Bacanal
9 Corra ou morra - Parte 1
Notas iniciais
Parte 1: Aquilo que tememos
Provisoriamente não cantaremos o amor,
Que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
Não cantaremos o ódio, porque este não existe,
Existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro.
— Carlos Drummond de Andrade, “Congresso Internacional Do Medo”
— Quatro séculos atrás —
Eros recostou-se na parede áspera da construção modesta, se mexendo com desconforto. Aguardava ali há pelo menos vinte minutos e estava ficando difícil se manter parado. Estaria brincando com uma de suas flechas se houvesse trago alguma, mas a mãe o proibira de tirar o arco de casa. Aquela mansão pertencia a Héstia1 e ela não gostava de armas. Não é como se eu fosse entrar. Pensou, emburrado. Às vezes Afrodite fazia isso: o arrastava de cima a baixo sem que realmente fosse precisar dele. O deus achava que ela só detestava fazer o que quer que fosse sozinha.
Enfim...
Absolutamente entediado, Cupido pegou uma mexa de cabelo louro-platina e começou a caçar pontas duplas que sabia que não teria. Suas madeixas eram macias e saudáveis como as de uma criança e desciam num desarranjo teatral por seus ombros. Devo cortá-las. Pensou, distraído, ao notar que as melenas claras passavam do seu peito, chegando ao início do abdome. Ou não. Como ficaria com os cabelos compridos como os de minha mãe? Considerou por um instante, mas logo descartou a ideia com uma careta. Parecendo ainda mais uma garota, creio eu. Podia deixá-los bem curtos então, quem sabe...
Ele se interrompeu quando um sentimento terrível nasceu no seu âmago e escalou pelas unhas a parte de dentro do seu peito. Na boca veio-lhe um gosto amargo de ervas e cinzas. Sua adrenalina disparou e ele começou a suar frio. Só quando sua visão se escureceu, fazendo girar sua cabeça, percebeu que prendia a respiração. Corra ou morra. Era o que os seus instintos lhe gritaram em desespero. Mas a razão – ou o orgulho — o mantiveram parado. Conhecia aquela sensação, Ares estava por perto.
E não estava sozinho.
Eros respirou fundo várias vezes, repreendendo a própria afetação. Tolice, ninguém domina o que sente, nem mesmo o deus do amor. Apertou os lábios grossos, irritado. Seus olhos pretos vasculharam a vista em busca do senhor da guerra. Não foi preciso muito, Ares era difícil de não ver.
Marchava a passos largos numa linha reta para a mansão, a capa vermelha ondulando as suas costas largas. Era um gigante, passando fácil dos dois metros de altura. Seus cabelos e olhos eram pretos como piche, o queixo quadrado era coberto por uma barba curta e espessa que destacava os lábios finos, e a pele amorenada exibia dúzias de pequenas cicatrizes com orgulho, uma delas cortava uma das sobrancelhas escuras e grossas que pesavam em sua fronte e outra riscava horizontalmente o alto do nariz comprido. Ademais, era belo, de uma maneira rústica e áspera, como um diamante bruto ou uma fera selvagem.
Eros esperou o pai passar reto por ele. Estava longe de ser um de seus filhos favoritos e sabia bem disso. Em oposição à mãe que se afeiçoara tanto a ele desde que era só um filhote e mesmo agora não dispensava sua companhia de bom grado, o deus podia contar com facilidade as palavras que trocou com o pai em mais de quatro séculos de vida. Não diria que isso não o magoava, em algum nível profundo de si mesmo, mas ele entendia. Ares olhava para aquele rapaz tão louro, “pequeno”, delicado como uma moça e não se via ali.
Para sua completa surpresa, o deus da guerra parou quando o viu e escorado – e quase se infiltrando – na parede dos fundos da mansão.
— Garoto! – chamou, a voz grave e rouca.
Eros se esticou como se houvessem cravado uma estaca reta na sua coluna, descolando-se do muro.
— Senhor... — respondeu, dócil.
A áurea de Ares induzia a uma obediência militar, embora também causasse uma vontade estranha e violenta de quebrar as coisas e bater nas pessoas.
— Sua mãe está aqui? — quis saber, seco.
— Sim, ela...
Ele já tinha ido, com nada mais do que um farfalhar de tecido e passos pesados.
É bom vê-lo também, papai... Eros pensou ressentido, mas depois suspirou. Seu relacionamento com o pai podia não ser um exemplo de afeto, porém nunca fora um grave problema em si. Não. Ares não o incomodava de fato. Mas o que ele trazia com sigo...
Isso o aterrorizava.
Ele resistiu bravamente à vontade descontrolada de sair voando dali e se esconder na primeira toca profunda que encontrasse pelo caminho, quando o pânico que o tinha deixado por um momento caiu sobre ele como uma pedra. Suas asas formigaram dentro da sua pele, em resposta a sua ligeira falta de controle. Acalme-se. Eros disse a si mesmo. Era necessária uma dose grande de concentração para dominar as próprias alas, e ele sabia que, nervoso como estava, não conseguiria abri-las mesmo se quisesse. O sentimento de pavor só aumentava dentro dele, quando aquelas áureas doentias se expandiam ao seu redor. Não precisava olhar para saber que estavam ali. E não o fez. Apenas me ignorem. Implorou em pensamentos. Façam como nosso pai sempre fez e me ignorem...
