– Ei, Beca, por favor, abre a porta. Eu não quero ir embora sem saber o que aconteceu naquela noite.

– Ué, não ia embora?

– Eu não quero acabar com a nossa amizade. Por favor, só me escuta.

Eu preciso conversar com ela, não quero perder nossa amizade também, não importa o quão irritada eu estou. Com o Gustavo tanto faz, garoto chato pra caralho mesmo, não importa. Mas ela é a minha irmã de consideração. Por mais puta que eu esteja com ela, não quero perde-la.

Levanto da cama lentamente e abro a porta.

– Entra. Mas se for pra entrar e começar a mentir, nem se dê ao trabalho.

Ela dá um sorriso de orelha a orelha e me abraça, lê-se pula em cima de mim e me sufoca com um abraço de urso.

– Sua louca, me solta! – falo rindo, eu não consigo não rir quando ela faz isso.

– Nunca! – e então ela me aperta mais forte, e caímos na minha cama rindo feito hienas.

– Surubaa! – chega o Gustavo berrando. Que cara de tarado. Que tarado. Ele pula na cama com a gente. – Ah, parou com a pegação por quê?

Reviro os olhos e a Mari me ajuda a estapeá-lo.

– Serio, isso não dói meninas. Sabe o que dói? Peitos. Peitos na minha cara. Dói como o inferno.

– Vai tomar no cu, vai. Você vai amar. – resmungo.

– Por quê? Você ama?

– Ok, ok, ok. Podem parar? Eu vim aqui pra pedir trégua, e você já devia ter ido embora. – a Mari fala olhando para o Gustavo como se ele fosse um garotinho de cinco anos desobediente.

– Eu tava indo, mas escutei vocês rindo então vim ver se estavam de bem e quando chego, encontro vocês caindo na cama agarradas. Putaria é comigo mesmo.

– Aff.

– Bem, já que estamos todos aqui, Beca, eu queria me desculpar com você. Eu já fiz muita merda antes e você não ficou puta comigo, então eu acho que sei o que eu fiz naquela noite, mesmo não me lembrando de porra nenhuma. Eu lembro que fui naquela casa abandonada pra destrancar vocês e depois eu fui pra sua casa pedir desculpas. Depois, não lembro. Sério. Acho que o Gustavo tava comigo, sei lá. A última coisa que eu lembro foi acordar sentada no quintal da sua casa e ver o Gustavo sendo molestado por um cachorro. E eu estava fedendo a álcool, e acho que estava de ressaca, porque tava com uma puta dor de cabeça e o mundo tava rodando.

Eles. Nunca. Transaram. Saber disso é como tirar um peso das costas. Talvez porque o Gustavo seja muito chato e insuportável, ou porque eu não suportaria que a Mari tivesse dormido com o garoto que eu odeio.

– Em primeiro lugar, eu não vou pedir desculpas porque não fiz nada, mas eu acho que sujei sua cama com minha bebida, então te devo uma. E em segundo lugar, eu não estava sendo molestado por aquele vira lata! Ele estava só pulando em mim. – ele fez biquinho. Não sabia que ainda há garotos que fazem biquinho quando estão bolados.

– Zoofilia é feio, Gustavo. – falo rindo que nem uma hiena, e a Mari ri junto.

Demoramos alguns minutos para controlarmos a risada, principalmente com o Gustavo de biquinho xingando a gente todo emburrado.

– Ai, ai. Mas então, a última coisa que eu quero fazer é te magoar, Beca. Desculpa se eu falei alguma merda.

Ela tá quase chorando, assim como eu.

Abraço ela e digo que estamos de boa, e que eu amo ela. Porque eu realmente estou de boa com ela – e não só porque ela não transou com o Gustavo – e porque eu realmente amo essa criaturinha chata e fofa.

– Beija! Beija! Beija! – ele começa a falar, batendo palmas e tudo.

Olho para a Mari e ela faz que sim. Amo quando ela me entende.

No segundo seguinte, nos aproximamos do Gustavo, que está sentado na cama. Fomos de quatro na cama, sim, de quatro. Chegamos bem perto dele, e eu e ela ficamos cara a cara.

– Puta que pariu. – ele murmura com a maior cara de tesão possível.

