Bacanal

10 Corra ou morra - Parte 2


Notas iniciais
Capítulo GI-GAN-TES-CO para vocês! Eu juro que tentei me conter, mas não deu... Lembrando que esta é a segunda parte do capítulo anterior, e, portanto, continuamos a quatro séculos no passado. Ps:. continuem lendo sentados...

Parte 2: Pra não dizer que eu não falei das flores

Para os tiranos em um barranco, eu tenho um amor.

Para os cães covardes, eu tenho um amor.

Para o jovem condenado, eu tenho um amor.

Você não vai me dizer, por favor,

Por que eles não têm nenhum amor por mim (...).

Pela milionésima vez, eu tenho um amor.

Para os meninos de olhos azuis, eu tenho um amor.

Para os jovens cruéis, eu tenho um amor.

Você não vai me dizer, por favor,

Por que eles não têm nenhum amor por mim.

Você não vai me dizer, por favor...

Por que eles não mostram nenhum amor por mim?

— The Kills, “Siberian Nights” (Traduzida)

Eros gritou por detrás da boca fechada quando sentiu a pele suave e macia se romper entre as presas do irmão. Sangue dourado, cálido e doce brotou do ferimento aberto, e Fobos bebeu dele como se fosse ambrosia.

Lágrimas quentes e pesadas encheram seus olhos fechados. Lágrimas de dor, de raiva, de medo. Ele engoliu a seco, ouvindo o barulho molhado e repugnante do irmão, lambendo o que restava do seu sangue.

Seu sangue. Seu corpo. Seu orgulho. Eles macularam a todos naquele dia.

O deus do Amor ergueu os olhos pretos para a luz. Estava um dia lindo. O céu aberto e iluminado, num tom escandaloso de azul, nem muito quente, nem muito frio. O ar excepcionalmente fresco e carregado com o perfume do fim da primavera. Aquilo parecia errado, ninguém devia morrer por dentro num dia ensolarado.

O deus conseguiu manter sua alma, líquida e salgada, presa na borda dos olhos escuros. Num ultimo rompante inútil e teimoso de coragem, mas estava apavorado. Os anos de abuso e violência lhe voltavam doloridamente à cabeça e ele descobriu, tragicamente, que não sabia mais como reagir aquilo.

Fobos finalmente tirou a boca maldosa da sua pele machucada, com estalos sonoros e rítmicos dos lábios.

— Por que tão gostoso?... — murmurou distraidamente, quase para si mesmo. Ele circulou a ponta dos dedos hirsutos sobre as duas meias luas ensanguentadas que fizera no ombro do Cupido, que refreou um arquejo de dor e subiu devagar pela cútis exposta, numa carícia ofensiva. — Por que tudo em você é tão gostoso? — parou o polegar num novo pedaço de pele intacta, na curva do pescoço, pressionando a digital ali, como que a marcasse.

Eros previu a sua intenção e sua boca tremeu com a antecipação cruel.

— Fobos, não... — ele implorou, abrindo os olhos, um nó formado na garganta. — Por favor, não...

O Medo ouviu o embargo incomum na sua voz e numa fome predatória, ergueu a vista para o rosto do irmão. Quando notou o brilho molhado adornado seus cílios claros e compridos, sorriu com absolutamente todos os dentes, como se o Amor houvesse acabado de prestar-lhe a mais alta das homenagens.

— Você quer chorar? — perguntou baixinho, num tom quase tocante. — Chore. Chore muito. Chore para mim. — pediu, sussurrando como um amante arrebatado. — Chore e eu beberei suas lágrimas como um morto de sede. Você quer gritar? — ele continuou, começando a arranhar a pele sobre seu polegar, extasiado. — Grite e eu fecharei a sua boca macia com a minha, e sufocarei a sua voz suave entre os meus dedos. Você quer lutar? — riu fugazmente, passando a língua pelos dentes, depois disse numa expressão terrível. — Lute e fará de mim o deus mais feliz do Olimpo.

Dito isso, mordeu a curva do seu pescoço, afundando as presas na sua carne até sentir o gosto do icor adocicado do seu sangue.

Eros escondeu o rosto na pedra do muro quando lágrimas desobedientes escorregaram por sua face lívida.

*

Alguém bateu energeticamente na porta de madeira pesada. Jacinto levantou do seu colo num pulo assustado, acordando do cochilo suave em que se encontrava imediatamente.

— Jacinto! — gritou uma voz de mulher do outro lado.

— Ah meu Zeus... — o rapaz murmurou, alarmado. — O que foi, Talha? — gritou de volta.

— Já está no começo da tarde, seu vagabundo! Vai ficar aí o dia todo? Você perdeu o café da manhã!

— Não tem problema, Talha. — Jacinto respondeu. — Eu...

— Não tem mesmo, folgado! Eu trouxe para você! — exclamou, forçando a fechadura.

Jacinto saltou da cama, desesperado.

— Espera! Espera! — gritou para a escrava. — Não abra!

— E por que raios não? — berrou a mulher, do outro lado.

— Ah... porque... — hesitou, arregalando os olhos. — Porque eu estou nu! — concluiu vitoriosamente.

Até porque era verdade.

— Ah, tenha santa paciência! E quem você acha que limpava a sua bunda quando você era criança? Seu inútil, abra essa porcaria!

— Ah deuses... — balbuciou o rapaz, enrolando um lençol de qualquer jeito em torno dos quadris e se adiantando para a porta.

Abriu só uma fresta dela, podendo ver a mulher morena do outro lado. Talha era redonda como um barril e mal chegava à altura do seu peito. Mesmo assim tinha o queixo empinado e olhar autoritário de um patriarca, o mau humor constante minando o que restava de uma beleza simples muito evidente na juventude. Os cabelos marrons presos num coque apertado e uma sobrancelha fina erguida em desagrado. A mãe de Jacinto morrera jovem, no seu parto, e a escrava o havia criado, com seu jeito bruto e desengonçado. Ela carregava nas mãos uma bandeja com comida o suficiente para umas quatro pessoas.

— Não precisava, Talha...

