torre?
A dúvida de Hermes tinha fundamento, Apolo não era lá muito bom com as pessoas, não conseguia ser empático como o Cúpido ou gentil e altruísta como Mercúrio. O Sol pensou ponderou brevemente aquela questão, e com um sorriso demasiado suspeito no rosto, disse com todas as letras:
— Começamos a nos agarrar e quase caímos do telhado...
— VOCÊS O QUÊ???? — ele gritou, quase o deixando cair literalmente.
Apolo deixou o sorriso se alargar, o álcool – e deus do álcool — correndo nas veias. Tem razão, pequeno, é engraçado...
—Shhhh... — ele soltou entre os dentes, implicante. — Estamos quase chegando.
Hermes tirou os olhos dele só por tempo o suficiente para constatar que era verdade.
— Você vai me explicar isso tudo depois! — anunciou ele, encarando o irmão. — TU-DI-NHO!
— Talvez... — Apolo provocou. — Mas não hoje.
Tenho que fazer outra coisa hoje...
Dionísio o aguardava, alegre e paciente, na beirada da varanda. Hermes deixou o irmão de pé na sacada. Apolo não se lembrava de tê-lo visto sem jeito nem uma única vez na vida, mas ele parecia completamente desconcertado agora.
— Ah, eu... — Hermes começou, ineditamente hesitante. — Vou avisar as bacantes que você está bem! – disse, satisfeito por encontrar uma desculpa que o tirasse dali.
Ambos assentiram para ele, que saiu a passos apressados. Apolo soltou uma risadinha pelo nariz, já tomado pelo dope languido do perfume de Dionísio outra vez. Aliás, o menino estava vindo até ele. Os olhos verde-musgo salpicado de castanho fixos nos seus globos azulados de pupilas dilatadas. Um passo. Dois passos. Devagar como uma mascote esperando o dono escolher entre a permissão e a repreensão. O Sol o deixou vir, sem sair do encosto da sacada, a boca esculpida se enchendo d’agua com a gostosa antecipação.
Então não havia mais espaço entre eles. Baco ficou na pontinha dos pés e encostou seus lábios vermelhos e marcados nos seus morenos e cáusticos. Só um selinho rápido. E mais outro, não tão rápido assim. Depois, deixou a boca descansar na sua por muitos segundos. Por fim, Apolo aconchegou o seu rostinho entre as mãos e entrou no seu vácuo doce outra vez. Agora com menos pressa. Fez devagar, rodeando a língua dele com a sua, abraçando os lábios dele com os seus, distribuindo um punhado de mordidinhas fracas, enquanto Dionísio equilibrava o corpo contra o seu.
Um barulho particularmente alto, de coisas caindo e quebrando com estardalhaço, vindo do salão abaixo, fez as bocas se soltarem.
— Você precisa voltar para sua festa... — Apolo custou a dizer, num murmúrio dolorido com ares de “infelizmente”.
Dionísio assentiu docilmente, desenlaçando os braços do pescoço dele. O Sol estudou menino com precisão, querendo gravar a sua deliciosa expressão de desejo contido.
— Deixe-me arrumar você; — Apolo disse, mais ordem que pedido.
Baco ficou parado como uma criança mansa enquanto o irmão mais velho ordenava-lhe os cachos escuros sob a coroa de rubis e a capa púrpura sobre a túnica negra. Os dedos morenos deixando lembranças mornas na sua pele. Chegou a fechar os olhos. Um gatinho manhoso sendo afagado.
— Pronto...
O menino abriu e ergueu os olhos para ele, parecendo ainda muito relutante em sair dali.
— Posso? — ele pediu, um biquinho redondo na boca colorada.
Apolo assentiu, filmando os movimentos do irmão enquanto este o arrumava de volta, oscilando fofamente na ponta dos calçados. Dionísio desceu as mãozinhas pela sua túnica branca e lisa, desamarrotando o tecido, mas parou com palma direita sobre o seu peito.
— Seu coração está dançado... — ele disse, num murmúrio surpreso, sentindo as batidas rápidas e fortes contra os dedos. — A culpa é minha? — perguntou curioso, até mesmo receoso, levantando os olhos para o Sol.