— Veja só quem está se fingindo de invisível aqui, Deimos, nossa adorável irmãzinha!
— Não seria nosso irmãozinho, Fobos?
— Ah, eu nunca sei...
Ambos riram.
Maldição. Eros pensou, abrindo os olhos que nem percebera que mantinha trancados. Os gêmeos estavam parados a poucos metros. Olhando para ele. Eram quase cópias idênticas do pai, salvo pelos cabelos claros que Fobos mantinha curtíssimos e Deimos raspava completamente. O primeiro esquadrinhava seu corpo com uma perícia científica que revirou seu estômago, o outro apenas o encarava com um sorriso de tubarão: frio e com dentes demais. O deus do medo e o deus do terror.
Tão adoráveis...
— Não vai nos cumprimentar, maninho? — exigiu saber o Medo, chegando mais perto, com passos lentos e mudos de um predador.
— O que nossa mãe pensaria dessa falta de educação...? — murmurou o Terror entre dentes.
Eros mordeu os lábios, com raiva. Ele era o filho mais velho de Ares e Afrodite, mas nunca se sentira assim. Sempre fora menor e mais delicado de todos. E os gêmeos, com poucos anos de diferença, faziam questão de lembrar-lhe disso sempre que possível. Mais fortes e em dose dupla, os irmãos nunca perderam uma só oportunidade de o machucarem na infância. Beliscavam sua pele, puxavam seus cabelos, rasgavam suas roupas, batiam no seu rosto. Fobos gostava especialmente de tocá-lo, deixando-lhe marcas longas de unhas e profundas de dentes. Deimos preferia assistir, ás vezes segurava o irmão menor enquanto o gêmeo o machucava, abafando seus protestos desesperados. Mas na maior parte do tempo, apenas bebia da cena com olhos famintos.
Eros fugia sempre que podia e resistia ao máximo quando não. Inútil, eles sempre o encontravam. E o Medo fazia questão de não o soltá-lo enquanto ele não cedesse, não desmaiasse, não implorasse. O Cupido era orgulhoso. Não chorava. Não gritava. Mas também não revidava. Sabia que era mais fraco e não lhes daria o gosto de perder. Apenas suportava, com ódio nos olhos e palavras mordazes.
Isso enlouquecia o irmão.
Uma vez, ele arrastou o menor pelos cabelos por metade do palácio do Amor, da mãe Afrodite, esfolando sua pele delicada cruelmente piso. Deimos seguia atrás deles, rindo sadicamente e derrubando Eros sempre que ele quase conseguia se levantar. Depois se trancaram com ele numa sala pouco usada e o ameaçaram de coisas horríveis, que sua mente infantil não pode assimilar por completo, mas ele tinha certeza que eles fariam tudo aquilo se a mãe não os houvesse encontrado.
Deimos disse a ela que estavam só brincando. O Cupido não desmentiu, assim como não dizia de onde vinhas seus hematomas e arranhões constantes. E todos o julgavam terrivelmente desastrado e displicente. Em seu silêncio, ganhava broncas pelas roupas estragadas e pelos ralados de “descuido”. De algum modo, os irmãos faziam parecer que era sempre culpa dele. Você causa isso na gente. Dizia Fobos, depois de rasgar sua túnica curta na altura da coxa e arranhar lhe a pele até ver sangue, enquanto Deimos o segurava pelos cabelos.
Embora parecesse impossível, isso apenas piorou com o passar dos anos. Os gêmeos cresceram de numa velocidade absurda, e se tornaram menos implicantes e mais maliciosos. Agora, em vez de beliscarem suas bochechas, miravam seus mamilos. No lugar de bofetadas na cabeça, ganhava tapas no traseiro. Eles não corriam mais atrás dele pelo palácio, mas o surpreendiam quando estava no banho. E a cada recusa e rechaçada que ganhavam, lhe batiam com a força dos músculos novos. Era o Tártaro. Em algum lugar no seu subconsciente, Eros sabia que, se crescesse como eles, se suas formas se desabrochassem envoltas na beleza herdada da mãe, estaria perdido. Por isso manteve-se pequeno e infantil por muitos anos.
O dia em que Ares decidiu levar os gêmeos para viverem com ele definitivamente deve ter sido o melhor da sua vida. De um momento para o outro, se viu só naquele lugar enorme. Sem hematomas, mentiras, ameaças e medo. Suas roupas se mantinham intactas e sua pele permanecia branca e perfeita. Podia deixar os cabelos crescerem sem temer que fosse arrastado por eles mais tarde. Podia tomar banho sem trancar com desespero todas as portas. Mesmo assim, permaneceu com a aparência infante de uma criança mortal de onze ou doze anos. Afrodite preocupou-se com a infância tardia do filho, mas a deusa da prudência lhe disse que Eros não crescia porque era muito incompleto e sozinho.
Então Anteros nasceu.
Era quase um negativo do irmão mais velho, com cabelos pretíssimos e olhos claros como a neblina. Em oposição à natureza intensa e afetiva de Eros, era calmo, sereno e firme como uma rocha. Ao lado dele, o Cupido pode crescer em paz.