— Não precisava o caralho! Olhe para a sua magreza! Você parece uma vela com pernas... — ela resmungou, forçando a bandeja na entrada estreita. — Se eu o pegar desmaiado por ter pintado o dia todo e esquecido de comer de novo, viro você do avesso!

— ‘Tá bom! ‘Tá bom! Já entendi... — retrucou Jacinto, deixando a comida passar, pelo menor espaço possível. Mal tinha o café da manhã nas mãos e começou a fechar a porta com o corpo pouco coberto, tentando não dar uma visão completa do quarto a mulher. Se achou que ela não iria perceber, foi muito inocente.

— Que palhaçada é essa? — Talha soltou, segurando a borda da bandeja num solavanco. — Tem alguém aí dentro?

— Muito obrigado pelo café da manhã, Talha, você é a melhor! — Jacinto disse apressadamente e depositou um beijo rápido na bochecha da mulher, soltando o prato de prata das suas mãos.

— É aquele loiro gostoso que você estava pintando? — ela quis saber, esticando o pescoço.

— Até mais, Talha! — o jovem exasperou, fechando a porta.

— Ei, você! Não caia na laia dele não! Você é bonito demais para esse imprestável! — ela ainda gritou do outro lado.

Jacinto escorou as costas na madeira, as bochechas rosadas de vergonha, segurando a bandeja lotada contra o peito descoberto. Lançou um olhar para a figura que mordia os lábios na sua cama e disse, sério:

— Não ria.

Foi o incentivo que Apolo precisava para cair na gargalhada.

**

Existem algumas frases que não devem ser ditas. Existem vocábulos em ordens especificas que, quando proferidos, flertam com a má sorte. Todos os deuses sabem disso. Até os mortais tem uma vaga noção do poder das palavras. Uma delas (que eu escreverei, mas rezo para que não a repitam) é...

“Não pode ficar pior”.

Talvez a roda da fortuna trave no fundo toda que ela é proferida. Talvez a vida não a veja como um comentário e sim um desafio. Talvez a sorte não goste dos arrogantes que acham que sabem do próprio futuro. Talvez seja pelo simples caso de ela ser uma absurda e abominável mentira. O fato é, aprendam isso, jovens mortais:

Sempre pode para ficar pior.

Eros não disse essas palavras agourentas em voz alta. Eros estava ocupado, tentando parar de chorar como uma criança ferida. Mas os pensamentos são pássaros fugazes e traiçoeiros, são difíceis de controlar. Talvez ele tenha pensado isso. Talvez ele sentisse a dor da pele maculada disputar com a da bochecha agredida e a do orgulho espancado, enquanto o irmão que ele tanto temia o subjugava e machucava como bem queria, e não visse nada pior do que aquilo. Talvez ele tenha dito isso a si mesmo, num consolo vazio, na esperança de conter aquele caminho de lágrimas vergonhosas que manchavam seu rosto bonito. Não importa.

Ele não devia ter dito.

Os dentes de Fobos ainda estavam dentro da sua pele, quando ele sentiu uma mão de dedos ásperos deslizar vagarosamente até a sua cintura. Ela ficou parada ali por quase um minuto, apertando a curva ligeira com uma pressão intensa e uniforme. Depois escorregou até a lateral do seu quadril, sentindo a saliência da ossada elegante naquela parte por sobre sua roupa fina. Então, se enfiou entre fresta mínima que havia entre a parte da frente do seu baixo ventre e o muro.

Eros arquejou, apavorado, quando o irmão tocou-lhe o sexo por cima da roupa. Lento. Invasivo. Dissimulado.

— Fobos... — sua voz saiu num fiapo fino.

— Hm... — ele murmurou, parecendo embriagado, tirando as presas dele. — Você estava certo, Deimos, — disse arrastado, expelindo malícia. Lambeu a pele castigada do irmão e apertou lhe o membro com violência. — é um menino...

Eros gemeu de dor. Deimos riu.

— Não é assim que você prefere, Fobos? — perguntou o Terror.

O Medo friccionou os dedos pela extensão coberta de Eros, antes de responder. Para cima e para baixo.

Para cima e para baixo.

Devagar...

— É exatamente assim que eu prefiro.

***

Apolo tinha lágrimas nos olhos. Ele rira sem parar por muitos minutos, a voz melódica se moldando as cadências da gargalhada, tão rara nos seus lábios, mas que agora lhe saíra com facilidade. No final, apoiou a nuca na cama, apetando o abdome dolorido e limpando os olhos.

— Ah céus... — ele murmurou, voltando a respirar sofregamente. — Acho que nunca ri assim na vida... — fez uma pausa para prender outra crise contra os dentes, mas não aguentou. — “Uma vela com pernas”! — ele repetiu, soltando o riso outra vez, comprimindo a barriga musculosa. — Acho que estou morrendo...

— Filho de uma mãe. — Jacinto reclamou, pondo a bandeja entre os dois na cama.

Apolo olhou para ele de sobreolho, as sobrancelhas erguidas. Respirou fundo, se recuperando por completo do riso descontrolado.

— Você é muito corajoso. — o deus disse, num sussurro perigoso.

— Oh, deus todo-poderoso... Era para eu ficar com medo? — o rapaz perguntou, os olhos oscilando entre o desdém e a malícia, enquanto punha um damasco na boca.

Apolo desceu as íris azuis pela pele muito exposta de Jacinto, devagar.

— Ah sim... — ele murmurou, mordendo o lábio inferior. — Não tem ideia das coisas terríveis que eu posso fazer com você...

Jacinto sorriu largamente e se esticou na cama com indolência, exibindo mais do corpo nu preguiçosa e despreocupadamente.

— Tente. — ele provocou, acabando de mastigar. E como se não bastasse, mostrou-lhe a língua.

Apolo estava sobre ele num piscar de olhos. Saiu do encosto da cabeceira, contornou o prato lotado e prendeu o corpo do rapaz embaixo do dele, segurando seus pulsos contra o colchão.

— Apolo?! — Jacinto chiou de susto, os olhos arregalados.

