B.K, Game Over!
2 Um
Notas iniciais
“Tudo vai ficando mais estranho”, pensei. Fui jogar videogame por algumas horas pra desestressar.
…
Noite. Tocaram a campainha. Abro a porta e tenho uma surpresa.
– Dan?... e aí cara. — cumprimentei, meio sem jeito. Realmente não esperava ele tocar lá em casa.
– E aí. Ei, a Karia tá aí? — perguntou nervoso, segurando o celular.
– A Karia? Não… ela não foi embora com vocês? — perguntei. Que eu me lembre, ela foi uma das que eu me despedi…
– … — ele estava bem nervoso.
– Cara… que aconteceu? — perguntei tendo pensamentos ruins.
– A Karia disse que ia pra casa, mas a colega de quarto dela ligou perguntando se ela estava comigo e eu disse que não… — respondeu, preocupado.
– Peraí. — pedi. Tive uma ideia genial. — Entra. — abri o portão e pedi pra que se sentasse no sofá.
Fui até a sacada de casa e chamei Konayama.
– Quié cara? Eu tava dormindo tão bem… — disse após abrir a janela e bocejar.
– A Karia tá aí? — perguntei com a esperança de obter respostas positivas.
– Não. Porque? — tão despreocupada…
– Onde ela vai além de casa e escola? — vai que ela diz algo que ajude.
– Tem um fliper que a gente joga algumas vezes… ah, tem o shopping também… — disse, pensando em outros lugares. — Porque?
– Ela não chegou em casa até agora. — respondi, indo pra casa de novo.
– QUÊ? — ela pulou pra cá. COMO… ah, ela é alien. Esqueci. — COMO ASSIM? — exaltou-se.
– É cara, parece que ela não chegou em casa. — expliquei.
Descemos as escadas. Dan estava tentando ligar pro celular dela. Esperamos.
– Nada. — disse abaixando o celular.
– E a Saraya? Ela sabe de alguma coisa? — estava preocupada.
– Não sei… não tenho o número dela. — Dan disse.
– Nem eu — respondemos eu e Konayama juntos.
– E o Eleventy? — Dan perguntou.
– Eu só sei do primeiro nome dele. — respondi. Karia concordou com minha resposta.
Procurá-la seria um tiro no pé. A cidade é grande, e a gente tá bem no centro… Nesses é mais fácil conseguir informações reunindo as possíveis pessoas de terem-na do que nos espalharmos e procurá-la.
Pensei um pouco…
– ! — já sei. Fui até a cozinha e peguei uma faca. Dan e Konayama não entenderam nada.
– Prestem atenção. — disse sério, apontando a faca contra meu coração. — Eu vou me matar.
– TÁ MALUCO CARA?! — disse Konayama, em choque. — Para com essa besteira!
– RELAXA. Isso vai servir apenas pra invocar a Saraya. Parece que quando eu “morro” ela é invocada pra mim. Tenho certeza que é a joia. — respondi inteligentemente deduzindo a última parte.
– … — Dan ficou sem o que dizer.
– Acho que é a nossa única opção. Vai demorar uma eternidade se formos procurá-la separadamente. — afirmei. — Prontos? 3,2,1…
Levei a faca até a altura da cabeça e me finquei no peito. Konayama fechou os olhos, e Dan fez cara de nojo. Como planejado, Saraya apareceu…
...de camisola.
– Hã?! — perguntou a si mesma surpresa, enquanto eu me levantava. Caraca, mais uma poça de sangue que tenho que limpar, que saco.
– E aí. — cumprimentei. — Sem pânico. Você sabe onde a Karia está? — perguntei.
Silêncio. Ela tava vermelha, como um pimentão. Olhando bem… ela tava linda. Caraca, fiquei chocado com a beleza dela, nunca tinha parado pra reparar. Mas isso não era hora de ficar apreciando essas coisas.
– E-e...e-e...ela ac-c-cabou d-d-de s-s-s-s… — “s-s-s-s” o quê? — ...s-sair…
– De onde? — Dan perguntou.
– D-d-d...d-d…daqui de casa… — acalmou-se. — PORQUE VOCÊ ME INVOCOU ?! — ela sai de vermelho de timidez pra raiva? Ué…
– Porque a gente tava preocupado com ela, e a gente não sabia onde ela tava porque a colega de quarto dela falou que ela ainda não tinha chegado… — Konayama respondeu por mim.