Não foi o fim dos seus problemas, mas como raramente via os outros irmãos, esquivava-se deles sempre, ou se ocultava por detrás da superproteção de Anteros e do seu poder assustador. Mas isso o incomodava. Não devia ter que se esconder dos irmãos mais novos. Não devia ter que se esconder de ninguém!
Não vou fugir de vocês, idiotas. Decidiu teimosamente.
— Eu tenho nome, Fobos. — disse rigidamente, agradecendo a fortuna pela firmeza falsa de suas palavras.
Fobos ergueu as sobrancelhas, surpreso. Deimos deixou o sorriso macabro aumentar.
— É claro que sim, Erinho... — o Medo murmurou. Estava bem perto agora, enchendo as narinas de Eros com o cheiro conhecido de carvão queimado e cinzas. — Sabe o que mais você tem? Essa voz macia... — ele sorriu, exibindo os dentes estranhamente alinhados e assustadoramente compridos. — Eu passo o dia todo ouvindo esse timbre de lixa de Deimos. Como sinto saudade desse tom suave...
— Nada é pior que esse sepulcro úmido que você chama de voz, Fobos. — retrucou o gêmeo, sem desgrudar os olhos pegajosos do Cupido.
— Shhhh, quieto! — reclamou Medo. — Eu quero ouvi-lo. — disse, num sussurro ameaçador. — Vamos, Erinho, já tem tanto tempo... Diga algo para mim!
— Você tem sérios problemas em reconhecer espaço pessoal! — rosnou Eros, quando suas costas se encontraram com o muro novamente e ele soube com um terror crescente: não tinha mais para onde ir.
O rosto quadrado e longo do irmão estava centímetros do seu. Ele tinha uma cicatriz de queimadura que vinha do alto da têmpora direita até a curva magra da bochecha, enrugando a pele curtida de sol. Eros ouvira falar que o próprio Ares tinha causado aquilo, pressionando a lateral do rosto do filho numa chapa de ferro quente quando este deixou de cumprir uma ordem sua. Deimos tinha uma linha feita à faca que partia verticalmente o lado esquerdo da boca e descia pelo queixo até a clavícula, com uma origem parecida. Nada como o doce amor familiar...
Fobos apoiou o braço lotado de músculos salientes da parede ao lado da cabeça de Eros, fechado seu canto direito com todos os seus dois metros e dez de altura.
— Viu? Como eu disse: — ele sussurrou, olhando o irmão menor de cima para baixo e agarrando a ponta da túnica fina de cor carmim sobre o seu joelho esquerdo. — macia...
— O que você está fazendo? — Eros perguntou, ouvindo a própria voz tremer.
— Checando... — e subiu a mão áspera pela coxa do Cupido.
Eros deu-lhe um tapa que jogou sua mão longe, com um estalo sonoro.
— Tire as patas de mim! — exigiu, num sussurro gritado e furioso. Não sou mais uma criança estúpida e assustada! Não vou aceitar isso de novo!
Para o seu horror, o Medo sorriu como se ele houvesse acabado de lhe dar um presente maravilhoso. O Terror riu.
— Vejam só... — Deimos segredou, ao longe. — Que nervosinho...
Fobos deixou os olhos negros de arrastarem pela figura do Eros como se o visse pela primeira vez, ainda com um sorriso lupino: sádico e faminto. O Cupido quase levou a mão às costas em busca de uma flecha afiada. Mas se lembrou, lugubremente...
Não tinha nenhuma.
— Talvez o nosso pai esteja errado, — o Medo disse devagar. — talvez haja um pouco de guerra em você. — e parou os globos pretos na altura da boca rosada e cheia do irmão. — Que lindo...
Então agarrou o pescoço longo de Eros com força o suficiente para impedir-lhe a respiração, esmagou seu corpo esbelto no muro e comprimiu seus lábios contra os dele com violência.
Isso não está acontecendo.
Eros arranhou freneticamente a pele dura da mão do irmão, desesperado por ar.
Isso não está acontecendo.
Ouvia a risada alta e bruta de Deimos, enquanto sentia a língua do outro irmão explorar lhe a parte de dentro dos lábios e a superfície lisa dos dentes cerrados, lenta e agressivamente.
Isso não está acontecendo.
Chutou varias vezes o que ele achou serem as pernas e canelas de Fobos, já que mantinha os olhos fortemente fechados, sem nenhum resultado. A carne infame e molhada dele começou a pressionar a junção de suas presas, procurando uma abertura para invadir lhe a boca completamente.
Isso não está acontecendo
Aquilo durou uma eternidade...
Já há segundos de desmaiar, a cabeça girando pela falta de oxigênio, Eros abriu levemente a mandíbula, ouvindo um arquejo áspero de vitória do Medo. E então fechou os dentes com toda a força que tinha no seu lábio inferior.
Fobos o largou, xingando. Mal o Cupido enchia os pulmões, tossindo sofregamente, e bateu no rosto dele com as costas da mão enorme. A cabeça de Eros girou noventa graus e ele teve de se apoiar no muro para não perder os sentidos, o pescoço estalando com o golpe e a bochecha direita ardendo como brasa.
O Terror agora gargalhava como um maníaco.
Para o Hades com isso, preciso sair daqui! Concluiu em pânico, tentando abrir as asas. Elas vibraram dentro dele.
Mas não se mexeram.