— Faça isso de novo, mortal insolente! — o deus rosnou, o rosto a milímetros dele, depois afundou a face no seu pescoço. Jacinto arquejou, achando que ganharia marcas de dente, mas ganhou um beijo. — Vamos, faça de novo... — Apolo ronronou, fazendo uma trilha de selinhos na sua garganta e peito nu.

O rapaz riu embaixo dele, aliviado em saber que sua fúria era só provocação. Esperou o deus ter o rosto alinhado ao dele de novo e fez o que mandou, estirou a língua para ele. Apolo atacou a sua boca e sugou aquela carne exposta com gosto de damasco para dentro dos próprios lábios

****

— Eu mato você.

Foi isso que saiu dos lábios delicados e rosados do deus do amor.

O Medo passara os últimos minutos torturantes alisando-o por cima da túnica, mas, aparentemente, isso deixou de ser o suficiente. Então ele arrastou a parte traseira da sua roupa fina para cima, expondo suas nádegas perfeitamente brancas e redondas ao ar fresco e olhos famintos. Aquilo foi demais para Eros e ele começou a se debater furiosamente contra a parede, xingando o irmão em pelo menos quatro línguas. Patético. As forças deles eram ridiculamente desproporcionais, seria o mesmo que lutar contra uma montanha. Fobos nem se moveu. E tudo o que conseguiu com a sua luta foram dezenas de esfolados da parede áspera, uma risada de desdém de um gêmeo, e um tapa pesado na têmpora do outro.

— Quieto. — Fobos rosnou para ele, depois da bofetada.

Eros apoiou a testa na parede, cansado e tonto. O Medo apertou sua nádega esquerda entre os dígitos, gravando na pele alva o formato dos seus dedos varias e várias vezes. Depois de se cansar da trilha de nódoas arroxeadas que deixou na cútis delicada do irmão menor, comprimiu a pélvis contra ele.

Eros arregalou os olhos quando sentiu claramente a ereção coberta do irmão tocar-lhe entre as nádegas. Enorme e molhada. E simplesmente não pode mais ignorar o que Fobos pretendia fazer com ele.

— Eu mato você. — foi quando disse. As palavras saíram quase calmas e pesadas entre os seus dentes. — Não me importa como eu o farei. Nem quando o farei. Não me importa os séculos que gastarei por causa disso. Comprarei os oráculos. Consultarei os sábios. Seduzirei Nix. Farei com que a Senhora das Trevas me ame ao pondo de dividir comigo todos os seus mistérios. E conhecerei o segredo da imortalidade. Então a tomarei de você. Não ligo para a fúria do meu pai. Não ligo para a dor da minha mãe. Que todos os deuses me amaldiçoem por conta disso. Não me importo. — e Eros virou o rosto o suficiente para olhá-lo nos olhos. — Se fizer isso comigo, eu mato você.

*****

— Vamos sair! — Jacinto decretou, escapando do aperto dos seus braços.

— Para onde?... — Apolo murmurou, preguiçosamente.

Eles tinham feito amor de novo, quase derrubando tudo da bandeja para fora da cama. Depois comeram o restava vorazmente e agora descansavam, sonolentos, nos braços um do outro.

— Eu não sei. Só quero sair! — o rapaz disse, se levantando dos lençóis. — Estou feliz demais para ficar parado. Sinto que vou explodir! — exclamou, alongando o corpo magro e nu.

— E por que acha eu permitiria que você ficasse parado? — Apolo perguntou seriamente, arrastando os olhos azuis pelo amante desnudo.

— Pelos raios de Zeus, você é insaciável! — ele resmungou, embora tivesse um sorriso nos lábios. — Eu sou mortal, lembra? Está tentando me matar?

— Eu não tenho culpa se você é tão... bom... — o deus respondeu, franzindo o cenho para si mesmo, nem acreditando que aquilo tinha saído da sua boca.

— Ah não... Sem essa de culpar a vítima! — Jacinto se fez de zangado, apontando para ele.

— “Vítima”? — Apolo perguntou incrédulo.

— Levanta daí, seu tarado preguiçoso! — o mortal reclamou, jogando a túnica alaranjada do deus em cima dele.

— Hm... — Apolo grunhiu, se sentando lentamente. Mas, vencido, pegou a roupa que descansava sobre seu colo nu. — Ainda não sei por que você quis me pintar de laranja. — ele comentou distraído, metendo a túnica pela cabeça. — não é uma cor particularmente bonita.

— Shhhhh... — Jacinto, já vestido, colocou um dedo elegante sobre os lábios pálidos. — Não diga isso alto ou o deus do sol pode se zangar com você... — ele provocou.

Apolo revirou as os globos azulados, levantando-se da cama.

— Muito bem, espertinho. É bonito no pôr-do-sol, mas não nas roupas. — ele argumentou, ajeitando a túnica em volta de si. — Definitivamente não nas roupas. — acrescentou, lhe fazendo uma careta de desagrado. — Pareço uma abóbora...

— Uma abóbora muito gostosa. — Jacinto soltou, com um sorriso pouco pudico. Depois simplesmente disse. — Foi por causa dos seus olhos.

— Meus olhos? — Apolo perguntou baixinho.

— Laranja e azul. — Jacinto murmurou, chegando perto dele devagar e pegando a barra da túnica entre os dedos. — São cores complementares. — ele disse, revezando a vista entre o pano as suas íris cor de verão. Quando viu que o deus não sabia o que aquilo queria dizer, largou a sua roupa e se afastou, para dizer com ares didáticos: — Existem três cores primárias, certo?

— Amarelo, vermelho e azul. — Apolo respondeu. Não era versado em artes visuais, mas sabia disso.

Jacinto sorriu para ele.

— E três cores secundárias...

— Laranja, verde e roxo. — o deus completou.

— De fato, meu jovem aprendiz. — Jacinto brincou, caminhando para a tela recém-pronta ainda no suporte. Apolo o seguiu. — Cores complementares são duplas de tons, formados uma secundária — explicou ele, apontando para a túnica na tela. — e a primária que não faz parte da mistura. — completou, indicando o brilho das suas íris. — Se vermelho e amarelo fazem o laranja, sua cor complementar é o azul. Assim ficam: laranja e azul, roxo e amarelo...

