B&W (Black And White)
5 Capitulo 5
– Ei, gente? Alô? Bom dia, flor do dia! – escuto a voz da Mari e a raiva me invade. Levanto com tudo do chão duro, ignoro os meus ossos estalando e soco a cara dela.
Não, eu não sou nem um pouco agressiva. E sim, ela tem aula de luta, então sabe se defender de um soco.
– Belo gancho de direita, branquela. – escuto a voz rouca do Gustavo e me controlo para não sorrir. Reviro os olhos e me afasto dele.
– Sua puta, por que me socou? – ela dá aquele berro estridente que deixa todo mundo surdo e massageia a bochecha.
É, acho que ela não conseguiu bloquear o soco... Bem, ela mereceu.
– Isso foi por me prender aqui! Você sabe que eu não gosto!
O Gustavo ri baixinho e eu o fuzilo com meu olhar.
– Você tinha que ver a cara de medo dela, Marina. Eu aposto que você riria.
– Vai se foder você também. – resmungo e saio daquele lugar escuro batendo o pé e controlando a minha respiração pra não ficar bufando também. Escuto a risada dos dois atrás de mim e os ignoro solenemente. Vou a pé até a minha casa, onde deito na cama e durmo, pouco me fodendo para a escola. Minha mão está doendo, e eu estou com o cheiro do Gustavo, e com seu casaco também. Mas foda-se, quero mais é dormir na minha cama.
– Ei, nada disso mocinha, arrume-se, você tem aula hoje! – sabe quando você está naquele estagio do sono onde você está quase dormindo profundamente, mas ainda está meio acordado, então. Eu estava nele, mas aí, essa pessoa meiga e fofa que eu chamo de mãe me acorda aos berros.
Sério, tem horas que eu odeio a mulher que me deu a vida.
Com sono, dor na mão e de péssimo humor, eu me arrumo e vou para a escola, onde não encontro nem a Mari nem o Gustavo. Ainda bem. Acho. Tenho que devolver o casaco dele, que eu estou usando no momento, mas, por incrível que pareça, eu não quero devolvê-lo.
Eu passo as seis horas mais entediantes do dia e então, volto para casa, caminhando pelo caminho mais longo, pra não olhar para a cara da minha mãe tão cedo, e o mais longe de locais onde eu possa encontrar um dos dois.
Ao som de Iron Maiden, caminho e me isolo em meu quarto, deito em minha cama e ignoro os berros estridentes da minha mãe.
– Ei, você ainda está puta comigo? – a Mari pergunta, acordando-me.
Olho, confusa, e vejo ela sentada no parapeito da janela.
– O que diabo você está fazendo aqui?
– Bem, depois que você deixou o Gustavo e eu naquela casa, a gente ficou conversando e ele me deixou sentindo muito mal por ter feito isso com você, então eu vim me desculpar.
Olho para o relógio, meio que por automático. São onze e quarenta da noite, o que inferno ela fez durante o dia todo?
Ela percebe meu olhar duvidoso e dá uma risadinha nervosa.
– Eu e o Gustavo ficamos conversando o dia todo e tal. Ele é bem legal, sabia. – seus olhos brilham. Meu estômago se embrulha. – Enfim, ele falou que você ficou com muito medo, e que não dormiu a noite toda e tal. E tipo assim, eu tô me sentindo a mosquinha do cocô do cavalo do bandido de tão merda que ele me deixou depois de conversarmos. Então, aqui estou eu, me desculpando.
Eu tenho a nítida impressão que ela só está se desculpando comigo porque o Gustavo pediu, mas eu relevo.
– Estamos de boa, Mari.
Ela me abraça, toda feliz, e no segundo seguinte, uma figura preta encapuzada entra pela janela do meu quarto.
– O que você tá fazendo aqui, pedaço gigante de carvão? – brigo, e ele apenas dá de ombros e começa a examinar meu quarto desarrumado.
– Bem, obviamente, trouxe um pouco de vodca e vim analisar o seu quarto e – ele para de falar e sorri – aquela calcinha ali é sua?
Ele aponta para uma calcinha de renda, toda preta, que eu comprei semana passada só pra combinar com o sutiã, que é lindo e sexy e fica perfeito com uma blusa meio transparente minha.
– Não! – corro para pegar a calcinha, mas ele pega antes, e se surpreende com o tamanho dela.
– Ui, ela é tão pequena e é fio dental, que ousada. – serio, vou me matar. Chuto o saco dele e pego minha calcinha de volta.
Como ele conseguiu vê-la? Ela tava dentro da sacola da loja ainda.
Ele está gargalhando da minha cara vermelha de vergonha, e a Mari tá rindo junto. Por que eles estão aqui ainda?
