Bacanal

11 Culpabilidade - Parte 1


Notas iniciais
Desculpa.

Parte 1: O frio das ausências constantes

O que você chama de amor,

Eu chamo de conveniência.

O seu amor é dependência,

E o meu rancor é poesia.

Que não me alimenta

Mas que minha calma sustenta

Seu crime é sua sentença

E culpa minha.

— Banda Alice, “Antes Da Primeira Lágrima”

— Presente –

Dionísio dormia como um bebê.

Não fazia barulho algum, até sua respiração suave exalava muda pelos lábios entreabertos. Uma mãozinha delicada apoiava sua face corada contra o travesseiro, avultando a bochecha macia. O outro braço estava dobrado junto ao corpo despido, mal coberto da cintura para baixo pelos lençóis brancos e usados, e ele apertava inconscientemente o polegar contra o lábio inferior. Os cílios espessos faziam sombras contra as maças do seu rosto, oscilando quando os globos se mexiam por debaixo das pálpebras fechadas. De súbito, ele sorriu, ainda dormindo, esticando a pele vermelha sobre o dígito pequeno por um instante fugaz.

Estava sonhado.

Assistindo-o, Apolo arrancava os cabelos.

Dionísio tinha uma nódoa vermelho-arroxeada do tamanho de uma digital na bochecha esquerda. E outra, um pouco maior, na lateral do queixo liso. Quatro pequenas feitas garganta, várias e várias no pescoço, a maioria acompanhada com meias luas do diâmetro exato das presas de um certo deus, e sabe se lá quantas mais no resto do corpo. Tinha queimaduras também. Independentes do quão o Sol houvesse achado que tentara não inflamá-lo, uma marca abrasada e dolorosamente rubra gritava por atenção na pele sobre a clavícula do menino e outra a imitava na curva do seu ombro diminuto. Arranhões listravam a cútis alva dos seus braços e costas despidos, linhas paralelas, repetidas, escarlates; às vezes ferindo mais do que apenas a primeira camada de pele macia.

Seja gentil com ele. Hermes dissera, com inocência. Sob muitos aspectos, ainda é uma criança.

Mas Apolo não fora gentil.

E ele sabia.

Um brilho incomum atraiu a sua atenção, refletindo fracamente as poucas velas acesas por debaixo dos lençóis finos que cobriam Dionísio. Apolo franziu o cenho para aquele lampejo, confuso. Quando a possibilidade do que aquilo poderia ser ficou clara na sua mente, seus olhos quase não couberam no seu rosto. “Ah, não...”

Apolo mordeu os nós dos dedos até que lhe viessem lágrimas a borda dos cílios, num gesto punitivo. Fechou os olhos, respirando fundo, muito devagar, a culpa farpada presa na base da garganta. Engoliu a seco, tirando as falanges do aperto dos dentes e engatinhou na cama surdamente, o corpo dourado e desnudo luzindo ao fogo escasso, até estar sobre o menino. O perfume de pomos em conserva e madeira adocicada fizeram seus lábios estremecerem. Dionísio não reagiu à troca de pesos do colchão flexível, nem a mão que puxou muito lentamente os lençóis que cobriam seus quadris.

“Por favor, não...” Apolo pedia ao tecido branco entre os seus dedos, que deslizavam para longe dos músculos suaves e desnudos, como se eles pudessem mudar o passado e livrá-lo dos seus crimes.

Não podiam.

Sobre os fios de algodão fino, e entre as coxas alvas e macias do menino, cintilava sangue dourado e ainda líquido. Sangue divino que nunca secava. Icor fresco e molhado, acusando-o mudamente de um doloroso delito.

Que ele cometera gritando de prazer e delírio.

Apolo pulou para fora da cama e se comprimiu contra uma parede lisa, apetando as palmas contra o rosto, deslizando as unhas pela face bronzeada. Lágrimas salgadas deixaram uma trilha molhada na sua pele. Um buraco no seu peito o puxava para baixo e ele foi deslizando na pedra plana até o chão, parecendo um filhote açoitado, nu e arrasado.

Eu o queimei.” O Sol disse a si mesmo, lembrando-se do primeiro beijo que aqueles lábios vermelhos roubaram dos seus. Creio que eu tenha assumido o risco. Ele dissera, mas estava errado. Não tinha a mínima ideia do risco que corria.

Eu o magoei.” Continuou, promotor de si mesmo. A imagem do menino na torre, abrindo seu coração com a facilidade de quem abre a porta para um ente querido na memória. Não é como se você se importasse. Ele murmurara, tirando seus olhos para a vista.