– É, você devia ter mais consideração comigo! Eu tive que me “matar” pra saber onde ela tava! Pensa nisso. — retruquei sobre a ira dela.
Ela parou. Parou me encarando, com uma expressão de surpresa, enquanto eu olhava pra minha camisa ensanguentada. Dan e Konayama sentiram-se aliviados e foram embora, com direito a Konayama pulando da minha casa pra dela. Fiquei parado ali, Saraya não tirava o olho de mim. Tava me dando medo.
– Saraya… — disse calmamente pra ela, quase silabando. Me aproximei dela, coloquei as mãos no lado dos ombros dela, e o olhar dela passou de surpresa pra inocente. Ela me olhava com certo brilho nos olhos e o vento soprava pela janela. Eu me senti tão bem naquela hora… — …
– Nemite… — disse. Que voz angelical…
Tenho que fazer. É agora ou nunca. Minha única chance.
– Vai pra casa. Você já tá me dando medo. — disse largando-a e indo pra lavanderia colocar a camisa pra lavar. Voltei com outra camisa, e ela continuou lá. Estagnada.
– N o v u. — não entendi bulhufas. Me aproximei, fiquei bem do lado dela.
– Repete.
– Não vou. — não começa. POR FAVOR.
– Ah, mas vai sim! Vai dormir de novo aqui não. — já estava ficando puto de novo. Detesto ser contrariado quando estou certo. Coloquei a mão no ombro dela pra fazê-la virar e quando fiz isso ela tava chorando. Na boa, o que ela tem com chorar? Caraca… essa garota tem duas cachoeiras no rosto. Ela segurou a minha mão...
– Espera. Tem uma coisa que quero saber antes. — pediu.
Diante aquele rosto tão belo (sério, era lindo), resolvi saber do que se tratava.
– O quê? — perguntei com certa ânsia.
– É verdade? Aquilo de você ter se matado pra saber da Karia? — perguntou gentilmente.
– …- fiquei em silêncio por algum tempo. Não sei porque, já que era verdade, e eu poderia simplesmente dizer “sim”.
– ...é. — respondi friamente. Ela não me largou. Essa teimosa.
– …infelizmente não vou pra casa. Não com essas roupas. — me soltou.
Limpou as lágrimas. Ei, agora que eu percebi, a joia tava brilhando pra caramba.
– Você vai me ajudar a limpar isso aqui. — afirmei, indo pegar materiais de limpeza e apontando pra poça de sangue.
– Desistiu de tentar me convencer a sair daqui? — sentou-se no sofá, de braços cruzados.
– Tu é mais teimosa que o Eleventy. Nem vou tentar. — respondi.
Ouvi a risada. Peguei alguns panos, rodo e produtos.
– O que você tá fazendo? — ela perguntou.
– O que nós vamos fazer. Tu vai me ajudar a limpar, afinal a culpa é 50% sua. — confirmei.
– 50?! Porquê? — perguntou.
Sorri.
– Porque os outros 50 são da Karia. — respondi, limpando o piso. Entreguei um pano pra ela. Ela se abaixou e colocou um dedo na poça de sangue.
– ? — parei pra observar. Ela estava um pouco séria. E concentrada. A cena seguinte foi ver o sangue sendo “sugado” pelo dedo dela, sem deixar nem cheiro.
– QUE DIABO? — perguntei surpreso.
– Hm… já que eu limpei, você faz a janta. — afirmou se levantando. QUEM ELA PENSA QUE È PRA CHEGAR COM ESSA MORAL TODA?
– SUA… — comecei. Pensando bem, melhor não terminar. — …hã… valeu. — agradeci tímido.
Sentou-se no sofá, puxou a mesinha do sofá pra perto dele e colocou os pés em cima.
– Vamos, tô com fome. — CARA, ISSO JÁ TÁ ME IRRITANDO.
– Porque tu não pede pros teus pais virem te buscar? — propus, enquanto levava as coisas de volta.
– ...trabalho. — respondeu. Parecia ser mentira.
– Trabalho? Eles trabalham no quê? — perguntei, pra confirmar a mentira.
– ...sabe que eu não sei? Nunca pude perguntar. — disse, pensativa e olhando pro teto.
– Ok… ahn, eu vou tomar banho e depois faço a janta, ok? FICA AÍ, NO SOFÁ, VENDO TV. Sem presepadas. — pedi com todo o coração.