Pego as roupas jogadas em meu quarto e entulho tudo no meu armário. A Mari já está deitada na minha cama, completamente à vontade, e o Gustavo está sentado na minha almofada gigante no chão. Estão bebendo da garrafa, os dois. Saliva com saliva. Eca. Opto por não beber. Fico calada o resto do dia, enquanto os dois se embebedam e se comem com os olhos.
– Gente, porque vocês estão na minha casa? – resmungo enquanto pego meu travesseiro e deito no chão, longe da Mari e do Gustavo, que ocuparam a minha cama e derramaram bebida nela.
– Ai, para de resmungar, sua vaca. Estamos nos divertindo aqui porque meus pais não podem descobrir que estou bebendo, e o Gustavo disse que eu precisava me desculpar com você, e estamos com preguiça demais para sair daqui e irmos pra casa dele, ou pra casa abandonada.
– Você também tem medo de escuro, Marina? – ele sussurra com uma voz grossa e rouca, voz de bêbado. Meu estômago está estanho. A Mari ri e nega.
– Não sou tão patética.
Escutar isso é pior que levar um tapa na cara. Essa garota bêbada na minha frente não é a mesma garota que ficava conversando comigo a noite toda quando faltava a luz em casa.
O Gustavo olha para mim de um jeito meio estranho, mas eu viro o rosto e controlo a minha mágoa.
– Ignora a Rebeca, Gugu. – a voz dela nunca soou tão irritante.
Eu esperava qualquer coisa do Gustavo, menos isso.
Esse barulho nojento de línguas e salivas se misturando, e das respirações aceleradas.
– Argh, saiam do meu quarto agora! – berro em um sussurro, o que é meio impossível, mas foi isso que aconteceu.
– Vadia. – escuto-a resmungando em meio aos beijos molhados e nojentos que ela dava no Gustavo. – Vamos Gugu, teremos um lugar abandonado todo para nós dois, e não se preocupe, eu não tenho medo do escuro. Pelo contrário, ele me excita.
Mais beijos molhados e nojentos. Meu estomago está se revirando. Depois do que parece uma eternidade, eles saem do meu quarto pela janela. O cheiro de álcool está impregnado no meu quarto. Assim como o cheiro deles.
Tenho vontade de vomitar.
Jogo o casaco do Gustavo pela janela e escuto as risadas deles entre nos beijos molhados e nojentos. Meu estômago se revira. Tiro os lençóis molhados da minha cama e coloco-os enrolados no banheiro. Me ajeito na cama sem lençol. Fecho os olhos e respiro fundo. Minha mente não para quieta.
Levanto da cama e acendo a luz. Ligo a televisão em um show de comédia qualquer, tento ler meu livro favorito, desenho rabiscos em meu caderno, como um pedaço de chocolate, tento fazer imagens de sombra na minha parede. Olho no relógio, cinco e vinte e dois.
Minha mente não me deixa descansar, e parece que te algo faltando. Mas eu estou exausta. Mentalmente. E fisicamente também.
Em algum momento entre cinco e vinte e dois, e seis e meia, eu dormi. Nunca me senti assim antes. Vontade de berrar para todos e ao mesmo tempo de ficar quieta e me isolar.
– Ei, garota, você tá perdida? – escuto alguém falando e me viro assustada.
É um cara alto e incrivelmente lindo. Os olhos castanhos cor de chocolate, o cabelo encaracolado, aquele inicio de barba em seu rosto.
– É, hum, acho que sim. – olho em volta de mim e percebo que errei o caminho da escola. Por muito.
– Acha? – ele dá um sorriso e eu percebo seus dentes brancos com o aparelho fixo de borrachinha verde.
– Bem, eu estava indo para a escola, mas –
– Quer comer alguma coisa? Tem uma lanchonete bem ali no final da rua com o melhor pão de queijo do mundo.
Olho para o celular. Já perdi a hora do colégio mesmo.
– Claro, por que não.
Lá vem aquele sorriso novamente, ele é muito fofo. Acho que sou uns vinte centímetros mais baixa que ele.
– Sabe, eu nunca vi uma albina antes. – olho para ele com a bochecha queimando – Você é muito linda.
– Então você é o único que acha isso.
– Sou o Lucca.
– Pode me chamar de Beca.
O pão de queijo é realmente muito bom. Ele me livrou de um dia de aula e um dia com o Gustavo e a Marina. O Lucca anotou seu celular no papel do pão de queijo, e me pediu para ligar para ele qualquer dia desses que eu quiser me perder e não ir para a escola. Sinto-me até mais leve, mais calma. O Lucca é incrível.
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