Eu o marquei.” E as nódoas brilhavam vermelhas contra sua pele branca.

Eu o tomei.” A roupa preta e rica estava dobrada desordenadamente contra o mármore claro do chão.

Eu o feri...” Dionísio se mexeu na cama, ficando de costas sobre o colchão, as pernas nuas passando por cima dos lençóis que antes o vestiam, espalhando icor e sêmen pelo leito macio.

Apolo se sentia podre. Devasso. Cruel. Nem um mortal seria tão bárbaro. Nem um animal seria tão irracional.

Ele se levantou cambaleante, afastando-se do irmão e amante, que adormecido, não tinha ideia da culpa que o oprimia. Sem tirar os olhos das suas curvas, contando e recontando os carimbos de dente e manchas de sangue sob e sobre a pele suave, Apolo tropeçou nas próprias roupas, a túnica branca descartada com tanto ímpeto. O deus a pegou do chão, ocupando os dedos em esticar o tecido. Os dígitos pararam por cima de uma aspereza acidentada. Ele trouxe a roupa para perto do rosto, estudando o estrago dos fios. Na parte que devia cobri-lhe o peito, meias luas pequeninas rasgaram o pano fino.

Os dentes de Dionísio.

Os dedos que seguravam a prova tremeram. Que dor ele sentira a pondo de cerrar as presas com força o suficiente para transpassar o tecido?

Perto da amostra do seu delito, uma umidade se fez notar por sob os seus dedos. Apolo levou o pano aos lábios, esperando sentir o gosto adocicado da boca de Dionísio. Esperança tola e sem sentido. O líquido sobre os seus lábios era salgado. Não fora saliva que o pequeno deixara no seu traje caro.

Foram lágrimas.

Apolo apertou a túnica contra o peito por quase um minuto. Então a vestiu. Como um homem que veste a própria mortalha. Como um penitente vestiria seu saco de pecado. Como um fiel culpado adornaria o seu sacrifício.

Ele poderia ter-lhe tirado a dor. Poderia tê-lo poupado. Poderia ter tido cuidado. Poderia ter se contido.

Mas não fizera nada disso. Deixara-o sofrer no aperto dos seus braços, enquanto, alucinado, tirava prazer daquilo. Deixara-o chorar de dor sobre seu peito coberto. Deixa-o gritar contra seus lábios comprimidos. Deixara-o sangrar pelo seu desejo destrutivo.

“Eu não o mereço.” Apolo decretou. “Ele me beijou no ímpeto de uma criança movida por suas paixões, e eu o queimei. Ele aproximou-se de mim na afeição ingênua e pura que nascera dos seus sonhos e eu o rejeitei. Ele me convidou com a humildade de um servo reverente e eu menosprezei. Ele me acompanhou com a submissão de uma gueixa e a paixão de louco, num momento de fragilidade evidente, e eu me aproveitei. Ele me seguiu como um cordeiro dócil, entregou-se a mim com a confiança de um fiel devoto e eu o machuquei. Não o mereço.” O Sol repetiu, cravando as palavras na própria cabeça. “Não sou digno que nada além da sua raiva e do seu desprezo.”

E a raiva e o desprezo viriam, ele sabia. Quando Dionísio se libertasse do sono indolente no qual Hipnos suavemente o prendia e testemunhasse o estrago que o deus faminto lhe causara, tão irracional e egoísta. Quando visse a si mesmo nu, marcado e ferido. Quando se desse conta do erro terrível que cometera apenas em pensar em entregar-se ao irmão, que usara e abusara do seu corpo frágil e macio, sem paciência, pena ou mesmo carinho. Então ele o odiaria e desprezaria, como ele de fato merecia.

Apolo não queria estar ali para ver isso.

*

— Isso é absolutamente ridículo. — disse com aquela voz fria de lâmina lisa.

— Do que está falando? Faz todo o sentido! — rebateu o irmão energeticamente.

— Não, Eros, não faz. — respondeu em tom de conclusão, que era difícil de notar já que ele falava sem nenhuma inflexão, o timbre tão uniforme quanto uma chama de aço polido.

— Você é um chato! — Eros exclamou. — Cha-to!

— Isso não é um argumento válido. — foi o que Anteros disse, sem mover um único músculo do rosto bonito.

Estavam nessa discussão a pelo menos vinte minutos. Eros normalmente conseguia convencer qualquer um com a dose certa de charme e malícia, e quando isso raramente falhava, sua insistência vencia pelo cansaço. Mas Anteros era completamente imune ao seu encanto e absolutamente incansável.

Irritante ao extremo, em termos resumidos.