— É claro que sim... — Apolo respondeu com um sorriso suave. — Você quase caiu do telhado! — concluiu devagar, mentindo apenas em parte.
Dionísio sorriu travessamente, tirando as mãos dele. Encolhendo os ombros pequenos.
— Não se preocupe, — ele disse, mostrando as presas branquinhas. — gatos sempre caem de pé...
— Gatos?
— MESTRE! — a bacante loira surgiu aos tropeços no corredor, chorando em plenos pulmões. — Mestre, meu mestre! — ela se jogou nos braços dele e continuou a soluçar copiosamente.
— Tudo bem, Arpe. Está tudo bem... — Dionísio murmurou pacientemente, afagando os cabelos dela num consolo engraçado, já que a mulher era bem mais alta que ele.
— Eu s-sinto t-tanto! É culpa m-minha! — ela lastimou desafogando o rosto dele. — O senhor está bem? Se machucou? Caiu? Ralou o joelho? Torceu o tornozelo? Pulso? Ombro? Unha quebrada? Trauma emocional?...
— Arpe! — Baco gritou, depois da bacante tê-lo puxado, repuxado, girado e medido em todos os lugares. — Querida, eu estou bem! Vê? — disse, abrindo um pouco os braços. O rosto ainda muito corado. — Eu estou ótimo...
Quando Apolo achou que toda comoção tinha acabado, Eros virou a esquina do corredor.
— DÍSI! — ele gritou, correndo para eles.
O Cupido estava incrivelmente mais descabelado que o normal. E ele estava sempre descabelado – gloriosa e arrasadoramente descabelado — mas descabelado mesmo assim. Num impulso inesperado, o deus da paixão agarrou o do vinho pelos ombros delicados e o sacodiu de um jeito que quase fez Apolo dar-lhe um tapa impensado na orelha.
— Pelos céus, Dísi! — Eros exclamou, exasperado. — Me lembre de nunca mais, NUNCA MAIS, tentar ser você! — ele arregalou os olhos pretos. — É assustador! — disse quase tremendo. — As bacantes não ouvem! Os sátiros são loucos! E Floquinho me mordeu!
Apolo não se privou de rir.
— Mas como? Ele é tão mansinho. O que foi que você fez? — provocou o Sol.
— Mansinho? — Eros quase gritou indignado. — MANSINHO? Fale isso para a minha panturrilha! — e largou Dionísio para mostrar o músculo cheio de marcas de dente.
— Deixe de ser mole. — o Sol disse, descartando as marcas rosadas contra a pele branquíssima do deus do Amor. — Aposto que você mereceu.
— Ora, seu...
— Precisamos voltar, mestre. — Arpe disse com reverencia, limpando a umidade dos olhos. — Os convidados estão perguntando pelo senhor.
Dionísio confirmou com a cabeça e todos começaram a descer as escadas em direção ao salão, Eros ainda lançando um olhar ofendido que Apolo ignorou solenemente. Ele e Arpe iam à frente.
— Vai ficar até o final, não vai? — o menino sussurrou para seu irmão dourado, esperançosamente. — Você vai me esperar?
Apolo deixou os olhos vagarem pelo corpo lindamente — e tristemente – vestido de Dionísio. Os lábios ainda cheios do seu gosto doce. A pele eletrizada e ardente pelo toque dos seus dedos. A boca molhada de um desejo evidente demais para ser ignorado. O musculoso, alto e poderoso deus do Sol se sentia frágil. Vulnerável aquele perfume de frutas, a aquela pele macia, e ao seu próprio anseio. Mas, por alguma razão; talvez o álcool corrente no seu sangue, talvez a carga de noites mal dormidas, talvez os dois, talvez nenhum; não lutou contra sua fraqueza. Encheu os olhos com as formas de Baco e decidiu: podia ser forte outro dia.
Hoje não.
— Vou. — ele respondeu, a voz melódica meio rouca.
