Meus dias entraram em uma rotina. Acordo cedo, vou para a aula, finjo que estou de bem com a Mari, mas evito ficar com ela, ou conversar. E evito – e ignoro – o Gustavo completamente. Finjo que não estou magoada com a minha ex-melhor amiga, e que eles não ficaram – o que ainda me dá náuseas. Saio da escola e despisto a mais nova amizade colorida do colégio e me encontro com o Lucca.

Descobri que ele tem 19 anos, e que divide o apartamento com o amigo. Ele não faz faculdade, mas está trabalhando, adivinha onde, na padaria do pão de queijo muito bom.

– Bu.

Pulo de susto e me viro para ver o Lucca rindo da minha cara.

– Seu maluco, o que você tá fazendo aqui na porta do meu colégio?

– Ah, meu trabalho tava parado demais, então falei que estava passando mal e vim te visitar. Quer ver um filme lá em casa? – olho um pouco desconfiada para ele. Tudo bem que já nos vemos há um mês, mais ou menos, mas ir pra casa dele já é meio intimo demais.

– Rebeca, eu posso falar com você? – escuto o Gustavo me chamando. Ele tá com uma postura meio dura, como se estivesse com dor e não quisesse que ninguém percebesse.

Olho para o Lucas, que teve que me aturar dias resmungando sobre o que aconteceu entre eu, o Gustavo e a Mari. Ele faz que sim com a cabeça. Meio perplexa, dou de ombros para o Gustavo e digo que tudo bem.

Eu quero ver só o que ele vai falar, estamos há um mês sem fazemos nenhuma brincadeira um com o outro.

– Já volto, Lucca.

Sigo o Gustavo até o outro lado do colégio, e encontro a Marina.

– O que vocês querem falar comigo? Eu tenho um compromisso hoje.

– Ah, sim, um compromisso com aquele filho da puta metido a besta que só quer sexo?

Reviro os olhos. O Gustavo é tão chato, o Lucca não quer me foder, tenho certeza.

– O que vocês querem?

– Saber por que a minha melhor amiga parou de falar comigo.

– Ah, como se você não soubesse o motivo. Vocês dois na verdade.

Os dois fazem cara de quem não entende nada. Reviro os olhos, bufo, tento me acalmar.

– Pera aí, o que aconteceu naquele dia? – a Mari pergunta.

– Quer saber, quando decidirem parar de mentir, me chamem para conversar. – viro as costas e começo a andar, mas o imbecil do Gustavo segura o meu braço com força.

– Olha só, cocaína, eu não aguento mais essa garota no meu ouvido resmungando sobre o quão grossa e fria você está com ela. Ou vocês se entendem por bem ou por mal.

Reviro os olhos.

– Bem, que tal antes de ficar todo putinho comigo, vocês dois não tentem se lembrar do que aconteceu naquele dia? Vocês dois fizeram uma merda incrível no meu quarto, e eu não aguento mais isso. Vão se foder, ok? – eu estou praticamente berrando com eles, e sinto que vou começar a chorar. Tenho que sair daqui o mais rápido possível.

– Mas eu não lembro! – escuto a Mari resmungando, mas ignoro e caminho até o Lucas o mais rápido possível. Desta vez o Gustavo está perplexo demais com a minha explosão para fazer alguma brincadeirinha. Ou me segurar.

– Lucca, sim, eu gostaria de ir ver um filme com você.

Ele sorri e olha para atrás de mim, onde imagino que esteja o Gustavo.

– Vai se apaixonar assim, Lucca.

– Nunca. Eu gosto de bucetas.

Rio com a cara de safado que ele fez. Mas também fico meio envergonhada pelo jeito que seu olhar desceu para meus peitos – que nem são grandes.

– Pervertido. – murmuro revirando os olhos e ele ri.

Caminhamos até a casa dele, eu olhando para o asfalto, andando no meio fio, me equilibrando com a ponta dos pés. Ele apenas rindo, enquanto escuta alguma musica em seu celular.

