Espero ansiosamente para o terceiro tempo, e desta vez, eu sento atrás dele. Ele repara no meu cabelo, seus olhos ficam levemente esbugalhados, e um meio sorriso se forma em seus lábios.

Fizemos a prova de português e eu acabo cedo. Entrego a prova e pego a Amoeba. Sem fazer barulho, eu coloco um pouco na minha mão e deixo pingar no cabelo dele. Ele não repara. Coloco mais um pouco e deixo pingar em sua blusa. Ele está com um casaco por baixo, então não percebe. Uso quase toda a Amoeba sem que ele perceba. Só não coloco mais porque o sinal toca e ele se levanta. Guardo o resto e ele ri escandalosamente. Olha para mim e sorri mais um pouco.

- Vai ter troco, fantasma. Vai ter troco... — ele sai rindo, só não sei do que. Menino maluco...

Fiz uma obra de arte nas costas dele. Ele ficou divino. As pessoas ficaram rindo. Durante o resto do dia, ele virou o assunto principal. Claro que ele colocou um casaco por cima da blusa, para esconder o rosa, mas isso não importa. Eu estou satisfeita. Já me vinguei.

Durante o resto da semana, ele não fez nada comigo. Só ficava lançando uns sorrisinhos estranhos e um olhar que definitivamente mostra que ele está escondendo alguma coisa. Fico um pouco preocupada, mas o que ele pode fazer de ruim?

Assim que entro na escola, ele aparece correndo e me pega no colo e corre comigo até a piscina do colégio.

- Me solta! — berro, enquanto as outras pessoas olham para a gente e ficam rindo.

- Amoeba não sai, sabia? Agora eu só tenho uma camisa do uniforme, e isso não é muito agradável, pó de giz.

Só tem um problema nisso tudo.

Ele me joga na água.

Afundo cada vez mais — a piscina é de dois metros e meio — e eu não sei nadar.

Segundos se passam — e acho que minutos. E então ele pula para me salvar. Não consigo respirar. Ele aperta meu peito repetidas vezes, tapa meu nariz e me beija. Meus olhos estão fechados, e eu estou quase desmaiando. Então começo a tossir loucamente. Meus pulmões ardendo tanto que parece que eu tinha cortes ali e taquei álcool. Abro os olhos e fito aqueles olhos escuros bem próximos aos meus.

- Você não sabe nadar, é, branquela? — pronto, ele tinha que implicar comigo.

Tremendo, com frio e dor, ergo meu dedo do meio para ele e levanto.

- Você tem sorte da minha mochila não ter caído na piscina, ou eu te mataria.

Ele se levanta e fica bem na minha frente. Ele deve ter um metro e oitenta, porque ele é bem alto, e musculoso.

- Você não assusta nem uma formiga branquela. Essa foi pra você aprender a nunca mais colocar Amoeba rosa em mim.

- Acho melhor você comprar mais uma camisa de uniforme, carvão, porque eu não vou deixar barato.

Saio com a cabeça erguida, ignorando as dores e o frio e as pessoas que riam da minha roupa molhada. Encontro a Mari no meio do caminho e puxei-a pelo braço até a sala de achados e perdidos do colégio. Mesmo aqui sendo uniforme — só a blusa do colégio — as pessoas esquecem muitas coisas por aqui, e quase nunca procuram.

Encontro uma bermuda jeans desbotada — de um jeito que ficou bonito — e um casacão preto e cheiroso que aparentemente era de algum garoto. O casaco bate no meio da minha coxa, mas esconde a blusa molhada, e eu gosto de casacos maiores que eu, então fiquei com aquele mesmo.

- Se perguntarem, esse é o casaco do seu namorado — a Mari brinca, abrindo a porta.

Começo a andar sem olhar pra frente e bato em alguma coisa, pera, em... Alguém.

Levanto os olhos e o vejo. Gustavo. Ele está olhando para mim com um meio sorriso que me irrita.

- Sai da frente, carne tostada!