Dionísio sorriu com todos os dentes, de uma maneira que fez o deus da razão repreender uma vontade absolutamente estranha de segurá-lo pelas bochechas. Ele entrava no salão lotado quando Apolo o puxou pelo braço.
— Espere! — ordenou, fazendo o menino se virar para ele. — Você está pronto? — perguntou, verdadeiramente preocupado. — É capaz de encarar Hera agora?
Dionísio sorriu de novo e respondeu simplesmente:
— Sinto que sou capaz de fazer qualquer coisa agora...
*
Aquilo podia ter durado uma eternidade. Mas a verdade é: Apolo nunca tinha dançado daquele jeito na vida.
Eram altas horas da madrugada. Em circunstancias normais, teria amanhecido há muito tempo. Até porque Hélio já havia ido embora, sabendo que ergueria o sol sozinho hoje, feliz por sair da semana inteira de folga que Apolo tinha lhe dado. Mas o céu ainda estava escuro e cheio de estrelas. Em algum momento da noite, alguém havia lhe explicado que essa era parte da magia do salão: quanto melhor a festa, mais devagar o tempo passa.
E que festa...
Apolo já não se lembrava de quem lhe dissera isso. Nem quando. Nem por quê. Apolo estava consideravelmente bêbado. Tanto que quando Eros o puxou uma roda de dança, em vez de mandá-lo ir para o Tártaro ou soltar Floquinho nele – ambos perfeitamente razoáveis – ele foi.
Bacantes, ninfas, horas, deuses grandes e deuses pequenos, todos passaram pelos seus braços. Suor quente umedecia sua roupa branca, exibindo mais dos seus músculos trabalhados. Em algum momento, tirou a capa escura. Haviam lhe beijado, beliscado e alisado também, fazia parte da brincadeira. Ele não se importou.
Isso tinha sido há horas. Eros acabara de sair do salão para um dos quartos do palácio com nada menos do que três bacantes, um serviçal moreno e uma ninfa d’agua. Apolo não sabia o que ele faria com aquilo tudo, mas o deus do sexo devia ter fé no seu arco. Vários outros grupos e duplas se dispersaram para os aposentos vagos do castelo. Outros ainda, menos pacientes ou muito bêbados, trataram de satisfazer os desejos da carne ali mesmo. Os músicos tinham parado de tocar e o salão ecoava com um coral errático de gemidos.
Apolo se recostou em uma parede de flores fluorescentes, tentando não cair. Sentia uma vontade incrível de rir de si mesmo, mas a conteve, mordendo a parte de dentro da boca, achando-se ridículo demais. Certo, menos...Ordenou a ele próprio, usando os poderes para amenizar a embriaguez. Fechou os olhos, deixando o teto e o chão voltarem ao devido lugar.
Uma mão escorregou para dentro da dele.
Uma mão pequena e macia, cheirando a uva, madeira e vinho.
— Acabou... — Dionísio sussurrou no seu ouvido. Apolo não precisava olhar para saber que ele tinha ficado na pontinha dos pés para fazer isso. Sorriu diante disso, abrindo os olhos devagar.
O lugar estava o próprio Caos. Taças, doces, roupas e corpos se espalhavam em total desordem pelo chão liso do salão. Castiçais tinham caído do teto, de onde ainda desciam panos coloridos. Flores foram arrancadas das paredes por convidados alucinados. Vinho de todo tipo fazia manchas na superfície antes limpa de lajotas, panos e pele. Era impossível andas sem pisar numa divindade desfalecida, pular um casal apaixonado ou esbarrar em uma orgia. Privacidade era só um conceito vago há muito esquecido.
— Venha comigo. — Apolo disse, olhando nos seus olhos escuros. Mal Dionísio assentia e ele começou a correr, puxando o menino pela mão.
Então estavam na sua carruagem. Uma ordem curta foi todo o necessário para por os cavalos cor de areia e crina dourada num galope rápido e urgente. Apolo encostou a cabeça no encosto do assento, todo o perfume de irmão concentrado naquele espaço pequeno. Apertou os olhos e os punhos, tentado não tirar a roupa dele ali mesmo. Mas o outro não pareceu à vontade em cooperar, já que começou a deslizar o corpo para cima do dele.