– Se você cair, eu vou rir de você. – ele fala pela centésima vez.

– Mas eu gosto de andar no meio fio, dá um tempo. Velhote, esqueceu como se vive?

– Não diga que eu não avisei.

Dito e feito. Uns cinquenta metros depois, aparece um inseto nojento na minha frente, mais conhecido como abelha, e eu escorrego do meio fio e caio no asfalto quente. Eu me machuco toda, parte por causa da macumba que eu tenho certeza que o Lucca fez, parte porque eu sou frágil, e parte porque eu caí em cima de restos de obra, ou seja, tijolos quebrados e afins.

– Aí, não disse? – ele fala enquanto ri. – Dá pra andar ou eu chamo a ambulância agora?

– Felo da puta. – resmungo me levantando.

– Garota educada é outro nível.

Continuo a andar e ele ri atrás de mim.

– Video cassetada ao vivo, que maravilha.

Reviro os olhos. Tem garoto mais bobo que ele?

– Chegamos, o que você prefere? Samu ou gelo?

– Uma AK-47 pra eu te matar. Que tal?

Ele ri alto da minha cara raivosa.

– Meiguice mil.

Eu sou meiga. Muito. Meiga como bater o dedo mindinho nos móveis.

Passamos o dia todo comendo pizza, pipoca, chocolate, bebendo refrigerante, vendo filmes e fazendo guerra de travesseiros.

Até anoitecer, e o meu celular começar a tocar loucamente.

– Alo?

– REBECA, EU VOU TE MATAR. ONDE VOCÊ ESTÁ, FILHA? NEM A MARIANA SABE ONDE VOCÊ SE METEU! – minha mãe surtando novamente, quanta novidade. Respiro fundo para responder, mas ela continua berrando. – EU QUERO VOCÊ EM CASA EM CINCO MINUTOS. VOCÊ ESTÁ DE CASTIGO MOCINHA! JÁ SÃO SETE E MEIA, A SUA AULA ACABA MEIO DIA E CINQUENTA, ONDE VOCÊ ESTEVE ESSE TEMPO TODO?

– Tá, tá, tá. Chego em casa em cinco minutos. Não se preocupa, eu tava na casa de uma amiga minha, eu te mandei um sms te avisando.

– Ih, fodeu. Me ajuda a arrumar essa bagunça que meus pais tão chegando. – ele sussurra.

Ah, caso não tenha avisado, os pais do Lucca são esquisitos, e me odeiam, então eu venho escondida pra cá. Eles trabalham o dia todo, então não é muito difícil.

Arrumo o quarto dele em tempo recorde, e corro para casa que nem uma condenada, para entrar em casa e encontrar a Mariana desesperada conversando com meus pais e o Gustavo.

– Porra. O que vocês estão fazendo aqui? – resmungo indo para o meu quarto, mas meu pai segura meu braço e começa o sermão.

Tento não dormir durante o sermão, mas ele dá sono. Meu pai é o tipo de cara que abre a boca e todos dormem. Ele é tipo professor de segunda feira no primeiro tempo, ninguém quer escutar, todos dormem ao escutar, e ele nunca para de falar.

Um século depois, ele para com o sermão, me deixa de castigo e me manda para o meu quarto. Bufo e vou para lá, ignorando o Gustavo e a Mari que estão esperando para falarem comigo.

– Quer saber? Eu desisto. Se ela não quer falar com a gente, não vou ficar correndo atrás também. – escuto minha “amiga” resmungando e meu coração se aperta.

Claro que eu estou puta com ela, mas eu não quero que ela desista da nossa amizade. Ou quero? Aquela noite foi horrível, e ela me magoou e eu nem sei o motivo direito, e muito menos ela.

– Ela é muito mimada, isso sim. Não sei nem porque estou aqui. Tô indo, ok? Boa sorte ai. – escuto o Gustavo mal humorado.

Eles esqueceram mesmo o que aconteceu naquela noite? Não é possível.