– Tá… — disse sem tirar a atenção da TV.
Fui tomar banho e, alguns minutos depois volto, e encontro ela na postura exata de quando eu tinha visto ela da última vez.
– Ok… você come peixe? — perguntei.
– Como. — respondeu secamente.
– Vou fazer uns sashimis aqui com o salmão da outra vez então, tudo bem? — perguntei, pegando a vasilha do salmão no congelador.
Ela começou a me observar.
– Ei, você só come peixe? — perguntou.
– NÃO JULGUE O PEIXE. — disse apontando a bouchou pra ela. — Tá pronto, vem. Não fiz muita coisa porque quero dormir bem esta noite… merda. — congelei. Lembrei de uma coisa que não queria lembrar.
– Que foi? — perguntou sentando-se.
– Nada… — eu queria dizer, mas preferi ficar no silêncio.
Quis puxar assunto durante o jantar, e descobri algumas coisas dela. Ela tem 16 anos “terrestres” e tem olhos brancos. BRANCOS. Como eu não percebi isso antes? Sou muito tapado às vezes, chega me dar calafrios. Eram belos olhos. Continuamos trocando informações até eu terminar de lavar a louça.
– Vou dormir. — disse, indo pro quarto do Mika e abrindo a porta deste.
– É o da esquer-
– Tá vazio… — afirmou vagamente. Virou-se pra mim e perguntou. — Onde você vai dormir? — perguntou, sem ter nem ideia de uma resposta.
– ...aqui no sofá. — respondi.
– Mas, — abriu a porta do meu. — só tem um cobertor, e tá mó frio… — concluiu, com reticências.
– É, eu sei. Mas você é uma convidada. — retruquei. — E o sofá é um daqueles “sofá-cama”. Vou ficar bem. — menti. Eu não ia ficar bem. NÃO IA MESMO.
– …
Fui escovar os dentes. Ofereci a ela uma escova não usada, que usaria num futuro quando fosse trocar a minha. Após escovarmos os dentes fomos dormir. Desejei boa noite e ela fechou a porta.
“A vida é dura pra quem é mole.”, lembrei da frase daquele cara no primeiro dia de aula. Totalmente aplicável na minha vida neste momento.
Estiquei o sofá e fui dormir. Passou algum tempo e eu tentava dormir, mas tava muito frio, e comecei a tremer. Ouvi passos.
– Hã? — levantei, olhando em direção a uma pessoa. Saraya, segurando o cobertor de forma que pudesse se cobrir toda.
– Tá com frio né? — perguntou vermelha.
– … — acho que ela fez aquele tipo de pergunta de que já se sabe a resposta. Peguei o celular e fui ver que horas eram. 01:25 da madrugada. Ela era muito tímida, deu pra ver no rosto dela. Ela ficava vermelha toda hora que ficava comigo.
– Você avisou seus pais que você ficaria aqui? — disse sentado, com a mão no rosto.
– Aham… — respondeu se sentando. — Ei…
– Quê? — me virei.
– Eu também tô com frio… e você está com frio… — ela tava ficando perto…
Comecei a encará-la assustado.
– … — mais perto…
– … — mais…
– ...não. — afastei-a. Ela entendeu o que eu quis dizer com o “não”. — Não ainda. Se vamos fazer isso, quero te conhecer melhor antes.
– … — acho que ela ficou meio deprimida. — Você realmente é tarado né? O que você estava pensando? — sorrisinho cínico. Ela se faz de sonsa tão mal...
– É, COM CERTEZA tínhamos pensamentos diferentes. — porque eu falei isso? Acho que foi a primeira coisa que deu na cabeça.
– Então… vamos pelo menos dormir juntos… — encarei-a. — Está frio, sabe… — Não tem jeito mesmo. É muito teimosa.
Me levantei, e ia em direção ao quarto. Eu relutava mentalmente, mas fazer o que…
– Você não vem não? — perguntei.
– Vou! — disse alegremente, correndo até o quarto. Parecia uma criança. Entrei lá e ela tava ajoelhada na cama, com uma energia que eu nunca tinha visto antes. Não nela.
– Olha, vamos dormir. Eu tô cansado e com frio, e só tem uma cama e cobertor. Amanhã tem aula… — acabei com a graça.