— Dionísio, não... — Apolo soltou fragilmente, afundando as unhas nas palmas das mãos.
O menino parou ao seu comando. Mas estudou bem os traços do seu rosto, o movimento rápido do seu peito, o esbranquiçado das juntas apertadas dos seus dedos. Acredite no meu corpo. Ele se lembrou, sorrindo. E pôs-se a obedecê-lo.
Apolo arquejou quando ele sentou-se no seu colo. Abrindo os olhos tomados pelas pupilas, viu Dionísio arregalar muito as pálpebras brancas quando sentiu claramente a ereção dura do deus embaixo dele. O Sol tinha a face em fogo vivo, respirando por ofegos curtos. A carruagem sacodiu pelo caminho, esfregando o corpo do menino contra o dele. Gemeu, virando o rosto para o lado, constrangido pela própria ausência de controle. Ouviu o irmão rir, passando os braços pelo seu pescoço. Sentiu um par de lábios frescos e cálidos pousarem na sua bochecha esquerda, depois na lateral seu queixo, então no cantinho da sua boca.
Muito bem, você venceu. Apolo pensou, tomando-lhe os lábios com ímpeto. O seu gosto de delírio se infiltrando pelas células da sua língua, que viajava incivilmente pela sua carne molhada e macia. Segurou o menino pela nuca, a outra mão tirou-lhe distraidamente a capa púrpura, depois a coroa vermelha, e agarrou-lhe pelos cachos escuros. A carruagem sacodiu de novo.
Sem querer, mordeu a língua do menino, contendo outro gemido comprido. Dionísio apertou os olhos, mas não reclamou. Apolo desceu as mãos para a sua cintura, irritando-se com o tecido caro que cobria a sua pele e o salvava dos seus dedos. A caixa de madeira luxuosa parou na porta do Palácio Da Luz com um solavanco quase mudo.
Graças aos céus... Apolo pensou, tirando Dionísio de cima dele com pressa.
**
Aurora mordia a unha ovalada e bonita do indicador nervosamente. Quando seu senhor saíra de casa, não parecia ter a intenção de ficar mais do que o tempo que a educação exigia no salão do irmão. No entanto, muitas horas tinham se passado e a serva não sabia o que pensar disso. Acabou por esperar andando em círculos apreensivos pela sala azul e dourada.
A porta abriu-se com um estrondo escandaloso, como se chutada por um titã. Aurora deu um pulo pouco digno, encarando a entrada com olhos imensos.
Apolo entrou no recinto arrastando Dionísio pelo braço. A ninfa arregalou ainda mais os olhos dourados. Seu deus estava quase irreconhecível. Os cabelos desalinhados, a roupa branca colada no corpo, a capa azul sumida de vista, o rosto bronzeado tomado de rubor e as pupilas dilatadas de desejo. O pequeno deus do vinho vinha atrás, num estado parecido.
O Sol a contornou como se fosse um móvel. Totalmente irrelevante. Aurora sentiu o ar quente em volta dele. Já o outro, ao vê-la, tentou desacelerar um pouco o passo.
— Olá! — disse ele, acenando para ela, os dentinhos brancos expostos num sorriso.
— O-lá? — Aurora mais perguntou que respondeu.
— Eu sou Dionísio. — ele se apresentou, quase derrapando no piso liso.
— Muito… prazer... — ela murmurou, incerta.
Mas aquilo pareceu demorar demais para Apolo, e ele simplesmente agarrou o menino pela cintura, com um grunhido de impaciência e o jogou por cima do ombro como se ele fosse um saco de grãos.
Dionísio gritou de susto. Mas depois de uns segundos, disparou a rir da situação.
— Não quero nenhum tipo de interrupção. — o Sol ordenou, a voz grave e rouca — Pode haver uma revolta de Titãs. Pode todos os Gigantes subirem no Olimpo. Pode o próprio Zeus bater nessa porcaria de porta! Ninguém entra. Você entendeu? — ele quase rosnou para ela, que assentiu freneticamente. Depois deu-lhe as costas largas e rumou para seus aposentos.