— Desisto de você... — o deus da paixão exclamou, com um suspiro zangado. — Fique para sempre longe da luz da razão!

Alguém com um mínimo de emoção no corpo teria revirado os olhos, mas Anteros apenas piscou algumas vezes, mais demoradamente que o normal, os cílios pretos e assombrosamente compridos batendo devagar sobre os olhos que eram praticamente apenas pupilas, já que suas íris tinham um raro tom claro e translúcido como a neblina, quase se camuflando no branco a sua volta.

— Creio que não preciso elucidar o quando o que você acabou de dizer foge da lógica básica. — o deus da ordem disse, pausado e totalmente a austero. Se os seres mecânicos de Hefesto falassem, seria naquela inflexão uniforme e fria.

— Sabe de uma coisa? Cansei de falar com você! — Eros sibilou para ele, se virando na cadeira.

— Fico muito agradecido. — foi o que ele respondeu.

— Filho da...

— Se pretende difamar a minha mãe, insisto para que se recorde do nosso grau de parentesco e pense em uma injuria mais inteligente.

— Eu te odeio. — Eros concluiu, vencido.

O canto esquerdo dos lábios cheios, mas pálidos de Anteros, se moveu minimamente. Não era um sorriso. Era a sombra da impressão do reflexo da imagem de um possível e ínfimo sorriso. Na verdade, Eros nunca vira o irmão mais novo sorrir uma única vez na vida. Nem chorar, mostrar os dentes, fazer careta ou qualquer outra expressão que demostrasse o mínimo de sentimento e afetação. O rosto do deus da ordem sempre oscilava entre o nada absoluto, a concentração séria e o tédio contido.

— Não, Eros, você não me odeia. — ele disse calmamente, tomando um gole lento do seu chá.

O Cupido apenas bufou para ele. Fato era, e ambos sabiam, que Eros amava o irmão mais novo de uma jeito furioso.

Fora ele que o tirara da solidão absoluta da sua infância. Ele que sempre o aceitara como era, sem tentar mudar ou tirar o mínimo de vantagem disso. Ele que o ensinara que o mal que o faziam não era sua culpa, que a sua beleza não era uma maldição e sua amabilidade não era um defeito. Ele que o deixara dormir na sua cama quando, tarde da noite, o deus da paixão corria para o seu quarto chorando, com sonhos terríveis; e o consolava com tapinhas totalmente desajeitados e mecânicos, mas bem intencionados, nas costas macias. Ele que mandara seus pesadelos embora, simplesmente ordenando isso, com a sua voz lisa e calma, enquanto ainda descobria seus poderes. Ele que se metera entre ele e os outros irmãos em quase todas as poucas vezes que tiveram o terrível desprazer de se encontrarem. Ele que o convencera a crescer, mudando as suas formas em harmonia com as dele, como se fossem gêmeos separados pelos anos e pelas cores, para que ele nunca se sentisse sozinho de novo.

Eles eram parecidos o suficiente para se passarem por gêmeos de fato. Herdaram os mesmos traços cinzelados, delicados e indecentemente belos da deusa do amor: os malares altos e angulares, o nariz pequeno e grácil, a boca cheia e os cabelos ondulados; também tinham exatamente a mesma altura e um porte físico quase idêntico. O que os diferenciava salientemente eram os seus tons contrastantes.

Onde Eros era louro, Anteros era moreno; no lugar das íris pretíssimas, olhos claros como névoa em dia de chuva; em vez de pele branca como nuvens macias, cútis amorenada; onde os lábios de um eram rosados e tentadores, os do outro eram pálidos e frios. Anteros também era mortalmente belo, mas de uma maneira etérea e distante, a mesma beleza rígida e platônica de uma estátua de mármore renascentista. Enquanto Eros exalava carnalidade e materialidade física, o irmão emitia uma impressão de impessoalidade e transcendência. Onde Eros parecia macio e convidativo ao toque alheio, Anteros incitava ao afastamento racional e prudente. Onde Eros era a mais pura emoção, calor e volúpia, Anteros era razão, frieza e estabilidade. Onde ele cheirava à baunilha dos amores adocicados e pimenta da sexualidade primitiva, o irmão tinha o aroma sóbrio de sândalo e fresco de hortelã.

Opostos complementares em perfeito equilíbrio.” Eros pensou, tentando não fazer careta para si mesmo, mexendo distraidamente na colher do seu chá.