- Que roupa é essa, branquela? — ele tem um meio sorriso no rosto, que aparentemente nunca sai da merda da cara dele, porque eu nunca o vi sem estar com algum tipo de sorriso no rosto.

- É o casaco do meu namorado. — reviro os olhos e ele dá uma gargalhada.

Vou para a aula de matemática e vejo a professora — vulgo puta — está entregando as notas. Eu me fodi.

Eu odeio matemática, já falei isso antes?

Durante a aula inteira, eu durmo para não escutar aquela puta falando, nem o Gabriel se gabando, e nem nada. Só quero dormir e esquecer tudo. Esquecer o fato de que estou me ferrando cada vez mais na escola, e que meus pais vão fazer que a minha casa se pareça com uma prisão.

Passo o resto da semana parecendo um zumbi. Meus pais me deixaram de castigo quando viram minhas notas menstruadas no boletim virtual do colégio. Menstruadas, para os lerdos, é porque notas abaixo da média ficam vermelhas no boletim, e as acima da média, pretas.

Estou sem televisão, computador, celular, iPod e mesada. Eu só estou comendo e dormindo, o que é bem entediante. Até o garoto carvão percebeu que eu não estava bem.

- Ei, branquinha, você tá parecendo um defunto. — ele implica, mas eu ignoro. Não estou no clima para implicâncias.

A Mari não veio pra escola hoje, então passo o tempo todo sozinha, quase dormindo.

Aula de história, dois tempos. Sento na penúltima cadeira, já que o Gustavo está na última cadeira. Deito a cabeça e fecho os olhos. A voz do professor tem efeito similar a um sonífero. Vou perdendo a consciência aos poucos.

- Até semana que vem, turma. Não se esqueçam da pesquisa. — o professor quase berra, bem ao meu lado. Vejo seu sorriso maldoso quando eu acordo no susto. E então, percebo que algum está mexendo em meu cabelo. Olho para trás e vejo o Gustavo com a cabeça apoiada na parede, e a mão esquerda estendida em minha direção.

Direciono meu olhar de "o que diabo você está fazendo", mas ele o ignora completamente, e retira a mão. Passo a minha mão pelo meu cabelo. Vai que ele colocou alguma coisa nele. Por enquanto, não percebi nada.

- O que você estava fazendo? — pergunto totalmente rude e mal humorada.

Ele ergue as sobrancelhas e faz uma cara de inocente, da qual eu acredito. Ele aprontou alguma coisa, isso eu tenho certeza.

- Não fiz nada, princesa de neve. — ele sussurra perto de meu ouvido enquanto se levanta da cadeira. Eu me arrepio, e ele percebe.

- Imbecil tá sorrindo do que? — resmungo, enquanto pego minha mochila e levanto.

- Nada. Acho melhor você limpar seu cabelo, tem alguma coisa preta neles.

Arregalo os olhos e escuto sua risada escandalosa e irritante enquanto corro para o banheiro.

O filho da puta jogou um pó preto no meu cabelo. Acho que é carvão. Que imbecil!

O pior de tudo é que o carvão não está em pó, está manchando meu cabelo. Ficou metade branco/loiro claro, metade preto/com aparência suja.

O Odeio. Corro para casa, ignorando os cochichos de todo o pessoal do colégio. Mando um SMS pra Mari, pedindo para que ela venha para minha casa, e entro no banho.

Vinte minutos depois, ela invade o meu banheiro reclamando feito uma velha.

- Eu não aguento mais vocês dois fazendo isso! Qual a graça de implicar um com o outro? O que ele fez agora, sua irritante?

- Ele pintou meu cabelo de preto! — resmungo, enrolando meu cabelo na toalha e vestindo uma blusa qualquer e uma calça de moletom.

- E por que você deixou?

Olho para baixo.

- Eu estava dormindo. — murmuro e espero ela começar o sermão. Ela odeia quando eu durmo na aula.

Eu marco o tempo. Meia hora e dois minutos de sermão. Só então ela fala que vai me ajudar a criar uma revanche, desde que essa seja a última.

Retribuirei a brincadeira com a mesma moeda para aquele idiota saber o que é bom.