— Verde e vermelho. — o Sol completou, arrancando um sorriso largo do menino.

— Exato. — concluiu, virando-se para ele. — Pode não gostar da cor laranja, mas ela faz com que os seus olhos pareçam mais azuis. É como as cores complementares funcionam. Uma destaca e embeleza a outra. Completam-se numa perfeição inimitável. Todas as primárias presentes...

******

— Eu não entendo esse drama... — Deimos resmungou obscenamente.

— Você não é o deus do amor...? — Fobos sussurrou no seu ouvido.

— Não é o deu do sexo...? — o outro completou.

— O primeiro deve ser oferecido e conquistado, o segundo, compartilhado. Ambos de bom grado! — Eros disse entre os dentes cerrados. — Nunca... jamais... tomados! E o fato de não saberem disso me enoja. — ainda preso contra a parede, ele tentou virar o rosto o suficiente para encarar o Medo. — Eu não quero você. — disse, deliberadamente claro e devagar. — Eu nunca vou querer você! Agora me solte e eu vou fingir que isso não aconteceu. E me esforçar, como faço todos os dias desde que nasceu, para esquecer que você existe.

Fobos apenas o olhou, por mais de um minuto, os olhos pretos como tinta, estáticos nas íris negras como as suas. Um sorriso nasceu nos seus lábios. Lento. Frio. Sádico. Um rasgo branco e comprido na naquela boca fina, ainda brilhando de icor.

— Eu poderia temê-lo, irmãozinho. — ele disse, devagar. — Qualquer outro o temeria. Eu vejo o perigo nos seus olhos, vejo esse fogo frio exalando ódio e eu sei do que você é capaz... — estalou a língua contra os dentes compridos, transbordando contundência. — Mas eu simplesmente não sinto isso.

Eros fechou os olhos, derrotado, quando concluiu que era verdade. Assim como Dionísio não podia se embriagar, Apolo não podia se queimar e Poseidon nunca se afogaria nos seus mares. Os deuses não têm fraquezas no campo dos próprios poderes. Não importava o que o Cupido dissesse, nem o fato de estar totalmente disposto a fazê-lo, Fobos nunca sentiria medo dele.

Fobos não sentia medo de absolutamente nada.

— Então, eu sinto lhe informar, Erinho... — ele sussurrou no seu ouvido, começando a se acomodar entre as suas pernas. — Mas a sua fúria me excita...

*******

— Eu já disse que amo você? — ele perguntou. Tinha abraçado o rapaz por trás e agora depositava um beijo na sua nuca.

— Uma vez ontem, várias hoje de manhã... — Jacinto declarou, parecendo muito orgulhoso de si mesmo, deixando o corpo se apoiar no dele.

— Eu amo você. — Apolo repetiu, sem se importar com o qual tolo aquilo soasse, ainda pressionando os lábios contra a sua pele.

— Eu também amo você... — o mortal disse num sussurro tímido. — Meu deus tarado que não gosta de laranja... — completou, numa risadinha. — Mas se acha que vai me amolecer com esses carinhos interesseiros e palavras bonitas, está enganado. — anunciou, se virando dentro do seu abraço. — Nós ainda vamos sair!

Apolo soltou um gemido dolorido, apoiando a cabeça no seu ombro.

— Ora, vamos. Vai ser divertido! — Jacinto o animou, passando os dedos entre os seus cabelos dourados. Mas depois, se desvencilhou dele. — Eu vou levar meu alaúde e nós podemos cantar e tocar, ver as pessoas, conversar com os passarinhos e... sei lá, lançar discos. —sugeriu ele, dando ombros.

— Discos? — Apolo questionou, erguendo uma sobrancelha.

— Discos! — Jacinto declarou com tom de conclusão e foi buscar o alaúde.

O Sol suspirou. Eu teria ficado a semana inteira nesse quarto de bom grado. Só te amando e mimando entre os meus braços. Mas não pode atravancar a animação com que ele o olhava, com o instrumento no colo.

— Lançar discos, então. — ele concordou.

Não importa, meu amor. Pensou, deixando um beijo na testa do rapaz enquanto saiam do quarto. Nós ainda temos muito tempo...

********

Eros quase caiu sentado quando todo o peso que o pressionava contra a parede sumiu.

Fobos fora arrancado de cima dele.

O Cupido se virou apressadamente, puxando a túnica para baixo e se cobrindo, as costas apoiadas na parede e os olhos muito abertos.

Ares segurava o Medo pela garganta.

— Eu lhe dei uma ordem. — o deus da guerra rosnou, baixo e rouco, a centímetros do rosto dele. — Não dei?

A sua fúria era tão palpável que Eros quase pode senti-la na pele, ácida como veneno, corroendo o ar que sua áurea violenta abarcava. Fobos assentiu, a cor sumindo do seu rosto.

— E qual foi? — Ares continuou devagar, sem reagir à coloração bizarra de azul que surgia nos lábios do filho.

— Preparar... os... cavalos... — o Medo custou a dizer, a traqueia esmagada entre os dedos sólidos e brutais do pai.

— Ah, você se lembra?! — Ares gritou com sarcasmo, sacudindo-o pelo pescoço, e tirando-lhe os pés do chão. — E o que é que você está fazendo... AQUI?

Os olhos de Fobos começaram a rolar para dentro das órbitas.

O deus da guerra o largou com um movimento de desdém e deu-lhe um tapa na têmpora com uma força que teria feito Eros apagar na mesma hora, estirando-o inconsciente pelo chão. Mas o Medo apenas cambaleou, as íris dançando. Acabando por cair de joelhos, num baque violento emudecido pela grama.

Deimos ia se afastando devagar, deixando o irmão meio asfixiado ainda bebendo goles audíveis de ar.

— Não pense que me esqueci de você, bastardo imprestável! — Ares rosnou para ele, que ficou estático na hora, como que paralisado por peçonha. O pai revezou os olhos pretos pelos gêmeos com um esgar de desgosto. — Tanta inutilidade não cabia num só... — as pálpebras se fecharam em fendas escuras e estreitas. — por isso a natureza fez dois! — ele grunhiu, mostrando os dentes. — Sumam da minha frente...