Estava com um humor horroroso. Ou a noite anterior havia sido uma completa loucura regada à dança desvairava, sexo exaustivo e álcool muito além dos limites da sensatez, ou ele fora atropelado por uma carruagem vinda do Tártaro a uma velocidade absurda e perdera parte da memória recente. Fora que havia acordado completamente afogado em membros nus de pelo menos quatro desconhecidos, com uma dor de cabeça terrível, o cabelo completamente revoltado e a vontade inegável de colocar toda a ultima semana de alimento para fora.

Isso não era exatamente raro para ele, o deus da paixão não tinha medo de excessos. Mas tinha a sorte de ser o melhor amigo do deus das bebidas, que curava a suas ressacas com nada mais do que uns beijos lentos.

(Ele provavelmente não precisava beijá-lo para livrá-lo dos efeitos nauseantes do pós-álcool, um simples toque devia bastar. Mas... quem era Eros para questionar a ordem das coisas?).

O problema surgira quando: depois de vomitar por um quarto de hora e procurar por todos os cantos do Palácio do Vinho, não encontrou Dionísio em lugar nenhum.

Então o deus do amor, desgrenhado e dolorido, voltara para o próprio palácio, pensando em várias maneiras agradáveis e pouco pudicas de cobrar de Dionísio aquela ausência não explicada; e agora se contentava em aliviar as dores e náuseas com chá de camomila e tentar descontar a irritação no irmão.

Não que ele facilitasse...

— Você podia concordar comigo só uma vez! — ele reclamou, manhoso como um adolescente contrariado. — Só uma única e mísera veizinha!

— Isso é absolutamente fácil de ser concretizado. — Anteros disse, pousando a xícara no pires.

— O que eu preciso fazer?

— Esteja certo. — respondeu simplesmente.

Eros quis desenhar no lindo rosto dele com as unhas! Apertando os lábios numa ira aborrecida.

— E então? — o deus da ordem insistiu, piscando devagar.

— Eu ainda te odeio. — ele resmungou, apertando as têmporas doloridas. — Agora me dê cinco minutos para pensar numa resposta inteligente...

— Tem certeza de que é o suficiente? — Anteros perguntou, numa uniformidade desinteressada que contradizia a provocação evidente.

Quando Eros estava a um passo de jogar chá quente na sua cara, um dos servos do palácio o chamou, anunciando que Apolo estava no castelo e desejava vê-lo.

— Hm... — Eros murmurou depois de mandar o servo de volta para deixar o Sol entrar. – Isso é uma surpresa!

— Apolo alguma vez o visitou sem a ocorrência de um convite prévio? — o deus da ordem perguntou, colocando a porcelana na mesa, sabendo das diferenças entre o deus do sol e seu irmão.

— Nunca. — o deus da paixão respondeu, franzindo o cenho alvo.

— Tem alguma ideia do motivo desta incursão inesperada? – ele continuou.

— Nenhuma. — Eros disse. Mas então, um estalo de possível entendimento ecoou na sua mente dolorida. Afinal, Dionísio tinha sumido... — Há não ser que...

Não pode terminar a sua frase por que, segundos depois, Apolo entrou no recinto e o pegou pelo pescoço.

**

Dionísio acordou pelo frio.

Não que fizesse frio no Palácio da Luz. Nunca fazia. Mas aquele era um frio diferente. Não o da ausência de calor, como a maioria os outros frios, mas o da ausência apenas. Ausência de um corpo quente exalando ar morno na superfície da sua pele exposta. Ausência de um perfume másculo e, ainda sim, levemente adocicado; consistente, embora delicado, como se quisesse ser forte, mas temesse a arrogância de tomar as narinas sensíveis a sua volta. Ausência de um coração ecoando batidas ritmadas e melódicas de uma canção que lhe embalasse distraidamente o sono tranquilo.

Dionísio acordou assim, encolhendo levemente o corpo despido, liberando um suspiro tremido e batendo repetidamente os cílios compridos. A pouca luz não ofendeu as suas pupilas dilatadas e ele abriu por completo os imensos olhos verde-escuros.

— Apolo?

A pergunta ecoou tímida e solitária pelo quarto dourado. Um gemido mínimo e involuntário escapou pelos seus lábios avermelhados ao se deparar com toda superfície branca e vazia da cama ao seu lado. Sem pensar no porquê disso, Dionísio simplesmente rolou para aquele lado do leito macio, fechando os olhos e abrindo um sorriso quando o aroma e temperatura que Apolo deixara ali o envolveram por completo.

— Ainda está quentinho... — ele murmurou para ninguém em específico, se enroscando nos lençóis mornos e perfumados como um gatinho.