Estou perdido. Ele pensou, o gosto amargo do sangue do outro ainda na sua boca. Quando o mundo dele começava a parar de dar piruetas trôpegas, Fobos agarrou seus braços na altura do bíceps trazendo-o para perto, o suficiente para que seus peitos se tocassem. Então o jogou com brutalidade contra a parede, no que resultaria em uma aquarela de hematomas mais tarde. Eros gemeu de dor entre os dentes, sem querer.
— Oh sim... — ronronou o Medo, lambendo a boca que ainda sangrava icor dourado, a milímetros dele. — Eu adoroesse som, maninho. Você não tem ideia... Vamos, faça de novo. Geme para mim. — disse, afundando os dedos em garra na pele do irmão. — Geme como você gemia...
Eros cuspiu saliva sangrenta na cara de dele.
— Vá para o Tártaro! — rosnou, imprudente e louco de raiva.
Outro tapa. Desta vez com a palma, mas no mesmo lado, abrindo um corte ardido no canto duas vezes golpeado da sua boca. O Medo o pegou pelo pulso direito e o torceu seu braço, girando seu corpo e prensando a lateral do seu rosto e o peito contra as pedras do muro. Eros arquejou, prendendo um grito dolorido na garganta.
— Então é assim que você gosta, Erinho? — murmurou no seu ouvido, depois de limpar o rosto no tecido da roupa sobre seu ombro. Mantinha o braço do irmão rigidamente torcido contra suas costas. — Eu não tenho nenhum problema em usar a força, se é o que quer... — E quando foi que você não usou? Eros pensou, amargamente. — Mexa-se só um pouquinho e não vai usar um arco por semanas. — ameaçou.
— Me largue, seu maldito idiota! — Eros xingou entre os dentes, sentindo os ossos do antebraço rangerem. Mas soou fraco aos próprios ouvidos.
Fobos entremeou os dedos da mão livre nos cabelos louros de Eros, puxando maldosamente as melenas da sua nuca para o lado e afundou o nariz no seu pescoço exposto.
— O seu cheiro... — ele sussurrou, num ofego obsceno. — o seu cheiro consegue ser mais gostoso que a sua voz, maninho. — e deu uma risadinha, pressionando ainda mais o peito duro e largo contra as costas do Cupido. — Como você espera que eu resista?
Você causa isso na gente... A voz dele ecoou numa lembrança vivida na sua cabeça, enquanto Eros sentia o hálito quente do Medo na sua nuca, fazendo seu pelos se arrepiarem. O braço torcido começou a ficar dormente e a bochecha duramente agredida latejava sem pausa.
— O gosto dele é tão bom quanto todo o resto, Fobos? — gracejou Deimos, com sua voz áspera. — Eu sempre quis saber...
Fobos puxou ainda mais os cabelos de Eros para o lado, colando a lateral esquerda do seu rosto no muro. E depois, numa lentidão torturante, simplesmente lambeu toda a bochecha exposta e machucada do irmão, deixando sobre sua pele de leite uma trilha molhada e sanguinolenta. Eros trincou os dentes e rosnou para ele, uma ânsia cruel subindo seu estômago, agulhadas de dor pinicando na maçã do rosto golpeada e molestada, mas o outro apenas umedeceu os próprios lábios num prazer não disfarçado.
— Baunilha e pimenta. — disse, estalando a língua contra os dentes. — Uma delícia. — chegou a boca ainda mais perto do ouvido dele, causando-lhe um calafrio e disse, deliberadamente baixo e lento. – Eu poderia comer você inteiro...
— Fobos... — Eros murmurou, sem conseguir olhar para o irmão. O seu pânico começando a suplantar em muito o seu orgulho e sua ira. — Você já se divertiu. Deimos já se divertiu. Agora, me solte. — ele pediu, sentindo-se a menor criança da casa outra vez. — Eu não sinto meu braço, por favor, me solte...
Para a sua surpresa, sentiu o aperto sobre seu braço torcido se afrouxar. O sangue voltou a circular por ele com uma presa violenta, causando um formigamento doloroso na ponta dos seus dedos. Eros abriu e fechou a mão algumas vezes, o alívio afogando a dor que sentia. Quando uma fagulha esperançosa nascia no seu amago, o Medo agarrou não somente um dos seus pulsos delicados, mas os dois, prendendo-os com apenas uma das mãos enormes no alto da sua cabeça, contra a parede fria.
— Fobos! — Eros exclamou, horrorizado.
— Desculpe, Erinho... — murmurou, enquanto jogava as mechas louras e soltas do Cupido sobre seu ombro esquerdo. Depois, quase com delicadeza, puxou a túnica avermelhada sobre o direto, expondo muito da sua cútis branco-porcelana. — mas eu não consigo parar agora...
E cravou os dentes na carne do ombro desnudo do irmão.
*
Muito longe dali, Apolo despertava com a claridade que escapava pelas janelas abertas sobre as pálpebras fechadas. Ver a luz sem participar dela era absolutamente estranho para ele, mas mesmo os deuses precisam de uma folga as vezes, ainda mais por um motivo tão agradável quando o que ele tinha.