– Tudo bem… — disse, deitando-se. — Aliás, se você só tem um cobertor, pra quê dois travesseiros? — uma sábia dúvida.
– É que tenho uma mania de dormir agarradinho no travesseiro… sempre tive isso. — disse sentando na cama, antes de deitar.
– Hm… — murmurou. — ...ei.
– Hã? — perguntei.
– Vem. — disse, apontando pro travesseiro. ELA TEM ALGUMA IDEIA DO QUE EU PENSEI NESSA HORA?!
– É, tá, tá, tá… — deitei e fiquei de costas pra ela. Apaguei a luz (tinha um interruptor perto da cama especificamente pra isso) e fechei os olhos e me senti livre, com aquela sensação de poder fazer o que eu quiser…
Ah não, já são umas 5 da manhã e tem alguma coisa me incomodando nas costas… coloquei a mão pra descobrir o que é.
– Impossível dormir aqui. — concluí baixinho. “Mas tá tão quentinho e gostoso…”, pensei pelo outro lado. Vou fazer um esforço pra aguentar isso. Sou incomodado até quando quero dormir. Fiquei deitado de costas. Ela se mexeu e colocou o braço em cima do meu peito e chegou mais perto.
“Somos um casal”, pensei. Um dos vários pensamentos imbecis e sem sentido que tenho. Mas... meus olhos… estão… pesados…
…
Acordo. 07:29, alguns segundos pra tocar o despertador. 4…
Bloqueio a tela do celular.
3…
Bocejo…
2…
Giro o corpo pra dentro da cama e fico a milímetros de distância da boca de Saraya.
1…
Percebo a cagada que fiz, e fico perplexo.
PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN PÉN-
“PERFECT TIMING!!”. Saraya acorda e se depara com um garoto a milímetros da boca dela, que dormiu com ela, sendo que este está com cara de “Eu só como peixe mas acabou o peixe”.
– … — fiquei sem palavras. O que ela vai pensar?
– Ei. — ela tava calma, e normal. O “normal” que me refiro é ela não estar vermelha. Isso é mais raro que ganhar na loteria, com certeza. — O que você tá fazendo? — perguntou, mais calma do que uma brisa da Holanda em um campo de rosas.
– É mesmo. O que diabos eu tô fazendo? — sentei na cama, parecendo um desesperado. Eu COM CERTEZA estava vermelho ou com vergonha.
– Tu tá parecendo aqueles personagens de anime no qual a garota dá mole pro protagonista e ele recusa… — COMO ELA TAVA CALMA E NÃO ME CHAMOU DE TARADO? A personalidade dela mudou tão facilmente assim?!
– ...não. — encarei ela seriamente. — Eles são clichês. Detesto clichês. A nossa situação é diferente. — ratifiquei. — Eu sou um humano, você é uma alien. Você dorme aqui em casa, eu não durmo na sua. Viu a diferença? — que merda que eu disse agora?
– Eu não vi sentido nenhum no que tu disse. — não sei se ela tava me zoando.
– ...nem eu. — ri. Saí do quarto e fui ao banheiro.
“Merda, merda, merda, merda, merda, merda”, pensei desesperado, querendo saber o que acontecia. Vou me organizar. Primeiro: vou morar sozinho. Segundo: vou estudar em uma escola que tem aliens e outras coisas esquisitas. Terceiro: é a segunda vez que uma garota dorme em casa. Isso soa MUITO estranho. Quarto: essa joia. QUE DIABOS é essa joia? Ela não sai do meu pulso, e ela aparentemente “invoca” a Saraya.
Saí do banheiro. Enquanto ia pra cozinha, espiei o quarto, ela se espreguiçava… Encarei-a por alguns instantes até perceber que...
– ARLAHGAHLGALGHARLLHALHGLARGLGHARLRL — coloquei as mãos na cabeça, reclamando pra mim mesmo. Por mil demônios! Como eu só lembrei disso agora?!
– Que foi?! — exclamou vermelha. Pronto, a garota-pimentão voltou.
– ...como você vai pra casa? — perguntei com uma expressão de “Eu realmente quero saber como”.
– ...hã… boa pergunta. — afirmou. Ela continuava de pé, ali, na frente da janela, com o vento soprando… vento frio, frio demais.
– Ah! — “eu-tenho-a-solução-pros-seus-problemas!” — A Konayama é minha vizinha. Pede umas roupas pra ela. — nossa, eu realmente sou inteligente… pera… pokerface… eu sou inteligente?...