— Tchau tchau! — Dionísio se despediu alegremente, dependurado no ombro do irmão.
A porta do quarto do se fechou antes da boca dela.
***
Apolo estava a um passo de perder completamente a razão. Já não enxergava mais nada, a visão cedendo ao tato, olfato e paladar. De repente, sua cama estava longe demais, impossivelmente distante.
O deus do sol jogou o irmão contra a primeira parede que encontrou no caminho. Dionísio arquejou alto ao se chocar contra a superfície morna e lisa. Apolo interrompeu aquele som quebrado cobrindo a boca dele com a sua, e metendo uma perna morena e comprida entre as suas brancas e macias. Pode senti-lo com clareza, já duro por debaixo da túnica. Sorriu, com o lábio superior dele entre os dentes. Talvez não fosse o único com pressa afinal.
O deus da luz estava embriagado. Não pelo álcool que ingerira sem moderação ao longo da noite, mas pelo frenesi de delicias que era Dionísio. Ele já não conseguia decidir se apertava sua carne tenra ou puxava seus cabelos de cetim. Se mordia seus lábios com gosto de loucura ou sua pele com cheiro de licor. Por fim, escolheu fazer tudo isso. A boca dele já não bastava mais e Apolo desceu provando-lhe a cútis corada da sua garganta. Beijando. Lambendo. Mordendo.
O menino gemia e se encolhia cada vez que o irmão lhe marcava com os dentes. Tentou se equilibrar, tento as pernas abertas pelo outro, passando os braços pelo seu pescoço, mas Apolo não permitiu. Quando sentiu as mãos cálidas dele pelos ombros, agarrou-lhe ambos os pulsos infantes e os prendeu contra a parede morna. Ele tinha um pescoço inteiro para experimentar e não queria distrações.
Dionísio só pode gemer. O corpo pequeno prensado e preso. Manipulado e marcado. Contido e calado. Quando Apolo já tinha descoberto toda a frente da sua garganta, ao máximo que a roupa negra permitia, ele tombou o pescoço para o lado, dando a ele um pedaço novo de pele branca. Apolo finalmente soltou as suas mãos, mergulhando o rosto na curva exposta do seu pescoço, mas o menino não ousou tocá-lo e espalmou ambas contra a parede. O Sol desceu as palmas pela sua cintura, quadril, e parou na curva das suas coxas, onde acabava a túnica preta bordada em ouro.
Começou a arrastá-la para cima. Muitos centímetros novos de pele macia explorados sob os dedos. Puxou o pano caro até a sua cintura, expondo-lhe as coxas brancas, as nádegas redondas e o sexo. Dionísio era delicado e vermelho até ali, rígido e molhado contra o final na barriga clara e os fios macios e escuros. Coube perfeito na mão direita do irmão.
Baco deu o primeiro gemido alto, meio miado entre os dentes. Apolo o cobriu com os dedos compridos e acarinhou seu membro grácil, com uma afabilidade inédita na noite toda. Dionísio apoiou a nuca na parede, os sons de deleite saindo sem estorvo nenhum da sua boca entreaberta, o quadril começando a se mover involuntariamente. Ficando cada vez mais hirto e sensível na mão do irmão.
Apolo bebia cada gemido, ofego e arquejo que causava no deus pequeno, vendo a sua pele branca se avermelhar por completo e o corpo diminuto dançar ao seu toque tenro. Seu membro ainda coberto já lhe doía, duro no meio das pernas, molhando parte do pano branco e rico, latejando em resposta ao seu apetite. Não podia esperar mais.
O deus maior soltou o sexo do irmão, agarrou-lhe pela parte posterior das coxas delgadas e o elevou quase a sua altura, as costas do pequeno deslizando pela parede lisa. Usou a perna direita como apoio e a mão esquerda como prensa, segurando-o no devido lugar. Os dedos da destra livre pousaram na superfície macia do seu queixo infantil.
— Abra a boca. — ele mandou, num sussurro quase feroz.