O deus abriu os olhos azuis moldurados por longos fios dourados e sentou-se lentamente na cama, se sentindo ótimo. Logo depois de espreguiçar-se languidamente, esticando as costas largas e nuas, sentiu uma mão de dedos delicados subir pela pele bronzeada do seu braço direito, traçando um caminho errático e carinhoso pelo bíceps, por seu ombro, até parar no meio no seu peito, pressionando ali toda a palma cálida suavemente, como se para atestar que era real.
— Você ainda está aqui... — disse uma voz meiga, meio embargada de sono.
Apolo sorriu ternamente para a figura ao seu lado, pegando sua mão e a apertando contra os lábios.
— E onde mais eu estaria? — perguntou, num gracejo grave.
A figura abriu os olhos para ele, meio arregalados. Tinha os olhos castanhos mais lindos que ele já vira em toda a vida.
— Tive medo que fosse um sonho. — disse, num sussurro, olhando bem no fundo dos seus olhos, com uma adoração intensa. — Tive medo que me deixasse enquanto eu dormia. Eu passaria o resto da vida acreditando que havia alucinado com deuses, e nada mais seria tão bonito e divino quanto isso. E eu morreria só e infeliz!
Apolo riu daquele drama todo, embora seu caráter hiperbólico o encantasse.
— Eu nunca vou te deixar. — disse ele com convicção, entrelaçando seus dedos. — Não enquanto você viver.
O rapaz tinha dedos longos e elegantes, apropriados para o artista que era. Sorriu, sonolento, e escorou a cabeça no seu peito. O deus o aninhou nos braços musculoso, sentindo seu coração derreter no seu peito, enquanto namorava a imagem do menino de cima.
Seu nome era Jacinto. E ele era lindo.
Seus cabelos eram de um castanho claro acinzentado, mas queimados de sol nas pontas onduladas, criando um tom bonito de louro-caramelo. Os olhos eram amendoados e moldurados por cílios finíssimos, as íris cor de café puro. Tinha a pele naturalmente clara, mas coberta por um bronzeado saudável de quem passa muito tempo ao ar livre. De perto, podiam se ver um punhado de sardas tímidas no seu nariz arrebitado, que era um pouquinho mais comprido do que pediria a simetria e ainda mais belo por isso. Um par de covinhas desconcertantemente meigas se aprofundava em suas bochechas lisas. Era alto e esguio. Gracioso como uma moça da corte, inteligente como um filósofo e alegre como uma criança, embora já tivesse passado dos vinte anos.
Era um terceiro filho de um patriarca especialmente próspero, que satisfeito com a hereditariedade assegurada pelo primogênito, o deixava se aventurar naquilo que amava de todo o coração.
A Arte.
O rapaz era um prodígio. Aprendeu a tocar alaúde aos oito anos, sozinho. Aos dez fazia esboços a carvão que envergonhariam os renascentistas não nascidos. Aos doze pintava afrescos gigantes dos templos da propriedade do pai. Aos quinze, já esculpia de um jeito que ninguém nunca tinha visto antes. Mas foi a sua voz que fez Apolo descer do Olimpo para vê-lo de perto pela primeira vez.
Ele tinha uma voz relativamente aguda para um homem, quase um contralto. Mas o deus da musica não saberia descrevê-la com todas as suas palavras objetivas e racionais. Era suave como a carícia da água de um rio sobre pedras lisas. Era cálida como o calor de uma lareira no meio do inverno. Era delicada como as asas de uma borboleta, profunda como uma fenda no oceano e meiga como as bochechas coradas de uma donzela tímida.
Era o que Apolo queria ouvir por toda uma vida.
Ele não soube ao certo quando se apaixonou. Ele não sabia nem que era capaz de fazê-lo. Não daquele modo. Não depois do buraco tão grande que Eros fizera com uma flecha tão fina. Não depois de por aquela pesada coroa de louros na cabeça. Tivera muitos amantes ao longo da vida, mas nada que o arrancasse da solidez da própria razão como acontecera na primeira vez e ele jamais buscara por isso. Lembrava-se vivamente do abismo profundo em que o Amor havia lhe exilado e aquela escuridão ainda o assombrava. Se tivesse de definir que mais temia no mundo, seria amar daquela maneira outra vez.
Mas, o que fazer quando aquilo que tememos se torna o ar da nossa alma?
Não, Apolo não sabia quando tinha se apaixonado. Teria tentado reprimir se soubesse, mas o destino atroz lhe negou essa clemência.
Talvez tenha sido quando ouviu o rapaz cantar uma musica composta pelo próprio deus logo depois de Dafne, a ferida ainda aberta e impossivelmente dolorosa latejando no peito. A voz dele ondulava e deslizava pelas notas tristes como a neblina no leito do rio, ele a suavizava nos momentos precisos, arquejava nas pausas perfeitas e hesitava com graça nos impasses da letra, trazendo a melodia distraidamente nas cordas do alaúde. No final, levantou-se de onde tocava e deixou a todos que o assistiam, embasbacados, retirando-se quase numa corrida desesperada para seu quarto, com lágrimas nos olhos. E, emocionado, o mortal chorou a noite toda.
Talvez tenha sido quando falou com ele pela primeira vez. Ele estava passeando por um mercado de especiarias, enquanto o deus o seguia de perto, o namorando a distância. A forma que Apolo adotava para caminhar no mundo mortal era relativamente similar a sua própria, as cores um pouco amortecias e os traços menos perfeitos, sem brilho na pele e calor exalando pelos poros. Depois de uns vinte minutos de perseguição velada, o deus perdeu o rapaz de vista num cruzamento barracas. A sua direita havia um vendedor exibindo cordas de lira e alaúde, à esquerda, uma senhora com tintas frescas a mostra, a frente um homem polia os cinzeis que ordenava por tamanho. Ele poderia ter ido para qualquer lado.