Ficou naquele bolo de tecido cálido por muito tempo. Até que lhe parecesse fresco o contato, e seu próprio perfume doce e amadeirado encobrisse o do outro. Só então emergiu dos fios de algodão trançado, os cabelos em cachos castanhos adornando sua cabeça como uma coroa rebelde. Ele se sentou na cama com um bico feito nos lábios, esperando as pontadas doloridas que as noites de sexo traziam consigo. E ergueu as sobrancelhas escuras, muito surpreso, quando não sentiu nada disso. Pensava que acordaria cansado, ainda carente da energia que a sua paixão havia lhe cobrado. Mas estava completamente acordado e disposto, tal qual houvesse dormido por dias. Nada no seu corpo doía, e estava começando a se tornar difícil ficar parado.

O deus do vinho se desenlaçou dos lençóis, que o cobriam como um casulo, pronto para pular para fora da cama, mas parou ao se sentir estranhamente molhado.

— Oh... — foi tudo o que saiu dos seus lábios.

Então ele havia sangrado um pouco. Nenhuma surpresa, por acaso. Apolo era grande, forte, e estava faminto. E nenhum dos dois havia sido um exemplo de paciência. De alguma forma, ele já esperava por isso. Assim, Dionísio simplesmente deu ombros para a evidência cintilante e dourada entre as suas coxas. Embora franzisse o cenho macio para o resto do seu corpo.

Sim, ele ainda sentia frio. O frio das ausências constantes. Ausência da dor amena que serviria como lembrança da deliciosa presença do amante dentro de si. Ausência das marcas que deviam adornar a superfície sua pele branca, mapeando todos os caminhos pelos quais ele o tinha provado. E quando não encontrou nenhuma delas, Dionísio se entristeceu.

— Não entendo... — ele murmurou, esquadrinhando a cútis exposta dos seus braços e peito descoberto, a procura das nódoas que o outro devia ter lhe deixado. Quando não encontrou nada ali, levantou-se às pressas, totalmente inconformado, e pôs-se a estudar minunciosamente todos os centímetros da sua própria pele no espelho quadrado gigantesco numa das paredes do quarto.

Seus ombros delicados arriaram quando, mesmo depois de dar voltas e mais voltas, torcendo e contorcendo os membros e músculos nus, não encontrou sequer uma única impressão arroxeada de Apolo no seu corpo.

— Ele me curou... — deduziu.

Estava imerso em sentimentos divididos. Percebendo o cuidado que o deus da medicina tivera ao livrá-lo da dor, a preocupação que o outro tinha com o seu conforto, ele acabou sorrindo para si mesmo, sentindo-se embalado por um cobertor de acalento. Mas foi um sorriso triste. Uma parte sua não conseguia deixar de pensar que ele havia lhe tirado algo. Algo importante. E isso lhe faria uma falta doída. Muitos mais do que a impressão das presas dele na sua pele ou dos dedos nos seus músculos.

Afinal, Dionísio não tinha medo das dores que viam com prazer, nem evitava as marcas de luxúria.

Dionísio... gostava delas...

Alguém bateu na porta do quarto, tímida e educadamente.

— Pode entrar. — Dionísio disse, quase que por reflexo.

Aurora entrou no quarto com olhos baixos e reverentes.

— Bom dia, senhor Dio... ah! — ela parou, se virando imediatamente para uma das paredes lisas do recinto, suas bochechas adquirindo um tom furioso de rosa avermelhado.

— Oh! — Dionísio exclamou, ao lembrar que continuava nu como viera ao mundo. — Minhas sinceras desculpas! — ele pediu rindo, embora não tivesse o menor instinto de se cobrir. — Eros puxaria a minha orelha por isso... — ele comentou distraído, pondo as mãozinhas nos quadris despidos, lembrando-se de como o amigo presava a boa educação. Baco era um deus da plebe, pouco se importava com status ou o preço das vestimentas. Para ele, o patrono das orgias, as roupas só ser serviam tirar... — a verdade é que eu não faço a menor ideia de onde está a minha roupa...

Aurora arriscou um olhar constrangido para o pequeno e despido deus do vinho e o encontrou vasculhando o chão do quarto, completamente desinibido quando a própria nudez.

— Aqui, senhor... — ela disse, estendendo a túnica preta que encontrara enrolada sem jeito perto dos seus pés, os olhos dourados presos no chão.

— Ah, obrigado! — ele exclamou, como se ela tivesse feito algo extraordinário. — Você é muito eficiente! — acrescentou, metendo a roupa escura pela cabeça, pensando em seus servos sempre bêbados e suas bacárias atrapalhadas.

Aurora o ajudou, passando-lhe a peça pelos braços, por puro instinto, estranhando não ter que ficar na ponta dos pés para fazer isso.

