Notas iniciais
desculpa a demora, gente.

Estou com tudo pronto e na mochila. A Mari dormiu na minha casa para poder chegar ao colégio junto comigo, e ver a vingança sendo feita.

Encontro-o no corredor e a Mari o chama. Passo por eles e fico atrás dele sem que ele perceba.

– O que você quer? — ele resmunga sem paciência.

Começo a vingança. Ele não percebe.

– Eu quero te perguntar uma coisa.

– Pergunta rápido. — ele está bem impaciente.

Acabo de fazer o que é preciso em alguns segundos.

– Ok, a pergunta é: Isso branco em você é caspa? — ela pergunta em meio à risada, e eu começo a rir também.

Ele olha para mim e afaga minha cabeça. Que maluco.

A Mari ri ainda mais. Passo a mão em meu cabelo. Merda, tem alguma coisa gosmenta. O que diabo tinha na mão dele?

Olho com raiva para a figura meio branca — devido ao pó de giz que eu taquei nele — e meio preta.

– Acho melhor limpar seu cabelo, branquinha. Parece que você está sangrando. — aí está, o sorrisinho irritante dele.

Reviro os olhos e entro no banheiro.

Esse filho da puta preto botou ketchup no meu cabelo! Porra, como eu o odeio!

Enquanto a Mari não deixa ninguém entrar no banheiro, eu limpo meu cabelo na pia. É agoniante.

O sinal toca e eu acabo em tempo record. Seco meu cabelo o mais rápido possível e vou para a aula. O Gustavo está normal, ele conseguiu tirar o pó da roupa a tempo. Dá um sorrisinho quando eu apareço com o cabelo molhado. A sala está fria, então passo a aula toda espirrando e com frio. E o melhor de tudo, eu esqueci o casaco.

No segundo tempo de aula, ele joga seu casaco em mim.

– Vê se você para de tremer, o barulho tá me irritando. — ele resmunga e volta a dormir.

Visto o casaco depois de murmurar "obrigada". O casaco tem um cheiro bom, não é perfume, parece tão natural, tão bom, tão familiar...

Enfim aquecida, eu durmo. Eu sei que não é uma boa dormir do lado dele, mas eu estou com tanto sono que não consigo deixar o olho aberto.

Eu sonho com o Gustavo. Não teve conversa, nem nada, estava só a gente, abraçados embaixo de uma cerejeira.

Acordo, perturbada e com a risada de muitas pessoas.

Olho, confusa, para todos e a risada só aumenta de volume. O Gustavo aparece do meu lado, segurando uma caneta permanente. Merda. Corro para o banheiro e vejo o que o imbecil fez. Ele desenhou um bigode em mim.

Durante quase dez minutos, eu tento tirar aquela merda, mas não consigo. Já disse que o odeio?

É recreio agora, dá para sair do colégio sem perceberem. Pego minhas coisas e ando sem levantar suspeitas até a saída. Faltam dois passos.

– O que tá fazendo, branquela? — ah, não. Ele agora não!

– Vai se foder. — resmungo enquanto saio do colégio.

Escuto a risada dele e olho para trás. O idiota está me seguindo.

– Sai de perto, carvão!

– Me obrigue.

Ignoro-o durante o percurso inteiro, e finalmente chego à minha casa. O Gustavo fez questão de ameaçar a vida de todas as pessoas que começavam a me zoar por causa do bigode. Foi gentil da parte dele.

– Agora tchau. — falo, abrindo a porta.

– Espera. — ele fala, eu paro de andar e me viro para ele esperando um pedido de desculpas. — Você tá com o meu casaco.

Que idiota!

– Andou esse caminho todo só por causa disso, imbecil? — tiro o casaco e taco na cara dele. Entro em casa irritada, batendo as portas e pisando forte.

Minha mãe me escuta chegando e já começa a dar esporro. Corro para o meu banheiro e fecho a porta.

– Abra essa porta agora! — berra socando a porta.

Faço uns sons nojentos e ela se afasta com nojo. Passo uma hora e meia no banho para tirar a tinta, e depois de passar álcool, finalmente consigo. Meu rosto está muito vermelho, mas está sem bigode.

Ligo para a Mari, que me ignora completamente e fala que isso tudo é minha culpa.

– Puta apoio, viu. — resmungo e desligo o celular. Deixo uma música tocando no computador e deito.

O que eu posso fazer pra ele se ferrar? Não sei.

– Rebecca, sua irmã está passando mal, vem cuidar dela! — minha mãe berra e eu, relutante, vou.

Entro no quarto rosa da Thaís e a encontro deitada na cama com uma péssima imitação de dor de barriga.