— Você definitivamente está me seguindo. — concluiu uma voz meiga e conhecida atrás dele.
Ah deuses... Apolo pensou, se virando devagar, a expressão de uma criança pega no flagra roubando doces da cozinha. Vejo agora que todo e absolutamente qualquer talento para a caça foi para minha irmã...
— Ah, eu...
O rapaz deu um passo energético e totalmente inesperado para frente, aproximando tanto o seu rosto do dele que quase se tocaram no nariz. O deus arregalou os olhos pela surpresa, mas não se moveu. Ele ficou tanto tempo assim que Apolo tinha certeza que poderia ter lhe contado as sardas perdidas na face ou os cílios numerosos no seu belo par de olhos escuros.
— Você quer posar para mim? — perguntou ele, ainda tão perto, a espontaneidade atropelando as palavras.
— O quê? — Apolo perguntou, bobamente.
O rapaz se afastou um pouco, embora muito menos do que exigia a etiqueta, deixando os globos castanhos viajarem por ele brevemente.
— Você é lindo. Pose para mim. — pediu simplesmente. Quando Apolo não respondeu, totalmente perdido nos seus olhos, ele acrescentou, quase como se não tivesse importância. — Eu pinto, sabe... — e exibiu a cesta que carregava nos braços, lotada de vidros de tinta.
— Mas... — Apolo balbuciou, o coração estúpido batendo como um tambor nos seus ouvidos. — Você nem me conhece.
— Mas eu gostaria. — rebateu, sorrindo para ele. Seu sorriso era um pôr-do-sol. — Por favor, pose para mim.
Ora, como ele poderia ter dito “não”?
Talvez tenha sido ontem mesmo, quando o rapaz dava a última pincelada na tela comprida em que trabalhavam há semanas.
— Está pronto... — ele disse, no meio de um suspiro comprido.
Apolo saiu da pose e se pôs atrás dele, deitando os olhos sobre as próprias formas, para logo os arregalar como um tolo. Não foi só a excelência da obra que o chocou, embora ela fosse inegável. Foi a maneira como ele o retratou. A figura na tela não parecia um simples mortal louro e especialmente bonito. Sua pele irradiava uma luz suave e diáfana, os olhos brilhavam num azul impossível, ele era maior e mais poderoso do que qualquer homem devia ser, embora houvesse uma tristeza avassaladora escondida nos seus traços retos. Ele pintou a minha alma. O deus pensou.
— Jacinto... — ele começou, sem saber ao certo o que ia dizer.
— Você deve levá-lo. — o rapaz disse, a voz amortecida e cansada. — Para onde você for, deve levá-lo...
Apolo olhou para ele, surpreso. O jovem tinha os olhos baixos, perdidos em algum lugar nas lajotas brancas do chão, abraçava o próprio corpo magro e parecia terrivelmente desolado.
— Jacinto? — Apolo arquejou alarmado, resistindo bravamente à vontade súbita de abraçá-lo.
O rapaz se virou no banquinho em que sentava, encolhido, como se a simples visão do quadro o machucasse.
— Não posso ficar com ele. Muito menos exibi-lo! — anunciou, mordendo o pálido lábio inferior. — Pode fazer o que quiser com ele depois, mas deve levá-lo.
— Por quê? — o deus perguntou, a voz lhe saindo abatida e quase magoada. – O que há de errado com ele?
Jacinto ergueu para ele os olhos castanhos, meio afogados num mar de lágrimas presas.
— Você não entende! — exclamou, esfregando as pálpebras agressivamente, como uma criança teimosa que se recusa a chorar em público.
— Então me explique, por favor. — ele pediu, a voz suave, tirando com leveza as mãos do rapaz da frente do seu rosto.
Jacinto fungou. A ponta do nariz estava vermelha. O rosto bonito, molhado. Os cabelos caramelo, desgrenhados. E as mãos, manchadas de tinta. Nada no mundo era mais perfeito do que aquilo.
— Se eu exibi-lo, eles vão saber. — balbuciou, amargurado. E lançou um olhar arregalado para a pintura. — Está claro como o sol! Todos vão saber...
Sem se conter mais, Apolo ajoelhou-se na frente do rapaz e prendeu seu rosto nas palmas das mãos.
— Vão saber o quê? — ele perguntou, com nada mais do que um sussurro.
Jacinto olhou para ele, com os olhos maiores do que o mundo.
— Que estou completamente apaixonado por você.
Aquilo tinha sido demais.
Apolo nem viu quando o pegou no colo, colando seus lábios com os dele, provando o gosto da boca que ele lhe abrira de bom grado. Ele tinha gosto de cravo e camomila. Sua pele cheirava a tinta fresca e sabão. As mãos que enlaçaram seu pescoço tinham calos de alaúde. As pernas que enlaçaram sua cintura eram compridas e delgadas. Só teve alguma consciência do que fazia quando deitou o rapaz na cama; que o fitava com olhos famintos, a pele febril, o peito esguio subindo e descendo loucamente por baixo da roupa; e ele se lembrou com uma curiosidade distraída: nunca tinha estado com outro homem.