— Melhor? — o menino perguntou para ela, depois de acabar de ajeitar a roupa preta em volta do corpo diminuto, com um sorriso largo e travesso.

— Sim, senhor... — ela respondeu e, sem saber por que, sorriu de volta para ele.

***

— Solte-o.

O timbre gélido e rígido de Anteros pareceu criar eco nas paredes do Palácio da Paixão.

Os dedos de Apolo tremeram em volta da garganta do deus do amor, que estava pendurado no ar, mas ele não soltou. Em vez disso, mostrou os dentes, numa fúria homicida.

Anteros entrou na sua frente, ocupando a visão que tinha de um Eros perto de desmaiar pelo aperto dos seus dígitos. As pupilas do deus da ordem estavam dilatadas, tomando quase tudo das suas íris claras. Este era o único indicio da sua ira fria, já que seu tom continuou perfeitamente calmo e desapaixonado quando repetiu.

— Eu disse: solte-o.

O braço inteiro de Apolo estremeceu, os músculos se contraindo e afrouxando contra a sua vontade férrea. Os seus dedos se abriram de rompante e Eros escorregou para o chão, batendo com tudo ambos os joelhos no piso quadriculado.

Apolo se afastou a passos rápidos, segurando o braço desobediente contra o corpo, que ainda vibrava numa friagem dolorida.

Era este o poder do temido deus da ordem: ordenar e ser obedecido.

Anteros deu as costas ele, como se houvesse deixado de existir a partir daquele momento, e se ajoelhou a frente do irmão, que tentava recuperar a respiração em ofegos doídos, a cor voltando aos poucos nos seus lábios.

— Você está bem? — ele perguntou muito baixo, no que Eros assentiu desajeitadamente, depois de beber uma quantidade suficiente de ar, ainda ofegando de uma maneira que quase doía ouvir.

Mesmo assim, Anteros afastou os cabelos louros do irmão do seu pescoço e o examinou cuidadosamente, contando o sua frequência cardíaca e medindo a sua pressão, com a eficiência distraída de um enfermeiro treinado. O coração dele estava acelerado, e a pressão, um pouco acima no normal. O deus da ordem fixou os assustadores olhos translúcidos nas nódoas que começaram a se formar na pele branca da garganta de Eros, por um tempo inquietante antes de dizer, ainda absolutamente plácido e frio.

— Você machucou meu irmão.

Apolo resistiu à vontade instintiva e prudente de se colocar à uma distância segura dele, engolindo a seco. Anteros já era assustador sem nenhum motivo para tentar sê-lo.

— Eros e eu temos assuntos não resolvidos, e nenhum deles lhe dizem respeito. Portanto, não se meta. — o Sol sibilou, entre os dentes, a raiva nublando seus impulsos de autoproteção.

Anteros se ergueu do chão trazendo Eros, com muito cuidado, junto. Depois se virou para Apolo, lentamente.

Muito, muito lentamente.

— Você machucou meu irmão. — ele repetiu, exatamente no mesmo tom da primeira vez, mas agora, olhando petrificadamente no fundo dos olhos de Apolo. — Você não devia ter feito isso.

****

— Isso é... bom! — ele exclamou, olhando para a taça cheia como se tivesse material radioativo dentro dela. — Surpreendentemente bom!

— O senhor nunca tomou leite com mel? — ela perguntou, sem conseguir disfarçar o choque.

— Não que eu me recorde, não costumo tomar nada além de vinho há muitos anos. — Dionísio explicou, girando o copo na mão e assistindo o líquido branco dançar lá dentro, com a concentração de quem observa o segredo das galáxias. — Mas não garanto, tenho algumas memórias confusas...

— Nadinha? — Aurora insistiu, erguendo ambas as sobrancelhas douradas.

O menino parou de estudar a bebida nova e fez um biquinho pensativo, apoiando o queixo pequeno na mão.

— Ah! — exclamou, os olhos verdes brilhando e disse com ares de descoberta pasma: — Ás vezes eu tomo água!

Aurora riu.

A última hora inteira fora quase uma fenda quântica no espaço-tempo do universo dela, nunca tinha conhecido ninguém como o pequeno deus do vinho. Primeiro havia a sua áurea languida, embriagante e entorpecente, que atingiu o seu corpo como nada jamais tinha feito antes disso. Além do seu cheiro maravilhoso de madeira antiga e licor de frutas, com um toque seco de folhas aromáticas e alcoólico de vinho tinto. Quando se viu, estava lhe falando sem nada daquela reverência rígida já natural aos seus gestos servis, deixando de conter a emoções nas expressões do rosto e fazendo perguntas com uma liberdade que nunca tivera. A única coisa a que ainda insistia em resistir, cada vez com mais dificuldade, era a vontade feral de apertar as bochechas dele até tatuar seus dedos naquela pele infante e adoravelmente corada.