Nenhum deles esperou uma segunda ordem e desapareceram de vista em segundos. Fobos ainda sem sangue que lhe corasse a face morena, lançando um último olhar de lascívia e ira contida ao irmão pequeno.

Eros achou que fosse desmaiar. Seu alívio era tanto que quase o engasgava. Ele cobriu a boca com as mãos, tremendo dos pés a cabeça, seu coração batendo nos ouvidos. Por um momento, teve certeza de que o irmão o possuiria a força ali mesmo e não teria nada que ele pudesse fazer para impedir.

— Obrigado... — murmurou entre os dedos finos, quase surdamente.

Só então o pai o olhou. O rosto, de início, indiferente e vazio como o de uma estátua de cobre. Então algo tomou conta das suas feições. Tão claro, expressivo e inegável que quase vibrava na sua pele riscada e se materializava no ar a sua volta. Um sentimento tão intenso e evidente que fez Eros tentar se afastar, batendo as costas já castigadas contra a parede.

Não era pena. Não era raiva. Não era culpa.

Era desprezo.

Cru, simples e venenoso, franzindo cruelmente as suas sobrancelhas pesadas e torcendo a sua boca fina em aversão.

— Da próxima vez, defenda-se. — Ares decretou, com a repulsa pesando nas palavras. — ou ceda... — acrescentou simplesmente, com a mesma indiferença com que um pai decente diria para um dos filhos dividir a sobremesa. — Isso... — indicou, descendo os olhos pretos e duros pelo corpo machucado e molestado do filho. A pele delicada ferida, a boca ainda sangrando e a expressão de puro terror. — é patético — ele quase cuspiu, como se a palavra fosse nojenta. — e você — concluiu, cravando as íris nas dele. — é uma vergonha.

Dito isso, ele apenas deu-lhe as costas.

E foi embora.

*********

— Aqui está bom! — anunciou, rodando o corpo esguio pelo ambiente.

— Como queira, majestade. — Apolo disse pausadamente, com um sorriso no rosto.

— Está zombando de mim? — Jacinto quis saber, apoiando as mãos nos quadris estreitos.

— Eu? — o deus questionou, colocando a palma sobre o próprio peito num gesto chocado. — Jamais! — declarou afetado. — mas quando o rapaz se virou, acrescentou num cochicho. — Vossa graça...

— Eu ouvi isso! — o mortal avisou, pondo a sacola de linho, que carregava, no chão.

— Não sei do que está falando... — Apolo murmurou, como um desentendido, examinando a vista.

Estavam num campo aberto, ainda dentro da vasta propriedade da família de Jacinto. Usado comumente para o pastoreio e, excepcionalmente, lançar discos...

— Você sabe como fazer isso? — Apolo questionou, erguendo só uma das sobrancelhas louras.

— Claro que sei! — ele disse, um pouco agudo. — Meu pai ensinou a todos os filhos. De quem acha que são esses discos? — acrescentou, apontando para os círculos de ferro fino dentro da sacola.

— Se você diz...

— Ah, que foi? Está dizendo que eu não faço o tipo atlético? — Jacinto questionou, fazendo bico.

Apolo ergueu a outra sobrancelha.

— Certo, eu não faço... — o rapaz concluiu por si só, fazendo o outro rir. — Mas isso não quer dizer que sou completamente imprestável!

— Não sei se Talha concordaria com isso...

— Ah, calado... — Jacinto resmungou, embora sorrisse. — Aposto que lanço melhor do que você!

— Aposta o quê? — quis saber o deus cruzando os braços, muito seguro.

— Ora, você pode pedir o que quiser se ganhar... — disse ele, lento e insinuante, dando ombro teatralmente. — eu já escolhi meu prêmio...

— Que seria...? — Apolo insistiu, desconfiado. Jacinto estava sorrindo demais.

O rapaz se aproximou dele, os lábios curvados e dentes expostos.

— Se eu ganhar... — ele começou, descendo as mãos espalmadas pelo tórax musculoso do deus do sol, desfazendo o nó dos seus braços com olhar lascivo. — você vai ter que ficar... — chegou as palmas até o seu abdome e rodeou a sua cintura com elas. — na posição em que, de manhã, eu deixei você me colocar. — então o agarrou pelos quadris, colando seus corpos num no outro. — e quem vai entrar... — disse no seu ouvido, num sussurro lento e libertino. — sou eu.

A cara que Apolo fez teria feito o próprio deus da Ordem sentar para rir.

— Ah... eu... v-você... vai... espera... o quê? – ele balbuciou, chocado.

Jacinto estava rindo, é claro.

— Oh... — o mortal zombou. — é medo isso que vejo no azul indecente dos seus olhos, meu deus todo-poderoso? — quis saber, com um sorriso lupino.

— Não! — o orgulhoso deus exclamou, talvez rápido demais.

— Pois devia... — Jacinto sussurrou sensualmente, mordendo os lábios, enquanto se afastava dele e pegava, na sacola, o primeiro disco. — Porque eu vou acabar com você...

Apolo ficou completamente imóvel, a boca meio aberta, sem saber se ele estava se referindo ao jogo...

... ou a outra coisa.

— Veremos. — foi o que ele disse por fim.

**********

Um pedaço do coração de Eros tinha acabado de morrer.

Uma dor excruciante tomara ao arrombos seu o peito, tal qual fosse cortado por uma lâmina comprida e farpada, banhada num ácido venenoso e frio. Ela espalhou-se por ele como o oxigênio das suas células, ferindo tudo pelo caminho. Aquela dor era catastroficamente maior do que tudo o que ele já havia sentido. Pior do que os esfolados na sua pele, as nódoas rubras na sua carne, o corte ardido da sua boca, o lanho inchado na sua face. Era pior do que as mordidas ferais que abriram caminho entre presas compridas. Era pior do que ter o corpo exposto e o orgulho ferido. Pior do que todos os anos de violência, abuso e medo contínuo.