Isso lhe parecera completamente irrelevante antes.
Agora, nem tanto...
— Eu quero você. — ele disse, com todas as letras. — Mas não sei o que fazer...
— Eu sei. — tranquilizou o rapaz, com um sorriso envergonhado tomando-lhe a face lívida. – Só não fique tão longe. Não suporto mais você tão longe...
Apolo dobrou o corpo sobre o dele alegremente, prendendo a boca naqueles lábios pálidos com gosto de chá, explorando todos os pedaços dela com a língua. Lenta e ardentemente. Sentiu Jacinto sorrir no meio do beijo.
— Tire isso! — ele exigiu, sacodindo a barra da túnica alaranjada do deus.
Apolo se ergueu, com os joelhos presos em ambos os lados do quadril de Jacinto e arrancou a peça num puxão distraído, ficando completamente nu sobre o mortal. Jacinto deixou os olhos caírem pelo seu peito largo, para os gomos delineados no abdome, e então para sua ereção rija e enorme, o olhar calculado e cuidadoso dos artistas frente a obras inestimáveis.
Ele saiu debaixo do deus languidamente e se pôs sobre os joelhos também. Eles eram quase da mesma altura e Jacinto pode olhá-lo nos olhos antes de começar um ósculo esfomeado e exigente, agora invadindo ele a boca de Apolo, que cedeu num arquejo surpreso e prazeroso. O rapaz passou as mãos de dedos longos por seu pescoço e desceu ambas pelos seus braços musculosos, até encontrar as dele. Pegou as duas com delicadeza e as colocou sobre a lateral das próprias coxas.
Apolo pegou a deixa e apertou a carne entre seus dedos, arrancando dele um gemido, antes de subir as mãos pelo seu quadril estreito e sua cintura, levando a roupa junto. Mas Jacinto deve ter achado tudo lento demais, porque acabou ele mesmo puxando a túnica sobre a cabeça com uma presa atrapalhada, jogando as ondas de cabelo sobre seu rosto.
Apolo riu melodicamente, tirando as melenas claras da frente dos seus olhos.
— Que impaciente... — implicou.
— Ah, cale a boca! — soltou, antes de atacar seus lábios de novo, colando seus corpos desnudos e febris.
Já vi que não sou eu quem manda aqui... Apolo pensou, divertido, deixando o mortal dominar a sua boca. Ele rodeava a língua do deus com a sua, numa dança frenética, molhada e quente. Afastou-se de repente, lembrando-se tardiamente de respirar, jogando a cabeça para trás num ofego. Apolo aproveitou e colou os lábios na pele exposta da sua garganta, cobrindo de beijos suaves e ligeiros pelo pescoço todo. Jacinto entremeou os dedos longos nos seus cabelos dourados e ainda compridos, arquejando a cada selinho cálido que ganhava. Mas, impaciente que era, logo segurou o deus pelo queixo quadrado, forçando seu rosto para cima, prendendo-o num beijo longo de novo.
Apolo estremeceu quando sentiu as mãos do rapaz saírem das suas melenas louras para descerem arranhando seu baixo ventre e alcançarem o membro rijo. O deus abandonou sua boca para gemer quando ele começou a massageá-lo numa lentidão prazerosamente torturante. Pressionando a base do polegar na ponta vasada, espalhando o líquido pré-gozo pela glande que parecia queimar a milhões de graus. O Sol apoiou molemente a cabeça no ombro de Jacinto, que sorriu satisfatoriamente, enquanto o outro gemia no seu ouvido.
O jovem colou ainda mais seu corpo magro e claro no musculoso e moreno do outro, fazendo as ereções deles se tocarem. Então pegou ambas entre as mãos de dedos cruzados e começou a bombeá-las juntas, de baixo para cima.
— Ah Zeus... — Apolo soltou, num murmúrio descuidado, em resposta ao prazer que o outro lhe dava.
Jacinto sorriu mais, muito orgulhoso de si mesmo, já não contendo os próprios gemidos quebrados de deleite. Apolo desceu as mãos pela sua lombar, distraidamente, até chegar à curva das bandas redondas, que ele apertou entre os dedos, enquanto o mortal ainda o acariciava e beijava-lhe o ombro exposto e o pescoço moreno. Quando os dedos dele já estavam molhados pelo líquido preparatório dos dois, Jacinto começou voltou a se deitar, levando o deus junto. Suas mãos saíram do sexo deles e ele procurou a destra do outro no meio desarranjado dos lençóis.
Apolo o encarava com um misto de desejo e curiosidade, os olhos atentos a cada movimento. Suas pupilas negras quase engoliram o azul vivo das suas íris quando, sem explicação, o rapaz abriu-lhe os dedos espalmados e pôs dois deles na boca. A língua dele rodeou os dígitos lenta e dissimuladamente, como de fossem feitos de açúcar, um brilho de malícia despontando no castanho-café dos seus olhos. Apolo não sabia o que ele estava fazendo, mas era inacreditavelmente sensual, e tornou lhe a respiração difícil e pesada. Quando as falanges já estavam encharcadas da sua saliva, Jacinto tirou os dedos dele da boca e os guiou cuidadosamente até o meio das suas nádegas.