Depois de Dionísio ter ficado minimamente vestido outra vez, ambos perceberam que a sua túnica estava absolutamente inutilizável, suja de vinho seco, suor e substâncias menos inocentes. Então a serva se oferecera para preparar-lhe um banho e encontrar outra coisa que ele pudesse vestir. Dionísio não se banhou de fato, apenas limpou o sangue dourado nas suas coxas e lavou o rosto. Apolo já havia lhe tirado todas as impressões visíveis da sua noite de volúpia e o deixado acordar sozinho. Mas o deus das orgias ainda sentia o cheiro dele na sua pele, o gosto dele na sua boca e não foi capaz de abrir mão disso. Não ainda. Seria quase como se nada tivesse acontecido e isso era absolutamente impensável para ele.

Então Aurora o vestiu com um chiton azul-bebê nunca usado pelo dono original, o próprio deus do sol, que ela tivera que cortar para se adequar minimamente as formas graciosas e pequenas do deus do vinho. E mesmo assim, o tecido quase passava dos seus joelhos delicados. Ele provavelmente nunca estivera tão coberto na vida...

Depois disso, a serva se ocupara em lhe preparar algo para comer. Quando perguntou do que ele gostava, o menino caiu num silêncio pensativo.

— Não consegue pensar em algo que goste, senhor? — ela perguntou, atrevidamente rendida a aquela áurea de irreverência.

— Não consigo pensar em algo que eu não goste. — ele respondeu, apertando o polegar contra o lábio inferior.

Aquela foi a primeira de muitas vezes em que ela riu dele naquele dia.

— Que bom que o agradou. — a serva disse, olhando-o solver o copo inteiro com um prazer infantilmente genuíno. — É o que o meu senhor mais gosta de beber.

Dionísio largou o recipiente, imediatamente se fixando no discurso da serva ante a nova informação interessante.

— Apolo gosta de mel? — ele perguntou, inclinando a cabeça para o lado esquerdo, como o filhote de um felino.

“É tão fofinho.” Aurora pensou. “Quase não consigo não tocá-lo, apertar meus dedos na sua pele macia.” Ela se perguntou então se aquele era o efeito que ele tinha sobre o seu senhor. Se sim, seria capaz de explicar muita coisa...

— Sim, gosta muito. — ela respondeu, satisfazendo a curiosidade inocente do menino.

— Hm... — Dionísio murmurou, olhando para o fundo do seu copo vazio. Então, sorriu. — É claro que gosta...

Foi a vez de Aurora dar voz a sua curiosidade.

— Por que diz isso, senhor?

Dionísio olhou para ela, ainda com aquele sorriso distante e pensativo.

— Ele tem cheiro de mel. — explicou, com um afeto tão intenso nas palavras que Aurora quase pode cortá-lo com uma faca de mesa e passá-lo no pão. — Mel e canela. — acrescentou, distraidamente. — Mel, canela e cereais sobre uma toalha de piquenique num campo aberto e ensolarado de grama recém-aparada! — concluiu, finalmente satisfeito com as próprias palavras.

Aurora apenas olhou para ele, por um longo momento.

— Senhor Dionísio, imploro que me perdoe à ousadia, mas posso lhe fazer uma pergunta indiscreta?

— Eros me ensinou a gostar de perguntas indiscretas! — Dionísio exclamou, com um sorriso comprido e felino. — Mas vai ter que me dar outro desse! — disse, estendendo o copo vazio para ela.

Aurora o serviu com prazer.

— E então? — o menino perguntou, depois de tomar um golão da bebida adoçada.

Depois que serva conseguiu resistir à vontade de rir do bigodinho de leite que ficou sobre os lábios dele e limpá-lo cuidadosamente com um pano fino, perguntou:

— O que... exatamente, o senhor sente... pelo meu amo...? — ela custou a dizer, a timidez quase sumindo com a voz ao longo da frase.

Dionísio piscou os olhos imensos para ela, um sorriso lento e contagiante se abrindo por entre seus lábios vermelhos.

— Eu gosto dele. — o menino disse, inclinando a cabeça para o lado direito. — Eu gosto muito, muito dele... — continuou, pressionando o polegar contra o lábio inferior, pensativamente. — Gosto mais dele do que gosto de morangos! — apontou com seriedade. — E eu amo morangos, então... — ficou meio minuto calado antes de concluir, simplesmente. — Acho que amo ele também!