....NÃO! NÃO SOU! A Konayama é uma tarada, o que ela vai pensar se ela descobrir que a Saraya tá aqui e de camisola? Enquanto isso, Saraya avançava em direção à sala, e quando chegou abriu a janela. Tentei evitar, mas ela chamou a Konayama.
– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO — tentei impedi-la em slow motion. Konayama abriu a janela.
– ? — ela me viu. Ela viu Saraya. Ela NOS viu, ao mesmo tempo, com um rosto de “Quê?”. Congelei.
– Empresta umas roupas? — pediu inocentemente Saraya. Ela vai corroer ainda mais o pensamento da Konayama!
– ...claro. — concordou. — Espera.
Hã? Cadê aquele rostinho de “safadenhos” que ela faz? Ela voltou alguns instantes depois com algumas roupas e as jogou até aqui. Saraya agradeceu. Uma camisa e…
– …minissaia? SÉRIO? — porque eu reprovei aquilo, oh porquê. Não tô em direito de fazer nada aqui.
– ...Saraya… — ela já ia se trocar Konayama se debruçou na janela da casa dela. Só agora fui reparar, mas a janela dela e a sacada da minha casa são bem próximas. — …o que você ainda tá fazendo aí?
– Hm? Ah, eu dormi aqui. — respondeu com uma voz doce enquanto eu, em slow motion, tentava impedi-la novamente.
– …porque? — eu vi. O SORRISINHO SEM VERGONHA DELA.
Atenção: quem chegou até a este ponto da minha vida, por favor, sinta-se a vontade pra interpretar a resposta de Saraya.
– ...porque eu quis. — respondeu secamente.
Essa resposta calou a boca da Konayama. Quando Saraya passou por mim em direção a algum lugar dentro de casa pra se trocar, eu vi a Konayama. Ela me encarava seriamente. Esse é o tipo de situação que muda como você se relaciona com a outra pessoa.
– O que você fez com ela? — perguntou seriamente, me encarando. Cara, que clima pesado.
– … — me recompus. Digo, voltei ao meu estado em que não sinto nada, o que é extremamente raro dadas as minhas circunstâncias. — ...nada. Ela literalmente só dormiu comigo.
– ...entendo… se tu fizer alguma coisa com ela eu corto tua cabeça fora, entendeu? — declarou, enquanto fechava a janela e se preparava pra ir pra escola, acredito.
– ...caralho. — sério, depois disso, essa é a única coisa que eu consigo falar?
– Tô pronta… — voltou feliz.
– Pois é, eu não. — às vezes eu realmente sou frio.
– Nossa, que chato você hein? — reprimiu.
– Me espera aí. ENTENDEU? SEM PRESEPADAS. — pedi.
Fui vestir o uniforme e arrumar o material. Volto alguns minutos depois e penso que esqueci algo.
– Vamos? — perguntou, levantando-se do sofá. De onde ela tirou a alegria que ela tava sentindo aquela hora?
– … — parei. Tenho certeza que estou esquecendo alguma coisa.
– Ei. — ela levantou a mão e me mostrou que o iPod e os headphones estavam com ela. — Eu peguei pra você…
– Velho, tu tá parecendo minha esposa. Para com isso. — pedi, tomando-os da mão dela.
…
Hora do almoço. Saraya não saía do meu lado, acho que ela tava me amando.
– Ideia idiota — pensei alto.
– Que ideia? — perguntou ela, Saraya, enquanto íamos até o refeitório. A comida de lá era de primeira, os ETs realmente sabem cozinhar.
– Hã, eu tô sem dinh-
– Eu sei. Eu pago. — interrompi-a.
– ...obrigada. — às vezes ouvir um agradecimento de uma garota tímida me deixa tão bem…
Sentei-me na mesa e esperamos que fôssemos atendidos. Porque os outros estavam nos encarando?
– Eles estão…? — ouvi Dan perguntar pra Konayama.
“NÃO, NÃO ESTAMOS!”, quis responder gritando.
– Nah, nem estão. Eu também pensava que estavam. — respondeu Konayama, de braços cruzados. “Ufa”, suspirei.
O Eleventy tava falando mais com a gente. Ele tava se soltando, respondendo perguntas. O que já era um começo, na minha humilde opinião.