Aquela dor comprimia lhe o peito e toldava seus sentidos. Viu-se tonto. Nauseado. Dolorosamente perdido. Queria que o pai não o tivesse salvado, que nunca o tivesse visto naquele estado. Machucado, acuado, vencido e humilhado ao pior nível possível.

Arrependeu-se da luta, das injurias, das ameaças amargas. Devia ter se calado, ter aceitado o destino que o seu irmão escolhera para ele, ter se submetido e aguentado toda a dor que isso traria. Assim, talvez, tudo houvesse acabado logo. Ele se fartaria do seu sangue, do seu corpo, da sua dor e o deixaria. Assim, talvez, o senhor da guerra nada veria.

Assim, talvez, o pai não o desprezasse tanto.

Depois da dor, veio a apatia. As lágrimas de medo, raiva e indignação secaram nos seus olhos. O terror e mágoa, tão profundos, sumiram dos seus traços cinzelados e perfeitos, agora tão lisos e neutros como uma pedra no leito de um rio, moldada pelo choque contínuo da água corrente. O Cupido se desprendeu da parede fria, a única testemunha da sua morte em vida, com gestos lentos e impassíveis. Nem um músculo do seu rosto se moveu, insensíveis às pontadas de dor que chegaram todas simultaneamente. As suas asas, brancas e cândidas, se abriram com uma indolência distraída, como se nunca houvessem lhe faltado, o deixando a mercê do seu pesadelo encarnado. Elas bateram surdamente, elevando-o ao ar num movimento grácil, mas completamente mecânico e gelado.

Eros não esperou a mãe. Eros nem pensou nela. Apenas voou, sem traçar nenhum caminho, oscilando pelos ares e nuvens úmidos e frios. Quando viu, estava em casa. Não ouviu as exclamações chocadas e perguntas preocupadas dos seus servos dedicados, nem reagiu as mãos que tentaram pará-lo e cuidá-lo. Apenas foi para a ala de banhos do seu palácio, com passos contínuos e rígidos. E, sem dizer uma palavra ou tirar absolutamente nada, entrou até a cabeça na água fria.

***********

— Você é muito exibido! — ele reclamou, indignado.

— Nem ligo. — o outro disse, tentando ocultar o alívio absoluto. — Eu ganhei!

Isso fez de Jacinto bufar, mostrando-lhe a língua. O rapaz era realmente bom no exercício, mas era difícil competir com uma força divina.

— Mortal atrevido... — Apolo disse, com um sorriso contido. — Sabe o que acontece com quem desafia os deuses?

— Viram bichos? — o rapaz sugeriu, despreocupado. — Pobre Aracne1...

— Eu devia transformá-lo em um que seguisse de discos! — Apolo ameaçou, cutucando o nariz salpicado de sardas dele com o indicador.

— Talvez... — Jacinto gracejou, dando um peteleco no seu dedo. — Mas aí você perderia tudo... isso. — ele disse, exibindo o próprio corpo esguio e flexível, numa risada maliciosa.

— Bom argumento... — Apolo assumiu, descansando a vista nele. — Agora, para evitar novas divergências, eu “cansei”. — ele disse, deixando claro o pretexto ao sentar-se numa pedra plana e pegar o alaúde do rapaz nas mãos.

— É sério isso? — Jacinto quis saber.

— Ouvi uma das cordas levemente desafinada ontem... — explicou, deslizando os dedos pelas linhas retesadas do instrumento e inclinando a cabeça para escutar.

— Sei... — o mortal murmurou, pegando outro disco.

************

Eros estava voando sobre um campo aberto. Os cabelos claros ainda úmidos do banho recente, no qual ele esfregara compulsivamente a pele delicada, ao ponto de deixar coágulos sob a epiderme, tentando arrancar todos os vestígios do irmão mais velho de si. Mas no seu ombro ainda pinçava dores agudas e finas, das cicatrizes que não sairiam dele.

Depois dessa sessão de higiene agressiva beirando a autoflagelação, Eros saíra da banheira e, ainda nu, pingando água perfumada pelos corredores, pegou as roupas encharcadas que ele tirara tardiamente, jogou-as dento de um barril com óleo para lamparinas, e tacou fogo em todas elas.

Deixou o corpo secar ao calor da fogueira que fizera, os olhos pretos brilhando ao reflexo das labaredas altas. Íris negras que, ainda sim, se mantiveram opacas e apáticas, como lascas de ônix fosco e bruto. Quando tudo o que restou foram cinzas poeirentas e carvão queimado, ele se vestiu, pegou o arco, a aljava bicolor, e saiu.

Permitiu que o vento o levasse, flutuando indolente pelas brisas erráticas e correntes quentes, as nuvens deixando impressões úmidas e frescas na sua pele, o cabelo molhado açoitando seu rosto gracilmente. Não se surpreendeu quando avistou Zéfiro na linha do horizonte, todos os ventos do oeste acabam voltando para o seu mestre.

Ele não pareceu notá-lo levitando a metros de distância e Eros aproveitou apara acabar por se ocultar entre as nuvens. Zéfiro era um bom amigo, mas o Cupido estava simplesmente incapacitado de se sociável no momento. Não queria conversar, ter que explicar a flor arroxeada que decorava o alto da sua bochecha ou o lábio inchado e partido. Não queria dizer a verdade e não queria mentir. A única coisa que queria, com uma ânsia intensa e irracional, era fazer mal a si mesmo ou destruir alguma coisa.

Zéfiro estava incrivelmente distraído, ele percebeu ao longe, fitando a vista abaixo com os olhos fixos de um caçador obcecado. A curiosidade tomou o Amor, que também dirigiu a atenção para o campo plano.

Qual não foi a sua surpresa ao encontrar um Apolo indecentemente feliz lá embaixo...

O deus do sol fingia estudar um instrumento de cordas leve que tinha no colo, enquanto assistia a um mortal brincar com o que lhe pareciam discos. A beleza do rapaz era notável, mesmo a aquela distância. Seus cabelos, entre o louro-cinza e o caramelo, caiam em ondas que desciam pela sua nuca e se colavam ao seu rosto atraente, pela fina camada de suor decorrente do exercício. Toda vez que ele lançava uma circunferência relativamente longe, virava-se para ver se deus havia notado, com um ar de adoração nos olhos escuros. E toda vez, Apolo desviava o rosto, apressado, não querendo entregar a sua vigília arrebatada.