Os lábios de Dionísio se partiram ao seu mando, sem deles sair nenhum questionamento. Apolo invadiu a boca dele com dois dedos compridos, friccionando as digitais contra sua língua pequena, num movimento indócil. Logo estavam encharcados com sua saliva morna e doce. Os dígitos saíram do seu antro sem aviso, deixando uma trilha molhada na lateral do seu queixo, que o Sol limpou com a própria língua, entes de envolvê-lo num ósculo intenso e exigente. A mão livre se meteu na fresta entre seus corpos e alcançou lhe a entrada exposta.
Apolo rodeou a superfície cheia de textura, umedecendo lhe o botão pequeno. Dionísio puxou o ar audivelmente quando um dos seus dedos entrou nele. O Sol empurrou até a última falange antes de começar a se mover lá dentro. Saindo. Entrando. Girando. O segundo dígito acompanhou o primeiro cedo demais. Em harmonia a sua estrutura, o deus do vinho era incrivelmente apertado, e resistiu ao ingresso veloz e rítmico daquelas digitais. O que não parou os movimentos acelerados do deus maior. Dionísio gemia como um gato no cio, entre miados altos e ganidos doloridos, hora apertando os olhos e outras mostrando os dentes, umedecendo os lábios com desespero, a cabeça bamboleando sem sustento quando Apolo não o prendia pela boca.
Ele estava abrindo os dedos agora, forçando o espaçamento das suas paredes, largueando-o por dentro. O menino começou a balbuciar uma série de sílabas aleatórias sem nenhum sentindo, os olhos fechados ficando úmidos no aperto das pálpebras. Mas Apolo não estava ouvindo. Tirou os dedos dele com a mesma maneira descortês e repentina com que os havia posto, arrancando do pequeno um grito mudo. E livrou o desnecessário tecido branco de cima de si.
Os olhos de Dionísio tomaram seu rosto todo. A masculinidade do irmão era tão grande, robusta e morena quanto ele próprio. Muito maior do que a de qualquer um a quem já houvesse se entregado. Muito mais do que ele já tinha suportado.
Se Apolo o sentiu tremer, não deu sinal.
O Sol comprimiu o tórax largo e másculo contra seu peito frágil, e os lábios em brasa na boca avermelhada, que não puderam distraí-lo da glande cáustica que tocou na sua entrada. Apolo afastou o rosto do dele sem aviso, fitando o mais profundo da maré esverdeada e do abismo negro que eram os seus olhos. Durante quase um minuto não disse uma palavra, emitiu um gemido ou mexeu um músculo sequer. Por um momento, Dionísio chegou a pensar que ele esperava alguma forma de permissão.
Mas não.
O deus do sol simplesmente entreabriu os dedos da mão esquerda, afrouxando seu apoio contra a parede. Deixou o irmão pequeno deslizar para baixo com todo o seu peso. E entrou nele até o final.
Eles gritaram.
Um: alto e ganido. O outro: rouco e incivilizado. Dionísio estava invadido. E Apolo estava esmagado.
O pequeno não aguentou e agarrou o maior, num movimento antes proibido, apertando os braços em torno do seu pescoço. Escondendo o rosto corado e agora molhado no calor do seu peito. Apolo estava alucinado demais para se importar, a respiração quase não existindo, o prazer o deixando cego e surdo.
Ele e saiu e entrou outra vez. A estocada violenta fazendo Dionísio pular no seu colo e causando outro grito alto e agora solitário, no que Apolo ocupava a boca em deixar uma nódoa rubra na pele alva do seu pescoço. E então outra. E mais outra.
E mais outra...
Dionísio mordia o tecido claro da túnica que vestia o tronco largo de Apolo, como que pudesse abafar os bramidos doídos que lhe saíam se pausa da garganta. Não podia. O irmão parecia só inchar e crescer dentro dele. O baixo ventre se chocando impetuosamente contra a parte interna das suas coxas brancas, que adquiriam um tom escandaloso e lanhado de vermelho. Uma vez. Duas vezes. Muitas vezes. O ritmo rigorosamente constante. Entrando e saindo. Entrando e saindo. O pré-gozo que exalava um denso odor masculino deixando o movimento cada vez mais fácil e escorregadio.