– Então, baixinha, o que tá rolando?

– Por favor, não me dedura, eu só precisava sair daquele lugar.

Dou de ombros. Eu também piraria se ficasse presa no colégio a semana inteira.

– Não vou te dedurar. — ela sorri. — Quer ver um filme?

– Bob Esponja! Bob Esponja!

Reviro os olhos. Ela é fã da esponja amarela e retardada, e eu também sou um pouco, mas ela é muito mais que eu.

– Mana, você tá bem?

– Tô, sim, baixinha. Tô só pensando.

– Em que?

– É coisa de gente grande.

Ela desvia sua atenção da televisão e olha para mim com seus olhinhos brilhantes.

– Um garoto do meu colégio desenhou bigode em mim. — resmungo, com o mau humor de volta.

– E você tá pensando nele?

– Pensando em me vingar.

– Ah. Já descobriu como?

– Não.

Deito na cama e fecho os olhos. Como eu vou me vingar?

Deep Web.

Não, isso é crueldade demais.

Pintar um pinto na cara dele.

Não, isso dá suspensão.

Jogar tinta branca nele.

Não, isso é tão ridículo...

Merda, eu não consigo pensar em mais nada!

– Você tá pensando em uma revanche amigável ou dolorosa? — ela pergunta, interrompendo meus devaneios.

– Humilhante é a palavra certa.

– Mas uma revanche humilhante que machuque ou não?

– Tanto faz, por quê? O que essa mente diabólica está pensando?

Ela dá um sorrisinho maligno.

– Ele tem a perna peluda, não tem? — pergunta inocentemente.

– Tem, por que a pergunta?

– Porque eu acho que sei o que seria uma boa vingança para ele. — agora seu olhar maligno e sua voz inocente mesclam, o que não deveria ser normal.

– Fala logo, Thaís! — peço, abraçando um travesseiro.

– Depilar a perna dele. Com aquela coisa gosmenta que você usou semana passada na sua perna.

– Cera fria?

– Isso!

– Mas isso dói demais, e — paro de falar um segundo para pensar na inteligência desse plano — E é perfeito, obrigada, baixinha.

Abraço ela fortemente, até ela pedir socorro dizendo que estava sem ar.

Fico vendo Bob Esponja com ela até ela cair no sono. Desligo a televisão e corro para o meu quarto. Pego o resto da cera fria que eu tinha guardada. É pouca, daria apenas para meia perna. Quantidade perfeita para colocar nele. Principalmente quando ele dorme na aula, e não acorda por nada.

Espero exatos três dias até ele abaixar as guardas e dormir na aula. Mas ele está de calça jeans. Pego um copo com água, alegando estar com um remédio para tomar, e ando até minha cadeira. Ele está na cadeira atrás de mim, e a Mari lança seu olhar de desaprovação, mas eu ignoro.

Finjo que tropeço e a água cai toda em sua calça, principalmente na parte do meio, o que faz com que pareça que ele se mijou.

A sala inteira para e olha em silêncio. Peço as mais falsas desculpas e ele aceita do jeito mais falso possível.

Ele sai da sala para secar a calça ou pegar uma usada na sala de achados e perdidos. O professor olha irritado para mim e me manda pegar alguma coisa para secar o chão.

Quando o chão está seco, o Gustavo volta, usando uma bermuda desbotada, deixando sua perna descoberta. Sua perna é bem peluda, a vingança será boa.

Espero ele dormir — o que não demorou muito — e pego a cera.

A nossa professora de química é uma velha cega e surda, que passa a aula toda escrevendo no quadro coisas que ninguém — além dos nerds — copia.

Passo lentamente a cera na perna dele, até cobrir uns vinte centímetros de altura, e cinco de largura. Um pedaço rápido e pratico de tirar.

Puxo a ponta e por fim, tudo. Ele acorda no susto, berrando, e eu escondo logo a cera na minha mochila, para que a professora não veja.

– O que está acontecendo? — ela pergunta, vindo em nossa direção.

O Gustavo está alisando a parte depilada de sua perna, abismado.

– Nada não, ele estava dormindo na aula, deve ter tido um pesadelo. — falo inocentemente.

Ele olha para mim, seus olhos pretos repletos de ódio.

– O que diabo você fez? — ele fala entredentes, com o punho fechado.

– Achei que você precisava de uma ajudinha com seus pelos.

Ele fita novamente a faixa depilada em sua perna, com o mesmo semblante de surpresa e indignação. Eu rio.

– De nada — dou o sorriso mais meigo que consigo e viro para frente. Não conversamos durante o resto da aula. E também não dormimos.