Estão apaixonados. Eros concluiu, em um segundo.

Então era aquela vista a qual Zéfiro se prendia, cativado. Realmente adorável... Eros pensou, involuntariamente amargo. Vendo o rival sorrir afetuosamente às costas do menino. Então o seu coração duro e vaidoso finalmente encontrou a euforia do amor correspondido, tio querido. Ele pensou, apertando os dentes. Que bom para você...

“Talvez eu esteja cansado de vê-lo zanzando por aí, carregando minhas armas como se fossem brinquedos! Por que acha que é digno delas, menino insolente?”

As palavras dele, dita entre gritos impensados há tantos anos atrás, ecoaram com uma clareza cristalina e cruel na memória do deus alado.

Você também me despreza, não é mesmo, tio?

“Você é distraído e descuidado, e ainda está fazendo isso errado.” Ele dissera, cuspindo entre os dentes.

“Você é uma vergonha.” O pai concordara, com um rosnado de repulsa.

“Sua concentração é deprimente.” Apolo desdenhara.

“Isso é patético.” Ares acusara.

“Isso foi ridículo.” Apolo zombara.

As vozes deles começaram a se embaralhar na sua mente.

“O problema não é meu. Agora faça de novo.”

“Da próxima vez, defenda-se.”

“Exprime um pouco de vergonha desta sua natureza indecente.”

“...ou ceda.”

“Não me culpe por sua própria incompetência.”

Basta!Eros gritou em pensamentos, cobrindo os ouvidos com as mãos, irracionalmente.

“Garoto.”

“Ei, garoto, estou falando com você!”

Não! Parem!

“Tanta inutilidade não cabia num só...”

“Você poderia ter acertado se não tivesse a concentração de um beija-flor bêbado.”

Por favor...

“Patético...”

“Ridículo...”

“Deprimente...”

“Uma vergonha...”

Por favor, parem...

Lágrimas mudas escorriam livremente pela sua face, enquanto os gritos de desprezo continuavam ininterruptos na sua mente cansada, insensíveis à clemência implorada pela sua voz desesperada e diminuta em sua própria cabeça, e o arrancaram da inercia afetiva em que tinha se isolado. A dor voltou como o rebento de um maremoto, mas não encontrou nada para derrubar. Eros já estava destruído. Arrasado. Quebrado até o último caco pelos irmãos cruéis. Pisado pelo pai insensível. E mortificado pelo rival arrogante.

Ele não fizera mal algum a nenhum deles a princípio, e mesmo assim o humilharam e machucaram e desprezaram sem medida. Por quê? Só por ser quem ele era? Isso merecia tal castigo? O que havia nele que os insultava de maneira tão inaceitável? Era o seu rosto bonito? Eram seus modos amáveis? A sua natureza afetiva? Por que isso o condenava? Por que isso o diminuía? Por que eles não conseguiam amá-lo?

Sim, a sua essência era amor e amar sem medidas. Mas tudo o que sentia agora era dor, descrença e um ódio sem limites.

O que poderia restar do próprio Amor ao saber que não é amado?

Eros pegou uma flecha da aljava sem nem notar isso, a ponta de chumbo apontada para o coração de Jacinto, quase condenando Apolo ao mesmo destino de três séculos e meio atrás. Mas não. Algo dentro dele travou-lhe os dedos. Apolo já tinha pagado além da medida pela sua arrogância e Eros afrouxou a corda do arco. No entanto, isso não diminuiu a antipatia mortífera com que ele olhava o casal enamorado lá embaixo, nem a sua ânsia destrutiva. Era simplesmente irônico demais.

Zéfiro continuava absorto na cena afetiva do campo. O Cupido o encarou com olhos estreitos, uma ideia paliativa e maliciosa se formando em sua mente. Voltou a flecha de penas pretas e chumbo pesado de volta para a aljava e a trocou por uma luminosa e clara seta dourada, a corta retesada e ponta mirada para o Vento do Oeste.

Não queria arrasar Apolo de novo, mas lhe daria uma concorrência. Se o deus do sol realmente amava o mortal por quem seus olhos se perdiam lá embaixo, teria que lutar por ele, teria que merecê-lo. Então assim, talvez, desse o devido valor ao amor que ele tanto desprezara.

A flecha saiu dos seus dedos num assobio tímido e partiu num rompante perfeitamente reto em direção ao alvo. Fez-se invisível no meio do caminho, não atraindo a atenção do seu destino. Mesmo assim, Eros soube o momento exato em que ela atingiu o coração de Zéfiro. Viu seu rosto mudar, o misto de dor e deleite moldando seus traços firmes e todas as suas prioridades mudarem em um segundo, a razão dando lugar a algo muito mais poderoso e desconhecido.

Então esperou, imaginado o momento que o deus do vento não suportaria mais aquela distância e desceria para ter com o mortal querido. Queria saber qual seria a reação do rival convencido ao ter de disputar o seu jovem namorado com outra divindade poderosa. É certo que ele achava que já o tinha na palma da mão, se conhecia bem aquela personalidade orgulhosa obcecada por controle.

Porém, Zéfiro não desceu.

Apenas continuou fitando alienadamente a dupla apaixonada, uma ruga dura se formando muito lentamente no meio das suas sobrancelhas, os lábios de apertando numa linha fina e perigosa, os punhos se fechando até o esbranquiçar das juntas, tremendo levemente.

Eros desfez a expressão de malicia vingativa que tinha no rosto, tomado por um calafrio, como se um espinho de gelo arranhasse sua coluna. Aquela não era, definitivamente, a reação que esperava do amigo.

Os olhos de Zéfiro de tornaram nada mais do que fendas estreitas e odiosas na sua face, o ciúme lhe torcendo as feições numa fúria primitiva. Irracional. E destrutiva. O olhar de curiosidade de transformou em cobiça, depois em desagrado, inveja evidente, indignação fria e, por último, ódio homicida.

Ah não... Eros arregalou os olhos, pressentindo a catástrofe.