Nos aproximamos cada vez mais e mais, e quando estávamos com os lábios a poucos milímetros de distancia, eu aperto o saco dele com força e os torço.

Ele berra, cai da cama e começa a rolar de dor enquanto nós rimos.

– Suas filhas da puta! – ele geme de dor.

– Há, poder feminino! – ela berra e taca meu travesseiro nele.

– E aí, como se sente ao ter seu saco acariciado por uma menina? – pergunto tentando controlar o riso.

– Você vai me pagar. Ah se vai. – ele tenta ser ameaçador, mas sua careta de dor é hilária demais para eu ficar amedrontada.

– Ei, os três, já tá tarde, vocês tem aula amanha. – meu pai surge do nada dentro do meu quarto, e nós três nos assustamos — Você – ele aponta para o Gustavo – casa. E você – ele aponta para a Mari – se vai ficar aqui, é pra dormir.

– Tá, pai. – resmungo enquanto ele sai do quarto. — Gustavo, tchauzinho. Mari, vai ficar?

– Claro.

– Posso ficar? Vai rolar putaria, tenho certeza. Vocês fazem guerra de travesseiro peladas, né? Vocês ficam se beijando pra treinar?

Ainda bem que meu pai já tinha ido embora. O lado safado do Gustavo apareceu.

– Eu vou te matar, Gustavo.

Ele ri e vai embora.

– Ei guria, que tal aproveitarmos que seu pai vai sair daqui a pouco, e sim, eu sei disso porque sua mãe tá arrumada e ele tá enxotando o Gustavo daqui e nos mandando dormir. Então, que tal aproveitarmos para usarmos essa majestosa banheira que você tem, e depois pintarmos nossas unhas, e vermos caras sexys no seu computador enquanto comemos pizza?

É por isso que eu amo ela.

Colocamos um pijama e fingimos estar dormindo.

– Boa noite garotas. – minha mãe fala enquanto tenta esconder a roupa e o sapato de salto.

– Boa noite – falamos em uníssono. Sabe a frase “sorria e acene”? É o nosso lema nesse momento.

Esperamos meus pais saírem com o carro, o que não demorou nem cinco minutos, e colocamos biquínis, enchemos a banheira, colocamos sais de rosas na banheira e ligamos o nosso celular, que tem uma playlist igual, e apertamos o play ao mesmo tempo, só para o som ficar bem mais alto.

– Você gosta dele, né? – ela pergunta, depois de longos minutos relaxando na banheira.

– De quem? – pergunto mesmo sabendo a quem ela se refere.

– Do Papai Noel, óbvio. – ela revira os olhos rindo. – Do Gustavo, sua idiota!

– Não! – respondo, minha voz aguda me delata.

– Gosta sim, assume! E o motivo, ou um dos motivos, que fizeram com que você ficasse puta comigo por causa daquele dia é porque eu devo ter dado mole pra ele. Eu bêbada não tenho controle, e ele é gato, mesmo que só fale merda. Então, desculpa.

– É, foi tenso o que aconteceu. Vocês ficaram se pegando na minha cama, e depois derramaram o que eu acho que foi vodca na minha cama, e depois ficaram falando que vão se pegar lá na casa abandonada já que você não tem medo de escuro e eu tava expulsando vocês do meu quarto.

– Desculpa. Sério. Eu nunca faria isso se não estivesse bêbada.

Dou de ombros. Me sinto melhor agora que desculpei ela.

– Agora, é hora da revelação.

– Vai falar que é lésbica? – implico.

– Claro, eu tô toda molhada só de olhar pra esses peitos e pra sua bunda. Aww – ela finge que geme e faz uma cara de tesão. – Só que não. Quero saber quem é o deus grego de barba?

– O Lucca. Ele me encontrou perdida por aí, naquele dia que eu faltei a aula.

É raro eu faltar aula, meus pais nunca deixam.

– Ah, saquei. E ele é o que? Pedófilo, ficante, namorado, amigo colorido...

Reviro os olhos. Ô mente poluída.

– Amigo. Ele tem dezenove, é muito gente boa, e fofo.

– É gay?

– Não! Qual a dificuldade de entender que somos amigos, mas não nos pegamos?

– Toda!

Bufo e fecho os olhos. Relaxo lentamente na banheira. Ela também não toca no assunto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.