Então ele começou a ir mais rápido e mais fundo. Já não contendo os próprios gemidos, que lhe saiam graves e ásperos por entre os dentes comprimidos. O corpo tomado por espasmos repentinos, se irradiando do seu ventre pelo icor nas suas veias, acendendo todo nervo funcional num degrade mais intenso a cada minuto. Então o deleite explodiu dentro dele, como o gosto de Dionísio. E Apolo o encheu com a sua semente.
Seu brado de prazer ecoou pelas paredes do quarto como se estivesse vazio e ele teve se segurar-se na parede para permanecer erguido. Tinha o sentimento de que havia acabado de perder uma parte da alma e ganhado outra no lugar. Dionísio soltou todo o ar que havia em seus pulmões, largando-se no aperto quente de Apolo tal qual estivesse totalmente acabado. Mas o Sol podia senti-lo contra o seu corpo, ainda carente e desperto lá embaixo. Saiu de dentro dele devagar, mesmo assim ouvindo um ganido, molhando as pernas de ambos com a prova do seu apogeu.
Então pegou o pequeno no colo, que o enlaçou molemente com braços e pernas, o rosto ainda escondido do seu peito; e caminhou lentamente para o centro antes inalcançável do seu quarto. Dionísio foi deitado no meio de lençóis branquíssimos e acetinados, travesseiros azulados espalhados ao seu redor. Ele olhou para Apolo com olhos verdes úmidos e sonolentos, moldurados pela pele febril e vermelha.
Verde e vermelho.Apolo pensou, estudando o belo deus moreno de cima. São cores complementares. Uma destaca e embeleza a outra. Completam-se numa perfeição inimitável. Todas as primarias presentes.
Não sabia por que havia se lembrado disso naquele momento. Talvez a parte racional posta de lado no seu âmago ainda insistisse em tentar explicar-lhe a beleza irresistível de Dionísio, encontrar motivos razoáveis para o modo como ela o atingia no ponto mais profundo e instintivo do seu ser. E quem sabe esclarecer o razão de que, mesmo depois de tê-lo tomado até o auge do prazer, ainda tinha que resistir impulso feral de devorá-lo, de ter sua pele no choque dos dentes, o cabelo na fresta dos dedos e a intimidade ao redor da sua.
Antes que se desse conta, já estava duro outra vez.
Apolo sentou o menino na cama, o despertando do inicio da vigília para onde Hipnos1 o chamava. Alcançou as bordas mal enroladas do fim na sua túnica e pôs-se a livrá-lo por inteiro dela. Dionísio ergueu os bracinhos, facilitando seu trabalho. Depois de jogar o pano negro longe, o Sol espalmou a mão direita no peito macio do irmão e o empurrou devagar, mas autoritariamente, de volta para o colchão.
Dionísio era lindo.
Agora totalmente exposto à luz generosa do recinto, a pele dele era clara como leite, sem nenhuma cicatriz, pinta, sarda ou marca — além das que o irmão havia lhe feito... — Seu corpo pequeno era muito mais curvas e planos que músculos e quinas, delicado e languido, grácil e macio. Os olhos ainda famintos de Apolo viajaram por todos os seus centímetros de carne nua e pelos escuros. Parou os globos azulados na altura dos seus mamilos. Minúsculos, vermelhos e entumecidos. Lembrou-se imediatamente do Bacanal, da festa lasciva onde tudo havia começado. E o gemido que o menino soltara ao ser tocado ali ecoou vivamente da sua memória. Desceu a boca para o círculo direito sem nem pensar no assunto, rodeando o bico diminuto com a língua e depois o provando, sugando a pele sensível audivelmente.