Aurora achou que fosse chorar.

*****

— Anteros, não! — Eros pediu, segurando o irmão pelo ombro.

O deus da ordem se virou para como uma cobra. Anteros detestava ser tocado e Eros sabia disso. Tirou a mão dele devagar, certo de que tinha sua atenção.

— Eu não sei o que deu nele. — disse ao irmão, ignorando completamente que Apolo também estava ouvindo. — Mas tenho certeza de que pode ser resolvido com uma conversapacífica. — afirmou, lançando um olhar duro ao deus do sol.

O que esses machos alfa tem contra o meu pescoço?” Perguntou em pensamentos, resistindo a ânsia instintiva de massagear a garganta dolorida. Apolo o havia machucado de verdade e estava difícil falar, como se tivesse engolido uma lixa grossa. Mas não precisava demonstrar isso agora e atiçar ainda mais fúria fria do irmão. Anteros podia ter os mesmos traços delicados e estatura mediana que levava os outros a subestimarem ambos, mas não se enganem. O deus da ordem era extremamente perigoso. A até mesmo os três grandes do Olimpo respeitavam o seu poder. E Eros sabia que, se não acalmasse o irmão, aquilo terminaria em sangue.

— Deixe que conversemos, por favor... — o Amor pediu. — a sós...

Anteros apenas olhou para ele, por sessenta longos segundos.

— Você ficou louco? — a Ordem perguntou, com a mesma calma desinteressada que perguntaria “Quer mais açúcar no seu chá?”.

— Anteros...

— Ele machucou você. — disse, com aquele tom de conclusão.

— Eu sei. — Eros respondeu, deixando um suspiro lento escapar antes de mirar Apolo atrás do irmão. — Nós fazemos isso um com o outro... — declarou, com uma amargura pesarosa estranha ao seu timbre macio. — Mas não precisa mais ser assim. E ele sabe.

Apolo apertou os lábios e os dentes, desviando os olhos dele.

— Irmão, por favor. — Eros insistiu, fazendo da voz nada mais do que um sussurro. — Confie em mim, como eu confio em você...

E outro minuto se passou, com os filhos de Afrodite apenas fitando um ao outro, num diálogo mudo de írises e pupilas.

— Tem certeza? — a Ordem perguntou finalmente, os olhos claros duros.

— Sim. — a Paixão respondeu, imitando o seu tom seguro.

— Que seja. — Anteros disse por fim, ainda fitando o irmão mais velho. — Confiarei no seu julgamento desta vez. Não seja inocente em acreditar que o farei de novo se estiver errado. — com isso simplesmente deu as costas ao Cupido, e marchou a passos rígidos, mas elegantes, para a saída.

No entanto, ao passar próximo a Apolo, parou num rompante sólido ao seu lado.

— Eu estarei na porta. — ele disse, devagar. — Cometa o lamentável descuido de sequer tocar no meu irmão outra vez e farei com que arranque os próprios olhos.

Dito isso, saiu do recinto sem mais nenhuma palavra.

Algo dentro de Apolo quis estremecer. O pior daquilo não eram as palavras em si. O que gelava a espinha, e sangue, era a total ausência do tom de ameaça. Anteros não o estava ameaçando.

Estava atestando um fato.

— Muito bem! — Eros exclamou, finalmente podendo por uma mão na garganta machucada, logo ao lado das marcas de dente que Deimos deixara na sua pele para sempre. Com a outra, deu um tapa na mesa de madeira que fez as xícaras pularem com violência. — Agora que livramos o meu lindo tapete persa de um inconveniente banho de icor, me diga: — ele sibilou, tremendo de raiva. — por todas as almas do Tártaro... O QUE RAIOS FOI ISSO?!

Notas finais
Apolo, não dá mais para te defender, você é burro. Dionísio, meu lindo, você vai acabar me matando com um ataque kawaii. Mas, por favor, continue assim! Eros, que fase, jovem... que fase... Vocês, meu amores, o que acharam de Anteros? Ps:. para evitar os capítulos quilométricos e exaustivos, vou dividir este em duas partes, como fiz com o anterior. O subtítulo da continuação será "Sexo e uva". Ps 2:. as desculpas nas notas iniciais não eram apenas pelo cap angustiante, mas também pelo frio da minha ausência constante kkk. Semana passada meu not foi infectado por um vírus ferrado, e eu não conseguia fazer nada que envolvesse internet. E tive que esperar um tempão para ele voltar do conserto, e só aí pude voltar a escrever. Então, me desculpem mesmo... Beijos de mel, e até a parte 2.