Acabamos o almoço e fomos pra última aula. Era aula de educação física. Educação física… por isso que estavam dando só salada no almoço. A professora era uma mulher rígida, forte, mais musculosa que muita gente por aí.
– Hoje vamos descobrir suas características físicas predominantes! — berrou. Tivemos que formar fila indiana. — Vai ser uma coisa muito simples. Estes senhores — apontou pra um grupo de pessoas que pareciam ser treinadores — vão descobrir isso à força.
Foi realizado uma espécie de sorteio, onde ficaríamos frente a frente aos nossos treinadores.O cara que me foi sorteado ficava com um sorrisinho extremamente cínico e falso.
– VAI! — berrou aquela professora.
– Vai o que? — entendia nada.
– Muito lerdo! — como aquele cara já tava na minha frente querendo me dar um soco?!
Não iria conseguir desviar. Melhor tomar o soco e ir pra enfermaria. Foi tão rápido que nem deu tempo de fechar os olhos.
CRCK.
A mão dele me acertou, mas eu nem voei. Acho que morri. Pela terceira vez.
– Quê? — soltei, sem entender absolutamente nada. Eu tava vivo pelo menos, mas todo mundo parou pra olhar pra mim, inclusive a professora marombeira.
– O quê que é isso? — ouvi. Tá, o cara não vai tirar a mão da minha cara não?
– Ei, tu já pode tirar o punho do meu rosto — pedi.
– Eu não tô… conseguindo… — disse enquanto tentava se afastar de mim.
“Não tá cons-” BOOM.
Uma explosão. Uma onda de choque acertou todos, derrubando-os e expulsando o contato do treinador comigo, fazendo-o voar até bater na parede.
E lá estava eu, no meio de um ginásio, o único de pé, com todos olhando pra mim enquanto estavam caídos no chão. Eu só queria saber o que porras estava acontecendo.
– Hã… — balbuciei.
Vi a professora se levantar antes que todos fizessem isso. Lembrei do cara que foi me socar e que fiz voar longe e fui ajudá-lo.
– Ei, tu tá legal? — perguntei com certa preocupação, estendendo a mão pra ajudá-lo a se levantar.
– Tô bem. — disse.
– Ok…
– EI, PENSA RÁPIDO! — fui ver o que era, mas a última coisa que lembro dessa hora foi ver uma bola de baseball vindo na direção da minha cabeça em uma velocidade super rápida e minha mão pegando ela involutariamente. Tipo, eu não mandei meu braço pegar a bola, foi reflexo do próprio corpo.
– … — todos olhavam pra mim. Eu estava literalmente sem palavras.
Alguns momentos de silêncio. Todos de pé, e eu com uma bola de baseball na mão, que foi deformada pela velocidade em que ela pôs quando jogou-a.
– ...agora eu tenho certeza. Você… — disse de rosto abaixado.
“Eu…”, pensei. Cara, só podia dar merda. Vou ser expulso.
– …é o Jeat. — ela me encarou. Quem é Jeat?
– Sou o quê? — perguntei.
– Você é uma essência. Jeat, um homem que já foi muito poderoso na galáxia… mas sumiu. É bom te ver de novo.
– Cara, que coisa ridícula. — dei uma de babaca. — Você tá me dizendo que eu sou alguma coisa superpoderosa e eu nem sabia disso? Tu tá me tirando? — eu fiquei puto.
– Ele tinha uma característica única, só dele. — continuou. — O olho cor de sangue.
– Tá, acontece que os meus são pretos. — retruquei.
– Ah é? Vá ali no banheiro e veja se eles são pretos. — desafiou.
– Ok… — ela vai ver só. Vou até tirar foto.
Entrei no banheiro e fui no espelho.
…
– ...não… não… não… não pode ser cara… — murmurei, chocado com meu próprio reflexo. — Que merda é essa… — passei a mão nos meus cabelos. Eles eram pretos… como meus olhos… — porque… isso é surreal demais pra realmente estar acontecendo...
Tive medo de voltar. O que diriam…peraí. Desde quando me importo com a opinião dos outros? Fiquei algum tempo analisando-me na frente do espelho.
Resolvi sair. Abri a porta e todos estavam lá, esperando algo grande. Acho que, se esperavam algo grande, vão ver algo grande.
Todos olhavam pra mim, espantados. Eu parecia ser outra pessoa.
...Será que eu era?
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