Dionísio gemeu alto, de prazer e surpresa, acordando completamente. O irmão deixou o mamilo ruborizado e molhado com sua saliva e foi para o outro, agora prendendo a cútis vermelha dentre os dentes, fazendo o outro ganir em ofegos curtos e agarrar-lhe pelos cabelos dourados. Apolo tirou a boca do seu ponto fraco conhecido e desceu pela pele ainda intocada do seu peito liso, explorando novos caminhos. Passou pelo esterno, a angulosa clavícula, o centro do seu busto, o começo do seu torso. Quando chegou à barriga, macia e infantil, sem sinal do relevo repetitivo dos músculos por baixo, Dionísio se contorceu debaixo dele, um miado delicioso escapando dos seus lábios.
Outro ponto franco.
Apolo se demorou ali. Cobrindo toda a superfície com selinhos estalados e marcas de chupão, além de provar-lhe o interior do umbigo com a língua. Baco se torcia sem pudor a cada carícia, o membro delicado começando a expelir líquido preparatório e cheiroso. O Sol o sentiu molhado contra a pele, o perfume denso de licor enchendo suas narinas, e ergueu o tronco, as pernas ao redor dos quadris desnudos do pequeno, tirando a própria roupa num puxão.
Mal Dionísio acabava de arquejar, a visão estarrecedora dos seus músculos esculpidos e cobertos de pele dourada, e Apolo já pegava um travesseiro alto e o alocava por detrás da sua lombar. Erguendo seus quadris e colocando lhe a entrada exposta ao seu alcance.
Diferente da maioria das pessoas de pele alva, o deus moreno não era rosado na pele texturizada. Assim como em seus lábios, mamilos e glande pequena, era completamente e lindamente vermelho. Apolo debruçou o corpo forte e nu sobre o dele, as peles contrastando febrilmente. Tocou a boca dele com a sua por longos segundos. No momento exato em que Dionísio permitiu a entrada da sua língua lá em cima, ele entrou-lhe com o membro por baixo.
O menino não gritou dessa vez, apenas gemeu fraco contra os seus lábios. Os movimentos já iniciados, mas inda lentos tornados mais fáceis pelo gozo recente, que se espalhava pelo colchão macio e pelas pernas nuas dos amantes.
Então tudo estava rápido e incivil de novo. As estocadas duras, intensas e ininterruptas. Dionísio só não batia violentamente a cabeça morena na cabeceira da cama por que havia uma barreira de travesseiros grossos entre eles. Em algum momento, na distração de uma respiração arquejada, Apolo torceu o quadril levemente, apontando o a ponta do pênis mais para cima, dentro do canal apertado do irmão.
O menino gritou incrivelmente alto no seu ouvido. E não foi de dor. O corpo macio estremeceu por completo abaixo do seu. Apolo desceu as mãos para suas ancas, o imobilizando naquele lugar, e voltou a estocar no mesmo ângulo, com uma nova energia calculada.
Os dois estavam gritando agora. Dionísio tinha o ponto mágico golpeado com pericia sem pausa nem dó. E, contorcendo-se, se apertava cada vez mais ao redor do comprimento indecente do irmão, que afundava os dentes no seu pescoço para cobrir os brados descontrolados de prazer. E eles continuaram se chocando e entrando e derretendo um sobre o outro. Numa dança frenética, agressiva, molhada e quente.
Quase no ápice outra vez, Apolo largou os quadris do deus do vinho e desceu as mãos por suas pernas delgadas e lisas, quase completamente ausentes de pelos, e empurrou as duas contra o seu peito. Podendo assim, chegar ainda mais fundo dentro dele.
Uma vez.
Duas vezes.
Três...
Um grito longo e agudo, sem pudor ou controle, ressoou por entre os lábios rubros de Dionísio. O corpo todo tremendo com os espasmos deleitosos do seu gozo alucinado, que molhou sua barriga macia e o abdômen moreno e delineado do deus do sol. Duas estocadas depois, o som intenso ainda na sua boca, e Apolo o acompanhou num urro mordaz, não contido pelo choque dos seus dentes.
Entre lençóis úmidos e fluidos escorregadios; no choque das peles cáusticas molhadas de suor e dos lábios inchados, de saliva; as carnes marcadas por dedos ansiosos e dentes vorazes; as vozes deles se uniram num uníssono de contrastes perfeito outra vez...
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