No meio do campo verdejante, Jacinto lançou um disco incrivelmente longe, o recorde do dia. E antes mesmo do círculo de ferro completar a sua trajetória, virou-se para ver se tinha os olhos daquele azul maravilhosos atentos em si. Mas Apolo dedilhava distraidamente o alaúde, as pálpebras fechadas e os ouvidos atentos à vibração de uma melodia lenta e triste que ele criava nas suas cordas recém-afinadas. O rapaz suspirou, parado naquele momento, sorrindo sozinho, assistindo o deus da música compor no seu próprio instrumento. Ele não sabia que espécie de sorte tinha para ter o amor daquele ser divino, para ter um olimpiano na sua cama, no seu quadro, no seu coração. Mas não questionou isso. Apenas aceitou aquela benção, com a felicidade ameaçando transbordar pelos seus poros e olhos escuros.

Concentrado no seu amado, amante e deus querido, ele não viu o que estava prestes a acontecer.

A um movimento ínfimo dos dedos de em Zéfiro ciumento e vingativo, o disco lançado não caiu no fim do campo como devia, e sim continuou pelos ares numa trajetória elíptica, deu meia volta, ganhando uma velocidade assombrosa...

E voltou para ele.

— Não! — Eros gritou lá de cima, entre o choque e o desespero. — Meu Zeus, não!

Apolo, compondo no alaúde, não viu o disco.

— Corra! — o Cupido berrou.

Jacinto, namorado o deus distraído, também não viu.

— Mortal estúpido, droga! Corra!

Apenas quando era tarde demais, quando o círculo de ferro assobiou a muitos metros por segundo, já tão perto dele, o rapaz se virou para a vista outra vez.

Ao tempo perfeito do disco acertá-lo em cheio na têmpora esquerda.

Jacinto caiu.

Não, Jacinto desabou.

Como se não tivesse ossos. Como um castelo de cartas soprado pelo vento. Como uma marionete em que lhe cortassem as cordas macias.

— Não... — Eros sussurrou, com novas lágrimas nos olhos escuros.

Apolo abriu as pálpebras ao ouvir um baque estranho sobre a grama espessa.

— Jacinto? — ele perguntou, antes mesmo de ver-lhe estirado molemente pelo chão macio, como uma boneca de pano abandonada pela dona displicente. — JACINTO!

Sangue. Foi a primeira coisa que ele viu ao chegar ao rapaz inconsciente. Sangue rubro e mortal, descendo em cascatas escuras pelos seus cabelos claros e roupas finas, do corte profundo aberto no seu crânio pequeno e frágil. Apolo estava gritando, mas não se ouvia. Seus dedos pressionavam a ferida, tentando estocar a hemorragia, tentando curar o golpe aberto, só tentando...

Os fios escarlates ainda escorriam livremente pelas frestas dos seus dedos. E o osso continuou quebrado e a pele cortada. Sem remendo nem concerto. O deus da medicina só tinha poder sobre os vivos.

Os mortos pertenciam ao submundo.

Apolo jogou a cabeça para trás e urrou.

O som do próprio desespero. Da dor encarnada. Do luto catastrófico. Da agonia absoluta. Ele gritou como um animal ferido. Como um louco completo. Como um deus destruído.

Lá em cima, Eros assistia, tampando os ouvidos e arrancando os cabelos.

— O que foi que eu fiz...

Zéfiro já tinha ido, nem ficara para ver o fim da sua tragédia arquitetada e o Cupido era o único dos culpados no céu infinito.

— Não, não, não, não... — Apolo murmurava freneticamente, apertando o corpo de Jacinto contra o peito, os olhos privados da razão em meio ao desespero. — Não vá... — ele implorou, ninando o rapaz como a uma criança de berço. — Essa não é a sua hora... — seus lábios tremiam, o rosto manchado de sangue vermelho. — Eu ia viver uma vida inteira com você. — disse, tirando os cabelos louro-cinza dele do seu rosto. — E aguentar todas as suas má-criações e atrevimentos. Eu não me importo de verdade... — ele explicou, como se o outro pudesse ouvi-lo. — Eu usaria laranja todo dia se você pedisse. — argumentou, numa suplica. — Eu deixo você ganhar no disco. Ou em qualquer coisa. Faço o que você quiser... Mas não vá... — lágrimas salgadas se misturavam ao vermelho escuro e líquido na sua face. — Por favor... por favor, não vá...

Mas ele já tinha ido.

E, depois de horas abraçado ao seu corpo frio, Apolo finalmente fechou seus olhos castanho-café, embaçados e perdidos.

Então, como se um imã amaldiçoado lhe guiasse o rosto manchado, molhado e destruído, o Sol mirou Eros contra o céu limpo, já sem nuvens que o ocultassem a olhos atentos. E ele soube.

Dos destroços de um amor interrompido, da iminência de uma guerra fria, e do sangue mortal e inocente, vertido sem propósito contra a grama macia...

Nasceu uma flor.

Notas finais
Se eu disse que chorei escrevendo esse capítulo, vocês me perdoam? Porque é verdade. Ah, o que dizer... Os gêmeos continuam merecendo o Tártaro. Juntamente com Ares, filho de uma hápia nojenta e maldita! Podem aproveitar e levar Zéfiro com vocês... Oh Jacinto, você tinha fibra garoto, querendo fazer Apolo de Uke. Que isso menino? kkk. Vamos todos sentir a sua falta, você nos mostrou um lado de Apolo que nós não conhecíamos. Provocador, brincalhão, feliz... Tomara que isso não tenha sido definitivamente tirado dele, como você foi... Então, esse capítulo enorme ficou descente? Ou só virou uma bola de ping pong do mal, indo e voltando sem propósito? Acham que Apolo vai saber lidar com o amor que Dionísio tem para oferecer, depois de passar por tudo isso? Por favor, falem comigo, eu preciso de consolo kkkk. 1 - Aracne: tecelã mortal que desafiou Atena, e no final, foi transformada em uma aranha. Beijos destrutivos e até o próximo capítulo, onde voltaremos ao nosso querido Apolísio.