Os olhos do deus se arregalaram ao entender o propósito daquilo. Ele ergueu o rosto para Jacinto, receoso. O rapaz lhe sorriu e, assentindo, abriu as pernas compridas, num inegável e irrecusável convite. Mesmo assim Apolo hesitou, apenas tocando com suavidade a entrada rosada, rodeando e umedecendo o círculo pequeno, com lentidão e cuidado. O mortal afastou mais as coxas claras.
— Pare de brincar comigo! — reclamou, manhoso e exigente. — Comece logo com isso ou eu o farei... — ameaçou, estreitando as pálpebras para ele.
Apolo ergueu as sobrancelhas. Mortal atrevido. Pensou, a sua parte mais orgulhosa do seu ser indignando-se. Mas a verdade é que, sem nenhuma razão, o deus estava rindo.
— Às suas ordens, vossa graça. — gracejou, com um sorriso mal contido. E, obedecendo, escorregou um dedo para dentro dele.
Jacinto gemeu lindamente.
Dois dedos. E ele cerrou os dentes.
Pouco tempo depois de começar a se mover dentro dele o rapaz já estava se movendo também, extasiado, suas paredes se adaptando confortavelmente.
— Agora... — Jacinto decretou, meio gemido entre os dentes.
Apolo tirou os dedos dele e posicionou o quadril entre as suas pernas. O rapaz parecia tranquilo e seguro...
Até sentir a glande larga e caustica do outro tocar-lhe a entrada.
— Tudo bem? — Apolo perguntou, em resposta ao leve arquejo temeroso que ele deixou escapar.
— Sim... — disse, mas engoliu a seco.
— Tem certez...
— Vem logo! — Jacinto cortou irritado e o puxou pelos quadris.
Meio assustado, o deus entrou nele de rompante.
O rapaz arqueou as costas contra a cama e apertou as mãos em punhos, a dor inegável transparecendo nos traços do seu rosto.
— Jacinto? — Apolo chamou alarmado, fazendo menção se sair dele.
— Tudo bem... — ele sussurrou, envolvendo as pernas ao redor do deus, embora ainda tivesse os olhos cerrados de agonia. — Tudo bem. Vai melhorar...
Apolo ficou imóvel, com muita dificuldade, temendo machucá-lo mais. Os dois respiravam pesadamente e o mortal agarrava os lençóis entre os dedos, deixando as juntas brancas. Mas aos poucos, foi afrouxando o aperto.
— Você... pode se mexer agora... — ele murmurou, prendendo o fôlego com a antecipação.
Apolo não estava seguro daquilo, mas a verdade é que ficara quase impossível conter o movimento, o canal quente do outro o pressionando como ele nunca havia sentido. O deus empinou a lombar lentamente, saindo dele até a metade e entrando de novo.
Jacinto tentou ocultar a aflição do seu rosto escondendo a face nos travesseiros, um bramido doído escapulindo dos seus lábios. Apolo mordeu a parte de dentro da boca, culpado pela dor do rapaz e pelo prazer inigualável de tirava dela. Suspirando devagar, foi contra todos os seus princípios e usou os poderes para amenizar parte dela. Não havia revelado sua identidade divina ao mortal e não tinha a intenção de fazê-lo. Não até aquele momento. Mas no gemido quebrado que o rapaz soltara, algo dentro dele havia rachado. Eu o amo. Apolo percebeu, contemplando a sua face lívida.
Jacinto soltou um suspiro longo de alívio e um arquejo curto de surpresa. Virou o rosto para Apolo, os olhos arregalados, a expressão confusa. O deus sorriu para ele e dobrou o corpo com cuidado, colando seus corpos desnudos e suados, e pousando os lábios cálidos na porta do seu ouvido. Num sussurro apaixonado e desimpedido, disse ao mortal quem ele era. E o que ele era.
— Eu amo você. — ele completou, deixando um beijo no lóbulo da sua orelha.
Afastou o rosto para fitá-lo nos olhos, esperando um choque absoluto. A surpresa veio, mas durou muito pouco. Com a face a centímetros da sua, Jacinto torceu um pouco a cabeça para traz e riu, alto e prazerosamente. E foi o deus que o encarou pasmo.
— Eu sabia! — o rapaz comemorou, com um sorriso largo e maravilhado. — De alguma maneira, eu sabia!
Apolo só pode rir com ele, lembrando-se do modo divino como o retratara no quadro e o beijando longamente nas pausas do ato. Acabou por voltar a se mover dentro dele, agora mais rápido. Se estivesse em sua forma plena, poderia ter lhe tirado toda a dor, mas aquela imitação inferior tinha suas limitações e o rapaz ainda sofria com as estocadas e seu tamanho generoso, cerrando os dentes com força.
Apolo o envolveu com os braços, deitando a cabeça dele na curva do seu pescoço.
— Desconte a dor em mim. — disse no seu ouvido, sem parar de se mexer.
Jacinto espaçou um pouco o rosto, o suficiente para olhá-lo nos olhos, agora eles exibindo um brilho de receio. Apolo assentiu para ele, sorrindo. Seguro nos seus braços e espelhando os traços perfeitos do deus amado, o mortal sorriu de volta...
E cravou os dentes na carne do ombro desnudo do amante...
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